JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Cada livro lido é uma viagem realizada

Nasci pobre. Continuei pobre e ainda sou pobre. As únicas riquezas que consegui amealhar, poupar e quintuplicar, foram os valores humanos e morais “depositados” nos porquinhos da minha vida pelos meus pais. Prosperei e, com certeza, vou deixar um bom saldo para meus filhos.

Por isso, muito provavelmente, nunca consegui viajar para fora do País. Nunca carimbei passaporte. Entretanto, com muita fé e coragem aceitei que, “ler, é viajar”! Cada livro uma viagem, com os conhecimentos, as paradas e rodopios feito um beija-flor.

Assim, sentado numa confortável poltrona sem numeração, viajei. Conheci até outro planeta e ali fiz amizade com uma raposa, com quem me habituei a cada fim de tarde olhar o pôr do sol e contar quantos lampiões o Acendedor acendia. Até aprendi a esperar o amadurecer das uvas, que a raposa teimava em vê-las sempre verdes.

Passei a juventude quase toda em Salvador. Conheci e convivi com quase todos os capitães daquela maravilhosa areia. Fui ao Pelourinho e os recantos mostrados por cada Jorge antes do encantamento.

O conhecimento pelo livro será sempre maior que os carimbos nos passaportes

Viajei no Expresso Oriente, bati longo papo com Hércule Poirot, e até o ajudei a descobrir alguns segredos. Ainda nessa viagem conheci vários quilombos e fiz amizades duradouras com mais de dez negrinhos. Na parte da tarde, dei milho aos pombos.

Nos rotulados anos de chumbo e exceção da década de 60, visitei Itaguaí e juntei todas as memórias do cárcere. Tudo parecia sonho. Mas era uma viagem real a cada página virada e uma nova escala a cada capítulo.

Ler é viajar, sim!

O livro é o único passaporte que a “esteira” não bloqueia

Neste exato momento estou no meu assento preferido. Sempre ao lado da janela, para melhor olhar as belezas que a Terra nos mostra, e que vão ficando para trás, renovando as esperanças que, mais na frente, nossos olhos premiarão nosso coração com o melhor roteiro.

Não suportei viver a arrogância, tampouco as atitudes descabidas dos Onze, cada um escondendo o pudor e o respeito aos semelhantes – como se eles, ao morrer, tivessem pelo menos direito a uma honrosa lápide.

Sentei na cadeira. O ônibus da vida vai partir e, neste exato momento, sigo para me encontrar com uma Pequena Abelha.

18 pensou em “A VIAGEM DE PAPEL

  1. Lindíssimo texto! Emocionante e verdadeiro, querido Escritor José Ramos! .Parabéns pela bela história de vida!

    Grande abraço!

    • Violante: fico agradecido, querida. Aproveito para agradecer os risos provocados com a história do “fanho” vândalo! Kkkkkkkkkkk

  2. Prezado José Ramos,

    Assim como você, também sou de origem modesta e continuo pobre até hoje. De forma semelhante, também fui sempre um leitor voraz.

    Só não concordei contigo quando minimizas a importância de conhecer outros povos e outras culturas.

    Eu sempre trabalhei em grandes empresas multinacionais. Estas por necessidade do trabalho, me enviaram a outros países, tornando-me um “Cidadão do Mundo”, Sempre que viajava a trabalho, fazia questão de conhecer com calma os países por onde passava. Assim, cheguei a conhecer, e até a morar, em mais de 50 países. Mas não foram viagens de excursão, daquelas que fazem 11 países em 20 dias. Sempre fiz questão de conviver com os locais, conhecer suas vidas, suas comidas, aprender um pouco das suas línguas, sua visão do mundo, e por aí vai.
    Podes ter certeza que é absolutamente fascinante!

    Estou tentando fazer a conciliação destas experiências com os livros. Para isso, estou concluindo um livro de memórias destas viagens que, segundo creio, deverás adorar.

    Grande abraço.

    • Adonis: aguçastes minha ansiedade para a leitura desse livro. Podes crer. Claro que conhecer a cultura de outros mundos é bom. Outros planetas, outros mundos, outros países e outras pessoas. Eu não conhecia nenhum moinho de ventos antes de ler Don Quixote. Ler enriquece, com certeza.

  3. Ramos, na tua viagem (viagem viadão não!), Ágatha Christie te paquerava e não vistes! Lá se foi pela janela teu bilhete premiado. Mas, continuas a viagem olhando com olhos poéticos a paisagem que muda, falando tanto.

    • Maurício: sabes que eu até pensei nessa paquera da Agatha?! Só que eu não me preocupava em reparar, pois o “Dectetive” dela podia querer fazer algo mais com aquele cachimbo dele. Pra lá quesse negócio, siô! Li todos os livros da Ágatha. Li na década de 70, quando morava no Rio e comprava com mais facilidade. Acho até que eu era um dos passageiros do Expresso do Oriente.

  4. Dom José de Oliveira Ramos:

    Como sempre – pois não é nenhuma novidade – mais um texto primoroso, mais um presente para nós, fubânicos.

    Amigo, gostaria muito de conversar contigo, de preferência por telefone – deixa comigo a ligação!!! – pois aí o bate-papo flui melhor.

    Fica ao teu critério, o como posso fazer.

    Aguardo a tua resposta por aqui, já que não sei de que outra maneira.

    • AAA: autorize ao Berto repassar o teu e-mail para mim. Manterei contato via e-mail e a gente evolui a conversa para outro meio.

  5. Sancho é leitor voraz e bebe na fonte de gigantes da literatura, alguns deles, como ZéRamos, batendo ponto nesta nossa biblioteca, a Biblioteca de Alexandria Fubânica, apelidada de Jornal da Besta Fubana, repleto de colunistas maravilhosos.

    Deixo, de passagem, algumas dicas de leitura daqueles fantásticos seres de luz que fazem do escrever continuismo da própria mão, como aqueles… Aqueles que conheci e estimei, como Fernando Sabino, Luiz Berto Filho e Ana Cristina Cruz Cesar.

    Aqueles que eram autores «cá de casa», como Bergman, Cervantes e Hesse.

    Aqueles de quem gosto muito, como Oscar Wilde, Antonioni ou Mailer.

    Aqueles que li com gosto, como Fernanda Botelho, José Rentes de Carvalho, Elizabeth Hardwick, Ryszard Kapuściński, Alberto Lacerda, Grace Paley, e Kurt Vonnegut.

    Aqueles que respeito intelectualmente: René Rémond, Voltaire e Richard Rorty.

    Aquele James Jones que recordo acima de tudo por causa de Deborah Kerr (From Here to Eternity).

    • Sancho, és um “viajante” inveterado, carimbador de passaporte, tirador de botador de óculos (tem quem já precise usar óculos para ler – e isso é apenas um bom sinal). A gente também peca. E eu sou um pecador contumaz no que tange à leitura. Tenho uma coleção de publicações da Editora Nova Aguilar, que nunca “abri” um único livro. Detalhe: li muitos livros e autores dessa editora, antes mesmo de comprar a coleção. Manuel Bandeira, Eça de Queiroz, etc.

      • Eça era leitura obrigatória de meu velho “purtuga” pai Nelson Pança (ele só lia os escritores da terrinha), que gostava também de Pessoa, o Fernando.

        Foi através de meu pai que conheci o genial José Rentes de Carvalho, um gigante da literatura lusa.

    • Paulo, viagem boa mesmo é de trem. Viaje sempre do lado da janela. A melhor hora para viajar é sempre após as 10, banho tomado ant5es do almoço. Boa viagem na leitura, amigo!

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