XICO COM X, BIZERRA COM I

DONA LUA

Sobre a cidade fria e dura, muito cimento, muito concreto. Dona Lua se achega, devagarinho, brilhando soberana e altaneira, vigiando a tarde que se vai e abraçando, com a ternura que lhe é própria, a noite que se anuncia. Logo, logo ela vai se impor e clarear com sua luz intensa o escuro que domina a paisagem em meio a nuvens fugidias, acompanhantes da estrela sol que, sorrateira e lentamente, ruma ‘amontado’ num arrebol para o seu descanso após doze horas de reinado. Naquele desencontro de lua e sol, todos participam da festa: nuvens, céu, outras estrelas e satélites distantes … Com o seu chegar branco e brilhante começa a função diária da lua de embelezar o mundo, de encantar as pessoas, de fornecer sustança a corações apaixonados. Os violões e seus donos não resistem à tentação, se inspiram e fazem-lhe companhia até sua despedida, algumas horas depois. Poetas nela enxergam motivação para versos e, inspirados, fazem com que poemas surjam, sonetos de amor se espalhem por todos os lados. Respira-se afetividade. Dia seguinte, mesma hora, ela estará de volta e o mundo ficará outra vez mais belo, as pessoas mais apaixonadas e os violões mais plangentes e encantadores. Também para isto Dona Lua existe.

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TEATRO VAZIO PARA UMA DAMA QUE SE FOI

Vivia do amor desde a adolescência distante no interior bem interior. Até que uma ‘bondosa’ alma levou a menina esbelta para uma cidade maior, dando-lhe abrigo e um lugar, a que chamava de quarto, onde guardava suas poucas coisas e recebia a ‘clientela’ para o exercício de seu ofício tão cheio de desesperada sofreguidão. Vendia amor. E assim foi sua vida: carinhos falsos recebidos e reciprocados em proporção maior, na maior parte das vezes. Fingir era preciso. Poeticamente, fingia. E fingia tão bem fingido que chegava a pensar que era amor o amor nunca sentido. Pessoa que lhe conceda perdão. Muito mais que a paga final, agradava-lhe a eventual palavra de alguns homens, afiada e cortante como faca, mas verdadeira e real como a vida. Tinha plena ciência de que, logo, logo, a cortina se fecharia. Definitivamente. Sem aplausos. Sem luz. Será quando restarão apenas as palavras que lhe foram presenteados na última noite, fria, sem gozo. O derradeiro ato estará encerrado e a vida daquela mulher, então não mais esbelta, será transportada para outro plano. Talvez menos glamoroso, certamente menos sofrido.

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UMA QUASE ODE ÀS TRAÇAS

Passo a passo a traça passa
Sem ter pressa no passar
Penso e peço não se impeça
Dar-se à traça o seu traçar
Torço e rezo com meu terço:
Que não possa esse apreço
Verso e prosa destroçar

A traça abandona seu casulo e habita minha estante. E é lá que ela traça tudo que é troço que tenha letras. Livros, nenhum escapa, novelas ou contos. Os bons, traça-os. Os ruins, destroços que só à traça interessa, ela também os traça. Quando muito, sobra uma capa. Daquelas duras. Por vezes se empanturra com volumosos romances e tira gosto com pequeninos poemas, lancha kai-kais. Outras, apenas belisca crônicas breves, de pouco alfabeto, parecidas com as que teimo em escrever. A tudo devora, sem dó nem piedade. Não as inspeça: não adiantará. Surpresas há: um Saramago, restou quase intacto. Certamente não gostaram do cardápio português, do seu pouco tempero, sem quase nenhum condimento, ponto ou vírgula. Alguns, começavam pelo prólogo, como se antepasto fosse. Outros, como meu Manoel de Barros preferido e por mim tantas vezes lido e relido, foi devorado a partir da página 53, aleatoriamente, sem critério lógico nenhum. Ao fim, sobreviveu apenas o índice onomástico. Acho que em respeito às pessoas e bichos importantes ali contidos. Fico a perguntar-me: por quantos serão lidas minhas mal tecladas e traçadas ‘croniquetas’, extraídas com tanto esforço e paridas de meu sofrido e limitado intelecto? Ou servirão apenas de alimento suprindo a sanha avassaladora por ‘literatura’ desses bichinhos pequenos e vorazes, de instinto faminto e destruidor? Bicho mais ‘letrado’ que a traça não há. Até merecia uns versos, tivesse eu a certeza de que não seriam por ela traçados. Pior: mesmo que eu esconda minha biblioteca nas nuvens do Windows, não demora surgirá um hacker que, maldosamente, inventará traças cibernéticas, perigosas vilãs virtuais, devoradoras de bits que porão a perigo minhas pobres letrinhas.

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ESTRADA DO AÇUDE

A estrada velha que leva ao antigo açude ainda está no mesmo lugar, mais abandonada do que nunca. Poucos passam por ali. Resta, no local da água, um vazio seco e nenhum outro atrativo que o torne objeto de cobiça de alguém. Só os saudosistas, como eu, sentem vontade de andar na estradinha. Há os que moram à margem do que um dia foi açude. São vizinhos da dor, adjacentes do sol. Muitos anteontens e pouquíssimos amanhãs povoam a alma daquela gente. Meus pés conhecem bem o trajeto: quantas vezes por ali passaram, descalços, rumo a um banho restaurador, um abraço na natureza, um encontro com a Paz e os passarinhos. Um paraíso de bichos pequenos, grilos e rãs, cantos e sons cheios de ternura. Aquele caminho continua vivo em mim e tem o efeito de ser como as lembranças do que não houve, os carinhos não recebidos ou os desejos não concretizados. Ventos e luzes de pirilampos penetram nas rachaduras do chão seco e fazem cócegas nas frestas da saudade, iluminando o algo distante em que tanto pisei. Um passado que se torna um presente ante o incerto futuro.

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O PRANTO AZUL DAS VIOLETAS

Esta noite cismei de responder às perguntas de Pablo. E quando um dia eu descobrir a cor do perfume que exala do pranto azul das violetas, mandarei uma carta para ele dizendo-lhe da novidade, não sem antes agradecer àquelas flores o cheiro bom que me oferecem nas madrugadas insones. Sei que elas, a exemplo da esperança, são regadas com o mais puro orvalho das manhãs. E enquanto a resposta não vem, o céu, da mesma cor do pranto das violetas, reverenciará meu jardim, regando-o com igual intensidade das lágrimas que escorrem do meu rosto quando descubro a saudade. Chuva e lágrimas se misturam no horizonte distante que me carrega em sonhos até um infinito que um dia será meu. Depois do almoço tentarei descobrir de onde vem o sal do mar, se doces são todos os rios. Essas perguntas, e outras mais, atormentaram Pablo toda a vida. Mas continuo quebrando a cabeça para descobrir as respostas que nem o Poeta conseguiu descobrir. Se não as encontrar, deitar-me-ei na rede branquinha e vou fazer Palavras Cruzadas. Antes, beberei uma água friinha, recolhida da moringa de barro num canto da sala, depois de um doce pedaço de rapadura gerada nos engenhos do Crato. No mais, apenas observarei a flor voar de sabiá em sabiá, sendo feliz como a chuva que teima em chover toda a sua alegria…

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O CÉU E O INFERNO

Ir-se ao céu é muito bom. Ao inferno, nem tanto, mas necessário, às vezes: conhecendo o lado ruim, talvez aprendamos a valorizar, na medida exata, o lado bom, a entendermos opiniões divergentes das nossas. Amigos, tenho nos dois territórios. Mas também possuo o dom de compreendê-los e até perdoá-los. Tenho a plena consciência de que não devo tentar persuadi-los a mudar de lado: se do lado errado, lá estão por entenderem ser aquele o lado certo. Por assim ser, eles estão certos. E até digo: pode ser que o lado errado seja o meu, sei lá. Apenas fico triste ao constatar pessoas próximas e queridas, tidas como inteligentes e esclarecidas, defendendo o que para mim é indefensável. Lutam, a meu olhar, por causas nem um pouco nobres. Inocentes? Não sei. Sei que, quando o filho do meu neto um dia souber que eu nunca aceitei as práticas equivocadas de quem é contra o bem e a favor do mal, eu me sentirei recompensado por assim ter me posicionado, esteja onde estiver: no céu ou no inferno …

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AGENDA CHEIA

Meu amigo relaciona as tarefas do dia. São coisas que já faço há muito tempo. Mato o mato e rego a flor desde que o cão era menino. E olha que o cão já está na boa idade. Mas cumpro minha rotina diária falando sozinho e repetindo as sílabas difíceis da palavra felicidade. Seco as garrafas de dor e as encho de um verde-água que lembra a ausência. Mas a saudade é da boa e deixo que ela prevaleça sobre qualquer pensamento ruim. Vadio por estradas coloridas e converso com todos os besouros que encontro e, às vezes, brinco de roda com as borboletas preguiçosas que só pensam em voar. Elas querem me ensinar a arte do voo, mas tenho medo de altura e prefiro não arriscar. Um dia, talvez, aprenda e saia plainando por aí pelo alto do mundo. Terminadas as tarefas do dia, imitando o meu amigo, aprumo o corpo na rede vermelha e me embrulho com um lençol de cambraia branquinho e cheiroso para não permitir, de jeito nenhum, a fuga dos sonhos bons. Por via das dúvidas, aviso aos Deuses que moro aqui, logo depois da ladeira onde o sol inventa a luz. É longe, mas é bem ‘pertim’. A Paz nunca erra o endereço.

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O HOMEM QUE VENDIA ESTRELAS

Na esquina do Cine São Luiz, à beira da ponte, o homem vendia estrelas. Em seu mostruário – uma bacia do tamanho do céu – cabiam as grandes e as pequeninas, umas brilhantes, outras nem tanto. Cada estrela custava um sorriso. Homens de boa-fé compravam-nas. Por descrédito, ou interesses escusos, alguns desdenhavam da mercadoria e sequer percebiam o ofício de quem as vendia. Às mulheres, ele oferecia um par delas em troca de apenas um abraço. E de um sorriso, claro, por mais breve que fosse. A cada dia sua banca juntava mais gente em busca de estrelas luzentes. Um caminhante apressado nem ao menos ouviu a oferta e, passos rápidos, foi embora rumo ao Savoy, onde lhe esperavam 29 copos de chope, além do seu. Seus desejos presos foram malogrados: já não mais havia o Savoy. Estariam lá os milhares de sonhos frustrados, pensou. Voltou à esquina. Queria, agora, comprar estrelas. Tarde demais: nuvens escuras de tristeza escondia-as. Sumiram todas como também sumiram os cinemas Trianon, Art Palácio e Moderno. Também sumiu o vendedor. Como toda ilusão de cinema, o céu da esperança, cada vez mais nublado e despido de corpos celestes, estampou um melancólico The End na tela do firmamento.

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A BORBOLETA AZUL E AMARELA

Acordei triste e fui conversar com as folhas da mangueira no fundo do quintal. Elas riam e dançavam ao sabor do vento, felizes da vida, e me convenceram de que não valia a pena chorar. Pediram que eu olhasse o azul do céu e as cores de um arco-íris que enfeitava aquele azul claro. Daí a pouco uma chuvinha fina respingou água no meu rosto exatamente no lugar em que cabia uma lágrima. Deixei que escorresse livremente na face até que caísse no chão de areia branca povoada por formigas pequenas e trabalhadoras. Todas felizes, pareciam estar preparando uma festa, tão grande a alegria delas num vai-e-vem incessante e buliçoso. Uma borboleta azul e amarela pousou em minha mão, rodopiou, voou e voltou a pousar e disse-me chamar-se Alegria,mas que eu poderia, se assim preferisse, chamá-la de Esperança. Procurei-a para falar do meu dia e ela tinha partido. Voltou logo depois, feliz e sorridente e partiu novamente. Até hoje não sei para onde ela foi. Onde se esconde a borboleta azul e amarela? Por onde andará a alegria das dançarinas folhas da mangueira, das formigas felizes e trabalhadoras, da borboleta azul e amarela, em seu vai-e-vem rodopiante? Por quais céus voarão a alegria e a esperança?

(Nota deste Colunista: A BORBOLETA AZUL simboliza esperança e é vista como símbolo da transformação, da felicidade, da beleza. Expressa recomeço, proteção, boas energias. A BORBOLETA AMARELA significa alegria, prosperidade. Representa também renovação, anúncio de mudanças em nossa vida.)

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VAI PASSAR

Essa doidice vai passar. Não há pandemia que dure a vida inteira, nem vírus, por pior que seja, que resista à vacina do bem. E voltarão os abraços, os sorrisos represados, a alegria, a paz. E nós, como contribuímos nesse processo coletivo? Ajudando a divulgar a importância da Ciência ou disseminando teorias equivocadas do terraplanismo, da negação às verdades científicas, desdenhando das mais de 500.000 vidas ceifadas pela ‘gripezinha’? No futuro, não teremos oportunidade de construir nossa própria versão sobre o fato, como nossos avós faziam. E nossos netos dirão: “Vamos pesquisar aqui o que o vovô e a vovó publicaram ou compartilharam nas redes sociais durante a Pandemia”. Os registros que fizemos nas redes sociais mostrarão a eles de que lado estivemos. E aí, a conta vai chegar e o peso na consciência não será leve.

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