JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O LUAR MILAGROSO

Lua vista da rede na latada

“Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Oh que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão”

O trabalho do dia foi cansativo. Sol forte, muita coisa para fazer e uma boa caminhada da roça até a casa. Depois, mais uma boa caminhada para o banho no açude. A volta para casa sob o manto da escuridão.

É chegada a hora do descanso. O jantar ainda não ficou pronto. Mas vai ficar – e quando estiver pronto, a “véia” avisa chamando. A “véia” não é tão “véia” assim. Em abril completou 38 anos de idade, amizade e companheirismo e a boa condução no correto encaminhamento da prole – cinco filhos.

A rede está armada no alpendre. Taco o pé na parede, para ganhar impulso, e me delicio com o barulho feito pelo armador (escápula) no balançar da rede pra lá, e pra cá. É bom, é gostoso. É reconfortante, pairando dúvida se o bom é o balanço, o barulho ou o direito ao descanso. Creio que tudo junto.

Distante dali milhares de anos luz, a poesia visual da lua com a moldura imaginária do som “saxofoneado” do armador, faz esquecer o sol quente, o trabalho em quantidade, e nos leva ao gozo do descanso.

“Lua, Lua cheia
Que nasce nos meio das águas
Que brilha na Ponta d’Areia
Que finge morrer e desmaia
Nos braços de uma sereia
Ó Lua”

Em meio a todo aquele momento romântico, a “véia” se aproxima e diz:

– O jantar tá pronto. Posso botar?

Naquele instante mudo o olhar da direção da lua, e vejo a “véia” com seus 38 anos, da mesma forma como a vi pela primeira vez, quando tinha apenas 22. Respondi:

– Antes, sente por um momento aqui na beiradinha da rede. Veja como a lua está bonita!

Ela sentou e eu aproveitei para puxá-la inteira para dentro da rede. Como se fora uma mágica, ela deitou e colocou a cabeça sobre o meu peito, enquanto eu acariciava seus cabelos, e disse:

– É verdade! A lua tá muito bonita!

O olhar mágico e milagroso para o luar

Carícias mil. Todas que conhecíamos. Amor. Prazer do gozo. Parceria e afirmação do envolvimento de anos de convivência saudável e respeitosa. E a lua como testemunha.

– Bem, esqueci de “apagar o fogo”!

Como se conhecesse todos os versos de todas as poesias de J. G. de Araújo Jorge, ousei dizer:

– Calma! Vamos primeiro “apagar este fogo” aqui!

E nos envolvemos mais uma vez. Mais amor. Mais prazer e mais olhares para o milagre da lua.

Agora, balançamos os dois na rede, embalados sob o luar e o som “saxofoneado” do armador.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

POR QUEM DANÇAM AS BAILARINAS?

Um ensaio para si mesma

Juvenal Portela, era o nome da “fera”. Foi meu Professor de Técnica de Redação (Jornalismo) na Universidade. Trabalhou nos jornais O Globo, Jornal do Brasil e teria sido Chefe de Reportagem num desses jornais da Cidade Maravilhosa.

Foi com ele que aprendi que, “Jornalista que se preza” tem que escrever sobre qualquer assunto. Se não tiver o necessário conhecimento técnico sobre o assunto, tem que pesquisar.

E foi isso que fiz. No começo, não enfrentei muitos problemas, pois minha graduação reforçou ainda mais meus conhecimentos gráficos (trabalhei quase duas décadas como gráfico numa Editora que, além de impressos fiscais, imprimia apostilas e livros) que me serviram na profissão.

Quando mudei para São Luís, fui ser Cronista Esportivo. Repórter e Editor de Esportes – chefe de mim mesmo.

Foi quando aprendi que, na prática da modalidade Natação, uma grande parcela dos atletas nadam a partir de aconselhamento médico para corrigir problemas crônicos de asma e outros que tais.

Não é diferente para as meninas que aprendem a praticar Ballet. Algumas se iniciam para corrigir postura física – e um número muito menor tem como objetivo, a arte.

E essas borboletas humanas são as que se transformam na busca da realização pessoal, vivendo sonhos, ou, “representando as mães” que, por algum motivo desejariam, mas não conseguiram pisar num palco. Estão sempre nos camarotes ou na plateia. Sentem-se “representadas” nos palcos, digamos.

As borboletas que saem de casulos e metamorfoses diferentes

Longe de ser uma Agrippina Vaganova, Alicia Alonso, Ana Botafogo, Aurélie Dupont, Fanny Elssler, Márcia Haydée, Maria Alexandrova, Marie Taglioni, Martha Graham, Pina Bausch, conscientemente, a jovem busca seus sonhos.

Durante dias, meses e anos, os treinamentos entre barras fixas, pirueteiras, anel de pilates, calça para aquecimento e elástico thera-band. E, claro, calos, feridas nos pés, unhas encravadas e muitas broncas substituindo os aplausos que ainda estão por vir.

Os pés das bailarinas medem a procura do sucesso

Anos e anos se passam. A exigente professora que busca em cada aluna a perfeição de uma bailarina, finalmente anuncia que o dia da estreia pode estar mais próximo que o amanhã. Nada mais é que uma preparação psicológica, e a certeza do esmero na caça da perfeição, quando o corpo pisar no palco, ou, quando o solo for anunciado no programa.

Mais treinos. Mais esforços entre barras fixas e pirueteiras que se amoldam à trilha sonora: “O lago dos cisnes, Quebra Nozes ou A filha mal criada”?

Mais treinos. Mais sincronismo. Mais tudo, e, com certeza, mais ferimentos nos pés.

Será que o sofrimento do passado, as feridas, o “deixar tudo de lado e correr atrás da perfeição na arte” – será que tudo vai valer à pena?

Trocando feridas pelos aplausos

A semana da estreia. Em meio a tanto aprendizado e sofrimento, o flutuar do voo com a leveza das borboletas não mais em mutação, mas, agora, em exibição.

A concentração para a boa reciprocidade dos aplausos – nada de subir nas tamancas. O lugar do brilho é o palco e o caminho é a perfeição da dança procurada entre barras fixas, broncas e piruetas durante anos em treinamentos.

A preparação psicológica conta. As feridas nos pés e os calos foram quase insuportáveis. Mas, as borboletas não sofrem – apenas voam e escrevem poemas nas piruetas.

Assim, como os treinos na busca da perfeição ferem e machucam, nunca será exagero relembrar que as borboletas um dia foram lagartas, sofreram e se transformaram dentro de um minúsculo e desconfortável casulo.

Pois, que venha a estreia!

Que venha o teatro superlotado!

Que venham os aplausos!

Tudo, enfim, servirá como mais um aprendizado. Agora, sem barras fixas, pirueteiras ou pés feridos.

O ensaio final e a hora do palco

Últimos detalhes.

As cortinas se abrem.

Um foco de luz especial em forma de estrela, um som inicial de sinfonia que se soma com a expectativa da plateia.

A dança. A perfeição copiando o voo das borboletas. Emoção pura.

E a beleza se segue por minutos, horas e deveria seguir pela vida inteira no palco que estamos todos representados. Homens e mulheres. Pais e mães

E, finalmente uma resposta que jamais virá:

Por quem dançam as bailarinas?

As flores gratificam a perfeição

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MINHA CANETA PARKER E MEU CADERNO AVANTE

Todo dia era assim. Do início do ano de 1953, até o fim do ano 1957, chovesse ou fizesse sol, a rotina era a mesma: acordar e levantar, tomar café com nada (o pão era levado para a merenda na escola), vestir a roupa e caminhar 8 km na ida, e mais 8 km na volta.

Às vezes precisava andar muito rápido e, noutras vezes, uma corridinha se fazia necessária – tudo para não chegar atrasado, pois o portão de entrada era fechado quando a oração terminasse e todos entrassem para as salas de aulas.

Grupo Municipal São Gerardo. Curso Primário de quatro anos, hoje denominado Fundamental ou Básico. O quinto ano, às vezes desnecessário, era denominado Curso de Admissão. Admissão à quem pretendia cursar o ginasial e científico, hoje chamado de ensino médio. Era tudo quase que a mesma coisa.

“Quase”, eu escrevi. Havia uma diferença: as professoras sabiam o que ensinavam, e tinham ascendência moral e intelectual para cobrar a atenção dos alunos. Se não cobrassem, a direção da escola cobraria (inclusive, delas). Era diferente de hoje, ou não?

O acesso ao pátio da escola era uma vitória diária. Dava até para escutar os toques rítmicos das trombetas, anunciando que mais um dia de aulas estava sendo iniciado.

Reunidos no pátio, todos com os cadernos Avante às mãos, era cantado do início ao fim, o Hino Nacional Brasileiro. Ao fim, a oração de agradecimento e pedidos de desejos de saúde, ali e em meio à família.

Era, com certeza, uma escola onde se ensinava e se aprendia. Sem frescuras, sem viadagens ou despertar da curiosidade a caminho da homossexualidade masculina ou feminina. Era, repito, uma escola.

Leitura de livros em alto e bom som. De pé. Os erros nas pronúncias das palavras ou quaisquer outros, eram corrigidos na hora pelas professoras.

– José, levante! Abra o livro na página 38, e leia. Ordenava a professora Mundica.

– Durval, levante, e leia a partir de onde José parou!

Era assim. E todos liam e mostravam o que estavam estudando e aprendendo.

Dois períodos letivos durante o ano. Ao fim de cada um, provas. No final do ano, as provas finais. Provas escritas de todas as matérias lecionadas na grade curricular.

Havia reprovação, sim. Diferente de hoje, que os professores aprovam alunos que não aprenderam nada (na maioria das vezes por culpa dos próprios professores – que não dominam as matérias e, às vezes, sabem menos que alguns alunos, mas possuem “doutorado”). Mas, havia também a aprovação e o reconhecimento da escola e das professoras.

Ao final do ano de 1956, tirei o primeiro lugar da classe. Recebi um calhamaço com as provas, amarradas com fitas verde, amarela e azul. Primeiro lugar, com apenas uma nota 8,5 em Canto Orfeônico. Nas demais matérias, nota 10,0.

De presente, da direção da escola, ganhei uma caneta Parker, que conservo até os dias de hoje. Já se vão 65 anos!

Dona Mundica, a Professora – mais pobre que eu, mas que me preparou no Curso de Admissão ao ginásio, me presenteou com um tinteiro da tinta apropriada para usar na caneta. Parker Quink azul!

Eu amava Dona Mundica – e gostava de vê-la cuspindo o fumo de rolo que mascava. Mas, ela era a minha Professora! E sempre soube mais que eu. Por isso, ensinava.

* * *

AMIGOS: Estou cansado.

Que eu saiba, não estou doente. Apenas cansado. Tenho tarefas mais urgentes, que viraram problemas, e exigem de mim uma breve solução.

ASSIM, RESOLVI ENTRAR DE FÉRIAS, HOJE.

Não sei se volto, nem quando.

Agradeço a atenção e o respeito de todos que, acho, foram espontâneos e fiz por merecer.

Feliz Natal!

Próspero Ano Novo!

Saúde e Paz!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS BOIZINHOS DE MAMONA

O mundo, em especial o Brasil, está enlameado. Assim, como gosto de escrever compulsivamente, vou me voltar a partir de agora, para outras coisas: para a infância, para aqueles que ainda não foram contaminados pelas idiotices dos doutores e dos adultos.

Botar a pipa no ar; relancear sem cerol na linha; jogar peteca para uns e bola de gude ou “cabiçulinha” para outros; jogar e aparar pião na mão, e depois na unha; fazer bola de meia ou, ainda, jogar chuço na areia molhada depois da chuva.

É melhor que perder tempo, lendo tanta bobagem dita nas redes sociais por quem frequentou a escola e fez juramento ético. Mas perdeu tempo na vida: nem aprendeu, nem se transformou em profissional. É doente! Não é útil. Nem para si mesmo.

Pois, decidi ligar a máquina do tempo – será melhor, pois nunca fiz nada que me envergonhasse – e voltar a passear na infância vivida no interior, quando ainda banhava nu no açude, e vestia calças de suspensórios. Quando comia (literalmente) com a mão, fazendo capitão de feijão.

A tarde, depois de fazer os deveres escolares – lembro: não havia merenda escolar, bolsa escola, ônibus escolar, uniforme ou livros doados pelo Governo; mas, lembro também, nem nós nem os professores fazíamos greves – as brincadeiras de jogar castelos de castanhas de caju, soltar pião ou cuidar da fazenda imaginária, onde a boiada era toda uma obra de arte feita com sementes de mamona.

E as vacas eram leiteiras, sim senhor. Se alimentavam também, sim senhor. E até cagavam “aqueles pratos de esterco” que, de noite, eram queimados para espantar pragas e muriçocas.

Não, nenhuma vaca holandesa. Nenhum touro de raça – e a manada era aumentada com uma simples volta debaixo do pé de mamona. Apanhadas ainda verdes, as sementes eram postas à secar.

Tempos bons. Tempos de vaca não conhecer bezerro. Mas… nenhuma ia para o brejo.

* * *

Simonal – o irreverente

Enquanto os escorpiões espalham veneno, e aranhas tecem redes nas redes sociais, numa evidente autodestruição, como se “kamikazes” fossem, eu, esperando a água correr por debaixo das pontes, volto ao tema exageradamente descrito, mas nunca solucionado em definitivo.

Falo da relação que sempre existiu entre a negritude e a competência.

Hoje, relembramos a figura diferenciada de um dos maiores show-man dos anos 60/70, com poderes de atrair a atenção, a preferência e em alguns momentos o bem-querer do povo brasileiro.

Cantor, detentor de esmerada técnica e qualidade vocal, Simonal viu sua carreira entrar em declínio, após o episódio no qual teve seu nome associado ao DOPS, envolvendo a tortura de seu contador Raphael Viviani. O cantor acabaria sendo processado e condenado por extorsão mediante sequestro, sendo que, no curso deste processo, redigiu um documento dizendo-se delator, o que acabou levando-o ao ostracismo e a condição de pária da música popular brasileira.

“Percebi que podia dominar o público. Como, nem sei explicar direito. Descobri o valor da entonação e aprendi que há um segredo na maneira de falar, na maneira de olhar, na maneira de se portar. Quando não gritava, me impunha com o olhar, naturalmente.” (Wilson Simonal)

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O BURRO E EU

Pavio pronto para irmos à Santa Missa

Desde quando meu Avô ficou agradecido pelo meu trabalho bom e rápido na carpina daquelas linhas de roça, e resolveu me presentear com um burro, que passei a conviver mais diretamente com os animais – principalmente com os que consideramos “domésticos”.

Sem muita criatividade e sem ter uma justificativa plausível, passei a chamar aquele burro pelo nome de “Pavio”. Crescemos praticamente juntos.
Era uma amizade que, garantia meu Avô, parecia inseparável.

Conversávamos, até.

Nos entendíamos através de sinais e tínhamos nosso “código de comunicação interpessoal” – na maioria das vezes, por conta da insistência na conversação, parecia que o burro era eu. Nunca me senti ofendido ou diminuído com essa comparação.

Pavio não gostava de cangalha. Provavelmente deve ter ouvido que, cambito e cangalha era para jumento. Ele respondia com um abano de rabo, quando eu preparava uma sela para preparar a montaria.

Certa vez, minha Avó cismou que eu tinha que buscar água no açude, antes de me dirigir à missa dominical. A celebração da missa começava cedo, e o Padre conhecia cada pessoa, pelo nome e por visitar as famílias que frequentavam a paróquia.

Traquinas e moleque como todo cearense, fui no quintal da casa e preparei o junto Roxo para ir pegar dos tonéis de água no açude. Deixei o jumento quase no ponto, faltando apenas a cangalha. Me dirigi até a sombra da mangueira onde Pavio estava ruminando milho misturado com borra de babaçu. Ele, Pavio, viu que eu me dirigia na direção dele, com a cangalha. Nossa Senhora do Pavio Curto.

Praaaa quuuêêê?!

Pense num animal que, de burro, virou uma fera!

Pensou?!

Pois assim foi Pavio.

Parei, pus a cangalha no chão, e disse:

– Caaaalma Pavio!

Nem lembro mais o que falei, e fui fazendo meia volta para levar a cangalha para o jumento Roxo, que ficara no quintal.

Pavio não sabia o que eu ia fazer, mas concluiu que a cangalha não seria colocada nele. Fez aquela conhecida “assopração” que os humanos também fazem com os lábios: fffrrruuuuu!

E era assim que nos comunicávamos. Pavio, o burro, e eu, o Zé.

Quando finalmente passei próximo dele (Pavio), levando o jumento Roxo para apanhar água, ele (Pavio), cavou o chão com a pata dianteira e soltou um pequeno relincho.

Entendi que, na linguagem dele, agradecia, ao mesmo tempo que esperaria minha volta, quando, com certeza, ele (Pavio) me levaria para a Santa Missa.

Na dúvida, pensei:

Ele (Pavio) me levaria, ou eu, o levaria?!

Fui e voltei rápido ao açude. Fiz o que minha Avó mandara. Agora era me preparar para ir à Sant Missa.

Calça branca. Camisa social. Alpargatas de couro com solado de pneu usado.

Quando Pavio me avistou trazendo comigo a sela, voltou a cavar o chão com a pata dianteira, querendo dizer que estava “pronto”. Coloquei a sela sem apertar muito no encilhamento.

Me abaixei e, de dentro do bornal retirei o par de esporas.

Prrraaaaaa quuuuêêêê?!

Pense num burro que virou animal. Pavio detestava ser “tangido” com espora ou chicote. Se alguém estivesse montado e esporasse, ele derrubava.

Fiz sinal pra Pavio com o polegar direito, aquiescendo e garantindo que não colocaria as esporas.

Acho até que eu sorriu levemente, quando viu que as esporas ficaram dependuradas numa das estacas.

Montei e lá vamos à Santa Missa.

Da casa da Vovó até a Igreja era uma boa distância. Coisa de cinco ou seis léguas. Sem que ninguém soubesse quem era o proprietário daquela terra, havia um espaço aberto que todos chamávamos de “capoeira”.

No exato momento que passávamos ao lado da capoeira, Pavio teve a atenção chamada por uma égua que, abrindo as pernas traseiras, soltou aquela mijada “cavalesca”.

Prrrrraaaaaa quuuuuêêêê, siô?!

Pavio saiu em disparada na direção da égua, sem esquecer de, antes, me derrubar. Quando estava tentando me levantar, Pavio já estava inteiro “dentro da égua”, com uma pajaraca que se aproximava dos 60 centímetros.

Tentei impedir, mas já era tarde. A pajaraca de Pavio já estava descendo. Mole! Provavelmente deixando alguma coisa dentro da égua.

Satisfeito, óleo trocado, Pavio fez apenas aquele conhecido:

– Frrrruuuuuu!

Pois, meu domingo terminou ali. Não fui mais à Santa Missa. Resolvi ir até ao açude tomar um bom banho e aproveitar para banhar Pavio também.

Tentando compreender a natureza das coisas e dos animais, acariciei a cabeça de Pavio e percebi que os olhos dele brilhavam feito duas pérolas. Me agradecia pela “pajaracada” que dera naquela égua.

Arre égua!

Pensativo, voltei para casa montando Pavio. E aproveitei para me questionar:

– O burro e eu; ou, eu e o burro?

Eu muitos anos depois do Pavio

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O GENERAL

General Dureza

Hoje nosso passeio será diferente de tantos outros. Vamos esquecer o VLT, passear de mãos dadas com a imaginação. De bonde, trem ou charrete. Façamos o check-in e uma boa viagem, entendendo as mudanças que passaram por nós nessa breve caminhada no planeta Terra. Vamos falar do “generalato”, posto alcançado por direito, empenho, e merecimento.

* * *

GENERAL DUREZA

Amos Dureza (General Amos Halftrack – em inglês, que é o nome original) é um general de mentirinha. De verdade, apenas na “tirinha”, a impagável criação de Mort Walker, início da década de 50, quando a criança se assumia como criança – embora também já soubesse à qual gênero sexual pertencia. Diferente dos dias atuais.

Na linguagem popular (“no popular”) utilizada no Brasil, general Dureza é um verdadeiro “pau mandado” – obedece cegamente a mulher, Martha. Alcóolatra, mais preguiçoso que baiano e maranhense juntos. Ama o golfe, e o “grode”. É um verdadeiro bundão – embora o nome de guerra, Dureza, seja uma ironia.

Um aforismo dedicado ao Recruta Zero, que cai como uma luva na vida do general Dureza: Never let to tomorrow what you can do the day after tomorrow (“Nunca deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã”).

* * *

GENERAL DA BANDA (BLECAUTE)

Blecaute (General da Banda)

Otávio Henrique de Oliveira nasceu em Espírito Santo do Pinhal/SP, a 5 de dezembro de 1919, e faleceu no Rio de Janeiro, a 9 de fevereiro de 1983. Fez sucesso como cantor e compositor brasileiro. Era conhecido pela alcunha de “General da Banda”, devido a seu maior sucesso, a marcha de carnaval homônima.

Quando tinha apenas 6 anos de idade, ficou órfão de pai e mãe, foi levado para São Paulo por conhecidos amigos da família. Na luta pela vida e pela alimentação diária, foi engraxate e jornaleiro.

Em 1933, então com 14 anos, participou do programa de calouros A Peneira de Ouro, na Rádio Tupi. Oito anos depois, isto é, em 1941, já cantava na Rádio Difusora, adotando o nome artístico de Black-Out, mais tarde aportuguesado para Blecaute. Apesar de ser um apelido francamente racista devido a cor de Otávio, ele aceitou como já tinha aceitado coisas piores anteriormente.

No ano de 1942, foi contratado pela Rádio Tamoio, e mudou para o Rio de Janeiro. Democraticamente, e sem contrato de exclusividade, apresentava-se também nas rádios Mauá e Rádio Nacional.

Finalmente chegou o carnaval de 1949, e esse trouxe os grandes sucessos “O Pedreiro Valdemar” (de Wilson Batista e Roberto Martins) e “General da Banda” (Tancredo Silva, Sátiro de Melo e José Alcides), que lhe valeria a alcunha que carregaria para o resto da vida. Blecaute faleceu no dia 9 de fevereiro de 1983, antes mesmo de atingir todas as estrelas do generalato.

“Chegou o general da banda, he he
Chegou o general da banda, he a, he a
Chegou o general da banda, he he
Chegou o general da banda, he a, he a
Mourão mourão
Vara madura que não cai
Mourão, mourão, mourão
Catuca por baixo que ele vai
Mourão mourão
Vara madura que não cai
mourão, mourão, mourão
Catuca pro baixo que ele vai
Chogou o general da banda, he he
chegou o general da banda, he a
General, general
Chegou o general da banda, he he
Chegou o general da banda, he a
General, general
Mourão mourão
Vara madura que não cai
Mourão muorão
Catuca por baixo que ele vai.”

* * *

GENERAL NEWTON CRUZ

General Newton Cruz

Esse, um general de verdade. Saído das fileiras do Exército Brasileiro. Nasceu a 30 de outubro de 1924, no Rio de Janeiro. Newton Cruz atingiu o generalato (Divisão), após ter sido Comandante de várias unidades do Exército, chegando ao Comando Militar do Planalto e ao SNI (Serviço Nacional de Informações).

Newton Cruz é um general de divisão reformado do Exército Brasileiro, notado por sua participação nos serviços de repressão da Ditadura Militar no Brasil entre 1964 e 1985.

Formado pela Escola Militar do Realengo na Arma de Artilharia, Newton Cruz era companheiro de turma do também General Otávio Aguiar de Medeiros, posteriormente seu companheiro na vida político-militar. Em 31 de março de 1964, ele frequentava a Escola de Comando e Estado-Maior (ECEME) na Urca, Rio de Janeiro, quando se iniciou a Ditadura Militar. Newton Cruz foi chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações, entre 1977 a 1983, e do Comando Militar do Planalto.

Em um número de ocasiões foi acusado de crimes cometidos ao longo de sua carreira no Exército. Notadamente, foi acusado pela morte do jornalista Alexandre von Baumgarten, baseado no testemunho do bailarino Claudio Werner Polila. O general negou seu envolvimento e afirmou ter recebido informações sobre a identidade daquele que seria o responsável pelo assassinato, porém negou-se a revelá-las.

Por longo tempo, Newton Cruz foi relacionado ao atentado a bomba do Riocentro, ocorrido em 30 de abril de 1981. Sobre esse atentado, Newton Cruz afirmou que o grupo de militares envolvidos atuou de modo independente com o objetivo de soltar a bomba nas imediações do evento, e que o atentado não tivera a intenção de matar ninguém, teria sido apenas um “ato de presença”. Em entrevista para o canal de televisão por assinatura Globo News, o general disse que impediu um outro atentado, planejado na sequência do Atentado do Riocentro, extrapolando as funções de seu cargo.

Em maio de 2014, Newton Cruz foi denunciado, juntamente com quatro oficiais da reserva do Exército e outros dois réus, por crimes no atentado a bomba no Rioentro, em 1981. Contudo, em julho de 2014 recebeu habeas corpus emitido pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região, por este ter considerado que o crime já estaria prescrito. (Alguns dados foram obtidos no Wikipédia)

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A POMBA DA PAZ

A pomba branca da Paz

Segundo dados oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), este país continental “tinha”, de acordo com o mais recente censo demográfico, pouco mais de 213 milhões, que poderia ser acrescentado com mais de um milhão de não-registrados oficialmente – e, isso, já descontando, também, as mais de 600 mil vítimas recentes creditadas à C-19.

Produzir alimentos para essa gente toda, convenhamos, é tarefa hercúlea.

Isso, por si só já seria difícil, não fosse também a diferença de clima e precipitação pluviométrica nas diferentes regiões. Lugares que o excesso de chuvas castiga, e lugares onde não cai um único pingo. E, nesses lugares onde não cai um único pingo, a vida com base na agricultura ou na pecuária é um castigo. A chuva e a água são dádivas divinas.

Quem nasceu, cresceu e ainda vive onde a chuva molha mais que o que deveria, não faz a mínima ideia do sofrimento de quem nasce, vive e não consegue sair de onde não cai um único pingo.

Os sortudos e abençoados das regiões ricas em tudo, ainda por cima aderem à idiotice do “politicamente correto” e tudo que lhes empurram pelo ouvido como se um cotonete fosse, acreditam e defendem. Nunca passaram um único dia sem três ou quatro banhos, imagine sem a disponibilidade de uma caneca d´água para beber.

“Acauã, acauã vive cantando
Durante o tempo do verão
No silêncio das tardes agourando
Chamando a seca pro sertão
Chamando a seca pro sertão
Acauã”

Carregado especialmente de uma emoção social e humana, o reconhecimento de quem um dia viveu ou foi obrigado a enfrentar os dissabores do dia a dia regional do trecho por onde hoje semeiam vida as águas da transposição do Rio São Francisco. Não há nenhuma conotação política nesta minha afirmação – reconheço e agradeço.

Dito isso, vamos ao factual.

Viriato Souza, era um cearense nascido em Orós, mais propriamente em Guassussê, distrito municipal, onde a população que ali sofria era de aproximadamente 2.880 habitantes. Situado a cerca de 18 km da sede municipal, o distrito oferecia naqueles tempos idos dos anos 50 e 60, entre outras opções de lazer, a oportunidade de um delicioso banho – nos dias atuais – no pequeno riacho que corta o distrito conhecido como “Balneário do Trapiá”. Antes, o que é hoje o Trapiá, não passava de uma lagoa de chão rachado.

Durante a seca braba, de matar de fome, a preocupação maior era com a alimentação. E, procurar o que comer, fosse o que fosse, era a labuta diária dos sofredores.

Viriato fazia isso. Caçava e matava “avuantes”, que outros conhecem como “ave de arribação” (arribaçã, para os matutos). A ave era comum naquelas paragens, por conta da escassez de alimento – também para elas. Voavam em magotes, daí ser conhecida por ali, também, como “pomba de bando”.

É uma pomba. Um pouco maior que uma rolinha e menor que um pombo comum.

– “Quem quiser matar mais de um cento de avuantes, basta atirar e acertar na primeira que vai avuando na frente, pois as outras vão acompanhar” – dizer do matuto cearense.

“Avuante” (pomba de bando ou arribaçã)

“Acauã,
Teu canto é penoso e faz medo
Te cala acauã,
Que é pra chuva voltar cedo
Que é pra chuva voltar cedo
Toda noite no sertão
Canta o João Corta-Pau
A coruja, mãe da lua
A peitica e o bacurau.”

Como dito acima, sem chuva que fizesse nascer e crescer o que fora semeado (na verdade, jogado fora) no roçado, Viriato não tinha outro trabalho, a não ser caçar.

Diferente do que teorizam alguns que nunca passaram fome, “caçar para comer e dar de comer aos dependentes, não é maldade”. É a mais digna forma de sobrevivência.

Viriato caçava camaleão (iguana), mucura, teiú e até cobra se aparecesse. Diferentemente dos sulistas que vão aos restaurantes e saboreiam salmão, truta, atum, lagosta e camarão ou até o “scargot”, Viriato andava em todos os córregos à procura de aruás.

“Na alegria do inverno
Canta sapo, gia e rã
Mas na tristeza da seca
Só se ouve acauã
Só se ouve acauã
Acauã, Acauã…”

Faça por onde, e Deus certamente te ajudará. Dizem os antigos mais antigos que eu. Viriato encontrou numa moita de mofumbo, um ninho de galinha d´angola com mais de duzentos ovos.

– Não são meus! Não vou mexer.

Mais à frente, Viriato encontrou algumas galinhas mariscando o chão na tentativa de descobrir alimento para os pintos. Viriato resolveu que também não deveria se apossar do que não lhe pertencia. Continuou andando. Foi quando levantou a vista e viu a casa onde moravam Ambrósio e Quitéria.

Antes mesmo de se anunciar, Viriato observou que, distante da casa havia um pombal. Os proprietários mantinham aquele pombal um pouco distante da casa, para evitar a proliferação de doenças que os pombos transmitem.

Pombo Correio

Quando pensava em desistir de fazer uma bobagem, Viriato lembrou o que deixara em casa para a mulher Cícera e os oito filhos comerem, o mais novo com apenas 10 meses de idade. Naquele momento a fome falou mais alto. Falou tão alto que deu para escutar o eco, ainda que naquelas imediações não existissem “cânions”. Só fome e seca.

Com o saco que carregava para servir de matulão e carregar alguma caça abatida, Viriato cobriu a passagem de várias casas de pombos. Dali foi pegando e torcendo o pescoço de cada um – eram todos pombos correios, que Ambrósio criava para vender por alto preço.

Entre os que foram pegos, havia até um beleza de pomba branca, que Ambrósio recebera encomenda de Orós para os festejos do Divino Espírito Santo.

No caminho de volta à casa, Viriato procurou uma boa sombra de catingueira, sentou e “depenou” os oito pombos, para dificultar que Cícera percebesse.

E todos foram devidamente assados e comidos, como se avuantes fossem.

Matar algo para matar a fome

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CRIANÇA – O ALÇAPÃO – E OS PÁSSAROS

“Toda criança precisa ter contato com o chão, brincando descalça – para contrair as bactérias defensivas do corpo.” – Raimunda Buretama (minha Avó), uma analfabeta que nunca entrou numa escola.

Criança brincando na beirada do rio

Hoje vamos pegar o túnel do tempo, e “voltar para o futuro”. Relembrar as feridas dos “chaboques” feitos nos dedos dos pés jogando bola no piso duro do chão; tentando (e conseguindo) derrubar e roubar mangas e goiabas no pomar dos vizinhos; tocar a campainha na frente das casas e sair em disparada – práticas da infância que o tempo levou, e que nos fez “filhos que eram castigados pelos pais e mães” e os obedeciam e respeitavam.

Esses filhos que estão aí, hoje, não são nossos. São dos conselheiros tutelares – que nossos filhos abriram as portas de suas casas para eles entrarem e determinarem os hábitos, a educação e a alimentação.

Esses filhos que estão aí, hoje, só são nossos para pagarmos pensão alimentícia – e esperar a hora que, certamente, nos “depositarão” num asilo e continuarão a receber nossas aposentadorias.

Mas, jamais vamos dizer que nenhuma criança de antigamente fazia por merecer os castigos que recebia dos pais. Da mesa forma, também jamais diremos que criança fazia tudo certo ou, tudo de acordo com o atual “politicamente correto”.

Mas, era a nossa fórmula encontrada para sermos felizes. Para sermos crianças. Para sermos gente e parte de uma família difícil de ser destruída. Como acontece nos dias de hoje.

Também fazíamos coisas erradas. Hoje receberiam o rótulo de “politicamente incorretas”.

E uma dessas coisas erradas que fazíamos, era “criar passarinhos”. Pelo prazer inocente de ouvi-los cantar. Por ignorância, digamos.

Alçapão para pegar passarinhos

Durante as férias escolares, ou aos domingos e feriados, a rotina era a mesma: duas gaiolas-alçapão em cada mão, e lá íamos à caminho da Lagoa da Agronomia.

Ali, por conta da quantidade de água e pelo capim existente, era comum “pegarmos” passarinhos. As gaiolas eram armadas na cerca. Os passarinhos eram quase sempre o papa-capim, o bigodeiro, o gola (coleiro) e o caboclinho (caboclo lindo). Mas, de vez em quando aparecia um curió.

Papa-capim “virado”

Aquelas manhãs eram tomadas pela ansiedade de “pegar passarinhos”. Os passarinhos pegos, nem sempre eram aceitos. Quando pegávamos algum que não nos agradava, soltávamos para que ele fosse viver a vida em liberdade. Era assim, com o “tiziu”, um pequeno pássaro preto que se alimenta do mesmo capim preferido pelo papa-capim e pelo caboclinho.

O tiziu tem uma característica de vida e de canto. Ele canta, voa e “cai na vertical”. Esse não tem tanto a preferência dos “passarinheiros”. E isso se dá por conta da dificuldade para encontrar no comércio especializado algum tipo de ração para ele.

O tiziu é, digamos, um pássaro chato. Perturbador.

Tiziu “virado”

Hoje, muitos anos depois daquela maldade inocente, temos consciência que o melhor para as aves é a alegria de viverem soltas. Procurando e encontrando sua própria ração, praticando seus voos, reproduzindo no habitat que melhor lhe convier.

E, cantando para a nossa alegria.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SAUDADE NÃO MATA – SÓ AJUDA A VIVER

Selecionado “Cacareco” que derrotou a seleção alemã na Ilha do Retiro

“Nado está melhor do que Garrincha.”

(A declaração do técnico da seleção alemã Helmut Schoen)

O goleiro era Dudinha, que se transferira do Central para o Sport, contando o restante da equipe com: Gena (Náutico), Alemão (Sport), Baixa (Sport) e Jório (Santa Cruz); Gojoba (Sport) e Ivan (Náutico); Nado (Náutico), Bita (Náutico), Pelezinho (Sport) e Lala (Náutico). Eram sete pernambucanos, dois maranhenses, um paraibano e um paulista. No transcorrer da partida entraram mais dois pernambucanos: Toinho, do Náutico, substituiu Jório, e Nino, também do Náutico, entrou no lugar de Pelezinho.

O meio-campo acertou. Naquele tempo jogava-se no 4-2-4. Alimentando o ataque estava Ivan, que fazia o mesmo serviço no quase tricampeão Náutico, enquanto o volante rubro-negro Gojoba ficava na marcação, porém, um pouco mais adiantado.

O também rubro-negro Pelezinho, maranhense como Gojoba, descia um pouco para buscar o jogo. Na frente, Bita, um atacante de altíssimo nível, atento, criativo e oportunista, possuindo assim, todas as virtudes do goleador. Os alemães tinham informações sobre o potencial do chamado Homem do Rifle e procuraram marca-lo de perto.

Na extrema-direita, para abrir a defesa, Nado, irmão de Bita, e grande driblador. Só que nado não fez a partida que se esperava e mesmo assim levou Schoen a considera-lo em melhor fase do que Garrincha. Vale salientar que foi de uma falta cometida em Nado que o jogo se decidiu.

Aos 39 minutos do segundo tempo, Nado foi derrubado nas imediações da grande área, criando mais um momento de expectativa na Ilha do Retiro. Ele mesmo se encarregou da cobrança. Companheiro de Nino, emérito cabeceador que substituíra Pelezinho, Nado cruzou fechado. O goleiro alemão Mangletz afastou de soco, e Gojoba, que vinha de trás, completou para a rede.

A Ilha do Retiro foi ao delírio. Dali para a frente foi só segurar o placar, pois só faltavam seis minutos. Pernambuco dobrava o time alemão, para felicidade de Rubem Moreira, que dava assim a resposta aos cartolas da CBD.”  – Lenivaldo Aragão e Fernando Menezes. Jornal do Comércio, 22 de maio de 2000.

Hoje resolvi dar um passeio pelo futebol. Desde 1965 estou envolvido com o futebol. Nunca fui jogador. Fui Árbitro profissional, atuando na então FCD (Federação Cearense de Desportos) e, depois, na Federação Carioca de Futebol.

Tenho visto e discordado com a desmoralização que a FIFA está empurrando goela à baixo das confederações, com a obrigatoriedade da implantação do VAR que, no Brasil – país de hábitos diferentes do resto do mundo – não está “ajudando” em nada. Pelo contrário, está tirando a autoridade do Árbitro central que, ainda que esteja a dois metros de algum lance e tenha a sua própria interpretação e decisão, tem que ouvir e adotar o que o VAR determina. Uma merda.

Quanto ao futebol propriamente dito, na noite de quinta-feira vimos uma sofrível seleção brasileira confirmar a classificação para a próxima Copa do Mundo, atuando diante adversários que nunca ofereceram resistência alguma. E isso fez com que todos passassem a acreditar que a conquista de mais um mundial será uma barbada.

O Brasil está praticando o futebol onde o mais importante é a “posse de bola” e a juventude passou a elogiar mais o jogador que “faz a assistência (passe final)” que o próprio goleador. O que se vê, sempre e em todos os jogos, é um toque lateral ou um toque para trás. Sem verticalidade, sem objetividade e, claro, sem gols.

Tenho visto, também, com muita preocupação a situação técnica e administrativa-financeira de clubes que algum dia foram a razão de ser do futebol brasileiro: Santos, Cruzeiro, Botafogo, Vasco, Grêmio, São Paulo. Não tem sido diferente a penúria de Náutico, Santa Cruz e Sport Club Recife, além de Esporte Clube Bahia e Vitória.

O futebol brasileiro também passou a ser vítima do “politicamente correto” e, hoje, o que mais se vê, são protestos e mais protestos contra alguém que, indignado com a qualidade do futebol que seu time de preferência está praticando, rotula esse ou aquele jogador de “macaco” de “negro” ou algo semelhante. Uma verdadeira babaquice – e os babacas perdem tempo procurando uma solução. Mas, continuam afirmando e acreditando na teoria de Darwin.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A BIFURCAÇÃO NO AMOR

Os “Anos dourados” foram uma época do romantismo puro e exacerbado com fortes contornos de respeito mútuo, que existiu nos anos 50 e se prolongou até o final dos anos 70. Pois, foi nesse período que a literatura conseguiu exercer forte domínio numa geração que gostava de ler e abria todas as comportas para a saída das emoções e a recepção de outras tantas.

Poemas de J. G. de Araújo Jorge (“Sempre que te encontro, é pra sempre. Sempre que me afasto, é pra nunca, e já que nunca mais te encontro… é pra sempre.”) e de Florbela Espanca (“Eu quero amar, amar perdidamente. Amar só por amar.” Era os motes que a juventude apaixonada sabia de cor e vivia intensamente. Como se conselhos fossem.

Entre tantos e apaixonados jovens, Gessé e Alcina não poderiam ser diferentes. Amavam. Amavam tanto que a auréola do respeito trabalhava também como se uma forte redoma fosse. Um amor puro, dentro de uma redoma de vidro blindado.

Mas nem tudo começou tão facilmente. Gessé trabalhava numa empresa multinacional do ramo das comunicações e ali conheceu Kátima, também funcionária da empresa. Os dois passaram a conversar mais assiduamente, dando a entender para alguns que um namoro estava nascendo. Nada além de amizade.

Os assuntos das muitas conversas eram quase sempre sobre livros, literatura e preferências pessoais de um e de outro. A amizade fortaleceu-se e até espraiou-se por outros lugares, como bares e lanchonetes.

Num desses encontros furtivos, aparentemente sem qualquer segunda intenção, Kátima citou o nome de uma irmã: Alcina, alguns poucos anos mais idosa que ela. O nome passou despercebido por Gessé que, naquele momento, com namoro fixo com outra jovem distante dali, não estava interessado em trocar fulana por beltrana. Era apenas um encontro e mais uma conversa entre amigos de trabalho numa das muitas horas vagas.

A literatura sempre tinha ponto importante nas conversas entre os dois amigos. Machado de Assis, Lima Barreto, Agripa Vasconcelos e os que dominavam as mesas literárias naqueles tempos, J. G. de Araújo Jorge e o escritor francês Antoine du Saint-Exupèry, cuja obra viraria obrigatória e alguns livros se tornaram “livros de cabeceira” de muitos.

Eis que, como se pretendesse insistir, Kátima voltou a citar Alcina, assegurando que a irmã era fervorosa apreciadora dos títulos “Terra dos homens” e d´o “Pequeno príncipe”, além de “Vôo noturno”, todos escritos pelo escritor-aviador.

Aquela insistente dica, pode-se dizer, aproximou Gessé de Alcina e os dois finalmente foram apresentados formalmente. Nascia ali algo diferente, parecendo que ambos já se conheciam há séculos. Empatia pura.

Encontros, encontros e mais encontros. Nascia um namoro, respeitoso como todos daquela época. Namoro em casa, com hora para chegar e para sair. Passeios, quase nenhum. Era assim que os dois se satisfaziam.

Por motivo alheio à vontade dos dois, Gessé precisou se ausentar da cidade onde morava. Um rompimento brusco mudaria quase tudo. Algo que tomava ares de um belo quadro não pôde continuar sendo pintado. Foi morar no sudeste, de forma definitiva. Fincou raízes.

O tempo, dizem, muda tudo. Ou não. Em alguns casos pode até enfatizar mais ainda. E isso realmente viria acontecer naquele relacionamento que tinha tudo para dar certo. Algo poético, bonito, puro – tudo levava para a formação de uma bela família.

Quando tudo parecia consumado, uma surpresa. O telefone toca à procura de Gessé. A suavidade e a beleza da voz feminina ajudaram a identificação, apesar do distanciamento de alguns meses. Era Alcina do outro lado da linha. Telefonema vindo da cidade onde os dois iniciaram um poético envolvimento.

– Bom dia!

Surpreendido por receber tão poucos telefonemas, Gessé atendeu:

– O quêêê?! É vocêêêê mesma?!

Demonstrando alegria incontida por ter alcançado seu objetivo, Alcina apenas confirmou:

– Sim! Sou eu mesma. Estou aqui e quero me encontrar contigo, de preferência hoje.

Lamentando ter que adiar um encontro que com certeza seria bom, Gessé respondeu:

– Hoje, infelizmente, não será possível, pois tenho uma prova na faculdade. Pode ser amanhã?

Com tudo planejado conforme imaginara, Alcina diz radiante:

– Pode, claro. Só vou embora após esse nosso encontro.

Pegando algo para anotar, Gessé responde:

– Me passe o endereço de onde você está. Pode ser à noite?

Alcina, mais feliz ainda, responde:

– Melhor que seja a noite, sim.

A distância para o deslocamento não era tão grande, e a noite era apenas uma criança. Sem pressa, Gessé se dirigiu ao encontro. Chegou no endereço anotado. Tocou a campainha da portaria, no que foi prontamente atendido.

– Vim falar com uma senhora que está me esperando no apartamento tal, disse Gessé ao porteiro.

– Um minuto só. Preciso confirmar.

Após falar pelo interfone, o porteiro veio e abriu a porta, autorizando o acesso.

Gessé entra no elevador e sai no andar previsto. Toca a campainha da porta e essa é aberta por uma verdadeira deusa. Linda, sorridente, com cabelos compridos compondo a moldura de um corpo pequeno e atraente. Um longo abraço e um beijo demorado selavam e reiniciava um namoro que o tempo interrompera.

Uma bebida foi servida. A porta de um quarto se abriu e dele saiu Germana, uma amiga. Aproveita para um rápido cumprimento e sai para se divertir, sabendo que havia algo programado para acontecer.

– Gente, boa noite, e fiquem à vontade!

Sós, Gessé e Alcina conversaram minutos e horas. Alcina pediu licença e foi ao banho. Ao sair do banho voltou ao quarto e pôs roupa de dormir – ou, de deitar! – e voltou para continuar a conversa.

Gessé era a visita. Sugeriu banhar também, mas não tinha roupa limpa para trocar. Alcina ofereceu-lhe uma toalha e o roupão que provavelmente seria de Germana. Nada de constrangimento. Afinal, os dois estavam a sós no apartamento.

Na volta do banho, Gessé percebeu que Alcina usava uma roupa de dormir muito fina, quase totalmente transparente. Observou, também, que a namorada usava por baixo dessa roupa, apenas uma calcinha preta, e sem o sutiã.

Conversas. Troca de carinhos. Beijos prolongados, enquanto o tempo passava rápido, caminhando para o dia seguinte.

Em vez de pegar Gessé pela mão e conduzi-lo para o quarto e para a cama, Alcina voltou ao banheiro, escovou os dentes e foi deitar. Tudo que poderia ter acontecido naquela noite acabou ali. Não aconteceu a noite de amor e sexo, que talvez os dois quisessem. As gerações daqueles anos não tinham pressa nem maldades.

Gessé imaginava casar com Alcina. Casamento cheio de pompa, católico e civil, com familiares e padrinhos e, só então, a realização da lua de mel paradisíaca.

As coisas acontecem quando estão destinadas a acontecer. Tudo tem seu dia e hora. Se os dois estiverem unidos pelo destino, ainda que noutro plano o encontro acontecerá e a felicidade será completa.