JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O mundo, em especial o Brasil, está enlameado. Assim, como gosto de escrever compulsivamente, vou me voltar a partir de agora, para outras coisas: para a infância, para aqueles que ainda não foram contaminados pelas idiotices dos doutores e dos adultos.

Botar a pipa no ar; relancear sem cerol na linha; jogar peteca para uns e bola de gude ou “cabiçulinha” para outros; jogar e aparar pião na mão, e depois na unha; fazer bola de meia ou, ainda, jogar chuço na areia molhada depois da chuva.

É melhor que perder tempo, lendo tanta bobagem dita nas redes sociais por quem frequentou a escola e fez juramento ético. Mas perdeu tempo na vida: nem aprendeu, nem se transformou em profissional. É doente! Não é útil. Nem para si mesmo.

Pois, decidi ligar a máquina do tempo – será melhor, pois nunca fiz nada que me envergonhasse – e voltar a passear na infância vivida no interior, quando ainda banhava nu no açude, e vestia calças de suspensórios. Quando comia (literalmente) com a mão, fazendo capitão de feijão.

A tarde, depois de fazer os deveres escolares – lembro: não havia merenda escolar, bolsa escola, ônibus escolar, uniforme ou livros doados pelo Governo; mas, lembro também, nem nós nem os professores fazíamos greves – as brincadeiras de jogar castelos de castanhas de caju, soltar pião ou cuidar da fazenda imaginária, onde a boiada era toda uma obra de arte feita com sementes de mamona.

E as vacas eram leiteiras, sim senhor. Se alimentavam também, sim senhor. E até cagavam “aqueles pratos de esterco” que, de noite, eram queimados para espantar pragas e muriçocas.

Não, nenhuma vaca holandesa. Nenhum touro de raça – e a manada era aumentada com uma simples volta debaixo do pé de mamona. Apanhadas ainda verdes, as sementes eram postas à secar.

Tempos bons. Tempos de vaca não conhecer bezerro. Mas… nenhuma ia para o brejo.

* * *

Simonal – o irreverente

Enquanto os escorpiões espalham veneno, e aranhas tecem redes nas redes sociais, numa evidente autodestruição, como se “kamikazes” fossem, eu, esperando a água correr por debaixo das pontes, volto ao tema exageradamente descrito, mas nunca solucionado em definitivo.

Falo da relação que sempre existiu entre a negritude e a competência.

Hoje, relembramos a figura diferenciada de um dos maiores show-man dos anos 60/70, com poderes de atrair a atenção, a preferência e em alguns momentos o bem-querer do povo brasileiro.

Cantor, detentor de esmerada técnica e qualidade vocal, Simonal viu sua carreira entrar em declínio, após o episódio no qual teve seu nome associado ao DOPS, envolvendo a tortura de seu contador Raphael Viviani. O cantor acabaria sendo processado e condenado por extorsão mediante sequestro, sendo que, no curso deste processo, redigiu um documento dizendo-se delator, o que acabou levando-o ao ostracismo e a condição de pária da música popular brasileira.

“Percebi que podia dominar o público. Como, nem sei explicar direito. Descobri o valor da entonação e aprendi que há um segredo na maneira de falar, na maneira de olhar, na maneira de se portar. Quando não gritava, me impunha com o olhar, naturalmente.” (Wilson Simonal)

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