Sou água, chuva, e quando esteio, deixo as marcas do bem, das terras que pintei de verde, dos frutos paridos sob o meu líquido, dos rios de beiços molhados que perenizarão os mares. Gotejo no início para me transformar, aos poucos, em transbordo, em água muita, para lavar sonhos e enxaguar mágoas. Fui nada, nuvem, neblinei, sou chuva. Para alegria de quem quer fartura, para quem tem filho pra dar de beber. Pra lavar, pra lavrar, pra beber, pra molhar e pra aguar a flor. Pra tudo isso sou chuva. Deixem-me chover.
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Minha mãe, extremamente católica por tradição familiar e por crença própria, colocou Francisco como meu nome, em homenagem ao Santo de Assis, a quem, no futuro, adotei como protetor. Achou pouco e convocou outro Santo para ser meu Padrinho (naquele tempo havia isso de ter um Santo Padrinho): José. Assim, enquanto criança, me chamavam pelo nome completo. Francisco José, de Myrthinha. Com o passar do tempo o vocativo foi abreviado para Francisco e logo depois, mais prático ainda, para Xico, como sou tratado nos dias atuais. Quantas consoantes e vocais foram gastas no passado, sem necessidade, quando me chamavam de Francisco José. Assumi tanto e com o maior prazer o Xico que, se ao passar numa rua alguém gritar Francisco José ou simplesmente Francisco certamente nem olharei, pois entenderei tratar-se de alguém a chamar um outro alguém que não eu. Mas nenhum vocativo me apraz mais que o que ouço nesses dias atuais: nem Francisco José, nem Francisco, nem Xico. Adoro quando ouço gente importantíssima, de olhar doce e infantil, olhar para mim e me chamar de Vovô.
Primeiro, chegou Bernardo Vinicius veio depois Agora vem Leonardo, Vai ser três o que era dois, Vai caber tudo no peito De um cabra satisfeito Eu, Bezerro, eles meus bois
Eu e minha mania de guardar e consertar coisas velhas. Ontem mesmo recuperei um tênis antigo, por causa de uma pequena falha em sua lateral. Ficou novo e pronto para o novo uso. Minhas prateleiras estão sempre cheias de coisas remendadas. Mas só remendo aquilo que vale a pena remendar. Outras coisas vão para o lixo por não merecerem qualquer reparo … São como as feridas ao longo da vida: há as que cicatrizam pelo cuidado que tivemos em tratá-las e as que permanecem feridas pelo resto do tempo. E há aquilo que de tão remendado já não se presta para o uso. Uma vez tentei remendar um sonho e o resultado não foi bom: ele deixou de ser sonho e se transformou numa saudade que inda hoje incomoda o que dele restou.
O Poeta Lau Siqueira, lá da Paraiba, declarou que ‘tomou a primeira dose e pediu mais uma. Toda de branco, impecável, a garçonete disse que a próxima dose somente seria servida em 28 dias.’ O ‘boteco’, em tempos do politicamente correto, lhe sugerindo moderação.
2. Felice ma non molto
Depois de termos sido infectados, em julho 2020, eu e D Dulce tomamos, quarta, 24, a 1a. dose da vacina. Confiamos em Deus estarmos agora definitivamente protegidos do impiedoso vírus. Como diz Elza Soares, doeu! Um pouco na carne, muito mais no peito. E ainda dói, ao lembrar dos que não tiveram a chance da vacina e se foram. Por isso, confesso: estou feliz, mas não posso ou devo comemorar: seria injusto, desumano até. Um desrespeito a dor das famílias que sonharam com esta vacina, mas que viram o tempo e o vírus serem mais rápidos e cruéis. Que Deus proteja este País e seu Povo, espantando todos os males, os tempos cinzentos e os desgovernos que tanto nos atormentam e afligem. Vade retro, malditos vírus. Vacina para todos. Viva a Ciência.
3. Justice be done
Seria injusto deixar de elogiar o trabalho da equipe de Vacinação que nos atendeu no Clube do SESC, Jaboatão. Gentis, pontuais e prestativos, pareciam, todos, habitantes do primeiro mundo. Parabéns e obrigado a todos!
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Todo dia, a viagem de um amigo. Quantas perdas em tão pouco tempo. Maldito vírus. Tenho a impressão que o Céu está cada vez melhor pela qualidade de gente que tem partido lá pra cima … Haverá pandemia por lá? Haverá desgoverno por lá? Serão tão cinzentos e desesperançosos os ares de lá? A tristeza abriu a porta do meu peito e, aos poucos, se abancou em minha cadeira de balanço, onde eu sonhava, quando meu sonho ainda não era pesadelo. Até quando? Já perguntei e ninguém soube responder. ‘Aceite meus sentimentos’, de tanto ser dita, está banalizada. A frase, claro, não o sentimento. Este, de tristeza e saudade, permanece vivo e presente, a cada partida, a cada viagem só de Ida, a cada lágrima que se derrama e que teima em não se enxugar. Aceitem meus sentimentos sinceros pelos seus que já não estão entre nós.
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sob a mira de uma máquina de escrever, o tambor das letras gira à procura do alvo gramatical: a meta é a palavra fácil, a rima perfeita e não perdida, nunca a bala, a bala errada. não a de hortelã. puxa-se o gatilho da frase e todo o parágrafo se esvai, num chão palavreado. Ali jaz a frase. Às vezes, de uma palavra só: Paz. Bem que eu sempre quis apenas um porte de alma pra todos nós … um livro, um violão, um poema. uma arma, jamais.
O assovio do vento anuncia a água que está por chegar, aumentando a esperança do povo daquele sertão. Ainda tímidas, espalham-se no céu nuvens de chuva tímida, de neblina preguiçosa. O mato espera fazer-se verde, e faz tempo, aguardaaquela visita tão desejada e rara. O chão, encalombado de tão seco, também confia no bendito líquido para voltar a ser terra. O homem pobre, encarregado de criar os bruguelos postos na vida, ora cada vez mais, joelhos ralados de tanta oração, promessas tantas acertadas com o povo do céu. Poderia um dia pagá-las, tantas que foram feitas? Mas o Pedro lá de cima, dono das chaves e torneiras celestiais, resolveu abri-las e derramar a chuva tanta que sobrou, ocupando barreiros e açudes, e enchendo de alegria, sobremaneira, o coração daquele povo sofrido e que só pedia água. Ela está ali, límpida e limpa, inodora e incolor, saciando sedes, matando vontades tantas vezes não supridas. A chuva veio. Com ela, a festa. Por quanto tempo ficará por ali?
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Infinito-me em divagações percebendo nas ruas vazias de gente a esperança pedindo passagem, sonhando com uma seringa, desejando uma vacina. Os crápulas fingem não ouvir e continuam sua saga do mal, rindo da miséria alheia, provocando aglomeração sem máscara. Fingidores. Não o fingidor poeta, aquele de Pessoa, que, em nome da Poesia e do bem, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Muito ao contrário, usam a máscara do fingidor que finge não perceber o sofrimento do semelhante. Até quando? O passado já passou e o futuro não existe, nos ensinava o sábio Francisco Brennand. Resta-nos, pois, este hoje que temos, esse tempo triste, cruel e desolador. Pergunto de novo: até quando? Somos coniventes ao permitir o inferno.
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À Ciência falta descobrir a vacina contra a dor da solidão. Acho que os cientistas não sofrem desse mal ou, por não lhes sobrar tempo e preocupados com a cura de outras mazelas, não se importam com o amor, com o namoro, com a paixão. Em seus laboratórios, tão limpos e assépticos, entre tubos de ensaio e microscópios, não há espaço para experiências com afetos, beijos e abraços. Por isso, respeito a alma simples do borracheiro, em seu ambiente de trabalho sujo e sebento, que a cada cusparada na válvula da capsulana verifica o ar de um pneu. A ele, basta a vida e seu ofício para abastecer-se de esperança pela cura da melancolia, da saudade e da dor da solidão, vírus piores que qualquer outro. Sobra-lhe ar, a ele e ao seu equipamento precário e débil. Ao final, ele é mais feliz que o dono do banco. Esta semana o rico banqueiro do Amazonas não resistiu à falta de ar. Ao borracheiro, sobra-lhe esse artefato tão valioso.
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No meio do caminho de minha casa até a Vila União, chão de terra batida que percorria a cada domingo, pela manhã, havia a pequena capelinha de Santa Luzia, sempre de portas fechadas, mesmo domingo sendo. Nunca entendi porque fechadas, sempre, mas assim era. A parada era obrigatória na minha rotina dominical para rezar uma Ave-Maria em intenção àquela Santa, protetora da visão, agradecendo a dádiva do ver, o dom do enxergar, a graça do olhar. Ficava a imaginar o quão triste devia ser não vislumbrar o degrau entre o chão e a calçada da capela ou a espessura daquela porta sempre cerrada ou, ainda, a desventura do não poder se deleitar com o futebol daqueles meninos magros, pés descalços, camisas rotas, a correr atrás de uma bola gasta no campinho de areia fofa que ficava bem atrás da capelinha. Em minha inocente prece pedia que Santa Luzia olhasse por aqueles meninos franzinos e por todos nós, privilegiados, olhos atentos ao belo, corações sensíveis à fé.
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