JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A PRAÇA

Toda e qualquer cidade tem seu ponto de referência. Seu ícone, ainda que não seja o ponto principal da cidade.

Em Recife, por exemplo, temos o “Marco Zero”; em Salvador temos o “Pelourinho”; no Rio de Janeiro temos a “Cinelândia”; em Ribeirão Preto temos o “Bar Pinguim”. Até em Palmares/PE, temos o local da roubalheira, onde funciona a roleta do Cu-Trancado.

Assim, em Fortaleza não poderia ser diferente. Com tantos lugares repletos de passagens históricas, de momentos de glórias – mas o ícone será sempre a Praça do Ferreira. Era ali que muitas coisas aconteciam, aconteceram e continuarão acontecendo. É o coração da cidade.

Ali, onde hoje é o ponto mais importante e “falado” da cidade, um dia já foi tão insignificante que poucos se preocupam em saber. Foi um areal onde existia apenas umas poucas e crescidas árvores (mongubas e castanholas) e uma cacimba. Ainda sem denominação oficial, a famosa Praça do Ferreira era conhecida por “Feira Nova”, por ser ali que acontecia uma feira nos finais de semanas.

Por volta de 1842, a praça já recebera novo nome: Praça Dom Pedro II, denominação sugerida pelo próprio construtor e então presidente da Câmara – Antônio Rodrigues Ferreira, boticário, que aproveitou para instalar seu primeiro “negócio” na então Rua da Palma, hoje conhecida como Rua Major Facundo.

Esse comércio de medicamentos manipulados ganhou fama. Era na frente ou dentro do próprio estabelecimento, que passou a ser conhecido como Botica do Ferreira”, que a maioria das pessoas cultivou o hábito de se encontrar, transformando-o numa referência local. E isso foi o ponto inicial para que a Botica do Ferreira, após mudar de lay-out, se transformasse na hoje Praça do Ferreira, a partir do ano de 1871.

Antiga foto de urbanização da Praça do Ferreira no século XIX

Fortaleza crescia. Novos bairros se formavam a partir de pessoas tangidas dos lugares onde nasceram pela escassez de trabalho, principalmente aqueles voltados para a agricultura.

Influenciadas pelo fato do movimento abolicionista de 1882, em Redenção, distante dali por apenas 55 km, famílias, agora “livres da escravidão formal”, partiram em busca de novos rumos. Como Fortaleza não ficava tão distante, esse foi o local mais procurado.

A população da capital cresceu (não apenas por esse motivo) e novos bairros surgiram na periferia. Mas, o “ícone” ainda era a já Praça do Ferreira.

A partir de então as necessidades foram impondo as reformas. Lojas comerciais, cafés e demais pontos de encontros e reuniões. Quiosques foram erguidos. A política chegou e passou a ter importância de alta relevância na cidade. E a Praça do Ferreira era o local escolhido para a solidificação das parcerias. Três novos pontos surgiram. Na realidade, três quiosques onde se tomava café e conversava: Café do Comércio, Café Elegante e Café Java.

Novo lay-out da Praça do Ferreira onde já aparece o relógio

A então gestão pública ganhou o seu quinhão. Foi ali que surgiu o primeiro ponto de funcionamento da fiscalização, erigido pela Companhia de Luz.

Por sua vez, a mesma gestão municipal tomou a iniciativa de privatizar e gradear a secular cacimba que atendia o serviço de água para a comunidade. Sobre a cacimba mandou instalar um cata-vento para facilitar o bombeamento da água. Foi construído ali, também, um jardim que deu novo visual à Praça do Ferreira.

Finalmente, a partir de 1920, o então prefeito Godofredo Maciel resolveu dar uma forma urbanística definitiva para a praça. Mandou demolir os quiosques, haja vista que perderam a importância no desenvolvimento da cidade. Em seguida mandou ladrilhar a imensa área e aproveitou para construir um famoso coreto, que anos depois seria demolido pelo município e ali colocado o famoso relógio que, reformado por várias vezes, enfeita o principal cartão postal do centro de Fortaleza.

A atual Praça do Ferreira

Após ter sido em 1839 um imenso areal, em 20 de dezembro de 2001, pela lei municipal 8.605, a Praça do Ferreira foi oficialmente declarada Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza.

Durante anos, a hoje Praça do Ferreira foi palco de fatos e momentos históricos que marcaram a vida fortalezense. Surgiriam nos anos seguintes os bares, cafés, agências bancárias, cinemas em lugares onde antes, existiam apenas o Boticário Ferreira e sua significativa importância para as decisões políticas, sem esquecer os membros que compunham a Padaria Espiritual.

Chegaria sem demora a época do abrigo, costumeiro ponto de encontro e discussões de assuntos da política, da segurança da cidade e, principalmente, do futebol. Chegariam os hotéis Savanah e o Cine São Luiz para somar à vida noturna e boêmia da cidade ao lado do já existente Excelsior Hotel e Clube do Advogado – esses dois últimos na esquina da Rua Guilherme Rocha, mas voltados para a Praça do Ferreira.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O PARTO E O PATO

A “parteira” e o bebê

Tudo tem seu começo, meio e fim. Tudo que tem vida passa por essas escalas da Natureza. O ciclo vital.

Menino ainda, sem conhecer o prazer de fazer e a alegria de ver nascer, levei algum tempo para entender a “diferença” entre o sentar à mesa para uma refeição em família, e o entrar na camarinha para ver uma criança nascendo.

Era assim naquele tempo que está distante. Só permaneceu na memória e na poesia da saudade. E, da mesma forma, era ali naquele não ter nada de nosso, que a Fé semeava a esperança para nos premiar com a colheita de dias melhores. Cada criança que nascia, era a forma prática da colheita da esperança.

O choro era o bom anúncio do resultado daquela torcida empurrada pelos “força”, mais “força”, tá nascendo. Aguenta firme!

Antes, o cenário mostrava uma bacia de ágata com água quente e uma jarra com água fria para a necessidade de “esfriar um pouco”. Uma tesoura com pouco uso, mas muito antiga, era o único instrumento cirúrgico usado por Dona Tina (Esmerantina Costa), madrinha e comadre de quase todas as famílias daquele povoado. “Parturiou” quase todas as mulheres e aparou quase todas crianças que ali nasceram.

Bacia de ágata usada na assepsia do recém nascido

– É um menino!

Um anúncio feito em estridente grito por Dona Tina, encerrava a expectativa do nascimento de mais um rebento, ornamentado pela possibilidade de boa saúde da criança e da mãe. O futuro não lhes pertencia – mas, naquele instante, era reforçado pela esperança semeada pela Fé, de que tudo seria só felicidade.

A tesoura que cortava o cordão umbilical – nunca se teve notícia de infecção

O corte e a sutura do cordão umbilical acompanhado pela imersão na água para a assepsia, coroavam o trabalho de parto de Dona Tina em “Donana” (Ana Beatriz) que, automaticamente, se transformava em “Comadre Tina”.

Abraços e parabéns e a primeira mamada da nova mãe. Sem charutos nem champanhes, na cozinha o furdunço era intenso na preparação do enorme pato “cevado” especialmente para aquele momento de alegria.

– “Donana” num pode cumê pato, gente!

Era o principal conselho da agora Comadre Tina. A solução era abater aquela galinha, também cevada com carinho para a oportunidade. Por três dias, só “Donana” comeria daquela galinha de parida. Mas, o que ela mais gostava era de beber o caldo.

Três ou quatro mulheres preparavam o “dicumê festivo”, enfeitado e reforçado por uma paçoca de castanha de caju com charque, as duas socadas num pilão batido a quatro mãos. A paçoca substituía a farinha seca – mas continha parte dela. O arroz colhido na pequena roça fazia parte de tudo. Torrado e pilado, além de posteriormente lavado e escorrido na “arupemba”. Tinha sabor especial. Aquele gostinho de queimado sem ser “queimado”.

O pato que pagava o pato

– Já mataro o pato?

Era a pergunta feita por Comadre Salustiana, convidada especialmente para comandar a cozinha naquele dia – por conta dos trabalhos de parto de “Donana”.

– Inda não!….. respondeu Abigail, ocupada em preparar a paçoca no pilão.

– Apois adindonde que tá o danisco?

Quis saber Salustiana, já portando uma faca e uma bacia com um pouco de vinagre.

– Tá ali, amarradim, o coitado! Respondeu toda pesarosa Abigail.

Com tantas auxiliares naquele dia especial, preparar o almoço para alguns convidados não era tarefa difícil. Parto feito, pato abatido e comida a caminho da mesa. Sangrar o pato, cortar e fazer o molho pardo, naquele lugar parecia ser muito mais fácil que fazer um parto. O parto é a primeira etapa e o pato a consumação.

Pato ao molho pardo

Chegava a hora do servir. Salustiana serviu às crianças (a mim, inclusive) e mandou que fossem para o alpendre da casa. Quem quisesse mais, poderia vir pedir.

Finalmente, a oração. Oração pela chegada de mais um rebento com saúde. Oração pela pronta recuperação da mãe – já em preparativos para daqui a dois meses começar a fazer mais um. Era assim que a coisa era naquele interior cearense.

Almoço comido. Todos alegres e satisfeitos. Agora era esperar o café, mas quem quisesse ir embora ficava à vontade.

– Compadre Augusto, vosmecê aceita batizar meu menino?

– Depende compadre. Cuma é o nome que vosmecê quer botar nele?

– “Getúio”, compadre!

– Eita meu compadre! Bom nome. Bem escoído. Nome de Presidente da República!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SENADINHO DO ANGICO

Na sombra do angico transformada em Senado e Câmara tudo era aprovado

O forte aroma da floração primaveril do angico tangido pelo vento era um convite para alguns sentarem à sua sombra e usufruírem do local, usando como assentos os cambitos e as cangalhas.

Era ali também que, o jumento “Feliciano” e o burro “Dourado” descansavam e aproveitavam para ruminar suas rações de capim misturadas ao milho e colocadas à disposição.

Uma gamela com água, também aproveitada pelas galinhas transformava o desenho imaginário do local numa fazenda. E não era uma fazenda. Era a casa de Raimundim de Maria de Horácio – onde também morava uma reca de meninos, todos “descobertos” no calor dos galanteios das duradouras noites de lua cheia.
Era ali usufruindo da sombra do angico, que se reunia o “senadinho” do lugar. Era onde se sabia de tudo e, também, onde se resolvia tudo. Desde o início da colheita do feijão ou do milho de cada roça cooperativada, até o plantio da maniva, ou carpina interativa e coletiva da vazante – quiabo, melancia, batata doce e alguns pés de abóbora.

Debaixo daquele angico era também aonde se abatia, limpava, cortava e vendia o porco, o bode, o carneiro ou o boi para o consumo da comunidade. Lavagem e limpeza de vísceras não eram permitidas para evitar a proliferação de moscas, ratos e outros insetos roedores. Enfim, aquele angico tinha o mesmo papel que hoje tem o shopping ou a Associação Comercial de cada cidade.

Nas tardes de sábado o local era preparado para receber um encerado de caminhão, enquanto o fole de Seu Tôquim animava e promovia gratuitamente o melhor forró pé-de-serra dos arredores.

Com o suor escorrendo pelo sovaco e pescoço ensebados, homens e mulheres se grudavam, e alguns casais envolvidos, continuavam dançando sem perceber que o frege terminara. Sanfona, fole, pandeiro, triângulo e um bumbo furado, que servia apenas como cenário, pois não emitia qualquer som.

Nas manhãs de domingo, a feirinha comunitária. Macaxeira, farinha seca, rapadura, galinha da terra, peru, carne de boi, de porco e de bode. Fumo, cachaça e até comprimidos para qualquer meizinha.

De tarde, o local se transformava com a chegada do rádio Transglobe à bateria, para a transmissão do jogo do Maracanã ou Pacaembu nas vozes inconfundíveis de Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo ou Fiori Gigliotti e ainda Waldir Amaral. Na Rádio Assunção Cearense, as vozes de Ivan Lima, José Santana, Jurandir Mitoso e alguns anos depois, de Paulino Rocha e Gomes Farias.

Na segunda-feira começava tudo de novo:

Coçar frieira na beirada da rede. Subir na árvore para fazer uma necessidade fisiológica tentando fugir dos porcos e das galinhas. Tomar banho nu no açude, jogando “galinha d´água”. Beber água fresca da quartinha. Surrão. Caganeira de chicote. Bicho de pé. Balançar na rede, tocando o pé na parede e escutar o ranger do armador. Pirão de farinha seca. Beber caldo no prato sem colher. Cheirar rapé e ao espirrar, dizer: “Armaria”. Cachimbo de barro. Amarrar sabugo de milho no pescoço do cachorro. Assoviar pra provocar o glu-glu do peru. Esperar o cântico do vem-vem e botar o angu para a graúna.

Matar a cobra e mostrar o pau. Pescar no açude com anzol de alfinete. Caçar e pegar “mané-mago” (libélula) nas árvores. Atiçar cachorro vira-lata pra pegar teiú no mato. Passar creolina para matar bicho no lombo do cavalo. Acender a lamparina e andar feito alma com a dita cuja no meio da noite.

Deitar na sombra da catingueira. Cortar unha das mãos e dos pés com canivete. Peidar dentro d´água na hora do banho no açude. Cangalha. Cambito. Chicote. Chifre pra aboio. Caranguejo uçá. Rapadura melada. Alfenim. Batida de cana. Manteiga de garrafa.

Leite mugido. Chiqueirar cabras e bodes. Camaleão. Rola-bosta. Cobra de duas cabeças. Besouro mangangá. Cavalo do cão. Sibite. Graúna. Bem-te-vi. Potó. Muçum de açude e de lagoa.

Debulhar milho e feijão. Plantar maniva. Raposa. Capote. Cabaça d´água. Terrina para água dos animais. Sal em pedra. Torrar café no alguidá. Mão-de-pilão. Pano de coar água no pote. Panariço. Gurgumio. Cajuína. Assar castanha no caco. Espinho de bananeira. Moita de mofumbo. Caminho d´água. Sabão Pavão. Óleo Pajeú. Grude na colher. Ferro à carvão para passar roupa. Anil e goma para camisa de cambraia de linho.

Viver. Cantar. Passar o anel. Brincar de manjô. Pião. Caçar passarinhos. Comer jumentinha. Montar a cavalo e campear o boi. Galo de campina. Alpargatas. Trempes. Pão sovado. Voo rasante da coruja. Rasga mortalha. Calango a galope. Cantoria. Cordel de mimeógrafo. Papel de embrulho. Lápis na orelha. Manteiga à retalho. Caderno de fiados. Bicada pra tomar banho e cusparada no pé do balcão. A “do Santo” na bicada. Tira-gosto de cajá embu. Sirigüela inchada. Arapuca pra pegar sabiá. Foice. Pedra de amolar machado. Cabaça d´água. Beber água na caneca no mesmo cantinho que a velha babona bebia.

O viver na roça que faz o verdadeiro pacote da saudade.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS “PÚBERES” E AS “ADÚLTERAS”

Antigo “Curral das Éguas” em Fortaleza dos anos 40/50

Costumo dizer que as muitas coisas boas do passado ainda não dobraram a esquina da curva do tempo. Se a visão falha, a memória ainda permite lembrar e, assim, terminamos vendo. Ainda dá para ver que, naquele tempo de pureza e pessoas boas, andar de bicicleta e tocar o sinal pedindo passagem, ou viajar uma pequena distância num Jeep Willys era melhor que ir à Disney, onde as crianças são iniciadas em putarias.

Eu escrevi “putarias”. Talvez eu não quisesse escrever “putarias”. Mas escrevi, e é assim que vai ficar. E, já que falei em Disney e escrevi “putarias”, tal qual a Disney, era no “Curral das Éguas” onde os púberes eram iniciados nas putarias do sexo.

Naquele tempo, beijar na boca, só se fosse escondido de muitos – e muitas namoradas não permitiam. Achavam que engravidariam. Aquilo significava para elas, uma iniciação à incitação sexual. Como dizemos hoje, a chegada nas “preliminares”, onde meninas e meninos ficam excitados e molhadinhos, se não tiverem sido “orientados” para outras preferências.

E foi por conta dos muitos que não conheceram o “Curral das Éguas” ou locais iguais, que chegou forte entre nós essa idiotice de “orientação sexual”, em vez de “opção sexual”. Estão querendo nos empurrar goela à baixo, termos que têm outro significado, e querem que aceitemos como eles querem. Estudei foi no Liceu do Ceará, na época em que havia professores que, ao mesmo tempo eram autores de livros da língua pátria.

“Orientação” vem de “orientar”. “Orientar” que dizer “ensinar”. E sexo sem um mínimo de amor é a mesma coisa que cagar. Não precisa de “orientação”. Ninguém ensina ninguém a fazer sexo. Agora, “opção sexual”, é o direito que qualquer um tem de praticar sexo da forma que lhe convier. De forma ativa ou passiva, embora tenha crescido muito o número dos que preferem a fungada no cangote – e eu não tenho nada contra. O que estou tentando dizer é que, orientação é uma coisa e opção é outra. Querem que troquemos os significados. Ninguém vai me obrigar a isso.

Pois, foi ali no “Curral das Éguas”, hoje bairro Moura Brasil, que dei minhas primeiras “pimbadas” – naquele tempo ninguém comia a namorada com a facilidade que come hoje. Precisávamos satisfazer nossas taras nos cabarés, nos chatôs, nas casas de putarias – e precisávamos pagar para fazer sexo que não fosse com a própria mão ou nas jumentinhas da capoeira no sertão.

Hoje, se o namorado não procura logo sentir o cheiro da “xana” no primeiro encontro, para aprovar ou não a depilação total feita com cêra quente, a namorada manda andar e procurar algum gay.

E, como a memória ainda funciona bem, lembro bem de como eram as “suítes” onde o pau cantava na xana de Xolinha. Tinha que pagar antes o valor estipulado pela Cafetina. Era xis pelo tempo pretendido da transa, e xis pelo “serviço” da prostituta. Compunham o cenário da suíte: um rolo de papel higiênico (toalha esterilizada e para o casal, nem pensar), uma bacia de ágata, um pedaço de sabão, e uma jarra com água – chuveiro íntimo com ducha antes e depois da fudelança, é coisa dos tempos que querem confundir “orientação” com “opção”. Era um tal de ouvir o “choque-choque” da água batendo no saco!…..

Nas noites do Curral das Éguas todos os gatos eram pardos

Sem preliminares. Era o que dizia a mulher, pois ela precisava atender outras pessoas e faturar o dela para pagar as contas, pagar a parte do cara que arrumara a vaga para ela no prostíbulo, além de precisar comprar calcinhas novas e atraentes.

Muitos não conheceram a Fortaleza desses tempos. O “Curral das Éguas” funcionava e existiu durante décadas numa área que ficava atrás da Estação Ferroviária e da Cadeia Pública e Santa Casa de Misericórdia. Foi ali que muitos conheceram as principais doenças venéreas que perturbavam, mas não matavam como as doenças dos tempos modernos.

Com a chegada da modernidade trazendo os cinemas “Drive-in”, e junto os carros com ar-refrigerado e os preservativos (que antes eram chamados de “camisa de vento”); a liberação de funcionamento dos motéis até ao lado dos templos religiosos, não teve outro caminho para o “Curral das Éguas” e os iguais, que não fosse a falência.

Uma verdadeira “putaria” que fizeram com os contumazes frequentadores. Ali, muitos conquistaram as atuais esposas e com elas construíram probas famílias, apenas confirmando que a honra nunca esteve entre as pernas. É algo conhecido em meio à família e vive no lado esquerdo do peito.

Ponto de honra do “Curral das Éguas”: afastado dali por cerca de 50 metros, a Polícia mantinha um Posto Policial e quase não intervia naquele frege ou no puteiro. Desentendimentos por conta de embriaguez e briga entre putas por conta daquele homem que “pagava mais” por uma “pimbada”, era coisa comum. Mas, continuava sem intervenção policial. Era crime hediondo vender a única droga que existia com facilidade naqueles tempos: maconha.

Dia desses retornei à Fortaleza para rever familiares e ouvi de um sobrinho policial militar: “Tio, não existe mais o Curral das Éguas. A putaria agora é na cidade inteira, incluindo os apartamentos de edifícios com coberturas.”

Bairro Moura Brasil – um dia foi o Curral das Éguas

Agora, o que jamais vão conseguir substituir é o “Serviço de Autofalante Rosa do Lagamar”, funcionando graças à uma irradiadora de três bocas, espraiando mensagens românticas e músicas idem, com variação da preferência musical. Ali, onde muitos anunciavam (pagando) que a noite estava começando e acabavam de chegar “no pedaço”, era comum escutar a sofrência cantada por Orlando Dias:

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CHUVA QUE MOLHA A ALMA

Homem protegido da chuva – chapéu, capa plástica e galocha

Quando nasci, dois irmãos já haviam chegado antes de mim. Meu pai já tinha mais de 40 anos. Era um homem amadurecido, vindo de ultrapassagens de empecilhos difíceis. Foi professor, naquela época, de Aritmética, trabalho para o município. Ali conseguiu ultrapassar o primeiro grande empecilho: foi demitido, mas saiu ileso e garantiu sua dignidade.

Os muitos amigos que havia feito ajudaram na caminhada. Se soubesse dirigir veículos, teria sido motorista de ônibus intermunicipal. Como não era habilitado, foi trabalhar como Cobrador de ônibus na empresa intermunicipal de um antigo amigo.

Iniciou preparação para um concurso público. Fez e foi aprovado. Foi a partir de então que se transformou em Fiscal Fazendário do Estado.

Foi a partir daí que conheci meu velho Pai. Até onde sei, antes de assumir a família, um verdadeiro boêmio. Notívago, gosto pelas serestas e pelas coisas fáceis da noite. Depois que conheceu minha mãe e constituiu família, um santo homem. Mudou de vida completamente, professor que era, e precisava dar exemplos. Bons exemplos, diga-se.

Andarilho por natureza, meu pai tinha paixão por “andar”. Andar, no sentido físico da coisa, sem que isso tivesse alguma ligação com a necessidade esportiva do andar, do caminhar. Andava por que gostava. E o tempo não era problema para ele. Andava com o sol à pino ou com aquela chuva que molhava tudo. Até a alma!

Guarda chuva uma das “armas” do meu pai

Hoje, anos depois da partida e do encantamento do meu velho pai, lembrei uma imagem que tenho gravada: após caminhar por cerca de 10 ou mais quilômetros debaixo de uma chuva torrencial (com bastante dinheiro no bolso para viajar de ônibus e ficar livre daquela chuvarada), meu pai entrando em casa completamente encharcado. Molhado do pés à cabeça e, pasmem, com um guarda-chuva, com uma capa e com uma galocha. Não adiantava falar nada. Aquilo, aquele banho lhe dava prazer.

O guarda-chuva do meu pai, abandonado

Meu pai foi homem metódico. Tudo que precisava cumprir como pagamento ao início de cada mês, era devidamente anotado. Aquela anotação era “riscada” quando era paga. Aprendi muito com ele e hoje repito algumas daquelas coisas que ele fazia. Sou extremamente organizado com minhas coisas do dia a dia, em casa. Parece chato. Mas sou assim e não vejo necessidade de mudar.

E aí talvez eu não esteja conseguindo me fazer entender. O que o Zé Ramos está querendo dizer, falando algo da vida dele com o pai, numa postagem textual onde ninguém tem qualquer tipo de interesse com o Alfredo Ramos (meu pai)?

E aí eu respondo: meu pai, além de ser meu pai, biologicamente falando, me inspirou, meu fez ver o mundo com os olhos da simplicidade e da verdade e, foi a primeira pessoa que me disse que, “o Brasil é um problema sem solução”!

Um país que tem a gente que tem, que tem os políticos que tem, que tem a educação que tem, que tem o judiciário que tem, que tem o sistema educacional que tem, e que tem, ‘PRINCIPALMENTE’ as escolhas e opções políticas que tem, jamais conseguirá chegar em algum lugar.

Quem que estudou, que tem mais de 60 anos de vida, que algum dia imaginou que aceitaria ouvir dizer que a única solução para este Brasil é a intervenção militar?

Quem está satisfeito com a situação político-administrativa do Rio de Janeiro, e acha que algo diferente de uma intervenção vai resolver alguma coisa?

Quem acha que os políticos que compõem a Câmara e o Senado alguma dia vão resolver “essa merda que está aí”? Fui! Meu pai, acho, estava certo.

EM TEMPO: Se alguém que lê essas maltraçadas linhas não entendeu o que pretendi dizer (principalmente) nas entrelinhas, eu tô é fudido e desisto de tudo!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SAUDADE!

A lágrima salgada da saudade

Há horas que a saudade me faz sangrar. É um sangue incolor, salgado, esfumaçado, doído, como se extraído a fórceps. Dói demais!

É uma saudade danada! Saudade de ti, de mim, de nós!

Saudade do que fui, sem querer ser. Saudade do que poderia ter sido, e não fui!

Saudade até de quando eu for!

Dói!

Saudade do vento, do amanhecer e do sol quente que me fazia suar e do suor que me fazia chorar, sentindo saudade de ti.

Dói muito!

Saudade daquela noite em que quase nos entregamos, e das lágrimas que chorei por te perder!

Saudade do teu sorriso na manhã seguinte.

Saudade do ontem. Do hoje e do amanhã, que um dia será hoje e depois será ontem.

Saudade do menino que fui e do velho que serei. Saudade de mim, de ti, de nós!

Dói e corta fundo!

Saudade das nuvens que eram minhas. E daquelas que eu não tinha!

Saudade dos caminhos, das trilhas, das veredas e das estradas por onde andei.

Saudade da minha infância. Da bila, do pião, da cachuleta, da arraia, do corrupio, e das estórias construídas e contadas em castelos de ventos e de areia.

Saudade das arapucas armadas e dos sabiás pegos. Saudade dos sabiás comidos e até dos que conseguiram fugir. Parabéns sabiás! Tomara não sintam saudades de mim.

Saudade – Pablo Neruda

Saudade é amar
Um passado
Que ainda
Não passou.
É recusar
Um presente
Que nos machuca,
É não ver
O futuro
Que nos convida.

Saudade do futuro. Saudade de tudo e até do que eu nunca vi.

Saudade da paz que eu quero ter e da que eu nunca tive.

Saudade grande. Dói!

Mas, a maior saudade é de ti. De mim. De nós!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

LAURA – A MENINA QUE CATAVA FLORES

Laura no trabalho de catar flores

Provavelmente nos meados dos anos 20, Basileo Munhoz, nascido em Campanillas, bairro antigo da cidade de Málaga, na Espanha, depois de trabalhar alguns anos no Jardim Botânico – Histórico La Concepción, resolveu mudar em definitivo para o Brasil. Ainda solteiro, conseguir o visto definitivo não foi coisa difícil. Tentou e conseguiu.

Viajando de navio, levou alguns dias para desembarcar em Santos, litoral de São Paulo. Na cidade portuária procurou trabalhar, mas não conseguiu. Viajou por terra para Minas Gerais e, em menos de uma semana já estava trabalhando numa fazenda que produzia bebidas. Ali, também não conseguiu se adaptar. Embarcou no trem dos sonhos, com uma pequena mala cheia de ventos e de esperanças.

Dias depois acordou, já em Redenção no interior desprotegido e esquecido do Ceará. Na terra da cachaça e dos canaviais, Munhoz conheceu Bernarda, quarta ou quinta geração de africanos feitos escravos. Namorou. Namorou mais e mais. Namorou sem reservas e sem cuidados.

Coisa de duas ou três semanas depois, escutou de Bernarda uma preocupação:

– Bem, estou aflita! Minha menstruação está atrasada há mais de uma semana. Bernarda “buchou”.

Meses depois, sem eira nem beira, nasceria uma menina com traços visuais flamencos e sangue brasileiro. Chamou-se Laura. Laura, filha de Bernarda com Basileo, dois canavieiros que aprenderam fazer dos dias de vida o mais doce açúcar.

Basileo casou de papel passado. Resolveu que deixaria para trás, em Campanillas de Málaga, o Munhoz, agora assumidamente transformado em Muniz. Basileo Muniz, Bernarda Muniz e Laura Muniz. Uma família!

Como jamais haverá mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe, o período de valorização e importância da cana-de-açúcar e derivados sofreu um baque com a queda da economia, a variação para menor das exportações e os problemas naturais de qualquer economia de um país. Os dias ruins bateram à porta.

No auge, movido mais pela força do trabalho de Basileo e Bernarda, uma boa reserva financeira permitiria a compra de uma extensa área de terras, mas sem muita utilidade agrícola. Era uma terreno acidentado, repleto de dificuldades.

Um único benefício: um córrego que banhava parte da área e, durante o ano inteiro produzia um verde mais verde que muitos verdes.

Laura crescia. Pelos, seios e “aqueles dias” vieram quase todos no mesmo mês. No Ceará, diz-se: “ficou mocinha”!

Menina moça, pouca roupa, seios rijos e crescentes desprotegidos do sutiã, saia curta, acima alguns centímetros das patelas e bulindo cagente quando trocava os passos. Colhendo flores, colhendo margaridas, colhendo camomilas e espraiando vida e juventude num desenho inconfundível de desejos explícitos.
Assim era e ficou Laura, a menina que catava flores e margaridas para vender e colorir a vida – dela e de quem a olhasse.

Basileo que era Munhoz e virou Muniz, envelheceu. Bernarda, que era apenas Bernarda e também virou Muniz, cumpriu a missão divina da multiplicação e, com Laura já “mocinha ascendente”, encantou-se.

No campo banhado pelo córrego, a cada primavera de todo ano, as margaridas se misturavam com a Laura e as camomilas, viravam buquês perfumados nos vasos, muitos até sem água, levando a vida pela vida e pela eternidade.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A “SEGUNDA” REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Aquela negra alta e magra, sem a característica da bunda arrebitada tão comum nas mulheres de hoje, com uma cuia cheia de milho numa das mãos, cachimbo num canto da boca, ainda conseguia emitir um som que as galinhas, patas, galos, patos e perus conheciam como se fosse uma linguagem em cifras, entre eles:

– Ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti!

Em poucos segundos, Raimunda Buretama ficava rodeada de todas as aves que mantinha e fazia a criação meieira do quintal. Continuava rebolando mancheias de milho, ao tempo que espantava o galo, que esquecia do milho e tentava “abaixar” a pata, mulher de Nicolau, o pato.

Não era diferente com Francisca, a galinha poedeira, mãe de quase todos os pintos e frangos do quintal – tinha até um pinto com os pés diferentes, como se filho de pato fosse. E eu não tenho conhecimento para duvidar disso. Galo corno, seria o primeiro.

Francisca, assim era chamada, como forma de insulto da Vovó ao Vovô, “raparigueiro” de marca maior, com fama de gastador de trocados em troca de uns reles e fingidos carinhos. E, no local frequentado por Vovô, havia uma fuampa muito famosa – pelo atendimento interesseiro que dispensava aos fregueses. Vovó afirmava que era atitude de “galinha”. Daí o apelido que a penosa recebera, de “Francisca”.

Foto 1 – Francisca – a galinha especial

Sempre chamando a atenção pela pretensa “conversa” com as aves, o que Vovó pretendia, na verdade, era atiçar arenga com Vovô – que, amadurecido e sem nenhuma razão, pois andara mesmo mijando fora da bacia, nem se atrevia a dar um pio sequer. Se se metesse a enfrentar a véia, com certeza o castigo seria pior, pois passaria duas quarentenas sem “trocar o óleo”. E, quem vive no sertão, perereca não é “bicho” que se dispense.

Foto 2 – Nicolau – o pato maluco e tarado

Mas, aquele quintal não se reduzia apenas à Francisca, a galinha, tampouco ao “atiçamento arengal” de Vovó com Vovô. Havia outro personagem destacado naquela segunda edição da “Revolução dos bichos”, mesmo não sendo contada por George Orwell. Era Nicolau, o pato que nada mais era que uma mistura de tarado com maluco.

Foto 3 – Para provar que não temia ninguém Nicolau “pegou” Francisca

Nicolau entendia que, galinha, sempre será galinha. E, no sentido que os modernos usam hoje, essa palavra: ficar de galinhagem. Esquecendo o apelido de doido, e agindo mais como verdadeiro tarado, Nicolau esqueceu o milho jogado por Vovó, e foi “cloacar” com Francisca. Francisca, ansiosa e sentindo a falta de Artur, o galo Rei do Terreiro, espiando para Nicolau, não resistiu ao rosnar do maluco.

Vovó bem que tentou impedir aquele verdadeiro estupro, mas chegou atrasada. Exatamente quando Nicolau estava nos finalmente, e “desceu” de cima de Francisca batendo as asas como se pretendesse dizer: “finalmente, te peguei”!

E aquele conhecido ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti, continuava, com o milho sacudido dentro da cuia!

Aquela manhã ficaria marcada, realmente, como uma segunda “Revolução dos bichos”. E tudo acontecia exatamente na hora em que todos estavam soltos no quintal, comendo milho e bebendo água, ou, uns “comendo” os outros.

O quintal da Vovó sempre teve aves, e galinheiro. Mas, “galinhagem” não ocorria sempre – o que nos levava a acreditar que aquela manhã, em meio às cuias de milho e mais alguns ti-ti-ti, pê, ti-ti-tis, era revolucionário. Nunca houvera cornagem em meio aos bichos. Ainda que fosse uma manhã atípica.

Artur apareceu exatamente na hora que Nicolau, contando vitória e vantagem, sacudia as asas com ar de superioridade. Abriu as asas, fez aquele conhecido rodopio de asas abertas e deve ter pensado consigo mesmo:

– Vou dar o troco, e mostrar quem é o corno aqui.

Foto 4 – Artur na hora da vingança

Artur começou sua pretensa vingança bicando o chão. Bicou milho, cantou e procurou a terrina com água. Se serviu de umas “bicaradas” na água, e foi à luta. Disfarçadamente, esticando o pescoço, nada mais fazia que procurar Benevalda, a pata – por quem o maluco Nicolau nutria uma paixão enorme. Ciúme, era só o que ele sentia.

Não demorou muito, Artur conseguiu localizar Benevalda, distante dali uns 15 metros, caminhando “pateticamente” para a terrina d´água. Artur apressou os passos, alcançou Benevalda, e sem muita cerimônia, “crau”! Cravou Benevalda, esperou o relaxamento da cloaca, o que lhe garantiria a troca do óleo.

Vitorioso, sacudiu as asas, arrepiou-se todo e cantou!

– Corno é o escambau!

Mas, aquele dia literalmente revolucionário estava longe de terminar. Vovó já se recolhera para a camarinha e Vovô achava que ela teria ido buscar mais milho. Não foi. Foi verificar se todos os ovos estavam nas suas devidas cumbucas – pois o que vira naquela manhã no quintal, tinha tudo para que ela desconfiasse que não criava bichos aves. Criava verdadeiros “animais” – ainda que alguns tivessem recebido nomes de humanos.

Foto 5 – Assim fica difícil legendar e saber quem é o que

Quando Vovó continuava contando ovos dentro das cumbucas, Vovô assistia, incrédulo, uma cena para ele nunca vista. Sem que até hoje se tenha uma explicação em termos de “quem comia quem”, o cachorro Berimbau estava literalmente engatado com o galo Artur. Com certeza, um dos dois jogou água fora da bacia – mas, era apenas a confirmação de uma nova e moderna “Revolução dos bichos”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O ROLO DE FUMO E A PROSA NA CACHIMBADA

Rolo de fumo

Diferente da maioria dos outros estados brasileiros, o “falar cearense”, vez por outra enfeitado pela verve da comicidade, é tipo cartão de visita ou convite de apresentação. O que nem seria necessário, pois existe cearense morando até na lua. A NASA levou experimentalmente, um Pedreiro e um Servente de Pedreiro, com o objetivo de construir as primeiras vilas e realizar um teste de como alguém poderia sobreviver naquele mundo, sem ter certeza que existe água potável. E, sejamos sinceros, cearense é phoda nisso.

Sem deixar pegar vereda diferente na prosa, indo para a capoeira e nunca para o xópi, quero focar hoje o fumo. É o fumo que, no Brasil tem sua melhor fabricação nas Alagoas. É ali que se planta, se curte, se produz e vende – mas poucos fumam. É de lá que saem os rolos. Rolo de fumo. Mas, e o que tem o cearense com isso?

A verve cearense, muito antes de abolirem os primeiros escravos brasileiros, já apelidava o “negro” – e não o escravo – de “pau de fumo”. Também, nenhuma relação com o pênis avantajado da negrada. Nenhuma relação ofensiva ou humilhante. Pode até não haver carinho mas, com certeza para nós cearenses, “pau de fumo” vai muito além daquela mangueira com fumo enrolado ou com algo ofensivo ao afrodescendente.

Pois, foi com canivete feito de uma banda do Gillete Blue Blade, ou com uma peixeira de 25 polegadas sacada da bainha de couro, que vi pela primeira vez meu Avô cortando fumo para fumar no cachimbo – de barro.

Nas tardes de domingo, a paisagem nunca mudava: meu Avô, João Buretama sentado na latada, botando a prosa em dia com meu tio Antônio Luciano. Vez por outra, Vovó cortava a prosa e servia um café quente daqueles grãos torrado e pilado em casa. E a prosa continuava, mantida pelas cachimbadas.

Prosa na “cachimbada”

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O ZAP-ZAP DOS ÍNDIOS

Zap-zap indígena

Descoberto por conta do destino e da forte ventania que mudou o caminho para as índias, o Brasil, desde aquele “fatídico” 22 de abril de 1.500 convive com a mentira, aceitando-a como verdade. Tem quem afirme que, quando o Monte Pascoal foi avistado, de lá já saíam sinais de fumaça que os índios enviavam numa conversa por zap-zap com a tribo que vivia em Fernando de Noronha. Verdade ou mentira, fica o registro.

Longe dali, do outro lado do Atlântico, as mensagens “zapianas” entre os índios americanos do Alabama já existiam, avisando que o homem branco tentava invadir aquelas terras para construir o caminho do “cavalo de aço” (trem). Foi por conta disso que o chefe Cabeça de Touro organizou o primeiro levante naquelas plagas, e entregou o comando para Flecha Ligeira, aquele guerreiro que tirava a exibia os escalpos dos homens brancos.

Os anos se passaram, alguns hábitos mudaram, e outros nem tanto. O homem branco construiu e passou a usar o Cavalo de Aço que o levou em definitivo para novas terras. Fizeram avenidas, arranhas-céus, shopping centers e venderam parte dos direitos para a Samsung que fabricou os telefones celulares – a forma moderna do homem branco para enviar suas mensagens. Algumas mentirosas, tal qual aquela do dia 22 de abril de 1.500. A essas mensagens deram o nome de “fake news” – prova de que os índios americanos continuavam mandando seus sinais pela fumaça.

Junto com os sinais, os índios americanos exportaram também a linguagem. E é exatamente essa linguagem importada, que passamos a chamar de stand-up, que o cearense chama de baitolagem. Coisa de fresco, de queimador de rosca.

Por que, temos tanta vergonha de falar a nossa língua?

Que beleza existe em “dèjavu”? Em “monsieur”?

Ou, em mister, background, know-how, feed-back?

Imagine, o dia que Luiz Berto chegar em Palmares, e o ladrão da Roleta do Cu-Trancado começar a falar: “Mister and miss, make yours plays”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A SOLIDÃO INEVITÁVEL E O AMOR ETERNO

Idoso dando continuidade à vida

Era apenas o início de mais um dia, como tantos outros. Mas, o frege naquela casa fazia parecer que ninguém dormira – o barulho causado pela movimentação da preparação da filharada para começar mais um dia de trabalho e sustentação da roça. Era assim, na casa de Doroteu e Alice.

A casa, ainda desarrumada, tinha uma porção de quartos e camarinhas. Meninos e meninas dormiam no mesmo aposento, uns nus e outros vestidos, pois, maldade das ideias estava distante dali e todos se respeitavam.

Café servido e tomado. Tapiocas, cuscuz, leite de cabra, macaxeira cozida, batata doce e até carne assada faziam o “breakfeast” da família numerosa de Dodô de Alice – era assim que Doroteu, casado de papel passado com Alice, era conhecido por aquelas paragens. Guaiúba, mais precisamente. Hoje, Região Metropolitana de Fortaleza.

Eis que os tempos mudaram. Os meninos cresceram, casaram e tiveram que procurar seus destinos. As meninas não foram diferentes, embora Maria Alice, a caçula, tenha feito peraltices com alguém sem-futuro, no que resultou numa prenhês indesejada.

Todos da Guaiúba viram o crescimento e o esfacelamento natural daquela família. Eis que Maria Alice, por conta dos dotes físicos avantajados, não demorou muito para conseguir um novo interessado – que assumiria, também, o “bruguelo” que não era seu filho biológico. Mas, isso era o menos importante para quem pensava em “desfilar” pela cidade com aquele monumento de mulher.

Alice encantou-se. Com os filhos todos em novas vidas, o passar do tempo mostrou para Dodô de Alice, a solidão. Momento inevitável para quem vive. Por amor à quem lhe ajudou na construção da vida e da família, Dodô de Alice decidiu que sua cama seria transformada num catre, e não seria mais dividido com outra mulher. Reuniu os filhos e decidiu que a casa da Guaiúba seria de Maria Alice. E assim foi feito.

Dodô de Alice partiu para uma nova vida, não tão nova, porque solitária. Num terreno que ainda era parte da propriedade da família, nas proximidades do Açude Novo, resolveu fazer a sua própria moradia. Não demorou muito e, numa semana, um casebre foi erguido. Varas nas paredes sustentariam a rede armada. Um pote com água, era a única “mobília” decorativa do ambiente, com o enfeite de uma caneca de alumínio. Num canto, um fogão com “duas bocas” tocado a lenha, para cozinhar o feijão e o que mais houvesse.

Dodô de Alice ainda conseguiu superar aquela solidão que a vida lhe impôs, por pelo menos dez anos. Nesse período, em duas oportunidades teve a presença de alguns filhos e muitos netos – sempre no dia 29 de fevereiro, data do seu aniversário. Nesses dias, o almoço que regava o encontro, era organizado e servido debaixo de uma frondosa mangueira, onde ele, caprichosamente, esculpiu com um canivete, dois corações unidos pela flecha do cupido, com os dizeres: Dodô e Alice!

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A NUDEZ QUE A CHUVA DESENHAVA

Banho de chuva e o prazer dos olhares

Vila Pasteur, uma das três vilas que ficava na “Baixa da Égua”. Morador mais antigo daquela vila, Messias ao concluir sua moradia, lembrou de atender um pedido das crianças, e construiu no alto da frente da casa, um jacaré. É, um jacaré – que é como todos denominam aquela manilha de cerâmica colocada no alto e na frente da casa, para o escoamento das águas da chuva. É certo que as chuvas eram escassas, mas não custava nada atender o pedido das crianças.

O tempo passou, e mais vizinhos chegaram e construíram suas casas, separadas umas das outras por pequenos muros altos nas laterais e baixos nas frentes – forma de garantir a manutenção da amizade dos vizinhos.

As crianças de Messias, nascidas do ventre de Divanira, eram três: Carla, Ana Carla e Carla Ana. As três, chegaram para se juntar à Monalisa, fruto de outro relacionamento amoroso de Messias.

Monalisa era estudante universitária e pretendia, um deia, se tornar Odontóloga. Em casa, preferia os livros, principalmente os didáticos relacionados à sua futura profissão.

Os “meninos e os homens” da vizinhança afirmavam que, Monalisa, se fosse possível fazer uma comparação, nada ficaria devendo à Sônia Braga, nos mais tentadores anos da juventude da atriz, que a televisão e as telas do cinema mostraram para nosso deleite.

Perfeita, a Natureza às vezes impõe castigos aos humanos. Houve tempo em que chuva era algo raro naquela Vila Pasteur. Ainda bem que, quando chovia, chovia forte e por vários minutos. Permitia um bom banho debaixo do jacaré da casa de Messias – um prêmio para os meninos e a confirmação para os rapazes, de que, “quem espera, sempre alcança”.

Vestida de chitão e uma minúscula calcinha, Monalisa, como qualquer deusa, se punha a banhar debaixo daquele jacaré. Nenhum rapaz aparecia (todos, literalmente todos, se escondiam atrás das portas e janelas), para ver Sônia Braga no corpo de Monalisa. Quanto mais chovia, mais o vestido colava no corpo, desenhando e esculpindo a beleza natural de uma fêmea.

Distantes, todos torciam para que Monalisa “lavasse o cabelo”, pois significaria demorar mais tempo debaixo do jacaré, expondo uma nudez que só a imaginação consegue desenhar e descrever. Muitos caíam em depressão, quando a chuva parava, acabando com o privilégio. Sem que se soubesse definir, se nua ou molhada, Monalisa, após deliciar os olhares dos rapazes, entrava rápido. Eu, como se dirigisse uma cena de um filme, digo: corta!