JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Aquela negra alta e magra, sem a característica da bunda arrebitada tão comum nas mulheres de hoje, com uma cuia cheia de milho numa das mãos, cachimbo num canto da boca, ainda conseguia emitir um som que as galinhas, patas, galos, patos e perus conheciam como se fosse uma linguagem em cifras, entre eles:

– Ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti!

Em poucos segundos, Raimunda Buretama ficava rodeada de todas as aves que mantinha e fazia a criação meieira do quintal. Continuava rebolando mancheias de milho, ao tempo que espantava o galo, que esquecia do milho e tentava “abaixar” a pata, mulher de Nicolau, o pato.

Não era diferente com Francisca, a galinha poedeira, mãe de quase todos os pintos e frangos do quintal – tinha até um pinto com os pés diferentes, como se filho de pato fosse. E eu não tenho conhecimento para duvidar disso. Galo corno, seria o primeiro.

Francisca, assim era chamada, como forma de insulto da Vovó ao Vovô, “raparigueiro” de marca maior, com fama de gastador de trocados em troca de uns reles e fingidos carinhos. E, no local frequentado por Vovô, havia uma fuampa muito famosa – pelo atendimento interesseiro que dispensava aos fregueses. Vovó afirmava que era atitude de “galinha”. Daí o apelido que a penosa recebera, de “Francisca”.

Foto 1 – Francisca – a galinha especial

Sempre chamando a atenção pela pretensa “conversa” com as aves, o que Vovó pretendia, na verdade, era atiçar arenga com Vovô – que, amadurecido e sem nenhuma razão, pois andara mesmo mijando fora da bacia, nem se atrevia a dar um pio sequer. Se se metesse a enfrentar a véia, com certeza o castigo seria pior, pois passaria duas quarentenas sem “trocar o óleo”. E, quem vive no sertão, perereca não é “bicho” que se dispense.

Foto 2 – Nicolau – o pato maluco e tarado

Mas, aquele quintal não se reduzia apenas à Francisca, a galinha, tampouco ao “atiçamento arengal” de Vovó com Vovô. Havia outro personagem destacado naquela segunda edição da “Revolução dos bichos”, mesmo não sendo contada por George Orwell. Era Nicolau, o pato que nada mais era que uma mistura de tarado com maluco.

Foto 3 – Para provar que não temia ninguém Nicolau “pegou” Francisca

Nicolau entendia que, galinha, sempre será galinha. E, no sentido que os modernos usam hoje, essa palavra: ficar de galinhagem. Esquecendo o apelido de doido, e agindo mais como verdadeiro tarado, Nicolau esqueceu o milho jogado por Vovó, e foi “cloacar” com Francisca. Francisca, ansiosa e sentindo a falta de Artur, o galo Rei do Terreiro, espiando para Nicolau, não resistiu ao rosnar do maluco.

Vovó bem que tentou impedir aquele verdadeiro estupro, mas chegou atrasada. Exatamente quando Nicolau estava nos finalmente, e “desceu” de cima de Francisca batendo as asas como se pretendesse dizer: “finalmente, te peguei”!

E aquele conhecido ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti, continuava, com o milho sacudido dentro da cuia!

Aquela manhã ficaria marcada, realmente, como uma segunda “Revolução dos bichos”. E tudo acontecia exatamente na hora em que todos estavam soltos no quintal, comendo milho e bebendo água, ou, uns “comendo” os outros.

O quintal da Vovó sempre teve aves, e galinheiro. Mas, “galinhagem” não ocorria sempre – o que nos levava a acreditar que aquela manhã, em meio às cuias de milho e mais alguns ti-ti-ti, pê, ti-ti-tis, era revolucionário. Nunca houvera cornagem em meio aos bichos. Ainda que fosse uma manhã atípica.

Artur apareceu exatamente na hora que Nicolau, contando vitória e vantagem, sacudia as asas com ar de superioridade. Abriu as asas, fez aquele conhecido rodopio de asas abertas e deve ter pensado consigo mesmo:

– Vou dar o troco, e mostrar quem é o corno aqui.

Foto 4 – Artur na hora da vingança

Artur começou sua pretensa vingança bicando o chão. Bicou milho, cantou e procurou a terrina com água. Se serviu de umas “bicaradas” na água, e foi à luta. Disfarçadamente, esticando o pescoço, nada mais fazia que procurar Benevalda, a pata – por quem o maluco Nicolau nutria uma paixão enorme. Ciúme, era só o que ele sentia.

Não demorou muito, Artur conseguiu localizar Benevalda, distante dali uns 15 metros, caminhando “pateticamente” para a terrina d´água. Artur apressou os passos, alcançou Benevalda, e sem muita cerimônia, “crau”! Cravou Benevalda, esperou o relaxamento da cloaca, o que lhe garantiria a troca do óleo.

Vitorioso, sacudiu as asas, arrepiou-se todo e cantou!

– Corno é o escambau!

Mas, aquele dia literalmente revolucionário estava longe de terminar. Vovó já se recolhera para a camarinha e Vovô achava que ela teria ido buscar mais milho. Não foi. Foi verificar se todos os ovos estavam nas suas devidas cumbucas – pois o que vira naquela manhã no quintal, tinha tudo para que ela desconfiasse que não criava bichos aves. Criava verdadeiros “animais” – ainda que alguns tivessem recebido nomes de humanos.

Foto 5 – Assim fica difícil legendar e saber quem é o que

Quando Vovó continuava contando ovos dentro das cumbucas, Vovô assistia, incrédulo, uma cena para ele nunca vista. Sem que até hoje se tenha uma explicação em termos de “quem comia quem”, o cachorro Berimbau estava literalmente engatado com o galo Artur. Com certeza, um dos dois jogou água fora da bacia – mas, era apenas a confirmação de uma nova e moderna “Revolução dos bichos”.

16 pensou em “A “SEGUNDA” REVOLUÇÃO DOS BICHOS

  1. Caro José,

    Desta vez você foi ainda mais genial. Essa crônica deverá ir para os anais da Academia Mundial de Letras.

    • Carlos Eduardo: diante de tanto respeito, só me resta agradecer o comentário amigo. Que Deus continue nos protegendo a inspirando.

      • A NATUREZA SURPREENDE
        É ISSO QUE NÓS ACHAMOS
        TRAZIDOS POR JOSÉ RAMOS
        ESSAS COISAS AGENTE APRENDE
        A ADMIRAÇÃO SE ACENDE
        FICO SURPRESO PORÉM
        SEM SER O HUMANO QUEM
        FAZ ESSA REVOLUÇÃO
        TUDO ISSO É DIVERSÃO
        E SAFADEZA TAMBÉM

        ABRAÇO COM GELO ENXUTO

        • Valdeir: se eu puder fazer algo além de agradecer, diga que eu faço. Ó, sei fazer beiju e cuscuz! Mas, só faço para o meu café! Kkkkkkkk

  2. Bom dia ZéRamos! Hoje você está simplesmente “pornô”, sua cronica de domingo, como sempre, esta linda e divertida. Não abro mão desta leitura. Bom domingo amigo!

    • Marcos, obrigado amigo. Nossas andanças pelos rios Banabuiú, Jaguaribe e Cedro nos garantem a inspiração para nunca sair do nascedouro. Lugar bom de nascer, e morar.

  3. Desta feita você foi ainda mais “felomenal” (beijo grande aí no céu, Jose Wilker) e vai ganhar 5 arre égua (arre égua, arre égua, arre égua, arre égua), ops, faltou um. Fico devendo para a próxima.
    O que mais dizer? Un placer encontrarte, leerte y aspirar cada una de tus letras, amigo ZéRamos.
    E Sancho hoje está beijoqueiro e tasca 10 beijos estalados em vosso coração.

      • Sancho: Vovô era um sacana. Os trocados, em vez de nos dar para guardarmos nos cofrinhos de barro (porquinhos), ele dava mesmo era para as fuampas! E as “Franciscas” sequer passam a mão naquilo!

    • Sancho: vou agradecer com mil arre éguas: “1.000arre éguas”! Comentário pra lá de bom, maxo réi! Um beijo!

  4. Boa leitura para qualquer dia . Inclusive domingo de quase eterna quarentena .
    Pato pegando galinha não é estranho , mas alguém no ponto de ônibus lotado perguntar : Tio é normal o pato pegar a galinha ? , …………………….onde enfiar a cara com todo mundo olhando?.
    Mas a meio século atrás , tínhamos quintal com várias plantas , flores , cão e aves. Vi galinhas chocando , pata também , tínhamos até porco , logo proibido pela prefeitura . Tudo era mais bonito. Meus filhos nasceram e cresceram sem nada disto verem. Sou saudosista sim , por isto já escrevi aqui um dos livro que mais gostei : Saudade , escrito por Tales de Andrade. Mas o pior é que quando mijamos fora do penico , todos censuram . Censurem este pato agora !. Multem o pato por comportamento impróprio o José Ramos paga !.

    • Joaquim: apois num é Seu Quincas! Você me fez lembrar um fato que, com certeza, marcou o início de outras situações. Morava eu no Rio de Janeiro, mais propriamente em Campo Grande, Zona Oeste da cidade. Numa manhã de sábado, a mãe levou o filho à passear e, provavelmente aproveitou para comprar o almoço do dia. Entrou num local onde frangos eram abatidos e pediu ao vendedor que ele mostrasse um frango grande, ainda vivo. No exato momento que o vendedor pegou o frango pelas asas, paras mostrar, o bicho “cagou”. Pois não é que o menino abriu um berreiro danado, praguejando e dizendo que não queria comer aquele bicho que “cagava”. Infelizmente, Joaquim, o mundo de hoje é assim. E, não sejamos crápulas: nós que o fizemos e continuaremos fazendo.

  5. *quando vejo uma sequência que é melhor do que o original (este, uma crítica social, seguida de uma “animal porn-comedy”)*

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