JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

1 – Pai de jumentinho!

Fiquei (e ainda estou) fora do ar por uns dias. Mudei meu provedor de e-mails na Internet e estou esperando a regularização. Não vai demorar muito. Prometo.

E, quando me disponho a rabiscar alguma coisa, o mundo rico que vivi foi o mundo da infância. Da minha infância, vivida no interior, aporrinhando meus avós, espantando ou juntando cabras e bodes para o chiqueiro, e, quando apareceram os pêlos nos devidos lugares, “fazendo fios em jumentinhas”.

Foi quando, certo dia numa capoeira, estava “me aproveitando” de uma certa “diversão dos meninos”, quando escutei minha Avó:

– Tenha vergonha, cabra safado! Vá percurar outra coisa pra cumê!

Vivi o restante daquela idade sendo obrigado a escutar e suportar gozações dos primos, que afirmavam que, meu primeiro filho seria um jumentinho! Arre égua!
E eu acreditava!

2 – O cineasta

Sei que deveria pedir licença para o especialista Altamir para dar uma rápida passeada n o tema cinema. Eu gosto de cinema. Filme que considero bom, costumo ver mais de uma vez. Filmes que considero excelente, vejo apenas uma vez – para não estragar.

Mas, o assunto não é esse. Bifurquei errado e vou corrigir. Quero falar de filme e de cinema, mas de filme e de cinema feito por mim. Sim, fui cineasta e achei que teria futuro. Mas, quando menos esperava e já comemorava a bênção da Lei Rouanet para subvencionar de forma superfaturada as minhas fitas, minha Mãe, com uma “cabada de vassoura” na minha cabeça, me fez acordar do sonho.

A “máquina de projeção”

Juntei alguns mil réis que meu Pai carregava naquele bolsinho pequeno, na frente da calça, próximo da fivela do cinto e me dava. Juntei tanto que, no dia 23 de outubro (data do aniversário de vida dele), pude comprar uma caixa cheia e lacrada de charutos Suerdieck para dar-lhe de presente. Ele agradeceu muito e, toda noite, após o jantar acendia um charuto e fumava.

Minha Mãe dizia que ele “ficava fumando para matar muriçoca”! Por isso e por outra coisa, fiquei patrulhando os 50 dias que meu Pai fumava aquele charuto de cheiro até agradável. Mas, eu tinha um objetivo: pegar o caixote dos charutos, vazio. Era ali que eu montaria toda a minha engrenagem de cineasta.

No dia seguinte ao último charuto, peguei logo a caixa vazia e me apressei. Arranquei a tampa. Colocando a caixa na vertical, furei nela com a serra tico-tico, uma buraco, onde afixei uma lâmpada queimada, marca Phillips (lembro até hoje). Parte da “engenhoca” estava pronta.

Enquanto meu Pai fumava os 50 charutos, fui me preparando. Saía da escola e, em vez de voltar para casa, ia para o Cine Nazaré, onde fiz amizade. Pedi uns pedaços de fita e ganhei quase um rolo. De fita colorida, pasmem!

Lâmpada para auxiliar na projeção da fita

No dia seguinte, em casa, eu precisava testar a projeção. Faltava a iluminação. Sem que minha Mãe visse, subi no telhado da casa e, calculadamente, afastei uma telha, de forma que, passasse por ali a luz do sol.

– Menino, o que tu tá fazendo aí nesse telhado? Perguntou minha Mãe.

– Tô pegando uma arraia (papagaio ou pipa) bonitona que enganchou!

Depois de tudo aquilo, demorei tanto que uma lenta e grande nuvem me roubou o sol. Precisei disfarçar e consegui. Naquele dia o sol não voltaria mais.

No dia seguinte, enchi a lâmpada de água, afixei uns pedaços de fita, peguei um pedaço de espelho e, comecei a projetar o filme. Uma maravilha!

Não gostei foi do resultado final. O funcionário do Cine Nazaré, quando me entregou quase um rolo de fitas, provavelmente sem maldade, não percebeu que existia uns 20 metros de “The End”!

Filmes épicos do meu cinema

Mas os dias seguintes foram proveitosos e me sentia um dos melhores cineastas, ao lado de Jean Luc Godar, Orson Welles e o ainda desconhecido Glauber Rocha.

9 pensou em “TÔ DEVENDO E QUERO PAGAR!

  1. Fiquei de boca aberta com a inventividade! Naquela época, no século passado, como foste capaz de fabricar essa máquina!
    Bem, acho que hoje deve estar mais difícil, creio que não existem mais os filmes, os chamados celulóides, e não dá para projetar um chipe com uma lâmpada cheia dágua à luz do Sol…

    • Goiano, “a projeção” era feita através do reflexo do sol no espelho que, focando na lâmpada cheia de água, por sua vez aparecia “na tela”, que nada mais era que uma parede sem reboco e sem pintura. Você, com certeza, nas nossas Minas Gerais, já ouviu falar que, “menino é a imagem do capeta”! Pois era assim!

      • Goiano, desculpas pelo retorno: os pais eram outros e ajudavam para que os filhos “raciocinassem” por si próprios. Imagine, pegar uma tábua e, dela, fazer quatro rodas para movimentar o carrinho de lata de goiabada. Por isso que tenho minhas dúvidas de afirmar que tivemos “progresso”.

  2. Estava sentindo sua falta sr José, como as coisas estão feias aí na ilha de São Luis,já estava preocupado com o sr. Um grande abraço meu companheiro, se cuide ..

    • Paulo obrigado pelo carinho da preocupação. Me cuido sim. Claro que posso voltar ao barro em cinco segundos, mas isso não será por falta de cuidados. Tá feia a coisa aqui na Ilha, sim. Literalmente, estamos ilhados – pelo menos até o fim do dia de hoje.

      • Sr Jose Ramos, aqui em Cruzeiro, vale do paraíba paulista, a situação está sob controle, apenas um caso de óbito, de pessoa que veio de São Paulo e, mais de um paciente, da cidade de Lavrinhas, que teve a infelicidade de ficar internado junto com o paciente oriundo da capital,com o coranavírus.. Mesmo assim, os filhos e netos, estão “policiado eu e minha companheira de cinquenta e cinco anos de casados,com a competência de carcereiros experientes. Sabe como é,setenta e oito anos no lombo,sigo aquele ditado, moço não que ficar velho e velho não quer morrer, Um abraço.

        • Paulo, como você sabe, sou do Ceará. Morei até 67 em Fortaleza. Saí para o Rio de Janeiro e de lá saí em 87 para São Luís. Tenho segurado as pontas. Não está fácil. Tenho 5 filhos. 4 moças e um rapaz. O rapaz é o caçula. Mestre em Nutrição e cursa Educação Física. Me segura em casa por que sou safenado e adquiri o hábito da caminhada – por necessário. Sou hipertenso e, após a cirurgia, passei a regrar a alimentação e o consumo do sal. Mas, você quer que eu coma feijão mulata gorda todos os dias, sem um charque, uma orelha ou um pé de porco? Amigo, em 30 de abril cheguei aos 77. Me previno, sou comedido, nunca fumei nada. Deus Onipotente me mantém até hoje aqui. Provavelmente continuo sendo útil.

  3. ZÉ RAMOS TAVA ESCONDIDO
    EU PRECISANDO DE VÊ-LO
    ACHEI QUE TAVA TRANCADO
    PARA PROTEGER O PELO
    VEIO COM UMA ESTÓRIA BONITINHA
    SE LEMBRANDO DA JEGUINHA
    E VOLTA ENXUGANDO GELO

    • Valdeir, na tua terra chama “jeguinha”? É? Pois na minha terra tem até quem chame de “menina nova”!

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