JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ÉRAMOS FELIZES – E SABÍAMOS DISSO!

Os meados da década de 40, reforçados pelos anos 50 e o começo dos anos 60, foram os que mais formaram e qualificaram mão-de-obra no Brasil. Dois ícones qualitativos e pódios mais altos desejados por aqueles que, naqueles tempos pensavam apenas em constituir e construir família. Infelizmente, o modernismo e a tecnologia, num somatório, não se pode apostar em algo positivo.

Os pais que conseguiam vagas para matricular os filhos no SESI ou no SENAI, onde aprendiam e se especializavam verdadeiramente na profissão, se consideravam ganhadores de loteria. Era um prêmio à família, aprender Mecânica, Tornearia, Funilaria e muitas profissões que significavam verdadeiras cartas de alforria daqueles tempos.

Eu, só consegui ter uma profissão definida, na década de 80. Antes, fui de fabricante de sacos de papel para vender peixes, vendedor de cocadas, vendedor de “filhóis” e até Caixeiro de bodega – e foi ali que descobri que, 1 Kg só continha 850 gramas. Arre égua!

Aprendi “Dactilografia” e me aproximei de ser Auxiliar de Escritório. Dali, trabalhei como Teletipista na Western, onde aprendi transmitir e receber cabogramas – foi, também, quando pela primeira vez me tornei sindicalista. Foi ali, também, onde fiz a primeira grande besteira da minha vida, enveredando pelos caminhos da ideologia política. E isso me fez desistir de assumir uma aprovação num concurso para o Banco do Brasil – apenas por que o salário recebido na Western era melhor.

Foi essa lembrança, que me encaminhou para a matéria da coluna de hoje. “Antigas profissões”, que eram uma garantia contra o desemprego. Hoje, entendo eu, não há “desemprego”. O que há, realmente, é muita gente sem qualificação profissional. Todos querem ser Advogados ou todos “abrem” uma Farmácia.

No final da década de 60, já morando no Rio de Janeiro, conheci até algumas famosas agências de emprego. A TéD, era uma das mais prestigiadas e respeitadas, haja vista que, antes de encaminhar qualquer candidato a um emprego para a empresa com quem mantinha contrato, testava e até treinava o futuro empregado.

Agências de empregadas domésticas mantinham cadastros de “empregadas” e de “patrões”, incluindo referências de quem se candidatava. Esse item, hoje, é conhecido como “Diarista”.

Vamos ver profissões antigas que, se ainda não sumiram, estão a caminho:

O OURIVES

Ourives

Ourives é aquele que trabalha com ourivesaria (homem ou mulher – mas, é raro conhecer alguma mulher trabalhando nessa profissão) e ainda hoje existem profissionais em pequena escala. Profissão que existia há 2.500 anos antes de Cristo. Comprovação feita, segundo descobertas de peças trabalhadas com esmero, encontradas em sítios arqueológicos no mar Egeu.

A profissão de Ourives ainda é bastante comum, ainda que sem a mesma procura e valia de antigamente. A arte da ourivesaria é considerada uma das profissões mais antigas do mundo.

Atualmente, existem as chamadas “Casas de Ourives”, que costumam fazer consertos em joias ou ornamentos, em quase todas as cidades do mundo.
Mas, como tantas profissões, o “Ourives” está desaparecendo com o passar dos tempos.

O FERREIRO

Ferreiro

“O Ferreiro é uma pessoa que cria objetos de ferro ou aço forjando o metal, ou seja, através da utilização de ferramentas como fole, forja, bigorna, martelos, dobra e corta, e de outra forma moldá-la na sua forma não-líquida. Geralmente o metal é aquecido até que brilhe vermelho ou laranja, como parte do processo de forjamento. Ferreiros produzem coisas como portões de ferro forjado, grelhadores, grades, lustres, luminárias, mobiliário, esculturas, ferramentas, implementos agrícolas, religiosos e objectos decorativos, utensílios de cozinha, e armas.

Durante a Idade Média era comum a imagem do ferreiro da aldeia, responsável por praticamente toda a metalurgia do feudo ou povoado. Sendo que muitas vezes, nestes tempos, o ferreiro se tornara sinônimo de forjador de armas, já que era função dele fabricar as armas (espadas, lanças, machados, etc.) utilizados pelos soldados da época.

Com a revolução industrial, a partir do século XVII, o oficio de ferreiro foi gradualmente sendo substituído pelas indústrias metalúrgicas, sendo que a profissão sobrevive até hoje apenas em regiões menos desenvolvidas e/ou para a forja de objetos com finalidade principalmente decorativa.

Acredita-se que a profissão de ferreiro exista desde quando o homem aprendeu a manipular e moldar os metais (em torno de 2000 a.C.), sem grandes distinções até os tempos atuais.” (Fonte: Wikipédia)

Nos dias atuais, o Ferreiro quase não existe. É um trabalhador raro de ser encontrado, haja vista que, grande parte dos objetos da linha, são fabricados pela indústria pesada. A continuação da vida (que estou me negando a rotular de “evolução”), deixou um pouco de lado esse profissional. Antes, no começo deste século, portas, portões, basculantes, janelas, etc., estavam sendo fabricados pelo mesmo profissional, agora, estranhamente rebatizado de “Serralheiro” – o que acabou se tornando definitivo, com a chegada e o uso do alumínio em grande escala na confecção de muitos itens, antes fabricados exclusivamente com o ferro.

O MARCENEIRO (OU CARPINTEIRO)

Marceneiro ou Carpinteiro

Há quem afirme, que São José era Carpinteiro, prática que evoluiu e foi reconhecida como profissão. Na profissão, São José teria tentado iniciar Jesus Cristo, fabricando alguns utensílios domésticos. Foi então, que apareceu a Marcenaria, cujo profissional é rotulado de Marceneiro. São profissões próximas, dependentes, mas não iguais.

“A Marcenaria – O marceneiro trabalha exclusivamente na fabricação, conservação, reparação de móveis, além de outros objetos de decoração a base de madeira. Por isso, podemos dizer que o trabalho do marceneiro é mais artesanal e delicado se comparado a carpintaria.

O marceneiro para o desenvolvimento de seu trabalho utiliza de técnicas exclusivas e ainda conta com matéria-prima nobre e de qualidade, pois os móveis e enfeites devem ser feitos com madeiras de boa qualidade.

Vale lembrar que a marcenaria se derivou da carpintaria, adequando algumas técnicas para melhor desenvolvimento de seus produtos. O marceneiro durante muito tempo foi considerado um artesão de móveis, no entanto, hoje, com os avanços da tecnologia, seu trabalho foi reduzido devido a indústria moveleira que utiliza em suas fábricas, máquinas.

A Carpintaria – A carpintaria costuma trabalhar essencialmente com madeira maciça em seu estado natural, comum na construção civil e naval. Os carpinteiros, necessitam de conhecimentos geométricos e precisão técnica, precisam ter conhecimento dos diferentes tipos de materiais e técnicas a serem utilizadas naquele tipo de madeira. Está é uma das principais diferenças entre marceneiros e carpinteiros.

A carpintaria é uma das profissões mais antigas e abrange uma série de trabalhos, tais como: escadas, portas, soalhos, telhados e até obras de menor dimensão mais comum na construção naval.” (Fonte: Wikipédia)

O ESTIVADOR

Estivador

Passados dois ou mais séculos, muita coisa (e profissão) mudou de conceito. Passou a receber o apoio da tecnologia, e teve o reconhecimento dos legisladores, que criaram e aprovaram leis determinantes no exercício de cada profissão. O Estivador, no princípio, nada mais era que o reles “carregador de sacos, volumes de diferentes pesos, e, quase sempre, em situações desfavoráveis” para muitos.

Há quem afirme que, tudo dependia do “pouco estudo, muito mais do que da força física”, sem que também tivesse qualquer aproximação com a cor da pele – muitos estivadores, no passado, eram negros.

“Hoje, o Estivador é o técnico responsável pela colocação, retirada e/ou arrumação de cargas nos porões, ou sobre o convés de embarcações principais e auxiliares, autopropulsadas ou não. O Estivador é imprescindível para execução do transporte marítimo, ficando encarregado da movimentação e sinalização para o movimento de cargas e equipamentos a bordo.

Normalmente, confunde-se o Estivador com outras classes de operários do porto: o Estivador só trabalha a bordo, e nunca em terra. Quem fica sobre carretas ou vagões do lado de fora é o Arrumador de cargas; Quem opera as pranchetas e anotações é o Conferente; Quem opera os guindastes de terra, são os portuários (Estivador não opera guindaste, opera guincho, pois o guincho é acessório do veículo de transporte).

Hoje em dia, grande parte desta atividade está automatizada. Mesmo assim, é considerado um trabalho perigoso, insalubre e estressante, já que as condições de trabalho quase sempre não são boas, podendo ocasionar acidentes. Até a primeira metade do século XX, cabia aos estivadores a tarefa de embarcar a carga nos navios transportando parcelas dela nas costas, frequentemente embaladas em sacos de 60 quilos.” (Fonte: Wikipédia).

O CAÇADOR DE RATOS

Caçador de ratos

Como pode ser facilmente percebido pelos leitores, algumas informações sobre profissões antigas que continuam existindo ou não, foram compiladas na Wikipédia, fruto de pesquisa que acabou me atualizando, e levando a conhecer mais um pouco do desconhecido.

E, nessa “pesquisa”, consegui encontrar duas “profissões” que, hoje podem ser consideradas estranhas: o Caçador de ratos, e o Despertador humano.

O Caçador de ratos, que também os abatia, era empregado da gestão pública nos séculos passados, em lugares que não dispunham de saneamento básico nas principais ruas e logradouros. Como o mundo era outro, pouco ou quase sem contaminação, os ratos caçados e mortos, eram colocados livremente à venda. É os ratos mortos eram vendidos (e, creio eu, consumidos).

Dizer que a profissão foi extinta é desprezar os agentes antipraga, ou dedetizadores modernos. Em certos casos, são chamados exclusivamente para exterminar ratos, mas, no passado, era comum contratar os serviços de caçadores de roedores que, com seu equipamento e know-how, entravam em sótãos, porões, bueiros, sistemas de esgoto, atrás dos temíveis ratos. Durante a Primeira Grande Guerra, com a escassez de alimentos, os especialistas encontraram uma segunda fonte de renda, comercializar os ratos para serem comidos.

O Despertador humano, é uma antiga profissão, totalmente extinta. O trabalho consistia em despertar alguém mediante contrato. O contratante assinava um termo de serviço com o(a) contratado(a), indicando, além do horário, o endereço residencial. Para não incomodar a vizinhança, o que poderia caracterizar perturbação do silêncio e do descanso, o Despertador humano trabalhava com objeto que poderia ter o tamanho do alcance aumentado ou diminuído, conforme a necessidade de atendimento apenas ao contratante. O objeto era uma espécie de corneta.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TRANSPOSIÇÃO QUE VIROU TRANSFUSÃO

Ou, “Uma ponte de safena nas veias da vida”

Água que alimenta a vida no planeta

Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.

Patativa do Assaré

Dia histórico, o 26 de junho de 2020. A fome, que noutros tempos matou muita gente, naquele dia recebeu o “tiro de misericórdia”, e anteviu a transformação dos campos e roçados esturricados em pastagens verdejantes convidando para o trabalho e o plantio.

Incontáveis as vezes que, desesperados, saíamos de foice na mão e cabaça no ombro, à procura d´água.

Os açudes, no barro esturricado, nos obrigavam a procurar água noutros lugares. A saída era o cipó da mucunã (cuja semente, em outros lugares é conhecida como “olho de boi”), onde a Natureza divina deposita no seu âmago uma pequena e saudável reserva.

Cipó de mucunã

Distante de algum dia ser uma “torneira”, o cipó é algo muito além da vida. Água saudável e, dizem, medicinal. Mas, por vezes, é apenas o líquido que abastece a ansiedade e mata a necessidade do corpo humano.

Às vezes o “segredo” está na forma de cortar

Não é “qualquer um” que encontra e identifica o cipó d´água. É necessário vivência e, mais ainda, precaução na hora de verificar e tentar cortá-lo. Não é raro encontrar cobras venenosas enroladas e camufladas nos cipós.

A vida do sertanejo passa por todo esse tipo de perigo – e, sempre para suprir uma necessidade vital.

Assim, que importância tem o fato de descobrir “quem idealizou” fazer a transposição?

Idealizar por idealizar, quem vive naquela região, antes castigada pela Natureza e hoje abençoada por ações de pessoas que sequer nasceram ali – vem idealizando há mais de um século e sabe que “apenas idealizar e nada fazer”, não é o mais importante.

Agora, complementando a boa ação, o Governo Federal precisa viabilizar e facilitar o apoio logístico (equipamento de irrigação, energia elétrica barata, transporte e principalmente cooperativas) para o Agricultor que tem coragem e disposição para retribuir.

Semente da mucunã (olho de boi)

Quem nunca foi ao Ceará, certamente não conhece, por óbvio, e jamais ouviu falar numa espécie de “triângulo” formado pelos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Desses, o mais conhecido é Juazeiro do Norte – assim chamado, para fazer diferença com Juazeiro da Bahia, não tão distante dali, separado de Petrolina/PE, pelas águas que serpenteiam o Velho Chico.

Do lado Norte, a saída ou entrada por Sobral e Tianguá ou Chaval; do lado Sul, Icó, que leva à Petrolina e, logo depois, Juazeiro da Bahia; noutro ramal, levando à Paraíba, Jati – esse último, o caminho da “transfusão” chamada de “transposição”. É o Ceará, aberto ao Brasil.

Desde aquele histórico 26 de junho, discute-se a paternidade da transposição. Se, fora daquele Estado, alguém pega em armas e se engalfinha por conta disso, no Ceará, os beneficiados se regozijam e, com jumentos com cambitos, latas, tonéis e cabaças, se preocupam apenas em encher os potes e as quartinhas.

Na esteira das ações, o livramento definitivo para a raiz da mucunã, e os joelhos postos ao chão, em oração de graças e agradecimento: à Deus, o Onipotente.

Momento da chegada da água em Jati

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS MENINOS DE ONTEM

O pau que dá em Chico, dá em Francisco? Nem tanto. Poderia ser mas, hoje, por conta da diversidade cultural deste País continental, que tem as “porteiras” abertas para pessoas com diferença de raça, credo e entendimento, não há como acreditar em “tudo linearmente, com a mesma facilidade de entendimento e prática.”

E isso, aqui e alhures, em todos os polos do planeta, contando ainda com a mudança climática, a cultura de vida a facilidade e o alcance dos apoios que a tecnologia oferece e, no somatório, transforma num peso importante e decisivo para a nossa forma de vida.

A Antropologia + Sociologia que compõem as mais variadas formas de “políticas públicas e urbanas” mundo à fora, acabaram fazendo com que, o hoje, seja diferente do ontem, e esses dois, mais diferentes ainda, do amanhã. É arriscado apostar na perseverança das coisas – deixando de lado, claro, a questão da religiosidade.

Dito isso, continuo acreditando que, “tudo de bom, ou tudo de ruim” que de alguma forma nos encaminha para as boas ou más ações, tem uma nascente única: dentro de casa, na família e por conta da saturação dessa, se as coisas não caminharem bem; ou, também, dentro de casa, graças ao “domínio dos gestores domésticos”, se tudo acontecer como todos desejamos que aconteçam.

É ali, na família, onde tudo começa. O bom, ou o bem; e o mau ou o mal.

A infância atual caga para o mundo

A boa e apropriada terra, preparada e cuidada, vai produzir boa plantação e melhor colheita. Isso é fato. É bíblico. Não poderia ser diferente o resultado com o ser humano, cuidado e preparado na infância com boas maneiras e ações que levem à uma boa vida (nesse caso, a colheita). Entre esses bons e eficientes “cuidados” com a infância, entre os mais positivos está o “brincar”.

Trocentos anos atrás, por conta da falta de dinheiro e por melhor entendimento da vida, pais e mães até incentivavam os filhos para a brincadeira sadia e construtiva que proporcionasse melhor e frutífero convívio social – e isso produzia uma resposta social maravilhosa.

A brincadeira semeava a convivência. Criava não apenas os anticorpos da defesa humana, como edificava o convívio social para uma vida de Paz e harmonia, tanto em meio a família, quanto num futuro, fora dela. Mas, na construção de uma nova família – era o “crescei e multiplicai-vos”.

Os pais brincavam junto, ensinavam a brincar e a fabricar os próprios brinquedos, imaginando que, daquela forma, os filhos se apegassem mais ao que faziam, por aprenderem as dificuldades que enfrentavam.

Brincando de forma saudável para o convívio e disciplina

Haviam também, o apego ao local apropriado para brincar. E isso levou à disseminação da cultura de “encontro” sem enfrentamento. Pensava-se numa troca de experiências entre as diferentes classes socioeconômicas. Aí surgiram, por necessário, as tais cidades ou parques das crianças. Nada melhor que um domingo no parque.

O progresso social foi de encontro à descoberta da “ludoterapia” (se é que assim poderíamos chamar), um diferente forma de curar, brincando. Ou, integrar, brincando. Método ainda muito utilizado para aproximação e convivência dos Portadores da Síndrome de Down.

A necessidade de defesa que os corpos humanos passaram a demonstrar, levaram à necessidade da criação dos anticorpos – e até Vovó já sabia: meninos e meninas precisam brincar juntos, tendo contato direito com a Terra. No interior onde nasci, alguns teóricos passaram a chamar essa fase de “a festa das lombrigas”.

E, realmente foi algo factual. A bactéria da lombriga entrava junto com o anticorpo. Mais tarde, o purgante de óleo de rícino (mamona) expulsava as lombrigas e aumentavam o sistema imunológico pela permanência dos anticorpos.

O dia da lama proporciona o contato direto com a terra e os anticorpos

As crianças de ontem, claro, não eram anjos. Eram apenas “filhos” – e, ainda hoje, filho não tem defeitos. Principalmente para os pais, esses de hoje, completamente diferentes dos de ontem. Os exemplos, se são bons, serão absorvidos e repetidos. Os maus exemplos, da mesma forma. E aí nunca haverá absolvição.

Pegar uma cadeira pesada, colocá-la diante de um armário de parede, subir e dali retirar uma lata para subtrair uma colherada de leite em pó (que ficará grudado no céu da boca), muitos de nós fizemos. Pegar um grampo de cabelo feminino e tentar enfiá-lo na tomada da eletricidade, outros tantos também fizeram. E, quando muitos fizeram isso, não havia a tecnologia atual, tampouco o atendimento médico tinha a possibilidade da rapidez de hoje.

Depois desse lamaçal um bom banho resolve tudo

O que se depreende atualmente no mundo infantil, é que as mudanças impostas pela convivência social, pelas intempéries ambientais, e, principalmente pelas falhas absorvidas pela educação doméstica com o reforço da deficiência da escolarização, é que, a criança de hoje é diametralmente oposta à criança de ontem – e tudo, repito, começou dentro de casa.

Numa culminância, não há como negar que, entre o céu e a Terra, existe algo além dos aviões de carreira. Se o mundo já não é mais o mesmo, e o ar é rarefeito por conta da falta de saneamento básico e uma absurda produção de lixo orgânico que, ao mesmo tempo contamina o ar, o lençol freático e o que dali evapora vai contaminar também a camada de ozônio, é evidente que, quem está entre o céu e a terra, usufruindo inclusive do alimento produzido nesse ambiente, se não tiver os anticorpos necessários, vai ser pego e contaminado por qualquer “gripezinha”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TEMPO DE GUARNICÊ

Santo Antônio “afogado” por quem procura marido

Ontem, 13 de junho, dia consagrado a Santo Antônio, foram oficialmente iniciados os festejos religiosos do mês, no Maranhão. Com simpatias, fogueiras, muitas brincadeiras tradicionais, podemos dizer que, “começou o São João”, embora o dia em que comemoramos em louvor ao santo, seja apenas no dia 24 de junho.

Nesta segunda semana do mês, também de forma oficial, foram iniciados os batizados dos bomba-bois, festa cultural do Estado, patrimônio imaterial do Brasil, de acordo com a Unesco.

Durante a segunda semana de junho, são divulgadas e conhecidas as novas “toadas” (músicas apresentadas) que vão conduzir a boiada em todos os terreiros onde se apresentam. Quem apresenta a “toada”, não é o “cantor”. É o “Cantador”. Mas, há também aqueles que cantam e, sem terem ligações com os “bois”, se transformam em cantores e cantadores ao mesmo tempo. É o caso de Papete.

José de Ribamar Viana, conhecido como Papete, nasceu em Bacabal, a 8 de novembro de 1947, e faleceu em São Paulo, a 26 de maio de 2016), foi um cantor, compositor e percussionista brasileiro.

Papete estudou no Colégio Marista Maranhense. Estudou também reportagem fotográfica em São Paulo. Trabalhou por sete anos em uma casa de música, o Jogral, onde deu início a sua trajetória musical. Trabalhou como produtor, pesquisador e arranjador na produtora Discos Marcus Pereira. Foi eleito um dos três melhores percussionistas do mundo quando participou do Festival de Jazz de Montreux na Suíça nos anos de 1982, 1984 e 1987.

Também acompanhou o músico italiano Angelo Branduardi na década de 80, se apresentou com o saxofonista japonês Sadao Watanabe, com Toquinho e Vinicius, e posteriormente com Toquinho, por treze anos fazendo com este mais de mil apresentações em mais de vinte países. Trabalhou com os maiores artistas da MPB, como Paulinho da Viola, Miucha, Rosinha de Valença, Paulinho Nogueira, Marília Medalha, Chico Buarque, Sá e Guarabira, Almir Sater, Rita Lee, Diana Pequeno, Renato Teixeira, Martinho da Vila, entre outros.

Compôs com Josias as canções e o libreto da ópera “Catirina”, marco da cultura maranhense nos anos 90. Um dos projetos que coordenou, originou a obra Os Senhores Cantadores, Amos e Poetas do Bumba Meu Boi do Maranhão lançado em novembro de 2015.

Catirina

Catirina que só quer
comer da língua do boi
carne seca na janela
quando alguém olha pra ela
pensa que lhe dão valor

Ai Catirina poupa esse boi,
Ai Catirina poupa esse boi.
Que quer crescer

Papete

Coisa bela pela plasticidade, e encantadora pela evolução dos movimentos, nesse período da magia que envolve a cultura popular maranhense, é o bumba-boi de orquestra (aqui, chamado de “sotaque” – o que caracteriza ritmo, sonoridade e percussão diferentes). E, um desses momentos mágicos e encantadores é apresentado pelo Boi Pirilampo.

Existindo há mais de três dezenas de anos, o Boi Pirilampo é o elemento mágico que se tornou conhecido a partir da beleza e da simplicidade da toada “Esqueça”, carro-chefe do grupo, onde quer que se apresente. Infelizmente, problemas de desentendimento entre o autor da toada e os comandantes (aqui chamados de “amos” – no caso, é o “amo”) levaram à uma decisão judicial que, hoje, proíbe a apresentação da toada. Mas, você pode ouvi-la logo abaixo.

Passistas do Boi Pirilampo

Esqueça – Composição de José Raimundo Gonçalves – Boi Pirilampo

Esqueça aqueles momentos, felizes que você me deu
Esqueça aquele juramento, que fizemos só você e eu
Esqueça a noite, a madrugada, e a lua que já se perdeu
Esqueça que você me amou
Esqueça esse amor que foi meu
Esqueça que já me deixou
Esqueça que não me esqueceu

Humberto – Cantador e Amo do Boi de Maracanã

Muitos neste Brasil já ouviram a maranhense Alcione apresentar essa toada (“Maranhão meu tesouro, meu torrão”) e isso contribuiu para que o bumba-boi da zona rural de São Luís ganhasse notoriedade e seja um dos mais festejados da Ilha. Infelizmente, o Cantador e amo do Boi de Maracanã, Humberto, faleceu há poucos anos atrás deixando uma lacuna aberta na vida da cultura popular maranhense.

Maranhão Meu Tesouro, Meu Torrão

Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Fiz esta toada, pra ti Maranhão
Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Eu fiz esta toada, pra ti Maranhão
Terra do babaçu
Que a natureza cultiva
Esta palmeira nativa
É que me dá inspiração

A pandemia instalada no Brasil por conta do Corona vírus diminuiu o ímpeto e limitou as apresentações juninas no Maranhão. Entretanto, como os batalhões diminuídos para atender as determinações das autoridades sanitárias, ainda assim, na noite de ontem aconteceram alguns batizados.

Ainda é dúvida na cidade, o que vai acontecer nos dois últimos dias seguidos do mês, com encerramento oficial dos festejos religiosos. No dia 29, consagrado à São Pedro e, no dia seguinte, 30, consagrado à São Marçal, dia em que acontece há mais de 50 anos, em São Luís, um encontro de bumba-bois de todos os sotaques.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CANJICA, A MAÇÃ DO AMOR E O ROLETE DE CANA

Milho verde apropriado para a canjica

Começa o mês de junho e a gente já consegue ouvir, longe, os sons das zabumbas, das sanfonas, dos foguetes e dos ensaios das quadrilhas juninas. É a confirmação da tradição cultural de um país que, ainda que enfrentando uma pandemia, ousa se divertir. Mês joanino, de Santo Antônio, São João e São Pedro; e junino dos trinta dias do mês de junho.

No meu Ceará, tradicionalmente e neste ano, a agricultura familiar recebeu a bênção divina das chuvas (muita água em alguns lugares, mas nada que atrapalhe) e tem a colheita assegurada. A fartura. O arroz, o feijão, a mandioca e o milho.

Canjica de milho verde decorada com canela em pó

A primeira colheita do milho preserva e mantém a tradição de uma culinária rica que leva alegria às mesas das famílias dos muitos agricultores. Tão logo a boneca vira sabugo, e a espiga fica completa, vem a primeira colheita – e a garantia do milho cozido ou assado; da pamonha e da canjica.

No próximo sábado, 13, dia consagrado à Santo Antônio, as primeiras fogueiras são acesas e as tradições culturais e folclóricas ganham nova pintura – mas, sempre mantendo a tradição trazida, ensinada e perpetuada pelos nossos antepassados.

Aprendi com os avós que, 17 dias após o “amadurecimento” do milho, as espigas já estão prontas para “virar” – por algum tempo, na posição que brota, a espiga apanha sol, e seca. É chegada a hora de “virar” a espiga para secar na outra posição. É a cultura da roça que nenhuma escola ensina.

Para aprender, tem que viver no meio e sentir prazer em fazer o que faz: pôr alimento na mesa.

Maçã do amor

Quase sempre no início da segunda semana do mês de junho, muitas Igrejas realizam (ou, “realizavam”) seus preparativos para render homenagens ao santo padroeiro. Entre esses preparativos, por tradição, são realizados os folguedos – em Fortaleza e de resto no Ceará, são conhecidos como “quermesses” – que duram cerca de 30 dias.

Os folguedos antigos reuniam os jovens enamorados e aqueles que pretendiam namorar. Os rapazes, roupas simples, mas sempre bem vestidos; as moças, acompanhadas das mães ou tias, primeiro assistiam a Santa Missa. Depois, “ganhavam” uma pequena folga das mães e se permitiam namorar.

Carrossel, roda gigante, tiro ao alvo, laça cigarros, pescaria, eram algumas das diversões apresentadas durante os folguedos, tudo permitido e organizado pela paróquia. Ao final de cada noite, o leilão de prendas domésticas – o “frango assado” ainda era uma grande novidade nos anos 50 e 60. Os valores arrecadados, descontados os custos e as despesas, eram em benefício da paróquia.

A “maçã do amor” era uma tradição. O rapaz juntava dinheiro durante toda a semana, para oferecer, à noite, aquela gostosura à namorada. Os dois mordiam a maçã, juntos. Pena que ainda não existia a “selfie”.

Barraca com vendedora da maçã do amor

Faz tempo que, festança junina que representa tradição e respeito, não pode4m faltar alguns itens como cacho de pitombas, caldo de cana com pastel, pipoca, algodão doce e, principalmente, rolete de cana.

Nos folguedos nordestinos, a cana caiana da qual é feito o rolete, é parte da cultura das coisas importantes. Ainda hoje, a cana de açúcar é uma das maiores riquezas do Brasil, produzindo, entre outras coisas, o açúcar, o metanol e principalmente o álcool.

Desde os primórdios, os engenhos fazem a riqueza de muitos “senhores”, gerando empregos e desenvolvimento. Mas, também de forma tradicional, jamais deixará de existir o trabalho escravo no plantio, no cuidado durante a lavoura e no corte da cana de açúcar.

Cana caiana

Vale registrar que, no caso específico do “rolete de cana”, ele é vendido em vários lugares, incluindo praias, estádios de jogos de futebol e até faz a alegria de crianças em festas de aniversários.

Roletes de cana caiana

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

EITA “MUSQUITIM” FELA DA PUTA!

Dando uma pequena volta pelo mundo da infância (a minha) vou focar hoje, umas traquinagens que me renderam boas sovas e muitos castigos com a cara voltada para o canto da parede.

Toda criança “levada” passou por isso. Quem não passou, com certeza virou vítima de “bullying”, o rótulo afrescalhado do americano.

Chulipa – era mais gostoso ainda, “dar uma chulipa”, passando saliva no dedo e melando da areia, e dando aquele catiripapo vertical na orelha de alguém.

Tirar o selo – geralmente, quem fazia isso, fazia a cada mês. Era comum o corte de cabelo “estilo busca-ré”, onde, metade do quengo era raspado com máquina graduada a zero. Ficava liso, igual bunda de recém-nascido. Dar uma leve pancada, significava “tirar o selo.”

Criança de castigo por desobediência

Pois, hoje, me vieram à lembrança, dois castigos que tomei na infância. O primeiro, até hoje considero “injusto”.

Sempre que ia “jogar barro fora”, tinha que procurar fazer a necessidade no mato. Não tínhamos local apropriado em casa para fazer a necessidade fisiológica. Papel higiênico, a gente só foi conhecer ao mudar para a capital.

Certa vez “precisei jogar o barro fora”. Senti que as galinhas e alguns porcos sentiam tanta fome, que seriam capazes de enfrentar qualquer guerra. A arma que dispúnhamos era uma vara de aproximadamente 3 metros, com a qual mantínhamos o animal distante, momentaneamente, da “obra”.

A solução era, literalmente, “cagar trepado”. Nisso, a “obra” acabou sujando uns porcos da Vovó. Castigo: levar os suínos para banhar no açude, distante da nossa casa por uns bons quilômetros. E aí, veio a calhar aquele ditado: quem com porcos se mete, farelo come.

O segundo castigo, foi mais que merecido. Meu Avô não gostava de castigar os netos – deixava para a Avó, esse “trabalho”.

Eis que cismei de “botar um musquitim” no meu Avô, enquanto ele dormia o sono dos justos, deitado no chão da varanda.

Criança de castigo na escola

“Musquitim”, na minha terra, era o reuso de um palito de fósforo. Enquanto a pessoa dormia, malandra e lentamente, a gente colocava o “musquitim” apagado na testa do dorminhoco, antes, colocando algum calçado na mão. Toca fogo e espera a reação. Quando o “musquitim” tá pegando fogo, o dorminhoco “dá um tapa” para matar o mosquito.

Foi assim. Quando meu Avô precisou matar o mosquito da nesta, deu com o chinelo no próprio rosto. Eita musquitim fela da puta!

Como criança naquele dia só tinha eu em casa, entrei foi nos tabefes. Depois, o castigo pior: tomar banho depois que apanhava.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TÔ DEVENDO E QUERO PAGAR!

1 – Pai de jumentinho!

Fiquei (e ainda estou) fora do ar por uns dias. Mudei meu provedor de e-mails na Internet e estou esperando a regularização. Não vai demorar muito. Prometo.

E, quando me disponho a rabiscar alguma coisa, o mundo rico que vivi foi o mundo da infância. Da minha infância, vivida no interior, aporrinhando meus avós, espantando ou juntando cabras e bodes para o chiqueiro, e, quando apareceram os pêlos nos devidos lugares, “fazendo fios em jumentinhas”.

Foi quando, certo dia numa capoeira, estava “me aproveitando” de uma certa “diversão dos meninos”, quando escutei minha Avó:

– Tenha vergonha, cabra safado! Vá percurar outra coisa pra cumê!

Vivi o restante daquela idade sendo obrigado a escutar e suportar gozações dos primos, que afirmavam que, meu primeiro filho seria um jumentinho! Arre égua!
E eu acreditava!

2 – O cineasta

Sei que deveria pedir licença para o especialista Altamir para dar uma rápida passeada n o tema cinema. Eu gosto de cinema. Filme que considero bom, costumo ver mais de uma vez. Filmes que considero excelente, vejo apenas uma vez – para não estragar.

Mas, o assunto não é esse. Bifurquei errado e vou corrigir. Quero falar de filme e de cinema, mas de filme e de cinema feito por mim. Sim, fui cineasta e achei que teria futuro. Mas, quando menos esperava e já comemorava a bênção da Lei Rouanet para subvencionar de forma superfaturada as minhas fitas, minha Mãe, com uma “cabada de vassoura” na minha cabeça, me fez acordar do sonho.

A “máquina de projeção”

Juntei alguns mil réis que meu Pai carregava naquele bolsinho pequeno, na frente da calça, próximo da fivela do cinto e me dava. Juntei tanto que, no dia 23 de outubro (data do aniversário de vida dele), pude comprar uma caixa cheia e lacrada de charutos Suerdieck para dar-lhe de presente. Ele agradeceu muito e, toda noite, após o jantar acendia um charuto e fumava.

Minha Mãe dizia que ele “ficava fumando para matar muriçoca”! Por isso e por outra coisa, fiquei patrulhando os 50 dias que meu Pai fumava aquele charuto de cheiro até agradável. Mas, eu tinha um objetivo: pegar o caixote dos charutos, vazio. Era ali que eu montaria toda a minha engrenagem de cineasta.

No dia seguinte ao último charuto, peguei logo a caixa vazia e me apressei. Arranquei a tampa. Colocando a caixa na vertical, furei nela com a serra tico-tico, uma buraco, onde afixei uma lâmpada queimada, marca Phillips (lembro até hoje). Parte da “engenhoca” estava pronta.

Enquanto meu Pai fumava os 50 charutos, fui me preparando. Saía da escola e, em vez de voltar para casa, ia para o Cine Nazaré, onde fiz amizade. Pedi uns pedaços de fita e ganhei quase um rolo. De fita colorida, pasmem!

Lâmpada para auxiliar na projeção da fita

No dia seguinte, em casa, eu precisava testar a projeção. Faltava a iluminação. Sem que minha Mãe visse, subi no telhado da casa e, calculadamente, afastei uma telha, de forma que, passasse por ali a luz do sol.

– Menino, o que tu tá fazendo aí nesse telhado? Perguntou minha Mãe.

– Tô pegando uma arraia (papagaio ou pipa) bonitona que enganchou!

Depois de tudo aquilo, demorei tanto que uma lenta e grande nuvem me roubou o sol. Precisei disfarçar e consegui. Naquele dia o sol não voltaria mais.

No dia seguinte, enchi a lâmpada de água, afixei uns pedaços de fita, peguei um pedaço de espelho e, comecei a projetar o filme. Uma maravilha!

Não gostei foi do resultado final. O funcionário do Cine Nazaré, quando me entregou quase um rolo de fitas, provavelmente sem maldade, não percebeu que existia uns 20 metros de “The End”!

Filmes épicos do meu cinema

Mas os dias seguintes foram proveitosos e me sentia um dos melhores cineastas, ao lado de Jean Luc Godar, Orson Welles e o ainda desconhecido Glauber Rocha.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O VÉI DO SACO – E A SERPENTE DE TRÊS CABEÇAS

Mãe ameaçando entregar a filha ao “véi do saco”

Alguém entre os maravilhosos leitores deste Jornal da Besta Fubana já viu uma “casa de avós” no interior, quando recebe os netos para um mês de férias?

Alguém já viu o “aperreio” que fica na casa, quando os netos chegam da cidade durante a noite? Alguém já viu aquele armar as redes, banhar e escovar os dentes antes de deitar?

– Meus fiinhos querem cumê alguma coisa? Pergunta a Avó, mais babona que preocupada.

Pois, uma ou até duas semanas depois de muitas brincadeiras, a mãe avisa para a mãe dela – nesse caso, a Avó – que quer dar um purgante para diminuir as lombrigas dos filhos.

– Você trouxe o remédio, minha filha? Pergunta a Avó.

– Trouxe mãe. Responde a filha.

– Entonces, bem cedim, antes do sol raiar, a gente acorda eles e dá o purgante!

Purgante de óleo de rícino, que saiu da roça em forma de mamona e foi industrializado na cidade grande. Uma verdadeira peste para quem um dia foi criança e precisava tomar. Precisava não. Era obrigado a tomar.

Galo cantava, e mãe e avó já estavam de pé. O frege na cozinha, era grande na preparação do café da manhã. A avó continuava preparando as tapiocas (para alguns, beijus) e o cuscuz de milho feito no prato. Leite de cabra fervia no fogo. Açúcar mascavo, batata doce e macaxeira cozida.

Do quarto, onde as redes estavam armadas, vinha a conversa:

– Acorde José. Acorde e abra a boca pra tomar um remédio! Dizia a mãe.

– Que remédio mãe? Eu num tô doente!

– Tá sim! Tá cheio de lombrigas! Vamos acorde e levante. Abra a boca!

– Eu num quero tomar remédio!

– Não quer? Mãe, a que hora o “véi do saco” passa aqui?

– Não mãe! Pelo amor de Deus! O véi do saco, não!

E foi assim que, durante muitos anos o “Véi do saco” entrou para a vida de muitos sertanejos, virou personagem de cordel, ajudou mães a resolver problemas de desobediência, e ajudou curar muitos meninos e meninas infestados de lombrigas.

Nos dias atuais, nenhum menino ou menina toma purgante. Tampouco conhece o milagroso óleo de rícino (mamona) aplicado e reforçado pelo famoso “Véi do saco”.

Casal administrando purgante numa filha

Aproveitando essa quarentena forçada pela pandemia, muitos estão vendo filmes da Netflix. Muitos estão viajando pela Internet, conhecendo coisas e lugares nunca vistos antes.

E é aí que quero mostrar algo que nunca havia visto, e acredito que vosmecês também.

Numa estrada, na Índia, o trânsito ficou interrompido por conta de uma serpente rara que chamou a atenção de quem por ali trafegava.

Não era uma serpente comum, dessas que até o Lula sabe encantar. Era uma serpente de três cabeças, como mostra a foto anexada.

Du-vi-d-ó-dó que você já tenha visto coisa igual. Já viu rato com nove dedos e vaca peidando. Agora, para ver coisa igual, só indo à Índia ou a Palmares, interior pernambucano.

Serpente com três cabeças

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CANTE LÁ – QUE EU CANTO CÁ

“Poeta, cantô de rua
Que na cidade nasceu
Cante a cidade que é sua
Que eu canto o sertão que é meu

Se aí você teve estudo
Aqui, Deus me ensinou tudo
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui
Que eu também não mexo aí
Cante lá, que eu canto cá”

Pois, foi, e será sempre assim. No sertão onde nasci, xícara é xirca; mulher gostosa é paquetão; japin é xexéu; e chico preto é graúna. Sem esquecer que o peru continua respondendo assovio com glu-glu-glu.

Quando criança criei pássaros. Pouco sabia de liberdade e me satisfazia com a magia dos cânticos de cada um. Eram criados como se filhos fossem, saídos de mim. Hoje, com o que aprendi nos mundos por onde andei, essa foi uma prática que lá deixei.

Xexéu pra mim – japin pra outros

Quando eu era criança, caminhando para a adolescência, “caçava” passarinhos para completar a comida em casa (quase sempre, feijão com nada e menos alguma coisa. Rapadura com farinha seca era a gostosa sobremesa, e a gente comia como se fosse pudim de leite), sem ter ciência de nada e que aquilo era, além de ação para suprir uma necessidade, uma forma de brincar e passar o tempo.

Criança que nunca possuiu uma baladeira, um bornal cheio de pedras, nunca foi criança.

Além de “caçar” os passarinhos, quando encontrávamos algum ninho com ovos, “aquele já era muito mais nosso” que dos próprios pássaros. A gente “pastorava” aqueles ovos por 24 horas, quase chocando-os.

Pois um dia achei um ninho de xexéu, pendurado num galho que, de tantas folhas pesadas, acabou entortanto – e o xexéu, pássaro sabido, não faz seus ninhos em galhos ou locais de fácil acesso. O bicho é sabido.

O xexéu é da família icteridae, conhecida nas regiões onde prevalecem as grandes árvores e as folhagens em forma de palmeiras. É um imitador quase perfeito. O macho mede de 27 a 29,5 cm de comprimento e a fêmea de 22 a 25 cm, pesa de 60 a 98 g. O imaturo é de cor de fuligem em vez de negra. As fêmeas são bem menores que os machos. O canto é tão variado que as vezes causa a impressão de um coro de vários exemplares. É comum os indivíduos imitarem perfeitamente outras aves.

XEXEU CANTANDO

Graúna para mim – Chico-preto para outros tantos

Pela imensidão continental do Brasil, o pássaro graúna é conhecido por vários nomes. Mas, o nome científico é um só: Gnorimopsar chopi, popularmente conhecido como graúna, pássaro-preto, assum-preto, cupido, chico-preto, arranca-milho, chopim, melro ou craúna, é uma espécie de ave da família Icteridae. É a única espécie do gênero. Põe em média 4 ovos em ninhos geralmente construídos em buracos de árvores ou em ninhos abandonados de outras aves. Sua incubação é de 14 dias. Os filhotes permanecem em média 18 dias no ninho. Com 40 dias podem ficar independentes dos pais. Não há dimorfismo sexual ou etário, pois machos e fêmeas cantam, e os jovens são como os adultos.

No Nordeste ocorre a graúna (Gnorimopsar chopi sulcirostris), bem maior que o pássaro-preto. Devido ao nome chopi, presente na identificação científica, essa espécie recebe erroneamente o nome de Chopim ou Gaudério (da espécie Molothrus bonariensis): o macho é azul escuro de tonalidade de metálica, e a fêmea preto fosco.

A graúna era uma ave que, criança, gostava de criar numa gaiola, desde que apanhasse na primeira semana de nascida. Era alimentada no próprio bico, com angu de farinha e leite de cabra. Nunca pretendi “furar os óios”prumode ela cantar mió.

Ave dócil, de fácil convivência – às vezes ficava solta sobre a mesa onde comíamos. Tinha o hábito de voltar para a gaiola, com suas próprias asas e quando tinha vontade. Foi criada solta.

CANTO DA GRAÚNA

Peru – o rei dos que abrem o rabo

Por muitas e muitas vezes já citei aqui, que, minha Avó era meieira. Criava aves que pertenciam ao proprietário das terras onde vivíamos – e o que nascia a partir dali, era dividido ao meio. Criava caprinos, cuja produção leiteira era nossa. Criava galinhas, catraios, patos e perus.

Os perus, como até hoje manda a tradição, eram abatidos apenas no período natalino. E quando Vovó abatia uma ave daquelas, duas coisas apenas me interessavam: as tripas e o papo. As tripas viravam fritura com farofa e o papo virava a nossa bola de jogar nos fins de semanas.

O peru é uma ave que se alimenta de grãos e insetos. Tanto o macho quanto a fêmea têm a cabeça e o pescoço descoberto de penas. Geralmente as penas têm coloração preta, castanha ou até mais clara. Somente o macho possui um apêndice carnoso sob o bico chamado carúnculas. Medem até 1,17 m de altura.

Originário da América do Norte, foi levado para a Europa em 1511. O peru selvagem foi domesticado pela primeira vez no México há mais de mil anos, mas, no começo do século XX, havia desaparecido em grande parte dos Estados Unidos. Nos últimos anos o peru começou a ser reintroduzido no seu lugar de origem com aparente sucesso.

Peru é o nome comum dado às aves galiformes do gênero Meleagris. Uma espécie, Meleagris gallopavo, conhecida vulgarmente como peru-selvagem, é nativa das florestas da América do Norte. O peru-domesticado descende desta espécie.

Por anos, o peru era um dos nossos principais divertimentos, quando, de férias do período escolar nos dirigíamos para o interior. E a gente se divertia, assoviando. O peru respondia com o seu belo e tradicional glu-glu-glu, como pode ser ouvido no áudio a seguir.

PERU: GLUGLUGLU DE BOAS VINDAS

Esse é o papagaio falador que só canta o que lhe ensinam

O papagaio é uma ave rara e, no Brasil, enfrenta uma crescente extinção. Seu aprisionamento por famílias, o retirou do seu habitat de reprodução livre e crescente. Seu nome científico é Amazona aestiva (L.), mas é conhecido vulgarmente como papagaio-verdadeiro, ajuruetê, papagaio-grego, ajurujurá, curau, papagaio-comum, papagaio-curau, papagaio-de-fronte-azul, papagaio-boiadeiro, trombeteiro e louro, é uma ave da família Psittacidae.

O papagaio-verdadeiro é principalmente um papagaio verde com cerca de 38 cm (quinze polegadas) de comprimento e pesa cerca de quatrocentos gramas. Tem penas azuis na testa, acima do bico e amarelo na cara e coroa. Distribuição do azul e amarelo varia muito. A cor da íris dos adultos é amarelo-laranja no macho ou vermelho-laranja na fêmea. Se destaca um fino anel externo vermelho. Os imaturos têm íris marrom uniforme. O bico é negro no macho adulto. É uma das espécies mais inteligentes de ave do planeta. Sua expectativa de vida é de oitenta anos. Os papagaios-verdadeiros também costumam repetir o que ouvem de seus donos. (Este bloco de informações foi compilado do Wikipédia).

PAPAGAIO BOCA SUJA

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

RECORRENDO À PSICOLOGIA

O banho dos primos

Era um sábado, lembro bem, embora já se tenham passado mais de 60 anos. No que poderia parecer um cenário teatral, eu acabara de almoçar e resolvi descansar um pouco. Não queria dormir, pois, se assim quisesse armaria uma rede.

Peguei um cambito que Vovô tirara do jumento Moreno, peguei a sela que era usada na montaria do cavalo Salú, arrumei as duas peças de modo a me oferecer apoio e conforto, sentei e me pus a olhar na linha do horizonte. Como se estivesse no deserto do Atacama, na primavera. Me pus a “matutar”, como dizemos naquelas paragens.

Um filme que eu jamais vira, estava passando na minha mente, em “slow motion”. Dava para contar as pessoas, os objetos, e, tudo que enfim, compunha as imagens da fita. Eram imagens policrômicas, que sequer existiam – para os apaixonados, a vida é sempre em policromia, e as paisagens são sempre as mais belas.

Cambito que auxilia às montarias no interior

Eis que, um movimento diferente do que “passava na fita mental” me chamou a atenção. A porteira, que ficava numa distância de uns 40 metros de onde eu estava sentado, me chamou a atenção. Mas, dava perfeitamente para perceber o rabo do cachorro Babalu balançando, frivolamente – a alegria do animal era visível, e eu pude deduzir que ele estava alegre pela aproximação de alguém.

E era mesmo. E estava mesmo. Dois meninos caminhavam ao tempo que também brincavam na frente de um comboio de jumentos conduzidos pelo nosso vizinho Zé de Augusta que, naquele instante transportava a farinha para entregar na manhã seguinte, no comércio do Seu Horácio. Os dois meninos brincavam na frente dos animais, e aquilo alegrava Babalu, que até davas cambalhotas.

Passada aquela aparente festa canina, permaneci sentado onde estava, e não percebi que o tempo passara, que a escuridão da noite mandava torpedos e mais torpedos, avisando sua chegada. Era a noite que se aproximava.

Mas, algo estranho continuava acontecendo, pois Babalu, passada aquela alegria pela passagem dos meninos, continuava na porteira. Vigilante, como sempre fora. E, de repente, começou latir. E latia cada vez mais. Mas, era um latido sem raiva, sem agressividade. Como se pretendesse avisar que alguém de casa se aproximava. E era verdade.

Era Anunciada, minha prima mais velha. Naquele tempo, aparentando 25 anos de idade. Apressada e cabisbaixa, caminhava na direção da nossa casa e mais apressada ainda ficou, quando de longe avistou Vovó. Ofegava. Causava ansiedade em quem viera saber algo na sua chegada.

Babalu o “vigia” da nossa porteira

Com dificuldade de falar, tomada pela emoção dos fatos, Anunciada agarrou-se à Vovó, e fez esforço para anunciar com voz trêmula, e copiosas lágrimas:
– Vó, mamãe tá desesperada! Zildinha acabou de falecer!

Aquele anúncio chocou os que ouviram a triste novidade. A mim, foi como uma facada penetrante na carótida. Eu tinha naquela época um envolvimento muito forte com Maria Zilda, a Zildinha. Namorávamos escondido, por sermos primos – e a gente do interior não aprovava muito naqueles tempos.

Lembro que nos encontrávamos para o banho no açude, nus. Descobrimos e mantivemos por longos tempos, um local só nosso. Nos beijávamos, nos acariciávamos – mas nunca ultrapassamos os limites que a criação daquela época nos impunha.

Vovó decretou silêncio e luto total na casa. Fomos ao velório na mesma noite, e permanecemos para o dia seguinte.

Foi aquela, a minha primeira grande emoção na vida. Passava dias e noites relembrando os bons momentos, as carícias que trocávamos. Zildinha se desenvolvia fisicamente. Ainda não era “uma mulher feita”. Seios crescendo, coxas longas ficando arredondadas e pelos começando aparecer nos devidos lugares do corpo.

Passados todos esses anos, graças à Deus, sem sequelas, recorro à Psicologia dos que lêem essa “gazeta escrota” (fala do próprio Editor), para uma explicação. Se possível pedagógica.

Qual é o comportamento do cérebro e dos demais órgãos que compõem as emoções humanas, numa situação que começou com o descanso conciso e necessário a partir do sentar no cambito; no olhar a emoção do cachorro em dois momentos e com ele compartilhar; no ouvir e participar do anúncio do indesejado da morte da prima amada; no féretro, onde foi enterrada parte emocional de mim; e na volta solitária aos banhos no local onde vivemos bons momentos.