XICO COM X, BIZERRA COM I

Há uma semana estou sem Internet. Desconectei-me do virtual mundo. Ainda bem. A partir daí, voltei a avistar flores no meu jardim, a encantar-me com os azuis do meu céu e a sentir os cheiros do meu pomar. Revi passarinhos há tempos esquecidos, cantando cantigas bonitas que meus ouvidos estavam desacostumados a escutar. Notei o vento brando das tardes de dezembro acariciando meu peito com muito mais delicadeza que a tela de um insensível notebook. Reli cartas antigas, daquelas que ninguém mais escreve ou lê e que não conseguimos deletar do âmago da alma. Não se parecem nem um pouco com os imeios chatos e cheios de emojis que vivo a receber (e mandá-los à lixeira). Encontrei, outra vez, a vida real, esta sim, bem conectada, sem os efeitos da queda do sinal. Descobri a contemplação do nada e voltei a catar palavras para que amanhã se transformem em verso. Como digo numa canção antiga que compus, cantada por Irah Caldeira: me embriaguei do hoje para que o amanhã sorria. Ler um livro, pegar um papel em branco, um lápis, buscar rimas e perceber uma poesia a brotar são prazeres revisitados. O que achava não mais existir estava lá no alpendre, branquinha e com varandas também alvas, alcovitando e ‘prazerando’ o meu balançar. O encontro de meu corpo com a rede é o que agora me interessa. Ao lixo os ZAPs, os Facebooks e os Instagrans. Sobrou-me tempo para dedicar atenção aos meus, para jogar para bem dentro do coração palavras antes não ditas, para abraçar a quem amo, para afagar os netos com carinho triplicado, gozando a alegria de ser avô. Pensando bem, ainda bem que estou sem Internet. Acho que nem vou mais precisar dela.

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7 pensou em “E A INTERNET, PARA QUE SERVE?

  1. O mestre Xico, mais uma vez, tem toda razão. E disse a verdade absoluta de que a internet nos liberta, mas também escraviza. Parabéns.

  2. A internet realmente escraviza. Sou viciado no JBF. Não fico mais que algumas horas se acessar esta Gazeta Escrota.

    Xico, tem algum remédio para isso?

  3. Prezado guru Xico:
    Pouquíssimas pessoas neste Brasilzão de meu Deus conseguiriam expressar em tão sábias e belas palavras o sentimento da felicidade sem as algemas da tecnologia moderna.
    Parabéns. Seu comentário é um primor.
    Tenha uma excelente semana.
    Abraços.

  4. Mestre Xico,

    Meu pai repetia sempre o velho do Pantanal, personagem criado pelo dramaturgo Benedito Rui Barbosa: “Para que eu me inxirir a querer saber coisa do mundo se tudo que tenho está dentro do meu sítio?”

    Existe coisa mais feliz do que a Natureza que, mesmo a gente a criminosamente a destruindo, ela renasce das cinzas e nos fornece a sombra, o ar, a chuva, as rosas?

    Valeu, irmão do coração. Viva a paz, enquanto houver paz.

  5. Pingback: VÍCIO CONTAGIOSO | JORNAL DA BESTA FUBANA

  6. Magnífica perspectiva, Xico.

    Internet… É como um alçapão que o mundo se deixou cair, pra anão mais saber se livrar.

    Até a mensagem contra ela, tem que se valer também, dela. Da internet.

    Livros, CDs(discos), ponto de referencia/localização. O Google desbancou o Aurélio.

    Belchior já advertia: . Um beijo molhado, escandalizado
    Mas sintonizado em nossa estação
    Um beijo comprado no supermercado
    Transistorizado beijo do Japão.

  7. Caros Padre Zé Paulo, João Francisco, Magnovaldo, Cumpade Ciço, Marcos André: é preciso muita força de vontade para permanecer longe dessa insinuante e excitante dama da modernidade, com seus encantos e possibilidades. Quando já estava começando a me acostumar, eis que a Claro voltou com força total, trazendo uma Internet ‘embatonzada’, perfumada e de mini-saia provocante. Como resistir? Reatei o namoro, mas não me desvinculei dos sabiás, dos jardins e dos arrebóis. Hoje mantenho um casamento duplo, com a ‘modernage’ virtual e com a sábia e indispensável mãe Natura. Abraço a todos

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