Sábado, com a claridade do dia dizendo até amanhã, era comum muitas das casas daquelas ruas onde moravam o amor e o bom gosto, as radiolas ligadas e sendo a principal mobília da sala. A sala iluminada e exalando aquele perfume inconfundível de limpeza e enceramento com Parquetina, havia até quem preferisse iluminação diferente conferindo a presença do romantismo. Coisa de épocas passadas. Coisa dos anos 50, embora houvesse até quem aumentasse o volume da radiola quando tocava: “Vinha por este mundo sem um teto, dormia as noites num banco tosco de jardim, sem ter a proteção de um afeto, todas as portas estavam fechadas para mim…mas Deus, que tudo vê e nos consola, em seu sagrado templo me acolheu….”
Vicente Celestino se transfigurava numa letra à qual se entrega como se um eterno Ébrio fora e não tivesse jamais encontrado uma Porta Aberta.
Era música, sim. As músicas diziam algo com as letras, sim. Tínhamos cantores, sim. Tínhamos cantoras também, sim.
Para onde foram? O que aconteceu com esses mágicos que nos diziam do amor e da beleza da vida?
E hoje?
Por que as cantoras, em vez de estudar canto, vão para as academias de ginástica para moldar as bundas?
As bundas cantam? As bundas são o que?
Por que se apresentam (principalmente nos programas televisivos) com mais da metade dos seios de fora?
Seios cantam?
Não. Não tenho nada contra bunda e muito menos contra seios. Adora bundas e adoro seios. Gosto de acariciá-los, se femininos.
Dolores Duran
E eis que chegou o tempo da doçura mágica e acalentadora dos fins de tardes ouvindo Dolores Duran. Músicas suaves, letras doces que acalentavam em confirmação do amor que habitava nas pessoas. Que existia em nós.
Assim:
“No ar parado passou um lamento Riscou a noite e desapareceu Depois a lua ficou mais sozinha Foi ficando triste e também se escondeu Na minha vida uma saudade meiga Soluçou baixinho No meu olhar Um mundo de tristeza veio se aninhar Minha canção ficou assim sem jeito Cheia de desejos E eu fui andando pela rua escura Pra poder chorar.”
E aí a fila andou. Os tempos mudaram os grandes cantores e cantoras deram o ar da graça. Elizete Cardoso, Marlene, Ângela Maria, Dóris Monteiro, até que o Rio Grande do Sul nos apresentou e o mundo conheceu essa até hoje insubstituível Elis Regina, desafiando o sistema, correndo sobre o fio da navalha e dizendo e cantando o que queria e o que queríamos ouvir: música!
“Quando olhaste bem Nos olhos meus E o teu olhar Era de adeus Juro que não acreditei Eu te estranhei me debrucei Sobre o teu corpo E duvidei E me arrastei E te arranhei E me agarrei nos teus cabelos No teu peito Teu pijama Nos teus pés, ao pé da cama Sem carinho, sem coberta No tapete atrás da porta…”
Elis a maior entre as maiores em todos os tempos
Essa época de ouro da música brasileira nos trouxe e nos privilegiou com cantores e cantoras da melhor qualidade. Gente que jamais será desbancada por outros. Não há como. Não vamos ficar citando nomes, pois são muitos. Foram muitos.
Louve-se, também, a qualidade dos compositores que vão desde Lupiscínio, Donga, Cartola, Evaldo Gouveia, Jair Amorim que compuseram músicas que consagraram os cantores e cantoras daqueles anos.
E aí chegaria o tempo de conhecermos Maysa, que cantava por que gostava de cantar. Não dependia financeiramente da músicas para viver. Cantava por prazer.
Maysa Matarazzo
“Meu mundo caiu E me fez ficar assim Você conseguiu E agora diz que tem pena de mim
Não sei se me explico bem Eu nada pedi Nem a você nem a ninguém Não fui eu que caí…”
Quem ouviu e conheceu Elis Regina e Maysa Matarazzo, sabe bem como e por que faleceram precocemente. Faleceram em pleno e total reinado da qualidade técnica.
Nada temos com a vida pessoal desses gênios musicais, muito menos com a vida e o comportamento pessoal dos atuais cantores e cantoras. Nosso tema se prende exclusivamente à qualidade vocal e na maioria das vezes à qualidade interpretativa.
Os cantores e cantoras de hoje nada mais fazem que mostram a bunda
O momento atual da música brasileira, principalmente no que tange às apresentações com imagens pelo sistema de televisão é ridículo. Péssimo. Sem qualidade nas letras, sem qualidade interpretativa e com enorme apelo para o sexo.
Nada contra o sexo. Muito pelo contrário. Apenas não concordamos com o que é mostrado na televisão em qualquer horário da programação.
Cartão postal da Rua da Palma, bairro periférico da cidade histórica São Mateus, uma das poucas onde o progresso demorou chegar. Ali naquele bairro e cidade, quase todas as pessoas se conheciam. Sabiam os nomes, o que faziam e a qual família pertenciam. Era uma comunidade nascida, crescida e envelhecida com quase nenhuma mudança. Apenas alguns jovens tinham motivação para sair da cidade à procura de escolas mais avançadas. Tipo universidade. Mas, nas férias nunca perdiam o vínculo.
– Boa tarde, Dona Nena! Cumprimentava respeitosamente o passante.
– Boa tarde. Deus te abençoe! Respondia Dona Nena, com o braço direito no parapeito da janela e o cotovelo esquerdo segurando um lado da face.
Diferente de outras moradoras, que nos fins de tarde se punham sentadas nas calçadas, fazendo croché e aproveitando para “pastorear” os meninos que brincavam na rua.
Era comum que, mesmo com a noite chegando, as senhoras só entrassem de volta nas suas casas após a chegada dos maridos vindos do cansativo dia de trabalho. Alguns maridos até sentavam também na frente da casa, e só entravam duas ou três horas depois.
Ali, sabiam de tudo que acontecera durante o dia. Era um verdadeiro relatório passado pelas esposas.
Mas, a moradora da casa 22, Dona Nena, era diferente. Esperava na janela por nada. Ficara viúva fazia alguns anos. O que esperava realmente, era a chegada de Emerenciano, “Seu Cecé” para leva-la junto para aquela enorme constelação estelar.
Por alguns problemas de saúde, Dona Nena e Seu Cecé não tiveram filhos. Eles dois eram o fim da frutificação da árvore genealógica.
E toda tarde a rotina se repetia. Pouca louça usada no almoço, o que também significava pouco trabalho na limpeza. Depois, uma boa madorna vespertina, até ter coragem e disposição para preparar o café da tarde para apenas uma pessoa. Ela mesma.
Dona Nena permanecia naquela janela da casa 22 por muito tempo. Às vezes a noite chegava e ela não se dava conta. Na rua, quando as luzes da iluminação pública eram acesas, as mariposas começavam a dar o ar da graça, os maridos de quem permanecia ainda nas calçadas começavam chegar.
Ela, coitada, sofria ainda mais sentindo a ausência e a partida de Seu Cecé.
O corvo que substituiu Dona Nena
Dias e meses se passaram e a rotina continuava. O mesmo movimento das crianças na rua, as donas de casa na calçada, as mariposas se aquecendo no calor da iluminação pública. A nostalgia marcava presença.
Eis que, numa certa tarde de outono, aquela janela da casa 22 da Rua da Palma ficara diferente. A figura taciturna e observadora de Dona Nena, braço direito apoiado no parapeito e esquerdo apoiando a face pensativa, não estava ali.
Mas a janela estava aberta. Sem ninguém. Sem Dona Nena. No seu duradouro lugar de observação da vida pela janela, pousava um corvo.
Anos depois, as mesmas donas de casas que se postavam nas suas cadeiras na calçada, continuaram afirmando que aquele corvo fora enviado por Seu Cecé. Não dava mais para esperar tanto tempo pelo carinho e afagos de Dona Nena. Agora, uma estrela daquela constelação divina.
Menino beijando a água – o reflexo é escuro sem ser negro
Não sei quem foi o “autor” da foto. Mas, a primeira que vi e guardei na memória, foi a de uma mulher negra alimentando o filho. Era uma foto de uma das primeiras habitantes da Nova Papua, que hoje teve acrescentado o “Guiné”.
Era um livro sobre História ou Geografia que nos encaminhava para a iniciação antropológica de muitos. Claro que “alguém” fez a foto. Se assim não fosse, ela (a foto) não existiria.
Pois, desde então leio e ouço falar dessa questão “raça” como uma das vertentes da História da Humanidade. Também é desde esse tempo que escuto falar na insolúvel e desnecessária tentativa de encontrar uma solução para o rotulado “preconceito racial”.
Há momentos que essa discussão vem à tona. E isso não aconteceu ontem nem hoje. Vem de muito tempo. E, infelizmente, para aqueles que vivem politizando toda e qualquer tentativa de solução adjudicando a solução ao governante do momento, não há como falar em “solução justa” num país como o Brasil, onde a “justiça” é parte maior do “febeapá” de Sérgio Porto.
Como falar em “Justiça” num país onde um Juiz comete um crime, principalmente contra humanos, e é “premiado” com aposentadoria compulsória, quando deveria sentar numa cadeira elétrica?
E por que cadeira elétrica?
Por que um Juiz sabe o que é um crime, como sabe, também, que não deveria cometê-lo! E ele existe para, com a lei dos homens, punir quem comete crimes.
Entendo eu que, “isso não se resolve pela via judicial”. Como dizia minha falecida Avó, que nunca se graduou em Direito nem fez Doutorado em Harvard, isso a gente começa a resolver “dentro de casa”. Nas nossas casas. Nunca nas escolas.
O que as escolas têm ensinado nos dias atuais, além da tentativa de empurrar goela à dentro, os significados das palavras? Querem que aceitemos o termo “orientação sexual”, quando o certo é “opção sexual”. Orientar é algo que nada tem com optar.
Mas, por que estou colocando esse assunto, logo hoje, neste espaço tão nobre e ao mesmo tempo tão esculhambado, e de forma sábia e altaneira criado por esse fantástico Luiz Berto Filho?
Nada relacionado como a morte do rapaz naquele supermercado de Porto Alegre. Aquilo não nasceu ali. Aquilo não me pareceu racismo. Aquilo é violência desmedida que a mídia “alfabetizada” a partir das teorias de Paulo Freire encaminhou para nada.
Racismo?
Não. Aquilo que a televisão mostrou não é racismo.
Aquilo é a depravação do ser humano. É violência humana.
Vejam o vídeo mais uma vez, e expliquem o motivo “racista” que leva um dos agressores a se contentar “apenas” em bater na cara do agredido. Por que “na cara”? O que é que tem o “racismo” com a cara de alguém?
Essa aí é uma “negra linda” ou uma “mulher linda”?
Refresco de maracujá é bom. Acalma. Bebamos um refresco e suavizemos o assunto.
Olhem a fotografia dessa jovem mulher. Poucos dirão: uma mulher negra linda. A maioria dirá: uma mulher linda. E o que tem a cor da pele com a beleza?
Por acaso, uma rosa preta é mais, ou menos bonita, que uma rosa vermelha?
Repito: o combate ao racismo começa “nim casa” cuma dizia Vovó.
“Fio maravilha” se fosse branco seria mais maravilhoso?
Qual é a cor da Geni, que Chico convida para jogar bosta?
Essa fala seria mais contundente se Morgan fosse branco?
Hoje vamos mais uma vez justificar o título da nossa coluna. Vamos, literalmente, “enxugar gelo” e tentar colocar nossa opinião pessoal discorrendo sobre o que quase todos sabem.
É. Vamos falar de algumas coisas boas da vida. Algumas muito importantes, e outras largadas aos conceitos de cada um.
Claro que, banho, a maioria prefere tomar nu. A não ser naqueles filmes onde as temporariamente ricas (quando morrem, todos ficam iguais) aparecem nas banheiras vestidas com peças que nada cobrem. Nem a vergonha.
Agora, num açude, no rio, numa lagoa ou no mar – tomar banho nu, sem nada, nos parece ser tão prazeroso quanto indescritível.
Sexo feito entre casais (eu sou de outra geração e abomino “esfregação” entre duas pessoas do mesmo sexo – mas, quem quiser dar o que é seu, que dê), será sempre algo que será trocado por enes maçãs e em qualquer lugar. No Éden, na sombra, dentro do carro e até sobre uma bicicleta. Sexo é bom.
Existem, sabemos disso, várias coisas “condenáveis”, que acabam se tornando prazerosas por conta do intempestivo. Soltar um peido fedorento, silencioso, dentro de um elevador lotado e depois ficar olhando para a cara das pessoas, não tem preço. É muita falta de educação. Mas que é gostoso e hilário, isso é.
Comida em mesa farta é uma bênção
Nos dias atuais muita coisa mudou no Ceará, estado onde nasci. Nos anos 50 e 60, o cearense, com sustento garantido pela agricultura, dependia das chuvas. Dependia do bom inverno para semear e colher – alguns até transformavam cômodos das casas em depósitos de sementes alimentares, se prevenindo para a possibilidade de novos períodos sem chuva e, com plantio mas sem colheita. Era a seca. Seca braba, que matava animais e tangia pessoas para longe do convívio.
Quem conhece, teve notícia ou (como eu) viveu essa situação, sabe o significado de uma mesa farta de alimentos. É um bálsamo. É uma verdadeira transfusão de otimismo e a certeza de que Deus existe.
A noite sugere e propõe uma pausa na labuta diária
Na prática, a noite serve para separar um dia do outro. Acreditamos que a noite é metade de um dia que se vai, e metade de outro que começa. É na noite que acontece a reparação e a preparação para o que vem a seguir.
Uma noite de frio, sem cobertor, não é coisa boa. Quem não tem esse cobertor, será sempre como um(a) filho(a) que acabou de perder a mãe. Estará a partir de então, “descoberto”.
É na noite que as cigarras cantam e que os grilos aporrinham. Habitualmente, é na noite que os diversos acasalamentos acontecem e que renascem as possibilidades reprodutivas.
Mas, aprendi ao longo da vida que, a noite é o semear da esperança de um dia sempre melhor. E jamais haverá alguém esperando por algo pior. A noite é a partida para o recomeço.
Ler é um dos prazeres da vida
Entre as muitas coisas boas e prazerosas da vida, considero a leitura uma das mais importantes. Quem lê, viaja.
Já estivemos incontáveis vezes na Inglaterra, sem passaporte, sem dólar e até conhecemos o detetive Hércule Poirot, que nos foi apresentado pela magia de Agatha Christie.
Também, sem que nunca tivéssemos sido condenado ou preso, já convivemos num cárcere através de Graciliano Ramos, e até nos consideramos Mestre e Doutor em nordestinidade, graças ao paraibano Ariano Suassuna.
Ler em qualquer lugar é bom. Ler deitado é melhor ainda, e ler o que é bom, faz a festa de qualquer um.
Nesse “rodar da Terra” um livro escrito cem anos atrás acaba sendo atual. Como “Capitães da areia”, que Jorge Amado descreveu uma infância vivida em Salvador. Algo muito atual nos dias de hoje.
O amor é o melhor de todos os prazeres
Não há, entre todas as coisas boas terrenas, algo que supere o amor. Amor emoldurado pelo respeito, pela admiração e sobretudo pelo prazer de estar junto construindo a vida, a família, superando todos os obstáculos encontrados.
Aqui, não dá para deixar de fora nenhuma espécie de amor. O amor é algo que merece respeito, qualquer que seja ele – embora existam alguns tipos de amor que não podem ser considerados como tal. O amor interesseiro que busca sempre os bens materiais – esse não é amor.
O desmedido amor edipiano, que consegue superar qualquer coisa. O amor materno, preparado, semeado ainda no ventre, será sempre algo que nenhum tipo de tempestade vai destruir.
(Ludoterapia é uma técnica psicoterápica de abordagem infantil que se baseia no fato de que brincar é um meio natural de auto-expressão da criança.)
Este pequeno e reflexivo texto tem a pretensão de, poeticamente, nos levar de volta aos anos da infância. Como se estivéssemos num passeio de gôndola nas águas de Veneza.
Queremos passear pelas boas lembranças e reviver as peraltices praticadas durante anos – que acabaram modulando nosso caráter e a maioria das nossas atitudes quando adultos.
– Mãe, deixa eu ir bem ali, fazer uma coisa?
Preocupada com o modelo educacional e com a construção do homem a partir de uma criança, a (minha) Mãe argumentava:
– Ali aonde, e fazer o que?
E nós, incutidos em falar apenas as verdades, respondíamos:
– Fazer um pouco de cerol!
E ela, vigilante, asseverava:
– Vá, mas volte logo!
E lá íamos nós, dispostos a caminhar cerca de 5 Km, com duas e até três lâmpadas queimadas para coloca-las na linha do trem, esperar a passagem do dito cujo, e, depois apanhar o pó de vidro que seria adicionado à cola e se transformava no cerol para a pipa (no meu Ceará, também chamada de “arraia”).
Na parte da tarde, depois de uma boa soneca pós-almoço e a feitura dos deveres de casa da escola, era sentar na ponta da calçada com pedaços de cacos de louça, extrair o pó para limpar todos os botões do time. Ali, os nossos times já recebiam os nomes de Santos, pelo excesso de botões pretos (Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Abel), o Flamengo, Vasco, etc., conforme a preferência de cada um.
Quando o sol esfriava, a pelada na rua. O dono da bola e o mais velho da rua escolhiam os times. Às vezes eram jogadas várias partidas de 10 gols. Quem fizesse os 10 gols primeiro, era o vencedor e o perdedor dava lugar para outro time.
Fora disso, era jogado o “gol à gol” – com bola de meia, com dois jogadores de cada lado. Um chutava e o outro defendia. Tudo acabava quando a escuridão da noite dizia: cheguei! Ou, quando a mãe aparecia no portão e determinava: chega! Tá na hora de entrar para banhar!
A pintora de telas imaginárias
A noite chegava, e tudo voltava à rotina: quem não tinha televisão em casa, se dirigia para uma praça onde havia um televisor público, ou pegava um tamborete e se postava pelo lado de fora na janela do vizinho – quando o vizinho era bom e amigo. Quando não era uma boa vizinhança, a janela sequer ficava aberta.
Os anos passavam, os pelos pubianos apareciam nos meninos e nas meninas, a fase ludoterápica e a idade mudavam. As meninas encontravam mais motivos para se postarem diante dos espelhos, observando o crescimento dos seios e o arredondamento das ancas, e ambos momentos avisavam que uma mulher estava chegando. Chegava a hora de trocar de brinquedos. Nada mais de bonecas ou casinhas de ensaios de culinária. Chegara a hora dos bebês.
E, assim, tirando uma “bobagenzinha” daqui e colocando outra dali, estava sendo posto um ponto final nos bambolês, nas petecas, nos escorregas, nos balanços, nas corridas do saco e noutras tantas brincadeiras que, desapareceram e abriram espaços para os “xópis centeres” da vida moderna.
A professora disciplinadora
Até mesmo as meninas, que um dia se auto-afirmaram como “fessoras”, proferindo aulas imaginárias para turmas idem, começaram a aparecer nos xópis, com saias que mal cobrem as calcinhas e são usadas, especificamente, para possibilitar a amostragem das tatuagens nas curvas das coxas roliças, muito bem depiladas e provocativas.
As mudanças visceralmente intempestivas nada mais são que o exagerado consumo de uma cultura globalizada e, lamentavelmente, descaracterizada, como em mais de uma oportunidade opinou Ariano Suassuna. É uma cultura deturpada, com valores estereotipados que destroem mais que constroem.
A master chef
A partir daí as cenas mudaram nos palcos da vida dos teatros das famílias. Pais, tanto quanto mães, deixaram de ser o “porto seguro” de alguns, e se transformaram nos chatonildos e castradores de plantão. Os narizes, que antes acompanhavam as cabeças no ato obediente, tomaram posições horizontais e se exacerbaram num enfrentamento que está destruindo aquela poesia infantil da convivência.
– Você vai aonde filho(a), posso saber? Pergunta a mãe.
– Não te interessa. Que saco! A vida é minha! Responde o(a) antes obediente filho(a).
É assim, ou não é?
A poesia macia de Cora Coralina na vida do jovem, foi substituída pelo texto real de Plínio Marcos.
Acertei o corte da máquina de aparar grama. Vou cortar baixo e, já nesse primeiro parágrafo peço desculpas para aqueles que não usam esse tipo de palavreado chulo – são os que costumam cagar em pé.
Nos idos anos 50, 60 e até meados dos anos 70, quase a totalidade da moçada que namorava não exercia a cultura atual de “pegar a namorada”. Quem “pegava” tinha consciência que estava fazendo algo fora do hoje “politicamente correto” – uma das muitas coisas que acabaram emprenhando nessa geração – e sabia que precisava assumir. Isso é: casar para sustentar o bruguelo.
Mas, quem só ficava nos amassos e se conformava em voltar para casa com a cueca melada e o saco dolorido, precisava recorrer à duas soluções: 1 – descascar uma banana chamada Maria; 2 – ou arrumar uns trocados para bancar a troca de óleo. Foi a geração que mais teve punheteiros nesse Brasil e a que ajudou disseminar a prostituição, transformando as xanas em “produto de consumo” e não “ponte para o amor”.
Não faz muito tempo, puta é alguém de respeito. Muitas putas saíram do puteiro para constituir família. Hoje, em segredo, famílias probas e respeitáveis.
Mulheres aguardando clientes no Cabaré da Zefa
Na Bela Vista, um bairro de Fortaleza habitado por famílias da classe média, existia uma travessa e, nessa travessa, uma única casa pintada com um verde musgo, com muro alto e um portão sempre trancado. Ali morava a respeitável senhora Dona Josefa, viúva que resolveu reconstruir a vida após a morte do marido.
Com a chegada da escuridão e das mariposas, aquele lugar soturno se transformava no “Cabaré da Zefa”, o mais depravado puteiro que existia na periferia.
Quem ali chegasse e não fosse desconhecido, sabia as regras rígidas da casa. E sabia olhar, de imediato, para uma recomendação escrita na parede e iluminada por duas boas lamparinas:
“As putas estão aqui, todas à disposição, e não fazem nada de graça. Não procure quem você deixou em casa.” – Assina, Zefa.
Aviso mais claro que esse, ninguém vai encontrar nem nas prateleiras das bodegas (“Fiado, só amanhã”). Frequentador do ambiente sabia que, ali, tudo era pago e tinha um preço.
Tabela oficial: “Mulher nova, coxuda, com peito grande e duro” – 20 mil réis, com pagamento adiantado. A senha que afirmava que o pagamento fora feito, era um rolo de papel higiênico cor de rosa quase morrendo e um sabonete Eucalol.
Quem pagava mais alto recebia um rolo de papel higiênico branco e um sabonete Phebo. A mulher se dirigia ao “Caixa”, recebia e conduzia o “cliente”. E aproveitava para marcar a hora. Uma hora!
Radiola toca discos – acionada por moedas
E a tabela ainda continha: “mulher magra, com pouco peito, pouca bunda, mas que finge desespero na hora do orgasmo aos gritos de “mais, mais, quero mais” – 15 mil réis; mulher “fria”, gorda, que fica lixando as unhas na hora do sexo – 10 mil réis.
“Empresária” das mais bem sucedidas na venda das xanas das outras, Zefa “só pegava homem” depois de encerrar o caixa do dia, pois não dava trela para ser enganada por ninguém. Nem pelas “operárias”, nem pelos “consumidores”.
Passava o tempo aproveitando para escutar as músicas bregas de Orlando Dias, Núbia Lafayete, Cláudia Barroso, Cauby Peixoto, Miltinho, Evaldo Braga e a turma que, sem saber, fazia a alegria de qualquer cabaré brasileiro. Cada ficha para acionar o bracinho que pegava o disco e levava para tocar, custava 1 mil réis. Quem comprasse 3 cervejas, ganhava uma ficha para acionar o disco.
Vovó, mãe da minha mãe, era uma negra de descendência africana que nasceu em Pacajus, interior do Ceará, onde, por muitos anos viveram os índios paiacus. Pele negra, que ficou mais negra ainda pela constante e obrigatória convivência sob o sol e o calor abrasador – sem que uma coisa implique a outra.
Vovó era filha de Nanahme – quinta geração dos índios paiacus – e teve duas filhas por conta do convívio com os negros vindos da África. Assim, em nada nos diminui ou ofende o termo “afrodescendente”. Realmente o somos. Somos legítimos descendentes de negros africanos.
A necessidade de “sair de baixo da saia rodada da mãe” fez com que Vovó procurasse um rumo na vida. Aprendeu a fazer tudo que era necessário para viver, aonde vivia. Cozinhava, lavava roupa, matava galinhas, fazia fogueiras, torrava café, fazia farinhada, tangia animais, criava galinhas e tinha extrema habilidade com a foice, o machado ou com a vassoura. Aparava filhos, netos e bisnetos. Era uma parteira leiga – daquelas do lençol grosso e encardido mas sempre limpo.
O marido só vivia para ela e para o trabalho. Os dois fumavam no mesmo cachimbo. Era minha Avó quem cuidava das tarefas “domésticas” – enquanto a parte que exigia mais esforço físico, ficava com o Avô.
Foi a Avó quem construiu no final da casa, e onde ficava a cozinha, um girau onde lavava as panelas de alumínio, as panelas de barro, os alguidás e os pratos, também de barro. Ali, debaixo do girau, quando caía algum resto de comida dos pratos que estavam sendo lavados, os pintos comiam. Caroços de feijão cozidos, sementes de melancia, de maxixe, de tomate, de quiabo – ao serem molhados pela água que caía da lavagem dos pratos e panelas, nasciam. Antes de frutificar, floravam.
Do que florava, quando as galinhas não comiam, alguns pássaros se regozijavam. Faziam a festa, num ambiente totalmente doméstico. Entre alguns pássaros, começou a aparecer um beija-flor.
Vovó, nesse tempo, não tinha idade tão avançada. Assim, pensar que ela estava caducando ao ouvi-la “conversar” com o beija-flor, nunca nos pareceu justo. Mas ela conversava, sim. E até insinuava que o beija-flor respondia:
– Quer mais um pôquim, d´água bixim?! Quer meu fii?
E entendia que respondia, e atendia ao pedido da minúscula ave. Aquele beija-flor, sem documento cartorial, sem qualquer papel, passou a ser “filho” da Vovó e, portanto, meu tio. Exigente, matriarcal e dominadora por excelência, minha Avó até fazia questão que os netos – sem exceção – pedissem a bênção diária ao “tio” voador. E não ganharia o naco diário de rapadura, o neto que não pedisse a bênção ao bixim.
A noite chegou e algumas horas depois, um novo dia. Louça do café para lavar, feijão para limpar retirando os gorgulhos, lavar e botar no fogo. Uma rápida passada pelo girau e Vovó não viu o beija-flor. Pegou a vassourinha e foi tentar enganar a si própria, fingindo que limpava o quintal. Nova vassourada e nova olhadela para debaixo do girau. Agora uma olhada mais demorada. Não viu o beija-flor. Olhou, olhou e procurou mais demoradamente. Não viu nada.
– Meu Deus dos céus, por onde andará o meu bixim?!
Cuidando da montaria para seguir para a labuta na roça, o Avô, sem saber muito do que se tratava, ralhou:
– Tá falando sozinha, véia?
– Que nada hômi, é meu bixim que num tô veno!
– Véia, derna de quando, um passarim que veve avuando, soltim nas capoeiras, é teu?
– É meu sim. Eu dô água, dô de cumê, dô meus óios espiando pra ele, admirano, banhano, entãosse é meu, sim! É mais um fii que crio!
O Avô amuntousse no animal e foi trabaiá. A Vovó continuou resmungando e, quando o sol começou a esquentar, de foice na mão foi pegar uma caminhada de lenha prumode fazê o dicumê. Tinha muita lenha na latada, que o Avô nunca deixava faltar. O que a Avó queria mesmo, era um motivo para sair para procurar o beija-flor.
Saiu, procurou e nada encontrou. Almoçou com o Avô, deitou rapidinho para uma madorna, mas o barulho dos chocalhos nas cabras e bodes no chiqueiro acabou acordando a Avó. Pegou a foice de novo e foi apanhar mais lenha – mas ela mesma assumira que era apenas um pretexto para procurar o beija-flor.
Entre entristecida e ansiosa, Vovó pisava em tocos, gravetos, touceiras de ortiga e em quem mais aparecesse pelo caminho. O barulho da corrida de um teiú sobre as folhas secas assustou Vovó, como se estivesse num pesadelo. Aquilo lhe chamou a atenção, e ela voltou a observar os galhos com mais interesse. Via besouros mangangás, calangos das costas verdes, chapéus de marimbondos e até cobras verdes. Mas não conseguia ver o que procurava: o “seu” beija-flor.
Por não ser primavera, não havia flores. Esperava encontrar o “seu” beija-flor pousado num galho qualquer, voando, rodopiando e fazendo aqueles voos tão rápidos que só os experientes conseguem vê-los.
Assim, como que uma ação divina, o vento soprou mais forte. Galhos balançaram, folhas se afastaram e Vovó teve a atenção chamada por um ninho minúsculo. Num galho muito fino (que dificultava o acesso de cobras), lá estava um ninho que Vovó conhecia. Um ninho de beija-flor.
Usando a foice, Vovó procurou um galho ainda maior e o cortou, deixando nele um gancho. Teve a feliz ideia de abaixar o galho para conferir se era realmente o ninho do “seu” beija-flor.
Difícil saber, mas para ela, era o ninho do “seu” beija-flor e aquela era a única justificativa possível para o desaparecimento momentâneo dele da floração dos tomateiros nascidos debaixo do girau. Alegre e mansamente foi soltando o galho puxado com o gancho, até ter certeza de que o “seu” beija-flor não perceberia que alguém se aproximara da sua futura cria.
Chegando à casa de volta, Vovó jogou caroços de milho no quintal e acabou pegando uma das maiores galinhas do terreiro. Colocou vinagre numa tigela, aparou sangue e mergulhou a galinha abatida na água quente para a devida limpeza. Preparou uma galinha à cabidela para comer com o véio, que não demorou chegar e foi logo se abancando na mesa posta também na cozinha.
– O que tem prumode cumê, véia?
Um sorriso largo, escondendo as lágrimas derramadas na tristeza com o repentino desaparecimento do “seu” beija-flor, chamou a atenção do Avô.
– Galinha? Galinha à cabidela? Hoje é niversário de quem, muié?
– Véio, num é niversário de ninguém. É que tô avuando de alegria cuma um beija-flor, apois encontrei o meu bixim. O danisco vai sê papai e eu vô sê Avó de novo e tu, meu véio, vai ser Vovô de novo!
– Amém véia! Eu já tavo atarantadim catua tristeza, teu chôro dento de casa, se entristeceno pelos cantos, sem nem querê dá uma cachimbada cum teu véio!
– Véio, ante de cumê vamo rezá. A gente tá precisano de agradecê a Deus pela graça alcançada!
– A graça de tê comida na nossa mesa, né véia?!
– Não véio, por causa de que eu encontrei o meu bixim. Tomara que os meus netim nasça tudo dereitim, cagraça de Deus!
Hoje, segundo estimativas oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), somos neste Brasil continental, 211,8 milhões de pessoas. Éramos, também oficialmente, em 2018 (último censo oficial divulgado), 209,5 milhões.
A “pandemia” do C-19 provavelmente mudou muita coisa e alterou esse somatório, mas nada que atingisse a soma do milhão. Pesa contra esse somatório, o alheamento e as próprias dificuldades de acesso de muitos para o registro oficial de nascimento ou óbito. Com isso pretendo dizer que existe uma provável margem de erro para mais ou para menos nessa contagem divulgada.
Carnes de qualidade produzida no Brasil
Somos um país continental e nunca fomos satisfatoriamente bem administrados no sentido amplo e público da palavra. Por anos somos castigados pelas intempéries das secas ou pelo dissabor causado pelo excesso de chuvas – que, no final, acabam tendo influência de alguma forma no contingente populacional. E esse depende da produção de alimentos.
Com a mais absoluta certeza, nesse atual governo, tampouco nos próximos três ou quatro atingiremos o patamar desejável da autossuficiência na agropecuária ou nos outros sistemas produtivos de tudo que se come. Mas, há a certeza de que também não seremos no continente sul-americano, uma nova Venezuela. Essa sim, está numa distância pequena para se transformar num novo Darfur do Sudão. Sabemos que há um certo exagero nisso.
Felizmente, no Brasil, tudo que se planta, dá. Brota. Frutifica e quase tudo é comestível. Também felizmente, o atual governo federal está
O feijão importante na culinária brasileira
aproveitando a qualidade do solo brasileiro, os erros e os acertos praticados nos governos anteriores e “está dando conta do recado”. Está apostando no apoio oficial e necessário ao “agro” e na iniciativa privada através de financiamentos e diversos programas que estão dando sustentação a cada ano, ao aumento da produção em todos os setores. Além do alto percentual da produção brasileira que é exportada.
Dito isso, sem que sejamos “donos da verdade” recorro aos tempos da minha infância, quando criança podia aprender a trabalhar e trabalhar sem ser considerado explorado ou trabalhador escravo, voltamos à roça onde aprendemos semear maniva de mandioca e ramas de batata doce.
A experiência de meu Avô no manejo com as coisas da roça, do semear ao colher após a inicial preparação da terra, fez de mim uma pessoa que cedo aprendeu a gostar do cheiro da terra molhada pela chuva. Fez de mim, entender que uma simples minhoca é um forte aliado da natureza em prol da humanidade. Fez de mim compreender e acreditar que, na terra, tudo que for semeado de bom, vai dar bons frutos e uma colheita farta.
João Buretama me chamava, dizendo assim:
– Vem cá meu filho. É assim que se corta e prepara a maniva da mandioca. Procure semear na terra com o “olho” da maniva olhando para o céu, esperando a chuva e o sol, os dois amigos de qualquer lavoura.
Eu olhava e aprendia. Pedia:
– Vô repare se estou fazendo certo!
Dependendo da qualidade da mandioca e do período plantado, quando chega a hora da colheita, algumas folhas começam cair ou o agricultor percebe a mudança do solo no pé da mandioca. O chão fica mais alto, como se estivesse “rachando”. Na verdade está dando espaço para a raiz da mandioca que cresceu e virou tubérculo.
Manivas de mandioca prontas para a semeadura
Colhida a mandioca, como se formassem uma cooperativa, os agricultores se reuniam e combinavam a “farinhada” para aproveitar a mão-de-obra da vizinhança.
Centenas de linhas plantadas garantiam uma farinhada de pelo menos duas semanas transformadas num acontecimento festivo. Aquele que tivesse mais mandioca para fazer farinha, era responsável, também, por abater o boi para o dia do encerramento da farinhada.
Rama da batata doce pronta para ser amarrada e semeada
Procedimento parecido era feito com a batata doce, componente importante na alimentação do nordestino. Rica em nutrientes, a batata doce é servida no café da manhã, quase sempre cozida para ser comida com o próprio café ou com leite.
Na semeadura, o que se requer é conhecimento do que vai ser plantado. No florescimento das muitas ramas, outras nascem como se fossem “galhos”. Cada junção do “galho” é um local apropriado para semear. Uma cova com cerca de três metros de comprimento e aproximadamente 30 centímetros de altura é a “cova ideal” para o plantio da batata doce.
Fiz isso enquanto fui criança, morando com meus avós. Era a necessidade da família que estava sendo atendida. Não havia exploração, pois o que plantávamos e colhíamos, era para o nosso próprio consumo e sustento.
Hoje, num mundo hipócrita semeado e construído pelos “politicamente corretos”, a infância pode servir para vários tipos de exploração – inclusive “avião” no transporte de drogas. Como um grande número desses “politicamente corretos” engrossa a fila de usuários, essa ação é aceita e compreendida. Vida que segue.
Seu Julim e o prazer em fazer a felicidade dos outros
Dia da criança como muitos nunca tiveram.
Depois do almoço preparado por Joana, que resolvia abater três ou quatro galinhas bem cevadas no quintal, e algo mais que se fizesse necessário para preparar a cabidela, arroz novo torrado e socado no pilão, e depois lavado na arupemba (uma espécie de peneira fabricada pelos indígenas) sem tirar aquele gosto de queimado, farinha seca crocante, feijão de corda verde com quiabo, maxixe e jerimum, além de um gostoso pirão escaldado.
Tava pronto o almoço para os parentes e a meninada que se preocupava mais nas brincadeiras da roça que em ganhar presentes da Estrela, como acontece hoje. Se bem que os brinquedos da Estrela foram substituídos pelos celulares, tabletes e autorizações para baixar os aplicativos.
As crianças têm novos hábitos. Os pais são outros. A maioria afeita à transferir responsabilidade na estruturação da família. Escancaram as portas para o Estado, e depois usam uma lupa na procura do culpado.
Almoço servido e comido, as redes são armadas na latada e no alpendre comprido da casa. É naquela rede que a gente ficar tacando o pé na parede, e aproveita pra coçar as frieiras dos dedos nas beiradas da rede tijubana e ficar escutando aquele rangido do armador como se fora um besouro mangangá.
Não tive e jamais terei vida melhor. Que aconteçam tantos e tantos Dia da Criança.
No finzinho da tarde, com o sol ainda morno, mas de quando em vez a gente escutando o barulho do chocalho preso no pescoço do bode no chiqueiro, a cadela Pintada se despedaçava na direção da porteira e se danava à latir. Chamando a atenção de todos que estão no alpendre se balançando nas redes.
– É seu Julim!
Apois, Seu Julim, em todo Dia das Crianças se dava ao trabalho de selar um burro formoso e trotar mais de dez léguas – tudo prumode ter o prazer de contar histórias e algumas estórias para a criançada. Tinha até criança que se banhava e arrumava todim, butando brilhantina nos cabelos, prumode ficar assentado e quietinho escutando as estórias de Seu Julim.
Logo que apeava do burro e o acomodava para descansar e beber água, Seu Julim achava bonito e educado cumprimentar os adultos da casa, um por um, e só então dizia o que fora fazer.
Antes de deitar na rede para balançar, Vovô João Buretama tinha a obrigação de preparar o tamborete que Seu Julim usaria para sentar e entreter a criançada. Também fazia questão de manter algum tição aceso em brasa no fogão. Era o tição que Seu Julim usaria para acender o fumo do cachimbo.
Tamborete posto e Seu Julim sentado. Agora era picar e socar o fumo no cachimbo, enquanto as crianças se aproximavam, uma a uma para sentar numa roda em forma de arena.
Tição no cachimbo e uma sugada. Tição de novo no cachimbo, até que a brasa quebrava e caía. Mas o fumo do cachimbo estava aceso.
– “Era uma vez, um Rei de uma cidade muito distante!…….”
– Seu Julim, essa estória aí o sinhô já contou!…… garantia Moisés, um dos mais antigos que já desfrutara das tardes do Dia da Criança em pelo menos três oportunidades.
– Já contei? Mas vou contar de novo, pois você drumiu antes deu acabar de contar!
Longe dali, com a penumbra da noite chegando, o sonoro e triste cântico do vem-vem dava a garantia que todos estavam mesmo era na roça, e não num shopping cheio de barulho e escadas rolantes. Muito movimento, mas sem a vida que nos faz bem e amamos.
Os tempos estão amargos. Precisamos adoçar isso um pouco, e falar de mel. Falar da doçura do mel, passeando um pouco e rápido pela dificuldade de “fabricar” algo tão doce e benéfico para a saúde. Benefício sem nenhuma contraindicação. É doce e só faz o bem.
Hoje viajaremos na doçura do mel. Com o devido cuidado, para não nos lambuzarmos.
“O mel é um produto natural obtido a partir do néctar das flores e de excreções da abelha. Além de ser um ótimo adoçante natural, este alimento é cheio de benefícios porque conta com ação antimicrobiana, capaz de impedir o crescimento ou destruir micro-organismos e assim proteger contra doenças.”
O mel com “industrialização” apenas na embalagem
Dito acima, o mel é um produto do néctar das flores visitadas e polinizadas pelos vários tipos de abelhas que o Único Poderoso colocou no mundo. Cada tipo com sua resistência de habitat, capacidade produtiva diferenciada, e motivação recebida da Natureza, em especial na estação primaveril.
Sem flores não haverá mel. Quanto mais o humano (???!!!) destruir a natureza inviabilizando a visível existência das estações climáticas no planeta, sem árvores, menos abelhas teremos e o mel será transformado em algo de acentuado amargor diferente.
Veja o que garante a Nutricionista TATIANA ZANIN a respeito dos benefícios do mel para a saúde humana:
“O mel possui propriedades nutritivas e terapêuticas que trazem vários benefícios à saúde. É rico em antioxidantes que protegem o corpo e o coração do envelhecimento, auxilia na diminuição da pressão sanguínea, dos triglicerídeos e do colesterol, contém propriedades contra bactérias, fungos e vírus, combate a dor de garganta e a tosse e pode ainda ser usado como adoçante natural.
No entanto, mesmo com todos esses benefícios, o mel deve ser consumido com moderação, já que ainda é rico em calorias e açúcar. A substituição do açúcar puro pelo mel em alguns alimentos ajuda a manter os níveis de açúcar no sangue estáveis e pode trazer muitas vantagens para a saúde. Algumas dessas vantagens são:
1. Aumentar as defesas do corpo – Os compostos presentes no mel conferem poder antioxidante, o qual ajuda na proteção do corpo. Entre os benefícios, destaca-se a redução do risco de infarto e derrames, promoção da saúde dos olhos, além de auxiliar no tratamento de alguns tipos de câncer, como o de rim, impedindo a multiplicação das células cancerígenas.
2. Melhorar a saúde do coração – O mel traz benefícios à saúde do coração pois é capaz de aumentar o fluxo sanguíneo e reduzir a formação de coágulos. Esse processo ajuda na diminuição da pressão arterial, prevenindo assim doenças do coração.
3. Melhorar o colesterol e diminuir os triglicerídeos – O mel pode ser um bom aliado no combate ao colesterol alto, pois diminui os níveis de colesterol “ruim” (LDL) e aumenta o colesterol “bom” (HDL) do corpo. Ainda, o mel pode ajudar a diminuir os níveis de triglicerídeos porque pode ser usado como substituto do açúcar. Geralmente, dietas ricas em açúcar e carboidratos refinados causam aumento dos níveis de triglicerídeos, aumentando o risco de doenças do coração e diabetes tipo 2.
4. Combater bactérias e fungos em feridas – O mel possui propriedades que reduzem o tempo de cicatrização, pois é capaz de esterilizar feridas reduzindo a dor, cheiro e tamanho, promovendo, assim, a sua cura, sendo considerados eficaz e até melhor do que alguns curativos.
Pode ser também uma ótima opção para tratar úlceras nos pés de diabéticos pois combate os germes e ajuda na regeneração dos tecidos. O mel também já vem sendo usado para curar lesões de herpes oral e genital, já que reduz a coceira e funciona tão bem quanto as pomadas encontradas na farmácia. Também pode tratar bactérias resistentes a antibióticos, úlceras e feridas a longo prazo após a cirurgia e queimaduras.
5. Aliviar a dor de garganta, asma e tosse – O mel reduz a inflamação e inchaço da garganta e dos pulmões, sendo eficiente ainda nos casos de gripe e resfriado, melhorando o sono. É indicado tomar duas colheres de chá de mel na hora de dormir, pois o doce faz com que mais saliva seja produzida. Isso melhora a mucosa da garganta protegendo contra a irritação, reduzindo e aliviando a tosse, sendo, em muitos casos, mais seguro e eficaz que alguns xaropes.
6. Melhorar a saúde gastrointestinal – O mel é um prebiótico muito potente que nutre as bactérias boas que vivem no intestino. Logo, é benéfico para a digestão e para a saúde em geral. Além disso, também pode ser usado para tratar problemas digestivos, como diarreia e é eficaz no tratamento para as bactérias Helicobacter pylori, causadoras de úlceras gástricas. Ainda, outro chá que pode ser feito para combater a má-digestão é de mel com canela, pois esses dois alimentos naturais ajudam a melhorar o processo digestivo como um todo.
7. Ajudar na memória e ansiedade – O uso do mel em substituição ao açúcar vem sendo associado com a melhora da memória e dos níveis de ansiedade. Além disso, estudos indicam que o mel também pode melhorar a memória de mulheres na menopausa e pós-menopausa.
8. Tratar hemorroidas – O mel possui propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias, analgésicas e cicatrizantes, que reduzem o sangramento e aliviam a dor e a coceira causadas pelas hemorroidas. Para esse efeito, basta misturar mel, azeite de oliva e cera de abelha e, depois, aplicar na região.
9. Combater a obesidade – Devido às suas propriedades, o mel melhora o controle de açúcar e gordura no sangue, reduzindo o estado inflamatório e auxiliando na manutenção do peso.” (Tatiana Zanin).
E… quem faz esse mel ser tão doce?
A abelha “engenheira do doce mel
Os especialistas afirmam que existem várias espécies de abelhas, sendo necessária, às vezes, a mudança de nome dessas espécies, de região para região deste país continental. Abelha africana, jandaíra, araçá, uruçu, mandaçaia, tiúba, jataí, contando ainda os marimbondos chapéu, amarelo e outras espécies, todas produzindo mel.
Cada espécie de abelha “trabalha” com tipo diferente de flores, de onde extrai o pólen. São chamadas também de “abelhas operárias” e recebem comando da “abelha rainha” – mesmo tipo de vida da Rainha da Inglaterra. Reina, mas não manda nada.
Marimbondo chapéu ou marimbondo de fogo
O marimbondo produz mel. Não se tem informação afirmando o consumo do mel produzido pelo marimbondo – sempre em menor quantidade que o produzido pelas abelhas. Provavelmente, por conta das diferenças entre as colmeias.
Do marimbondo se tem informação dizendo da dor provocada no ser humano pela “ferroada” desse mosquito. Quem já teve a má sorte de ser ferroado pelo marimbondo não faz nenhum elogio.
Eu mesmo, criança e ainda morando em Queimadas, quase perdi um primo por conta de uma ferroada do marimbondo chapéu. Um só marimbondo não. Vários. Foram ferroadas nos lábios e nos olhos. A falta de cuidado adequado levou à uma infecção, e essa causou problema grave para a visão.
Colmeia do marimbondo chapéu
Distante da intenção de procurar mel (e era fácil encontrar enxames de arapuá, uma abelha preta que constrói colmeia nas árvores semelhante ao cupinzeiro), a infância premiava a meninada com a diversão do “caçar com baladeiras” – alguns até contribuíam com rolinhas, juritis, camaleão, teiú, nambus para completar o “dicumê”, quase sempre feijão com nada – e era isso que a levava à mata.
Comum encontrar cobras verdes, cobras de cipó, libélulas, gafanhotos, calangos, mané-magos, louva-deus e também muitos marimbondos.
Criança que sabe ser criança, “não bole com marimbondo”, era o que aconselhavam os avós, quando pegávamos a baladeira e o bornal com pedras e outros apetrechos apropriados para aquela divertida obrigação de caçar.
Marimbondo não ficava fora do caminho. Avistado, ninguém se atrevia e mexer. Quando se atrevia, mexia e saía de perto.
Marimbondo da febre
Entretanto, havia nas Queimadas uma espécie rara de marimbondo desconhecida para um sem-número de pessoas mas, conhecida pela meninada, principalmente a que andava pelas matas caçando aves ou filhotes ainda nos ninhos para criar. Era criado com a intenção do entretenimento, sem qualquer tipo de maldade com as pequenas aves.
Essa espécie de marimbondo construía uma colmeia em forma de pera, mas os “afuleimados” garantiam que se assemelhava a um seio de menina. Pequeno e rijo. Era ali que viviam os marimbondos que, ferroando alguém, provocava febre. Provavelmente, era uma espécie que tinha alguma serventia para os pesquisadores. Essa espécie, ninguém se atrevia à saber se produzia mel ou apenas ferroava.
Mas, entre todas essas espécies de abelhas ou marimbondos que produzem mel, uma espécie em especial chama a atenção de duas comunidades: a comunidade indígena, que faz uso do mel para fins terapêuticos; e a comunidade dos pesquisadores, que há anos tenta descobrir a forma habitacional em função do pequeno porte da abelha e a sua real utilidade medicinal para a saúde humana.
Comumente é conhecida como “abelha mosquito” e é o seu tamanho minúsculo que causa curiosidade. Escolhe os lugares mais fáceis de serem encontrados, tanto para viver quanto para produzir.
A abelha mosquito escolhe o jucá ou pau-ferro para construir suas colmeias. Constrói no miolo dessas árvores a sua colmeia e ali produz e se reproduz, sem a preocupação de ser incomodado. Mas os indígenas sabem a forma para extrair o mel medicinal da abelha mosquito.
A abelha “mosquito” de mel medicinal preferido pelos indígenas