ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

INFÂNCIA SOBREVIVENTE

Sexta-feira, sem nada a fazer, estava conversando com um colega professor, aqui no serviço e relembrando nossos tempos de infância e cheguei-se-me a uma conclusão que, se não óbvia, pelo menos verificável no longo prazo, caso os idiotas que governam as nações do planeta, resolverem mesmo partir para a ignorância: seremos sobreviventes, mesmo a uma guerra nuclear de proporções homéricas. E eu explico, meu caro curumim, assentado ao lado da minha fogueira caeté.

Quem teve sua infância entre a década de 1940 e os primeiros anos da década de 1980, foi alvo de experimentos científicos que deixariam o mais sádico terrorista do Hamas, babando de inveja, roxo mesmo, por não poder mais usar esses métodos na atualidade. E os “zé bundinhas” que se chamam geração millenial, criados em playgroud e em shoffs center, agradecidos. Mas esse mesmo agradecimento os torna fracos e frouxos diante dos desafios do mundo.

Quem daquela geração citada não se lembra da Emulsão Scott. Aquela gororoba feita de óleo lubrificante de caminhão fenemê, óxido de urânio, também conhecido como yellowcake, para dar a cor e chorume amarelo para dar sabor de laranja. Lembrei-se-me que essa tortura era dada por papai, quase todos os meses para a filharada, tendo sempre uma varinha de goiabeira, como argumento mais que convincente, na mão, para aquele mais rebelde que se recusasse, ou mesmo o lançasse fora.

Se satanás inventou uma tortura perfeita para o ser humano, com certeza foi a Emulsão Scott. Até nos dias de hoje, pronunciar essa palavra me dá arrepios pelo corpo todo, pois me lembro que tínhamos que passar por aquela sessão de tortura, a fim de derrubar as verminas e bichas que diziam estar no bucho. Ora, se aquilo quase chegava a matar a criança, imagina o que não iria ocorrer com lombrigas, solitárias e comunitárias que viviam em nosso organismo?

Mas, antes da dita emulsão, vinha o ritual do mastruz com leite, preferencialmente o leite serenado. Era assim: mamãe esmagava aquela erva do cão em um copo, botava leite e deixava no sereno da noite em um panelão. No outro dia, cada filho, antes de lavar a cara e escovar os dentes tinha que passar em fila indiana e escorrupichar para dentro, uma talagada daquele resíduo de esgoto refinado no caldeirão de Belzebu. Claro que, a ânsia, os engulhos no estômago vinham, mas a defesa era sempre a mesma: são as bichas morrendo e reclamando dentro do seu bucho. E, a gente pensava que ia junto com as coitadas, de tão ruim que aquilo era.

Há alguns colegas que citaram, também, o Biotônico Fontoura como algo ruim. Eu, pelo contrário, gostava daquilo. O médico da família recomendava que era apenas uma colher de sopa, antes do almoço. Eu, boca de álcool desde a tenra infância, esganado, já pegava um copo e colocava até a metade. Como todo bom cachacista sem remissão, limpava o assoalho da garganta, dava um estalo de língua e os beiços até tremiam de desejo. Emborcava aquele copázio, dava um estalo de dedo e saia feliz. Tudo bem, tem gente que até hoje não gosta daquela beberagem, mas agradeço a esse senhor Fontoura a invencionismo daquele líquido abençoado.

E havia ainda aqueles suquinhos em envelope que a criançada adorava. Da minha época havia o Ki-Suco e o Jarrão. Eram pacotinhos com uns trinta gramas de um pó que, a depender do sabor tinha uma cor diferente, indo do amarelo gema de ovo ao carmim. Para se fazer o suco usava-se dois litros de água, três quilos de açúcar e um pacotinho de trinta gramas daquele pó, que hoje seria tão proibido quando a erva do capeta que muito esquerdista gosta de queimar, além do fedegoso.

Mas, a garotada fazia a festa com aquela mistura radiativa, seja em festa de aniversário, de “brincadeiras” do sábado à noite, ou mesmo em reuniões depois de uma pelada no quintal de casa, onde o menos contundido saia sem o tampo do dedão do pé. À época de infância, se tivéssemos um pouco mais de curiosidade e lêssemos a composição química, iríamos anatematizá-lo de imediato e preferir beber água de cacimba ao invés daquilo. Só que eram outros tempos e outras ingenuidades, quando meninas e meninos jogavam bola juntos, brincavam de pega-pega, pique-esconde e casinha, ou até mesmo saíam no braço quando discordavam de um determinado tema, sem a sexualização, ou perversão que botaram na cabeça da molecada de hoje.

Quem, daqui deste grupo, com mais de 40, ou 50 anos não há de se lembrar daquela bala Toffl. Aquilo era açúcar e corante embalado em papel celofane. Mamãe vivia advertindo a gente para tomar cuidado, pois poderíamos engasgar e até mesmo morrer sufocado com aquele pirulito do capeta. Cansei de respirar forte com aquele troço parado na goela, bebendo bastante água para ver se aquilo descia. E, sempre descia. Tempos bons, quando desafiávamos a morte de cara limpa e braços erguidos.

Hoje, já na curva de minha vida, retornando os olhos ao passado penso que, se a nossa geração sobreviveu a toda essa tortura, a toda essa experimentação científica, com resultados desconhecidos, fico a me imaginar como seria se a geração de hoje desafiasse a morte de maneira tão inocente e sem se preocupar com as consequências. Aliás a máxima consequência para nós era um banho em que a mãe limpava e esbordoava o filho ao mesmo tempo, com uma bucha natural ensaboada com aquele sabão de água de barrela – o famoso sabão de cinza -, que limpava os poros e arrancava o couro. Havia caso do meu irmão mais novo que, depois daquele banho, até a cor dele ficava diferente daquela que habitualmente víamos, só para vocês perceberem o quanto éramos encardidos.

Assim, diante dessa óbvia constatação, posso afirmar, sem margem de erro que, a geração que viveu entre essas décadas serão sobreviventes a uma hecatombe nuclear. Se sobrevivemos à Emulsão Scott, sobreviveremos a qualquer coisa.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CAETICES III

Arsênio de Brito

Conheci Arsênio de Brito já no final de sua vida. Gostava do velhusco. Vivia a contar causos e assucedidos do seu tempo de rapazola, principalmente durante sua vida militar quando estivera de prontidão na Base Naval de Ladário, pronto a ir combater aquele sujeito de bigodinho escroto que tiranizava a Europa na Segunda Guerra Mundial. Contou-me, certa vez, entre risos e deboches, o excelente negócio que fizera com dois marujos norte-americanos, vendendo papagaios pantaneiros para os curibocas dos Zisteites. Arsênio embolsou uma bela grana em dólar e vendeu dois filhotes de urubus – do tipo Coragyps atratus -, passando a lábia nos gringos, dizendo que quando crescessem ficariam verdes, lindos e faladores.

DIVA

Trabalhei em uma unidade escolar na belíssima, porém quente, Corumbá dos meus amores, aqui no Glorioso Mato Grosso do Sul. Como estava adjuntando, nessa época, final de um ano e início de outro era aquela loucura de transferência, certificado de conclusão de curso, matrícula. Mas, sempre havia aqueles momentos de relaxamento entre turnos, então a DIVA – Departamento de Investigação da Vida Alheia – corria solta na secretaria escolar. Havia os investigadores, os checadores de informações e os responsáveis por fazer circular a notícia, sempre tendo como alvo alguma pessoa. Tempos bons. Não se faz mais fofocagens como antigamente, e nem existem mais DIVAs pelas escolas por onde passei. Vantagem de cidade pequena, onde todo mundo se conhece e todos falam mal de todos, sem perder a amizade.

Polho al Polvo

Magnovaldo, lá dos Zistados Zunidos conhece bem esse típico prato boliviano, bastante servido nas cidades de Puerto Quijarro e Puerto Suarez, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, em Corumbá. Basicamente o prato é uma mistura de frango, cozido em água, o que deixa ele mais branco que bunda de escandinavas, jogam umas trapizongas dentro dele, umas folhas, sabe-se lá Deus de onde saíram e servem em cumbucas para os fregueses. Acontece que 99% das ruas dessas cidades não possuem calçamento. É uma terra branca e calcárea que dói as vistas em dias de sol quente. O freguês comendo essa gororoba à beira da rua, passa um carro, levanta aquele poeirão que vai tudo para o prato que está sendo servido. O resultado é uma mistura de água, com temperos boiando, frango cujo cozimento adequado é duvidoso, e aquela quantidade imensa de poeira no prato do comensal. Ah!, polho ao polvo significa literalmente “frango com poeira”.

TEROL

Estava eu em Ladário/MS – as más línguas dizem que é um bairro de Corumbá -, mas é um município autônomo rodeado pelo município de Corumbá por todos os lados. Lembro-me que era final de ano e fui passar uns dias na casa de meu amigo, irmão e cupincha Dorvanil Gomes. Como era fim de ano e ele tem uma banda musical que todas músicas das antigas, dançantes e apaixonadas, foi contratado para tocar em uma festa em uma das fazendas da região. Fui de reboque, obviamente. Passada a virada do ano, no almoço do dia primeiro de janeiro, estávamos na fila para o almoço quando ouvi a conversa de dois peões de origem paraguaia. Na língua arrevesada deles, um dizia a outro que deveria maneirar, porque o médico estava preocupado com o “terol” dele. Nessas bocagens vadias, meu ouvido fica igual a ouvido de tuberculoso, fino, ladino e maroto. E me peguei pensando que diabos era esse tal de terol. Depois de muita conversa entre os dois paraguaios fui entender que o médico de um deles estava preocupado porque ele estava com os níveis de colesterol muito alto. Deu de ombros e saiu atracado com uma ripa de costela com uns dois dedos de gordura. Que se dane o terol, pensei.

Tanabi

Tanabi foi um excelente professor de Matemática na escola em que trabalhei em Corumbá/MS. Encantou-se já a algum tempo. Homem sério e cioso de seu dever, daqueles professores das antigas, da época em que gostávamos de receber provas reproduzidas em memeográfo a álcool, coisa que a geração frouxa de hoje nem sabe o que é. Talvez ali foi meu primeiro contato com o mundo etílico. Certa vez, deixou a matriz para ser reproduzida e foi para a aula. Era prova bimestral. Eu, Altivo e Dirceu pegamos aquela matriz e desenhamos corações com flechas, flores e guirlandas. Feita a reprodução, entregue as provas ao mestre. Uns quarenta minutos depois ele voltou emputiferado da vida querendo saber quem foi o sacana que avacalhou a prova dele e que iria dar um tiro na cara do sujeito, se descobrisse. Finou-se sem nunca saber o que fizemos com a prova, mas ela ficou como assunto principal de toda a escola por uns dois meses.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

EU QUERO DESCER

Acredito que eu esteja ficando velho, já com minhas cãs me chamando para um combate em que eu, velho caeté, certamente perderei. E, nas minhas vagamundices, vendo muitas coisas, esquisitices de todo quilate, safadagem de todo calibre, acreditei que a minha capacidade de me surpreender já havia, de todo, sido cauterizada. Todavia, o mundo ainda é capaz de me surpreender, e, sempre para a pior, infelizmente.

Ontem foi o dia que fiz a coisa que mais detesto, porque como um bom caeté, o que gosto mesmo é de ficar deitado em minha rede de imbira, coçando a carcunda de meus cachorros, mas, para prestar favor a um amigo e à sua mãe, os levei no tal do shopping center – prefiro centro comercial, mas as pessoas sempre gostam de usar estrangeirices para coisas simples. Vá lá… cada um com sua esquisitice.

Naquele centro comercial vi cada coisa que, se eu voltasse no tempo e contasse para o meu avô, com certeza ele me chamaria de potoqueiro. Havia uma ruma de gente batendo perna, e meu olho vadio ia pesquisando esses tipos andantes. Um magote de adolescentes que estavam naquela situação nem-nem. Nem se vestiam como homens, nem como mulher. Uma certa androginia em rapazes entre 13 e 17 anos que, para um senhor de minha idade é difícil de compreender.

Passei por um, vamos dizer, homem, na casa de seus trinta anos. Cabelos azuis, um bigodão à lá Nicolás Maduro, mais preto que a asa da graúna, unhas pintadas de um roxo ameixa, camiseta que só cobria metade do abdome, calção jeans e sandálias, dessa que mulheres usam, de mãos dada com uma mulher de cabelo roxo, camisetão, calça rasgada e coturno. Confesso que fiquei perdido em meus próprios pensamentos sobre o rumo que a sociedade está tomando com essas esquisitices de transformação de papéis de macho e fêmea.

Aliás, essa situação já vem me incomodando há um bom tempo e me preocupando também. O homem ocidental parece estar renunciando a sua condição de macho. Independente com que ele durma, ou com quem se relaciona, eu ainda sou do tempo que homem tem que ter aparência de homem, jeito de homem, fala de homem e comportamento de homem. A ideia do macho alfa, não é somente saudável para a espécie, mas também segurança, proteção, iniciativa, provisão. Neste século XXI, o homem está renunciando esse papel e deixando um vácuo perigoso para ser dominado por aqueles que não renunciaram a essa condição.

Isso não significa que o homem deva ser um troglodita, violento, espancador. Nada disso. Mas tem que ser o protetor, o provedor, o profeta e o sacerdote em sua casa, Na rua tem que ser o cuidador, o guarda-costas, a muralha em defesa da mulher e dos filhos, se tiver. Fico imaginando que, em uma situação de perigo, esse homem de hoje será o primeiro a correr e pedir asilo na primeira embaixada que encontrar e deixar mulher e filhos no sabugo.

E esse comportamento está se tornando normal nos adolescentes. Falam mole, se comportam como uma delicada flor. A macheza, e não o machismo, está sendo, aos poucos, apagada de nossa sociedade ocidental. O resto do mundo nos vê como fracos e frouxos. E, não há ninguém que ocupe esse espaço que o homem, conscientemente está renunciando e assumindo uma postura frouxa e covarde diante do resto da humanidade.

Findo aquele sacrifício, cheguei na minha taba com uma tristeza na alma e fui ver o noticiário. Acabei mais triste. Além da renúncia da macheza, o ocidente parece que se esqueceu de um ensinamento do filósofo George Santayana: desconhecer a história é repetir os seus erros. E, cada vez mais estamos esquecendo as lições da história, principalmente em relação a essa guerra de Israel contra os terroristas do Hamas, do Hezbollah e de outros grupos terroristas islâmicos. O mundo está, rapidamente, cometendo os mesmos erros que produziram a maior tragédia da história humana – o nazismo -, e todas as suas ações de horrores contra judeus, ciganos, gays e outros indesejáveis da Europa na primeira metade do século XX.

Os noticiários internacionais e nacionais escondem as imagens de horrores cometidos pelos terroristas contra bebês, idosos, crianças e mulheres, sempre com a desculpa de que as imagens são fortes demais para serem exibidas. Eu digo não. Essas imagens devem ser exibidas no mundo todo, porque só assim se aprende a repudiar o terror, e a não repetir os mesmos erros do passado. Só diante do horror é que o ser humano encontra a sua face mais nobre. Enquanto esse horror não for exposto, continuaremos nessa letargia moral, condenando a vítima e buscando, desesperadamente, justificativa para o ato terrorista.

A mídia, organismo internacional como a ONU, governos, principalmente o nosso governo, estão desesperadamente procurando uma justificativa para amenizar os atos terroristas do dia sete de outubro. O governo brasileiro está, dia a dia, cobrindo o país de infâmia, de vergonha, colocando a todos nós como defensores de terroristas, procurando em palavras defender o indefensável. O governo brasileiro, a cada dia busca uma justificativa na tentativa de cauterizar o tribunal moral do cidadão.

Justificar o terrorismo é, em essência, apoiar esse terrorismo, é validar-lhe o seu sentido de existir e chancelar suas ações monstruosas. O governo Lula, diariamente pisoteia as mesmas gargantas de bebês que foram cortadas por sádicos. O governo que se diz defender o direito das mulheres, é o mesmo que apoia o direito de terroristas de estuprar e matar mulheres, meninas, idosas, adolescentes. O governo Lula que diz apoiar a vida e o amor, é o mesmo que investe no ódio daqueles cujo único objetivo é matar o maior número de inocentes em nome de uma causa mentirosa. Onde o radicalismo islâmico se implanta, mulheres, crianças, adolescentes são igualados a animais, ou objetos. Mas, para o governo Lula, isso não tem importância. O importante é apoiar terroristas através de sua visão ideológica que cultiva a morte, desde que seja a morte do outro.

A ONU se tornou valhacouto de todo tipo de violador de direitos humanos, de todo tipo de tirano que usa um discurso mentiroso e asqueroso para oprimir, matar e sair impune. O senhor António Guterres, secretário-geral daquele organismo é frouxo, fraco e pusilânime. É um micróbio da diplomacia. Fico a pensar o que um Dag Hammarskjold, um U-Thant, ou mesmo Javier Perez de Cuellar diriam sobre esse senhor. Abertamente, o senhor Guterres apoia o sadismo terrorista e joga a culpa no Estado de Israel. O discurso de proporcionalidade na reação ao ataque sofrido, seria uma piada, se não fosse uma tragédia.

Israel, pela proporcionalidade deveria degolar o mesmo número de bebês? Estuprar o mesmo número de mulheres? Surrar até à morte o mesmo número de idosos? Lançar, a esmo, o mesmo número de foguetes? Atacar o mesmo número de jovens que estavam se divertindo? É asquerosa a fala do senhor Guterres e mais asquerosa a posição do Brasil na ONU. Esquecemos as lições da História. Hoje israelenses são chamados de genocidas e nazistas e esquecem o que Hitler fez nos campos de concentração na Alemanha, convenientemente esquecem o que Stalin fez nos gulags soviéticos. Esse esquerdismo sádico e doente está adoecendo o ocidente. A feminilização do homem, a sua frouxidão moral, sexual e comportamental levará o mundo a uma bendita guerra, que espero, recoloque nos trilhos, a nossa sociedade.

Como caeté só fico imaginando o momento em que esses frouxos e fracos terão que pegar no pau de fogo e defender seu estilo de vida. O contrário disso será a ponta de uma corda suspensa por um guindaste, como se faz, costumeiramente em Teerã.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

PAREM O MUNDO…. EU QUERO DESCER!

Pindorama, 25 de setembro de 466 d.S (depois de Sardinha). Essa semana que passou este caeté velho quase que encantou-se, ou quase foi conversar direto com Tupã, mas consegui afastar a urucubaca com uma boa pajelança e muito remédio de carniceiro (o popular médico na língua umbandista). Mas, mesmo estando igual a cachaço, sendo preparado para o natal – minha vida se resumia a comer e dormir, dormir e comer, além de fazer exames e fisioterapia -, não deixei de acompanhar as notícias da taba, e, confesso, eu acho que peguei o planeta errado, no ponto em que subi. Li e ouvi cada coisa que quero compartilhar a minha visão de caeté velho, aqui ao lado do fogo, enquanto lambo os beiços, esperando o acém do Sardinha ser assado.

A primeira notícia que se me chocou veio no zapzap da minha confraria, o Cabaré do Berto, postado pelo nosso sacrossanto papa e proprietário do dito cabaré, Luiz Berto Filho. A notícia, lá da querida Paraíba dizia que foi sancionada a lei da “Dignidade Menstrual”… What??? Como diria o gringo! Mas que porra é essa? Vamos por parte, caros curumins caetés. A notícia vai além. Segundo o governo daquele estado, agora meninas, mulheres e HOMENS trans poderão ter acesso “de grátis” a absorventes, coletores menstruais e calcinhas absorventes. Confesso que achei ser pabulagem de Berto. Fui conferir, e, não! Não era muganga, não! É verdade. Mas, o que mais me chocou na notícia foi essa história de homens trans menstruarem.

Novamente, meu caro curumim. Calma que o acém ainda não está pronto. Perguntei de mim, para comigo mesmo. Como assim, homens menstruarem? Ainda que um Tupinambá, um Nhambiquara, um Potiguara, ou até mesmo um Goyá possa vir chamar este caeté de retrógrado, obtuso, canhestro, e qualquer outro adjetivo que valha, que eu saiba, dos meus estudos, desde que o primeiro ser humano surgiu neste planeta, ainda balangando em galho de árvore, a menstruação é um fenômeno exclusivo, restrito e único das mulheres. E aí, chegamos à seguinte conclusão: por mais que o politicamente correto tente enfiar goela abaixo da indiaiada nacional de que existem “trocentos” gêneros, um simples fenômeno biológico coloca tudo nos seus devidos lugares. Até que haja alguém capaz de produzir uma panaceia em que homem, aquele que possui o XY no vigésimo terceiro par cromossômico, possa menstruar, até o momento esse será um fenômeno exclusivo das MULHERES. O resto, é só gambiarra politicamente burra.

A segunda notícia absurda veio pelos canais comuns que todo bugre nacional tem: o celular. Nele li a notícia sobre a demissão do GRANDE jornalista Alexandre Garcia da rede CNN – Cable News Network em língua imperialista, para agradar nossos luminares pogreçistas de Pindorama -. Adiante, li, também a justificativa da CNN para a demissão do jornalista. Nela, se dizia que o jornalista foi demitido por estar defendendo um tratamento que não tem “comprovação científica de sua eficácia” no combate à covid-19. Isto porque o jornalista testemunha que ele se utilizou dessa medicação e se curou quando contraiu o vírus. Aliás, acompanho o Alexandre Garcia na sua coluna, e ele sempre disse isso, que, contraiu o vírus, tomou o coquetel com hidroxocloroquina, azitromicina e dois dias depois, nem ranho nas bochechas tinha.

Mas, como em Pindorama tudo aquilo que está ruim pode ficar pior, a CNN, no parágrafo abaixo reitera seu compromisso jornalístico dizendo que é uma rede aberta para todas as “opiniões”, visões e crenças, as mais variadas, e que se pauta pela diversidade pelo respeito à livre manifestação de ideias e pensamentos. Como assim, meu senhor? Esse parágrafo não faz o menor sentido, não tem nenhuma lógica. É o famoso “samba do afrodescendente doido”, para ser politicamente correto. Os analfabetos que escreveram essa insanidade, ou foram alunos da Faculdade Dilma Rousseff de Língua Portuguesa, ou foram alfabetizados pelo método Paulo Freire. Isto porque em um parágrafo dizem respeitar, estar aberto e acatar as mais diversas opiniões, ao mesmo tempo em que demite um profissional que ousou expressar suas opiniões, que, em suma, são divergentes da redação dessa rede de TV.

Aí, meu caro, não dá. Ou é uma coisa, ou outra. Não dá para assobiar e chupar cana, colhendo a dita cuja num limoeiro. Ou é uma rede que aceita o contraditório, ou não é. Ficar jogando essa lorota para cima do público não cola. Não dá! Ou os analfabetos da redação da CNN acreditam que o cidadão brasileiro não sabe juntar B+A? Antes a rede tivesse demitido e ficasse calada. Sairia barato. Quando ela tentou se explicar, esmerdalhou tudo. Foi o famoso fazer o tolete, sentar e esfregar, para ficar bem sujo. Minha mãe dizia… a emenda saiu pior que o soneto.

O terceiro ponto, e esse, eu confesso, me arrepiou os “cuelhos”, foi assistir a uma palestra do ministro do stf – assim mesmo com minúscula, para homenagear o gigantismo dos iluministros daquela corte -, Luiz Roberto Barroso, o popular Lulu Boca de Veludo, como diz Bob Jeff, na Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, entidade centenária, gloriosa na luta pela liberdade de opinião e liberdade de imprensa, falando sobre combater as mentiras – fake news na linguagem politicamente correta -, aventando para isso a necessidade do Estado agir para coibir, restringir e eliminar essas notícias falsas.

A barbaridade da fala do ministro associava-se à barbaridade com que os membros da ABI, não somente aprovavam aquela fala, como se colocava no mesmo patamar de ação do iluministro. Meu senhor, o nome disso que o senhor prega e que a ABI concorda é CENSURA! Só isso. Não cabe ao estado esse papel. O brasileiro não é um ininputável, ou mesmo um idiota – no conceito estabelecido pelo Código Civil -. Ele sabe escolher o que quer consumir, ou não. A melhor arma contra as ditas fake news é o controle do cidadão nas suas redes sociais, no seu celular, na sua televisão, ou no seu radinho de pilha. O que passa disso é sanha autoritária de candidato a protoditador.

Uma barbaridade dessas sair da boca de Lulu eu não me admiro. O que me admira é ver a ABI, uma entidade que um dia foi presidida por Barbosa Lima Sobrinho, abaixar as calças e preparar a vaselina para que um ditador qualquer atoche-lhe a trolha do “cale a boca”. Isso não somente me assusta, mas causa-me calafrios ainda que eu esteja à beira da fogueira. Hoje, essa sanha de censura está calando as ovelhas rebeldes. E, o que acontecerá amanha, quando todas as ovelhas rebeldes estiverem caladas? Então saberemos que a entidade que um dia se debateu contra o cala boca oficial, na atualidade está ajudando a construir a masmorra onde ela mesma passará trancada o resto de seus dias.

Em torno de toda essa lambança que li e ouvi, enquanto era paparicado por todo tipo de enfermeiras, algumas com um par de platibandas, que só de olhar revigorava qualquer pingolin já jubilado e em aposentadoria compulsória, fui reparando que, nalgum ponto qualquer da vida, eu peguei o planeta errado em alguma curva senvergonhista. Misturei assunto de dico voador, com casamento e escravidão e olha no que deu. Ah.. espere um minuto. Motorista!!!!! Pare o planeta…. eu quero descer!!!!!

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

A ESQUERDA E O HAMAS

Esta semana tem feito muito calor, mas muito calor aqui na gloriosa Campo Grande. Em média, a cidade está registrando 35 graus Celsius todos os dias, com pico de 36 a 37 graus, o que para os Ñambiquaras da cidade é muito alta, já que a média anual aqui é de 27 graus Celsius. Mas, mais do que o calor daqui, mais do que os ataques terroristas do Grupo Hamas a Israel desde o último fim de semana, provocando uma carnificina e brutalidade sem paralelos, com monstros morais degolando bebês, o que mais queima, na fogueira anticivilizatória caeté, da grande Taba Nacional é o malabarismo linguístico feito pelas autoridades públicas e pelos jornalistas, de todos os espectros ideológicos da Bananolândia.

Tenho acompanhado alguns noticiários nacionais para assuntar em que pé está a reação legítima de um Estado soberano, com leis civilizadas, respondendo, com todo o seu direito, à lutar e por fim ao terrorismo que o assola e que, se não for extinto, nunca aquela região terá uma oportunidade para uma convivência pacífica e civilizada. E, aqui, vai, inclusive, uma conclusão extemporânea minha: o caminho para a paz na Palestina será construído apenas com a extinção de grupos terroristas como o Hamas e o Hezbollah. Se isso não acontecer, os conflitos serão ad aeternum, para ambos os lados.

Porém, naquela situação externa, sou mais um opiniático, do que um especialista, mas as movimentações aqui na Botocúndia, com o governo em uma corda bamba suspensa a 500 metros de altura, a situação seria risível, se não fosse trágica, com efeitos duradouros nas próximas gerações e que colocará sobre todos nós o estigma da infâmia e o tratamento como cidadãos planetários indignos de qualquer coisa que se chama civilização, ordem, ou moralidade. De fato, como nossos representantes e chefes de governo estão se posicionando, aponta para um caminho que nos leva direto à barbárie, à anticivilização. Mesmo eu, caeté que sou, que gosto de me aquentar no fogo onde cozinho as partes suculentas do honorável bispo Dom Pero Fernandes Sardinha, já percebi que, até mesmo para um selvagem, o direcionamento para qual o governo federal está nos levando, nos coloca vários quilômetros abaixo do mais bárbaro e cruel povo que já existiu neste planeta e nos cobre de infâmia à vista do mundo civilizado.

Como tenho observado o malabarismo oficial do governo de esquerda em não condenar e nem chamar os terroristas do Hamas pelo nome – terroristas -, fiquei-se-me a pensar no motivo que leva a isso. A conclusão mais óbvia, e, possivelmente a mais rasteira é que há uma identificação de método e de objetivo entre essa esquerda e o terrorismo. PT, PcdoB, PSOL, PCO e qualquer outra coisa que valha se posicionam ao lado do Hamas e não os classificam como terroristas porque há uma identidade que os liga. As ações levadas a cabo por este ajuntamento de sádicos é o mesmo motus – caeté também sabe latim – que impulsiona a esquerda. Dessa constatação surge um corolário: a esquerda comemora as ações do Hamas como uma catarse que supre o desejo de não poder fazer aquilo o outro fez.

Em tese, pode-se resumir da seguinte forma: a não condenação dos atos sádicos do Hamas, a negativa em classificar aqueles atos bárbaros como atos terroristas é porque aquele grupo faz exatamente o que a esquerda ainda não pode fazer, veja, frisem bem esse “ainda”, no ocidente. Tire-se-lhe qualquer freio legal e eles farão exatamente como o Hamas fez em Israel. E, não sou eu quem o afirma. A história afirma e comprova isso. Na extinta União Soviética, em Cuba, na Nicarágua, na Venezuela, no Camboja, na China, no Vietnã, em Angola, em Moçambique. Todos esses países que foram dominados pela esquerda fizeram, ou fazem o mesmo que o Hamas fez, apenas utilizam métodos diferentes, mas o fim é o mesmo: provocar o terror e amedrontar a população para que seus desejos sádicos sejam absolutos.

A esquerda brasileira, principalmente, vive em um mundo maniqueísta. Há sempre o nosso lado e o outro lado. Não passa pela cabeça deles a pluralidade de pensamentos, de ideias, de pessoas, de modo de ser. Quando adotam pautas como a do negro, a do pobre, a do LGBT, a do índio, são apenas pautas utilitárias com o objetivo de tomar o poder e nele permanecer. Não há identidade nenhuma com essas pautas, ou mesmo com as reivindicações legítimas dessas pautas. A estratégia é encampar a pauta, depois que chegou ao poder, abandoná-las e implantar uma suposta igualdade com base no terror.

A negativa em chamar as coisas pelos seus devidos nomes é um anátema. Jamais a esquerda brasileira vai chamar o Hamas e o Hezbollah por aquilo que eles são, haja vista o modo de agir, os objetivos e o ponto de chegada ser o mesmo: espalhar o terror, matar quem a eles se opõe e tomar o poder à força e permanecer nele para sempre. Essa identidade os une e os liga. Não conseguem ultrapassar essa visão maniqueísta de mundo não é porque não podem. Não querem, já que, uma vez reconhecida essa fronteira, acaba seu sentido de existir no mundo. Reconhecer a humanidade do outro implica em ver o outro como uma imagem da divindade e que tem semelhanças ao meu “eu”. Daí a necessidade da despersonalização, da desumanização, da linguagem neutra usada para o outro. Na despersonalização do outro, abre-se o caminho para exterminá-lo sem que haja qualquer reprovação moral, ou civilizatória deles.

Na outra ponta, o que se observa é o jornalismo bananeiro, excluindo-se a militância da esquerda nas redações de jornais, rádios e televisões, os ditos jornalistas independentes, quando de suas falas, chegam à mesma conclusão que estou expondo aqui. Só falta a eles dar aquele passo decisivo, final e expor esse concerto de ideologias e modo de agir entre a esquerda brasileira e os grupos terroristas do Hamas e do Hezbollah, entretanto, essa coragem, essa centelha civilizatória que deveria detonar a bomba da verdade, falha no momento mais crítico deles. Assim, buscam uma explicação que, aqui em Campo Grande, nós chamamos de “meia-boca”, ou seja, uma explicação que nem revela a verdade e nem esconde a mentira.

Como disse, venho acompanhando os noticiários desse ataque terrorista e vendo como muitos que se dizem “especialistas”, tendem a encontrar um meio termo que justifique a barbárie e responsabilize a vítima. E aqui, deixo um alerta: justificar um ato terrorista, ou qualquer ato anticivilizatório é apoiá-lo. E, vemos isso cotidianamente nos noticiários, nas notas mambembes e desiquilibradas das nossas autoridades, e até mesmo naquele ajuntamento de inutilidades chamado Organização das Nações Unidas. Vendo a entrevista do senhor Antonio Guterres, o dito secretário geral da ONU, chegaria a ser risível, se não fosse trágico, a sua discurseira tentando justificar ataques terroristas, colocando a culpa no agredido e pedindo ao agredido moderação. Aquele senhor teve uma postura asquerosa discursando sobre cadáveres de quarentas bebês degolados por sádicos, enquanto a matança de inocentes continua.

Então, meu caro caeté, tupi, guarani, xingu, cinta-larga, e outras etnias de Pindorama, pense bem. Avalie o que está ocorrendo aqui, fugindo do pensamento maniqueísta. Não é dar razão a este, ou aquele, mas sim locubrar (para você Violante), à luz do processo civilizatório como Pindorama está e como estará amanhã com todo o seu povo apontado como infame perante a taba global em que vivemos.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

LINGUAGEM NEUTRA

Esta semana quente, aqui na Botocúndia, o que mais ferveu foi o deboche da “ministre” da tal igualdade racial e sua aspone, indo assistir jogo de futebol torrando nossa grana, e depois essa mesma aspone demonstrando qual a verdadeira função desse dito ministério, usando para isso uma forma macaqueada da “Inculta e Bela”, derramando ódio racial, xenofobia e arremedo de guerra entre diferenças etnias, como se o estudo do DNA não tivesse provado que o ser humano, independente de cor da pele, dos olhos, do tamanho dos beiços e coisa que o valha, só se diferencia de uma espiga de milho, por cerca de 1,8% do seu total de genes.

Mas o assunto é outro, e me desculpem se for um texto mais longo do que a paciência de vocês, mas considero necessário trazer esta discussão, até mesmo para alertar aos aiatolinhos que gostam de usar a linguagem neutra, como se ela não tivesse uma função histórica e que nada tem a ver com o discurso de inclusão daqueles que não se colocam nem como homem, ou como mulher, ou árvore, ou espiga de milho. Na fluidez de nossa sociedade, cada um seja o que bem entender, mas uma coisa é certa: é necessário conhecer o que está sendo dito, afinal, palavras possuem significados e sentidos que se emaranham com a história e o comportamento humano.

Para que se possa entender o que é linguagem neutra, necessário que se conheça, primeiramente, o significado da palavra “pessoa”. Esse termo surge, na escrita, pela primeira vez, nos versos do Baghavat Gita, e no poema sagrado Mahabarata, em “sânscrito”, língua falada na Índia, antes da invasão dos povos indo-europeu e ariano, há mais de três mil anos. O vocábulo utilizado para “pessoa” era parisu – vou deixar os termos em outras línguas em itálico para melhor diferenciar -. Parisu significava, literalmente, naquela língua, “Imagem da Divindade”, ou semelhança com Deus. Não é à toa que o Livro das Gênesis, da Bíblia judaico-cristã usa um vocábulo que é quase um espelho do vocábulo parisu para se referir à criação do homem, quando Deus diz “façamos o homem à nossa imagem, segundo nossa semelhança”. Isto é, o vocábulo “pessoa”, na forma original significa, literalmente possuir a imagem de Deus.

Na evolução da palavra parisu, pela troca e contato cultural, os gregos construíram o termo prósopos, denominando as máscaras utilizadas no teatro, pois criam que a arte era a encarnação da divindade, então, quando os artistas colocavam aquelas máscaras, na verdade grega, eram os deuses que se encarnavam nas personagens e agiam por elas, mantendo a mesma raiz de semelhante à divindade. Da palavra grega prósopos surge a figura de linguagem prosopopeia, ou seja, a personificação de algo, ou alguma coisa, nas línguas neolatinas.

Na Roma antiga, a palavra prósopos foi transliterada para a palavra latina persu, que deu origem, nas línguas neolatinas as palavras pessoa (Português), persona (Espanhol e Italiano), person (Francês), e por aí vai, porém, todas elas mantendo esse vínculo com a ideia original de que a “pessoa” é um espelho, ou um reflexo do divino. Dito isto, se faz necessário saber onde a linguagem neutra se encaixa nessa história toda.

É sabido pelos linguistas e pelos especialistas em Gramática Histórica que o latim – tanto o vulgar, quanto o literário – possuíam três gêneros: o masculino, o feminino e o neutro -. O termo neutro era, originalmente, utilizado para se referir a objetos, animais, quinquilharia de qualquer natureza. Entre os governos de Otávio, já entronizado como Augusto, Tiberius Cesar, Calígula, Claudio Cesar e Nero, Roma como capital de um vasto império também possuía seus cidadãos invisíveis e indesejados. Esses cidadãos eram excluídos do ambiente urbano e confinado no que se chamava de “salária”, bairro imundo de Roma, próximo à cloaca máxima, que era onde a cidade de Roma despejava todo o seu esgoto no rio Tibre. Essas pessoas necessitavam ser apagadas do convívio social, como algo não existente, aproximado de um objeto, animal, ou coisa. Desse período passou-se a aplicar a essas pessoas o pronome neutro, a linguagem neutra, como meio de cauterizar a consciência do cidadão de que aqueles seres também eram “pessoas”. A linguagem neutra foi usada para subtrair essa condição de personalidade daqueles cidadãos romanos e outros indesejáveis. Se morressem, não foi um ser humano, foi algo semelhante a se quebrar um vaso, morrer um cachorro. E assim a consciência do cidadão romano ficava tranquila consigo mesma, afinal aqueles ali não eram persu, não possuíam a imagem do divino. Eram coisas.

Com a incorporação do gênero neutro na evolução do latim para as línguas modernas neolatinas, essa característica foi se perdendo, porém, voltou com toda a força durante a Segunda Guerra Mundial nos campos de concentração de Awuchsvitz, Dachau, Sobibor, Treblinka e outros. Os nazistas, além de tatuarem os prisioneiros – judeus, ciganos, homossexuais, entre outros, com um número -, passaram a utilizar uma linguagem neutra para se referir a essas pessoas, com o mesmo objetivo, desumanizar aqueles prisioneiros, nivelando-os a objetos, coisas, cujas mortes não causasse impacto psicológicos neles.

Quando os nazistas se referiam a esses prisioneiros, era usando, exatamente o pronome neutro, a linguagem neutra na tentativa de “despersonalizar”, ou retirar a imagem do divino existentes nessas pessoas, para melhor matá-las. Afinal, alguém que não possui essa característica não é melhor, ou mais importante que um sofá velho todo rasgado, ou uma panela furada, ou uma caneca quebrada. Joga-se fora e não se pensa mais nisso. Não há identidade comigo, não há semelhança que nos une e que nos liga a uma ideia de divino. Descarta-se e pode dormir com o tribunal da consciência em recesso permanente.

Alexander Solejnitz, no livro Arquipélago Gulag descreve a mesma situação vivida nos campos de concentração nazista, só que descrevendo os campos de concentração do regime comunista da União Soviética à epoca de Stalin e depois de Kruschev e Brejnev. Os prisioneiros e indesejáveis daquele paraíso socialista, quando chegavam a cidades prisões como Gorky, Yakutsky, Oymiakhon, recebiam um número como identificação, e não eram chamadas pelo nome, mas sim pelo número. Outra forma de anulação da condição de “pessoa”. Um número é fácil de ser apagado dos registros, é apenas uma sequência de algarismos que não reflete uma personalidade ligada à semelhança do divino. Com isso, o regime comunista, tal qual o nazista conseguiu matar milhões, sem sensibilizar as demais pessoas, afinal, ali, aquele número, aquele pronome neutro não ligava, ou assemelhava, ou melhor, dessemelhava um do outro. Não havia uma identidade, de que o outro é igual a mim, que temos uma semelhança com algo maior, com o divino. Era só um número, era só um “elu”, “Ilu”, “pauliste”, “safade”, ou algo desse tipo. Por quê o “EU” deveria me importar com algo que não se identifica comigo?

Esta digressão longa, na verdade, não saiu de minha cabeça, o Doutor Thiago Pavinatto, apresentador do canal “os tremas nos us”, do Youtube tem um excelente livro que trata desse tema com mais profundidade e fontes bibliográficas bem mais consistente, apesar de eu dominar essas informações há algum tempo, mas entre o calibre intelectual do doutor Pavinatto e minhas caetices bem miolo de pote, sugiro a fonte desse autor.

No entanto, creio que pude, pelo menos, abrir uma discussão, principalmente entre aqueles que defendem essa estropiação da Língua Portuguesa, que denominam de “linguagem neutra”. As pessoas que esposam essa ideologia estão embarcando em uma canoa radical que, à semelhança da Roma antiga e da Alemanha do período nazista e dos países comunistas, vai causar uma tragédia humanitária gigantesca, afinal, que importância tem “elu”, ou “ilu” morrer? Não são humanos, não possuem essa “imagem e semelhança” do divino que o “eu” possui. Vejam, então, o perigo que nossa sociedade está a repetir, por desconhecer a sua própria história.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CAETICES II

Ziad

Ziad Daud Ibrahim era comerciante de papelaria em Corumbá/MS e sua loja era bem movimentada porque fazia as vendas a crédito a todas as escolas públicas do município, na base do: quando entrar o dinheiro a gente corre aqui e paga. Naquela época eu adjuntava com a diretora da escola onde trabalhava e era o preferido para negociar com ele. Na sua língua arrevesada sempre dizia “brofessora Neuza non boa negociante, Ziad brefeve brofessor Roque”. Isso porque o velho gostava era de negociar, e não vender. E a negociação demorava horas, misturada com chá e pechincha. Seu filho, Sami era um amor de pessoa. Educado, fino, delicado. Alguns, na atualidade iriam dizer que era fresco, mas não. O rapaz era trabalhador e sabia conquistar fregueses. Casado, com um moleque de 4 anos que tinha o satanás no couro. Certa vez em uma negociação vespertina, vi o garoto ir para a rua. Seu Ziad, com um corpanzil de entulhar qualquer recinto, de dentro da loja grita: vilhinha, entra loja, entra senão babai dá a bunda! Olhei para o lado, disfarcei o sorriso e continuamos a negociar.

Eulâmpio

Eulâmpio foi meu aluno na sexta e sétima série do antigo primeiro grau – daí vocês já percebem que este caeté que vos fala já tá queimando óleo 45 e prafrentemente disso – Menino fora de tempo, atrasado em todas as situações, até para falar. Certa vez cobrei dele uma atividade de Língua Portuguesa que passara uma semana antes. Deu aquele sorriso idiotizado, escandindo cada ritmo do riso. Professor – numa voz que misturava batata assada e mingua na boca -, eu não fiz. Sai com minha mãe e esqueci. Isso porque eu pedira a atividade na quinta, e já estávamos na segunda-feira da semana seguinte. Coçou a cabeça, enfiou o dedo no nariz e foi sentar. Na última vez que o vi era assessor parlamentar de um vereador da Cidade Branca. Nesse momento me deu vontade de também sorrir com aquele olhar abobalhado que era a marca registrada de Eulâmpio com todos os seus professores.

Tio Vicente

Tio Vicente – saudoso e alegre tio – era loroteiro até não poder mais. Não pescava nem gripe, mas todo fim de semana era convidado pelos amigos para ir para a pescaria, só para ouvirem as lorotas dele, e meu irmão Heraldo atiçava ainda mais esse lado dele. Certa vez, na fazenda contamos que vimos um ninho de arichiguana – é um tipo de abelha preta que dá muito aqui no Centro Oeste. Produz um delicado mel claro, mas ferra doído -. Tio Vicente, de imediato disse que iria pegar essa colmeia. E planejou: iria montar em um cavalo, galopar, passar pela colmeia, laçar o tronco onde ela estava. Com a corrida, o tronco batendo no chão, espantaria as abelhas e ficaria só os favos de mel. Melhor dito, foi executado. Nós observando as peripécias dele. De fato, galopou, laçou o ninha e saiu correndo. Quando o laço deu o estirão, a cilha do cavalo arrebentou e o laço fez o efeito elástico. Titio voltou com a cela e tudo e bateu de costas no tronco onde estavam as abelhas, perdendo o ar. Voltou quinze minutos depois, todo ferrado e ameaçando surrar o primeiro moleque que risse dele.

Tio Coró

Tio Coró, também conhecido como Sebastião Siqueira da Cunha, tio por ter casado com minha tia era funcionário do Banco do Brasil, mas o que mais gostava era de caça, na época em que as pessoas se preocupavam mais com a manutenção da família do que em queimar mato enrolado em seda. Naquela sexta à noite, saiu ele e dois cupinchas que não se desgarravam e foram caçar cateto nas matas de São Vicente, a uns 80 Km de Cuiabá. Tio Coró tinha uma carabina 12 cano serrado. Dedé, amigo, compadre e cúmplice dele só relatou o seguinte: estavam no carro quando tio Coró viu um vulto correndo ao lado da pista. Sacou a sua carabina e lascou o tiro. O gatilho até pulou na alegria da pólvora. Mas, tio Coró esqueceu que a carabina tinha cano serrado e colocou a mão de apoio bem na boca do pau de fogo. O resultado foi dois dedos da mão esquerda a menos, uma corrida no pronto socorro e uma semana meu tio enchendo a paciência de minha tia, em casa, por causa do incidente.

Alvino

Outro que gostava de caça era o cunhado de meu irmão o Alvino. Meu saudoso irmão, Ronaldo contava que certa vez foram levar uma carga da cidade para o sítio de um senhor em que ele trabalhava de motorista, naqueles caminhões Mercedes, que o povo de má língua chama de muriçoca. Alvino levava a espingarda – e naquela época era muito comum, não tinha essa baboseira de porte e posse de arma – ao lado de seu banco. Meu irmão contava que Alvino viu um vulto correndo ao lado do caminhão, pediu para meu irmão segurar a direção, sacou a carabina e deu dois tiros no vulto que entrou no mato. Parou, desceu e foi ver o que havia abatido. Encontrou o estepe do caminhão que se soltara, com dois tiros na banda de rolagem, morto, mortinho da silva, em uma vala ao lado da rodovia.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

FOGUEIRAS

Esta semana que se passou, apesar de ter parecido uma semana comum, nada de comum teve. A princípio, o pajé ladrão de canetas estava fazendo o que mais gosta, além de afanar o que é dos outros, passando a mão na cabeça de ditadores genocidas, perdoando dívida com o dinheiro que não é dele, e avuando, como se a taba nacional não estivesse à beira do abismo. Depois de empossar um ministro que atende pelo nome de Fufuca – Santo Tupã, isso é nome de alguém que quer ser respeitado? -, foi divertir-se às nossas custas no inferno capitalista, sem antes não deixar de passar naquele paraíso onde leite escorre das árvores, rapadura brota da terra, carne se colhe em árvores e todo mundo canta liberdade. Isso mesmo, ele deu uma passada em Cuba.

Todavia, não é sobre isso que quero discutir aqui, mas abordar algo que está mais próximo de nós, e que, se não abrirmos os olhos vai, fatalmente nos torrar. Falo sobre a fogueira inquisitorial que o supremo tribunal federal – assim mesmo, em minúsculo, para homenagear a grandeza daquele tribunal – acabou de acender, em nome de defender a democracia, o estado de direito e a verdade no país.

Sindicatos como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Brasileira de Imprensa, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ou não abriram os olhos, ou estão sendo coniventes com as barbaridades ali praticadas, na vã esperança de que essa fogueira não espalhará fagulhas, ou mesmo labaredas em seus ternos caros, ou em suas batinas de cetim. Puro engano. Quando uma fogueira desse calibre começa a queimar ninguém escapa, ninguém sai ileso. Uns serão incinerados, outros tostados, outros sapecados, mas verdade é que toda a nação brasileira será afetada por essa fogueira inquisitorial que se acendeu esta semana em Brasília.

Assisti a um bom pedaço do julgamento dos acusados de “golpe” contra a democracia brasileira. Primeiro, já é uma aberração legal aquelas pessoas estarem sendo julgadas em um tribunal, legalmente descrito como constitucional, e que só julga quem tem foro privilegiado por prerrogativa de função, ou seja, só julga tubarão. Bagres tem que ir para a justiça de primeira instância e ter direito ao duplo foro de julgamento. Sendo julgados ali, a quem vão apelar, caso sejam condenados por maioria? Ou melhor, vou fazer baixar em mim o espírito de Cícero e perguntar: quid custodit custodes? Ou seja, quem controla os controladores?

Há mais um agravante, que, na verdade é uma aberração jurídica e transformou o juiz em promotor, investigador e carrasco do réu. Qualquer movimento, ato, palavra, ou mesmo apelo a um, tende a ser barrado pelo outro vestido no mesmo ser. Inverteu-se a lógica jurídica do país. O princípio de que ninguém é culpado de algo até sua prova em contrário foi jogada na lata de lixo. Hoje, todos nós somos culpados de algo, e cabe a nós, os acusados, provar a nossa inocência, e não quem nos acusa. Mesmo porque quem acusa é quem vai investigar, depois julgar, e aplicar a sentença.

Confesso a vocês que não vi ali, naquele circo armado, pessoas ciosas da lei, mas sim a encarnação de Tomás de Torquemada, com uma capa preta, citações em línguas estrangeiras, baba escorrendo no canto da boca, vociferando, atropelando fundamentos básicos das modernas democracias e do estado de DIREITO, isto é, um sistema em que a LEI está acima de tudo e de todos, buscando apenas uma só sentença: CULPADO.

Esse arremedo de julgamento, porque está mais para um processo inquisitorial, acabou de acender uma fogueira monstruosa que vai incendiar todo o país e deixar cicatrizes que vai levar gerações até ela parar de incomodar. Vivi para ver homens cultos, cheios de títulos acadêmicos, falantes de várias línguas, aparentemente refinados em seus modos, encarnarem o que há de mais hediondo e abjeto da história na humanidade e aplicar, não a lei, mas uma sentença de vingança, pois é disso que se trata, de vingança. Já que não podem, por enquanto, por em mãos seu principal alvo de ódio e revanchismo, vão, com a fogueira que acenderem, calcinando e incinerando todos aqueles que entendem estar a favor desse objeto de ódio e de vingança.

Não foi um julgamento. Ainda que aqueles senhores assim o descrevam, não há sombra qualquer de um julgamento, a começar pelo local, passando pelos inquisidores e chegando ao Torquemada com sua voz de pato rouco que quer calcar a nação com toda as suas manhas e birras. O supremo tribunal federal acendeu uma fogueira imensa e colocou nas mãos de um Torquemada insano a direção e o atiçamento dessa fogueira. Os condenados ali a penas severas foram os primeiros a sentir o calor das chamas e da vingança inquisitorial daquele organismo. Outros virão. Outros serão queimados também. Para a fogueira…. para a fogueira era o que eu ouvia, e não a leitura de um voto sensato e baseado na lei.

Pedir a quem poderia por um basta nessa sandice é inútil. Até hoje não vi um deputado, um senador, ou mesmo um grupo de parlamentares denunciar esse estado de coisas, seja aqui mesmo, ou em organismos internacionais e denunciar que Pindorama deixou de ser uma democracia. Viramos um estado autocrático que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Como o parlamento pindoramense segue a máxima de que “ninguém solta do rabo de ninguém”, a situação tende a piorar. Nem nas Frouxas Armadas, que, em última instância, acovardando-se o parlamento, como tem acontecido, poderia por ordem no galinheiro, digo, nas instituições, se pode mais confiar.

Eu mesmo, posso até ser preso por causa deste texto. Mas, sabem, estou precisando de férias. Uns quatro meses longe de minhas atividades até me fariam bem. Tenho curso superior, um doutorado, não vou ficar em cela comum. Mas, brincadeiras à parte, está ficando perigoso ser patriota nestas terras. Instituiu-se na mão grande, um Tribunal da Inquisição cujo único objetivo é condenar e punir aqueles que não fazem as suas vontades. Direito, lei, processo legal, juiz natural, dupla jurisdição, isso é coisa para frescos. Nosso Tomás de Torquemada quer sentir cheiro de carne queimada de todos aqueles que não se ajoelharem a seus pés e beijarem suas mãos.

Aí volto aos sindicatos que mencionei no começo deste texto e aos demais cidadãos de Pindorama com uma questão de fundo: no momento estão levando para a fogueira inquisitorial todos os rebeldes que não pedirem benção para nosso Torquemada. E a hora que esses rebeldes forem todos para a fogueira, quem vocês acham que serão os próximos a experimentar as labaredas purificadoras que ardem na fogueira acesa em Brasília esta semana?

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

7 DE SETEMBRO

Neste ano de 467 d.S. (depois do Sardinha), ou 2023 d. C (depois de Cristo), como os ocidentais preferem chamar, estava bispando as redes sociais, assuntando as comemorações do dia da independência do Brasil – Pindorama para os nativos caetés como eu, e bugres das demais nações botocudas -, e percebi o que todo mundo percebeu e comentou: a falta de povo nas ruas para aquilo que se chama de data cívica, ou o marco de separação política entre Brasil e Portugal, lá no longínquo ano de 1822, ainda que o decreto de independência tenha sido assinado pela Princesa Regente, Dona Maria Leopoldina, da casa de Habsburgo. Como todo brasileiro gosta de fantasiar, creditaram ao príncipe cagão, Dom Pedro e à data 7 de setembro, o marco da independência.

Explico o cagão. Dizem as más línguas que o príncipe Dom Pedro estava com a maior diarreia quando as cartas das Cortes Portuguesas e a carta de dona Maria Leopoldina chegaram a ele. Essas mesmas más línguas dizem que ele estava se obrando em uma moitinha quando leu as cartas, subiu no seu jumento – isso mesmo, quele quadro do Pedro Américo é apenas uma fantasia que quis comparar Pedro a Napoleão, montando em um cavalo garboso -, e gritou o seu famoso “Independência, ou morte!”. Mas, a independência já era favas contadas desde o dia 2. Ou seja, o Brasil deve sua liberdade a uma mulher que adotou esta terra como sua e a amou com um amor incontido, a ponto de ir contra a sua própria família, na Áustria, e assinar o decreto de emancipação do país.

Mas o 7 de setembro deste ano de 2023, confesso, arrepiou-se-me até os cabelinhos que ficam perto do ossinho do mucumbu, justamente pelas contradições evidentes que foram mostradas pelos meios de comunicação, sejam os domesticados a custo de verbas “più grassa”, ou aquelas ovelhas rebeldes que ainda não receberam um cala boca em dinheiros, ou em ordem judicial. E, pelo andar da carruagem, ainda neste ano receberão, vindo do Executivo, na forma de verba publicitária, ou do judiciário, na forma de decisão monocrática para não tratarem sobre determinados assuntos. Só faltam escrever: “de ordem superior fica proibido….”. Só isso, porque o resto, nada mais nos desassemelha a uma Cuba, Coreia do Norte, ou Venezuela, em termos de autoritarismo.

O presomente, digo, presidente de plantão, em um discurso um dia antes do fatídico sete de setembro disse que essa data foi apropriada pelos militares e que pretendia devolvê-la ao povo. Estranho! O que se viu no dia sete foi justamente o seu contrário. Faltava povo e sobrava militares das três Frouxas Armadas, seja no palanque de “otoridades”, ou mesmo nas ruas desfilando. Mal sinal. Como dizia o saudoso general Reinaldo Melo de Almeida, “isso é fumaça de cacique”. Alguma coisa errada não está certa, ou existe algo fora do lugar.

Já disse e repito, e Violante Pimentel pode atestar isso de escritura lavrada e passada em cartório. Não faço exercício de futurologia, mas sei muito bem ler o passado. E o passado de ontem me deixou com um gosto não muito bom de banana verde na boca, ou de macaúba passada. E esse gosto está justamente na falta de povo na dita data cívica. Até parecia aqueles desfiles que ocorriam na União Soviética debaixo de um frio de menos 30 graus. Só que lá, quem não comparecesse iria quebrar pedra na Sibéria por uns trinta anos, para aprender a ser cidadão.

Os meios de comunicação, sejam os adestrados, ou os rebeldes foram unânimes em mostrar a falta de povo nesse evento tão decantado e louvado. Mesmo anunciando que o governo iria distribuir pão com mortadela, um ki-suco, e uns trocados para a indiaiada, além de coagir servidores da nação a participarem do evento, sob pena de perderem a boquinha de um cargo público, ainda assim o recado parece ter sido dado de forma clara e objetiva. Foi um vexame de proporções oceânicas. Penso até que a raiva deles é que aqui não existe uma cidade como Yakustky, na Sibéria, onde, quando muito faz calor chega a menos 19 graus Celsius, mas geralmente a temperatura fica entre menos 35 e menos 60 graus Celsius. Se houvesse, iria faltar oca para deportar tanto Nhambiquara que ousou deixar de participar daquele evento e demonstrar que é cidadão de fato.

O que se viu no desfile da oca federal foi um palanque em que o presomente, a primeira gastadeira do país, estavam rodeados de melancias, de espertalhões, de políticos que estão cagando e andando para o país e de uma plateia amestrada a soldo de uns caraminguás que saiu das burras de todos os otários pagadores de impostos. Ainda assim, não foi suficiente para não se deixar de fazer comparações com aquela feita no ano de 2022. E, digo que essa comparação me arrepia, não por causa de um patriotismo rastaquera, ou um ufanismo acaciano. Já disse, sou caeté. O meu negócio é o honorável Bispo e suas carnes. O que passa fora de minha taba, faço igual aos meus doguinhos. Cago e ainda dou umas patinhadas de terra em cima, para aliviar o cheiro.

Mas, o recado foi dado, e, apenas se existir brasileiro, ou canalha demais, ou ingênuo demais, é que não vai perceber. Como eu não acredito na segunda hipótese, ainda que acredite no Anhangá, no Curupira e na Mãe-D’água, ainda assim, não sou canalha, muito menos ingênuo. E, para aqueles que não o compreenderam em toda a sua extensão, este foi o recado dado: Governo sem apoio popular não dura muito tempo! Até o final desta quadra de 2023 acontecimentos bastantes interessantes ainda virão, para o bem, ou para o mal de Pindorama. Quem viver verá, ainda que seja apenas uma análise vagabunda e descompromissada com os fatos, como o que estou fazendo.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CAETICES

Amor Escatológico

Dizem que a primeira vez de um homem não se esquece nunca. Bem, meu concunhado até hoje se lembra da primeira bimbada com a namorada. Foi no mato, mas mato mesmo. Morava em frente ao pátio da esculhambada Noroeste do Brasil – estrada de ferro pertencente à antiga RFFSA -. De noitinha, catou a menina e foram dar uma, no que antes era conhecido como “matel”, ou seja, o motel no mato. Acho que a vontade era tanta que se deitaram e mandaram ver. Quando a menina se levantou, uma mancha marrom de cheiro repugnante no cabelo dela e na saia longa. Eram protestantes. Na pressa do amor selvagem deitaram em cima de um montículo de merda humana. O negócio foi explicar depois aquela mancha malcheirosa para a família.

Filosofanças Caeté

Cabeça de caeté vazia é oficina do Anhangá, sempre digo isso. E hoje, enquanto enfiava peido em barbante me peguei pensando: alguns estudiosos do sobrenatural dizem que o vampiro bebe sangue por causa das proteínas presentes nesse tecido. Ora, pensei. O esperma humano possui quase doze vezes mais proteínas que o sangue, então, porque será que o Conde Drácula não chupa uma rola, ao invés de um pescoço? O ganho seria muito maior, não acham?

Joaquim Rubafo

Ganhou esse apelido em homenagem ao peixe pantaneiro que tem uns três quilos de beiço debaixo da mandíbula, e fazia jus ao apelido. Chorão. Por qualquer coisa abria o berreiro, até que a dona Tina, sua mãe o catou na bordoada. Filha da puta, gritou ele, enquanto levava uma sova homérica. Resultou daí levar uma bolachada de fazer dente espirrar a doze braças, no barato. Noutro dia, além do beiço crescer mais dois quilos, ainda ganhou uma bela janela nos incisivos inferiores, para o gaudio da molecada que jogava bola todo fim de tarde no campinho da Noroeste do Brasil.

Vale Milhões

Brígido Pires, meu amigo caminhoneiro, contando da vez que levava gado para leilão em fazendas, na região de Corumbá, voltando para a cidade, três moças, dessas que dão o cardápio por hora, ou por dia, pediram carona para ele. Dirigia um daqueles caminhões de carregar gado vivo, que aqui, no glorioso mato Grosso do Sul chamamos de “bosteiro”. Solícito como sempre, parou o caminhão e mandou elas subirem na gaiola. Nossa, moço, tá cheio de bosta de vaca aí, reclamou uma delas. Ora, menina. Vaca que vale dez milhões vai aí sem reclamar, qual o problema?

Celular

A primeira vez que minha avó viu um celular achou que aquilo era coisa do fute. Onde já se viu, dizia ela, botar uma pessoa dentro de uma caixinha daquele tamanho. Não. Vote1 aquilo só podia ser coisa de belzebu. Nunca usou e nunca nem chegou perto. Pelas vias das dúvidas, sempre que vou atender o meu, faço um esconjuro silencioso. Vai que a velha tinha razão.

Tô Podre

Em Poconé, no distante Mato Grosso, quando morava com meus avós, bem perto de um antigo asilo de lunáticos, todo dia, ao ir para a escola ouvíamos um grito: Tô podre!, Tô podre!. Aquilo me encabulou por anos. Quando meu irmão mais velho fez estágio em psiquiatria, passou por aquele lugar e resolveu acabar com o mistério. Contou-me ele que havia um doido naquele hospício que, todos os dias, enfiava o dedo no cu e cheirava, para logo depois gritar: Tô podre!, Tô podre!, Tô podre.

Gegé

Gegé era um viado muito famoso em Cuiabá, capital do Grande Mato Grosso. Certa vez, contando para meu irmão mais velho uma história, disse que, ao ir para a casa da madrinha, tarde da noite, foi chamado por um pretão que arrancou a chibata, mandou ele ajoelhar e fazer o serviço. Meu irmão começou a rir, e ele, na narrativa. Olha, moço, ele arrancou uma jaratataca desse tamanho, fedida e botou em mim. É, você ri porque não foi com você, mas eu só aguentei porque sou homem!

Zizito

Tinha doze nos quando conheci Zizito, Loirão branco, com um cabelo que ia até a cintura. Promessa da mãe dele. Pedreiro de mão cheia, durante a semana virava concreto e construía parede. No sábado à noite, tomava seu banho, passava brilhantina na cebeleira e ia para o baile. Lá, pedia uma cerveja e escolhia o garotão. Chegava e dizia no pé do ouvido. Hoje você é meu! Cinco para ele, numa briga de rua era pouco. Capoeirista de alta habilidade, pedreiro competente e uma flor aos fins de semana. Garganteava. Gosto de homens, mas sou macho pra caramba. Tá bom!

Pilincho

Quando Pilincho morreu, e graças aos céus, foi antes de instalarem o crematório na cidade, o pessoal ficou em dúvida se enterrar era o melhor negócio, ou embalar em bandagem para preservar a múmia. Cachacista sem remissão, não precisava de uma garrafa de cana para ficar bêbado. Bastava o cheiro. Mas como disse, foi antes do crematório chegar. Era bem capaz de que, se inventassem de cremá-lo, a cidade seria destruída por uma explosão termonuclear, só com os vapores alcoólicos que ainda exalava do presunto já encomendado para a viagem dos sete palmos.