No dia 10 de dezembro de 2023, data na qual Javier Milei tomou posse na presidência da Argentina, publiquei artigo comentando que havia acompanhando todo o processo eleitoral dos nossos hermanos – desde as primárias argentinas, chamadas PASO, até o segundo turno, chamado balotaje – como forma de melhorar minha compreensão do espanhol (especialmente o praticado na Argentina, com seu sotaque característico).
Na ocasião, falei da minha surpresa ao perceber que a diferença de Javier Milei para a maioria dos políticos que conheço não se restringe à sua aparência exótica e à maneira temperamental como expõe suas ideias. A cada discurso ou entrevista, Milei demonstrava ser uma pessoa culta, dotada de conhecimentos que vão bem além da economia e da política.
Dizia eu, à época: “Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de Milei citar, em suas entrevistas, livros de diversos autores. Por causa dele conheci obras como ‘La Batalla Cultural’, do também argentino Agustín Laje, ‘El economista callejero’, do chileno Axel Kaiser, e ‘A virtude do egoísmo’, da russo-americana Ayn Rand, dentre outros. Em uma entrevista a Alejandro Fantino, logo após eleito, Milei respondeu a uma das perguntas fazendo referência à ópera ‘Rigoletto’, do italiano Giuseppe Verdi. Ainda não vi a ópera, mas pretendo fazer isso em breve”. (Clique aqui e leia a coluna)
Continuo sem ter visto a ópera “Rigoletto” por completo, mas aos livros já referidos acrescentei obras de Thomas Sowell, Milton Friedman e Hayek, este frequentemente citado em seus pronunciamentos.
Relembro hoje aquele meu escrito porque, em dezembro de 2024, aprendi com Javier Milei uma canção argentina que muito me impressionou, tanto pela letra como pela melodia.
No dia 20 daquele mês, na ocasião em que anunciava o Plano Nuclear da Argentina, Milei se encaminhava para o final do discurso, quando disse: “Outro dia me deparei com uma citação de Hunter Thompson, que me pareceu inspiradora para a ocasião. Disse: ‘Que homem é mais feliz? O que se lançou à tormenta da vida e realmente viveu, ou o que se manteve à margem e meramente existiu? Parece-me que devemos fazer a mesma pergunta como país. Porque, como diz essa maravilhosa canção de Eladia Blázquez, uma destacada compositora argentina, ‘Essa coisa de durar e passar não nos dá o direito de nos gabarmos, porque não é a mesma coisa que viver… honrar a vida!” (Veja o vídeo clicando aqui)
Ouvi aquelas palavras e fui imediatamente à procura da canção completa.
E como é bom termos, hoje em dia, tanta informação à nossa disposição! Uma rápida busca no Google – que também poderia ser feita por meio de uma inteligência artificial, como a Meta AI, do WhatsApp, ou o Grok, disponível no Twitter (sim, resisto a dizer X) – me trouxe todas as informações que buscava.
Depois, foi só clicar no link de uma das versões da canção disponíveis no YouTube, e me deleitar ouvindo-a.
Mas não consegui ficar apenas na audição. Depois de ouvi-la várias vezes, especialmente em uma interpretação de Sandra Mihanovich e Marilina Ross, gravada ao vivo, em 2016, acabei fazendo uma versão para o português.
Apesar da semelhança entre o espanhol e o português, sempre dá trabalho ajustar a métrica, sem perder o conteúdo da mensagem, mas acho que a versão ficou boa. Ao final deste texto deixei o link para o vídeo. A letra é a seguinte:
Não! Tudo aceitar, sem refletir,
Não é, de fato, existir,
nem honrar a vida.
Há tantas maneiras de não ser
tanta consciência, sem saber, adormecida!
Merecer a vida não é calar, nem consentir,
tantas injustiças repetidas.
É uma virtude, é dignidade
É ter a própria identidade
reconhecida.
Isso de estar, sem se envolver,
Não é causa de se enaltecer,
pois não é o mesmo que viver
Honrar a vida!
Não! Tudo aceitar, sem reagir,
não quer dizer, nem sugerir
honrar a vida.
Há tanta pequena vaidade
em nossa tola humanidade entorpecida!
Merecer a vida é erguer-se uma vez mais,
Sem temer futuras recaídas.
É como acolher uma verdade,
dizer à própria liberdade:
Seja bem vinda!
Isso de estar, sem se envolver,
Não é causa de se enaltecer,
pois não é o mesmo que viver
Honrar a vida!
Em tempo: Pedi à IA Grok que fizesse comentário sobre “Honrar la Vida”, e ela disse, entre outras coisas, o seguinte: “É uma balada lançada em 1981, no álbum intitulado “Eladia”. A canção foi composta por Blázquez em um contexto significativo: após o fim da ditadura militar na Argentina, quando o país começava a se reerguer em direção à democracia. Ela reflete um chamado à consciência, à dignidade e à valorização da existência em um sentido mais pleno, indo além de apenas sobreviver. A letra diferencia ‘durar e transcurrir’ (meramente passar pelo tempo) de ‘viver’ e ‘honrar a vida’, sugerindo que honrar a vida implica um compromisso ativo com a justiça, a verdade e a liberdade. (…) A canção ganhou várias interpretações por artistas renomados, como Mercedes Sosa, Sandra Mihanovich, Marilina Ross e Julia Zenko, o que ampliou seu alcance e impacto cultural. Sua melodia simples, mas emotiva, aliada à força da letra, fez dela um hino de resiliência e esperança, especialmente em momentos de adversidade”.








