JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Um ensaio para si mesma

Juvenal Portela, era o nome da “fera”. Foi meu Professor de Técnica de Redação (Jornalismo) na Universidade. Trabalhou nos jornais O Globo, Jornal do Brasil e teria sido Chefe de Reportagem num desses jornais da Cidade Maravilhosa.

Foi com ele que aprendi que, “Jornalista que se preza” tem que escrever sobre qualquer assunto. Se não tiver o necessário conhecimento técnico sobre o assunto, tem que pesquisar.

E foi isso que fiz. No começo, não enfrentei muitos problemas, pois minha graduação reforçou ainda mais meus conhecimentos gráficos (trabalhei quase duas décadas como gráfico numa Editora que, além de impressos fiscais, imprimia apostilas e livros) que me serviram na profissão.

Quando mudei para São Luís, fui ser Cronista Esportivo. Repórter e Editor de Esportes – chefe de mim mesmo.

Foi quando aprendi que, na prática da modalidade Natação, uma grande parcela dos atletas nadam a partir de aconselhamento médico para corrigir problemas crônicos de asma e outros que tais.

Não é diferente para as meninas que aprendem a praticar Ballet. Algumas se iniciam para corrigir postura física – e um número muito menor tem como objetivo, a arte.

E essas borboletas humanas são as que se transformam na busca da realização pessoal, vivendo sonhos, ou, “representando as mães” que, por algum motivo desejariam, mas não conseguiram pisar num palco. Estão sempre nos camarotes ou na plateia. Sentem-se “representadas” nos palcos, digamos.

As borboletas que saem de casulos e metamorfoses diferentes

Longe de ser uma Agrippina Vaganova, Alicia Alonso, Ana Botafogo, Aurélie Dupont, Fanny Elssler, Márcia Haydée, Maria Alexandrova, Marie Taglioni, Martha Graham, Pina Bausch, conscientemente, a jovem busca seus sonhos.

Durante dias, meses e anos, os treinamentos entre barras fixas, pirueteiras, anel de pilates, calça para aquecimento e elástico thera-band. E, claro, calos, feridas nos pés, unhas encravadas e muitas broncas substituindo os aplausos que ainda estão por vir.

Os pés das bailarinas medem a procura do sucesso

Anos e anos se passam. A exigente professora que busca em cada aluna a perfeição de uma bailarina, finalmente anuncia que o dia da estreia pode estar mais próximo que o amanhã. Nada mais é que uma preparação psicológica, e a certeza do esmero na caça da perfeição, quando o corpo pisar no palco, ou, quando o solo for anunciado no programa.

Mais treinos. Mais esforços entre barras fixas e pirueteiras que se amoldam à trilha sonora: “O lago dos cisnes, Quebra Nozes ou A filha mal criada”?

Mais treinos. Mais sincronismo. Mais tudo, e, com certeza, mais ferimentos nos pés.

Será que o sofrimento do passado, as feridas, o “deixar tudo de lado e correr atrás da perfeição na arte” – será que tudo vai valer à pena?

Trocando feridas pelos aplausos

A semana da estreia. Em meio a tanto aprendizado e sofrimento, o flutuar do voo com a leveza das borboletas não mais em mutação, mas, agora, em exibição.

A concentração para a boa reciprocidade dos aplausos – nada de subir nas tamancas. O lugar do brilho é o palco e o caminho é a perfeição da dança procurada entre barras fixas, broncas e piruetas durante anos em treinamentos.

A preparação psicológica conta. As feridas nos pés e os calos foram quase insuportáveis. Mas, as borboletas não sofrem – apenas voam e escrevem poemas nas piruetas.

Assim, como os treinos na busca da perfeição ferem e machucam, nunca será exagero relembrar que as borboletas um dia foram lagartas, sofreram e se transformaram dentro de um minúsculo e desconfortável casulo.

Pois, que venha a estreia!

Que venha o teatro superlotado!

Que venham os aplausos!

Tudo, enfim, servirá como mais um aprendizado. Agora, sem barras fixas, pirueteiras ou pés feridos.

O ensaio final e a hora do palco

Últimos detalhes.

As cortinas se abrem.

Um foco de luz especial em forma de estrela, um som inicial de sinfonia que se soma com a expectativa da plateia.

A dança. A perfeição copiando o voo das borboletas. Emoção pura.

E a beleza se segue por minutos, horas e deveria seguir pela vida inteira no palco que estamos todos representados. Homens e mulheres. Pais e mães

E, finalmente uma resposta que jamais virá:

Por quem dançam as bailarinas?

As flores gratificam a perfeição

4 pensou em “POR QUEM DANÇAM AS BAILARINAS?

  1. Mestre Zé Ramos,

    Muitíssimo obrigado pela volta após o descanso – nada mais justo – e pela crônica maravilhosa, que o mestre sabe dosá-la espetacularmente com riqueza de detalhes.

    “Por quem Dançam as Bailarinas”, “com a perfeição copiando o voo das borboletas,” me lembrou um vídeo a que assisti no YouTube, do Youtuber cinematografico Gustavo Lima, com ele descrevendo a maneira detalhista de trabalhar para atingir o ápice da interpretação no ator britânico-americano, Daniel Day Lews.

    As grandes bailarinas não fogem à regra e sofre muito com isso ao se dedicar de corpo e alma ao profissionalismo do sapateado.

    Nada no mundo é gratuito; tudo é sacrifício. Só no Congresso de Brasília é que as coisas são fáceis para os legisladores.

    Mas voltado às bailarinas e ao ator Daniel Day Lews, este se dedica tão afincamente ao personagem que se prepara para interpretar tal e qual o personagem requer que as suas preparações já se tornaram lendas.

    “My Left Foot (Meu Pé Esquerdo) (1989), cuja interpretação magnifica lhe rendeu seu primeiro Oscar. There Will Be Blood (Sangue Negro), outra interpretação assustadora que lhe rendeu o segundo Oscar e Lincoln (Lincoln), cuja interpretação do presidente americano Lincoln assustava até os produtores Steven Spielberg e Kathleen Kennedy.

    Toda genialidade requer muito trabalho.

    Obrigado, amigo pela crônica.

    Ótimo final de semana para o mestre e família.

    Cicinho.

Deixe uma resposta