XICO COM X, BIZERRA COM I

ESQUARTEJAMENTO URBANO

Do tanto que chovia, o dia parecia noite, a manhã da cor do entardecer. Onde se escondia o sol que, preguiçoso, sequer avisou que não viria? Devia estar atrás de uma montanha alta e distante, descansando para os outros porvires que surgirão. A cidade, afogada em tantas poças d’água, nadava nos alagamentos que impediam o povo de chegar a alguns lugares. Barcos não havia. Locomoção, só a nado. Uma barreira cai e destrói uma família inteira. Deslizamentos afligem o povo. Os canais enchem, transbordam e espalham lixo. Quase uma Covid. E os Vereadores, subservientes e em irresponsável procedimento, se reúnem para dar nomes de suas gentes às vias que já tem nomes. Prevalecem suas conveniências políticas e interesses partidários. Esquartejam ruas e avenidas para ter mais gente a bajular, dando-lhes nomes nos vários pedaços em que se transformarão. Para isso foram eleitos? Para o simples ‘prazer’ da bajulação? Será que fazem por merecer os votos que tiveram?

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CORAÇÃO VERMELHO E DOIDO

Se for manhã, deixe-me ficar lençol, abraçado a fronhas e travesseiros cor do mar. Ao meio-dia, serei apenas o cheiro de um baião-de-dois distante colorido por um pequi bem amarelinho. De tardezinha, me tornarei opaco e nem sequer verei o pôr do sol. Na boca da noite, viro céu azulado e enluarado cortejando estrelas e me escondendo nas nuvens brancas. Em noite alta, aí sim, serei eu a te espreitar, tez ardente, coração vermelho e doido. E assim, madrugada adentro, ficarei absorto até que a janela fechada deixe passar pela mais tênue fresta a larga luz do teu sorriso da cor do amor, não permitindo que eu me faça incolor.

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NOITES DE SONHOS BONS

As noites de sonhos bons passam rápido. Parece que o vexame do sol é maior que a passada calma da lua. E a água pura desce a cordilheira de estradas do Araripe, aguando a terra verde de nossas saudades sertãs, entre pequis maduros e seriguelas doces. A mulher, de sua janela, apenas olha e sorri. Valeu a pena, pensa ela, ouvindo ao fundo o cantar leve e solto de uma sabiá, sábia o tanto necessário para perceber que a felicidade passou por ali num dia de quase sol e de um céu arroxeado pela chegança de uma neblina que anuncia duradoura e consistente chuva. Da janela da velha casa, ela deve ter gostado do que viu. Ou quase. Dali a pouco, ouvir-se-á a Ave-Maria. Tudo sob um tempo bonito pra chover.

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DESCANSO FORÇADO DO SANFONEIRO

Está chegando o mês de Junho e o São João se anuncia. O tocador está sem tocar, a Sanfona está calada. O Sanfoneiro repousa, mas suas mãos recusam o descanso e brincam acariciando o instrumento há tanto tempo parado. As teclas parecem entender esse reencontro e respondem ao carinho recebido da mão direita. A outra, a esquerda, ternurando a baixaria, igualmente cede ao afeto e passeia sobre os botões. Enfim, dedos liberados, encontram-se as mãos num arrasta-pé bem São João, do jeito que deve ser. E se não houvesse a música? E se não houvesse a sanfona? Que seria do baião? Viva a Festa, e Salve o Sanfoneiro, dono das mãos que tocam e afagam o coração e a alma do povo que aprecia o que é bom. ‘Seu’ Luiz, lá de cima, ao lado do ‘Nenén’ Domingos e do Mestre Sivuca, agradece e olha pelos que abraçam o acordeon junto ao peito para que a emoção, em nome da Poesia, se misture à alegria do povo. Outros São Joões virão e a gente vai voltar a ‘olhar pro céu’ e ver como ele está lindo.

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OBSCENOS ATOS DE UM TRAGICÔMICO BRASIL

Na sala de estar, avó e neto em frente à TV, acompanham uma reunião de Senadores, onde seus membros, do ‘Alto’ e ‘Baixo’ clero, reputação ilibadíssima – abaixo do nível do mar, ambos, se engalfinham numa elegante e respeitosa discussão repleta de amabilidades:

– Conceda-me um aparte. Vossa Excia. é um Ladrão!

– Não lhe concedo o aparte. Exijo a presunção de inocência. Ladrão é Vossa Excia.!

– Com todo o respeito, Vossa Excia. é um Corrupto!

– Data vênia, Corrupto é Vossa Excia.! Fui julgado apenas em duas instâncias colegiadas. Minha corrupção não tem trânsito em julgado.

Propõe a Avó:

– Menino, melhor desligar essa TV. A discussão é inócua. As duas Excelências estão com cobertos de razão. Ambos falam a verdade: são corruptos e ladrões.

Num canto da tela, outros engravatados (colarinhos brancos eivados de escuras manchas), sem prestar atenção aos ‘elogios’ entre colegas, celulares nos ouvidos, conversam ao celular e riem entre si.

– O homem está falando e ninguém presta atenção, vovó. Riem de quem, dos brigões?

– Não, meu querido. Riem de nós que os colocamos lá. Sorriem do povo.

Trocam de canal e assistem a uma sessão de um Tribunal que se diz Supremo, cujos integrantes exigem tratamento de Excelência mas agem de forma a não merecê-lo. A população, verdadeira Excelência, vive a ser por eles insultada. Sob negras togas, mudam o entendimento sobre o mesmo assunto diversas vezes num espaço de tempo diminuto, contrariando o bom senso e todas as regras do Direito, expondo o povo à insegurança jurídica que a eles, ‘donos da Lei’, convém.

Enojados, após irem ao banheiro para uma sessão de vômito em dueto, avó e neto desligam a TV, dão-se as mãos e vão até a banca de jornal mais próxima. Compram uma revistinha imoral, de putaria explícita. Quase tanto quanto. Quase.

Fecha-se a cortina, apagam-se as luzes. Faz-se breu no País. Escuridão total.

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SORRISOS E ADEUSES

A fé haverá sempre de existir. Por mais longe que a gente imagine que ela esteja. Esse renovar de esperança, que é irmã gêmea do sol e da lua, é o que a alma reclama para o seguir adiante. Amigos, amores, prazeres e sorrisos serão confirmados. Ou não. Saudades, adeuses e outras dores serão confirmadas. Ou não. Só o senhor tempo, com sua calma e sabedoria, poderá dizer. Importa estarmos preparados para o futuro que se avizinha e ir contando o tempo pelas luas que passeiam no céu e pelos ais das canções já cantadas e das que estão por cantar. Assim se conta o tempo dos Poetas. No mais, agradecer aos Deuses pela luz e deixar que as sombras do que não presta sejam apenas sombras. Que venha o tempo novo e que só traga bons olhados para que os sonhos bons descansem, após realizados.

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A PALAVRA E O AMOR

Escrever, para mim, é um ato de amor. Pouco importa se poesia ou prosa, interessa mesmo é o gesto da escrita. É a troca de carícias entre o texto e o autor, o lápis e o papel, o cuidado de um com o outro, a simbiose perfeita entre o prazer e o querer bem. Papel e lápis à mão, rabiscos preliminares antecedem parágrafos ou versos eretos com todas as estrofes molhadas, num gozo pleno de sílabas e palavras, um orgasmo poético, luxúria lasciva das letras. E assim faz-se o tempo, consuma-se o prazer, traduz -se o amor e a paz é apenas uma consequência. Simples, como tudo que tem por origem a inspiração e por finalidade o fazer-se feliz, a si e aos outros Que nem a palavra. Que nem o amor.

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NOITES E AURORAS

Toda noite teve e terá auroras. Assim já disse Castro Alves. E quem sou eu para discordar da imensidão desse Poeta? Por mais trevas que tenha a noite, por mais negrume que a envolva, seu fim será anunciado pela chegada da aurora do dia seguinte, assim como foi a aurora a precursora da noite que vem chegando. E entre uma aurora e outra, tanto coisa se sucede, tantos fatos ilustram o dia que as separa. Coisas boas e outras nem tanto. Alegrias e tristezas, risos e choros, luzes e escuridão. E assim será até quando não mais existirem as auroras. Nem as noites. Nem os dias.

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AFEPLACON

Minha Assessoria para Assuntos de Felicidade Plena e Alegrias Constantes – AFEPLACON, comandada por Bernardo Bezerra há quase 8 anos, e coadjuvada pelo jovem Vinícius, a partir de Junho de 2020, recebeu hoje, dia 29.04.21, 13 hora e 11 minutos, o reforço de seu mais novo integrante, o jovem LEONARDO, cujo curriculum registra suas qualidades naturais, entre as quais destacamos: 51,0 cm de saúde e 3,405 quilos de boniteza. Estagiou durante 9 meses no bucho de minha filha Mariana e recebeu monitoramento, influências e orientações de Clécio, seu pai, meu genro. Por aqui, eu e Dona Dulce, temos certeza que o novo integrante da XI-DUL-AMOR vai se adaptar muito bem às suas novas atividades, já sabendo que sua presença junto à nós é motivo de muito regozijo. Temos certeza que, por seu desempenho e pelas avaliações de mérito de nosso Estatuto de Carinhos e Afagos, rapidamente e de forma consistente, ele ascenderá aos mais altos escalões da organização do bem querer familiar em que ora ingressa. Seja bem-vindo, bem acolhido e bem-aceito, Léo. Obrigado por chegar.

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ESPERANDO LÉO

Abril já se acabando
Maio dizendo: – vou já
e o bucho de Mariana
cresce, cresce sem parar
‘Garrinchina’ peladeiro
dribla e chuta o dia inteiro
não se cansa de chutar

Aqui do lado de fora
Sorrisos de canto a canto
Só avós, existem quatro
tios, tias, outro tanto
esperando o novo bardo
sede bem-vindo, Leonardo
vem mostrar-nos teu encanto

Mas quem fica mais feliz
é o seu mano Bernardo
Vinicius, também na espera
com um sorriso estampado
mesmo com tempos cinzentos,
genocidas, excrementos,
espero, abraço guardado

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