JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A “parteira” e o bebê

Tudo tem seu começo, meio e fim. Tudo que tem vida passa por essas escalas da Natureza. O ciclo vital.

Menino ainda, sem conhecer o prazer de fazer e a alegria de ver nascer, levei algum tempo para entender a “diferença” entre o sentar à mesa para uma refeição em família, e o entrar na camarinha para ver uma criança nascendo.

Era assim naquele tempo que está distante. Só permaneceu na memória e na poesia da saudade. E, da mesma forma, era ali naquele não ter nada de nosso, que a Fé semeava a esperança para nos premiar com a colheita de dias melhores. Cada criança que nascia, era a forma prática da colheita da esperança.

O choro era o bom anúncio do resultado daquela torcida empurrada pelos “força”, mais “força”, tá nascendo. Aguenta firme!

Antes, o cenário mostrava uma bacia de ágata com água quente e uma jarra com água fria para a necessidade de “esfriar um pouco”. Uma tesoura com pouco uso, mas muito antiga, era o único instrumento cirúrgico usado por Dona Tina (Esmerantina Costa), madrinha e comadre de quase todas as famílias daquele povoado. “Parturiou” quase todas as mulheres e aparou quase todas crianças que ali nasceram.

Bacia de ágata usada na assepsia do recém nascido

– É um menino!

Um anúncio feito em estridente grito por Dona Tina, encerrava a expectativa do nascimento de mais um rebento, ornamentado pela possibilidade de boa saúde da criança e da mãe. O futuro não lhes pertencia – mas, naquele instante, era reforçado pela esperança semeada pela Fé, de que tudo seria só felicidade.

A tesoura que cortava o cordão umbilical – nunca se teve notícia de infecção

O corte e a sutura do cordão umbilical acompanhado pela imersão na água para a assepsia, coroavam o trabalho de parto de Dona Tina em “Donana” (Ana Beatriz) que, automaticamente, se transformava em “Comadre Tina”.

Abraços e parabéns e a primeira mamada da nova mãe. Sem charutos nem champanhes, na cozinha o furdunço era intenso na preparação do enorme pato “cevado” especialmente para aquele momento de alegria.

– “Donana” num pode cumê pato, gente!

Era o principal conselho da agora Comadre Tina. A solução era abater aquela galinha, também cevada com carinho para a oportunidade. Por três dias, só “Donana” comeria daquela galinha de parida. Mas, o que ela mais gostava era de beber o caldo.

Três ou quatro mulheres preparavam o “dicumê festivo”, enfeitado e reforçado por uma paçoca de castanha de caju com charque, as duas socadas num pilão batido a quatro mãos. A paçoca substituía a farinha seca – mas continha parte dela. O arroz colhido na pequena roça fazia parte de tudo. Torrado e pilado, além de posteriormente lavado e escorrido na “arupemba”. Tinha sabor especial. Aquele gostinho de queimado sem ser “queimado”.

O pato que pagava o pato

– Já mataro o pato?

Era a pergunta feita por Comadre Salustiana, convidada especialmente para comandar a cozinha naquele dia – por conta dos trabalhos de parto de “Donana”.

– Inda não!….. respondeu Abigail, ocupada em preparar a paçoca no pilão.

– Apois adindonde que tá o danisco?

Quis saber Salustiana, já portando uma faca e uma bacia com um pouco de vinagre.

– Tá ali, amarradim, o coitado! Respondeu toda pesarosa Abigail.

Com tantas auxiliares naquele dia especial, preparar o almoço para alguns convidados não era tarefa difícil. Parto feito, pato abatido e comida a caminho da mesa. Sangrar o pato, cortar e fazer o molho pardo, naquele lugar parecia ser muito mais fácil que fazer um parto. O parto é a primeira etapa e o pato a consumação.

Pato ao molho pardo

Chegava a hora do servir. Salustiana serviu às crianças (a mim, inclusive) e mandou que fossem para o alpendre da casa. Quem quisesse mais, poderia vir pedir.

Finalmente, a oração. Oração pela chegada de mais um rebento com saúde. Oração pela pronta recuperação da mãe – já em preparativos para daqui a dois meses começar a fazer mais um. Era assim que a coisa era naquele interior cearense.

Almoço comido. Todos alegres e satisfeitos. Agora era esperar o café, mas quem quisesse ir embora ficava à vontade.

– Compadre Augusto, vosmecê aceita batizar meu menino?

– Depende compadre. Cuma é o nome que vosmecê quer botar nele?

– “Getúio”, compadre!

– Eita meu compadre! Bom nome. Bem escoído. Nome de Presidente da República!

12 pensou em “O PARTO E O PATO

  1. Parabéns pela bela crônica, prezado escritor José Ramos!
    Lembrei-me dos costumes de antigamente, quando em Nova-Cruz (RN), a parteira oficial, que fazia os partos de minha mãe era Dona Maria Gorda. Ela morava fora da cidade e meu pai ia buscá-la, seguindo a linha do trem, num “trole” da rede ferroviária, quando minha mãe sentia que a hora de parir estava prestes a chegar..
    Eu, criança, ficava de pescoço troncho, olhando pro céu, esperando pela cegonha. Essa cena descrita por você, onde estavam presentes a bacia de ágata, água quente e a tesoura, também aconteceu, várias vezes, na nossa casa.
    Fiquei emocionada com o seu texto e já li diversas vezes.

    Grande abraço, querido amigo! Um ótimo domingo!

    Violante Pimentel Natal (RN)

  2. Agora era esperar o café, mas quem quisesse ir embora ficava à vontade.
    Sancho está a esperar o cafézim e vai levar as penas do pato para trocar o enchimento do meu travesseiro, que já tá todo poído. Isso se cumpade Zé Ramos permitir.

    • Sancho: lá nim casa a gente usava dos patos, as tripas prumode fazer fritura e farofa e algumas penas prumode fazer “peteca”! Tempos que não voltam mais.

  3. Belíssima crônica, caríssimo Zé Ramos.

    As reminiscências interioranas só nos trazem lembranças boas, saudáveis, de uns tempos que não voltam mais.

    Voltam sim, na pena magnífica do grande cronista!

    Parabéns!

  4. Minha madrinha Lourenciana, foi a parteira mais famosa de minha região, lá no sul das Gerais, nos anos trinta, quarenta e cinquenta. Tinha como ferramenta de trabalho, suas rezas , sua tesoura solingen ,um vidro com azeite de purga, um pouco de fumo picado e picumã. Que Deus a tenha na sua Santa Glória ! Sr Zé Ramos, obrigado por nos reavivar antigas lembranças que ficaram nas brumas do tempo.

    • Paulo, quem agradece sou eu pelo comentário. Me chamou atenção o nome da senhora sua madrinha: Lourenciana. Quantos nomes diferentes dos de hoje tínhamos, né não? Epaminondas, Emerenciana, Gertrudes, Policarpo, etc. Nem duvido que em breve apareça alguém com o nome Smartphone na tendência de americanizar tudo.

      • Falando em Lourenciana… Meu tio chamava-se Lourencinho. Pensei que era Lourenço, mas (certificado mas), lá na certidão de casamento do cabra estava lá Lourencinho Lebre. Deus o tenha na sua Santa Glória !

  5. Coisa genuinamente nossa. Mestre Zé Ramos.

    O retrato fiel de um tempo, de um povo, de uma vida. Um documento para memória.

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