MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

E LÁ SE FOI UM QUARTO DE SÉCULO

Escrevo no início de 2026, ainda sob o impacto de uma constatação simples, mas inquietante: um quarto do século XXI já se foi. Para mim, que neste mesmo ano devo completar um quarto de século no exercício da magistratura federal, essa coincidência temporal funciona como um convite à reflexão — não sobre minha trajetória pessoal, mas sobre o mundo no qual vivemos nesses últimos vinte e cinco anos.

Lembro, então, de um documentário intitulado Primeira Guerra Mundial – o fim de uma era. Volta e meia o revejo, e sempre me chama a atenção a descrição do clima de otimismo que dominava a Europa no final do século XIX. Havia guerras no passado, é verdade, mas acreditava-se que o equilíbrio diplomático e o progresso haviam finalmente domesticado a barbárie.

Sabemos como essa história terminou.

O século XX mal havia começado quando a Primeira Guerra Mundial inaugurou um novo padrão de violência, industrializado e total. Logo em seguida, a gripe espanhola expôs dramaticamente a vulnerabilidade humana. A Revolução Russa, por sua vez, introduziu uma experiência política fundada no coletivismo estatal e na supressão sistemática das liberdades individuais. E, antes mesmo da metade do século, o mundo já estava mergulhado em outra guerra global, seguida pela Guerra Fria e pela ameaça permanente de aniquilação nuclear.

Esse conjunto de acontecimentos desmontou a ilusão de que o avanço científico e econômico seria suficiente para garantir progresso moral e estabilidade política.

Ainda assim, iniciamos o século XXI com esperanças renovadas. O fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética pareciam sinalizar o esgotamento histórico de projetos totalizantes. A globalização econômica avançava, a internet prometia ampliar o acesso à informação e fortalecer a autonomia individual, e uma consciência ambiental global começava a se consolidar. Tudo indicava que certos aprendizados haviam sido definitivamente incorporados.

Parecia plausível imaginar um século menos violento, mais cooperativo e mais racional.

Passados, porém, vinte e cinco anos, o balanço é menos alentador.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 mostraram que conflitos ideológicos e religiosos estavam longe de ter sido superados. A crise financeira de 2008 expôs fragilidades profundas das economias e das instituições democráticas. A polarização política se intensificou, em parte impulsionada pelas redes sociais, que passaram a funcionar não apenas como instrumentos de informação, mas também como catalisadoras de radicalismos e tribalismos.

No plano internacional, os conflitos armados retornaram com força. O avanço do Estado Islâmico no Oriente Médio, a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e a guerra no Donbass já haviam sinalizado que a ideia de uma Europa definitivamente pacificada era ilusória. Em 2022, a invasão da Ucrânia em larga escala dissipou qualquer resquício de complacência histórica — e trouxe de volta algo que muitos julgavam enterrado no século passado: o receio concreto de um conflito nuclear, reacendido pelas ameaças reiteradas feitas pelo Kremlin. Em breve o conflito completará quatro anos, sem grandes expectativas de chegar ao fim.

Como se essas semelhanças entre o início dos séculos XX e XXI não bastassem, fomos “contemplados” com nossa própria tragédia sanitária. A pandemia da Covid-19 revelou, mais uma vez, a vulnerabilidade humana e a rapidez com que direitos individuais podem ser relativizados em nome da segurança coletiva. Em muitos países, medidas restritivas do direito de ir e vir, e de buscar o próprio sustento, foram implementadas. Sob o argumento de proteger as pessoas, retirava-se sua liberdade.

Independentemente do juízo que se faça sobre as medidas adotadas, o fato é que o medo mostrou-se um poderoso instrumento de expansão do poder estatal.

Como se vê, confrontar o primeiro quarto do século XX com o mesmo período do século XXI, não é apenas um exercício de memória histórica, mas um teste de maturidade civilizatória.

Em A Rebelião das Massas, Ortega y Gasset adverte que o homem-massa tende a usufruir das facilidades da vida moderna como se fossem dados naturais, esquecendo-se de que são construções humanas, fruto de esforço histórico acumulado. Quando essas conquistas passam a ser vistas como automáticas e garantidas, abre-se espaço para a irresponsabilidade cívica e para a delegação acrítica de decisões fundamentais.

Essa advertência é especialmente relevante para quem ocupa posições de liderança ou influência. Ter uma visão mais ampla dos acontecimentos não é um privilégio; é uma responsabilidade. A história mostra que atos explícitos de barbárie não começam repentinamente, mas vão sendo naturalizados pela passividade e pela crença de que estruturas abstratas cuidarão de tudo.

Encerrando estas reflexões, recuso-me a aceitar o pessimismo estéril, e insisto em um ponto essencial: nada está garantido pela simples marcha do tempo. As condições que permitem uma vida digna, livre e próspera não se mantêm sozinhas. Exigem vigilância, compromisso ético e disposição permanente para questionar soluções fáceis para problemas complexos.

Se o século XX nos ensinou o preço da ilusão histórica, o primeiro quarto do século XXI nos recorda que a civilização não se herda pronta: ela se administra, se defende e se reconstrói todos os dias.

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REFLEXÕES DE FIM DE ANO

Os últimos dias de cada ano sempre me levam a refletir sobre o tempo. Para mim, é algo um tanto paradoxal fazer isso em um período específico, pois vivo dizendo que o tempo não existe.

Mas talvez esteja aí a razão das minhas recorrentes reflexões sobre o tema: apesar da minha rebeldia contra o tempo, ele parece estar sempre à espreita, pronto para mostrar o seu poder.

Bem, às vezes minhas reflexões se transformam em versos. Às vezes eu resolvo mostrá-las a quem tiver interesse. Foi o que aconteceu neste ano de 2025.

Aos meus queridos leitores do JBF, feliz ano novo!

ENQUANTO PASSAM OS ANOS

O fim do ano está chegando
E um novo começo também
Porque na vida é assim:
Um ano vai, outro vem.

Na verdade, essa contagem,
É uma espécie de miragem,
Nada mais que ilusão.
Não há ano, mês ou hora,
Tudo acontece agora.
O tempo é só… é só uma ficção.

Não, não é que eu não entenda
A festa que o povo faz
Com mensagens de esperança
De sucesso, saúde e paz.

(Afinal!)
É um ciclo concluído
Mais um período vivido
Nessa existência tão fugaz.
Mas, no fundo, nós sabemos
Que o único tempo que nós temos
É o agora…
(só o agora!) e nada mais!

A gente conta os dias e os meses,
A gente se dedica, tantas vezes,
A lembrar do passado e fazer novos planos.
E às vezes esquecemos o presente
Que é viver agora, simplesmente,
Enquanto passam os anos!

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ISSO NÃO TEM COMO DAR CERTO

Prosseguindo em nossos estudos do uso da inteligência artificial na composição de músicas, aproveitei a tarde de sábado para criar um sambinha bem despretensioso. Mas, não fiquei só na música. Me empolguei e criei também um clipe, com belas imagens do Rio de Janeiro.

Para conhecimento do leitor: a letra é minha; a melodia é da IA Suno, sob minhas orientações; os personagens criei no Chat GPT; a voz que canta é da Suno também; e usei o Grok para dar vida a eles.

A edição do vídeo, fiz sozinho. Usei o Filmora, que tem recursos de IA, mas não os utilizei.

Segue a letra do samba:

REFRÃO

Isso não tem como dar certo
Só quem não quer não está vendo.
Não precisa muito esforço
Para ver o que tá acontecendo.

No teatro da vida, os personagens
Também têm que cumprir o seu papel.
Um pintor não fará boa pintura
Sem o tipo correto de pincel.
Quem costuma invadir o espaço dos outros
Pode ter um destino bem cruel.
A formiga trabalha todo dia, mas a abelha é que sabe fazer mel.

É assim lá na casa da Dona Joana,
(Onde) muitos falam, mas quase ninguém quer ouvir,
Se aparece alguém pra pôr ordem na casa,
Nunca falta alguém pra tentar impedir.
Fica sempre um puxando o tapete do outro,
Qualquer hora, na certa, os dois vão cair.
De vez em quando a coisa melhora, mas, depois, tudo volta a se repetir.

Não, não tem como dar certo,
Com tanta gente avançando o sinal
Não precisa ser um gênio
Pra ver que isso vai acabar mal.

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O FURTO DA POESIA

Em maio de 2014, nosso editor postou, aqui no Jornal da Besta Fubana, o poema “O Furto da Poesia”, que escrevi em parceria com o defensor público VICENTE ALENCAR RIBEIRO. Na verdade, a iniciativa foi de Vicente, que encaminhou a Berto a curiosa história de um certo Zé Maria de Dão, que havia furtado uma poesia. Ao final de seus versos, Vicente pediu que eu julgasse o caso. Julguei, também em versos.

Mas a página acabou se perdendo, por algum problema técnico no site. Então, resolvi encaminhar o caso para nova publicação. Tenho certeza que muita gente não conhece e vai gostar.

Aproveito a ocasião para renovar as congratulações e o agradecimento ao poeta Vicente Alencar Ribeiro, que me possibilitou participar da criação do poema que ora compartilho.

* * *

O FURTO DA POESIA – INVESTIGAÇÃO E DENÚNCIA – VICENTE ALENCAR RIBEIRO

Certo poeta um dia.
Procurou o delegado,
E com olhar mui sinistro,
Disse ter sido lesado.

E aquela autoridade,
Muito frio perguntou:
“O que fora que o ladrão,
Do vate surrupiou?”

O poeta respondeu,
Do fundo do coração:
“O marginal desalmado,
Levou minha inspiração”.

O delegado sorriu,
E de novo interrogou:
“Como é que algo abstrato,
O tal larápio levou?”

Ao que respondeu o vate,
Submerso em sentimento:
“Caro doutor não percebe,
Minha dor, meu sofrimento?”

“Ledo engano delegado,
Permita-me, autoridade,
Muitas vezes o reencontro,
Rouba de nós a saudade”.

“A felicidade é tudo,
É néctar que extasia,
Quando um amor se vai,
Rouba de nós a alegria.”

“Autoridade, assevero,
De forma calma e dileta,
Dê vazão a sua alma,
Pois ela é coisa concreta.”

“Ele levou minha vida,
A minha joia mais rara,
Das pérolas do meu cordão,
A minha pedra mais cara.”

“Tomou a terna poesia,
Que escrevi pra minha amada,
Versos que jamais mostrei.
Pois que vivia guardada.”

“Vou derrubar, me permita,
Sua conclusão tão crua:
Ele a anda recitando,
Dizendo a todos que é sua.”

“Posto isso autoridade,
Faço um pedido só,
Meu lamento tome a termo,
E autorize um BO.”

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GRAVE, MUITO GRAVE

Todo dia, quando vejo as notícias, há sempre um político, um jornalista ou um burocrata preocupado com coisas graves. “Isso é muito grave!”, dizem eles, fazendo cara de sérios, preocupados, às vezes indignados.

Acabo me desconcentrando e esquecendo o que eles acabaram de dizer. Porque lembro que se for grave demais, a gente nem escuta. Mas se for agudo demais também não dá pra ouvir.

Dizem que é assim que funcionam os apitos de cachorro — aqueles que emitem sons numa frequência que o ouvido humano não capta. Aliás, “apito de cachorro” é uma expressão que vem ganhando espaço na política, especialmente na parte que se desenvolve pela via das redes sociais. No sentido de discurso aparentemente inofensivo, mas que sinaliza, para certo grupo, determinada ação combinada.

Mas isso é assunto para outra crônica. Até porque a incapacidade humana para ouvir apitos de cachorro, no sentido literal, está exatamente no fato de eles emitirem sons muito agudos. Quem emite sons graves demais para os ouvidos humanos captarem são os elefantes, mas, se for falar disso, vou perder definitivamente o fio da meada.

E o fato é que acabo tendo certo incômodo com a preocupação causada pelos atos ou fatos graves, porque, na verdade, gosto dos graves. Não é à toa que, nos tempos em que tive banda de rock, escolhi tocar contrabaixo. A corda Mi pode emitir o som mais grave do baixo. E, nos de cinco cordas, há também a corda Si, mais grave ainda — profunda, densa, quase subterrânea.

O grave é o que dá corpo à música, é o chão onde o som pisa. Sem ele, as canções flutuam como discursos vazios.

Mas “grave” é palavra versátil. Em “o fato é grave” tem sentido muito diferente do que se vê em “um paciente em estado grave”.

No latim, “gravis” é o que pesa, o que tem densidade, o que puxa pra baixo. Daí vem também o sentido de “gravidade”. A mesma força que mantém os corpos na Terra parece, de algum modo, agir sobre a linguagem e sobre as pessoas. Há os que vivem sob a lei da gravidade dos fatos, e há os que acreditam poder flutuar acima dela. Uns respeitam o peso das consequências; outros acham que a realidade é opcional.

(Incrível coincidência – enquanto revisava este texto, mantive ligado um canal de notícias no YouTube. Ao chegar exatamente a este ponto da leitura, ouvi a voz de um jornalista no vídeo: – Olha a gravidade do que esse cara disse!)

Nessa relação entre grave e gravidade, quando alguém diz “a situação é grave”, quase sempre significa que tudo está caindo — às vezes o governo, às vezes a credibilidade, às vezes o bom senso (raramente os preços).

É a gravidade social em ação, puxando tudo para baixo (menos os preços).

Há ainda quem confunda ser “grave” com parecer sério, como se bastasse franzir a testa para equilibrar o mundo. E falta gente que saiba distinguir peso de importância. Porque há coisas pesadas que não valem nada, e há coisas leves que sustentam o espírito. Há quem carregue sua própria gravidade como um fardo — e há quem a use como centro de gravitação, atraindo em torno de si ideias, pessoas e causas.

Quanto a mim, reconheço que a humanidade passa por um período de grande gravidade, e que a qualquer momento poderemos enfrentar crises mais agudas.

Para tocar a vida sem agravar a situação, talvez seja o caso de equilibrar graves e agudos. Não para unificá-los em um tom médio, mas para buscar a harmonia em meio à diversidade de frequências.

Concluída essa divagação, inspirada na gravidade das coisas, talvez eu a publique apenas como texto. Ou talvez eu grave um vídeo sobre o assunto.

É… talvez eu grave.

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HEDIONDO, MAS COM MODERAÇÃO

Na quinta-feira (2/out), a Câmara dos Deputados aprovou, em regime de urgência, um projeto de lei que torna crime hediondo a falsificação de bebidas. A proposta surge após casos recentes de internações e mortes causadas por ingestão de produtos adulterados com metanol.

A aprovação nos lembra que, no Brasil, certas tragédias são sempre o motor mais eficiente da máquina legislativa.

Historicamente, o legislador brasileiro costuma legislar a reboque dos fatos. Cada desastre gera sua lei, cada escândalo produz uma nova tipificação ou agrava a pena já existente. É o casuísmo de sempre: reage-se ao episódio, em vez de pensar em política pública consistente. E assim se constrói uma colcha de retalhos penal, onde cada novo pedaço é costurado às pressas, para que a sociedade sinta que algo foi feito.

O curioso, nesse caso, é a necessidade de, além de aumentar a pena do crime, carimbá-lo com a chancela de “hediondo”. Ou seja, se não fosse crime, passaria a ser; como já é crime, é preciso qualificá-lo como hediondo. Hediondo, aqui, é uma espécie de adjetivo de reforço, um grifo legislativo. É como se “crime” já não fosse suficiente para exprimir a repulsa social. Surge, então, esse degrau semântico: crime, crime grave, crime hediondo.

Algo semelhante àquela expressão tão familiar dos processos legislativos: “urgente urgentíssimo”. Dá até para imaginar uma fila de projetos urgentes, quando alguém chegou com algo que precisava passar na frente de tudo o que havia ali.

— Carimbe como “urgente urgentíssimo”! — alguém deve ter dado a sugestão, sem imaginar que ela seria urgentemente acatada.

Na prática, o efeito simbólico pode ser maior que o efeito concreto. Não é a mudança de categoria que impedirá a circulação clandestina do metanol, que seria melhor combatida com fiscalização efetiva, estrutura de vigilância sanitária e controle de fronteiras.

De todo modo, há um valor político no gesto: o de dizer à população que o Estado não tolera que a vida seja posta em risco dentro de uma garrafa de preço duvidoso.

No fim, espera-se pelo menos que não vire tudo mera retórica de mídia. Que não seja só decreto pomposo para manchete de jornal.

Enquanto isso, brindemos — com moderação e responsabilidade, claro — à esperança de que o metanol logo saia dos noticiários, e, principalmente, deixe de entrar nas garrafas de bebidas dos brasileiros.

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QUANDO EU ESTIVER FICANDO SÓ

Faz alguns anos que comecei a trabalhar na versão em português de “Cuando Ya Mi Empiece a Quedar Solo”, de Charly García.

Mas eu queria uma boa base de piano para por a voz.

Finalmente achei, no canal Hispana Partituras, do Guilo Villar.

O resto eu conto na introdução do próprio vídeo.

Assistam, curtam, compartilhem.

Se alguém tiver curiosidade de ouvir a cancan com a letra original, tem uma interpretação ótima do Fito Paez.

Clique aqui para ver.

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JUSTIÇA, VINGANÇA E IMPARCIALIDADE – O QUE APRENDEMOS COM OS OITO ODIADOS

Recentemente publiquei em uma revista jurídica um artigo desenvolvido a partir do filme “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino (2015). Embora a película não pareça, pelo menos à primeira vista, inspiradora de reflexões jurídicas, identifiquei nela um cenário denso, fechado e filosófico, que me levou a pensar o papel do Estado na mediação entre vingança e justiça.

Em uma das cenas mais provocativas do filme, Oswaldo Mobray, que se apresenta como carrasco da cidade de Red Rock, afirma que “a falta de paixão é a própria essência da justiça”. Para ele, o que diferencia a justiça da vingança não é o castigo em si, mas quem o aplica e como o faz. O carrasco, diz ele, não sente prazer nem ódio ao executar alguém — ele apenas cumpre um papel, sem envolvimento emocional. Por isso, seria ele o verdadeiro símbolo da justiça.

A fala é envolvente e convincente — mas deve ser examinada com cuidado. Primeiro, Mobray não é realmente um carrasco. Ele interpreta esse papel para fins próprios, e isso já põe sua reflexão sob suspeita. Segundo, talvez o carrasco até possa atuar dessa forma desapaixonada, mecânica até, mas ele apenas executa o que já foi decidido por um órgão julgador, ou seja, um juiz ou tribunal.

Isso nos põe diante da seguinte questão: será que esse ideal de justiça fria, desapaixonada, serve como modelo para quem julga?

O juiz não é um carrasco. O juiz não apenas cumpre — ele decide. E, ao decidir, toca dimensões humanas profundas: liberdade, honra, futuro.

A imparcialidade é, sim, uma exigência fundamental — mas ela não pode ser confundida com frieza. Um juiz não pode ser tomado pela paixão, mas tampouco pode se esvaziar de sentimento. Julgar é, também, compreender.

Hoje, em um mundo polarizado, o ideal de imparcialidade estatal continua essencial — mas também frágil. O risco de que estruturas institucionais se transformem em instrumentos de afirmação ideológica é real. A suposta neutralidade pode esconder escolhas seletivas, que passam por isentas mas estão carregadas de direção.

O que Tarantino nos lembra, ainda que à sua maneira, é que a justiça exige mais que uma alavanca puxada sem emoção. Se, por um lado, ela não deve ser dominada pela paixão, por outro, ela exige consciência e sensibilidade.

🔗 Para quem quiser ler a versão completa, basta clicar aqui e descer até a página 207.

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DISCURSOS, VERSOS E ALIANÇAS

Recebi pelo WhatsApp o vídeo de um político fazendo um inflamado discurso, com duras críticas a um ex-colega de palanque.

É impressionante como esse comportamento é comum na política brasileira: gente que esteve lado a lado em uma eleição, vira inimigo na eleição seguinte. E vice-versa!

“Versa” me lembra “versos”. Então, como não tenho – nem quero e nem posso ter – alinhamento partidário algum, deixo que fale meu coração de poeta, de maneira bem genérica e impessoal.

Vêm, em breve, as eleições.
Vêm junto os indignados,
Com denúncias de delitos
E discursos inflamados.
Depois, quando estão eleitos,
Deixam pra trás os malfeitos,
Voltam a ser aliados!

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UMA JOVEM CANÇÃO ITALIANA DOS ANOS 80

Escrevi uma versão em português para a canção Ogni Volta, de Vasco Rossi. Não é uma tradução literal, até porque é praticamente impossível fazer uma conversão para outra língua, mantendo a métrica e o sistema de rimas razoavelmente preservados. Mas busquei capturar, no nosso idioma, os sentimentos que atravessam a obra original: autossabotagem, postergação e contradições cotidianas.

A letra original, em italiano, fala de uma sucessão de pequenos contratempos pessoais, que costumam fazer parte da vida de qualquer pessoa, mas podem formar um todo bem assustador, e até paralisante, especialmente para alguém que tenha tendências depressivas.

Apesar de a canção ter sido lançada por Vasco Rossi em 1982, penso que esse é um quadro bem presente nos dias de hoje. Talvez esse tenha sido o principal estímulo para querer deixá-la mais acessível aos falantes da língua portuguesa. E concluí que não era hora de ficar aqui parado,

“Com a cabeça entre as minhas mãos
Adiando tudo pra amanhã.”

No lugar de “ogni volta”, pus “cada vez”. Mantive o ritmo e a cadência. Adaptei imagens. O vídeo de Cada Vez está logo a seguir (aliás, acho que o clipe ficou bem legal):

Espero que toque você — como me tocou.

Para quem tiver curiosidade de conhecer a versão original, temos aqui uma apresentação de Vasco Rossi, em San Siro. Apesar de a música ser de 1982, é impressionante a reação do público em 2003, ou seja, 20 anos depois: