XICO COM X, BIZERRA COM I

SILÊNCIOS E BARULHOS

Para onde vão nossos silêncios quando calamos nosso sentir? Acho que se arraigam em nosso peito e se escondem nos vazios da alma até que alguém os descubra, antes que virem pesadelos. E então descobertos, eles tagarelam com toda a zoada que o silêncio liberto pode permitir. É quando os sentimentos se mostram presentes para iluminar, colorir e perfumar nossa vida, tornando-a um poço de possibilidades alvissareiras em que o barulho silencioso de um abraço torna-se tão envolvente quanto o silêncio ensurdecedor de um reencontro desejado. É quando silêncios e barulhos se desimportam e se confundem ante a importância das zoadas e calares do todo ao redor, da pequenina e distante estrela à imensidão de um mar próximo.

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O BESOURO E O CASAL DE MARIBONDOS

Na antena esquerda da borboleta amarela, no quadro dependurado na varanda do primeiro andar da casa de Gravatá, mora um besouro pequenino. Ali, ele achou de fazer sua minúscula casinha. Lá está ele, feliz, apesar de solitário. Tempos atrás, ao lado, fez-lhe companhia, certamente por inveja de tão privilegiado lar, um casal de maribondos, tão pacíficos quanto seu vizinho. Nunca nenhum deles aperreou o plácido besourinho, companheiro da paz e inimigo dos malfazeres. Foi respeitado o seu direito de viver em Paz. Tudo acumpliciado pelo olhar terno de minha Pata-de-Elefante. E assim viveram, besouro e maribondos, estranhos ao que acontecia fora de seus mundos tão diferentes e iguais, saboreando profanos mistérios e absorvendo sagradas descobertas de respeito mútuo entre eles, com mais raciocínio e inteligência que nós, humanos, doidos por uma briguinha, loucos por uma guerra. Acho que São Francisco de Assis, que me protege e a minha casa vela, é o responsável por esse clima de união. Certamente o Santo Chico, o Santo dos bichos, também é protetor de besouros e maribondos. Eles, o Santo, minha Pata-de-Elefante, o besouro e os maribondos, nos ensinam que a Paz é possível.

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POUSADA DA ESPERANÇA

Nesses tempos de Pandemia e seguindo o sábio conselho do Poeta Maciel Melo deixei hospedar-se em minha pousada interior, além da Poesia, a Esperança de dias melhores. Para ela reservei o melhor cômodo, a melhor cama e a flor mais cheirosa. Deixei uma penteadeira sortida à sua disposição e uma quartinha de água bem friinha, do tanto que ela merece, além de uma imagem bonita do meu santo protetor, São Francisco de Assis. Não tem desculpa. Se à minha Poesia essa esperança não se aliar e prosperar de vera, se a vacina não chegar, se os homens do Planalto continuarem insensatos e donos da verdade aí, de vez, entrego os pontos. Não dá mais para segurar. O coração ‘tá pra explodir, de angústia e tristeza. Mas meu santo Chico é muito competente e dona Esperança até hoje não falhou. Tardou, às vezes, mas falhar, nunca! E não vai ser agora.

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APRENDER A VOAR

Sou vizinho do sonho. Vez por outra tropeço num Pessoa esquecido no vão da escada, abraçado com um Drumond meio amarelado pelo tempo. No mais recôndito esconderijo do ouvido me ternuro, quando em vez, com um verso solto de Vinícius, um refrão bonito cantado pelos Beatles ou um bolero de Aldir. Não com dificuldade descubro um grilo trocando ideias com uma rã sobre Manoel de Barros. Que bom que encontremos tantas boas coisas espalhadas nos arquivos da memória, nas prateleiras afetivas da saudade, no armazém das maravilhas. Prefiro assim a mandar minhas boas lembranças morar nas nuvens, como fazem os jovens de hoje, que desconhecem os Pessoas, os Vinícius e os Lennons e só conhecem, com intimidade excessiva, os HDs e pendrives da era pós Anita, coisas que minha alma não alcança. No meu país de sonhos ainda não me ensinaram a chegar nas nuvens da tecnologia. Ainda bem. Não me interessa aprender a voar. Isto é para os pássaros. Ou os anjos. Não sou uma coisa nem, muito menos, a outra.

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VACA PRETINHA

O menino tinha sua vaquinha de estimação, numa distante Arapiraca, em meio à plantação de fumo. O leite branquinho de Pretinha, seus chifres afiados e sua bosta cheirosa fazem parte de um passado que teima em não passar, de tão bom que foi. A farinha ficou sem gosto ao não mais misturar-se ao leite de Pretinha. Restou muita saudade depois que ela partiu, enterrada como gente, com todas as honras merecidas, pelo bem que fez, pelas coalhadas ao fim da tarde. Faltou-lhe a cruz, no quintal em que ela foi repousar eternamente. Menos por desmerecimento, mas muito mais pelo receio de que viesse o menino a ser punido pelos Deuses, se julgassem o ato uma heresia e, por castigo, não permitisse que outras Pretinhas viessem a ocupar o lugar daquela que se foi. E levou consigo seu leite branquinho. (Crônica dedicada a Valdir Oliveira).

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ARQUIVOS DA DOR

No meu NoteBook eu nunca deixo para amanhã o que posso deixar pra lá. Não vale a pena salvar e ocupar memória com coisas que não agregam, que nada acrescentam à vida. Para que ficar remoendo as mágoas, as dores, os ressentimentos, as desalegrias e os desgostos se posso deles me livrar? Prefiro ocupar o HD de minha memória afetiva com o que de bom vivi. E assim configurei meu coração e criei uma senha secreta que só ela e eu temos acesso. Arquivos da dor, deleto-os todos. Mando-os à lixeira. Prefiro acessar os programas de alegria e gargalhar no site das coisas boas. Sob o domínio dela, sonho forró e danço xote cheirando o seu cangote. E minha senha secreta não conto pra ninguém (só a ela contei). Ao resto do mundo, apenas digo que começa com Paz e termina com Amor. Impossível deletá-la, pois.

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ADEUS, ANO VELHO. HÁ DEUS, ANO NOVO

Cantemos as lindezas todas, deixando no lixo as impurezas da maldade e o mau cheiro do que não serve para o bem. E em cada luz que encontremos em nossa ‘buscação’ saibamos ser grandes para dividi-la com os que não a tem. Que sejamos sábios para repartir o bem maior que existe entre os homens: o AMOR. Que se achegue o 2021 e que ele seja bom pra nós todos. Menos medonho que 2020, com todos esses coisos e vírus que estiveram soltos por aí. Que O NOVO ANO venha e chegue logo. Pode se avexar que eu ‘tô de braços abertos aguardando sua chegada, com um balaio de esperança e fé de que dias melhores virão e que virá um bom tempo. Venha! Precisa nem bater na porta, é só chegar, entrar e se abancar. ‘Tô lhe esperando com roupa branca de Paz e sorriso de ‘urêia a urêia’. Que venha contigo a cura que o mundo precisa e que os anjos aproveitem a viagem e sejam portadores da Paz que tantos necessitam e da sabedoria que a alguns falta. Abração para todos que bebem esperança e respiram alegrias.

LUZ!

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…NATAL MATUTO

Nos galhos perto do chão
Vou pendurar mil carinhos
Pra iluminar os caminhos
Do povo do meu sertão
Acima, ao alcance da mão
Mais um verso especial
Sem nada artificial
Ao lixo, a hipocrisia
As luzes da poesia
Vão acender meu natal.

Aos que de mim gostam, FELIZ NATAL;
Aos que não gostam, FELIZ NATAL, também.

* * *

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DE LÁ PRA CÁ É MAIS PERTO

São Paulo é bem ali, logo depois da curva da esperança, bem ‘pertin’ da esquina da felicidade. E o povo acreditava. Juntava os picuás, se atrepava no lombo de um pau de arara ou, os menos desfavorecidos, numa cadeira dura da Itapemerim e, abraçando a saudade, dava adeus aos que que ficavam. No matulão, um cacho maduro carregado de sonhos ‘de vez’. Muitos iam, poucos vinham. Mais valia carregar tijolo numa obra ou ser garçom no Bexiga que perambular no sertão sem nada o que fazer, com pouco o que comer, sem chuva pra dizer benza Deus! Era quando se ouviam, entre lágrimas, vários bença-mãe, bença-pai. Num tempo em que não havia o ZAP as conversas demoravam 15, 30 dias para chegar, num envelope com as bordas verde e amarela, cartas repletas de choro e saudade, dos cheiros, das comidas, das pessoas e até do sol inclemente, mas melhor que o frio sem cobertor das noites amargas paulistanas. Nada como uma Itapemerim em sentido inverso, um pau de arara de lá pra cá. Esse caminho de volta é mais perto que o de ida. Assim como os bença-mãe, bença-pai da volta são bem mais felizes que os da ida. As alegrias ou tristezas fazem ficar mais perto ou mais longe todas as distâncias.

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UM DIA HOUVE FUTEBOL

Vi ontem um jogo na TV e amanheci saudoso. Sou do tempo de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Vi-os jogar. Assim como vi o brilhantismo de um Botafogo dos anos 60/70, com Garrincha e Didi, Paulo César e Jairzinho, além de Manga e Quarentinha. Vi os Santos Djalma e Nilton, o Santos Neves a quem chamavam de Gilmar. Quem viveu Rivelino, Gerson, Ademir da Guia, Dirceu Lopes e Zico tem justificada saudade. Por essas bandas de cá existiam os Chiquinhos, Juninhos, Ramons, Lucianos, Givanildos, Leonardos … Isso tudo sem falar em Nado, Bita, Nino, Ivan e Lala. Tudo tão diferente dos Camutangas, Brocadores e Piticos hoje idolatrados. Sou do tempo das chuteiras pretas, que emolduravam a arte dos virtuosos e das bolas sem cor, que não maquiavam os pernas de pau. Sou do tempo em que havia futebol e a bola se entregava, sôfrega e docemente, aos pés (e à mão) de Diego Maradona, o mais humano dos Deuses na visão de Eduardo Galeano. Acho o hoje muito estranho e sinto saudades. Talvez por que eu seja do tempo em que existia futebol.

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