JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A lágrima salgada da saudade

Há horas que a saudade me faz sangrar. É um sangue incolor, salgado, esfumaçado, doído, como se extraído a fórceps. Dói demais!

É uma saudade danada! Saudade de ti, de mim, de nós!

Saudade do que fui, sem querer ser. Saudade do que poderia ter sido, e não fui!

Saudade até de quando eu for!

Dói!

Saudade do vento, do amanhecer e do sol quente que me fazia suar e do suor que me fazia chorar, sentindo saudade de ti.

Dói muito!

Saudade daquela noite em que quase nos entregamos, e das lágrimas que chorei por te perder!

Saudade do teu sorriso na manhã seguinte.

Saudade do ontem. Do hoje e do amanhã, que um dia será hoje e depois será ontem.

Saudade do menino que fui e do velho que serei. Saudade de mim, de ti, de nós!

Dói e corta fundo!

Saudade das nuvens que eram minhas. E daquelas que eu não tinha!

Saudade dos caminhos, das trilhas, das veredas e das estradas por onde andei.

Saudade da minha infância. Da bila, do pião, da cachuleta, da arraia, do corrupio, e das estórias construídas e contadas em castelos de ventos e de areia.

Saudade das arapucas armadas e dos sabiás pegos. Saudade dos sabiás comidos e até dos que conseguiram fugir. Parabéns sabiás! Tomara não sintam saudades de mim.

Saudade – Pablo Neruda

Saudade é amar
Um passado
Que ainda
Não passou.
É recusar
Um presente
Que nos machuca,
É não ver
O futuro
Que nos convida.

Saudade do futuro. Saudade de tudo e até do que eu nunca vi.

Saudade da paz que eu quero ter e da que eu nunca tive.

Saudade grande. Dói!

Mas, a maior saudade é de ti. De mim. De nós!

25 pensou em “SAUDADE!

  1. Mas, a maior saudade é de ti. De mim. De nós!
    Ser fubânico é phodda. É ter que chorar de rir com os engraçadinhos que publicam coisas lindas por aqui e rir chorando pela maestria deste texto de Zé Ramos, que nos fez parar de enxugar gelo para enxugar lágrimas. Pô Zé, um bilhão de arre-éguas pra ti, amado irmão de escrita:
    (1.000.000.000arre-éguas).

  2. ZéRamos, hoje tú tá arretado maxo véi, êta saudade da gôta serena e digo mais, me senti incluido nesta sua linda “sofrência”. Bom domingo!

    • Marcos, a saudade é de tudo, amigo. Lembro de quando eu ia para a “Praia do Náutico” (Meireles) e alugava um calção de banho para entrar no mar. Coisa engraçada que hoje não existe mais; saudade de sorver um vinho com tanto prazer, que a marca ou a procedência nunca interessava. O que interessava era o momento, no Bar Caravelle, ao som de um bem tocado piano. Saudade do café da tarde com pão quentinho (a gente chamava “pão d´água”!). Saudade do vento, na frente do São Luiz, levantando as saias das nossas Marylin Monroe. E aí eu repito: saudade de mim, de nós!

  3. Querido amigo, Escritor José Ramos:

    Este emocionante poema em prosa lavou a minha alma, como se eu tivesse externado tudo o que eu sindo de saudade, quando olho para o retrovisor do tempo e para a perspectiva do futuro.
    O tempo é inexorável e nada como ele, para passar.
    A saudade dos tempos idos e vividos, uma vez por outra, nos visita. mas é gratificante, ter coisas boas para recordar. A saudade é inevitável…

    Grande abraço! Feliz domingo!
    .

    • Violante amiga, muito obrigado. Somos humanos e a saudade é um sentimento sentido pelos humanos. Dói, mas às vezes alegra.

    • Lindomar: é bom rir e é melhor ainda, chorar. Que as duas ações sejam sempre por conta da alegria. Agradecido, parceiro.

        • Confesso!!! Chorei e estou muito agradecido. A peste do JBF tem poder com os SUPERPESTES dos Colunista da melhor gazeta das GALAXIAS!!!

          • Lindomar, que poderia ser Castillo (ou Carrilho?) tudo isso é mérito do Papa Berto – o único ser vivente “honesto” que consegue ganhar no jogo da Roleta do Cu-Trancado, a maior roubalheira que existe em Palmares com a bênção do LIdaS. (Luiz Inácio da Silva!!!!)

        • Airton, rir e chorar sempre é bom e faz de nós seres humanos. Agora, mais mió mesmo, é “gemer”. Gemer sem sentir dor, né não?! Eu erea bom de gemido, siô! Chega cafungava!

  4. ” Seu Zé Ramos” como o vinho, cada dia ou ano que passa, o senhor está ficando “mio”. Eu também já tive nuvens, passageiras é claro, mas, também deixaram muita saudades.

  5. Mestre José de Oliveira Ramos,

    Parabéns pelo belíssimo poema em prosa. Gostei demais da conta da sua reflexão sobre a vontade de ver de novo. Só uma inspiração tão grande é capaz de transmitir em palavras toda beleza da saudade. Aproveito a oportunidade para compartilhar uma sexrilha sobre a saudade o poeta e repentista Rubens do Valle com o prezado amigo;

    Saudade é minha modelo
    No tédio da passarela
    Por consolo tenho a lua
    Que é quem me serve de vela
    E a boca do vento dando
    Sopros com o cheiro dela.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • Aristeu: ninguém, com certeza, nunca viu abelha afogada no próprio mel. Vocês neste JBF me adoçaram. Estou querendo voltar ao transporte do pólen e estou “afogado” na doçura das palavras dos amigos.

    • AAA: A de amigo, A de amor e A de arre égua como se fora um jumento carregado de açúcar. Agora, mais um A. A de agradecido!

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