Recentemente publiquei em uma revista jurídica um artigo desenvolvido a partir do filme “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino (2015). Embora a película não pareça, pelo menos à primeira vista, inspiradora de reflexões jurídicas, identifiquei nela um cenário denso, fechado e filosófico, que me levou a pensar o papel do Estado na mediação entre vingança e justiça.
Em uma das cenas mais provocativas do filme, Oswaldo Mobray, que se apresenta como carrasco da cidade de Red Rock, afirma que “a falta de paixão é a própria essência da justiça”. Para ele, o que diferencia a justiça da vingança não é o castigo em si, mas quem o aplica e como o faz. O carrasco, diz ele, não sente prazer nem ódio ao executar alguém — ele apenas cumpre um papel, sem envolvimento emocional. Por isso, seria ele o verdadeiro símbolo da justiça.
A fala é envolvente e convincente — mas deve ser examinada com cuidado. Primeiro, Mobray não é realmente um carrasco. Ele interpreta esse papel para fins próprios, e isso já põe sua reflexão sob suspeita. Segundo, talvez o carrasco até possa atuar dessa forma desapaixonada, mecânica até, mas ele apenas executa o que já foi decidido por um órgão julgador, ou seja, um juiz ou tribunal.
Isso nos põe diante da seguinte questão: será que esse ideal de justiça fria, desapaixonada, serve como modelo para quem julga?
O juiz não é um carrasco. O juiz não apenas cumpre — ele decide. E, ao decidir, toca dimensões humanas profundas: liberdade, honra, futuro.
A imparcialidade é, sim, uma exigência fundamental — mas ela não pode ser confundida com frieza. Um juiz não pode ser tomado pela paixão, mas tampouco pode se esvaziar de sentimento. Julgar é, também, compreender.
Hoje, em um mundo polarizado, o ideal de imparcialidade estatal continua essencial — mas também frágil. O risco de que estruturas institucionais se transformem em instrumentos de afirmação ideológica é real. A suposta neutralidade pode esconder escolhas seletivas, que passam por isentas mas estão carregadas de direção.
O que Tarantino nos lembra, ainda que à sua maneira, é que a justiça exige mais que uma alavanca puxada sem emoção. Se, por um lado, ela não deve ser dominada pela paixão, por outro, ela exige consciência e sensibilidade.
🔗 Para quem quiser ler a versão completa, basta clicar aqui e descer até a página 207.
Vossa excelência tocou em um ponto que, a meu ver, vem se tornando crucial no exercício da função judicante.
Me refiro ao uso de IA na prolação de sentenças. Tenho visto e ouvido casos de sentenças geradas por esta ferramenta; totalmente destituídas de consciência e sensibilidade. Pior, orientadas por algoritmos, estes sim, sucetíveis da ideologia de quem os criou.
Já passou da hora de fazermos esta discussão.
Perfeito, Pablo!
Esse debate ético a respeito da IA no Judiciário merece atenção imediata.
Valorosíssimo seu comentário!