XICO COM X, BIZERRA COM I

UM PASSARINHO NA MINHA JANELA

Um passarinho pousou na minha janela e me presentou com sua música tão bonita. Ofertou-me seu canto, com a maior das ternuras, com todo o carinho, sem nada em troca. Aproveitou e fez também aquela sujeirinha típica que todos os animais fazem, na hora do ‘descomer’. Nada que embotasse a beleza do seu cantar ou que arranhasse a suavidade de sua presença. Diante do belo, cometi a heresia de pensar em prendê-lo numa gaiola, impedindo-o da liberdade do voo e ‘privatizando’ seu belo canto, sua ‘divina zoada’… Desisti a tempo de evitar o cometimento de crime tão hediondo. A solução mais inteligente foi mesmo deixá-lo livre, evidenciando a importância da liberdade! Assim procedendo, ele voltará outro dia com sonhos livres e cantos de amor para embalar os meus sonhos, também de amor, também de paz. O egoísmo de trancá-lo em uma gaiola rapidamente esvaiu-se ante a constatação de que todos merecem ouvir tão belo cantar. Por que deveria eu ter o privilégio da audição exclusiva? Quanto egoísmo! Aproveitei e deixei todas as gaiolas de minha alma de portas abertas, ainda que em nenhuma delas houvesse algum passarinho sem poder voar. Nelas haviam apenas sonhos, alimentados sempre pelo belo cantar dos passarinhos. Que bom se um passarinho pousasse na janela de todos os homens.

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RECADO PARA QUEM TEM MAIS DE SESSENTA E NÃO TEM MEDO DA MULHER

Tenho mais de 60 e faço tudo errado com o melhor dos ‘acho-bom’. Não apenas ‘furo’ a fila do Banco ou paro na vaga preferencial. Mas, principalmente, só faço o que me dá na telha. Esqueço a convenção do certo e errado e, simplesmente, faço. É meu direito. Tomo cerveja comendo pão e saio da mesa do almoço direto pra rede, onde fico até as 3, cochilando e acordando, acordando e cochilando, doce madorna. Não sem antes provar o doce deleite do doce de leite. Afinal, tenho mais de 60. Empanturro-me de coca colas e guloseimas de cacau: não tenho mais tempo para dietas, nem para as banais saudades, lágrimas sofridas, ou risos para alegrar os outros. Só vou onde quero ir, só como o que ordena meu paladar. Charque com fava, às favas o colesterol. Afinal, tenho mais de 60. Desobediência ampla, geral e irrestrita. Caminhadas, para quê? É como disse um pintor a um amigo dele: “hoje eu fiz algo útil: dei um pulo, bati palmas com as mãos acima da cabeça e matei uma muriçoca”. Assim sou e serei. Só farei coisas úteis, erradas ou certas. Aplaudirei o nada com as mãos acima da cabeça e matarei todas as muriçocas que tenham a audácia de perturbar minha saudável sesta. Talvez volte a fumar … Afinal, tenho mais de 60. Só ainda não o fiz porque a mulher não deixa e a ela, mesmo eu tendo mais de 60, não ouso desobedecer. Sou doido mas ainda resta um ‘restim’ de juízo … Quem sabe, se eu ainda tivesse 40?

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O CÉU DE KIEV

O céu é sem cor.
Nenhum espelho pode refletir essa dor.
Nada de novo.
Apenas um povo e o de sempre:
Balas, bombas e fumaça.
Chamas passeiam num céu que não se vê,
num céu que foi azul
sobre um chão de neve:
chão e céu de Kiev …

Agoniza Kiev
em meio ao bombardeio …
Fantasmas vivos desdizem a vida
e contrariam Deus …
Crianças e mulheres
já não dormem
com o cheiro ruim da guerra.

Mais um tiro se ouve na noite escura.
Outra bomba.
Nascerá a manhã em Kiev?
Haverá amanhã em Kiev?
O sol brilhará em Kiev
enquanto alguns irão à praia
e contarão suas podres moedas?
Amanhã, haverá Kiev?

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UM SOLITÁRIO E SORRIDENTE HOMEM

De todos os homens que conheço, aquele que semeia versos, ora voando que nem borboleta, ora cantando como pássaro, é o mesmo que também sabe colher luzes e reunir perdidos sons, acolhendo todos os tons em seu tímpano feliz. Sempre com um sorriso a enfeitar seus lábios e os daqueles que o cercam. Ninguém a ajudá-lo, tantos a lhe atrapalhar. Nas horas vagas, solitariamente, devora brisas e transforma em luz as hostis imagens. E nos trilhos de sua espera, em meio a tintas e aquarelas, a estação é sempre a do chegar, nunca a do partir. Ele desconhece a palavra adeus. A primavera é mais flor quando aquele homem, sorriso estampado no rosto, bondade guardada nas mãos, canta, voa e zune os poemas mais ternos nos outonos e invernos, tecendo sonhos nos verões cheios de sol, transformando tudo em jardins. Quem é aquele homem que vive a sorrir? E se todos os homens aprendessem a sorrir, como sorri aquele homem, espalhando alegria no meio do mundo? Pelo jeito, aquele homem deve ser Poeta. No mínimo, faz-se acompanhar da alma deles e jamais aprovaria uma guerra.

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O ARCO-ÍRIS DO PEQUENO ANTÔNIO

Uma amiga me contou a história do seu pequeno Antônio que, aos berros, convocou-a a seu quarto para anunciar a mágica que ele acabara de ser testemunha: um arco íris veio morar em sua casa. Mais: deitara-se em sua cama e ali passara a noite. Acabara de acordar, o sol já às alturas. Minha amiga, emocionada com aquela ‘descoberta’ do filho e sabendo dever tratar-se de, por exemplo, o sol refletindo na face de um CD ou um outro fenômeno físico qualquer, absorveu a lágrima que teimava em escorrer rosto abaixo e concluiu que a vida, sim, proporciona pequenos milagres. Como aquele, em que várias cores se encobertavam nos lençóis de Antônio e deitava sua paleta de tons variados em um travesseiro fofo e branquinho. Ela sabia que os arco íris aparecem nos céus de todos os meninos, mas também sabia, por experiência própria, que eles só dormem em casas de meninos que fazem o bem e sonham os bons sonhos. E Antônio os sonhava, sempre. Que bom se as belezas da vida estivessem sempre presentes também nas casas dos homens bons. Eles seriam felizes como Antônio é. (Croniqueta dedicada a Mariana Mesquita e a seu pequeno Antônio).

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A CASA ONDE MORAVAM OS LIVROS

Nem sei se apagaram a luz. Sei que foi fechada a última livraria que havia naquele Shopping grandão. O que há mais lá pra se fazer se minha motivação era exclusivamente sentir o cheiro dos livros? Não me interessava a imensa loja de utilidades domésticas, geladeiras e TVs, nem o box no corredor que exibia smartphones e outros utensílios de informática, tampouco a lanchonete com nome em inglês e que vendia hot-dogs que encantam as crianças. Interessava-me, tão-somente, aquela livraria. Os encontros que eu marcava em frente aos livros, onde acontecerão? E em que ambiente compartilharei minhas experiências literárias? Meus versos, livres, uns, e algemados, outros, desencontrados de lógica às vezes, se perderão nos corredores frios do shopping imenso. Minhas rimas vagarão entre as vitrines coloridas dos magazines, descerão pela escada rolante e se perderão no estacionamento amplo e lotado de carros, vazio de poesia. Resolvido: não mais irei ao Shopping e preservarei minhas palavras, beberei minhas rimas no bar da esquina, guardarei minhas frases e largarei no ar apenas as reticências … Vírgulas, as deixarei penduradas na porta daquela que já foi livraria e um ponto final restará sob a placa um dia luminosa que indicava ali ter existido uma casa de livros. A casa está vazia e não se sabe onde se esconderam as letras. Lá, não mais estão.

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LAGARTA PINTADA

Quem foi que te pintou? A velhinha, o curupaco ou o macaquinho? Não importa quem foi o pintor. O que sei é que o serviço foi muito bem feito. Disso me convenci quando no meu jardim ela apareceu, uma solitária lagarta pintada. Linda como ela só. Matá-la? Claro que não. Não se mata animalzinho tão lindo, pequenina zebra frustrada do reino dos bichos maiores, cachecol colorido que passeia além dos pescoços alheios. Nenhum mal faz à gente ou às plantas e, como se não bastasse, embeleza nossos jardins. Vai além: cuida do desenvolvimento do verde devorando as folhas e transformando seus dejetos em adubo orgânico para que as plantas fortaleçam seu sistema imunológico. Deixemo-la flutuar por entre as flores, fogosa e feliz, rodopiando com seu andar requebrado. Dói-me, apenas, vê-la tão desacompanhada. Nunca a vi com seu par. Com quem trocará palavras, a quem dirá de suas alegrias e tristezas? Seria melhor se fosse uma borboleta, voando flor em flor e vendo tudo lá de cima? Não sei. Sei que me deixa feliz sua estadia no meio de minhas flores, junto ao pé de manacá, contemplando com um olhar meigo a minha pata-de-elefante. Que vá até o jardim vizinho, até permito, num passeio matinal, tornando também feliz meu amigo Renato e sua mulher Lena. Mas que não se demore e volte ligeirinho ao jardim de origem. Eu vi primeiro!

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CRONIQUETA MATUTA FALANDO DE CHUVA

Ainda hoje, quando o vento começa a lufar anunciando que vem chuva, tenho a sensação que o mundo está comunicando o seu fim. Morro de medo dos exageros da natureza. Astrofobia é o seu nome científico, hoje tratada com terapia cognitivo-comportamental. No tempo de minha vó Mariquinha isso não existia e a pobrezinha se pelava de medo quando começava esse tirenête no céu do Araripe. Cobria tudo que era espelho com os lençóis da casa. Só não digo que o medo da pobrezinha ia além do trimilique em respeito a ela, que hoje mora pertinho de Nosso Senhor, nas alturas celestiais. Meu avô, poeta tamanho ‘imenso’ e professor de latim e português dos futuros padres do seminário do Crato, ria da situação e tentava explicar: – Calma, Mariquinha, essa zoada são apenas as nuvens brincando de empurra-empurra entre elas. Não adiantava. Eu também não sou muito chegado a essa história de relampejo e trovoada. Acho que tem algo de hereditário nisso. Não chego a ‘molhar a fralda’ mas me agarro com Padim Ciço e tudo que é santo protetor ao primeiro pingo que cai. Aí lembro da oração que ela rezava ante a primeira ameaça de um chuvisco, uma neblina, pingos poucos que fossem: abria a janela e falava 3 vezes: “Santa Bárba, São Girome, tabaqueiro véi Zé Gome “. Às vezes dava certo e voltava tudo à calmaria. Outras vezes, Bárba, Gerome e esse tal de Zé Gome, que nem sei de quem se trata, deviam estar ocupados com outras tarefas, talvez até menos nobres, e o trovão zoava no ar matando o povo de medo. Chuva é bom, mas sem a companhia de trovões e relâmpagos seria melhor.

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FIM DO DIA

Estarei à beira do luar
na hora em que morrer o dia.
E no incerto instante em que o sol se for,
rezarei uma Ave-Maria.

Pedirei a Deus que, ao dia que virá,
seja-lhe concedida a sorte
que a este foi negada
antes de sua iminente morte.

Não acenderei velas
na hora em que o dia for embora:
de luzes, ele não precisará
além da que vem da lua e lhe devora.

A ele bastará o silencioso som
que só se ouve quando o dia tem seu fim.
Assim, a Ave-Maria rezarei no mais baixo tom
e só as estrelas escutarão o meu rezar
na hora em que o dia acabar.

E dele, ao finar-se,
não verei o seu fenecer:
estarei festejando com as estrelas
o dia novo que está por nascer.

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CRONIQUETA MATUTA FALANDO DE ONÇA

Lugarzim mió que a Serra do Araripe acho que num tem não. É um ventim bom que só, passarim pra tudo que é lado fazendo zoada bonita, uma Paz de dá inveja ao monge mais calado do convento mais distante. Num fosse a danada da onça … Peeeense num bicho perigoso é a tal da onça! Deuzulive de eu sair daqui pra barraca de Mané do Coco de a pés ou de bicicleta. Vou nada. Nem que seja pru mode eu ficar pôde de rico pro resto da vida eu vou, meu fí. Por aqui tem onça que dá na canela. De todo tipo e qualidade: da pintada, da preta e até duma avermeiada, que é a pior de todas. Dizem que foi uma dessas que estraçaiou Zé do Trovão um dia desse no mei do mato, na estrada pra Santana. Vou não, tem quem faça! Prefiro ficar aqui na minha casinha cuidando dos passarim, das pranta e dos cachorro. Se tiver que ir em Mané do Coco só vou se for de moto. Aí eu vou, porque as bicha tem medo de zoada de moto. Agora pior do que onça é os amigo dela. Ói, amigo da onça é coisa ruim que eu num desejo nem praquele Vereador que prometeu tudo e num truxe nada pra cá. Veja a conversa que eu ouvi de dois cumpade, amigos de Lalêta, aqui na serra:

– Cumpade, se nas tuas andança aparecer uma onça o que tu faz?

– Pego minha espingarda e descarrego todinha em riba dela;

– E se a espingarda faiá?

– Ôxente, puxo minha faquinha e retaio a danada, das urêia até o rabo;

– Cumpade, e se tu tiver esquecido a faquinha em casa?

– Aí num tem jeito: eu me atrepo no primeiro pé de pau que encontrar;

– E se num tiver pé de pau por perto mode tu se atrepar?

– Tá c’a gota, cumpade! Vai te lascar! Tu é meu amigo ou amigo da onça? Vôte!

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