QUEM CUIDARÁ DAS NOSSAS CRIANÇAS, E LHES EMBALARÁ NAS REDES?

Pais vão ao trabalho e crianças ficam “soltas”

Empurrada pelas “necessidades” de consumo desnecessárias, semeadas pelas teorias do capitalismo, nas quatro ou cinco últimas décadas, a família atendeu o chamamento, e permitiu ser dividida ao meio, para correr em busca do nada. Mas que provocou o “status quo” que vivemos hoje, na prática. O desmoronamento familiar, e a proliferação da violência em todos os níveis sociais, são ventosas do capitalismo enganador.

As famílias dos dias atuais não se reúnem mais para o café matinal, para o almoço ou para o jantar. No máximo “se encontram” ao redor de mesas, entre churrasco e cerveja – mas, com a grande maioria dando total atenção aos telefones celulares. As conversas desapareceram.

Acreditando numa mentira, aquela mãe “do antigamente” que se dedicava à família aceitou sair de casa para algum tipo de trabalho, acreditando, também, que o que poderia ganhar pudesse ajudar na manutenção e melhoria do orçamento familiar. Pode até ser. Entretanto, ao “sair de casa” para fazer algo que não sabe e para o qual não está preparada, a mãe se expôs, largou os filhos à sanha dos predadores sociais. E a melhora financeira não saiu do zero.

A partir dessas situações, ou ela se prontifica às realizações de jornadas duplas (ou triplas, se resolver voltar à escola no período noturno – essa uma boa decisão), ou vai somar aos números manipulados pelos estudiosos do convencimento de que, o ter é melhor que o ser: capitalismo puro e perverso.

Vítimas de falácias (ainda que com excelente nível cultural e de informação), há mulheres que, equivocadamente, chamam essa saída de casa para o trabalho, de “empoderamento”. Pois sim!

Por conta disso, resolvemos “criar essas duas situações” tão corriqueiras e verdadeiras em meio aos nossos dias.

I

Cinco da manhã. A movimentação na casa de Doca e Domingos é intensa. No banheiro, Domingos toma o banho matinal no início da preparação para ir ao trabalho. Dominguinhos, toalha no ombro e escova na mão, espera sua vez de ir ao banheiro.

Na cozinha, Doca termina os preparativos para a primeira refeição (do marido e do filho) dos dois. Poucas frutas (apenas banana e mamão), beijus, café preto no bule, manteiga real – os dois sentam à mesa e se servem.

Doca, de abano numa da mãos, tenta esquentar o ferro a carvão colocado na janela. Precisa “passar o ferro” nas camisas de Domingos e Dominguinhos – um vai ao trabalho na fábrica de óleo, o outro vai à escola municipal com pouca estrutura e poucas aulas.

Café tomado, começa acontecer a rotina diária. Domingos prepara a bicicleta, abre o portão da casa e aguarda Dominguinhos, que vai ser levado de “carona” até a escola e, de lá, Domingos seguirá para o trabalho. Ao meio dia o trajeto da volta será o mesmo de cada dia.

Mesa posta para o almoço simples, família toda à mesa. Pouca conversa, mas a auréola do respeito se faz presente. Antes, a oração para agradecer a refeição, saúde, paz familiar e, principalmente, pela manutenção do trabalho que continuará alimentando a todos.

Domingos come rápido, pois quer fazer um pequeno reparo na bicicleta, antes de pegar o caminho para a fábrica. Dominguinhos faz a assepsia, e vai descansar um pouco, antes de cuidar do “dever de casa” da escola, que será fiscalizado pela mãe, Doca.

Louça usada lavada. Casa limpa e o início da preparação do jantar. Enquanto Doca escuta a novela nas ondas do rádio, Dominguinhos conclui o “dever escolar de casa” e pede para brincar um pouco com os amigos da rua. Doca consente, mas avisa que estará vigiando.

Crianças do passado aproveitavam momentos de lazer

Cinco horas da tarde. O movimento na cozinha é nenhum. A movimentação na rua, na frente da casa é a mesma de todas as tardes. Doca, sentada na cadeira de balanço, remenda as camisas de Domingos, e Dominguinhos brinca feliz, com os amigos.

Passam anos. Domingos ganha aposentadoria. Após de um dia de afazeres domésticos, duas cadeiras de balanço estão à frente da casa. Doca e Domingos conversam e esperam a chegada de Dominguinhos da faculdade. Último período de Medicina.

Chega 24 de dezembro. Véspera de Natal. Mesa posta para a ceia. Castanhas, rabanadas, nozes, vinho, um pernil suíno bem assado. Amigos da família e familiares começam chegar. Dominguinhos chega com a esposa, e a ceia começa ser servida. Família feliz!

II

Sete horas da manhã. A movimentação na cozinha e no banheiro da casa de Caroline e Hugo é intensa. No banheiro, Hugo toma banho, iniciando os preparativos para ir ao trabalho. Huguinho, toalha e escova na mão espera sua vez, dedilhando o celular.

Na cozinha, Caroline inicia os preparativos para a primeira refeição (dela, do marido e do filho) da família. Frutas (morangos, bananas e mamão), torradas, café na garrafa térmica – os dois sentam à mesa e se servem. Huguinho continua no banho, e no celular.

Caroline, não se preocupa com a roupa do marido, Hugo; ou do filho, Huguinho. Tampouco se preocupa com lanche, pois a escola fornece merenda escolar. Assim, inicia a preparação para trabalhar – Vendedora de loja, com salário comissionado pelo que vende.

Café tomado, começa a rotina diária. Hugo arruma a mochila, e aguarda o ônibus da empresa. Huguinho, ainda no quarto, com o celular, sem ter certeza se terá aulas naquele dia. Caroline caminha para pegar o ônibus, sem dar a devida atenção à Huguinho.

Não há mesa posta para o almoço, por que ninguém almoça em casa. Sem conversa, sem a auréola do respeito presente. Todos fora de casa. A família está dispersa, sem reunião e os problemas do dia sem solução. Também não há como conceituar isso de “família”.

Hugo come rápido no restaurante do trabalho. Joga dominó no tempo que resta para o horário do almoço. Poderia ler um livro, haja vista que vai à escola de noite. Huguinho, longe de casa, passa o horário de descanso dedilhando o celular. Caroline vai ao shopping.

Jovem “largado” pelos pais chega em casa para o Natal

Em casa, a louça do café está por lavar. Casa desarrumada e não há jantar. Quando todos estiverem em casa, será pedida uma pizza e refrigerantes. Hugo demora chegar, Caroline, só Deus sabe onde anda. Huguinho com os amigos de comportamentos duvidosos.

Vinte e duas horas. Todos já em casa, cada um com o celular. Ninguém conversa. Na rua, na frente da casa, tudo como nos outros dias. Caroline não demonstra interesse em saber se Huguinho fez o dever de casa. Joga no celular, enquanto Hugo fala com um amigo.

Passam anos. Hugo é demitido do trabalho e está desempregado. Caroline fez bobagem, se envolveu com o patrão. Foz demitida após aprontar um barraco durante o expediente da loja onde trabalhava. Huguinho, teve problemas na escola, onde nunca aprendeu nada.

Chega 24 de dezembro. Véspera de Natal. Não há mesa posta para a ceia. Nem castanhas, rabanadas, vinho. Sem dinheiro, Hugo se nega a sair de casa. Huguinho, cumprindo prisão por tráfico de drogas, vai passar o Natal em casa, usando tornozeleira eletrônica.

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  1. TEXTO REFLEXIVO, MEDITATIVO E ALTAMENTE SERENO… PENSE NUM CABEÇA CHATA QUE GOSTO DE LÊ-LO!!!

    P.S.: – Entre tantas outras, é minha leitura domingueira daqui do Besta Fubana…

    • Altamir: também sou seu fã, da mesma forma que sou fã de Lee Van Cleef, Clint e aquela cusparada de baba de fumo. Volte sempre, seu cabra. E assista hoje um bom filme.

      • Edvaldo: generalizar o que, amigo? Dizer que todos os petistas são ladrões?! Não. Nunca! Com certeza existem aqueles que ainda não aprenderam ou não tiveram oportunidade. Né não?

  2. É a vida girando a roleta do tempo. , Novas visões de mundo, novos costumes, conflitos de gerações e, assim caminha a humanidade ! Do nosso tempo, sr Jose Ramos, só ficou a saudade. .

    • Paulo: com certeza. Hoje, muito tempo depois, consigo entender o “por quê” os militares do período 64/85 não queriam que os estudantes daquele tempo conhecessem “O Capital”!

  3. Prezado OLIVEIRA,

    Por pura coincidência terminei de assistir ou rever(PELA “ÔNZIMA” VEZ) ao filme O PREÇO DE UM HOMEM do diretor Anthony Mann e o ator James Stewart.

    P.S.: – Também sou fã de carteirinha de LEE VAN CLIFF. ainda este ano, em sua homenagem, vou escrever outro artigo sobre o Cowboy mais elegante e de grande postura ao subir e descer do cavalo dos filmes Westerrn ou Spagfhetti que era Lee Van Cliff.

    • Armando: obrigado. Esteja à vontade. Mas, jamais me tenhas como “dono da verdade”. Sei que alguns valores morais mudaram e com essas mudanças também mudaram os rumos da sociedade. Mas, deveriam preservar pelos menos os valores religiosos – e a família tem obrigação de continuar pregando esses valores bons.

    • Feita a correção, Altamir. Sou fã de Cleef, de Antony Quinn, de Bust Lancaster, de Henry Fonda e de Jane, de Susan Sarandon e de tantos outros.

    • Newton: a infância daquele tempo não vivia fazendo diferença de gênero (masculino ou feminino), por que também não havia a maldade. O irmão dormia no mesmo quarto que a irmã e nada acontecia. Infelizmente, alguns pais “modernos” semearam as diferenças de hoje.

  4. Prezado ZéRamos, prá variar, seu texto é auto explicativo, maravilhoso, vivemos hoje em um mundo totalmente dissociado de nossa época, o que era VALOR, hoje, é politicamente INCORRETO.. Fazer o que? Ser VIADO é lindo, ser HONESTO/MAXO é babaquice!

    • Marcos, pois é. lembro que minha Avó gostava e precisava criar galinhas, patos, perus no quintal de casa. Quando resolvia abater um desses animais para a família comer, eu “ganhava as tripas, a moela, o fígado e o coração”. Limpava e escaldava as tripas, juntava aos miúdos e fazia uma farofa (hoje, no Maranhão, a gente chama isso de “frito” – para tirar o gosto da gelada) que, às vezes, me servia como almoço. Fazia isso e nunca virei baitola, fresco, gay, nem tampouco senti ou sinto vontade de dar o rabo como muitos dizem que sentem prazer em fazer. Chamam isso de “amor”. Dar o fiofó, é “fazer amor”. Arre égua! Agora, claro que qualquer um tem o direito de fazer o que quiser com o próprio corpo, democraticamente falando. Agora, por que, alguém tem direito de dar o rabo, fazer o que quiser com o corpo, e eu não tenho o direito de pensar de forma diferente? Por que raios, dar o rabo é um direito, e ser contra é crime de homofobia? Tu acha mesmo que um país que tem pessoas que pensam assim, algum dia pode dar certo ou ficar apontando o dedo para fulano ou beltrano?

  5. Magnífica crônica, José Ramos!

    O nobre cronista abrilhanta esse espaço do Jornal da Besta Fubana aos domingos com suas reminiscências infantis, que não voltam mais, mas que Deus nos dá o dom de rememorá-las.

    Coisas mais linda não há!

    Parabéns meu jovem cronista e irmão do coração. Ler suas crônicas dá uma saudade da porra dos tempos idos e vividos!

    • Cícero: somos irmãos sim. Dividimos nossos conceitos de vida, celebramos nossos passados e continuaremos esperando sempre por dias melhores para nós, nossas famílias e nossos amigos. Imagine, nós, juntos, lanceando nossas pipas a favor do vento!

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