Aprendi cedo, ainda vivendo na roça onde nasci e fui criado, que, em beirada de rio ou açude, e uma porção de mulher “lavando roupa” ao mesmo tempo; e salão de manicure, são os dois lugares onde mais se fala e se sabe da vida alheia.
No Rio de Janeiro aprendi que, o único lugar onde todos os nossos problemas e do Brasil são resolvidos com facilidade, é ao redor de uma mesa de bar, com os “gênios” bebendo cervejas.
Pois, foi em Fortaleza que aprendi duas coisas verdadeiras:
1 – Quer ouvir sofrimento de alguém? Sente numa cadeira de Engraxate e lhe pergunte como vai a vida;
2 – Não existe lugar para escutar mais mentiras, que salão de barbeiro.
Para confirmar isso, lhes conto uma estória. Claro que, mentirosa.
“Trabalhando há mais de cinco dezenas de anos no Salão Rex, Luís Lucas, excelente barbeiro e preferido por muitos clientes, é também considerado o “maior mentiroso do mundo”.
Se ele começar a cortar o seu cabelo ao mesmo tempo que começa contar uma mentira, aquele corte vai durar muito tempo.
Fazia tempo que eu não andava por Fortaleza e, propositalmente, deixei o cabelo crescer para ir ao Rex visitar meu antigo amigo Luís Lucas.
Logo que cheguei, tendo a sorte de encontrar Luís Lucas desocupado, fui cumprimentado e escutei a primeira mentira:
– Seu José, seja bem-vindo! Olhei o senhor na tarde de domingo, no estádio Castelão, olhando o jogo do seu Fortaleza, mas não tive como cumprimenta-lo!
Mentira das grandes. Eu cheguei em Fortaleza na manhã de segunda-feira, nunca fui ao Castelão, e sou torcedor ferrenho do Ceará. Ouvi e fiquei na minha. Calado. Aprendi desde antigamente que, se você não desejar escutar muita mentira contada por Luís Lucas, só dê trela para ele quando ele estiver retirado o avental protetor de você, terminando o serviço dele.
Ciente, deixei para contar a minha mentira, tão logo ele terminou de cortar meu cabelo, botou aquele espelho velho de um lado e de outro para eu olhar como ficara o corte, e ele já tinha colocado o talco Gessy.
– Luís Lucas, eu vinha pra cá dirigindo o meu Jeep Renegade e, quando cruzei a Avenida Duque de Caxias, percebi que vinha em alta velocidade um Motoqueiro numa moto Honda, mas o sujeito vinha com tanta velocidade, que só tive tempo de abrir a segunda porta do Jeep, pois ele entrou no carro e saiu do outro lado montado na moto! Até agora não entendi como ele conseguiu fazer aquilo, e como eu tive sorte para abrir a segunda porta do carro!
Luís Lucas olhou para mim de soslaio, fez aquele sorriso maroto e, mantendo a fama de maior mentiroso do mundo, perguntou:
Os anos da década de 50 corriam céleres para fechar o momento de maior sofrimento e maiores necessidades dos filhos da terra de Iracema. Quem conseguia um pedaço de terra para trabalhar como meeiro (metade do “patrão”, dono das terras; e metade do ocupante, em tudo que plantasse ou criasse).
A década estava indo embora. O ano de 1957 foi malvado. Os animais morriam em pé, por fome ou sede. Muitos caíam e não levantavam mais – um castigo que a Natureza impôs ao cearense.
“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado Que de joelhos rezou um bocado Pedindo pra chuva cair sem parar Oh! Deus, será que o senhor se zangou E só por isso o sol se arretirou Fazendo cair toda chuva que há Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho Pedir pra chover, mas chover de mansinho Pra ver se nascia uma planta no chão Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, Eu acho que a culpa foi Desse pobre que nem sabe fazer oração.”
Promessas, rezas em novenas e famílias fazendo arenas noturnas rogando à Deus a chance de trabalhar a partir das esperanças que as chuvas propiciavam. Nada ainda. Tristeza, lamentações, mortes e chão tórrido com o vento levantando poeira dos campos.
Dia 18 de março, véspera de 19, dia consagrado ao Padroeiro São José. Novenas, rezas e mais rezas e a Fé crescia e renovava as esperanças quase perdidas.
Manhã do dia 19. O pouco pó de café serviu à todos. Café com farinha, por anos seguidos foi o melhor e mais digno “café da manhã” servido na mesa da esperança. A noite anterior fora diferente, provavelmente pela ansiedade da chegada do dia 19 ao amanhecer.
O galo nem cantou, e a claridade do novo dia demorou para chegar. Não havia claridade, aquela claridade embaçada pelas nuvens enegrecidas.
No céu, ainda escuro, um raio sem igual causou uma brecha de clarão, como se Deus tivesse ordenado: “abre-te céu! Abre-te, e molha a terra o quanto for necessário!”
Chuva. Muita chuva. Era finalmente, 19 de março!
De novo, o café do dia anterior: café preto torrado e pilado em casa, acompanhado de cuias de farinha. Só!
Só, e, graças à Deus!
Café tomado, bucho enganado – caminho do roçado. Um novo dia e a renovação das esperanças. Enquanto o Avô derrubava os garranchos secos pelo tempo, os três meninos faziam coivaras – não havia ervas daninhas para serem desbastadas. Naquela seca, nada nascia. Só a fome, que se tornava cada vez mais presente, matando animais domésticos e fazendo o sol mais quente naquele céu azul mais azul que o azul comum.
A chuva deu uma trégua. Na parte da tarde voltou a cair, agora mais suave, acendendo com muita força a Fé no homem que precisa da terra, da chuva e de muito trabalho para lutar pela sobrevivência.
– Hoje, vamos semear o milho. Disse o Avô!
O dia todo foi cavando pequenas covas. Três grãos por cova, pois não havia nada além da esperança da continuidade da chuva. E foi assim que aconteceu. Chuvas fortes e fracas. Chuvas esparsas por quase um mês. Quinze dias após semeado, o milho nascendo transformou aquela imensidão de campo num relvado que, só Deus permitiria.
Os dias se passava e o milho crescia. A chuva não cessava. O milho continuava crescendo. Embonecou! Frutificou e dias depois estava sendo “virado” para a secagem.
O milagre – daqueles que só Deus é capaz!
Quem plantar, um dia vai colher. Os três netos e o Avô ganharam o reforço do Avó para a colheita. Durante o dia, a colheita manual do milho. De noite, a “debulhação” manual. Caçuás cheios. Sabugos pequenos separados para serem usados como “papel higiênico” e os maiores, triturados e junto com milho, triturados para servir de ração aos bodes, cabras e cabritos; galinhas, patos e perus; e colocados numa terrina grande de madeira para receber água e sal e alimentar as três vacas. Um mês depois, a engorda e a produção do leite pelas cabras. As vacas, ainda não.
Domingo à tarde, vindo da cozinha, aquele cheiro conhecido e diferente. Milho torrado e logo, o ribombar do toque-toque no pilão pilando o fubá.
O pilão e o fubá
O que acrescentava àquele fubá gostoso e tradicional, era a dignidade do trabalho e da Fé iniciada nas orações para a vinda das chuvas, as novenas, o semear e a colheita.
Antiga sala de aulas – dois alunos em cada “carteira”
Tudo fora arrumado na véspera. Sapatos Vulcabrás engraxado, cadernos e livros selecionados e colocados na pasta – calça e camisa engomadas e dobradas.
O dia clareou. Assepsia feita e café preto acompanhando pão com nada, era a garantia do primeiro (e abençoado) alimento que daria coragem para enfrentar 6 Km de caminhada na ida e, pasmem, mais 6 Km na volta. Chovesse ou fizesse sol.
Com chuva, sem guarda-chuvas. Apenas uma capa plástica e a galocha de borracha na proteção dos sapatos.
Hoje é diferente. O Ônibus Escolar leva desde o portão da casa e traz de volta, deixando no mesmo lugar onde apanhou.
A caminhada tinha pressa e a solidão era a única diversão e companheira. O portão aberto permitia a entrada a qualquer hora na escola. Ninguém entrava nas salas de aulas antes de rezar e cantar o Hino Nacional – era norma da escola e não do regime político administrativo da época. A diretoria “mandava” na escola.
Aulas. Ciências Naturais, Geografia Geral e do Brasil tendo como “guias turísticos” os livros de Aroldo de Azevedo. Caligrafia. Aritmética. Português (leitura em voz alta e ditado para escrever). Canto Orfeônico uma vez por semana, sempre aos sábados.
Provas mensais. Provas de fim de semestres. Escritas e orais – não adiantava a “cola”, pois todos tinham que “provar o aprendizado” respondendo perguntas nas provas orais.
Não existia a imbecilidade da Lei que “determina a aprovação a cada ano” sem a comprovação do aprendizado. Foi reprovado, tinha que repetir o ano. E isso se constituía numa vergonha – para o(a) professor(a) e para o(a) aluno(a). O(a) professor(a) não pensava apenas no salário. Era prazeroso perceber que o(a) aluno(a) aprendera.
Essa foi mais uma vez que o Estado, num país dito democrático, entrou na sua casa devagar e maliciosamente, para “decidir” as coisas por você e, pasmem, com o aval do seu voto a cada dois anos.
Por que a incoerência da cobrança para o diploma, ou registro institucional de uma autoridade, para assunção em cargos públicos, se não há protestos para a “aprovação de alunos” na escola, ainda que não tenha aprendido nada?
Hipocrisia desmedida. Burrice. Ignorância, ou criticar por criticar.
Por sorte, e, lógico, por destino, aqueles 12 Km diários para chegar e voltar da escola nos anos da década de 50, me permitiram estudar na escola imaginada e seguida pelo educador Anísio Teixeira. Aprendi o que me ensinaram e o quanto minha inteligência perceptiva permitiu.
Nunca fui reprovado, por ter entendido, muito cedo, que o esforço dos meus pais não podiam nem mereciam ser castigados.
Anísio Teixeira
“Anísio Teixeira defendia a criação de uma rede de ensino que fosse da Educação Infantil à universidade, e atendesse a todos, independentemente de raça, condição financeira ou credo, e olhasse para os interesses da comunidade em que estava inserida.”
Anísio Spínola Teixeira nasceu em Caetité, a 12 de julho de 1900 e faleceu no Rio de Janeiro, a 11 de março de 1971. Foi um jurista, intelectual, educador e escritor brasileiro. Personagem central na história da educação no Brasil, nas décadas de 1920 e 1930, difundiu os pressupostos do movimento da Escola Nova, que tinha como princípio a ênfase no desenvolvimento do intelecto e na capacidade de julgamento, em preferência à memorização. Reformou o sistema educacional da Bahia e do Rio de Janeiro, exercendo vários cargos executivos. Foi um dos mais destacados signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em defesa do ensino público, gratuito, laico e obrigatório, divulgado em 1932. Fundou a Universidade do Distrito Federal, em 1935, depois transformada em Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil.
Na ideia de uma educação integral e uma educação para todos, expressa por Anísio Teixeira foi a concepção de educação que permeou os escritos e a obra de Anísio Teixeira, está a base de sua atuação como educador e sua contribuição para a educação no Brasil, que alguns consideram importante até hoje. (Dois parágrafos extraídos do Wikipédia)
Com as escolas técnicas ainda esperando resultados positivos da implantação recente, as escolas formais incluíram nos seus currículos as iniciações de música (Canto Orfeônico), desenho e trabalhos manuais. A proposta visava despertar o interesse por alguma profissão. SESI, SENAI e Escola Técnica pontificaram – alunos recebiam propostas de empregos antes mesma da conclusão dos cursos. Nos dias atuais, sem qualquer indicação para o profissionalismo, os concludentes iniciam como Motoristas de aplicativos na vã tentativa de saldar os débitos do Fies.
Mas, as maiores e ao mesmo tempo piores mudanças aconteceram de fora para dentro. No âmbito familiar com as mudanças comportamentais de valores – a escola apenas “reforçou” essas mudanças ao abrir as portas para teorias que atingiram de morte as propostas educacionais.
O cantar o Hino Nacional antes da entrada na sala de aulas, foi substituído pelo “queimar uma cannabis” e outros hábitos que contradizem o bom senso e ferem de morte a educação e a formação do bom profissional.
Moças usavam saias – e se orgulhavam disso
Os anos se passaram com muita velocidade. A qualidade que existia nas escolas com professores competentes que se orgulhavam de saber o sucesso dos alunos, começou a fazer água. A canoa furou e o reparo não atendeu à necessidade.
Os anos sessenta foram embora e começaram a puxar com muita força os anos 70 que, por sua vez puxaram os anos 80. A partir daí, desculpe o termo chulo e provavelmente inoportuno, o ensino brasileiro virou uma merda.
Aluno aplicado nos anos 50, 60 e metade dos anos 70, não lembro de “greve dos professores” – que deixaram ser os “mestres” e se permitiram transformar em “funcionários” recebedores e preocupados apenas com salários. Bons salários, diga-se. Contrapartida zero. Quem não gostar disto, tire as calças pela cabeça.
Luta por melhorias? Mentira deslavada.
Alguém conhece um(a) professor(a) lutador(a) por melhores salários e condições dignas para a escola onde trabalha, que tenha filho(a) matriculado(a) em alguma escola pública?
Mentira. Quase todos estudam em escolas particulares.
As moças trocaram as saias plissadas pelas calças jeans. Os rapazes deixaram os cabelos crescerem e passaram a ser confundidos com as moças. Em quase tudo. Não apenas nos cabelos – e isso, infelizmente, foi um hábito permitido e cultuado em casa. Justiça seja feita.
O giz “sumiu” para não ser confundido com outra coisa
Eis que, provavelmente por coincidência, com o fim do século XX, as novidades que hoje estão enraizadas e fazendo parte da luta de “todes”, o partido dos trabalhadores que não trabalham assumiu o controle ideológico e político não apenas da administração pública. As escolas e as grades curriculares vieram de transbordo e enraizaram.
Começou-se, a partir de então, a se ouvir com mais assiduidade o nome de Paulo Freire. Veio junto cagente, trazido pelo povo que chegaram.
Chegou a época do “desaprendizado”, do tudo é possível e permitido. Sem esquecer a obrigação de rotular e até punir que pensar diferente. É chegada a era do “homo”. Homofobia. Homoisso, homoaquilo.
E, coniventes, aceitamos e começamos a praticar.
Paulo Freire
“Paulo Freire compreendia que o sujeito aprende para se humanizar. De acordo com o educador, aprender é complemento da formação do sujeito como humano. “Se aprende na relação com o outro, no diálogo com outro, na aproximação dele com o conhecimento do outro”.
Paulo Reglus Neves Freire é pernambucano de Recife, nascido a 19 de setembro de 1921. Faleceu em São Paulo, a 2 de maio de 1997. Foi um educador e filósofo brasileiro. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. É também o Patrono da Educação Brasileira. Sua prática didática fundamentava-se na crença de que o educando assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática dialética com a realidade, em contraposição à, por ele denominada, educação bancária, tecnicista e alienante: o educando criaria sua própria educação, fazendo ele próprio o caminho, e não seguindo um já previamente construído; libertando-se de chavões alienantes, o educando seguiria e criaria o rumo do seu aprendizado através do desenvolvimento da sua própria autonomia. Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência política.
MORAL DA HISTÓRIA – É um enorme engano creditar louros à An[ísio Teixeira, quando devemos sair da mesmice e aceitar que a sociedade brasileira sequer sabe de ondem descende e para onde irá. A mistura de ideias não é salutar. Um país laico, onde a macumba tem o mesmo respeito e valor que o catolicismo e onde o Pai de Santo não é diferente do Padre.
O Brasil é uma mistura de tudo. Não seria diferente na educação.
Na verdade a teoria paulofreiriana na acrescenta à educação brasileira e comete equívoco quem defende e afirma isso. Houve uma mistura da política com a educação que se tornou azeda e prejudicial à juventude.
Nunca se deve esquecer que, quem era estudante no início do século XXI, hoje é professor. Há exceção, sim. Mas, também há exagero, pois alguns professores sequer podem ser comparados a alguns alunos em termos de qualificação profissional.
Da manga rosa Quero gosto e o sumo Melão maduro, sapoti, juá Jaboticaba, teu olhar noturno Beijo travoso de umbu cajá
Pele macia Ai! carne de caju! Saliva doce, doce mel Mel de uruçu
Linda morena Fruta de vez temporana Caldo de cana caiana Vem me desfrutar! Linda morena Fruta de vez temporana Caldo de cana caiana Vou te desfrutar!
Morena Tropicana Eu quero teu sabor Ai! Ai! Ioiô! Ioiô!
Morena Tropicana Eu quero teu sabor Ai! Ai! Ioiô! Ioiô!
Alguém já parou para apreciar a beleza da mulher brasileira, independente da sua proximidade com ela?
Pois, faça isso!
Faça isso, e veja que, a ausência dos olhos azuis e transparentes é compensada pela pele cor de jambo, e o corpo emoldurado pelas curvas sempre mais perigosas que as curvas da estrada de Santos. Delineadas, definitivas, sem obstáculos, e como se tudo isso não bastasse, com versos poéticos escritos por Deus através da Natureza.
Na foto que ilustra esta coluna, observe, atentamente, o conjunto das perfeições que faz essa menina morena tropicana, e brasileira.
Precisa de olhos azuis?
E a beleza escuda detalhe importante em se tratando de Brasil: é afrodescendente!
E alguém liga para isso?
Observe a boca dessa belezura com o lábio superior protegido por um buço apenas imaginável, mas perceptível quando a respiração nasal fica mais ofegante.
É linda! É brasileira! É tropicana!
A televisão tem sido o altar onde aparecem algumas mulheres quase santas – mas anjos, com certeza – como um desafio para quem tanto aprecia a beleza de dançar o tango, banhar nu num igarapé ou simplesmente apreciar e tentar vencer o desafio que é a beleza de Débora Nascimento.
Foi a Vênus Platinada quem nos apresentou a beleza agressivamente brasileira da Vênus Tropicana dos olhos levemente esverdeados.
As novelas globais de hoje não demonstram muitas preocupações com as qualidades interpretativas de atores e atrizes. O que tem interessado é a beleza fisionômica aliada a beleza física. O resto não conta muito.
E foi exatamente numa novela global que apareceu Débora Nascimento, hoje, com certeza, uma das mulheres mais bonitas do Brasil, em quanto a qualidade interpretativa fica em segundo plano. Sim, e de Sonia Braga, todos já esqueceram?
Esqueceram que ela um dia foi Gabriela e desfilava essência e cheiro de cravo e canela?
Para o meu orgulho, nunca será exagero dizer: nasci no mato, “aparado” por uma parteira leiga das horas do aperreio (minha Avó), que em vida me disse que – no dia 30 de abril daquele ano -, a água era “morna” apenas por conta do calor abrasador. Não houve aquela preparação.
Foi aquela parteira leiga das horas da necessidade, que também me disse certa vez, que: “Fio, que eu lembre, fazia um calor insuportável. Apenas três coisas tinham ligações com a vida: a sua chegada e o seu choro; a saúde e a disposição da sua mãe em lhe dar à luz; e, naquela latada da frente da casa, a graúna cantava feito uma disgramada. Parece inté que ela que tava fazendo o parto ou nascendo.”
Andei cedo e também cedo tive o privilégio de ouvir e entender as verdades da vida, que muitos pais (avós) escondem dos filhos (netos): a vida, a partir do nascimento.
Sem aquela de ser trazido pela cegonha.
Sábia, minha Avó apregoava: “Se hoje, sem necessidade, mentimos e enganamos nossos descendentes, quando teremos o direito de querer que algum dia eles acreditem em nós”?
Vovó. Sem graduação ou doutorado. E era ela, a mesma que conversava com as aves do quintal ou os pássaros, tendo a pretensão de achar que era compreendida.
Aquele foi o meu mundo inicial. Fui uma semente bem plantada. Regada. Cuidada e recebendo a quantidade de água que precisava para crescer e para enraizar. A água da verdade para enfrentar a vida com coragem nas adversidades. Sem as frescuras de hoje.
Cresci. Vivi. Viajei e aprendi.
Aprendi que aprendemos mais ainda, quando dividimos o aprendizado com alguém. É o milagre da multiplicação.
Meu Avô, cantador de viola e repentista sem fama, que já se contentava em ser ouvido e escutado por nós, os netos, nas noites das ladainhas e dos ensaios profanos, me disse: “Ser feliz, é poder enxergar o brilho e a luz da felicidade nos olhos de quem te ouve.”
Pois, hoje, tens um haras. Mereces tê-lo. Sei. Tu tens um haras e, nele, crias alguns cavalos de raças ímpares. Espécies bonitas, raras. És herdeira. Estás rica.
Pois eu, tudo que consegui na vida como resposta ao trabalho desde a roça até hoje, foi cultivar um pequeno jardim que, vez por outra transformo num canteiro de verduras.
Nesse canteiro, sem que eu saiba o motivo, apareceram umas lagartas. E isso me fez imaginar que, involuntariamente, crio lagartas. É. Lagartas. Lagartas que voam – ou, que pretendem voar algum dia. É a natureza delas. Querer voar.
Já me flagrei várias vezes repetindo a pretensão da minha Avó. Também converso com uma lagarta. Preferencialmente, uma. A que vive dizendo que, um dia, se eu continuar cuidando dela como cuido, ela vai alçar voo.
Não tenho certeza se acredito. Tem horas que duvido. Mas, por algumas vezes passei a acreditar que ela vai voar.
É, voar. Batendo asas (quais?) e voando.
A lagarta se alimentando para crescer e um dia voar
Ontem li nas redes sociais que um dos teus cavalos foi premiado. O nome que mais recebe elogios é o do cavalo – muito mais que o cavaleiro.
Será que algum dia essa lagarta vai voar mesmo e eu receberei algum prêmio?
Ora, se o teu cavalo é premiado, como que tu que recebes o prêmio?
É isso que me faz pensar que, se a lagarta algum dia voar, eu também posso receber prêmio. Mas, por que eu receberia prêmio por uma lagarta que um dia resolveu voar?
Ontem pela manhã lembrei da Vovó dizendo que, no dia que nasci fazia um calor insuportável. Ontem o calor também estava insuportável e isso me fez molhar o canteiro. Iludido, chamei a lagarta e ela não respondeu. Fiquei aflito, embora ela nunca tivesse respondido mesmo. Procurei debaixo das folhas maiores e não a encontrei.
Continuei procurando enquanto chamava. Sem resposta.
Ora, se eu estava procurando uma lagarta bonita, colorida e falante (pelo menos comigo!), como poderia perceber que algo parecido com o bicho da seda fosse a “minha lagarta” candidata a voar e a receber prêmios?
Mas era. Não era um “bicho da seda”. Era um casulo!
É, um casulo.
Os dias se passavam e eu pouca importância dava ao casulo, sempre que molhava as plantas.
Na manhã do dia seguinte, quando eu molhava as plantas por conta daquele sol abrasador, não olhei mais o casulo.
Mas, como há raios que caem duas vezes no mesmo lugar, também inexplicavelmente, a minha graúna cantava desesperada. Um cantar diferente e sempre que saía da banheira com água e se sacodia.
Minha Avó dizia que, quando os pássaros cantam da forma que a graúna estava cantando, estão querendo dizer alguma coisa. Falar com alguém. Ser compreendido e entendido. E, creia, havia motivo sim para aquele cantar ao mesmo tempo alegre e desesperado da graúna.
A lagarta voou!
Digo, a lagarta que virou casulo, saiu dele e voou!
Será que é justo, também, que eu receba um prêmio?
Mesmo que eu não receba um prêmio, ganhei o aprendizado que não devemos duvidar da Natureza. Os cavalos do haras são bonitos, mas precisam de cuidados.
Os pássaros e as aves de consumo da Vovó conversavam com Ela, sim. Ela, a Vovó, acreditava nisso, e jamais parou de dar a devida atenção os “bichinhos dela”.
Eu, claro, fiquei em dúvida se algum dia aquela lagarta conseguiria voar mesmo. Mas, Ela, a lagarta, acreditava na sua Natureza – e a Natureza das lagartas é, um dia virar borboleta e voar.
Voar a caminho da vida e dos girassóis.
A lagarta que acreditou que voaria
Acredite. As lagartas podem voar, sim!
E a premiação não é de quem as criou. É da Natureza!
Hoje nosso passeio será pela política. Política construtiva e, para aqueles que quiserem, participativa.
Lá na minha “Queimadas”, povoado cearense de Pacajus, onde nasci no século passado, foi onde comecei a ouvir que, “uma andorinha, só, não faz verão”.
Entretanto, sem nunca ter passado na calçada de uma escola mas, tendo conquistado Doutorado na Vida, minha sábia Avó garantia do alto da experiência:
– Depende. Se essa andorinha tiver Fé, e conseguir colocar essa Fé nas asas, vai conseguir fazer verão!
Pois, hoje, 31 de julho, estamos no outono. Ainda atravessaremos toda a primavera e teremos que viver e confirmar mais 143 dias para o verão.
Mas, creiam – a Fé de uma única andorinha está trazendo o verão!
Jair Messias Bolsonaro, ungido pelo povo do bem se encheu de Fé e em momentos ímpares está conseguindo acordar um povo que até então parecia dormir ou estar sem direção. JMB subiu numa moto e como João, arrebanhando e pastorando ovelhas, está reunindo tantas andorinhas quantas lhe serão necessárias para fazer o verão antecipado.
Pela primeira vez no Brasil, o verão de “uma andorinha só” sai do dia 21 de dezembro para o dia 2 de outubro. Movido pela Fé!
A andorinha conduz os seguidores para o verão
Depois de viver sete mandatos na Câmara Federal, convivendo com ideias diferentes da sua formação militar, Jair Messias resolveu “virar a andorinha” – tão só, que as pesquisas encomendadas sequer falavam o nome dele.
O número dele: 17. Dezena do cachorro e número do macaco. Nada de andorinha.
O final das apurações a incrédula andorinha surpreendia um país inteiro. Antes mesmo da eleição final, não uma pedra de baladeira que tentou acertar a andorinha pousada no fio da rede elétrica. Uma facada misteriosa tentou ceifa-lo a vida.
A partir de então, queimadas, conchavos, mentiras, perseguições e jogo fora das quatro linhas constitucionais – tudo contra uma “andorinha só”.
Eis que a Fé começava a vencer e mostrar a face e os voos rasantes da andorinha. O povo acordou e aderiu.
Agora as andorinhas são muitas e farão o verão antecipado
Somatório de tudo: o verão de 21 de dezembro foi antecipado para 2 de outubro. Os que ainda têm Fé haverão de ver que, uma andorinha só, também pode fazer verão.
Criado no verão de 1907 pelo tenente-general do Exército Britânico, Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, que teve a ideia de reunir vinte jovens, dividindo-os em quatro grupos de cinco (Maçarico, Corvo, Lobo e Touro), na Ilha de Brownsea, então no Canal da Mancha dando-lhes o nome de “patrulhas”.
Foi esse o primeiro acampamento escoteiro que se tem conhecimento no mundo.
Baden-Powell nasceu a 22 de fevereiro de 1857, em Paddington, Londres, e faleceu a 8 de fevereiro de 1941 em Nyeri, no Quênia…..mas, essa é outra história!
Hoje, o nosso herói é outro.
Nascido no Brasil, mais propriamente no Nordeste, nos tempos que, as arengas das salas de aulas da escolas eram “resolvidas lá fora”. Recebeu o nome de Luís Eduardo na pia batismal, confirmado no Cartório de Registros. Cedo, em casa e na escola, ficou conhecido como Dudu. Mas, os “arengueiros” da escola preferiam mesmo era o “Dudu Rolha de Poço”. Alguns colegas mais próximos, por carinho e amizade, preferiam apenas o “Rolha”.
Estudioso ao extremo, Dudu seguia os conselhos paternos. Dava pouca importância aos insultos, levando-os como brincadeira. Mas, tal qual uma velha, Dudu tinha seus “dias de priquita queimada” e se prontificava, como os da geração, à resolver tudo, depois, lá fora.
Cedo, quando não passava de um menino, Dudu conheceu e ficou encantado com o Escotismo. Fez tudo para entrar para o movimento e, de tanto demonstrar vontade, acabou sendo aceito.
Nos primeiros dias, “novato”, recebia incentivo dos mais lúcidos; mas também recebia provocações dos gaiatos. À esses, do pódio do autoconhecimento, Dudu vaticinou: “um dia qualquer, eu vou ser líder de vocês”!
Pois, Dudu, o “Rolha de Poço”, o gorducho, ou apenas o “Rolha”, se destacava a cada dia. Fazia amizades, ganhava confiança sem permitir intimidades ou gracejos durante as atividades do Escotismo.
A mão de Deus!
Quem acha que as coisas acontecem “quando têm de acontecer”, faz parte do rol das pessoas sem Fé. Quando vimos ao mundo, alguma coisa foi planejada por Deus, o único que pode tudo.
Eis que o dia de Dudu chegara. Depois de sair de casa na direção do encontro semanal com o grupo, o “Chefe” teve um contratempo e precisou desviar a rota e o objetivo principal. Seu carro teve um sério problema mecânico, o que o impediria, naquele dia, de comparecer à reunião com os jovens.
Procurou um telefone e manteve contato com o local das reuniões. Mais ainda, sugeriu ao atendente, que Luís Eduardo, o Dudu, o substituísse naquele dia, no comando dos escoteiros.
Ninguém contestou. E, naquele dia, a emenda foi melhor que o soneto, pois estava nascendo o “Corvo”, cujo comando e liderança foi assumido formalmente por Dudu. É. O “Rolha de Poço”!
Sempre alerta!
Foto 2 – O ícone do Escotismo no Brasil
Há entre tantos, quem afirme que, consciente do comando altivo e respeito que recebia dos “comandados” Baden-Powell sempre teve consciência que um dia entregaria o comando e a responsabilidade pelo futuro do escotismo à um substituto. Aconselhava para que todos se respeitassem mutuamente pois, com certeza o novo comandante estaria entre o grupo.
Preparava cartas (como a que transcrevemos abaixo) e as distribuía entre os jovens:
Carta aos guias de patrulha (monitores)
“Quero que vocês, guias de patrulha, entrem em ação e adestrem as vossas Patrulhas inteiramente sozinhos e ao vosso jeito porque, para vocês, é perfeitamente possível pegar em cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro Homem. De nada vale ter um ou dois rapazes admiráveis e o resto não prestar para nada. Vocês devem fazer deles inteiramente bons.
Para conseguir isso, a coisa mais importante é o próprio exemplo, porque, o que vocês fizerem, os vossos Escoteiros farão. Mostrem a todos eles que vocês sabem obedecer às ordens dadas, sejam elas ordens verbais, ou sejam regras que estejam escritas ou impressas; e que vocês cumprem as ordens, esteja ou não o Chefe escoteiro presente. Mostrem que conseguem conquistar distintivos de Especialidades e, com um pouco de persuasão, os vossos rapazes seguirão o vosso exemplo. Mas, lembrem-se que vocês devem guiá-los, e não empurrá-los.”
Rede de dormir armada no ponto mais “top” de Fortaleza
Muitos já sabem mas, outros tantos, não. Sou cearense, nascido em Pacajus. Quando nasci, no povoado Queimadas, o destino era em 98% Fortaleza, onde resolvíamos as necessidades de todos os níveis.
Pegávamos um ônibus da empresa Expresso de Luxo, às 07:00h e chegávamos em Fortaleza, na “Cidade da Criança”, por volta das 11:00h. Eram quatro horas de viagem – e quem conhece o trajeto sabe a distância.
Hoje, esse percurso é feito em 20 minutos e Pacajus integra a RMF.
Adolescente, estudei por 7 anos (4 anos no Ginasial, e 3 anos no Científico) no Liceu do Ceará, um dos três colégios mais antigos do Brasil.
Naqueles tempos, estudantes não eram tão baitolas quanto os de hoje. Nossas discussões e horizontes eram pelo país. Jamais pela dubiedade do gênero humano. Nossos pais condenavam qualquer tendência à viadagem – os de hoje são coniventes, e alguns até do mesmo naipe.
Bagunçávamos a partir do último degrau de descida da escadaria frontal do colégio, passando pela Rua Liberato Barroso até a Praça do Ferreira, costumeiramente nosso ponto de encontro. Já naquele tempo, muitos nos rotulavam de bagunceiros.
Dito isso, aproveito para dizer que conheço a Praça do Ferreira, tanto quanto conheço minhas duas mãos envelhecidas e enrugadas pela vida.
Na última semana estive em Fortaleza visitando duas filhas do primeiro relacionamento (ambas são “cariocas”, mas residem em Fortaleza). Decepção total. Com a cidade, claro!
O ambiente que, antes, parecia ser uma praça de Paris onde está erguida a secular Torre Eiffel, ou até mesmo a antiga Plaza La Concordia, em Caracas – agora nada mais é que uma Cracolândia com uma ampla cozinha à céu aberto.
Venezuelamos, faz algum tempo.
Os que ali ainda moram e vivem, aceitam tudo passivamente. A geração de “liceístas” não é mais a mesma. Baitolou total!
A foto anexada mostra uma rede armada numa das bancas de revistas e jornais da praça. A “Banca do Bodinho”, costumeiro ponto de encontro e discussões de torcedores dos times de futebol da cidade.
Fiz outras fotos, mas tenho vergonha de mostrar. Fotografei uma mulher “abanando” o carvão em brasa para aquecer uma panela velha de alumínio que estava num fogareiro – ali, nem me atrevi a verificar o que estava sendo preparado. Ainda que provavelmente sem tempero, o cheiro não era bom.
Tudo isso, sabemos, é o somatório dos anos que o PT e aliados usaram para destruir tudo e implantar suas filosofias de vida. Transformaram uma metrópole nordestina num reduto de fumadores de maconha, baitolas, lésbicas que se beijam ao ar livre e, dizem, alguns até fazem sexo tão logo a luz do dia vai embora.
E, sabem de quem é a culpa de tudo isso?
Não vou dizer. Vocês já sabem, e “eles” vivem dizendo a toda hora.
Triste, percebi a conivência e a passividade da população fortalezense, que prefere se esconder nos muitos shoppings da cidade, enquanto a “cupinzada vermelha” destrói o que ainda resta da cidade.
“Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei”
Manuel Bandeira
Ferro de engomar – o “aplicativo” de serviço de Dona Socorro
Socorro. Socorro era o nome dela. Socorro não sei-do-que. Isso, neste momento não é tão importante.
Lembro bem, que era Socorro.
Lembro também, que Socorro ficara viúva fazia algum tempo. Do casamento, tivera quatro filhos. Dois rapazes e duas moças – que, agora, cabia à ela fazer alguma coisa para garantir o sustento de todos. Era, como dizem os modernos, pai e mãe ao mesmo tempo.
Negra, cabelo liso e escorrido, com as ancas curvadas que a natureza lhe premiara – sem a modelagem das atuais academias de ginástica – garantia o desenho humano “de uma mulher e tanto”. Aliás, “tanto quanto”!
Cera de carnaúba, usada para fazer o ferro “deslizar”
Dona Socorro não era amiga do rei de Pasárgada. Com certeza o Rei sequer a conhecia ou receberia alguma vez – a não ser que, por motivo especial Ela fosse ao Castelo para entregar alguma roupa especial de Sua Majestade.
Mas, se nunca foi à Pasárgada, hoje provavelmente Dona Socorro está no melhor dos céus. O céu que ela, em vida, fez por merecer.
Senão, vejamos. Viúva, mãe de quatro filhos menores para criar. Sem emprego formal (desses que os patrões assinam as carteiras profissionais e entram para amontoar os números do IBGE).
Como alimentar os quatro filhos?
Pela manhã, antes mesmo que o galo do vizinho cantasse, Dona Socorro já estava de pé. Tinha que levantar para preparar o café com nada para as crianças e fazer refresco de limão e embrulhar um pedaço de pão para cada um levar para “merendar” na escola.
Depois disso, não parava mais. Tinha que puxar água na cacimba para encher um tanque e lavar roupa. A roupa de casa (dela e dos filhos) e a roupa “da patroa”, de onde tirava a garantia do sustento.
Especializada em lavar (e passar, ou, como fala o cearense, “engomar”) roupa branca. O marido da patroa era médico e raramente usava outro tom de roupa que não fosse o branco. Lavar bem lavada – ainda não existia a água sanitária, nem o Omo lavava tão branco – e colocar no anil.
Era essa a rotina de Dona Socorro, de segunda à sexta-feira. Aos sábados, as tarefas domésticas ficavam a cargo das meninas, enquanto os meninos tinham a obrigação de encerar o assoalho de tacos de madeira.
Se os sábados eram diferentes para os filhos, desde a hora de acordar até o hábito de ver na televisão preto-e-branco instalada no chafariz público, onde a grade repetia por vezes as séries “O gordo e o magro”, para Dona Socorro tudo parecia rotina.
Cedo do dia claro, o ferro de engomar era colocado na janela, onde o vento soprava mais forte e não havia tanta necessidade de usar o abano de palha para “atiçar” o fogo do ferro. Mão limpas. Muito limpas, para não “manchar” a roupa branca da patroa.
Terminada a tarefa de engomar aquela pilha de peças brancas, a preparação para a entrega. O banho ao lado do tanque. A troca da própria roupa e, às vezes, até duas trouxas de roupas brancas eram preparadas para a entrega.
O ônibus. Muitas vezes lotado na ida, e mais lotado na volta.
A volta, entretanto, era triunfal.
Em vez de ir para Pasárgada, onde não existia Rei e ninguém era amigo de ninguém, o dinheiro do pagamento daquele trabalho da semana inteira, era “depositado com toda segurança” dentro do sutiã.
Dona Socorro “pronta” para entregar a roupa branca da patroa
Na chegada em casa, tudo limpo. Chão encerado com Parquetina, o que garantia aos meninos o direito de, depois de fazer todos os deveres de casa, e da escola, jogar bola domingo pela manhã no campinho de várzea.
E assim era a vida. Moradia em Pasárgada, ainda que ninguém fosse amigo do Rei. Na noite de domingo, a preparação para recomeçar tudo na madrugada da segunda-feira.
Assim, Dona Socorro “formou” os quatro filhos, vivendo em Pasárgada, mas, sem ser amiga do Rei.
Lugar preferido para escutar o vento e olhar a claridade da noite
Gosto de ouvir o vento – ele tem o inconfundível som da quietude, e nos conforta, quando nos encontra em Paz.
Gosto tanto de ouvir o vento – ainda que ele faça o barulho catastrófico da destruição, mostrando o seu poder de fogo (ops! – de força) – que me ponho a respeita-lo, para melhor perceber suas graves notas musicais.
O fá, o ré, o mi e até o sol, na construção da partitura do vento – que nos embevece e chega e sai, tão suavemente, que nos transporta em voos sem asas de um êxtase para outro.
O som do vento é belo. Tem cores tão fortes quanto o arco-íris que a Natureza Divina nos mostra no seu mural celeste.
Ouço o vento, tanto quanto vejo o mar composto por águas invisíveis, que evaporam até com o mais tênue açoite – do vento!
Dia desses fui ao campo, e chegando lá, sentei no chão. Sentei, fechei os olhos e comecei a ouvir a Orquestra Sinfônica da Ventania Celestial, nota por nota, acorde por acorde, passagem por passagem que transformaram o momento numa verdadeira ópera – Divina, no Teatro Espetacular da Vida.
E veja, escutei a bela ópera, gra-tu-i-ta-men-te!
Pagando apenas com as moedas do meu tempo e da minha Paz.
Eu escuto o vento, em todos os seus mais de 50 tons!
Tem posição “top” – para usar o americanismo da linguagem brasileira – no meu “ranking” de preferências, a noite. A noite é o único momento das 24 horas que me permite ver a nitidez das estrelas. É na noite que vejo a beleza que não consegui ver durante o dia – porque a beleza noturna é invisível durante a claridade do dia.
É só durante a noite, que a claridade do dia vai embora, se preparando para voltar no amanhecer seguinte.
Sem descanso. Continuadamente!
Certa noite contemplei o céu. O céu da noite – e achei que, de noite, podia olhar melhor para Deus – tem um “que” de nobreza poética; permite o aconchego ao vento ou debaixo de lençóis.
A noite é abusivamente permissível, ainda que redundante.