Sexta-feira, sem nada a fazer, estava conversando com um colega professor, aqui no serviço e relembrando nossos tempos de infância e cheguei-se-me a uma conclusão que, se não óbvia, pelo menos verificável no longo prazo, caso os idiotas que governam as nações do planeta, resolverem mesmo partir para a ignorância: seremos sobreviventes, mesmo a uma guerra nuclear de proporções homéricas. E eu explico, meu caro curumim, assentado ao lado da minha fogueira caeté.
Quem teve sua infância entre a década de 1940 e os primeiros anos da década de 1980, foi alvo de experimentos científicos que deixariam o mais sádico terrorista do Hamas, babando de inveja, roxo mesmo, por não poder mais usar esses métodos na atualidade. E os “zé bundinhas” que se chamam geração millenial, criados em playgroud e em shoffs center, agradecidos. Mas esse mesmo agradecimento os torna fracos e frouxos diante dos desafios do mundo.
Quem daquela geração citada não se lembra da Emulsão Scott. Aquela gororoba feita de óleo lubrificante de caminhão fenemê, óxido de urânio, também conhecido como yellowcake, para dar a cor e chorume amarelo para dar sabor de laranja. Lembrei-se-me que essa tortura era dada por papai, quase todos os meses para a filharada, tendo sempre uma varinha de goiabeira, como argumento mais que convincente, na mão, para aquele mais rebelde que se recusasse, ou mesmo o lançasse fora.
Se satanás inventou uma tortura perfeita para o ser humano, com certeza foi a Emulsão Scott. Até nos dias de hoje, pronunciar essa palavra me dá arrepios pelo corpo todo, pois me lembro que tínhamos que passar por aquela sessão de tortura, a fim de derrubar as verminas e bichas que diziam estar no bucho. Ora, se aquilo quase chegava a matar a criança, imagina o que não iria ocorrer com lombrigas, solitárias e comunitárias que viviam em nosso organismo?
Mas, antes da dita emulsão, vinha o ritual do mastruz com leite, preferencialmente o leite serenado. Era assim: mamãe esmagava aquela erva do cão em um copo, botava leite e deixava no sereno da noite em um panelão. No outro dia, cada filho, antes de lavar a cara e escovar os dentes tinha que passar em fila indiana e escorrupichar para dentro, uma talagada daquele resíduo de esgoto refinado no caldeirão de Belzebu. Claro que, a ânsia, os engulhos no estômago vinham, mas a defesa era sempre a mesma: são as bichas morrendo e reclamando dentro do seu bucho. E, a gente pensava que ia junto com as coitadas, de tão ruim que aquilo era.
Há alguns colegas que citaram, também, o Biotônico Fontoura como algo ruim. Eu, pelo contrário, gostava daquilo. O médico da família recomendava que era apenas uma colher de sopa, antes do almoço. Eu, boca de álcool desde a tenra infância, esganado, já pegava um copo e colocava até a metade. Como todo bom cachacista sem remissão, limpava o assoalho da garganta, dava um estalo de língua e os beiços até tremiam de desejo. Emborcava aquele copázio, dava um estalo de dedo e saia feliz. Tudo bem, tem gente que até hoje não gosta daquela beberagem, mas agradeço a esse senhor Fontoura a invencionismo daquele líquido abençoado.
E havia ainda aqueles suquinhos em envelope que a criançada adorava. Da minha época havia o Ki-Suco e o Jarrão. Eram pacotinhos com uns trinta gramas de um pó que, a depender do sabor tinha uma cor diferente, indo do amarelo gema de ovo ao carmim. Para se fazer o suco usava-se dois litros de água, três quilos de açúcar e um pacotinho de trinta gramas daquele pó, que hoje seria tão proibido quando a erva do capeta que muito esquerdista gosta de queimar, além do fedegoso.
Mas, a garotada fazia a festa com aquela mistura radiativa, seja em festa de aniversário, de “brincadeiras” do sábado à noite, ou mesmo em reuniões depois de uma pelada no quintal de casa, onde o menos contundido saia sem o tampo do dedão do pé. À época de infância, se tivéssemos um pouco mais de curiosidade e lêssemos a composição química, iríamos anatematizá-lo de imediato e preferir beber água de cacimba ao invés daquilo. Só que eram outros tempos e outras ingenuidades, quando meninas e meninos jogavam bola juntos, brincavam de pega-pega, pique-esconde e casinha, ou até mesmo saíam no braço quando discordavam de um determinado tema, sem a sexualização, ou perversão que botaram na cabeça da molecada de hoje.
Quem, daqui deste grupo, com mais de 40, ou 50 anos não há de se lembrar daquela bala Toffl. Aquilo era açúcar e corante embalado em papel celofane. Mamãe vivia advertindo a gente para tomar cuidado, pois poderíamos engasgar e até mesmo morrer sufocado com aquele pirulito do capeta. Cansei de respirar forte com aquele troço parado na goela, bebendo bastante água para ver se aquilo descia. E, sempre descia. Tempos bons, quando desafiávamos a morte de cara limpa e braços erguidos.
Hoje, já na curva de minha vida, retornando os olhos ao passado penso que, se a nossa geração sobreviveu a toda essa tortura, a toda essa experimentação científica, com resultados desconhecidos, fico a me imaginar como seria se a geração de hoje desafiasse a morte de maneira tão inocente e sem se preocupar com as consequências. Aliás a máxima consequência para nós era um banho em que a mãe limpava e esbordoava o filho ao mesmo tempo, com uma bucha natural ensaboada com aquele sabão de água de barrela – o famoso sabão de cinza -, que limpava os poros e arrancava o couro. Havia caso do meu irmão mais novo que, depois daquele banho, até a cor dele ficava diferente daquela que habitualmente víamos, só para vocês perceberem o quanto éramos encardidos.
Assim, diante dessa óbvia constatação, posso afirmar, sem margem de erro que, a geração que viveu entre essas décadas serão sobreviventes a uma hecatombe nuclear. Se sobrevivemos à Emulsão Scott, sobreviveremos a qualquer coisa.