XICO COM X, BIZERRA COM I

Gravatas? Cortei-as todas tão logo assinei minha ficha de Aposentadoria do Banco Central, numa bela manhã de um outubro de mil novecentos e nem me lembro. Não teriam serventia a partir daquele instante. Restou, de quase 30, apenas uma que pretendia guardar para a eventualidade de precisar dela em algum evento futuro. Achei uma tremenda sacanagem com aquelas que foram amputadas e, ao invés de guardá-la como inicialmente pretendia, dei de presente a um dileto amigo que a guarda até hoje, disse-me um dia desses. Os paletós, usados em tantas e tantas missões no meu trabalho, companheiros de viagem por tantos lugares desse Brasil, dei-os de presente a um cunhado que mora bem no alto da Serra do Araripe, entre o Crato e Nova Olinda. Usa-os como casaco para proteger-se do frio que faz nas noites que ali são quase geladas em junho, julho. Melhor utilidade não poderia ter se acaso comigo tivessem ficado. Sapatos, restou-me apenas um, meio avermelhado, lustroso e bonito, daqueles que, ousadia minha, só os doutores e intelectuais usam, mas sem utilidade para mim desde aquele outubro de alegrias. Não preciso de sapatos para ser feliz. Pode ser que dele precise qualquer dia. Preferia que não. E eu que pensava que fazer nada era a melhor coisa do mundo, descobri que não é: a melhor coisa do mundo é fazer nada, sem gravata, sem paletó e descalço.

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3 pensou em “GRAVATAS, PALETÓS E SAPATOS

  1. Pior é que o mestre Xico deve ter razão. Ainda espero por esse dia, amigo. Chegará, espero. Mais uma prova de que o homem é gênio. Abraços.

  2. Bernardo, Vinícius e Leonardo, o trio que encanta, veste e calça o avô

    Não precisa ser feliz de outra maneira à beirada de um rio qualquer descalço. Capibaribe? Da Aldeia de Fernando Pessoa?

    A existência dos três dispensa paletós, gravatas e sapatos.

    É mais doce ser feliz naturalmente.

    Para que paletó, sapato e gravata, se nada disso define a nossa felicidade da gente? Os sentimentos sentidos?

    Parabéns, Xico.

    Como diz o Mano: Abraçaço para o mestre e família, sem papai Noel.

  3. Amigo Cícero Tavares, Imortal Doutor José Paulo: palavras são bálsamos da vida, refrigérios da alma, dependendo de onde partem. Fico feliz ao ler depoimentos como o de vocês. Abastecem o ego e completam meu tanque de motivação para continuar de lápis na mão, notebook ao alcance dos dedos, besteiras a escrever. A propósito do rio, não tenho o que Pessoa tem em sua Aldeia; mas o meu é tão belo quanto, passeando pelas terras do Crato. Abraço fraternal a todos.

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