JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“Coroné” sonha em decidir as coisas do mundo ao seu redor

Queimadas foi, algum dia, o povoado onde vim ao mundo, parido por minha mãe e “parteirado” por minha Avó – essa, para mim, só não foi minha mãe. Foi quase tudo. Sempre a amei. Demasiadamente.

Pois, Queimadas ficava ali num conglomerado de nada, próximo e ao mesmo tempo distante (pelas dificuldades de acesso) de Pacatuba, Guaiúba, Chorozinho, Guarani, Horizonte. Era um povoado pertencente a Pacajus.

Joaquim Albano Nogueira, latifundiário que amava quem trabalhava, desde que trabalhasse para ele, era um homem bom, apolítico – e essa era a principal qualidade dele, vista dos tempos atuais – que nem sabia o total das posses. Tinha terras que nem conhecia. Mas tinha certeza que eram dele.

Homem rude, sem nenhum estudo formal, se vivesse nos dias atuais, provavelmente seria comparado a um Paulo Freire, “filósofo prático e autodidata que era”.

Certa vez, torando um pedaço de rapadura de coco com farinha seca, eu passava pelo alpendre da casa da fazenda, quando escutei dele, o que, dito hoje, seria um vaticínio digno dos maiores pensadores da humanidade. Se fosse uma criança e do sexo feminino, seria com certeza comparado à uma Greta Thunberg:

“As pessoas que mais estudam, são as que menos aprendem. Estão tão ocupadas, estudando, que não arrumam tempo para aprender nada.”

Seu Quincas – era como gostava der ser chamado pelos muitos empregados e familiares – tinha dinheiro de sobra. Tinha tanto, que nem conseguia contar. Gostava mais de quem “trabalhava” do de quem “estudava”.

Certa vez, deitado numa bela e alva rede armada no alpendre da fazenda, sem tirar as botas nem as esporas, enquanto fumava o cachimbo, soltou essa rude pérola: “tudo que eu tenho, foi Deus quem me deu, mas é fruto de muito trabalho. Se eu tivesse estudado, com certeza não teria trabalhado.”

E ainda emendou: “conheço um doutorzinho, homem muito sabido, estudado, se veste bem, come do bom e do melhor, mas de vez em quando viaja até três dias de onde mora, para vir aqui me pedir um dinheirinho emprestado. E é tão sabido, e aprendeu tanto, que aprendeu até nunca me pagar o que empresto.”

E aproveitou para concluir: “não são em nada diferentes de alguns prefeitinhos que, de vez em quando, vem aqui me pedir voto. Eu não sou dono de voto de ninguém, mas o que eles acabam levando mesmo é dinheiro emprestado. E é por isso que, em vez de estudar, eu prefiro mesmo é trabalhar. Mas não sou contra quem estuda – mas acho que quem estuda deveria pelo menos aprender alguma coisa.”

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