O TREM QUE TRAZIA – E O ÔNIBUS QUE LEVAVA

O trem avistado desde a Estação Barracão

Quando chegava o mês de dezembro, os alunos que compunham a série do curso ginasial se alvoroçavam. Uns, vibravam de alegria pela aproximação das provas finais do ano letivo e o início das férias escolares, outros, que haviam estudado pouco ou quase nada aprendiam, ficavam apavorados com possíveis reprovações. Provas escritas e orais, exigiam o somatório da média 5. Abaixo disso, era “reprovação consumada” e a certeza da repetição de tudo no ano seguinte. Nunca repeti e sempre alcancei nota acima da média. Mas, muito longe de ser “top” entre os melhores alunos da classe.

A última prova oral do ano letivo, tinha ares de verdadeiro “chute na bunda” e, em seguida, pernas para que te quero.

Neste exato momento, quando estou escrevendo este texto (dia 25 de outubro de 2019), me veio à lembrança uma dúvida: não lembro se, naquele tempo o meu pai se dirigia ao colégio “para renovar a matrícula”, como é feito hoje. A “rematrícula” era automática, diferente das muitas inovações imprestáveis dos dias atuais.

No dia seguinte era fazer a pequena mala de madeira forrada e coberta com papel parede, colocar a escova de dentes, o creme dental Eucalol, a baladeira, o pião e o bornal de carregar pedras, uma latinha de Vick Vaporub e uma “roupa de ir à missa aos domingos”, comprar o bilhete do trem e esperar aquele maravilhoso apito da partida. Os trilhos, mesmo existindo algumas paradas programadas ou desvios, só levavam à um destino: a Estação de Barracão, lugar que jamais será apagado da memória de muita gente.

Estação Barracão em abandono após anos de utilização

Quando a máquina que conduzia os oito vagões de carga e passageiros se aproximava da estação, longe ainda, mas na última curva antes dos duzentos metros de reta, muitos punham as cabeças para fora das janelas na tentativa de identificar a parentada que, atônita, esperava na estação. Acenos mil, beijos muitos.

A alegria da chegada era transformada naquele “ruge-ruge” de abraços e encontros com bagagens e fardos de encomendas para esse ou para aquele. Um momento ímpar de alegria e contentamento pelo reencontro – ainda que por apenas dois meses das férias escolares.

Hoje, lembro bem, a ansiedade que enfrentávamos quando faltavam três ou quatro dias para o início das férias, fazia a demora parecer um século – e era diferente, também, com a duração dos dois meses de férias que, parecia ser menos de uma semana.

Baladeiras, passarinhos, banhos no açude, assar castanhas de caju, defecar trepado na mangueira ou cajueiro, tudo contava pontos naquela curta vivência das férias. Quando menos esperávamos, faltava menos de uma semana para o final daquele período marcante.

As aulas recomeçavam sempre numa segunda-feira (por que????) e, no sábado já tínhamos que estar de volta em casa para a preparação da volta às aulas: cortar o cabelo, provar e aprovar o fardamento se fosse novo, e encapar os livros e cadernos novos.

A sexta-feira, ainda no interior, era estafante e cansava mais que os quase dois meses de brincadeiras. Caminhar até o rodovia para tomar o ônibus que levava de volta à casa.

O ônibus da volta das férias era um verdadeiro luxo

Sem muita reclamação, a rotina das aulas no início do ano não mostrava diferença. Só mesmo nas caras dos professores, ou nas matérias que mudavam a cada ano. Química e Física só estudávamos a partir da terceira série ginasial e no científico. Antes, era Ciências Naturais. Cada final de mês, provas escritas. Provas orais só no final de cada ano, sempre após as provas escritas. E assim, aparentemente, tudo era igual até o final do ano. Exceção às férias do meio do ano, sempre em julho.

A ÚLTIMA: Minha santa Avó não era puta. É, puta, aquela que “renova o óleo masculino num cabaré” ou intramuros de quatro paredes. Mas, também não tinha nenhuma aproximação com a agora Santa Dulce dos Pobres. Mulher liberal e liberada antes mesmo do nascimento de Leila Diniz. E minha falecida e santa Avó tinha uma característica que, quiçá nunca tivesse sido só dela – ela, vovó, nunca usou calcinha, tampouco calçola. E, tirada da cabeça dela, tinha uma explicação para esse comportamento:

– “Calcinha ou calçola é algo que “guarda”. E por que diabos a gente tem que guardar alguma coisa que gosta e sente prazer em dar?”

10 pensou em “O TREM QUE TRAZIA – E O ÔNIBUS QUE LEVAVA

  1. A SENHORA SUA VÓ, MEU PREZADO COLUNISTA, TINHA ALGO EM COMUM COM A MODELO LUANA PIOVANI QUE TAMBÉM NÃO USAVA CALCINHAS. SÓ QUE, ELA TINHA O MÁXIMO DE CUIDADO DE NÃO SENTAR NA PRIMEIRA FILA…

    • Altamir, queres dizer, então,que a Luana era uma “ranzinza”? Podia até não dar pra ninguém…. mas, esconder???!!

  2. Belíssimo texto ZeRamos, como sempre, voltei no tempo, gostei da pasta “eukalol” e do ruge-ruge, faltou o sabonete eukalol (luxo) e o sabão pavão, quanto a sua vozinha, nenhuma censura, isto eu chamo de estilo de vida, dizia respeito só a ela e é hoje o que modernamente chamamos de: ligar o foda-se (tem até livro com este nome)! Bom domingo amigo!

    • Marcos, Vovó fazia qualquer coisa para garantir os prazeres noturnos com Vovô. Não posso te garantir que ele dava conta,mas os sorrisos matinais e a disposição para o trabalho ao amanhecer, denunciavam muitas coisas.

        • Maurício, pois num é? Também ela não saía dando por aí, néééé! Aprendi que, 95% das mulheres não acham que são “comidas”. Elas acham que “comem”! E, comer com a boca coberta num dá, né não? Vovó era uma “gênia”!

          • Pois é nobre Ramos… sabedoria. Eu conheci uma senhora, era avó da esposa de um mecânico que eu conhecia. Ia muito na casa deles, até mesmo para consertar o carro quando tinha problema. Na época ela era lúcida, tinha 93 anos, usava vestido e muita vezes ia abrir a porta, quando levantava o braço, o vestido subia e ela está sem nada. Um dia, nós começamos a conversar falando sobre a vida dela. Ela me disse que tinha casa cedo, como era costume no tempo dela. Mas, não deu um ano de casamento, chegou para marido e disse “gosto muito de você, mas eu não sou mulher para um homem só”. Saiu de casa, transou com que quis por prazer.

  3. Mestre e sábio Zé Ramos:

    O nobre colunista me mata de saudades com essas reminiscências maravilhosas que preenchiam minha infância de sonho, esperança e alegria!

    Parabéns, meu mestre por me trazer à tona lembranças que não se foram da memória, continuam vivas e não doem a saudade!

    • Cícero: Quem passa por nós, acaba deixando um pouco de si, em nós. Leva algo da gente, como parte e coisas da vida – mas deixa em nós um aprendizado e a capacidade de sentir saudades.

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