JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O JACARÉ DA RUA DA PAZ

Eram três jacarés – mas todos preferiam o da casa de dona Nenê

Num passado não tão distante, chamávamos o local de “vila”. Vila isso ou vila aquilo. Nos atuais e pretensos tempos modernos, chamamos de “condomínio” – apenas por ter um portão e um vigia dorminhoco, que vive sentado, e nunca sabe de nada. Aliás, ele é pago para não ver nada.

Entenda-se “pago para não ver nada”, apenas, nada da vida particular dos moradores. Ele estende essa “recomendação” aos visitantes, proporcionando roubos mil e assaltos inúmeros. Mas, esse é outro assunto, que não vem ao caso, agora.

Antes, aquela “vila” nada mais era que um trecho da Rua da Paz, no bairro Misericórdia, município de Beberibe, hoje RMF (Região Metropolitana de Fortaleza).

Rua limpa, calçada com paralelepípedos, esgotamento sanitário deficiente que sempre recebia promessas de melhoria por partes dos candidatos a Prefeito.

Nunca cumpriram as promessas, mas isso não era tão importante para os cerca de 40 moradores daquele trecho bucólico que valorizava toda a rua.

Durante o raro período chuvoso, aquele trecho da Rua da Paz virava quase que uma praia de Copacabana, tamanha era a quantidade de “banhistas” que até sorteavam alguns minutos de banho debaixo dos jacarés. Faziam fila, cada um esperando sua vez.

As casas, construídas no estilo porta e janela, possuíam na parte frontal do telhado, a queda da água das chuvas através de uma canaleta que a maioria chamava de “jacaré”. Quando chovia, era comum muitos fazerem uso do jacaré para o banho gostoso e reconfortante.

Algumas mães até levavam sabão para banhar e “esfregar” os filhos, e uma toalha para secar, além, claro, de uma roupa limpa para a troca. Essas coisas viraram atração, ao mesmo tempo que respeito na Rua da Paz. A rua dos jacarés.

Cenas comuns de uma comunidade simples, onde todos se conheciam pelo nome, e muitos conviviam desde a infância. Ali, todos se respeitavam. Mas, alguns olheiros aproveitavam para “limpar as vistas” embaçadas pelo dia a dia doméstico.

Poucos entendiam, ou se faziam de desentendidos, mas a casa de Dona Nenê tinha o jacaré mais visto e desejado – e não era por conta do maior volume d´água que descia dele.

Era pela frequência dos banhistas. Dos banhistas, vírgula. Das banhistas.

Luíza – uma das filhas de dona Nenê

Dona Nenê enviuvara há pouco mais de cinco anos. Seu Horácio, homem honesto e trabalhador, sofreu um infarto fulminante aos quarenta e poucos anos. Na flor da juventude, como costumamos dizer. Deixou viúva Dona Nenê, com quarenta e poucos anos também.

O casal teve duas filhas. Luíza e Clarice que, quando Seu Horácio mudou de plano, já tinham 18 e 16 anos respectivamente. Ambas estudantes, criadas sob a rigidez paterna da época. Viviam para os estudos e para a construção do futuro, quando os pais faltassem.

Desde crianças, Luíza e Clarice usavam também o jacaré para banhar na época das chuvas. Eram conhecidas e amigas dos meninos. Cresceram, viraram adolescentes e mantiveram as amizades e o respeito mútuo.

Clarice – a filha adolescente de dona Nenê

Clarice, a mais jovem – uma menina se formando moça, deixando antever que em breve se transformaria numa mulher linda – ainda tinha alguns trejeitos infantis. Sem maldades, amiga dos meninos, banhava no jacaré usando apenas a calcinha minúscula e um vestido que, ao ficar molhado, se transformava em “transparente” enlevando a bela nudez da jovem. Um verdadeiro pecado.

Clarice e Luíza viraram as atrações do jacaré da Rua da Paz, mas em tempos diferentes, os homens mais maduros preferiam “apreciar a chuva” postados nas janelas.

Ingênuos sem pares!

Dona Nenê, a mãe das meninas, ficava entre um pé e outro para ir também ao jacaré na frente da casa – mas, sem roupa, escolhia mesmo era o banho no quintal da casa. Com certeza, ainda em luto pela morte do marido, precisava manter o respeito em orientação às duas filhas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

QUEM TEM MEDO DA VELHICE?

O que é mesmo, ser “velho”?

Por que as pessoas envelhecem, e acabam morrendo?

Por que uma pessoa “velha” não se eterniza?

Quantos “velhos” temos no Brasil?

Ora, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), temos hoje, no Brasil, alguns poucos mais de 213.267.000 habitantes. Desses, garante também o IBGE, 14,8% são de idosos acima dos 60 (sessenta) anos.

Desses, existem afirmativas, são aproximadamente 15 milhões de idosos, sendo que mais de 7,5 milhões ainda trabalham, produzindo algo que tem relevada importância na carga tributária.

Mas, o Brasil sempre foi “irresponsável” no registro de informações que, de uma forma ou de outra possam contribuir para o necessário conhecimento do quantos são e o que fazem. Brasil à fora, existe um considerável número de brasileiros que sequer possuem Registro Civil (Certidão de Nascimento), ficando, assim, fora da contabilidade demográfica.

Tabu – Ser velho ainda é tabu no Brasil. “Ser velho” ainda funciona com ares e tons de ofensas, e numa grande maioria de interpretações, como se “imprestáveis” fossem todos os que, enfrentando dificuldades imensas na vida, conseguiram passar dos 60 anos. São consideradas “raridades” os que ultrapassam as barreiras dos 70, 80 ou 90 anos de idade.

“Faça da passagem do tempo uma conquista, e não uma perda.”

“Velho” tem vários adjetivos no Brasil. Alguns, pejorativos e ofensivos: “velho”, idoso, “coroa”, demente, ancião e outros. Mas, também há os que chamam esse período da vida de “terceira idade” – da mesma forma que poderia ser, também, “última idade”.

O Brasil é um país diferenciado no tocante às conquistas desta parcela da população. Direitos Sociais tem uma dificuldade enorme de sair do papel para a prática – o que acaba por ridicularizar mais ainda quem ultrapassa essas barreiras da vida.

Passagem gratuita nos coletivos?

As vagas estão sempre preenchidas, esgotadas, já foram disponibilizadas. Tudo porque ninguém se dá ao trabalho de verificar se, realmente, a informação é verdadeira. E na maioria das vezes, quando constatado que a informação é mentirosa, fica por isso mesmo e o feito por não feito. Não existe nenhum respeito pela conquista social.

Atendimento preferencial nas filas?

Os atendentes atendem mais vagarosamente que o funcionamento da mente idosa. Nos caixas de bancos, são sempre as filas que “menos andam”.

“A velhice nos traz direitos maravilhosos! Enquanto a juventude é cheia de obrigações, a velhice é o tempo em que vivemos a doce inutilidade.”

Pelo sim ou pelo não, a velhice é o estágio da vida que todos que conseguem chegar, tem consciência de que o fim se aproxima. Já dobrou a esquina e se encaminha célere para o consumatum est.

Finalmente, o que você faz durante a vida, antes da velhice chegar, para estar preparado para o inevitável?

Como a frase grifada acima, você considera a “velhice” uma conquista, ou apenas uma tarefa a mais para os que chegaram depois de você?

Você se preparou para ser “velho”, ou apenas amealhou uma conta bancária e uma gorda poupança para deixar para aqueles que estão ansiosos para você partir imediatamente?

Você é um velho? Pretende sê-lo?

Infelizmente, a “velhice” ainda não te dá o direito dessa escolha.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CIRCO – A VIDA NO PICADEIRO

Circo Garcia e o picadeiro vazio

“Vejam só
Que história boba eu tenho p’ra contar
Quem é que vai querer me acreditar
Eu sou palhaço sem querer

Vejam só
Que coisa incrível o meu coração
Todo pintado e nessa solidão
Espera a hora de sonhar

Ah, o mundo sempre foi
Um circo sem igual
Onde todos representam bem ou mal
Onde a farsa de um palhaço é natural

Ah, no palco da ilusão
Pintei meu coração
Entreguei, entreguei amor e sonhos sem saber
Que o palhaço pinta o rosto p’ra viver

Vejam só e há quem diga que o palhaço é
No grande circo apenas o ladrão
Do coração de uma mulher

Ah, o mundo sempre foi
Um circo sem igual
Onde todos, todos representam bem ou mal
Onde a farsa de um palhaço é natural”

(Letra de música cantada por Antônio Marcos)

No princípio, tudo não passava apenas de uma diversão imaginada para o entretenimento de pessoas, e o melhor caminho para mostrar aos outros, o que o cinema e o teatro não queriam ou não tinham espaço e condição para mostrar.

Alguém teve a sorte de “inventar” o circo.

Provavelmente, diferente de como tantos outros inventaram (ou descobriram) o avião, a lâmpada – e foi a partir da invenção dessa tal lâmpada, que começaram a criar a “Lâmpada de Aladim”. Por que “acendia” e chamava a atenção de outrem. Coisas de gênios atendendo desejos mil de quantos quisessem.

Inventaram o Circo. E um dos primeiros sinônimos do circo, não poderia deixar de ser: algo hilário, que diverte e onde todos, com exceção da plateia, se transformam em palhaços.

Verdade pura!

Mas, não é menos verdade que, no Brasil, algumas instituições estão tergiversando, deixando de ser apenas “instituições sociais com o mister da institucionalidade a serviço do objetivismo legal”, e estão totalmente empenhadas em “roubar” (também), a designação oficial de circo.

Um verdadeiro e assumido processo de transformação – uma apropriação indevida.

Nessas, tal qual o Tihany ou o Garcia, circos que, no Brasil, poderiam ser considerados células-troncos do trapézio, do malabarismo e da palhaçada, os componentes estão ocupando os espaços dos elefantes, dos leões e até mesmo dos trapezistas.

E, por que não dizer também, dos palhaços?

O espetáculo circense em evolução

Faz tempo que a meninada se divertia até mesmo com os nomes dos palhaços: Carequinha, Trepinha, Risadinha, Rei do Trapézio, Homem Voador, Mágico Canadense e até o melhor e maior domador de leões ou de elefantes. Todos esses nomes, verdadeiros ou não, eram escolhidos e tornados celebridades pela criançada que, ávida, fazia de tudo para merecer ganhar um par de ingressos ou “passe-livre” para os espetáculos.

Diferente de hoje, que apenas uma pessoa “indica” e um contingente de xis eleitos escolhe aquele que vai fazer palhaçadas e provocar a hilariedade a partir de absurdos cometidos ou determinados, dando-lhes o aval em troca sabe Deus do que – alguns, inconstitucionais.

Que falta nos fazem o Garcia e o Tihany!

O palhaço decepcionado

Ria-se, antes, com as palhaçadas nos picadeiros do Tihany ou do Garcia. Por muito tempo.

Ria-se!

Nos dobrávamos de tanto rir. Ríamos às escâncaras.

Depois, com o desaparecimento tanto do Garcia quanto do Tihany, passamos a nos deliciar com o aparecimento do Cirque du Soleil, mostrando seus espetáculos pela televisão.

O mundo se modernizou, os políticos se aparelharam e ficaram modernos, usufruindo de todos os direitos possíveis e se escudaram com uma ou duas ou até três instituições e se transformaram no Cirque du Freak.

Não há mais risos.

Ninguém mais ri às escâncaras!

Trapézios, elefantes sentando em cubos em obediência aos domadores, desapareceram. Ou, quem sabe, se transformaram em verdadeiros “deuses da prepotência”, olvidando até a onipotência divina.

O mundo mudou. A gente não ri mais.

Tampouco as crianças encontram motivos para rir. Vivem entretidas em descobrir à qual gênero sexual pertencem.

Até os palhaços mudaram de indumentária. Continuam com os narizes vermelhos, mas vestem uma soberba capa protetora, que os protegem apenas de nós. Mas, estarão algum dia frente a frente com Deus e serão julgados pelas suas ações, inclusive por nos roubarem o direito de rir.

Ninguém ri.

Mas, quem rir por último, terá o direito de rir melhor.

Que saudade e que falta nos fazem os circos Tihany e Garcia.

A decepção atingiu os palhaços mirins

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O BALÉ NO NOSSO PEQUENO MUNDO IMAGINÁRIO

O balé do Louva-Deus

As estradas da vida já nos mostraram tantas coisas, mas tantas coisas que, uma única culminância não serviria de somatório.

Vimos, outrora, o poético sopro do vento desenhando ondas imaginárias nas águas paradas do açude; vimos o nascimento da rosa que há segundos, minutos, horas e dias era um botão; e, parafraseando o sertanejo, vimos até o casamento da raposa quando chovia e fazia sol ao mesmo tempo.

Vimos, a vida humana desabrochando em ser, transformando uma vagina num buquê de rosas que sangrava e mostrava ao mesmo tempo, o quão bela e ao mesmo tempo perfeita a Natureza divina. Vimos, também, a morte num adeus solene de quem parte – e tendo consciência disso! – acenando com as mãos como a dizer: nos encontraremos brevemente!

Vimos o semear do milho e do feijão – e isso dá um sabor diferente na hora da mastigação. É, com certeza, o ciclo da vida e de tudo.

Pois, certa noite, mal chegada, tivemos a feliz premiação de ver, também, uma fina neblina tangida pelo fraco vento que, pela nossa posição, transformava um grosso galho de acácia num palco natural da vida.

Um desenho que não foi feito por nós: ao fundo, a lua de agosto, redonda e límpida, nos trazia a silhueta de um provável casal de Louva-Deus em cópula, garantindo a preservação da espécie.

Mas, aos olhos curiosos e profanos do amor em transe, e na retina da nossa experiência, o que vimos (ou o que queríamos ver mesmo) foi um verdadeiro balé transformado num autêntico, perfeito, PAS DE DEUX.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ÚLTIMA CHANCE

1

Sempre gostei de “suspense”. Li não sei quantos livros de Agatha Christie, e fiz do detetive Hércule Poirot um dos meus ídolos em quase todos os romances da escritora. Por gostar da forma como ele investiga as ações e as suspeições, sem correr riscos e sem desconfiar de ninguém, mas, suspeitando de todos ao mesmo tempo. Claro que o mérito é da criação da Agatha.

Nos anos 60/70 eu trocava qualquer ocupação para ver um filme de Alfred Hitchcock – para mim, o mestre do suspense. Vi várias vezes o filme “Cortina Rasgada”, dirigido pelo Hitchcock, e pouco me importo se alguns especialistas tecem críticas à fita. À mim, me bastava o suspense que provocava.

A cena da fuga num ônibus eu acho genial, pelo suspense que causa a cada momento que o veículo se aproxima de “uma barreira policial”.

Protagonistas do filme Cortina Rasgada

2

Um jogo de futebol entre dois clubes considerados grandes (da elite), foi realizado numa tarde de domingo. Digamos, um Fluminense x Flamengo. Apelidado popularmente de Fla x Flu.

Durante uma semana inteira, os dois elencos treinaram em preparativos finais para a programada decisão da tarde dominical. Lances de real perigo para ambos os lados, mas a má pontaria dos jogadores na hora das conclusões em gol, nunca tiveram êxito. O jogo terminou sem gols. 0 a 0.

A decisão vai acontecer na tarde do próximo domingo, podendo acontecer até depois da cobranças de cinco penalidades máximas para cada equipe, caso o jogo termine sem vencedor no tempo normal.

Os elencos folgaram na segunda-feira. Se reapresentaram na manhã da terça-feira, para o reinício dos treinamentos com vistas à decisão. Treinos em dois expedientes. Repetem na quarta-feira, novamente em dois períodos. Na quinta-feira, apenas no período da tarde e, na sexta-feira, novamente em dois períodos, sendo que, na parte da tarde, o “treino apronto” para o jogo da tarde de domingo.

Concentração em hotéis de luxo a partir da noite de sexta-feira e descanso total durante o dia de sábado. Na manhã de domingo, após o café da manhã, a preleção do Técnico e a preparação psicológica. Revisão médica. Todos estão aptos para entrar em campo em busca do resultado que lhes garanta a vitória e o título. Mais uma chance para o título – que pode ser a “última chance” para alguns veteranos que já pensam em aposentadoria.

Lances de perigo para as duas defesas. Ninguém marca gol, graças aos bons desempenhos dos goleiros. Tempo normal esgotado. Mais 30 minutos de prorrogação. Mais 3 minutos de acréscimo. O placar não é movimentado e a decisão será através da cobrança de penalidades máximas. Cinco cobranças para cada time.

O time de uniforme branco converteu quatro cobranças e desperdiçou uma. O time de uniforme vermelho desperdiçou a primeira cobrança e o capitão vai cobrar a quinta e última penalidade. Se converter, garante o empate e a continuação das cobranças.

Jogador se prepara para cobrar a quinta penalidade

Tudo pronto. Estádio em silêncio e os torcedores do time de vermelho, contritos, rogam à Deus pelo acerto do batedor. É a última chance depois de dois jogos difíceis, muito disputados e duas semanas de treinamentos intensivos.

O árbitro autoriza a cobrança. O goleiro adversário “catimba” e se movimenta de um lado para outro. O capitão toma distância. Parte para a bola e desfere um verdadeiro petardo. A bola vai de encontro ao travessão vertical e se oferece para a defesa do goleiro. Era a última chance. Foi desperdiçada e o título fica para o time de uniforme branco.

Às vezes, aquela que parece ser apenas a primeira chance, poderá ter sido a última. A tensão vivida durante as duas semanas de preparativos não poderia ter sido desconsiderada.

Era aquela a última chance.

3

A tensão se torna cada vez maior. A deflagração da guerra pode acontecer a qualquer minuto, até com um sorriso. Desde que seja entendido como irônico.

Os homens nunca se entendem, por um único motivo. Eles decidem pela guerra, mas não vão ao “front” nem pegam em armas. São medrosos e muito inteligentes para isso – decidem a guerra mas não guerreiam.

As embaixadas representativas recebem orientação para que todos os cidadãos civis que vivem na cidade motivo da “briga” deixem tudo que lhe pertence por conquista e saiam dali sem demora. A tensão cresce mais ainda. A Embaixada não tem condições de atender a todos. Não há transporte aéreo. Foi tudo embargado pela possibilidade de bombardeio aéreo. Melhor não arriscar.

Naquele dia, só o transporte ferroviário será possível. O comboio único tem saída marcada para as 13 horas. Seis vagões e pelo menos 30 mil fugitivos que, em poucos minutos serão refugiados – vão para outra cidade, provavelmente onde será possível embarcar em voo aéreo.

Como transportar 30 mil fugitivos em seis vagões?

Trem descarrilhado no transporte de fugitivos

Para muitos entre os 30 mil, aquela será a “última chance”. Não há como correr o risco de desperdiçá-la. Todos se dirigem à gare e a algazarra entre mulheres e crianças é muito grande.

O trem está chegando. Empurrões. Pisoteamento. Choro de crianças e lamento de idosos. As portas dos vagões se abrem e, por onde entram apenas duas pessoas, duzentos lutam para entrar. Alguns esquecem que conduzem crianças e, quando lembram, voltam para apanhá-las. Em fração de segundos os vagões estão superlotados.

Ninguém quer perder aquela que pode ser a “última chance”.

O trem dá sinal de partida. Não há tempo a perder, pois a viagem até a fronteira será longa e perigosa por conta da possibilidade de bombas.

As portas se fecham e, com certeza, dos mais de 30 mil que se aglomeravam, pouco mais de 3 mil conseguiram embarcar, aproveitando aquela que, com certeza será a última chance de sair daquele inferno.

A noite chega. Tudo escuro e a via férrea iluminada apenas pelo farol do trem. A linha férrea fora atingida por uma bomba e o comboio com seis vagões sofre um pavoroso acidente. Incontáveis os óbitos.

Seria aquela fuga, a “última chance”?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A BIFURCAÇÃO DA VIDA

Por onde vou?

Diz, por onde vou?

Diz, onde estão as tormentas e as ondas que poderão me ceifar a vida.

Me diz os caminhos possíveis – sem que sejam os mais fáceis.

És a minha bússola e o meu caminho.

És o sol, e a luz da minha escuridão.

Orienta-me!

Ilumina-me, e aponta a direção mais possível – sem que seja a mais fácil.

És a minha bússola e o meu caminho.

És o oásis no deserto que me consome.

Dirige-me, como se eu estivesse num balão na Capadócia.

Sopra forte, e leva-me pelos caminhos mais possíveis – sem que sejam os mais fáceis.

Leva-me, sem precisar trazer-me.

Mas aponta os melhores caminhos – sem que sejam os mais fáceis.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O POÉTICO CIO DA CHUVA

O cio dos pingos e a explosão do orgasmo da Natureza

A cadeira “espreguiçadeira” de madeira, com assento e forro de lona antiga, como ainda há em muitos lugares que preservam as coisas antigas e confortáveis, estava colocada próximo da janela, para aproveitar a claridade da luz do dia e facilitar a leitura do livro MALCOLM X.

A magia da Natureza chamou a atenção com a claridade intempestiva provocada pelos raios que, trazendo recados divinos, pareciam dizer:

– “Preste atenção na poesia que vou escrever para leitura e compreensão dos sensíveis”!

Fechei o livro, arrumando bem o marcador de leitura, e atendi à ordem recebida emanada dos raios e, agora, dos trovões. Não. Não era uma tempestade. Era tão somente a declamação de um poema da Natureza. Na linguagem de libras.

Olhei para a parte superior da janela protegida com vidro, onde os pingos e respingos dançavam um balé mágico ao som do “barulho silencioso” e acariciante que o cair da chuva produzia ao cair no chão.

Fixei o olhar num pingo diante da insistência dele em chamar atenção. Caindo, arrastava para si pingos e provavelmente “pingas”, até formar uma gota com ares de “gota rainha”, ou “pingo rei”.

Acompanhei com os olhos a descida, para ver o que aconteceria ao final daquela procura insaciável da existência e da transformação – ou, quem sabe, da criação de pontes e laços que gerassem uma reprodução.

E, lá vinha ele, o pingo, que fora pinguinho segundos antes, e agora já era um pingão. Continuava escrevendo os versos de uma poesia no percurso da formatação.

E lá vem ele!

Descendo.

Crescendo!

Naquela descida, um desvio para a esquerda, que mostrava que a mudança do percurso não seria em vão. E continuou descendo e desviando para a esquerda para se aproximar do que entendera ser a sua parceira.

Os dois pingos se absorveram, se entrelaçaram ao mesmo tempo que um trovão ainda mais sonoro parecia dar vivas e agradecer aos céus aquilo que, com certeza, era uma cena de amor.

Um relâmpago iluminou o encontro e deu vivas.

Aquele encontro aumentou o tamanho do pingo que, por segundos que pareciam minutos, numa velocidade de milhares de anos-luz, parecendo atingir o orgasmo agora em dois, caíram no chão e se dividiram em incontáveis partes, saciando o cio de ambos para garantir a ordem reprodutiva da Natureza.

Satisfeito, e ao mesmo tempo embevecido, voltei ao marcador de páginas e retomei a leitura, enquanto centenas de milhares de pingos escreviam nas janelas a poesia da reprodução.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A DOR

Pessoas não sentem as dores por conta da anestesia do sofrimento

A parada, seguida de mais um olhar – sempre na mesma direção: o céu e o seu azul mais azulado, sem nuvens que continuem a acalentar o sonho. O sonho do vento, e mais tarde, o milagre da chuva.

A ausência da chuva doía mais que o sol causticante assando a pele enegrecida, ressequida, elevando-a a uma temperatura, que nem os mais fortes conseguem suportar. Doía. Doía muito mais que um corte sangrando em qualquer local do corpo.

Hoje, mais de sessenta anos depois, ainda que num ambiente climatizado, percebo que aquela dor doía muito. Doía na alma e transcendia para a vida que se pretende eterna. Doía muito. Doía mais que a sede ou o martírio de sonhar com a água.

Eu não sabia que doía tanto.

A seca dói.

Dói mais na alma – e perpetua essa dor – que no corpo. Até as lágrimas ficam escassas, porque são líquidas e o corpo faminto as absorve. Não há força nem sofrimento que as façam sair olhos à fora.

Não há poesia nesse sofrimento.

Só dor.

Dor que dói.

A fome acompanha a dor, mas a dor continua doendo mais. A fome, eventualmente, pode ser saciada, mas, a dor não. A dor dói. A fome desaparece com qualquer coisa que a mão leve à boca – “qualquer coisa” mesmo.

Não há direito de escolher cardápio, porque a fome é analfabeta e não escreve nada. Tampouco consegue ler.

Mas, a dor dói porque está na mente, na alma.

A seca dói.

Pena que os homens ou as mulheres que podem resolver o problema – nunca a tenham sentido.

Só sabe o gosto e o prazer de comer “qualquer coisa”, quem um dia já comeu barro ou folha seca. E quando tem isso para comer sem que esteja posto à mesa.

Hoje percebemos o quanto as pessoas trocam essa dor que dói por aleivosias, futilidades, mi-mi-mis ou os idiotas “je suis”.

Coisa de gente que nunca sentiu dor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PARA QUE SERVE O DESNECESSÁRIO?

Eu só queria entender

Amanhã, 14 de fevereiro do ano de 2022, finalmente voltaremos a ver as imagens diferentes em muitos lugares deste país continental. As crianças começaram a voltar a assistir aulas presenciais – e isso muda muita coisa.

Ainda existem lugares onde os pais continuam comprando o material escolar a partir daquela extensa lista que muitos de nós conhecemos. Conhecemos como pais e como alunos. Mas, não deixa de ser verdade que, em muitos lugares parte desse material é doado, graças aos projetos da educação.

O galo canta e Joshua acorda e levanta. Escova os dentes, toma café preto com nada, ao tempo que a mãe o ajuda a se vestir. Faltam poucos minutos para a lancha que transporta a meninada ribeirinha fazer a sua primeira das duas viagens. Duas de ida e duas de volta – para evitar naufrágio, como quase sempre acontece.

Na cidade chamada grande, a rotina não é completamente diferente. É verdade que há diferença em poucos itens. Mas há.

Diferente de Joshua (nome que os pais “pescaram” na Bíblia, por serem evangélicos), João Muniz, filho da professora maranhense Helena Cawpy e do paraibano Clébio, também se prepara para ir à escola. Não acorda tão cedo, pois estuda no turno vespertino, mas tem que “cuidar da vida e, principalmente, das tarefas escolares”.

Curioso para aprender tudo, João aproveitou uma rápida visita que fiz à casa dos pais dele e me bombardeou com algumas perguntas. Ele, João, acha que alguns sabem tudo e que outros não sabem nada. Não sei em qual lugar ele me situa.

– Zé, para que serve o desnecessário?! Perguntou João.

Fiquei atordoado com a pergunta que partiu dele. Pergunta inusitada por conta da idade dele e por estar cursando apenas o quarto ano (antigo quarto ano primário). Procurei ganhar tempo, fingindo que não havia entendido a pergunta:

– Como assim desnecessário, João?!

E ele voltou à carga:

– É. Essas coisas que não servem pra nada e a gente continua usando. Algumas letras, por exemplo.

Eu queria entender melhor para não deixar João sem resposta, mesmo sem saber em qual grupo ele me classifica (no grupo dos que sabem de tudo ou no grupo dos que não sabem de nada):

– João, me dê um exemplo disso!

Sem se fazer de rogado, João deu o show dele.

– Zé, na nossa língua ou na língua de outros, por que a necessidade de manter as “letras de som mudo”?

E continuou a pergunta, dando exemplos. Veja o nome da minha professora: Fani Knoploc. Mas a gente fala é “Fani Noploc”. E, na língua inglesa: “Know-how”, que a gente pronuncia “norrau”!

Difícil tentar convencer João do contrário. Ele tem razão, sim!

– Zé, quer ver outra coisa desnecessária, que continua sendo usada?

Querendo encontrar um motivo para encerrar aquele papo que não acabaria bem pra mim, autorizei:

– Diga lá, João!

E ele falou com tamanha convicção, que eu não tinha motivo para continuar:

– Zé, pra que serve Mestrado ou Doutorado para Professor, se alguns não sabem o que ensinam?

E eu, ó: – ???!!!

João vai voltar a frequentar a escola de forma presencial. Segundo ele, desejando rever alguns amigos e, claro, amigas – João é “chegado”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

IRENE E A ABELHA

Irene catando flores e conversando com a abelha

Com certeza, entre muitas pessoas, eu sou uma (pessoa!!!) que se embriaga e se delicia sentindo o aroma que evapora da terra seca quando começa chover. Trocando em miúdos: sai do sertão, mas o sertão não sai de mim. Não sairá, jamais.

As coisas, hábitos e manias do sertão me fazem um bem danado. Passear no sertão será sempre uma lavagem cerebral e uma bênção espiritual para mim.

Por diversas vezes tenho falado – e não consigo me desligar de quem me fez tanto bem, embora, materialmente, ela já esteja em outro plano – na minha Avó, nos textos que costumo escrever. Me ajuda a superar a ausência material dela.

Pois, não faz tanto tempo assim, escrevi um texto dizendo que minha Avó tinha o estranho hábito de “conversar com passarinhos” e que dera preferência à um beija-flor, com quem “conversava” e até chamava de “meu fiinho”! Estranho mesmo, era que ela passava a ideia de que o beija-flor “conversava” com ela e que se fazia entender.

Então, agora lhes trago a mania de Irene, nora de minha Tia Maria, que ganhava a vida e o sustento vendendo flores. Irene morava num pé-de-serra e resolveu se apropriar do espaço que era a serra, numa extensão de uns 200 metros.

Na fase da infância mudando para a adolescência e durante o casamento com meu primo Luciano, fez do pé-de-serra a sua roça de produção de flores. Girassóis, para ser mais preciso.

Nunca consegui entender o segredo de Irene para garantir que os girassóis estivessem sempre “abertos e bonitos” sem que estivéssemos na primavera, época mais apropriada para a floração de muitas espécies de árvores e da floricultura.

Irene, que era negra e estava sempre de bom humor, tal e qual a Irene do poema de Manuel Bandeira, só sabia fazer o bem à tudo e à todos. Com certeza, não precisou pedir licença para entrar no céu.

Pois, acredite. Diferente da minha Avó, que conversava com o beija-flor, Irene conversava e se entendia muito bem com as abelhas que colhiam pólen nos girassóis, ou era com apenas uma abelha.

Mas, conversavam sim!

Se entendiam, sim!

E, com certeza havia reciprocidade. Por segundos e minutos inteiros, a abelha – parecendo pedir licença para polinizar – pousava sobre uma das mãos de Irene, batia milhares de vezes seguidas com as asas. Fazia crer n um diálogo, sim.

Abelha “coletando” pólen no girassol

Diálogo estranho, por ser impossível?

Não!

De forma alguma. Estranho mesmo, era que, para ir coletar os girassóis e deles fazer os buquês, Irene se vestia como se fosse à um baile. E aquilo acabou-se tornando rotineiro.

O que se soube, anos depois, foi que Irene conheceu, namorou e casou com Luciano. Mas, continuou plantando, cultivando e vendendo girassóis – caminho mais próximo e prático para continuar conversando com a abelha. Ou, com as abelhas!

O campo de girassóis no pé-de-serra continuava crescendo. O que garantia, também, a continuidade de uma produção de mel. Mel de qualidade, tão doce quanto o provável diálogo entre Irene e a abelha.

Imagine Irene, negra, entrando no céu depois de ser conduzida por centenas de milhares de abelhas, e sem precisar pedir licença ao porteiro, ouvindo:

– Pode entrar Irene! Quem ajudou a adoçar a vida de tantos, não precisará, jamais, pedir licença para o repouso eterno!

Mel de pólen de girassol com sabor de Irene