JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

RECORDAR

Hoje resolvi “postar” uma coluna diferente. Sem texto – e nem sei se posso chamar de “coluna”.

Vou fazer como minha Avó – analfabeta sem ser idiota como os pais de e avós de hoje – quando queria ensinar os netos, motivando-os a fazer algo proveitoso.

Oferecia um anzol, uma linha, uma vara, uma lata vazia e várias minhocas. E ainda dizia:

– Taí, vá pescar!

Pois assim faço!

Taí, lembrem e relembrem. Escrevam os textos que lhes convier e vier à mente.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A BOLANDEIRA E A CRUÊRA

Antiga “bolandeira” tocada pelo animal

Uma vida inteira na infância dedicada aos estudos, e ao viver na roça. Foi assim para a maioria das crianças saudáveis das décadas de 50/60 no interior do Ceará, ainda que a seca intermitente castigasse as famílias que viviam exclusivamente da agricultura familiar.

Parte de dezembro e todo o mês de janeiro, era o período dedicado às férias escolares. Em julho, mês completo, tudo levava a crer que o período se tornava maior – era a convivência mais demorada e interessante com a lavoura, e mais precisamente com a farinhada.

Tema exaustivamente discorrido, a farinhada é um período que coroa a produção da mandioca com o fabrico da farinha de vários tipos – componente alimentar indispensável na mesa das regiões Norte e Nordeste – com as reuniões das famílias dos pequenos agricultores meeiros e do regozijo dos proprietários das terras.

É uma festa. Tão importante quanto a colheita da uva, da maçã e do café.

A “bolandeira” que movimentava o caititu na ceva da mandioca

Por vários dias só se pensa em farinha. Em tapiocas, beijus, mingaus, acúmulo da produção em paióis para o consumo ao longo do ano. Como comunidades de formigas carregando e acumulando o alimento para consumir no inverno, o “matuto” produz e guarda, quando a agricultura é familiar.

É uma riqueza gratificada com a alegria estampada em cada rosto.

Por dias, semanas e meses, num galpão sem paredes laterais se transformava num verdadeiro conclave onde os destinos do povoado – plantação, colheita, distribuição e possível venda do que sobrava do abastecimento necessário – eram discutidos entre os meeiros-proprietários. Ninguém pensava em “poder”. Apenas em garantir o “comer”. Mais tarde as informações chegaram ao povoado, garantindo que aquilo era uma “cooperativa”.

Terminada a farinhada, vem a recompensa. Os trabalhadores que não plantaram roça de mandioca recebiam a sua paga.

Essa paga, feita em dinheiro em espécie, é sempre acompanhada pela gorjeta de “tantos litros de farinha” – via de regra, dá para comer mais de um mês, levando-se em conta que, farinha se come todo dia e de todo jeito.

Da mandioca e do boi, dizem, ninguém perde nada. Do boi (ou da vaca, se assim desejarem) não se perde nem a bosta. E há quem afirme que, dele, até o urro é aproveitado.

Fazer farinha parece coisa fácil. Não é. O agricultor tem que conhecer a qualidade da “maniva” (galho da mandioca que vai ser replantado para renascer) e o tempo do plantio, além de saber preparar a terra. Precisa conhecer o tempo da colheita.

São três tipos de farinha de mandioca. Parte da região Nordeste usa a mandioca para fazer a “farinha seca” ou a “farinha branca”.

Da mandioca extrai-se a goma (amido), largamente utilizado em beijus, sopas e mingaus. Por tempos, a goma teve largo uso para garantir o bom visual de roupas passadas no ferro. Daí, provavelmente, veio o termo muito utilizado na região: “engomar” a roupa.

Trabalhadores na “farinhada”

No Pará, Maranhão e Tocantins, a farinha preferida é a “farinha d´água”, cujo preparo da mandioca é mais demorado – mergulha-se a mandioca na água por vários dias, até que ela possa produzir a “massa puba” que, passando por outro tratamento, vai produzir a farinha. Dessa mandioca, retira-se, também, o líquido para fazer uma cachaça especial (tiquira) e a matéria prima para molhos de pimenta e o tucupi (ingrediente muito usado no preparo do “pato no tucupi” – alimento da culinária típica do Pará).

No Pará produz-se também a “mandioquinha”, muito usada na culinária regional.

A “cruêra”, nada mais é que a casca da mandioca, separada e colocada à secagem para alimentar animais domésticos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A FAZENDA AURORA

A lagarta “mimosa”

Acredite, tudo aconteceu na Fazenda Aurora, uma das maiores propriedades de Ricaço, homem caladão, que só se preocupava em ficar mais rico com o cultivo de girassóis.

Numa manhã chuvosa de domingo, na casa de Dona Lurdinha, os moradores só perceberam os estragos feitos pela chuvarada, depois que o dia clareou.

Aquele cheiro gostoso e inconfundível de terra molhada ajudava abrir o apetite para o café da manhã, para quem ainda estivesse sonolento, mas já preparado para a caminhada que levaria até à Santa Missa do domingo celebrada por Padre Elói.

Antes mesmo que todos saíssem de casa, o sol deu o ar da graça, desenhando pelas frestas do telhado, verdadeiras obras de arte. E esse mesmo sol começou a agir, esquentando o solo, fazendo com que todos esquecessem que, horas antes, havia caído quase que uma tromba d´água.

Aproveitando que todos saíram de casa a caminho da Igreja, Mimosa, uma horrível e colorida lagarta, resolveu sair do esconderijo, debaixo das folhas grandes, e iniciou seu trabalho de devastação do verde que, de tão bonito, fazia tremer a vista de quem olhasse.

E destruía, ao mesmo tempo que comia, enquanto caminhava aos pulos, na direção da enorme plantação de girassóis. E caminhava aos saltos, ao tempo que se dobrava e desdobrava. Sabida, procurava a sombra das folhas verdes que não lhe interessavam. Ela queria mesmo era os talos e os botões dos girassóis.

À medida que o tempo passava, mais ela comia e destruía. Eis que, uma brisa leve lhe trouxe o aroma dos girassóis, fazendo-a compreender que a plantação ainda estava distante. Continuou comendo. Continuou destruindo, até que, anestesiada, quase dormindo, sequer se deu conta que havia chegado na plantação. Adormeceu.

A alta temperatura lhe trouxe um esconderijo. Uma sombra escura de várias folhas muito verdes. Foi coberta por um casulo. Veio a tarde, veio a noite e, no dia seguinte, veio o amanhecer, o entardecer, e um novo anoitecer.

Um dia, dois dias, vários dias, um mês. Mais um mês, e mais outro. Aquele casulo tomava forma diferente, querendo dizer que não era mais a horrível lagarta Mimosa, por ironia.

Eis que, belo dia – por coincidência, também domingo! – a Primavera chegou, trazendo aquele mar amarelo de centenas de milhares de girassóis.

O casulo, se abria, enfim! E um vento forte açoitou a Natureza, e deu asas a uma bela e pintada borboleta que, ao lado das abelhas, pousava em cada girassol, para agradecer-lhes a beleza da transformação da vida.

Mimosa a lagarta que voou

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

NÃO TROCO A MINHA QUEIMADAS PELA PARIS DE NINGUÉM

Torre Eiffel em Paris

Hoje, cedo ainda, sairei de casa em busca da liberdade, pouco me importando se, com idade avançada, usufruirei ou não desse bem. Nunca me considerei uma pessoa só, única. Tenho os meus que, apesar dos pesares ainda convivem comigo, embora de gerações e valores diferentes.

Vou pra Queimadas, terra onde nasci.

Minha Avó me disse, e eu acreditei que Queimadas não tem igual.

Com Vovó aprendi, que não devo trocar Queimadas por Paris.

Em Paris, para ir à Torre Eiffel, precisarei falar francês.

Em Queimadas, isso não é nada. Melhor, mesmo, falar “galinhês”!

Em Paris, em torno da Torre Eiffel, com certeza não ouvirei o cantar das cigarras, a cantiga continuada dos grilos ou a perturbação das muriçocas.

Paris, cidade luz!

Queimadas, cidade onde os vagalumes presos nas cachopas das mãos, iluminam até nossas almas e nossos anjos.

Galinhas “ciscando” no quintal da Vovó em Queimadas

Em Paris, na Torre Eiffel, verei galinhas caipiras “ciscando” e pegando minhocas?

Em Paris, nos arredores da Torre Eiffel, tem as moitas de “mofumbo” prumode a gente cagar?

E, de dia, se você assoviar, vai escutar o peru fazer glu-glu em resposta?

Quanto tempo levarei de Paris para Pasárgada?

De Queimadas, até de jumento, vou à Pasárgada em pouco tempo e, de quebra ainda ouvirei a sonata feita pelo vento nas curvas da vida e estarei muito próximo da liberdade que tanto busco.

Aonde, em Paris, poderei assar minhas próprias castanhas de caju naquela banda de lata?

Aonde servem paçoca de carne-de-sol em Paris?

“Tacho” de flandre assando castanhas em Queimadas

Não!

Nunca trocarei minha Queimadas pela Paris de ninguém.

Em Paris tem farinhada?

Em Paris tem a obrigatoriedade de conviver com a escassez d´água?

Em Queimadas também não tem.

Mas, em Queimadas, passados tantos anos, a liberdade que procuramos nunca saiu de lá. E, no lombo de um jumento, de lá, rapidinho a gente chega a Pasárgada.

E…. lá não somos amigos do Rei, mas poderemos eleger um Mito!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A MOEDA

Nosso “dinheiro” na infância inocente – R$ 100,00.

Ao alcançar a “terceira idade” fiz uma análise, lúcida, do que seja a vida. Não é apenas uma dádiva divina mas, também, uma atribuição dada pela entidade que nos criou, independente dos estágios de espermatozoide e intrauterino em gestação.

E, como escrevi acima “terceira idade” me permiti entender que a “velhice”, entre essas três é a última. Assim, o raciocínio lógico também me permite entender que, a “infância” é a primeira.

A infância é o início da provação, digamos assim. A juventude ou a maturidade – ficando essa ou aquela no meio da vida – passa a ser, por lógica, a vida consciente em si.

Hoje volto aqui, para louvar, reconhecer e agradecer à Deus e aos meus pais, sem deixar no esquecimento a geração que me “abrigou” pela infância pura e inerente ao desenvolvimento vivida em Queimadas e Fortaleza. Vou falar de dinheiro. Das coisas boas que ele (o dinheiro) proporciona e das maldades transformadas em “casacas de banana” que ele nos envolve.

E começo dizendo que, para mim e minha ingenuidade momentânea, meus primeiros dinheiros foram as carteiras de cigarros vazias que pegava nas coxias (o espaço construído para delimitar o asfalto da calçada de pedestres) das avenidas.

Durante tempos indaguei à mim mesmo, o “por quê” daqueles dinheiros estarem sempre naqueles locais (coxias). Com o passar do tempo, entendi que os fumantes que dirigiam seus carros de passeios, sem a educação necessária, ao esvaziar aquela carteira, em vez de guardá-la para colocar no lixo de forma adequada, jogava “na rua” e o vento a levava para a coxia.

A marca “Continental” valia, digamos, R$100,00. A marca americana Pall Mall, pela raridade, valia R$1.000,00!

Fácil entender que, Continental, de relativo valor para o poder aquisitivo do fumante era mais consumido. O Pall Mall, importado e consumido com facilidade apenas por conta do contrabando – tanto quanto o Camell – tinha menor consumo.

Nosso “dinheiro” na infância inocente – R$ 1.000,00

Em casa, nosso dinheiro era outro, e podíamos usá-lo para comprar cocadas, pirulitos, picolés, pão-doce, quebra-queixo e figurinhas de álbuns de artistas do cinema ou jogadores de futebol.

Tínhamos, claro, nosso “miaeiro” ou “porquinhos” onde juntávamos nossas moedas. As moedas em papel, juntávamos num caixote vazio de charutos Suerdick.

Lembro bem que, eu – pelo menos, eu – ficava sentado no portão de entrada de casa, com o gato, esperando o Pai chegar. E ele, o Pai, sabia o que eu ficava fazendo ali. Do bolso pequeno da frente da calça, ele sacava uma moeda, me entregava e encerrava a minha “vigília”.

Meu primeiro dinheiro na formação do milhão de nada

Confesso que, dinheiro nunca foi para mim a coisa mais importante. Nunca valeu mais que a dignidade – e existe, sim, para ser gasto, proporcionando algo que não pode ser adquirido gratuitamente. Mas, para o amor, o favor, a ajuda através do desprendimento pessoal de cada um, o dinheiro não vale realmente nada. Ou, vale tanto quanto valia aquele dinheiro imaginado e estabelecido pelas notas de carteiras de cigarros vazias.

E, sabe que justificativa tenho para isso?

Minhas tias Zulmira, Dedé e Margarida, depois de muito trabalhar, conseguiram aposentadorias. Dedicadas ao trabalho em demasia, por motivos que desconhecíamos, não namoraram. Sem namorar, morreram virgens da prática sexual. Somatório disso: não tiveram filhos.

Adquiriram o hábito de comprar charutos, que davam de presente ao meu pai, irmão delas. Compravam também, sabíamos, apenas para esvaziar as caixas e usá-las como “cofres”. Tinham uma parte de um guarda-roupas grande reservada para aqueles caixotes de charutos onde guardavam o dinheiro. Não confiavam em bancos.

Quando morreram – as três – os parentes foram abrir os caixotes e descobriram que toda aquela dinheirama não valia mais nada. Já circulava outro tipo de moeda.

Deduzo: dinheiro é para gastar.

Muitos com mais de 50 anos de idade lembram dessas cédulas

Infelizmente, nos dias atuais, homens e mulheres vivem pensando que o dinheiro, a moeda, tem mil e uma utilidades, além da precípua de “pagar uma compra”. E, felizmente, não é tudo que o dinheiro compra – mas, infelizmente, tem comprado muitos valores morais de pessoas que vivem no nosso meio, como se humanos fossem.

Cruzeiro, cruzado, cruzeiro novo, real – alguns significados da moeda circulante brasileira. Desvalorizada, coisa inerente a país “tupiniquim”, precisamos de muitos reais para competirmos com o dólar, o euro ou a libra.

É, entendo, uma eternização do tempo dos “réis”.

Com alguns enfoques antigos, contando passagens e casos correlacionados, produzi 40 (quarenta) contos que estão reunidos num livro – “Quarenta contos de réis” – esperando cair alguma moeda dos céus para custear a impressão.

Capa do livro “Quarenta contos de réis” de minha autoria

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A “MINHA” AGRICULTURA FAMILIAR

O “arado” usado durante anos pelo meu Avô

Ainda criança, aprendi com os meus avós: “plantar sempre as sementes da bondade e da honestidade, regando com o suor e com o pranto, que o fruto receberá o nome de dignidade.”

Cedo, meus avós, sem doutorado, me ensinaram a amar a Terra, único lugar de produzir alimento. Cedo, aprendi a usar a enxada para capinar a roça. Cedo, aprendi a semear, regar e colher o fruto. Cedo, aprendi que a divisão do que a Terra nos dá, nada mais é, que uma multiplicação.

Tudo que for semeado frutificará. Até a maldade. Como se fora um pé de bumerangue.

João Buretama (uma corruptela de Uruburetama, local de nascimento dele), me ensinou o manejo da enxada na roça, o perigo do mau uso e o benefício do uso correto.

Foi com ele que aprendi, que, “a sombra, nem sempre é coisa boa”. Descansa, mas também pode acomodar.

Minha Avó, Raimunda Buretama (resolveu e aceitou usar a corruptela do nome do meu Avô como sobrenome), me ensinou que a semente (qualquer uma), é o princípio da vida.

O arado com a tecnologia revolucionária da tração animal

Minha adolescência, diferente da de muitos outros jovens, foi naquele ambiente. Preparar a terra, semear, regar, plantar, cuidar da preparação para a colheita.

Os meus me ensinaram o que entendiam como “agricultura familiar”. Que será sempre aquela que, reúne todos os esforços no objetivo do plantio e, alegre, usufrui da colheita. Na minha roça, agricultura familiar pensa em primeiro plano no abastecimento próprio, da alimentação e da subsistência entre uma safra e outra.

Hoje, de forma equivocada, a agricultura familiar visa muito mais a negociação. Tá errado!

Primeiro a família, a alimentação farta na mesa. Em seguida, a preocupação com a armazenagem da semente para o plantio da próxima safra. Depois, aí sim, algum tipo de comercialização.

Lembro bem que, milho e feijão para plantar na próxima safra, eram selecionados e guardados em cabaças, cujas bocas eram “lacradas” com cera de abelhas para evitar as pragas.

A “sobra” era levada para as pequenas feiras na sede municipal. A troca dos produtos vinha em primeiro lugar. Trocar feijão por café em grãos, trocar milho por sal, trocar arroz por açúcar, rapadura.

A farinha todos produziam e estava sempre fora dessa negociação.

Legumes como batata doce, macaxeira, inhame, abóbora, entravam nas negociações.

Logo apareceram as pequenas “cooperativas”, que vendiam enxadas, gadanhos, arame farpado, foices, facões, cordas, querosene, fumo, creolina e mais uma infinidade de produtos. Toda a paga era feita a partir do lucro produzido pela sobra da agricultura familiar.

Agricultores da família conduzidos partes da colheita

Sabe-se que, neste ano de 2022, o Brasil já se aproxima dos 250 milhões de habitantes, o que conflita com a população brasileira dos anos 1950, por exemplo. Isso, provavelmente explica a inserção na vida de muitos, da indústria tecnológica na agricultura, principalmente com equipamentos que garantem “rapidez” em quase tudo.

Paralelo a esse crescimento – por extrema necessidade, diga-se – a criação da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária) foi a cereja do bolo, principalmente na questão da produção de mais e mais alimentos – e aí viceja a exportação de produtos que vai além da “sobra”. Aquela que, no passado, levávamos para a troca nas feiras da agricultura familiar.

A Embrapa é hoje, sabe-se, a maior e mais eficiente empresa de pesquisas agropecuárias no mundo inteiro. Um orgulho brasileiro.

As atuais feiras de produtos da agricultura familiar

Mais que a quantidade colhida para alimentar (inicialmente) a família, garantir o semear da próxima safra, o que mais “frutificou” em mim, semeada ainda no tempo de criança, foi o amor à Terra. Isso sem esquecer o entendimento da importância dos bons invernos e, agora, da transposição das águas do Velho Chico. Agricultura sem água, é a mesma coisa que agricultura sem semente.

Ainda que entenda que a tecnologia e a maquinaria é importante (só para a produção em grande escala e geração de exportação), serei sempre favorável a convivência direta do homem (agricultor) com a Terra, produzindo e derramando suor para regar as sementes.

As máquinas são importantes e ajudam. Mas acabam por tirar milhares de oportunidades de “emprego”, além de propiciar o “desapego” pela terra.

Mesa farta graças à agricultura familiar

A agricultura familiar, desde muito tempo, é a garantia da mesa farta. É, também, a ponte para a autoestima e o entendimento do que realmente seja a “liberdade” das mesquinharias políticas e dos favores, que nada mais são que cabrestos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O VAZIO – PARTE DE NÓS

A solidão que uniu o vento e a saudade

No quarto do terceiro pavimento a solidão está conosco. Como se vivêssemos uma lua de mel. Os lençóis brancos, ainda úmidos, exalam o cheiro amoníaco do gozo, enquanto o vento, absoluto, invade a nossa intimidade pelas janelas abertas, como se fizesse sexo com as cortinas, num revolto desvario procurando alguém. Continuamos sós.

O chuveiro. E, de repente, estamos acompanhados do intruso silêncio que nos absorve e flagra, numa invencível luta contra a solidão.
Ninguém é vencedor.

Ninguém é dono de nós, embora nos façam companhia, continuamos sós. Nós, a solidão e o vento sorrateiro numa invasão intempestiva pelas janelas abertas depois da luta contra as cortinas.

Desnudos, caminhamos em direção ao espelho.

É mais um acompanhante que nos perturba, na insistência de nos mostrar que continuamos sós. Nós, a solidão, o vento, e agora, o espelho.

Nos olhamos e nos vemos. Nos observamos e nos analisamos da cabeça aos pés. Ninguém ao nosso redor além da solidão, do vento e do espelho.

Pusemos nossas roupas e saímos acompanhados da solidão, do vento e sentimos que o espelho já não nos acompanha. Nos sentimos cada vez mais sós, e menos acompanhados. Pensamos no nada, porque descobrimos na solidão, que é difícil encontra-lo.

E para que queremos o nada, se não podemos vê-lo, apalpá-lo e contar com ele para alguma coisa?

É melhor continuarmos sós, mesmo que estejamos acompanhados da solidão e do vento que, tresloucado, está indo embora e fazendo a curva em algum lugar. Num lugar tão distante que, certamente, nem a solidão chegaria lá, ainda que corresse numa velocidade de anos luz.

E segundo o escritor Bach, “distante é um lugar que não existe”!

Descemos do quarto e nos procuramos. E a solidão, na tentativa de ajudar, lembra que estamos sós, embora estejamos com ela, pois o vento foi embora e até já fez a curva. Agora, somos apenas nós três mais uma vez: eu, tu e a solidão.

Resolvemos caminhar e decidimos que apenas nós dois nos bastamos. Na caminhada, uma cadeira vazia, e de lá, percebemos de onde saíra a solidão. A cadeira, por anos esperou a solidão. Agora acompanhada, a cadeira vazia agradece, e em troca nos oferece o pôr do sol como nova companhia.

Caminhamos na direção do poente, andando rápido em contraponto com o vento, que foi fazer a curva bem distante, num lugar que, agora, existe.

O sol se põe, e mais uma vez nos deixa sós. E nós já não temos mais a companhia da solidão, que resolveu sentar na cadeira da estrada onde ninguém passa, nunca. Só eu, tu, e a solidão.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

UM PASSEIO PELA SERRA DAS ALMAS – UM LUGAR COM MUITA VIDA

Arcos na entrada de Crateús onde está a “Serra das Almas”

“Todo mundo canta sua terra
Eu também vou cantar a minha
Modéstia à parte seu moço
Minha terra é uma belezinha.
Minha terra tem beleza
Que em versos não sei dizer
Mesmo porque não tem graça
Só se vendo pode crer”

João do Vale

“Crateús é um município brasileiro e uma das cidades mais importantes e antigas do Estado do Ceará, localizada às margens do Rio Poti, na região dos Sertões de Crateús, sendo a décima segunda cidade mais populosa do estado, com 75 241 habitantes e a detentora do décimo quarto maior PIB cearense, conforme estimativas do IBGE de 2022. Geograficamente cortada pelo Rio Poti e pela Serra Grande. Já foi uma das maiores produtoras de biocombustíveis do Nordeste, (Que se dá pela companhia Brasil Ecodiesel, na produção de 118.800 m3 de biodiesel por ano segundo a companhia) e abriga Reserva Natural Serra das Almas.

Seu clima é tipicamente tropical, com uma temperatura média de 25,4 graus Celsius e com uma altitude de 90 metros, chegando até os 274 metros nas áreas mais altas ou seja nas regiões montanhosas e acima da Serra Grande.

Crateús está localizada a 350 km de Fortaleza, o acesso rodoviário é feito pela BR-226 ou pela BR-020 (Rodovia Brasília-DF – Fortaleza-CE) que liga o Ceará ao Piauí e, consequentemente, ao Maranhão e ao Pará. Também conectam-se pela Ferrovia, atualmente usada sobretudo pela Transnordestina Logística.

Crateús é conhecida internacionalmente por ter sido a cidade que prendeu a santa, por ter revidado a passagem da Coluna Prestes pela cidade em 1926, e por registrar a menor temperatura mínima do Ceará, 12 ºC em 13 de fevereiro de 1963.” (Obs.: informações coletadas no Wikipédia)

Mapa de localização de Crateús e Serra das Almas

Dar preferência a Paris, New York, Berlim ou Santiago de Compostela, é um direito seu. Se não és herdeiro(a), com certeza trabalhou para viabilizar esse passeio.

Eu, negro e pobre, também não sou herdeiro – mas trabalhei muito durante muitos anos na tentativa de finalizar com dignidade os meus muitos dias de vida, antes de voltar ao barro, após cumprir a missão dada pelo Onipotente.

Mas, asseguro que, conhecer essas maravilhas midiáticas citadas acima, nunca “fizeram minha cabeça”, e faço questão de viver na terra chamada Brasil. Nada contra quem pensa e age diferente.

Assim, convido você, leitor(a), para entremear nas viagens para a Europa e América do Norte, e caminhar nas trilhas ou voar com as borboletas e aves raras da “Serra das Almas”, pedaço dos céus colocado por Deus na região Norte do Ceará.

Com certeza, após conseguir se livrar desse bombardeio polarizado entre o bem e o mal dessas eleições, com o sentimento do dever comprido cumprido, você fará a melhor escolha arrumando a mochila com o que imagina que será necessário para sair por alguns dias de casa e visitar uma das maravilhas do mundo, porta de entrada para os céus da satisfação.

Serra das Almas

A Serra das Almas é uma particularidade do Patrimônio Natural, mantida por uma entidade de nome Associação Caatinga, também reconhecida pela Unesco, como Posto Avançado da Reserva da Biosfera. Ali estão abrigadas significativas partes da caatinga do sertão nordestino, em Crateús. Estão contabilizados 6.146 hectares de área protegida, sediando três nascentes e espécies listadas como ameaçadas de extinção. A Serra das Almas está localizada no Sertão dos Inhamuns, no Ceará; e Buriti dos Montes, sertão do Piauí.

Quem pretender visitar a sede da reserva, que fica a 50 km da cidade de Crateús, melhor se hospedar nas simples, mas aconchegantes pousadas do município, levando em média 75 minutos de qualquer pousada para a reserva. Entretanto, a administração da Reserva Serra das Almas disponibiliza uma boa e simples estrutura de atendimento aos visitantes:

Um centro de visitantes na Sede da Reserva, com alojamento para 20 pessoas, cozinha, refeitório, academia ao ar livre, trilhas e área de convivência. Outra estrutura é o Centro Ecológico Samuel Johnson com capacidade para 30 pessoas, alojamento para 22 pessoas, cozinha, refeitório.

Portão de acesso à Reserva da Serra das Almas

Ao ter acesso à Serra das Almas, você terá:

– Exuberante fauna e flora;
– Ar puro para respirar de forma gratuita;
– Bom atendimento por parte dos guias;
– Liberdade para “algumas” ações;
– Direito ao nascer e ao pôr do sol;
– Passeios em canoas seguras pelos cânions do rio Poty.

Ali naquele paraíso terreno, você não terá:

– Preocupação ou postos para “cambiar” moedas estrangeiras;
– Semáforos nas encruzilhadas das muitas trilhas;
– Motivos para estresse por conta do excesso de veículos;
– Queimadas provocadas ou tufões;
– Obrigação de assistir alguns noticiosos nacionais de televisão.

Centro Administrativo e pousadas

Além da exuberante flora, fauna que contribuem para o bioma de forma positiva na Serra das Almas, no Ceará, o visitante tem oportunidade de conhecer e navegar pelos cânions maravilhosos do rio Poty, no Piauí.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A POESIA DA FOME

Prato vazio e olhos de quem depende de você

“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”

Depende de nós. Muito depende de nós. Muitos também!

É chegada a hora de entendermos que versos só alimentam as almas e, algumas vezes, os amantes. É chegada a hora da decisão.

Repito: muitos dependem de nós. Do que vamos fazer no próximo domingo. Deixe a poesia em casa. Leve o voto! Leve a vida e a comida para os pratos vazios. Bote brilho nos olhos onde o “branco” anuncia a poesia da fome – e, provavelmente, a da morte.

Morrer de fome não é nada poético. A fome nem permite ouvir os gorjeios das aves que cantam nas palmeiras.

Tal qual o sabiá sem palmeiras o menino sem poesia sente fome

– Bom diaaaaa!

– Diaaaa!

– Tá indo pra onde, tão devagar?!

– Tô indo votar. Fazer a minha parte, sabendo que só eu faço!

– Quer uma carona?

– Quero!

– Posso saber em quem você vai votar?

– Pode, claro!

– Em quem?

– Vou votar para a preservação dos cachorros, dos gatos, dos morcegos e, provavelmente, para a preservação dos sabiás, augurando que eles voltem a cantar nas palmeiras da minha terra!

– Seu voto tá parecendo poesia!

– E é!

Poesia da fome, para que versos consigam alimentar as minhas crianças, as suas e as crianças famintas do mundo, sem deixar de fora as da Venezuela!

Crianças consomem versos da mais bela poesia

“Minha terra tinha palmeiras
Onde cantavam os sabiás
As aves que ali gorjeavam foram comidas,
Agora cantam noutro lugar!”

Sou descendente direto de negro, que resolveu fazer uma mistura com índios. Posso ser uma salada, mas, provavelmente, jamais serei uma poesia. Um verso sequer.

Nasci no Ceará, lugar onde, nem nas poesias existem palmeiras.

Os sabiás fugiram ou se transformaram em graúnas – mansas!

Quase poéticas. Com rima e métrica expelidas pelos gorjeios. Mas, sem rimar ou cantar com as palmeiras.

Ali, aprendi a poesia do semear manivas e colher mandiocas, fazendo da terra o casulo da transformação – e aquilo eu tinha certeza que eram versos. Versos irrigados pelo suor escorrido e caído do rosto, imitando os pingos das chuvas versejando pelas folhas verdes da vida – e da alimentação que estará por vir.

Sou poeta?

Qual poesia construí ou escrevi?

– “A poesia da fome”!!!!!!!

Respondeu o eco desde as entranhas produzidas nos cânions da imaginação – sem palmeiras e sem sabiás cantando.

Criança “catando” versos sem sabiás, mas com urubus

Epaminondas, pessoa que a vida e a necessidade transformaram em poeta, recebeu como “presente” o dom de dormir em qualquer lugar. Para dormir, era suficiente apenas “adormecer”. Por anos, a fio, escolheu adormecer e dormir num dos bancos de uma praça sem palmeiras e sem sabiás. Sem poesia, digamos.

Comia versos originados nas sobras de pasteis que os poetas de barrigas cheias ofereciam. Aos sábados, domingos e feriados naquela praça sem palmeiras e sabiás, nada comia. Nem versos nem poesia completa.

Eis que escutou o cântico mágico e transformador da barriga. Verso mal escrito, sem rima, sem métrica – e resolveu comer uma lagarta. Seu único e principal verso consumido naquele dia.

Na manhã do dia seguinte, na praça ainda deserta, desceu as calças e cagou uma linda e bem desenhada borboleta.

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?”

Carlos Drummond

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

NOSSOS DIZERES – UMA COISA É UMA COISA AQUI, MAS PODE SER OUTRA COISA ACOLÁ

Nomes diferentes para as mesmas coisas

O Português é uma língua diferenciada. Difícil de ser falada ou escrita de forma sempre a mais correta. Provavelmente por conta de aceitar receber influências de idiomas estrangeiros. Uma miscelânea, digamos.

Isso, sem contar as constantes propostas de mudanças – via de regra por pessoas sem qualquer competência para isso.

Ficamos apenas com um exemplo. As influências da língua inglesa que absorvemos e passamos a usar com frequência: lobby, podcast, shopping, delivery, etc., etc.

Lá pelos anos 50/60, pelo menos no Liceu do Ceará, havia a demonstração de uma verdadeira ojeriza ao idioma inglês – e muitos procuravam evitar o uso de palavras já dominantes naquela época. Claro que de nada adiantou, pois o Liceu nada mais era que uma pequena comunidade que, digamos, “protestava”.

Nos dias atuais, duas palavras da língua inglesa entraram na fala diária do povo brasileiro: fake news e live.

De forma consciente, ou não, provavelmente por uma quase insignificante parcela da população, a linguagem e as expressões por esse Brasil à fora, insistem predominantemente – alguns rotulam de “linguagem raiz”.

Ora, bem ali (bem ali, uma ova!) no RIO GRANDE DO SUL, provavelmente por conta da proximidade da fronteira com países como Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile, os gaúchos desenvolveram, e continuaram praticando falas que mais parecem coisas de outro planeta. Mas, dali, do Chuí até os Arroios, todos sabem o que significam. Isso sem levar em conta o linguajar considerado folclórico.

“Gaúcho macho não come mel. Mastiga a abelha”

“Vaca de campo não tem touro certo.” Essa, claro, com um forte duplo sentido, que os maldosos podem querer dirigir às mulheres.

“Quando se pega na rabiça do arado, deve-se ir até o fim do rego.”

Esse baiano tem muito tempo – vai cagar longe

Viajando algumas horas, encontramos o estado da BAHIA, com modos e falas completamente diferentes.

“Quem tem tempo caga longe.”

“Afine o seu pescoço!” – Forma “educada” de aconselhar a outrem para ser comedido, parar com atrevimento, falar baixo e respeitosamente, sem agredir ao outro.

“Boca de zero nove.” – Alguém, homem ou mulher (ou um terceiro sexo que querem inventar na Bahia) de muita coragem para qualquer coisa. Topar qualquer “parada”.

Foto 3 – Zé Wilker propagador do linguajar cearense

Da Bahia ao CEARÁ não é tão distante. A forma de falar do cearense, também cheia de lero-lero e alguns significados duplos e repleta de remandiolas ou enchimento de saco, isso sem contar a influência recebida pela comunicação fácil e “ondas e momentos” das emissoras de televisão – ainda que prevalecendo na maioria dos casos a linguagem local.

“Se fazeno de besta, pá mió passá!”

Alguém que prefere ouvir e ficar calado como resposta. Considerado como pessoa inteligente, que jamais adere ao revanchismo agressivo. Se dá sempre bem, e está sempre “de boa”.

“Curubau” – Curuba é uma virose chata. Atinge pessoas na tenra idade. Provoca irritações, coceiras e incômodos. Daí o uso e a manut6enção da expressão, quando alguém quer se referir às pessoas que incomodam além da conta. Gente chata, antipática.

“Água qui passarim num bebe!” – Cachaça, produto feito da cana destilada com alto teor alcoólico. Bebida branca, parecendo água, mas dessa que passarinho não bebe.

Bar do Rio de Janeiro onde o “falar” local corre fácil

Passando pelo RIO DE JANEIRO, qualquer pessoa sensível vai perceber no palavreado do “carioca” (que não é apenas aquele que nasce no lugar, mas o que vive no estado há muito tempo). Fácil de aprender, a maioria com um único sentido e sem indicação de maldades.

“Dar uma moral” – Quando você vai pedir ajuda a um carioca, ele não vai te ajudar; vai te dar uma moral.

“Mete o pé” – O carioca não sai e vai embora de um lugar, ele mete o pé.

“Maneiro” – É um adjetivo que, nas gírias cariocas, significa que algo é legal, interessante. A gíria “show” também se encaixa nesse caso.