JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Pavio pronto para irmos à Santa Missa

Desde quando meu Avô ficou agradecido pelo meu trabalho bom e rápido na carpina daquelas linhas de roça, e resolveu me presentear com um burro, que passei a conviver mais diretamente com os animais – principalmente com os que consideramos “domésticos”.

Sem muita criatividade e sem ter uma justificativa plausível, passei a chamar aquele burro pelo nome de “Pavio”. Crescemos praticamente juntos.
Era uma amizade que, garantia meu Avô, parecia inseparável.

Conversávamos, até.

Nos entendíamos através de sinais e tínhamos nosso “código de comunicação interpessoal” – na maioria das vezes, por conta da insistência na conversação, parecia que o burro era eu. Nunca me senti ofendido ou diminuído com essa comparação.

Pavio não gostava de cangalha. Provavelmente deve ter ouvido que, cambito e cangalha era para jumento. Ele respondia com um abano de rabo, quando eu preparava uma sela para preparar a montaria.

Certa vez, minha Avó cismou que eu tinha que buscar água no açude, antes de me dirigir à missa dominical. A celebração da missa começava cedo, e o Padre conhecia cada pessoa, pelo nome e por visitar as famílias que frequentavam a paróquia.

Traquinas e moleque como todo cearense, fui no quintal da casa e preparei o junto Roxo para ir pegar dos tonéis de água no açude. Deixei o jumento quase no ponto, faltando apenas a cangalha. Me dirigi até a sombra da mangueira onde Pavio estava ruminando milho misturado com borra de babaçu. Ele, Pavio, viu que eu me dirigia na direção dele, com a cangalha. Nossa Senhora do Pavio Curto.

Praaaa quuuêêê?!

Pense num animal que, de burro, virou uma fera!

Pensou?!

Pois assim foi Pavio.

Parei, pus a cangalha no chão, e disse:

– Caaaalma Pavio!

Nem lembro mais o que falei, e fui fazendo meia volta para levar a cangalha para o jumento Roxo, que ficara no quintal.

Pavio não sabia o que eu ia fazer, mas concluiu que a cangalha não seria colocada nele. Fez aquela conhecida “assopração” que os humanos também fazem com os lábios: fffrrruuuuu!

E era assim que nos comunicávamos. Pavio, o burro, e eu, o Zé.

Quando finalmente passei próximo dele (Pavio), levando o jumento Roxo para apanhar água, ele (Pavio), cavou o chão com a pata dianteira e soltou um pequeno relincho.

Entendi que, na linguagem dele, agradecia, ao mesmo tempo que esperaria minha volta, quando, com certeza, ele (Pavio) me levaria para a Santa Missa.

Na dúvida, pensei:

Ele (Pavio) me levaria, ou eu, o levaria?!

Fui e voltei rápido ao açude. Fiz o que minha Avó mandara. Agora era me preparar para ir à Sant Missa.

Calça branca. Camisa social. Alpargatas de couro com solado de pneu usado.

Quando Pavio me avistou trazendo comigo a sela, voltou a cavar o chão com a pata dianteira, querendo dizer que estava “pronto”. Coloquei a sela sem apertar muito no encilhamento.

Me abaixei e, de dentro do bornal retirei o par de esporas.

Prrraaaaaa quuuuêêêê?!

Pense num burro que virou animal. Pavio detestava ser “tangido” com espora ou chicote. Se alguém estivesse montado e esporasse, ele derrubava.

Fiz sinal pra Pavio com o polegar direito, aquiescendo e garantindo que não colocaria as esporas.

Acho até que eu sorriu levemente, quando viu que as esporas ficaram dependuradas numa das estacas.

Montei e lá vamos à Santa Missa.

Da casa da Vovó até a Igreja era uma boa distância. Coisa de cinco ou seis léguas. Sem que ninguém soubesse quem era o proprietário daquela terra, havia um espaço aberto que todos chamávamos de “capoeira”.

No exato momento que passávamos ao lado da capoeira, Pavio teve a atenção chamada por uma égua que, abrindo as pernas traseiras, soltou aquela mijada “cavalesca”.

Prrrrraaaaaa quuuuuêêêê, siô?!

Pavio saiu em disparada na direção da égua, sem esquecer de, antes, me derrubar. Quando estava tentando me levantar, Pavio já estava inteiro “dentro da égua”, com uma pajaraca que se aproximava dos 60 centímetros.

Tentei impedir, mas já era tarde. A pajaraca de Pavio já estava descendo. Mole! Provavelmente deixando alguma coisa dentro da égua.

Satisfeito, óleo trocado, Pavio fez apenas aquele conhecido:

– Frrrruuuuuu!

Pois, meu domingo terminou ali. Não fui mais à Santa Missa. Resolvi ir até ao açude tomar um bom banho e aproveitar para banhar Pavio também.

Tentando compreender a natureza das coisas e dos animais, acariciei a cabeça de Pavio e percebi que os olhos dele brilhavam feito duas pérolas. Me agradecia pela “pajaracada” que dera naquela égua.

Arre égua!

Pensativo, voltei para casa montando Pavio. E aproveitei para me questionar:

– O burro e eu; ou, eu e o burro?

Eu muitos anos depois do Pavio

6 pensou em “O BURRO E EU

  1. Fizestes muito bem em permitir a gandaia de Pavio com a égua mijona. Certamente, aquilo foi muito mais proveitoso – pra não dizer prazeroso pra ele – que ouvir o sermão do Padre. Na volta, aposto como Pavio desejou, e muito, o reencontro com a sua companehria de pajaracagem.xx

    • Xico, “pavio” não era curto, muito menos culto. Com certeza, na pajaracagem reproduziu algumas coisa que não conseguiria me levando até à Santa Missa. Os animais, às vezes, somos nós mesmos. Já pensou no que a gente diz, quando alguém “atrapaia uma pajaracagem nossa”?

  2. Ilustre conterrâneo José Ramos. Hoje você se superou. Essa sua história, tão bem narrada, é análoga à do esplendoroso poema em prosa “Platero e eu” (Platero y yo), de 1916, do grande poeta espanhol Juan Ramón Jiménez. Platero também é um burrico que é tratado pelo narrador com o mesmo carinho que você devota ao Pavio. Se “Platero e eu” se tornou um clássico da literatura mundial, o seu “Pavio e eu” também poderá ser guindado ao mesmo patamar literário. Parabéns! Continue inspirado! Abraços desde Fortaleza. Boaventura.

    • Obrigado conterrâneo! As vezes fico me alembrando das veizes que, eu e meus primos, meninos, íamos para o “Motel Capoeira” e, lá fazíamos a festa e a iniciação, não com as éguas – com a jumentinhas. Era mais mió que coçar frieira na beirada da rede ou comer fubá de milho torrado levando a mancheia e tentando falar: “minha tia é boa, por que pode”! Kkkkkkkkk A cidade chamada de grande nos roubou tudo isso, siô!

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