JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DILEMA DA VIDA – ESTUDAR OU APRENDER

“Coroné” sonha em decidir as coisas do mundo ao seu redor

Queimadas foi, algum dia, o povoado onde vim ao mundo, parido por minha mãe e “parteirado” por minha Avó – essa, para mim, só não foi minha mãe. Foi quase tudo. Sempre a amei. Demasiadamente.

Pois, Queimadas ficava ali num conglomerado de nada, próximo e ao mesmo tempo distante (pelas dificuldades de acesso) de Pacatuba, Guaiúba, Chorozinho, Guarani, Horizonte. Era um povoado pertencente a Pacajus.

Joaquim Albano Nogueira, latifundiário que amava quem trabalhava, desde que trabalhasse para ele, era um homem bom, apolítico – e essa era a principal qualidade dele, vista dos tempos atuais – que nem sabia o total das posses. Tinha terras que nem conhecia. Mas tinha certeza que eram dele.

Homem rude, sem nenhum estudo formal, se vivesse nos dias atuais, provavelmente seria comparado a um Paulo Freire, “filósofo prático e autodidata que era”.

Certa vez, torando um pedaço de rapadura de coco com farinha seca, eu passava pelo alpendre da casa da fazenda, quando escutei dele, o que, dito hoje, seria um vaticínio digno dos maiores pensadores da humanidade. Se fosse uma criança e do sexo feminino, seria com certeza comparado à uma Greta Thunberg:

“As pessoas que mais estudam, são as que menos aprendem. Estão tão ocupadas, estudando, que não arrumam tempo para aprender nada.”

Seu Quincas – era como gostava der ser chamado pelos muitos empregados e familiares – tinha dinheiro de sobra. Tinha tanto, que nem conseguia contar. Gostava mais de quem “trabalhava” do de quem “estudava”.

Certa vez, deitado numa bela e alva rede armada no alpendre da fazenda, sem tirar as botas nem as esporas, enquanto fumava o cachimbo, soltou essa rude pérola: “tudo que eu tenho, foi Deus quem me deu, mas é fruto de muito trabalho. Se eu tivesse estudado, com certeza não teria trabalhado.”

E ainda emendou: “conheço um doutorzinho, homem muito sabido, estudado, se veste bem, come do bom e do melhor, mas de vez em quando viaja até três dias de onde mora, para vir aqui me pedir um dinheirinho emprestado. E é tão sabido, e aprendeu tanto, que aprendeu até nunca me pagar o que empresto.”

E aproveitou para concluir: “não são em nada diferentes de alguns prefeitinhos que, de vez em quando, vem aqui me pedir voto. Eu não sou dono de voto de ninguém, mas o que eles acabam levando mesmo é dinheiro emprestado. E é por isso que, em vez de estudar, eu prefiro mesmo é trabalhar. Mas não sou contra quem estuda – mas acho que quem estuda deveria pelo menos aprender alguma coisa.”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A PIRRALHA E OS DESOCUPADOS PIRRACENTOS

Greta Thunberg – a “pirralha pirracenta”

O assunto virou mote. Sem valor nenhum, o assunto virou mote para a grande maioria de desocupados que deviam estar catando folhas secas, capinando o mato, banhando cachorros, ou lavando calçadas. É uma absurda falta do que fazer.

Sim, por que as viúvas do Kid Nove Dedos, que acabou de ficar sem a moradia oficial e como não tem mais o tríplex ou o sitio de Atibaia, vive vagando e provavelmente dormindo pelas calçadas da vida, ao tempo que aproveita para falar merda e pregar violência, pegaram o Jair Messias Bolsonaro para Cristo e fizeram e continuarão fazendo uma tempestade com apenas um copo d´água.

Pois, em vez de cuidar da própria vida, a pixoxotinha, kid, mirim, pequena, miúda, e outros tantos adjetivos que o nosso regionalismo brasileiro conhece e fala para designar uma criança, Greta Thunberg ficou ofendida por ter sido rotulada de “pirralha” pelo já reeleito Presidente da República Federativa do Brasil.

E, a partir daí, os “do contra” que divulgam e fazem estardalhaços até por conta de um peido fedorento que B-17 deixe sair pelo furico, estão mandando brasa, propondo cassação por falta de decoro, por desrespeito à sua eminente pirralha Gretinha. Absoluta falta do que fazer.

Entre os “do contra”, muitos precisam ir ao Aurélio. Se forem, lá, com certeza encontrarão:

“Pirralha – S. f. Bras. E prov. Lus. 1. Menina pequena; criança, guri. 2. Indivíduo de baixa estatura.”

Os fatos da semana mostram apenas que, o maior e provavelmente único problema do Brasil, é o brasileiro. Mau, praticando males. Seja contra quem for, que ele não simpatize. Não quer nada com “política”, mas politiza tudo. Tudo tem que ser politicamente correto.

Desemprego? Não existe. Existe, isso sim, quem não queira trabalhar ou não tenha qualificação para isso.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SER HUMANO E A SUA DECREPITUDE

A evolução teorizada por Charles Darwin não está dando certo

Durante muitos anos, os livros e as escolas ensinaram que, “segundo Charles Darwin, a espécie humana nada mais seria que uma espécie em evolução.” Ainda hoje, afirma-se que o homem (espécie) teve como ancestrais, milhares de anos-luz atrás, o macaco.

Hoje, percebe-se que, se isso tem algum fundo de verdade, a evolução está numa “cadeia circular”, haja vista que o homem (espécie) no dia a dia, vem demonstrando que está “involuindo” e, célere, está se transformando em animal. Está voltando a ser o que um dia pode ter sido.

Isso por que, os fatos do dia a dia, nos levam a imaginar isso. As ações de violência praticadas pelo homem, não nos asseguram que, um dia, ele foi animal e continua evoluindo. Cada dia o homem é mais animal. Suas atitudes nada têm com atitudes de um ser humano.

Nem mesmo a “tecnologia” confirma a evolução humana

Mas, Darwin sempre afirmou nas suas teorias que, embora não possuísse elementos comprobatórios, nunca teve dúvidas que a espécie humana descende do macaco.

E aí vem à mente aqueles momentos cômicos da Escolinha do Professor Raimundo, programa veiculado pela TV Globo sob o comando de Chico Anysio, onde o personagem Pedro Pedreira, interpretado por Francisco Milani, com certeza afirmaria: “há controvérsias”!

E o próprio Pedro Pedreira perguntaria: “há algum registro de um macaco que tenha entrado numa jaula, depois de passar meses comendo bananas e macacas, tenha fugido da gaiola, depois de se transformar num homem”?

Ora, se não tem, “não me venha com chorumelas”!

Desconcertado, o “Professor Raimundo” não terá outra alternativa, diante dos fatos que a mídia mostra todos os dias, a não ser concordar com Pedro Pedreira.

Pedro Pedreira – “não me venha com chorumelas”

E o que contradiz tudo isso, factualmente?

Ora, na semana que passou, a televisão mostrou em seguidos dias, as ações de “seres humanos” que ainda vivem em dúvidas se descendem do macaco ou não, travestidos de policiais, agentes oficiais do Estado, com atitudes nada humanas, agredindo com chutes violentos, “um macaco” que estava caído no chão e indefeso.

É, a vítima caída no chão e continuamente agredida, só podia ser um macaco, com raiva, tamanha era a violência com que o “agente do Estado” desferia violentos chutes, e transmitia, naquele instante, a contradição à teoria de Charles Darwin.

Pergunta-se: o que é que um “humano” como aquele tem dentro da cabeça? O que o leva a fazer aquilo com um semelhante?

Noutra imagem, um outro “ser humano” desfere cassetetadas em quem por ele passa, enquanto ri, descaradamente.

Imaginemos qual pode ser a reação “daquele pedaço de não se sabe o que”, quando olhar noutra oportunidade aquelas imagens.

Seria o caso de voltarmos à Escolinha do Professor Raimundo, agora para relembrar outro personagem: Sandoval Quaresma, conhecedor de tudo, que sabia tudo, que respondia tudo, até que, na última resposta “faiava”, e concluía:

– “Mas eu estava indo tão bem”!

Sandoval Quaresma estava indo muito bem – mas “faiou”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

JOÃO-DE-BARRO – O PASSARINZIM LINDIM DA VOVÓ

Alguidá de barro

Como se fora um cenário para teatro previamente marcado, a cena se repetia toda vez que o relógio da vida, em vivas badaladas, tocava doze horas. Naquele panorama, em breve tocaria a primeira hora de um novo dia.

Era assim: no poleiro, estridentemente, aquele galo vermelho estofava o peite carnudo, abria o bico, e começava a cantar anunciando a madrugada e o novo dia que chegava. Senha dada, ali próximo, os bodes e cabras no chiqueiro se movimentavam e, aquela ladainha quase poética dos chocalhos acontecia, regida, nunca se saberá por quem. Todos, quase ao mesmo tempo. O que dava a ideia de algum comando.

E, a partir dali, o frege na cozinha de Doca Buretama não parava mais. Fogo de lenha aceso, lata velha pendurada com arame iniciava a fervura da água para o café. A frigideira velha esquentava ao mesmo tempo que recebia a massa gomada para os beijus. Na outra boca do fogão à lenha, fervia a água da panela para o cuscuz de milho feito no prato virado. Nata de leite e batata doce cozida já estavam postas na mesa.

Preparado, servido e tomado o café na casa de Doca, a luta continuava, agora para a limpeza da “louça” usada (uma meia dúzia de canecas de ágata e alumínio que, quando o líquido estava muito quente, “queimava os beiços” de quem bebia) e a continuidade com a das panelas para a preparação do almoço.

Nenhuma gota d´água podia ser desperdiçada, ainda que usada na limpeza da louça. Pensando e agindo assim, Doca colocou quase na ponta do “girau” da cozinha, um alguidá de barro, com estrume bovino servindo como adubo, para ver nascer e crescer ali um pé de pimenta malagueta.

Doca só tinha um trabalho com o alguidá: molhar com a água usada na lavagem de qualquer peça da cozinha. No mais, só se preocupava com ele, quando precisava colher uma ou duas pimentas para serem machucadas no caldo do peixe, do feijão verde, ou da carne bovina que se comia aos domingos. Só aos domingos.

A Triste Partida – YouTube

Além daquele alguidá com a pimenteira, Vovó cultivava cebolinha e coentro num canteiro bem cuidado. Coberto com um véu que ganhara da neta Conceição após o nascimento de Pepê, que durante anos serviu para evitar moscas durante o dia, e muriçocas durante a noite, enquanto dormia no berço. Aquele véu, no canteiro, servia para proteger dos pássaros e das galinhas, o coentro e as sementes que, secas, eram guardadas numa garrafa tapada com sabugo de milho e cera de abelha, e escondida na camarinha. Coisas do sertão, que só quem as viveu pode identificar.

Canteiro plantado com coentro e cebolinha

Eis que, certo dia, derrubando cajus maduros com uma comprida vara de marmeleiro, Vovó descobriu que um João-de-Barro construía ali um belo e bem arquitetado ninho. E a casa do “passarinzim” já estava concluída. Coisas que a mãe Natureza nos premia no viver do dia a dia.

A partir daquela descoberta, ela acrescentou à sua “prole passarinheira” mais uns filhotes, e o “passarinzim lindim” ganhou novo status de proteção, adoração e bem-querer. Era “meus bixins pra cá, meus bixins pra la´!

Mas, como sempre houve e haverá por toda a eternidade do universo, o dedo de alguém que atrapalha, contra a mão de alguém que protege a nós e a tudo, o fatídico, um dia aconteceu.

João-de-Barro construindo a casa

Terminado o almoço de um certo domingo, quando todos se preparavam para a madorna vespertina, Doca, que não tinha o hábito de guardar sobra do almoço para o jantar, ao terminar de lavar a louça, resolveu molhar a pimenteira do alguidá com toda a água usada que juntara. O alguidá abriu, quebrou e espatifou-se no chão fora do girau. Doca arrodeou, e só então percebeu que parte do fundo do alguidá não existia mais. Havia um buraco enorme.

E sabe onde estava o barro tirado do fundo do alguidá? No galho do cajueiro, ora! Transformado no ninho do “passarinzim lindim”!

De filho da puta para mais alto, foram os impropérios que o “passarinzim lindim” foi obrigado a escutar. Tem ouvidos, sim.

Incontinenti, Vovó pegou a mesma vara que usara para derrubar cajus, com a ânsia de destruir aquilo no que fora transformado o seu belo, servil e antigo alguidá que ganhara de presente de aniversário.

Mas, como o bem também existe em qualquer lugar, na primeira paulada dada na casa do João-de-Barro, Vovó escutou um piado diferente do cântico que escutava sempre. Como Pepê estava passando o domingo com ela, pediu para o menino “assubir” naquele cajueiro e espiar o que acontecia.

– Vó, tem quatro “passarinzim” novos no ninho!

Filhotes do João-de-Barro

– Ô meu filho, intãosse desça daí. Deixe os bixins crescerem e percurarem a vida deles. Afinal de contas, um alguidá véio num seuve mermo é pra nada! Coitadinha da minha pimenteira!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

QUEM CUIDARÁ DAS NOSSAS CRIANÇAS, E LHES EMBALARÁ NAS REDES?

Pais vão ao trabalho e crianças ficam “soltas”

Empurrada pelas “necessidades” de consumo desnecessárias, semeadas pelas teorias do capitalismo, nas quatro ou cinco últimas décadas, a família atendeu o chamamento, e permitiu ser dividida ao meio, para correr em busca do nada. Mas que provocou o “status quo” que vivemos hoje, na prática. O desmoronamento familiar, e a proliferação da violência em todos os níveis sociais, são ventosas do capitalismo enganador.

As famílias dos dias atuais não se reúnem mais para o café matinal, para o almoço ou para o jantar. No máximo “se encontram” ao redor de mesas, entre churrasco e cerveja – mas, com a grande maioria dando total atenção aos telefones celulares. As conversas desapareceram.

Acreditando numa mentira, aquela mãe “do antigamente” que se dedicava à família aceitou sair de casa para algum tipo de trabalho, acreditando, também, que o que poderia ganhar pudesse ajudar na manutenção e melhoria do orçamento familiar. Pode até ser. Entretanto, ao “sair de casa” para fazer algo que não sabe e para o qual não está preparada, a mãe se expôs, largou os filhos à sanha dos predadores sociais. E a melhora financeira não saiu do zero.

A partir dessas situações, ou ela se prontifica às realizações de jornadas duplas (ou triplas, se resolver voltar à escola no período noturno – essa uma boa decisão), ou vai somar aos números manipulados pelos estudiosos do convencimento de que, o ter é melhor que o ser: capitalismo puro e perverso.

Vítimas de falácias (ainda que com excelente nível cultural e de informação), há mulheres que, equivocadamente, chamam essa saída de casa para o trabalho, de “empoderamento”. Pois sim!

Por conta disso, resolvemos “criar essas duas situações” tão corriqueiras e verdadeiras em meio aos nossos dias.

I

Cinco da manhã. A movimentação na casa de Doca e Domingos é intensa. No banheiro, Domingos toma o banho matinal no início da preparação para ir ao trabalho. Dominguinhos, toalha no ombro e escova na mão, espera sua vez de ir ao banheiro.

Na cozinha, Doca termina os preparativos para a primeira refeição (do marido e do filho) dos dois. Poucas frutas (apenas banana e mamão), beijus, café preto no bule, manteiga real – os dois sentam à mesa e se servem.

Doca, de abano numa da mãos, tenta esquentar o ferro a carvão colocado na janela. Precisa “passar o ferro” nas camisas de Domingos e Dominguinhos – um vai ao trabalho na fábrica de óleo, o outro vai à escola municipal com pouca estrutura e poucas aulas.

Café tomado, começa acontecer a rotina diária. Domingos prepara a bicicleta, abre o portão da casa e aguarda Dominguinhos, que vai ser levado de “carona” até a escola e, de lá, Domingos seguirá para o trabalho. Ao meio dia o trajeto da volta será o mesmo de cada dia.

Mesa posta para o almoço simples, família toda à mesa. Pouca conversa, mas a auréola do respeito se faz presente. Antes, a oração para agradecer a refeição, saúde, paz familiar e, principalmente, pela manutenção do trabalho que continuará alimentando a todos.

Domingos come rápido, pois quer fazer um pequeno reparo na bicicleta, antes de pegar o caminho para a fábrica. Dominguinhos faz a assepsia, e vai descansar um pouco, antes de cuidar do “dever de casa” da escola, que será fiscalizado pela mãe, Doca.

Louça usada lavada. Casa limpa e o início da preparação do jantar. Enquanto Doca escuta a novela nas ondas do rádio, Dominguinhos conclui o “dever escolar de casa” e pede para brincar um pouco com os amigos da rua. Doca consente, mas avisa que estará vigiando.

Crianças do passado aproveitavam momentos de lazer

Cinco horas da tarde. O movimento na cozinha é nenhum. A movimentação na rua, na frente da casa é a mesma de todas as tardes. Doca, sentada na cadeira de balanço, remenda as camisas de Domingos, e Dominguinhos brinca feliz, com os amigos.

Passam anos. Domingos ganha aposentadoria. Após de um dia de afazeres domésticos, duas cadeiras de balanço estão à frente da casa. Doca e Domingos conversam e esperam a chegada de Dominguinhos da faculdade. Último período de Medicina.

Chega 24 de dezembro. Véspera de Natal. Mesa posta para a ceia. Castanhas, rabanadas, nozes, vinho, um pernil suíno bem assado. Amigos da família e familiares começam chegar. Dominguinhos chega com a esposa, e a ceia começa ser servida. Família feliz!

II

Sete horas da manhã. A movimentação na cozinha e no banheiro da casa de Caroline e Hugo é intensa. No banheiro, Hugo toma banho, iniciando os preparativos para ir ao trabalho. Huguinho, toalha e escova na mão espera sua vez, dedilhando o celular.

Na cozinha, Caroline inicia os preparativos para a primeira refeição (dela, do marido e do filho) da família. Frutas (morangos, bananas e mamão), torradas, café na garrafa térmica – os dois sentam à mesa e se servem. Huguinho continua no banho, e no celular.

Caroline, não se preocupa com a roupa do marido, Hugo; ou do filho, Huguinho. Tampouco se preocupa com lanche, pois a escola fornece merenda escolar. Assim, inicia a preparação para trabalhar – Vendedora de loja, com salário comissionado pelo que vende.

Café tomado, começa a rotina diária. Hugo arruma a mochila, e aguarda o ônibus da empresa. Huguinho, ainda no quarto, com o celular, sem ter certeza se terá aulas naquele dia. Caroline caminha para pegar o ônibus, sem dar a devida atenção à Huguinho.

Não há mesa posta para o almoço, por que ninguém almoça em casa. Sem conversa, sem a auréola do respeito presente. Todos fora de casa. A família está dispersa, sem reunião e os problemas do dia sem solução. Também não há como conceituar isso de “família”.

Hugo come rápido no restaurante do trabalho. Joga dominó no tempo que resta para o horário do almoço. Poderia ler um livro, haja vista que vai à escola de noite. Huguinho, longe de casa, passa o horário de descanso dedilhando o celular. Caroline vai ao shopping.

Jovem “largado” pelos pais chega em casa para o Natal

Em casa, a louça do café está por lavar. Casa desarrumada e não há jantar. Quando todos estiverem em casa, será pedida uma pizza e refrigerantes. Hugo demora chegar, Caroline, só Deus sabe onde anda. Huguinho com os amigos de comportamentos duvidosos.

Vinte e duas horas. Todos já em casa, cada um com o celular. Ninguém conversa. Na rua, na frente da casa, tudo como nos outros dias. Caroline não demonstra interesse em saber se Huguinho fez o dever de casa. Joga no celular, enquanto Hugo fala com um amigo.

Passam anos. Hugo é demitido do trabalho e está desempregado. Caroline fez bobagem, se envolveu com o patrão. Foz demitida após aprontar um barraco durante o expediente da loja onde trabalhava. Huguinho, teve problemas na escola, onde nunca aprendeu nada.

Chega 24 de dezembro. Véspera de Natal. Não há mesa posta para a ceia. Nem castanhas, rabanadas, vinho. Sem dinheiro, Hugo se nega a sair de casa. Huguinho, cumprindo prisão por tráfico de drogas, vai passar o Natal em casa, usando tornozeleira eletrônica.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A COLHEITA

O milho na colheita manual

O bornal apoiado no ombro do lado esquerdo; o saco, do lado direito. Caminhar lento, mas definido. Caminho do roçado. Colher, como recompensa do suor escorrido pelo rosto, e resultado de muito trabalho, o milho e o feijão.

O alimento da prole. Cultivado cada pé, como se filhos biológicos fossem. Ali foram semeadas a esperança, a fé, e a dignidade em poucas sementes. Nascidas, crescidas e vigiadas pelos espantalhos que se tornariam coniventes com as aves na propagação das espécies. É a vida. São os ciclos que o universo nos proporciona.

Uma espiga. Outra espiga e mais outra. Uma vagem de feijão, outras vagens. Quiabo, mais quiabos e, agora, o agachamento na colheita do maxixe. Outro maxixe, mais outro. A colheita transformada em bônus.

Uma abóbora. Uma melancia – o caçuá está quase cheio. É hora de voltar à casa, com o que produziu o trabalho diuturno, de sol a sol. Sem domingos ou feriados.

A colheita. Fruto da boa semente, do trabalho digno e da esperança e fé em Deus.

* * *

SEXO COM O MAR

A mulher “esperando” as ondas

Se sou areia e posso me molhar,
Quero a magia da onda do mar,
Lambendo minhas entranhas
Que só o tempo enxugará.

Mas, relva que sei que sou,
Quero tua luz, clareando
O cogumelo que eu poderia ser.
De alma e corpo transparente.

Lá vem ela, a onda, me molhar.
Se não me molhar total, espero.
Pois sei que vais voltar
No vai-e-volta, até molhar.

Molhar o olhar, no mar
Molhar o corpo e a alma, no mar
Molhar o sonho e o pensar
Molhar minhas entranhas, me fazendo amar.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A “CRISTA DE GALO” E O VRRRRUUUUM DA INHAMBU!

Pirão de farinha seca da “crista de galo”

Era habitual, antes de botar a tramela na porta do galinheiro, auxiliada com a claridade da lamparina, conferir se todas as galinhas e os três galos estavam ocupando seus devidos e tradicionais lugares. Isso, era o que faziam, pela ordem natural da vida, a minha bisavó Naname, minha avó Raimunda, e minha mãe Jordina. Tradição familiar.

E, naquele começo de noite, após a contagem, o caixa não fechou. Os números não batiam, haja vista que dois lugares estavam “desocupados”. Mas, pelo menos naquela noite, quem estivesse fora do galinheiro continuaria assim.

– Tá fartando duas galinhas, Zezim! Amanhã bem cedim a gente percura elas!

Recolhemos a lamparina, fechamos a tramela do galinheiro e depois a porteira do chiqueiro, e voltamos para casa – pois agora precisávamos forrar o estômago antes de dormir. Foi, na volta para casa, que descobri que Vovó trazia numa das mãos, três ovos que havia pego no galinheiro.

– Zezim vá dizê pro seu Avô prumode não drumir, que vou fazê o dicumê!

Ovo cozido com a gema mole

O “dicumê” a caminho da preparação, era a famosa “crista de galo”, alimento emergencial que se consome há tempos em muitas casas desse país. E, não é “alimento” apenas para os pobres. Bem preparado, tem a preferência de muita gente.

Panela (no nosso caso, panela de barro) no fogo. Água, sal a gosto, pimenta do reino moída, coentro e cebolinha picados, uma colher de sopa de banha de porco ou manteiga real, ou, ainda, manteiga de garrafa.

Tão logo começa a fervura da água, com cuidado coloca-se um ovo sem casca e espera-se que a clara cozinhe. Em seguida, retira-se o ovo com cuidado para não “espocar” a gema. Separa-se, e repete-se a mesma coisa com quantos ovos forem necessários.

Cozidos os ovos, faz-se o pirão (angu, para muitos) e serve-se ainda quente. No prato, sobre o pirão, acrescenta-se os ovos, em seguida “espoca-se” os ovos permitindo, aí sim, que a gema cubra o pirão. Sirva-se!

Inhambu – ave da roça

Ao amanhecer do dia, tão logo o galo começa cantar, a rotina diária da casa recomeça. Café preto para uns, com leite para outros, batata doce cozida, cuscuz com nata de leite, abóbora cozida, à qual se junta o leite “vaquino” – eu sempre preferi o leite “caprino” – e vamos à luta.

Terminado o café, foice na mão, bornal no ombro, chapéu na cabeça e é iniciada a procura das duas galinhas poedeiras pertencentes ao “rebanho” da matriarca. A gente sabe que, “rebanho” é mais usado para os bois.

Poucos minutos de procura, e já se percebe que uma chuva fina caiu durante a noite, formando um orvalho poético aos olhos de quem gosta do verde das folhas, em detrimento do amarelado propício às queimadas, possibilitando que a brisa refrescante massageie o rosto e faz aspirar aquele cheiro gostoso e inconfundível da terra molhada.

Repentinamente, aquele momento poético de tantos versos gonçalvinos é interrompido na primeira curva que a vereda do caminho oferece na direção do mato à dentro, e do açude novo.

– Vrrrruuuummmmm!

– Vrrrruuuummmmm!

Provocando um grande susto, mas avisando que ali existia vida, um belo casal de inhambu levanta voo, transformando as asas em poderosas turbinas movidas pela natureza da vida e do universo.

O casal de inhambus aproveitava algumas sementes ainda em flor, que a neblina e o peso do orvalho haviam derrubado e apareciam limpas no caminho.

Andamos procurando a manhã toda. As duas galinhas poedeiras da Vovó não foram encontradas, sem deixar dúvidas que, mais uma vez, a raposa se fartara na preservação das espécies.

Ficava a certeza que, a partir daquele dia, o dicumê noturno feito com “crista de galo” teria alguns ovos a menos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O RELÓGIO DE ALGIBEIRA

Relógio de algibeira presenteado ao meu pai

Nasci no dia 30 de abril. Na minha família, também nasceram no mês de abril, meu irmão João Hélio, no dia 8; minha Mãe, Jordina, no dia 14; meu irmão caçula, Jorge Luiz, no dia 23. Depois, chegaram minhas duas filhas do primeiro casamento. Ana Karina, dia 20; e Annya Karênina, dia 15.

De todos da família, apenas eu recebia presente de aniversário. Explico: dinheiro sempre foi fartura entre nós. “Fartava” sempre para tudo, incluindo as necessidades domésticas básicas. E, dinheiro de pagamento salarial sempre chegava no último dia de cada mês. Dia 30. Entenderam, tenho certeza.

Meu Pai aniversariava no dia 26 de outubro, e não fazia muita questão de receber presente de aniversário, até por que, para comprar esse presente, tínhamos que ter dinheiro. E, o dinheiro que tínhamos, era sempre Ele quem nos dava. Por esse ou aquele motivo, era Ele quem nos dava.

Do dia 30 de abril, até o dia 26 de outubro, se passavam seis meses, ou quase isso. Como eu era o único que recebia presente do meu Pai, eu também era o único a presentear-lhe. Nada mais justo. E, como eu não trabalhava, para presenteá-lo, precisaria “juntar os trocados” que ele próprio me dava. Era, digamos, como se Ele estivesse “poupando”.

Ele até me dava o porquinho de presente, e, às vezes, até depositava algumas moedas, daquelas antigas de cinquenta reis, dois mil reis, dinheiro corrente daqueles tempos antigos.

Tudo mudou quando a adolescência bateu à porta. As doações do meu Pai rarearam e, juntar trocados ficou mais difícil. Eu precisava dar o meu jeito, pois a mentalidade da retribuição permanecia, e eu continuava ganhando meu presente todo dia 30 de abril.

Lá pelos meados do mês de setembro, eu dava aquela sacudidela no porquinho, e podia perceber que ainda eram poucas as moedas. Insuficientes para comprar a tradicional “caixa de lenços Premier” que, aparentemente, meu Pai gostava tanto. Corria e quebrava o porquinho de cerâmica. Só então descobria que precisava “fazer dinheiro”.

E agora, o “fazer dinheiro” seria diferente daquele dinheiro que fazíamos com maços de cigarros vazios que tanto usávamos na infância. Tinha que ser, e precisava ser “dinheiro mesmo”.

Pegava as moedas do porquinho, comprava dois cocos e duas rapaduras. Corria à fazer cocadas. Cocadas das pretas. Aquelas preferidas da maioria.

A primeira leva das cocadas não dava para quem queria e já havia provado. Era de uma doçura incomparável, comprovando que havia componente mais doce que o açúcar ou a rapadura.

Cofrinho de cerâmica onde eu juntava os tostões e os milréis

O dinheiro produzido com a venda tinha uma destinação. Parte serviria para cobrir a despesa do investimento – uma espécie de capital de giro – e outra parte voltava para novo custeio. O que configurava “lucro”, era depositado em algum novo lugar, até que um novo porquinho fosse comprado.

Mais cocos. Mais rapaduras. Mais cocadas e mais possibilidades de novo faturamento. Por alguns dias, meses e anos, fui considerado o “Rei das cocadas pretas” – título e reconhecimento pomposo e provavelmente merecido.

Entre uma porção de cocadas e outra, nunca foram esquecidas as obrigações escolares, nem a premiação dos momentos de lazer que toda criança ou adolescente faz jus. Estudar, trabalhar e brincar – literalmente nessa ordem.

Finalmente, o dia 26 de outubro se aproximava. Sem shopping, sem lojas de vitrines bonitas, a solução era esperar a chegada de um sábado (dia sem aulas) para, finalmente, comprar aquela caixa de lenços que ficava escondida em lugar inacessível pelo aniversariante. No dia tão esperado, aquela novidade que se repetia a cada ano, era mais uma vez praticada.

Cocada das pretas – minha primeira impressão de empreendedorismo

Mas, de acordo com o ditado popular, “não há mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe” – e aquela alegria momentânea, simples, coroamento da relação de um Pai com um filho, também estava com as horas contadas.

A adolescência trouxe junto, o compromisso de servir à Pátria, e a responsabilidade de pensar num salto maior nas obrigações escolares: o Vestibular, com a chegada do curso científico no Liceu do Ceará.

O tempo passou, e surgiu a primeira namorada. Aquela que precisava ser visitada na própria casa, com assento em lugar de destaque na sala principal. Namoro firme, e o início do conhecimento prático da vida. Continua correndo o tempo. Célere. Como se fosse uma competição olímpica e a necessidade de superar recorde.

O primeiro emprego remunerado. Não tão bem remunerado, mas a recompensa do esforço para alcançar uma aparente independência.

O ingresso no curso científico arregalou os olhos para o mundo, e aguçou a sensibilidade para o que realmente é a vida. Novos amigos, emprego novo e agora ganhando o triplo do que ganhava no emprego anterior. Novo horizonte e um mundo que, se não era colorido, tinha tons firmes e definidos.

O bom salário trouxe o engajamento com a política estudantil, e novas ideologias. A coragem de participar politicamente das coisas da vida, e a ingênua perspectiva de consertar o mundo. A eleição para compor a diretoria do Sindicato dos Telegráficos, e a politização ideológica, até o envolvimento total na prática diária.

Eis que chega o dia 31 de março de 1964. Tudo muda em pouco menos de 24 horas. Os céus ficam escuros e a chuva não cai. Nuvens negras. Nuvens pesadas.

Entre o dia 31 de março de 1964, e o próximo dia 26 de outubro, havia uma distância muito grande, e não havia mais dois cocos, duas rapaduras nem algumas boas cocadas das pretas. Com certeza, aquela caixa de lenços seria esquecida por algum momento.

Mudar para outro lugar, foi a ideia que veio à cabeça. Sem demora, um acordo para a demissão da diretoria do Sindicato, o que possibilitaria uma negociação com a Western, e o recebimento de todos os direitos trabalhistas. Tudo acertado e, enfim, um bom dinheiro na conta bancária.

Passagem terrestre comprada, pois não havia problema para uma viagem interestadual. Malas prontas, namoro desfeito, tudo encaminhado.

Era chegada a hora da despedida em casa. Uma lembrança forte e marcante substituiria aquela caixa de lenços. Fui a uma relojoaria e, com dinheiro suficiente, comprei um relógio de algibeira. Um dia antes da viagem, resolvi entregar o presente à quem só aniversariaria no dia 26 de outubro, muito distante. Mas a pressão das nuvens negras estava próxima.

Entreguei o presente e olhei firme nos olhos do meu velho Pai. Foi a primeira vez que vi lágrimas escorrerem pelos olhos dele, e a última vez que nos vimos e abraçamos fortemente.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O TREM QUE TRAZIA – E O ÔNIBUS QUE LEVAVA

O trem avistado desde a Estação Barracão

Quando chegava o mês de dezembro, os alunos que compunham a série do curso ginasial se alvoroçavam. Uns, vibravam de alegria pela aproximação das provas finais do ano letivo e o início das férias escolares, outros, que haviam estudado pouco ou quase nada aprendiam, ficavam apavorados com possíveis reprovações. Provas escritas e orais, exigiam o somatório da média 5. Abaixo disso, era “reprovação consumada” e a certeza da repetição de tudo no ano seguinte. Nunca repeti e sempre alcancei nota acima da média. Mas, muito longe de ser “top” entre os melhores alunos da classe.

A última prova oral do ano letivo, tinha ares de verdadeiro “chute na bunda” e, em seguida, pernas para que te quero.

Neste exato momento, quando estou escrevendo este texto (dia 25 de outubro de 2019), me veio à lembrança uma dúvida: não lembro se, naquele tempo o meu pai se dirigia ao colégio “para renovar a matrícula”, como é feito hoje. A “rematrícula” era automática, diferente das muitas inovações imprestáveis dos dias atuais.

No dia seguinte era fazer a pequena mala de madeira forrada e coberta com papel parede, colocar a escova de dentes, o creme dental Eucalol, a baladeira, o pião e o bornal de carregar pedras, uma latinha de Vick Vaporub e uma “roupa de ir à missa aos domingos”, comprar o bilhete do trem e esperar aquele maravilhoso apito da partida. Os trilhos, mesmo existindo algumas paradas programadas ou desvios, só levavam à um destino: a Estação de Barracão, lugar que jamais será apagado da memória de muita gente.

Estação Barracão em abandono após anos de utilização

Quando a máquina que conduzia os oito vagões de carga e passageiros se aproximava da estação, longe ainda, mas na última curva antes dos duzentos metros de reta, muitos punham as cabeças para fora das janelas na tentativa de identificar a parentada que, atônita, esperava na estação. Acenos mil, beijos muitos.

A alegria da chegada era transformada naquele “ruge-ruge” de abraços e encontros com bagagens e fardos de encomendas para esse ou para aquele. Um momento ímpar de alegria e contentamento pelo reencontro – ainda que por apenas dois meses das férias escolares.

Hoje, lembro bem, a ansiedade que enfrentávamos quando faltavam três ou quatro dias para o início das férias, fazia a demora parecer um século – e era diferente, também, com a duração dos dois meses de férias que, parecia ser menos de uma semana.

Baladeiras, passarinhos, banhos no açude, assar castanhas de caju, defecar trepado na mangueira ou cajueiro, tudo contava pontos naquela curta vivência das férias. Quando menos esperávamos, faltava menos de uma semana para o final daquele período marcante.

As aulas recomeçavam sempre numa segunda-feira (por que????) e, no sábado já tínhamos que estar de volta em casa para a preparação da volta às aulas: cortar o cabelo, provar e aprovar o fardamento se fosse novo, e encapar os livros e cadernos novos.

A sexta-feira, ainda no interior, era estafante e cansava mais que os quase dois meses de brincadeiras. Caminhar até o rodovia para tomar o ônibus que levava de volta à casa.

O ônibus da volta das férias era um verdadeiro luxo

Sem muita reclamação, a rotina das aulas no início do ano não mostrava diferença. Só mesmo nas caras dos professores, ou nas matérias que mudavam a cada ano. Química e Física só estudávamos a partir da terceira série ginasial e no científico. Antes, era Ciências Naturais. Cada final de mês, provas escritas. Provas orais só no final de cada ano, sempre após as provas escritas. E assim, aparentemente, tudo era igual até o final do ano. Exceção às férias do meio do ano, sempre em julho.

A ÚLTIMA: Minha santa Avó não era puta. É, puta, aquela que “renova o óleo masculino num cabaré” ou intramuros de quatro paredes. Mas, também não tinha nenhuma aproximação com a agora Santa Dulce dos Pobres. Mulher liberal e liberada antes mesmo do nascimento de Leila Diniz. E minha falecida e santa Avó tinha uma característica que, quiçá nunca tivesse sido só dela – ela, vovó, nunca usou calcinha, tampouco calçola. E, tirada da cabeça dela, tinha uma explicação para esse comportamento:

– “Calcinha ou calçola é algo que “guarda”. E por que diabos a gente tem que guardar alguma coisa que gosta e sente prazer em dar?”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

LICEU DO CEARÁ – 176 ANOS DE MUITA QUALIDADE

Liceu do Ceará chega aos 176 anos de existência

Fundado no dia 19 de outubro de 1843, o Liceu do Ceará é a quarta mais antiga instituição de ensino público do Brasil, país que já atingiu 519 anos desde a descoberta no dia 22 de abril de 1500.

De acordo com o livro “O Liceu do Ceará em Cem Anos”, do autor Hugo Vitor, a escola é a 4ª mais antiga do País, fundada no ano de 1843. A instituição foi criada pelo Marechal José Maria da Silva Bitencourt, que era “engenheiro militar e foi o 13º presidente do Ceará e Comandante das Armas”, e dessa fundação como legado, os muitos diretores que por ali passaram, mantiveram apenas a rigidez disciplinar para professores e alunos. Sem viadagens, sem baitolagens – aluno com “brinquinho” na orelha, não entra. Tem todo o direito de ser gay, mas vai ser gay fora do colégio.

Ainda hoje, usando a linguagem sem verniz, “o Liceu do Ceará é uma escola onde a frescura e a viadagem não entram”. É uma escola para macho. Disciplina rígida, sem aderir às frescuras atuais que permeiam na educação brasileira, o Liceu do Ceará é o principal formador de mais de 70% dos profissionais renomados do Ceará.

O primeiro diretor da escola foi o padre Thomaz Pompeu de Souza Brasil. Já o primeiro prédio do Liceu foi inaugurado em 1894, no Centro de Fortaleza, e lá permaneceu até 1937, quando se mudou para o seu atual endereço, na Rua Liberato Barroso, no bairro Jacarecanga. O diretor mais longevo e admirado por sua rigidez direcional, sem deixar de ser justo, foi Boanerges Cysne de Farias Sabóia. Admirado e respeitado até pelos mais “peraltas” alunos.

Professor Boanerges Cysne de Farias Sabóia com sua espoa – ele foi o mais longevo Diretor do Liceu do Ceará

Rigidez e disciplina suportáveis – Quem ler hoje nas redes sociais os pais que perderam o controle e o domínio sobre os filhos protestarem contra “escolas públicas com orientação militar” – sem que a matrícula de quem quer que seja venha ser algo obrigatório – reclamar da qualidade da escolarização apenas para
se parecerem “contra o Governo”, não tem a menor ideia de que um dia (e até hoje é assim!) foi a disciplina implantada no Liceu do Ceará.

Aluno que agride professor, no Liceu do Ceará, nunca foi “suspenso”. Sempre foi “expulso” e os pais nunca compareceram “armados de revólver” para reclamar isso ou aquilo. Dentro do colégio, a disciplina sempre foi rígida – sem ser “militarizada”.

Estudei no Liceu por 7 longos anos. Ali estudei Canto Orfeônico (Música), Latim, Desenho e até “Esperanto”, sem nunca ter sabido qual a utilidade dessa matéria. A média para “aprovação”, era 7. Quem ao final do ano, após as provas escritas e orais não alcançasse a média 7, estava “reprovado” e “c´est fini”!

Foto 3 – Veja a disciplina durante um café da manhã numa data comemorativa

A maioria que concluía o Terceiro Ano Científico (ou Clássico) no Liceu do Ceará, quase nunca era “reprovada” no Vestibular para qualquer universidade – por que, quem concluía, sabia o que fora ensinado. Estava preparado para enfrentar o Vestibular.

Por isso, nenhum pai saía de casa para agredir Professor, pois sabia que aquela rigidez tinha um objetivo: o aprendizado, sem frescuras, sem qualiragens.

Era terminantemente proibido a qualquer aluno de qualquer série, vestir o uniforme do colégio fora do horário de aulas. Quem fosse flagrado usando a calça (cáqui, com duas listas azuis em cada perna) com o objetivo de pagar meia passagem nos transportes coletivos ou nos cinemas, era punido.

Os “bedéis” – funcionários que fiscalizavam as possíveis indisciplinas de alunos pelas ruas nas saídas dos horários de aulas – eram temidos e respeitados.

Outros tempos!

Parabéns ao Liceu do Ceará pelos 176 anos de excelentes serviços prestados à escolarização do Ceará e do Brasil.