XICO COM X, BIZERRA COM I

PRIVILÉGIO ÚNICO, INALIENÁVEL, INTRANSFERÍVEL

Não conheci Manoel de Barros, nem nunca dei um abraço no Padre Cícero. Em compensação nasci no Crato e vim para o Recife ser cidadão pernambucano e assistir a beleza do Capibaribe passeando pela cidade e se ‘amancebando’ com o Beberibe para formar o Atlântico. Tenho muito menos que um milhão de amigos nas redes sociais e sequer tenho Instagram, mas desfruto da ventura de ver um bando de moça bonita dançando o Frevo no Pátio de São Pedro ou em frente à Igreja da Sé. Nunca fui parceiro de Sivuca e jamais agarrei um pênalti batido por Pelé porém tenho a sorte de abrir a janela de manhã cedo e ver o sol acariciando o mar, bem à minha frente. Meus discos venderam bem menos que os de Madonna, não sou influenciador digital e poucas pessoas leram meus livros. Por outro lado, tenho orgulho da valentia do meu povo quando visito o Monte Guararapes, aqui em Jaboatão. Nunca fui capa da VEJA nem da ISTO É e não conheço a Europa nem a Casa da CARAS. Em contrapartida saboreio, quando bem quero, a sombra dos altos coqueiros na praia de Boa Viagem e limpo a vista vendo meu pé de manacá e minha pata-de-elefante no friozinho de Gravatá. Não contracenei com Fernanda Montenegro na novela das Sete nem toquei no piano de Capiba. Pra compensar, sou conterrâneo de Lampião, Hélder Câmara, Luiz Gonzaga e fui amigo e parceiro de Dominguinhos, nosso maior gênio musical. Porém, de tudo que tive, tenho e não tive, nada se compara ao privilégio único e apenas meu, prazer inalienável e intransferível, coisa que só eu posso bater na caixa dos peitos, coração a saltitar, e dizer: sou avô de Bernardo, Vinícius e Leonardo.

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E A INTERNET, PARA QUE SERVE?

Há uma semana estou sem Internet. Desconectei-me do virtual mundo. Ainda bem. A partir daí, voltei a avistar flores no meu jardim, a encantar-me com os azuis do meu céu e a sentir os cheiros do meu pomar. Revi passarinhos há tempos esquecidos, cantando cantigas bonitas que meus ouvidos estavam desacostumados a escutar. Notei o vento brando das tardes de dezembro acariciando meu peito com muito mais delicadeza que a tela de um insensível notebook. Reli cartas antigas, daquelas que ninguém mais escreve ou lê e que não conseguimos deletar do âmago da alma. Não se parecem nem um pouco com os imeios chatos e cheios de emojis que vivo a receber (e mandá-los à lixeira). Encontrei, outra vez, a vida real, esta sim, bem conectada, sem os efeitos da queda do sinal. Descobri a contemplação do nada e voltei a catar palavras para que amanhã se transformem em verso. Como digo numa canção antiga que compus, cantada por Irah Caldeira: me embriaguei do hoje para que o amanhã sorria. Ler um livro, pegar um papel em branco, um lápis, buscar rimas e perceber uma poesia a brotar são prazeres revisitados. O que achava não mais existir estava lá no alpendre, branquinha e com varandas também alvas, alcovitando e ‘prazerando’ o meu balançar. O encontro de meu corpo com a rede é o que agora me interessa. Ao lixo os ZAPs, os Facebooks e os Instagrans. Sobrou-me tempo para dedicar atenção aos meus, para jogar para bem dentro do coração palavras antes não ditas, para abraçar a quem amo, para afagar os netos com carinho triplicado, gozando a alegria de ser avô. Pensando bem, ainda bem que estou sem Internet. Acho que nem vou mais precisar dela.

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TODO ANO NOVO

O primeiro dia de cada ano é uma peça de pano pronta pra ser costurada, já dizíamos, eu e Maciel Melo, na canção PANO DO DIA UM. Lembro do ano que termina com um misto de saudade e tristeza, não me perguntem por qual motivo. Não saberia responder. Esse período me faz refletir exatamente sobre a passagem dos dias, das prateleiras dos sonhos, dos retalhos mal cerzidos, das fantasias rasgadas, das roupas de domingo e do calção velho desbotado que a gente veste para dormir. E assim os meses vão passando, remendando fio por fio, enquanto a nossa vida também passa feito um algodãozinho sem cor e sem graça que vai se desgastando a cada dia que se vai. O ideal seria transformar todos os tecidos puídos e sem cores em chitas alegres e festivas que fizessem viver a alegria da vida, esse festival inesgotável de coisas boas, de tristezas, de surpresas e de decepções. Brindemos o ano novo que bate à nossa porta, doido pra chegar. Que ele venha com sonhos fáceis de realizar. E se não os forem, que tenhamos força e fé para que assim se tornem. Que chegue com uma roupa alegre e bela a vestir nossos dias desta época nova que está só começando. O calendário que passou, já não está na minha mão. Farrapos e fiapos do que não vale a pena, ao lixo joguei-os. Que fiquem lá. Que surjam Felizes Tempos Novos.

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PEQUENÍSSIMA CRONIQUETA DE NATAL

Nossa ‘croniqueta’ de hoje é curtinha, menor ainda que as que costumo escrever, mas nem por isso menos sincera.

Que seria do mundo se não existissem sonhadores Poetas e Anjos serenos que fazem desenhos das sombras e, dos sonhos, azulejos coloridos? Os ‘normais’ jamais agem assim. E o mundo precisa de Anjos e Poetas que enxerguem um pouco além do que se vê. Que estes, sonhadores e serenos, sadios e sãos, belos e sorridentes, estejam sempre presentes em nossas vidas neste Natal e no 2022 que ‘tá já chegando. É o que desejamos a todos: que sejamos felizes.

Aos que gostam de mim, um FELIZ NATAL; Aos que não gostam, um NATAL FELIZ.

Xico Bizerra

NATAL MATUTO

Nos galhos perto do chão
Vou pendurar mil carinhos
Pra iluminar os caminhos
Do povo do meu sertão;
Acima, ao alcance da mão,
Mais um verso especial,
Sem nada artificial.
Ao lixo, a hipocrisia.
As luzes da poesia
Vão acender meu natal

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GRAVATAS, PALETÓS E SAPATOS

Gravatas? Cortei-as todas tão logo assinei minha ficha de Aposentadoria do Banco Central, numa bela manhã de um outubro de mil novecentos e nem me lembro. Não teriam serventia a partir daquele instante. Restou, de quase 30, apenas uma que pretendia guardar para a eventualidade de precisar dela em algum evento futuro. Achei uma tremenda sacanagem com aquelas que foram amputadas e, ao invés de guardá-la como inicialmente pretendia, dei de presente a um dileto amigo que a guarda até hoje, disse-me um dia desses. Os paletós, usados em tantas e tantas missões no meu trabalho, companheiros de viagem por tantos lugares desse Brasil, dei-os de presente a um cunhado que mora bem no alto da Serra do Araripe, entre o Crato e Nova Olinda. Usa-os como casaco para proteger-se do frio que faz nas noites que ali são quase geladas em junho, julho. Melhor utilidade não poderia ter se acaso comigo tivessem ficado. Sapatos, restou-me apenas um, meio avermelhado, lustroso e bonito, daqueles que, ousadia minha, só os doutores e intelectuais usam, mas sem utilidade para mim desde aquele outubro de alegrias. Não preciso de sapatos para ser feliz. Pode ser que dele precise qualquer dia. Preferia que não. E eu que pensava que fazer nada era a melhor coisa do mundo, descobri que não é: a melhor coisa do mundo é fazer nada, sem gravata, sem paletó e descalço.

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CEM ANOS DE NÃO-SOLIDÃO

Dez da noite, eu já bem acolhido por Morfeu, meu telefone insiste em tocar sem ter quem o atenda. Poderia tê-lo desligado mas ando, eu sim, desligado e meio. Madrugada do dia seguinte (acordo pelas 4) vi quem me ligou e já me autorrecriminei pelo sono incontrolável que me domina assim que a tarde cai. Logo depois o prazer de receber a ligação não recebida na noite anterior: um dileto amigo, intelectual reconhecido país afora e que me dá o prazer enorme de incluir-me entre os amigos. Disse-me quase isso, massageou o meu ego. Desculpei-me pelo sono precoce, justifiquei o injustificável e passei o resto do dia alegre e satisfeito pela prova de bem-querença recebida. Fez-me honroso convite de encontro, que não pude aceitar por estar comprometido com outras obrigações inadiáveis anteriormente assumidas para o mesmo dia e horário. – Problema seu, disse-me, com seu tom ‘irônic/afável’ e o habitual alto astral. Nessa ligação relatou-me, bom contador de histórias que é, o ‘milagre’ que aqui reproduzo, reservando-me o direito de não revelar os ‘santos’, por falta de autorização: é o caso do filho que, em tom jocoso e bem humorado, encaminhou à mãe, no seu aniversário de 40 anos, um bilhete onde se lia: ‘a IDA começa aos 40’. A mãe guardou o bilhete por outros 40 anos e respondeu-lhe, ao completar 80, no verso do mesmo bilhete: ‘ a IDA eu não sei, mas a VIDA começa aos 80’. Verdade. A vida começa e recomeça exatamente nesses momentos de alegria que os amigos nos proporcionam. Como diria aquela senhora octogenária, mais sábia que o meu sábio amigo. A IDA, não importa quando começa. Deixemo-la que comece no exato instante que se permita. De preferência, daqui a alguns anos que não sejam de solidão. Importa, muito mais, presenciar o início da VIDA, seja em que idade for. Melhor assim.

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A ORDEM DOS FATORES NÃO ALTERA O SENTIMENTO

Parque, Carinho e Pipoca. Ou seria Carinho, Pipoca e Parque? É fim-de-semana e estou com meus netos nalgum lugar, com Carinho e pipoca, mãos dadas, brincando de ser feliz. No lugar do parque pode ser cinema, praia ou Gravatá. Tanto faz. A ordem dos fatores não altera o sentimento. Tanto faz estarmos no escurinho do cinema, num parque da cidade, na Praia ou em Gravatá, pipoca nas mãos, junto ao pouco verde ou ao muito mar mas com muito amor, voltando a ser criança e embalando nossos sonhos ao bel sabor da cabecinha deles. Era assim, com meus filhos e assim ainda é, eles já adultos e pais dos meus netos. Mas somos todos meninos e meninas nesse filme de volta ao passado, onde o futuro foi ontem e ainda não se desmanchou. Que bom poder sorrir, sem calendário ou relógio, sem obrigações ou deveres, só prazeres a nos conduzir. Que bom brincar de ser criança e fazer de conta que o tempo parou e que eles serão, eternamente, crianças como nós e nós, para sempre, crianças como eles. Viva João e Mariana, pais de Bernardo, Vinícius e Leonardo. E viva eu para desfrutar do amor deles!

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UMA CARTA A PABLO

Esta noite, novamente relendo Neruda, outra vez resolvi escrever-lhe. Ele também tivera dúvidas muito semelhantes às minhas, incertezas que ninguém tivera condição de tirá-las. E eu precisava saber, por exemplo, quantos metros redondos há entre a lua e a minha pata-de-elefante, lá em Gravatá. Também gostaria de descobrir quantos anos-sombra separam a luz do sol do meu cada dia mais distante arrebol. Não sei se algum dos que ora me leem teriam respostas e, em caso positivo, rogo que façam uma carta a Pablo. Lá do alto, em meio a nuvens carregadas de flores e pássaros, ele ficará tão satisfeito que baterá no peito, fará uma rima e talvez até cante. Certamente gostará de descobrir o porquê de depois de um domingo ensolarado surge sempre uma segunda-feira azeda e acinzentada? Será que alguém já foi conferir as roupas da neblina vestindo o céu? E os trovões, por que fazem tanto escarcéu? Tenho que descobrir por que o pintor deixou a noite escura se seu pincel tinha tanta cor mais pura para oferecer? Por fim, algum iluminado me explicaria a razão de tanta alegria na rua da Saudade durante o carnaval, da escuridão da noite na rua da Aurora e de quantos minutos se revestem o asfalto da rua da Hora em pleno rush das 18 horas. Será que Pablo já descobriu tudo isso ou continua a interessar-lhe apenas a reflexão que cada uma das questões provoca em sua poética alma? Ainda estou por saber a cor do perfume que exala do pranto azul das violetas, assunto sobre o qual escrevi um dia desses … Por enquanto continuarei a observar a flor voar de sabiá em sabiá, deixando-me feliz como a chuva que continua a chover toda a sua alegria.

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UM CORAL MAIOR QUE IMENSO DE MIL COLIBRIS

Nada como um elogio, uma crítica favorável, tanto no campo literário como no musical, para alimentar o amor próprio, massagear nosso ego e contribuir, como combustível generoso, para o prosseguimento da lida. Mas há também o outro lado. Um Poeta (nem sei se posso defini-lo como tal) no dia do lançamento do meu livro de crônicas BREVIÁRIO LÍRICO DE UM AMOR MAIOR QUE IMENSO questionou-me sobre o título, argumentando que IMENSO é um superlativo que não admite a existência de algo maior. Como poderia o meu amor ser maior que imenso? No entender desse ‘crítico literário’ o título do meu livrinho está errado. Isso, a meu ver, apenas o descredencia como Poeta. Como amigo, não. Continuo a considerá-lo, tanto que não revelo o seu nome, apenas ressalto ser ele bastante conhecido nas hostes musicais, principalmente. De outra feita, um outro ‘Poeta’ amigo (este, sequer lembro o nome) apontou erro grosseiro em minha música MIL COLIBRIS, quando, a certa altura, falo no coro de mil colibris saudando a mulher amada. Indaguei-lhe se o erro era de concordância ou decorrente de algum outro deslize gramatical e ele respondeu-me que o equívoco decorria de uma inadequação lógica tendo em vista que colibris não cantam e, assim sendo, seria impossível um coro deles. Respondi-lhe (e depois arrependi-me da grosseria) que os colibris dele podem não cantar mas os meus, ah, estes cantam mais que qualquer sabiá ou curió. Não compreendem estes pretensos bardos que a infinitude e a riqueza da poesia se inserem no permitido licenciamento concedido aos Poetas e está fora das paredes engessadas das lógicas óbvias e delimitações de regras, quaisquer que sejam, inclusive as gramaticais. O caminhante dos mesmos e velhos caminhos, não entendendo ou não admitindo metáforas, desconhecem o novo e terá como destino um pobre lugar-comum. Enquanto isso, seguimos absorvendo os dissabores a que estão sujeitos aqueles que escrevem ou compõem. Me abstendo de perder tempo com quem não merece um segundo: continuo caminhando e cantando e escrevendo, recebendo as críticas e delas até me alimentando para escrever minhas historinhas. Como esta. E compondo músicas, como COPO DE NADA que, pelo título, certamente estimulará a sanha crítica dos juízes severos da obra alheia. Pobres críticos: pensam que são Poetas.

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UM CERTO DIA …

Tento ser que nem o sábio Braulio Tavares, que só quer nesta vida viver de DESAFIO, amar de IMPROVISO e morrer de REPENTE. E quando eu viajar para compromissos inadiáveis em terras totalmente desconhecidas, não terei no bolso a passagem de volta. Dela não precisarei pois não vou voltar. Lá de longe terei o conforto da missão cumprida por essas bandas terrenas. Meus filhos dirão aos meus netos o quanto eu os amava e estes, a seus filhos, dirão que sentem saudades desse velho avô (vi isso numa rede social e achei bonito). Prestarei contas, com quem de direito, de minha passagem e de meus atos cá embaixo. O bem que sempre busquei fazer por aqui será convertido, espero, na paz que abrigará minh’alma. Bastar-me-á este consolo. E então, diante do mais azul dos azuis e à beira de lagos celestiais, contemplarei grilos e sapos trocando ideias em meio às nuvens no rush dos anjos, engarrafamento de arcanjos e querubins. E procurarei, onde estiver, uma rede branquinha de alvas varandas que me permita calmamente observar as madrugadas orvalhadas que enfeitam Gravatá, enquanto borboletas e rãs recitam Manoel Bandeira no aguardo das manhãs de sol. Por enquanto, me balançarei numa RIMA, cochilarei num VERSO e dormirei num POEMA, para acordar na beleza de um SONETO. Espero apenas que o dia da viagem seja preguiçoso como eu e demore um bom tempo para chegar. Enquanto isso, tomarei lentamente uma cervejinha gelada no bar mais próximo da primeira esquina que encontrar: não tenho qualquer pressa.

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