JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

FAÇA-SE A LUZ! (DISSE DEUS) E, LOGO, AS TREVAS FORAM ILUMINADAS

Luzes iluminando a Terra

Palavras têm significados mil. Mas, o que vale mais é o significado que queremos dar. Para sair das trevas, qualquer pessoa ou objeto precisa de luz. Ainda que tênue, mas, luz.

Condenar à escuridão é impedir o direito de sair das trevas. O arado ou o trator, qualquer um, impede que o grão saia das trevas, aterrando-o na germinação. A semelhança é voraz, e pertinente ao aborto. Em gestação, ao bebê é negado o direito de sair das trevas para sorrir ou chorar com a luminosidade da vida, também chamada de luz. A mãe, ao dar à luz, tira o bebê das trevas. É legal ou humano negar a luz para quem está nas trevas?

Assim, também, ensinar à quem não sabe e quer aprender, é mostrar a luz. A luz a que todos e qualquer um têm direito. A luz do saber. O direito de sair das trevas do desconhecimento, da ignorância.

Uma nova vida ainda nas trevas

Não lembro mais onde li: “…. na construção do mundo, quando tudo ainda era trevas, Deus, na sua onipotência, criou a luz, dizendo: faça-se a luz!

E assim a luz foi feita, e tudo ficou claro”. Também não sei “quem soube disso” primeiro, já que não existia nada além das trevas e do mundo que estava sendo criado. Mas, em Deus eu acredito e acreditarei sempre. Deus é a própria esperança e Fé.

Da mesma forma, também não sei de onde viemos, a não ser que somos gerados no ventre de uma mulher (essa, também segundo os ensinamentos religiosos, criado por Deus, o Onipotente, a partir de uma das costelas do homem – também não sei quem viu isso para registrar. É o ensinamento da Fé.)

Há quem diga (e eu mesmo já repeti isso várias vezes) que viemos do barro, e para lá voltaremos. É um raciocínio lógico, principalmente após a morte.

Entretanto, por mais que se aproxime do mais provável início da vida de todas as espécies, incluindo a espécie humana, a ciência jamais terá o crédito do que seja realmente verdadeiro. Afinal, somos a evolução do espermatozoide, somos um transformação do macaco ou somos bonecos feitos do barro.

Se assim for, palmas para o Mestre Vitalino (Vitalino Pereira dos Santos) que fez milhares de “gente e animais” sem precisar produzir espermatozoide – e nem lhe cobraram “espermograma”. Seria Vitalino apenas um Mestre, ou um novo Deus?

Assim, raciocinemos: claro que o caminho mais curto e próximo da verdade é o caminho da Fé. A Fé em Deus, e na sua extrema bondade, ao criar o homem e todos os seres vivos da Terra.

Pois, se Deus criou a luz, tirando das trevas o universo e tudo que existe, por que transgredimos e nos arvoramos do direito de optar pela manutenção de humanos nas trevas. É. Nas trevas da placenta, e os condenamos eternamente às trevas, quando discutimos e aprovamos o aborto?

Ainda que nos casos de violência (estupro) ou malformação genética e reprodutiva, por que “aprovar o aborto” e não entender a cessação do sofrimento e da dor, aprovando a eutanásia?

Haverá sempre alguém que se atreverá à responder: apenas à Deus cabe o destino da vida das pessoas. É mesmo? E o aborto, quem recebeu procuração de Deus, o Onipotente?

Será que, aprovando o aborto, estamos também aprovando o não nascimento e proliferação do grupo sem caráter, do grupo que se alimenta do ódio e procura multiplicá-lo?

Não sei. Se você sabe me explique. Mas, aproveite e desenhe, para meu melhor entendimento e aceitação.

Aproveite e me convença: “por que os velhos morrem”? Claro que eu sei que não apenas os velhos morrem.

Velhice a caminho de volta às trevas

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESTRADA E A VEREDA

Na longa estrada da vida algumas pedras precisam ser vencidas

Ainda consigo lembrar. Eu tinha exatos dez anos de idade, quando precisamos sair de Queimadas, naquele tempo um simples povoado de Pacajus. Meu pai, que havia sido demitido de um colégio onde lecionava Aritmética, voltava a trabalhar. Agora, nomeado como Fiscal da Fazendário (Secretaria Estadual da Fazenda do Ceará), e tínhamos que mudar para a capital.

Antes da viagem, uma olhada rápida no quintal da Vovó. Pela última vez. Eu ia embora, e ali deixava as mangueiras, os cajueiros, as galinhas, os patos, os capotes, uma jumenta, o cachorro Pintado e aquele barulho melódico de todos os fins de tarde do Vem-vem e das cigarras. Também lembro, ainda, que eu fui o último a me despedir de Vovó, abraçando-a também pela última vez. Depois do abraço, corri e deslizei o último pau da porteira, fechando-a.

Nunca mais voltei ali. Nunca mais olhei minha Avó, nem nunca mais cacei passarinhos, nem escutei os voos rasantes das corujas. Os pirilampos ficaram para trás. As mutucas, também. E ali se encerrava um dos mais importantes e construtivos ciclos da minha vida. Ciclo da infância, da liberdade, e das brincadeiras respeitosas.

Fui o último a subir no caminhão. Não tive coragem de olhar para trás, porque ali ficava parte de mim. (“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”)

Naquele dia, primeiros anos da década de 50, a viagem que hoje não consome 30 minutos para percorrer o percurso, levou mais de três horas. E o caminhão não parava. Apenas a distância que não queria diminuir, como se nos convidasse à voltar para continuar a vida na roça, apanhando cajus, pescando piabas, caçando passarinhos – e, vivendo!

A estrada era a continuação da vereda

Caminhão da mudança acionado pela manivela. Tudo funcionando. Eu, viajando junto das panelas velhas, redes, cristaleira e tamboretes, tão logo o caminhão teve acesso à vereda, me agarrei ao cachorro pela possibilidade que ele, já sofrendo saudade, resolvesse pular do caminhão e voltar para o aconchego da Vovó. Os animais nunca perdem ou esquecem o “arquivo” do faro. Eu, sem perceber que Vovó entrara na casa, faço meu último aceno – provavelmente para o tudo onde vivi e aprendi a viver como gente.

Felizmente que os tocos que ainda ficaram na vereda aberta à base de foice e machado, não furaram os pneus. A estrada longa foi alcançada e prometia nos levar à uma nova vida, sem muitas coisas que ficaram para trás, mas com a esperança de vitórias.

O caminho que nos levou à estrada

A cada árvore da vereda que deixávamos para trás, era um desvio para não machucar. Como se eu conhecesse folha por folha, galho por galho, e tivesse o nome de cada uma. Atingimos a estrada sem problemas.

Agora, como o cachorro não se atreveria mais a pular para tentar voltar, se aquietou sobre um colchão velho de molas. Eu fui para a frente e fiquei à mercê do vento que tocava no meu rosto, lavando-o. Deformando-o pela força da ventania. Enfrentar aquele vento, era, sem dúvida, abrir as portas do futuro.

A “cidade grande” foi atingida. Nos dirigimos na direção do mar, como se algum navio estivesse à nossa espera. Não houvera nenhum milagre de Moisés, tampouco estávamos diante do Mar Vermelho. Era a praia do Pirambu, e ali nos aguardava a “Comissão de Recepção”: um gato mariscado, que provavelmente esperava a maré secar para permitir que os siris viessem à tona como presas incautas a lhe proporcionar o jantar de todos os fins de tarde; um cachorro vira latas, que caçava restos de comida trazidos pela maré enchente.

A casa: paredes e telhado de palhas. Um barracão onde estacas internas permitiam armar as nossas redes. Água, apena a do mar – felizmente havíamos trazido um pote, uma quartinha e algumas latas que poderiam servir de depósito.

Mas, finalmente, estávamos numa nova estrada e poderíamos iniciar a caminhada que nos permitiu chegar até aqui.

Vereda e ao fundo dá para ver a nossa casinha branca que ficou

Na manhã do novo dia, o barulho sufocado das ondas do mar, que não ficava distante. Algo em torno de sessenta metros, num espaço separado pela praia pouco frequentada. Não havia urbanização, e os frequentadores que por ali passavam, eram pescadores a caminho de seus barracos – iguais ao nosso.

Teresa, uma jovem criada por mamãe, era uma espécie de Governanta. Tudo mandava fazer ou fazia ela própria. Serviu o café: café preto e um banda de pão com nada. Hoje entendo que aquilo já era o nosso muito.

Mãe saíra à procura de trabalho, enquanto o pai para assumir um novo emprego. Aos sábados e domingos, todos nós saíamos para procurar um novo local de moradia.

Durante a noite, a poesia vinda do mar nos mostrava o caminho que precisaríamos seguir para, como Don Quixote, encontrar um moinho que pudesse nos proporcionar novos ventos, novos ares na continuidade da estrada que a vida nos oferecia.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MAURINO JÚNIOR “GO HOME”

Maurino acompanhado do tutor à espera da nave

Sniff, sniff, sniff!

Neste mundo que vivemos nos dias atuais, estamos entregues às incertezas. Uma certa OMS (Organização Mundial da Saúde) não sabe sequer para que existe, muito menos quais são suas tarefas além da “cagação” de bolotinhas caprinas. Diz hoje, amanhã desdiz.

Pois, ontem, no exato momento em que o STF, em decisão monocrática do bebedor de whisky determinava um alongado prazo de 48 horas para que Jair Messias Bolsonaro resolvesse a escassez de chuvas no Brasil, capaz de provocar novas queimadas nas águas dos rios Negro e Amazonas, o JBF, aparentado mais próximo do STF perdia um dos mais importantes colaboradores.

É! Maurino Júnior, “go home”!

A partida, um pouco parecida com fuga, não foi das entranhas de Spielberg. Foi do cafofo do “Cabaré do Berto”, até quando não se sabe, gerenciado por professor Assuero, filho da quarta geração do Mestre Yoda.

Lágrimas! Muitas lágrimas!

Até deu pra gente escutar um aboio vindo das Ipueiras, gritado por Dalinha, quando pescava tilápias na beirada do açude com isca de minhoca:

– Eeeeuuu achooo ééééé pooouuuco!

Maurino conduzindo a bike a caminho da “naveporto”

Por mais incrível que possa parecer, os meios de comunicação “fora do planeta Terra” funcionam às mil maravilhas, e quem os administra sequer pensa em privatização. Tá tudo nos trinques.

Afirmo isso por experiência própria. Ontem, estava eu observando no circuito fechado a minha criação de camelos de três corcovas, quando a campainha tocou. Era um “mensageiro” vestido de Homem Aranha, que veio entregar uma correspondência com embalagem diferente. Recebi, pois veio endereçada à mim. Observei o remetente.

Com certeza nenhum de vocês vai acreditar. Era a primeira missiva de Maurino Júnior neste primeiro semestre de 2021. Está morando na estrela Sírius, onde abriu uma bodega (filial) em parceria com Jessier Quirino.

A nave que “sequestrou” Maurino pousando em Palmares/PE

Na bodega, afirma Maurino, é claro que estão à venda pendrives com todos os shows de Jessier e CDs de Xico Bizerra – DETALHE: lá, afirma Maurino, ninguém precisa usar máscara contra o C-19, pois os hospitais de campanha que foram instalados abusaram de usar a Cloroquina. Ninguém morre por lá. Quando morre, é de morte matada ou morrida, e o legista que informar errado no atestado de óbito, nunca merecerá o beneplácito de “Boca de Priquito”.

Maurino afirma que, por lá, a alimentação é farta. Diferente da Venezuela. O futebol não existe por lá. O único “jogo” que funciona em Sírius, é a filial da Roleta do Cu-Trancado, que paga 0% de impostos e está de vento em popa, pois ninguém ganha, mas também ninguém joga.

Hoje, quando as estrelas começarem a brilhar, vou tentar me comunicar com Maurino Júnior através dos sinais de “Libras”. Meu intérprete será aquele mesmo que trabalha com Bolsonaro. Ganhou o cargo, depois que “mandou todo mundo à puta que pariu”, numa recente live presidencial.

Maurino usa um super telescópio fabricado em Oeiras, que foi enviado para ele por Cícero Tavares.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O ENCANTAMENTO EM CADA UM DE NÓS

“Um dia, todos seremos estrelas no firmamento divino”

A selva que se inicia em cada um de nós

Ontem no exato momento que caía uma forte e contínua chuva, sem perceber que os anos se passaram e que envelheci, parei de ler, fechei o livro, e me pus a observar o direito aparentemente sagrado do ir e vir das estrelas, durante a noite.

Um desenho animado e multicolorido nos céus. Parecendo uma chuva de meteoros.

Aflito, resolvi fazer à mim mesmo uma pergunta:

– Por que os nossos direitos de ir e vir, não são assim, como o das estrelas?

Ninguém me respondeu. Não obtive resposta alguma. Nem mesmo de mim mesmo, à quem perguntei. Fiquei calado, pois não tinha mesmo o que responder.
Aliás, não sabia o que responder.

– Por que as estrelas, tão brilhantes e cintilantes, podem passear, ir e vir, e nós humanos, não?

Eis que uma voz distante, que provavelmente somente eu ouvia, respondeu trombeteando:

– Pois, transforme-se numa estrela, ora!

Me bastou a resposta da minha imaginação. Me bastou o campo ocupado do meu tempo – e assim, tudo me bastou.

Reabri o livro. Voltei à leitura.

Mas, ainda com o pensamento viajando – sempre para o passado efervescente da juventude – voltei a fechar o livro. Agora, deixando-o cair no chão de forma proposital.

Voltei o pensamento para a primeira namorada. Corpo bonito. Limpo de muitas coisas ou quaisquer outros problemas. Corpo jovem, viçoso, enfim. Seios rijos, dentes alvos e limpos, boca bonita protegida por um buço que, de tão real, precisava olhar com a lupa para ser percebido.

A beleza da terra e da noite de lua

Por que envelhecemos?

Que razão há para isso?

Por que, não permanecemos eternamente jovens?

Eis que, distante dali, aquela mesma voz que interferira noutro momento, mas ainda longe, e agora em tom mais suave, voltou a sugerir:

– Pois, transforme-se numa estrela!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

BEM ALI!

O silêncio reinante no “bem ali”

– Ei, bora “bem ali”!

– “Bem ali” é aonde?

– “Bem ali” é muito antes do “acolá”, e distante do “lá na frente”!

– O que é que vamos fazer nesse “bem ali”?

– Vamos saborear a natureza. Vamos escutar o cântico da cigarra, quando começar a anoitecer.

– Nesse “bem ali” só tem cigarras cantando?

– Não!!! No “bem ali” tem a profundidade do silêncio, a natureza, o céu límpido e claro.

Mas, o que tem de bom mesmo “bem ali” é o silêncio. “Bem ali” é tão silencioso, que apenas alguns conseguem escutar a conversa entre o vento e a brisa – e, claro, o vento sempre tentando convencer a brisa para um colóquio amoroso.

Mas a brisa sempre reluta, achando que a conversa pode evoluir para “os finalmente”, e dali nascer uma tempestade.

A sonata da chuva que cai “bem ali”

– Indo “bem ali” a gente pode conhecer o desconhecido, descobrir o encoberto. “Bem ali”, tem uma lagoa e a gente pode até banhar juntos. Banhar nus, como a natureza nos criou.

– E…. se alguém nos olhar banhando nus na lagoa desse “bem ali”?

– Na lagoa, banhando nus, estaremos só nós dois. Ninguém sabe onde fica o “bem ali”. Só nos, os despidos da maldade.

– E, depois do banho nessa lagoa do “bem ali”, o que faremos?

– Voltaremos para casa, pois a noite estará se apressando para chegar. Aproveitaremos para escutar o vem-vem e até para espantar as corujas que ficam na estrada. Vamos?

– Tá certo. Vamos. Mas, só vou porque você está dizendo que é “bem ali”!

A caminho do “bem ali” a estrada estará cheia de folhas que o outono derrubou

– Vamos andar um pouco mais rápido! Só assim, o “bem ali” fica mais perto. Bem distante do acolá.

Chegaremos em casa, comeremos alguma coisa e, escutando os vôos rasantes das corujas, sentaremos na ponta da calçada e contaremos estrelas. Separaremos aquelas com brilho muito intenso, das que não brilham tanto. Formaremos, ainda que apenas na imaginação, a nossa constelação estelar.

– E depois que contarmos as estrelas, o que faremos?

– Entraremos. Deitaremos, e faremos o que você quiser. Mas, não faremos tantas vezes pois, com certeza, o amanhecer de um novo dia estará “bem ali”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS PÉS DE FULÔ!

O pé de fulô que Das Dores prantou

Faz tempo que usamos a fala popular de lugares, repleta de regionalismo. Ainda que passemos a morar em meio aos conglomerados urbanos, carregamos “a forma de falar” daqueles lugares onde nascemos e vivemos por décadas. Muitos chamam isso de cultura regional. Pode ser. Ninguém duvida.

Mas, isso não fica restrito apenas ao modo de falar. Estende-se, também, aos diferentes e ricos modos de vida. É comum o apego com a poesia do verde e do ter o que fazer todos os dias, ao acordar e levantar. Uma tarefa que ocupa a alma, lubrifica e norteia o ego.

– Diacho, eu prantei um pé de fulô meis passado, e inda num nasceu nadica de nada?

Maria das Dores viera do interior do Ceará, tangida pelas agruras da seca. Ali deixou algumas galinhas que sobraram e resistiram diante da morte de outras tantas, por conta da falta de alimentos. Dona Das Dores não suportava conviver com aquele sofrimento enfrentado pelas aves, e achava estranho ter que abater todas para o consumo. Até porque eram muitas. Também não dava para levar nenhuma daquelas aves para a nova moradia, uma casa num bairro diferente e cheio de pessoas da classe média alta. Ali, ninguém aceitaria dividir o sono do início das manhãs com o cantar de despertar de um galo. Teria que se adaptar a novos hábitos. Mas, outros, nem tanto.

Eis que, na noite daquele mesmo dia o tempo mudou. Nuvens negras apareceram no céu azul, pintando o firmamento de um cinza previsível que, no sertão, o relógio da vida garantia uns bons e generosos dias de chuva. E choveu bastante durante a noite. No dia seguinte, mais chuva, que continuou acontecendo no terceiro dia.

Felizmente, no quarto dia o sol voltou a brilhar, e aquela luz convidou Das Dores à abrir a janela do quarto onde passara a dormir e traquinar sexo com Assis, o marido.

– Deus dos céus, que maravia! O meu pé de fulô nasceu!

Naquela manhã o café foi diferente. A mesa farta com coisas sempre presentes no café da manhã da roça (tapioca, pamonha, batata doce cozida, ovos fritos na manteiga, cuscuz, coalhada e um café que, de tão cheiroso incomodava a vizinhança) era uma forma de dar graças à Deus, e agradecer à Natureza pelo nascimento do pé de fulô.

– Quem pranta, coie!

Das Dores não cabia em si de tanta felicidade. Todos os dias, por três vezes molhava o vaso onde plantara o pé de fulô que trouxera de onde morava. Presente de Deus pelas mãos de Raimundinha.

E todos os dias ela mesma observava que o pé de fulô crescia. Se espraiava tanto quanto as boas coisas.

A danisca da fulô nasceu, cresceu e se espaiou

– Aubrigado Deus, foi aquele pezim de fulô que prantei que tá ficano mais que bonito!

Era, realmente, uma poesia que a Natureza escrevia a partir da mão de Das Dores. Tudo tem uma semente. Até a bondade ou a maldade.

Mas como quase todos sabem, não existe bem que dure para sempre, muito menos mal que nunca acabe. Eis que, Dona Das Dores e Assis foram avisados que invasores do alheio estavam se abancando da roça deles.

O casal nem esperou pelo tempo bom. Arrumou aquela velha mala de madeira e pegou o caminho de volta para a antiga vida, agora renovada pela certeza das coisas boas. Um simples pé de fulô serviu para ensinar Das Dores.

A casa da roça tinha um aspecto de abandono. O trabalho árduo seria cansativo, mas valeria à pena para colocar tudo em ordem. E a primeira providência de Das Dores foi aproveitar um pote velho em desuso e um alguidá. O pote serviu de apoio e o alguidá serviu como vaso para plantar outro pé de fulô. Na verdade, rosas vermelhas, que para Das Dores nunca deixaria de ser mais um pé de fulô.

Ai eu plantei outra fulô dendicasa in riba do pote

Retomando a roça e expulsando aquele aspecto de abandono, Assis e Das Dores, de tão cansados com a labuta da limpeza da moradia, sequer banharam e foram para o catre como se vivessem uma nova lua de mel.

Nas primeiras chuvas, agora com total assistência e trabalho da mão de Das Dores, a frente da casa tomou novo desenho, recebendo um aspecto europeu da Holanda. Flores por todos os cantos da propriedade, a ponto de chamar a atenção de quem por ali passava.

Nim todo lugá nasciam fulôres

Das Dores só tinha motivos para regozijo e se deliciava com tudo que a retina dos olhos alcançava. Até mesmo distante da primavera, o roçado de Das Dores deixava de ser uma simples roça para se transformar um jardim florido – e a qualquer época do ano.

Tudo a partir de uns simples “pés de fulô”!

– Quem pranta tem, e coie”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A VIAGEM DE PAPEL

Cada livro lido é uma viagem realizada

Nasci pobre. Continuei pobre e ainda sou pobre. As únicas riquezas que consegui amealhar, poupar e quintuplicar, foram os valores humanos e morais “depositados” nos porquinhos da minha vida pelos meus pais. Prosperei e, com certeza, vou deixar um bom saldo para meus filhos.

Por isso, muito provavelmente, nunca consegui viajar para fora do País. Nunca carimbei passaporte. Entretanto, com muita fé e coragem aceitei que, “ler, é viajar”! Cada livro uma viagem, com os conhecimentos, as paradas e rodopios feito um beija-flor.

Assim, sentado numa confortável poltrona sem numeração, viajei. Conheci até outro planeta e ali fiz amizade com uma raposa, com quem me habituei a cada fim de tarde olhar o pôr do sol e contar quantos lampiões o Acendedor acendia. Até aprendi a esperar o amadurecer das uvas, que a raposa teimava em vê-las sempre verdes.

Passei a juventude quase toda em Salvador. Conheci e convivi com quase todos os capitães daquela maravilhosa areia. Fui ao Pelourinho e os recantos mostrados por cada Jorge antes do encantamento.

O conhecimento pelo livro será sempre maior que os carimbos nos passaportes

Viajei no Expresso Oriente, bati longo papo com Hércule Poirot, e até o ajudei a descobrir alguns segredos. Ainda nessa viagem conheci vários quilombos e fiz amizades duradouras com mais de dez negrinhos. Na parte da tarde, dei milho aos pombos.

Nos rotulados anos de chumbo e exceção da década de 60, visitei Itaguaí e juntei todas as memórias do cárcere. Tudo parecia sonho. Mas era uma viagem real a cada página virada e uma nova escala a cada capítulo.

Ler é viajar, sim!

O livro é o único passaporte que a “esteira” não bloqueia

Neste exato momento estou no meu assento preferido. Sempre ao lado da janela, para melhor olhar as belezas que a Terra nos mostra, e que vão ficando para trás, renovando as esperanças que, mais na frente, nossos olhos premiarão nosso coração com o melhor roteiro.

Não suportei viver a arrogância, tampouco as atitudes descabidas dos Onze, cada um escondendo o pudor e o respeito aos semelhantes – como se eles, ao morrer, tivessem pelo menos direito a uma honrosa lápide.

Sentei na cadeira. O ônibus da vida vai partir e, neste exato momento, sigo para me encontrar com uma Pequena Abelha.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ACÁCIO, O TOLO!

Acácio – a simpatia e delicadeza em pessoa

Chico, ou o Francisco, viveu o quanto Deus permitiu. Nasceu raquítico, viveu raquítico, e faleceu com a gordura que o destino lhe devia. Na verdade, Francisco de Oliveira Ramos, o primogênito de papai e mamãe. Precisou de orações e promessas desde o dia que nasceu. Sufocado pelo líquido amniótico nasceu puxado, em vez do parto natural. E, no dia que nasceu também iniciou o périplo pela salvação.

A promessa inicial partiu da Avó (aquela que muitos de vocês já conhecem pelas minhas quase falas), que “prometeu” a partir dali ao Santo Protetor, São Francisco, que emprestaria seu nome a alguém nascido no dia 24 de junho, dedicado à São João.

Pois, nascido no dia 24 de junho de 1939, Francisco, o Chico, faleceu no dia 13 de setembro de 2004. Casou e teve uma “reca” de filhos. Dois rapazes e quatro moças. Um rapaz, quase Engenheiro Eletrônico formado pelo ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), abandonou o que disse pretender, quando cursava o nono período. O outro rapaz é Engenheiro Militar formado pelo IME (Instituto Militar de Engenharia), sendo ele civil. Chico chegou à Superintendência Estadual do INSS no Maranhão.

Advogado, Radialista e Jornalista, Chico assinava uma coluna semanal no jornal O Estado do Maranhão. Escrevia crônicas sobre a vida e a cidade. Criou um jardim que nunca possuiu, e nele empregou um jardineiro que sequer conheceu, e jamais assinou a carteira profissional ou pagou salários. Chamava-o de “Acácio”.

Por anos, Acácio cultivou margaridas, samambaias choronas, lírios, girassóis e todas as cores de ipês. Por conta da dedicação ao patrão e ao trabalho, Acácio foi premiado no dia do aniversário, 30 de fevereiro, com uma bolsa de estudos para aprender a plantar e cuidar de orquídeas e bonsais.

O primeiro bonsai produzido por Acácio, era um “flamboyant”

Eis que, nesta semana recebi uma mensagem de Acácio, pelo “zap”. Garantiu que, no próximo dia 30 de fevereiro, data em que comemora seu natalício, vai comparecer na minha residência, pois entende que, com o falecimento do Chico, faz tempo eu sou o novo patrão dele.

Prometeu me presentear com um vaso em que cultiva um bonsai: ipê róseo que produz abacaxis mais doces que mel. Prometeu, também, mostrar ao mundo a sua obra-prima em orquídeas: uma orquídea fálica cultivada do cactos.

Obra-prima fálica produzida por Acácio

Sinceramente, eu acho que, além de expert jardineiro, Acácio nunca deixou de ser um verdadeiro tolo. Se vier e tiver a petulância de cobrar alguma coisa, vai ser demitido por justa causa e mandado de volta para Caracas, onde esteve ganhando a vida como jardineiro durante todos os anos que desapareceu.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MOMENTOS DE LEMBRANÇAS

Nesta última coluna do ano de 2020 que, graças à Deus está terminando, deixando para nós um saldo negativo no que se trata de amigos e familiares, quero aproveitar para renovar a amizade e o respeito que sinto por todos que aqui comparecem, curtindo, comentando, ou postando suas matérias.

Que tenhamos um 2021 diferente. Para melhor. Que sejamos mais sensatos, e que tentemos com o que está ao nosso alcance ajudar na reconstrução desse País – dilapidado e jogado na lama por quase duas décadas.

A Fé reconstrói!

Coloque o seu tijolo nessa obra. Sinta-se participante na correção do que nos usurparam, e sigamos em frente.

Para fechar este ano, volto à infância que foi minha e, com certeza, de outros tantos que foram e continuam peraltas.

* * *

1 – Quando chegar em casa a gente conversa!

A varinha mágica

Que chegar em casa qual nada, mermão. A situação era resolvida era ali mesmo. Fosse onde fosse, e na presença de quem estivesse ali. Afinal, o “filho” era dela, e não do Conselheiro Tutelar uma exceção que o Estado nos impingiu, roubando nossos direitos de partícipes na educação familiar dos nossos filhos!

Era assim que minha Mãe era. Pau é pau, e pedra é pedra, doa à quem doer. Homem é homem, e mulher é mulher. Segundo ela, “baitola” é invenção de quem comeu merda ou barro tirado da parede, e se delicia com melecas tiradas das narinas.

Hoje é que acontecem essas marmotas e um monturo de idiotas fica querendo saber por que as crianças são rebeldes! Çei!

E çei, de novo!

Quer mais um “çei”? Então toma: çei!

Se não ficarem satisfeitos com todos esses “çeis”, mando um arre égua!

* * *

2 – Não quero essa comida!

Item da farofa que matava fome

Pense no prato preparado com o maior dos sacrifícios, às vezes até com a “intera” comprada fiado na bodega da esquina, e nos era servido: um baião de dois, farofa de carne em conserva fiambrada Kitut, uma banana prata madurinha.

Quem se atrevesse a dizer que não queria, a solução era a seguinte: “Tá bom, filhinho. Mamãe vai deixar aqui em cima da mesa, e coberto. Quando você estiver com fome, você vem e come, visse?!

E ó, depois lave os dois pratos, seque e guarde. Tá pensando o que?”

Hoje, a mamãe fica assoberbada, nervosa, caçando moedas e trocados em tudo que é lugar da casa e em todas as bolsas, procura nos dois sutiãs e fica atarentada para satisfazer o gosto do fdp, enquanto ele continua dedilhando o celular!

É, ou não é?

* * *

3 – Vá banhar e sem dar um pio!

A tarde era toda de jogar bola na rua na frente daquela vila, onde os moradores escutavam até o ronco dos outros durante a noite. Nunca a escolha dos times era feita sem confusão. Os “traves”, lembro bem, eram montados com camisas emboladas. Os donos das camisas tinham vagas nos times, caso contrário retiravam as camisas e iam embora – nessa situação a pelada acaba antes do tempo. E o tempo, quem determinava era a escuridão da noite que chegava.

Quando começava escurecer, com a claridade do dia dizendo até amanhã, ainda que o placar do jogo estivesse 5 a 5, tinha chegado a hora de entrar. Resmungar era algo natural. Responder ou discordar, ninguém se atrevia, quando escutava: “Chega de bola. Entra e vai direto pro banheiro, sem dar um pio. Lave bem as orelhas e as costas.”!

Hoje, provavelmente por que não existem mais aquelas peladas, o que alguns talvez escutem é o seguinte: “Stefesson (hoje não existem mais os José, Raimundo, Pedro, Francisco), será que não está na hora de largar esse computador, meu filho?”

E, se por alguma audácia materna, ele escutar aquele antigo “sem dar um pio”, ele, desaforadamente responde que não é pinto e até ameaça denunciá-la ao Conselho Tutelar. Pois sim!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

GÊNERO – MASCULINO OU FEMININO?

A menina no balanço

Presidente, ou Presidenta?

Afinal, o que seria da raça denominada humana, se não fosse a resolutiva interferência da Natureza na designação das coisas que nos cercam, e que estão à nossa disposição?

Por que é prazeroso para a raça humana a “transgressão, o discordar, o contrariar ou até mesmo o querer fazer diferente”?

Depois de alguns anos convivendo com a República, até poucos dias atrás viemos experimentar a “diferença” de estar sentada na cadeira de maior autoridade eleita do país, uma mulher. Nunca isso acontecera antes. Pelo menos de forma direta ou legal (sic).

Pois, entre nós brasileiros, essas aberrações (conceito meu e assumo) linguísticas começaram a acontecer e ganharam terreno entre os seguidores dos métodos paulofreirianos. Criaram, no falar e na gramática, o exuberante “Presidenta”!

Aí eu digo o meu primeiro “arre égua”!

Hoje moro em São Luís. Não há como discutir isso em meio a tanta gente que aprova a mudança. Até por que, quando alguém vai se manifestar em público para uma plateia, inicia da seguinte forma:

– Bom dia para todos e para todas!

E sou obrigado a dizer o meu segundo “arre égua”!

Quer dizer que, quando alguém fala “todos”, está falando apenas com as pessoas do gênero humano masculino?

Não me perguntem por que, pois ainda não aprendi o suficiente, nem tenho lastro para responder, mas aqui em São Luís, quase ninguém fala o “ao invés de”. Fala: “em vez de”. Eu, nesse caso, já me acostumei, e também falo “em vez de”.

E aqui não cabe nenhum “arre égua”!

Aqui faço um registro, e digo que sou leitor e fã do paraibano Ariano Suassuna, usuário contundente das boas e bem faladas palavras, principalmente dos adjetivos. Nada contra quem desdenha e minimiza a importância disso.

Prefiro usar “baitola ou lésbica”, em vez de “gay”. Uma coisa ou outra, dará sempre no mesmo. Não vai mudar a prática apreciada por alguns, que hoje formam um grande contingente nesse país.

E é aqui que coloco que estão querendo nos empurrar goela à baixo, o termo “orientação sexual” para quem faz uma “opção sexual”. Está dito lá no nosso “Aurélio”, o que significa “orientar”, da mesma forma que também está escrito o significado de “optar”. Ambos são completamente diferentes no sentido.

Quem “orienta”, ensina. Quem “opta”, escolhe. Nessa vida pregressa que me permitiu chegar onde estou, nunca tive notícia de que alguém tenha orientado outrem a ceder generosa e prazerosamente o traseiro. Não há escola, tampouco professor(a) para isso. É uma questão de “opção”.

Balança e seus penduricalhos

E por que num bloco acima citei a palavra “Natureza”?

Porque, essa mesma “Natureza” se encarregou de nos mostrar a diferença entre os gêneros, quando nos apresentou o cavalo marinho, um dos poucos ou talvez o único capacitado “para parir filhos”.

Sem pretender entrar no mérito especial do ato sexual entre um homem e uma mulher, há um passeio teórico pela configuração da imagem da Santa Ceia, com Jesus Cristo no “centro”. Esse passeio teórico mostrou no filme (claro, uma obra de ficção!) “Código da Vinci”, que realmente existe um “espaço” mais aberto ao lado direito de Jesus Cristo, simbolicamente em forma de “cálice”. E o cálice, a gente sempre soube, é algo “receptivo”. É algo que recebe, embora também “ofereça” o acesso do visitante.

Na prática do sexo, a mulher “recebe” muito mais do que oferece. E não estamos falando no sentido de oferecer carinho, receptividade, disponibilidade. Estamos falando no sentido de oferecer penetração para o visitante. Trocando em miúdos: dá mais do que recebe. É o sentido simbólico do cálice.

Eis, no meu modo de entender, o sentido do gênero masculino ou feminino. Claro que não sou o dono exclusivo de nenhuma verdade.

Entretanto existem palavras que, “aparentemente” iguais, usadas na configuração masculina tem um sentido e significa realmente outra coisa, enquanto que, usada na configuração feminina identifica algo completamente diferente.

Veja que, impulsionado pelos ventos da saudade, do amor, da inocência infantil ou qualquer outro sentido que o ambiente queira dar, “o balanço” – objeto criado para o lazer prazeroso e poético – tem adjetivação diferente da “a balança” – objeto criado para medição de algo ligado ao comércio, ou, em poucos casos, à cobrança tarifária de impostos.

Ariano Suassuna, o genial, esteve sempre completamente certo. Não há sentido algum em querer mudar a obviedade.