XICO COM X, BIZERRA COM I

Na esquina do Cine São Luiz, à beira da ponte, o homem vendia estrelas. Em seu mostruário – uma bacia do tamanho do céu – cabiam as grandes e as pequeninas, umas brilhantes, outras nem tanto. Cada estrela custava um sorriso. Homens de boa-fé compravam-nas. Por descrédito, ou interesses escusos, alguns desdenhavam da mercadoria e sequer percebiam o ofício de quem as vendia. Às mulheres, ele oferecia um par delas em troca de apenas um abraço. E de um sorriso, claro, por mais breve que fosse. A cada dia sua banca juntava mais gente em busca de estrelas luzentes. Um caminhante apressado nem ao menos ouviu a oferta e, passos rápidos, foi embora rumo ao Savoy, onde lhe esperavam 29 copos de chope, além do seu. Seus desejos presos foram malogrados: já não mais havia o Savoy. Estariam lá os milhares de sonhos frustrados, pensou. Voltou à esquina. Queria, agora, comprar estrelas. Tarde demais: nuvens escuras de tristeza escondia-as. Sumiram todas como também sumiram os cinemas Trianon, Art Palácio e Moderno. Também sumiu o vendedor. Como toda ilusão de cinema, o céu da esperança, cada vez mais nublado e despido de corpos celestes, estampou um melancólico The End na tela do firmamento.

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2 pensou em “O HOMEM QUE VENDIA ESTRELAS

  1. Que maravilha, mestre Xico.

    Quem sabe, se as mais reluzentes, permearam um caminho mágico até o Chão de Estrelas?

    Vai ver que o fascinante vendedor de sonhos, sequer notou que o Chão de Estrelas, já cadentes, havia se apagado bem antes do Savoy?

    Há quem diga que o prestidigitador, num passe de mágica, acendeu a estrela mais bonita lá de cima e ficou pra ele, para agraciar ao seu amor.

    Pra consolo, só restou o encanto e a atmosfera poética de uma bodega.

    Só assim notamos que os sonhos não foram, de todo, frustrados.

    Capiche?

    Valeu, Xico.

    Parabéns!

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