DILEMA DA VIDA – ESTUDAR OU APRENDER

“Coroné” sonha em decidir as coisas do mundo ao seu redor

Queimadas foi, algum dia, o povoado onde vim ao mundo, parido por minha mãe e “parteirado” por minha Avó – essa, para mim, só não foi minha mãe. Foi quase tudo. Sempre a amei. Demasiadamente.

Pois, Queimadas ficava ali num conglomerado de nada, próximo e ao mesmo tempo distante (pelas dificuldades de acesso) de Pacatuba, Guaiúba, Chorozinho, Guarani, Horizonte. Era um povoado pertencente a Pacajus.

Joaquim Albano Nogueira, latifundiário que amava quem trabalhava, desde que trabalhasse para ele, era um homem bom, apolítico – e essa era a principal qualidade dele, vista dos tempos atuais – que nem sabia o total das posses. Tinha terras que nem conhecia. Mas tinha certeza que eram dele.

Homem rude, sem nenhum estudo formal, se vivesse nos dias atuais, provavelmente seria comparado a um Paulo Freire, “filósofo prático e autodidata que era”.

Certa vez, torando um pedaço de rapadura de coco com farinha seca, eu passava pelo alpendre da casa da fazenda, quando escutei dele, o que, dito hoje, seria um vaticínio digno dos maiores pensadores da humanidade. Se fosse uma criança e do sexo feminino, seria com certeza comparado à uma Greta Thunberg:

“As pessoas que mais estudam, são as que menos aprendem. Estão tão ocupadas, estudando, que não arrumam tempo para aprender nada.”

Seu Quincas – era como gostava der ser chamado pelos muitos empregados e familiares – tinha dinheiro de sobra. Tinha tanto, que nem conseguia contar. Gostava mais de quem “trabalhava” do de quem “estudava”.

Certa vez, deitado numa bela e alva rede armada no alpendre da fazenda, sem tirar as botas nem as esporas, enquanto fumava o cachimbo, soltou essa rude pérola: “tudo que eu tenho, foi Deus quem me deu, mas é fruto de muito trabalho. Se eu tivesse estudado, com certeza não teria trabalhado.”

E ainda emendou: “conheço um doutorzinho, homem muito sabido, estudado, se veste bem, come do bom e do melhor, mas de vez em quando viaja até três dias de onde mora, para vir aqui me pedir um dinheirinho emprestado. E é tão sabido, e aprendeu tanto, que aprendeu até nunca me pagar o que empresto.”

E aproveitou para concluir: “não são em nada diferentes de alguns prefeitinhos que, de vez em quando, vem aqui me pedir voto. Eu não sou dono de voto de ninguém, mas o que eles acabam levando mesmo é dinheiro emprestado. E é por isso que, em vez de estudar, eu prefiro mesmo é trabalhar. Mas não sou contra quem estuda – mas acho que quem estuda deveria pelo menos aprender alguma coisa.”

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  1. ………. torando um pedaço de rapadura de coco com farinha seca…

    P.S.: – ESTA É SIMPLESMENTE ÓTIMA, DIGNA DE APLAUSOS!!! SEU LINGUAJAR “AMATUTADO” É DA BABA DESCER!!!

    • Altamir, fico ancho de felicidade. Torar, é comer. Rapadura com farinha seca, é a nossa merenda do dia a dia. Coisas do nosso sertão. Obrigado, amigo.

  2. Outro dia eu participei de uma conversa só com gente inteligente e estudada, inclusive com professor de universidade pelo meio, e eu feito gente abestalhada mas sabedora das coisas, fiquei só ouvindo para aprender.
    Nessa roda, o mais inteligente deles, ou parecendo ser, dizia defendendo com veemência que a geração dos adolescentes de hoje valorizará mais o trabalho (empreendedorismo) que o estudo propriamente dito. E todos concordaram. Eu continuei calado.
    Até concordei em silêncio com as argumentações que, sob o advento da tecnologia e o Estado enxugando a máquina, não haverá empregos para todos os formados saindo das universidades.
    Porém, que se reforce a máxima, estudar nunca é conselho falido.
    Imaginei agora o Sr. Quincas Albano, com essa capacidade todinha para ganhar dinheiro, e se tivesse estudado?

    • Jesus, a vida, na prática é assim. Vai ser sempre assim. A teoria é outra coisa. Alguém ensinou Luiz Gonzaga tocar sanfona? Nem Januário. As genialidades são coisas de Deus. Espero que tenhas me entendido. Beijos no seu coração.

  3. Muito interessante, Ramos de todos os galhos! Primeiro me chamou a atenção a frase que Altamir destacou. Ia falar dela, mas faço minhas as palavras. Segundo, a questão do estudar, na verdade, está ligada a aquisição de conhecimento e isso é necessário porque a evolução tecnológica exige. Ontem fiz uma compra numa loja do Magazine Luiza. A vendedora capturou o código de barras do produto com o celular. Pediu meu CPF e CEP e gerou a nota fiscal a partir do celular. O pagamento foi feito com ela. Só fiz colocar o cartão na máquina, aqueles PagSeguro e acabou. Então, isso requer conhecimento, mas não é necessário que seja na escola.
    Sobre o comentário de Jesus, dois pontos: 1) Zé Fernandes foi meu chefe num banco e irmão dele, Carlos, era dono de uma rede de lojas chamada Tupan (tinha farmácia, armazém de construção, etc). Um dia Zé começou a falar com o filho pra que estudasse e citou seu esforço. “Conseguiu me formar em engenharia, trabalhei muito no começo, depois fui contratado pelo banco, há 20 estou lá, tudo isso graças aos meus estudos”. O garoto respondeu: “papai, tio Carlos, só estudou até a 4a série e é mais rico que você”.
    Eu sou favorável a uma reformulação dos currículos nas universidades. A maioria dos cursos visam a academia e muito pouco o mercado. Parte disso é que professores não possuem experiência de mercado. Acho o empreendedorismo um bom caminho.

    • Mauricio, com certeza. Nada a acrescentar. Pelo meu lado de nascido, criado e “adulterado” nas coisas práticas do sertão, mas com duas formações universitárias (Jornalismo e Filosofia), me deparo, de vez em quando, com esse tipo de situação. O médico é “cirurgião”, tem uma cirurgia para fazer, mas quem passa os equipamentos necessários ao corte, à sutura etc., é a Enfermeira, que não estudou nem a metade do que o cirurgião estudou. Quer dizer, uma coisa complementa a outra..DETALHE: quem faz o filho é o casal, mas quem o traz ao mundo, é a parteira ou o médico.

  4. Há 40/50 anos existia, aqui no nordeste, uma empresa de ônibus, chamada Viação Andorinha. O proprietário, muito rico, era semi-analfabeto. Tinha como seu gerente geral um jovem advogado. Um dia, quando da visita dos diretores de vendas da Mercedes Bens perguntou ao velho empresário, quantos ônibus ele tinha, ele respondeu: tenho mais de cem Oimbus. Depois que a comitiva saiu, o seu secretário, homem muito letrado, quis lhe corrigir, dizendo: O senhor tome mais cuidado quando conversar. A palavra não é Oimbus, o correto é ônibus. Homem muito espirituoso e pouco preocupado se falava ou não um bom português, disse ao seu gerente: Eu falo Oimbus e tenho mais de 100 e você fala ônibus e não tem nenhum.
    Comprova-se ai, que o dom de gerir negócios vem do berço. Mas, o conhecimento aumenta as chances de se vencer na vida.
    Hoje, nesse mundo moderno, nenhuma empresa progride contando somente com a experiência. Tem que ter conhecimento científico.
    Nossos jovens tem que estudar, estudar e estudar…
    Abraços José Ramos
    Salvador Pedroza
    Sobra-Ce.

    • Salvador, lógico que sim. Mas, você, enquanto empregador que é, quer saber para preencher uma vaga na sua fábrica, se o candidato tem 20 anos de experiência ou se ele, com apenas dois meses de formado vai preencher sua necessidade?

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