ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Esta semana quente, aqui na Botocúndia, o que mais ferveu foi o deboche da “ministre” da tal igualdade racial e sua aspone, indo assistir jogo de futebol torrando nossa grana, e depois essa mesma aspone demonstrando qual a verdadeira função desse dito ministério, usando para isso uma forma macaqueada da “Inculta e Bela”, derramando ódio racial, xenofobia e arremedo de guerra entre diferenças etnias, como se o estudo do DNA não tivesse provado que o ser humano, independente de cor da pele, dos olhos, do tamanho dos beiços e coisa que o valha, só se diferencia de uma espiga de milho, por cerca de 1,8% do seu total de genes.

Mas o assunto é outro, e me desculpem se for um texto mais longo do que a paciência de vocês, mas considero necessário trazer esta discussão, até mesmo para alertar aos aiatolinhos que gostam de usar a linguagem neutra, como se ela não tivesse uma função histórica e que nada tem a ver com o discurso de inclusão daqueles que não se colocam nem como homem, ou como mulher, ou árvore, ou espiga de milho. Na fluidez de nossa sociedade, cada um seja o que bem entender, mas uma coisa é certa: é necessário conhecer o que está sendo dito, afinal, palavras possuem significados e sentidos que se emaranham com a história e o comportamento humano.

Para que se possa entender o que é linguagem neutra, necessário que se conheça, primeiramente, o significado da palavra “pessoa”. Esse termo surge, na escrita, pela primeira vez, nos versos do Baghavat Gita, e no poema sagrado Mahabarata, em “sânscrito”, língua falada na Índia, antes da invasão dos povos indo-europeu e ariano, há mais de três mil anos. O vocábulo utilizado para “pessoa” era parisu – vou deixar os termos em outras línguas em itálico para melhor diferenciar -. Parisu significava, literalmente, naquela língua, “Imagem da Divindade”, ou semelhança com Deus. Não é à toa que o Livro das Gênesis, da Bíblia judaico-cristã usa um vocábulo que é quase um espelho do vocábulo parisu para se referir à criação do homem, quando Deus diz “façamos o homem à nossa imagem, segundo nossa semelhança”. Isto é, o vocábulo “pessoa”, na forma original significa, literalmente possuir a imagem de Deus.

Na evolução da palavra parisu, pela troca e contato cultural, os gregos construíram o termo prósopos, denominando as máscaras utilizadas no teatro, pois criam que a arte era a encarnação da divindade, então, quando os artistas colocavam aquelas máscaras, na verdade grega, eram os deuses que se encarnavam nas personagens e agiam por elas, mantendo a mesma raiz de semelhante à divindade. Da palavra grega prósopos surge a figura de linguagem prosopopeia, ou seja, a personificação de algo, ou alguma coisa, nas línguas neolatinas.

Na Roma antiga, a palavra prósopos foi transliterada para a palavra latina persu, que deu origem, nas línguas neolatinas as palavras pessoa (Português), persona (Espanhol e Italiano), person (Francês), e por aí vai, porém, todas elas mantendo esse vínculo com a ideia original de que a “pessoa” é um espelho, ou um reflexo do divino. Dito isto, se faz necessário saber onde a linguagem neutra se encaixa nessa história toda.

É sabido pelos linguistas e pelos especialistas em Gramática Histórica que o latim – tanto o vulgar, quanto o literário – possuíam três gêneros: o masculino, o feminino e o neutro -. O termo neutro era, originalmente, utilizado para se referir a objetos, animais, quinquilharia de qualquer natureza. Entre os governos de Otávio, já entronizado como Augusto, Tiberius Cesar, Calígula, Claudio Cesar e Nero, Roma como capital de um vasto império também possuía seus cidadãos invisíveis e indesejados. Esses cidadãos eram excluídos do ambiente urbano e confinado no que se chamava de “salária”, bairro imundo de Roma, próximo à cloaca máxima, que era onde a cidade de Roma despejava todo o seu esgoto no rio Tibre. Essas pessoas necessitavam ser apagadas do convívio social, como algo não existente, aproximado de um objeto, animal, ou coisa. Desse período passou-se a aplicar a essas pessoas o pronome neutro, a linguagem neutra, como meio de cauterizar a consciência do cidadão de que aqueles seres também eram “pessoas”. A linguagem neutra foi usada para subtrair essa condição de personalidade daqueles cidadãos romanos e outros indesejáveis. Se morressem, não foi um ser humano, foi algo semelhante a se quebrar um vaso, morrer um cachorro. E assim a consciência do cidadão romano ficava tranquila consigo mesma, afinal aqueles ali não eram persu, não possuíam a imagem do divino. Eram coisas.

Com a incorporação do gênero neutro na evolução do latim para as línguas modernas neolatinas, essa característica foi se perdendo, porém, voltou com toda a força durante a Segunda Guerra Mundial nos campos de concentração de Awuchsvitz, Dachau, Sobibor, Treblinka e outros. Os nazistas, além de tatuarem os prisioneiros – judeus, ciganos, homossexuais, entre outros, com um número -, passaram a utilizar uma linguagem neutra para se referir a essas pessoas, com o mesmo objetivo, desumanizar aqueles prisioneiros, nivelando-os a objetos, coisas, cujas mortes não causasse impacto psicológicos neles.

Quando os nazistas se referiam a esses prisioneiros, era usando, exatamente o pronome neutro, a linguagem neutra na tentativa de “despersonalizar”, ou retirar a imagem do divino existentes nessas pessoas, para melhor matá-las. Afinal, alguém que não possui essa característica não é melhor, ou mais importante que um sofá velho todo rasgado, ou uma panela furada, ou uma caneca quebrada. Joga-se fora e não se pensa mais nisso. Não há identidade comigo, não há semelhança que nos une e que nos liga a uma ideia de divino. Descarta-se e pode dormir com o tribunal da consciência em recesso permanente.

Alexander Solejnitz, no livro Arquipélago Gulag descreve a mesma situação vivida nos campos de concentração nazista, só que descrevendo os campos de concentração do regime comunista da União Soviética à epoca de Stalin e depois de Kruschev e Brejnev. Os prisioneiros e indesejáveis daquele paraíso socialista, quando chegavam a cidades prisões como Gorky, Yakutsky, Oymiakhon, recebiam um número como identificação, e não eram chamadas pelo nome, mas sim pelo número. Outra forma de anulação da condição de “pessoa”. Um número é fácil de ser apagado dos registros, é apenas uma sequência de algarismos que não reflete uma personalidade ligada à semelhança do divino. Com isso, o regime comunista, tal qual o nazista conseguiu matar milhões, sem sensibilizar as demais pessoas, afinal, ali, aquele número, aquele pronome neutro não ligava, ou assemelhava, ou melhor, dessemelhava um do outro. Não havia uma identidade, de que o outro é igual a mim, que temos uma semelhança com algo maior, com o divino. Era só um número, era só um “elu”, “Ilu”, “pauliste”, “safade”, ou algo desse tipo. Por quê o “EU” deveria me importar com algo que não se identifica comigo?

Esta digressão longa, na verdade, não saiu de minha cabeça, o Doutor Thiago Pavinatto, apresentador do canal “os tremas nos us”, do Youtube tem um excelente livro que trata desse tema com mais profundidade e fontes bibliográficas bem mais consistente, apesar de eu dominar essas informações há algum tempo, mas entre o calibre intelectual do doutor Pavinatto e minhas caetices bem miolo de pote, sugiro a fonte desse autor.

No entanto, creio que pude, pelo menos, abrir uma discussão, principalmente entre aqueles que defendem essa estropiação da Língua Portuguesa, que denominam de “linguagem neutra”. As pessoas que esposam essa ideologia estão embarcando em uma canoa radical que, à semelhança da Roma antiga e da Alemanha do período nazista e dos países comunistas, vai causar uma tragédia humanitária gigantesca, afinal, que importância tem “elu”, ou “ilu” morrer? Não são humanos, não possuem essa “imagem e semelhança” do divino que o “eu” possui. Vejam, então, o perigo que nossa sociedade está a repetir, por desconhecer a sua própria história.

9 pensou em “LINGUAGEM NEUTRA

  1. Ótimo texto , Dr.Roque .
    Nos traz à luz a verdadeira ideia por trás da linguagem neutra : desconstruir o ser humano , tentar apagar a centelha divina que cada um de nós recebeu de Deus para exercer a sua personalidade , a sua criatividade . Não somos criaturas . Somos criadores como imagem e semelhança de Deu e isso incomoda demais certas ideologias .

    • Veja que aí está o objetivo oculto de quem luta por essa porcaria. Eliminar e exterminar o diferente. Não tem nada de inclusão, mas prenúncio de morte em escala industrial.

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