
Antiga sala de aulas – dois alunos em cada “carteira”
Tudo fora arrumado na véspera. Sapatos Vulcabrás engraxado, cadernos e livros selecionados e colocados na pasta – calça e camisa engomadas e dobradas.
O dia clareou. Assepsia feita e café preto acompanhando pão com nada, era a garantia do primeiro (e abençoado) alimento que daria coragem para enfrentar 6 Km de caminhada na ida e, pasmem, mais 6 Km na volta. Chovesse ou fizesse sol.
Com chuva, sem guarda-chuvas. Apenas uma capa plástica e a galocha de borracha na proteção dos sapatos.
Hoje é diferente. O Ônibus Escolar leva desde o portão da casa e traz de volta, deixando no mesmo lugar onde apanhou.
A caminhada tinha pressa e a solidão era a única diversão e companheira. O portão aberto permitia a entrada a qualquer hora na escola. Ninguém entrava nas salas de aulas antes de rezar e cantar o Hino Nacional – era norma da escola e não do regime político administrativo da época. A diretoria “mandava” na escola.
Aulas. Ciências Naturais, Geografia Geral e do Brasil tendo como “guias turísticos” os livros de Aroldo de Azevedo. Caligrafia. Aritmética. Português (leitura em voz alta e ditado para escrever). Canto Orfeônico uma vez por semana, sempre aos sábados.
Provas mensais. Provas de fim de semestres. Escritas e orais – não adiantava a “cola”, pois todos tinham que “provar o aprendizado” respondendo perguntas nas provas orais.
Não existia a imbecilidade da Lei que “determina a aprovação a cada ano” sem a comprovação do aprendizado. Foi reprovado, tinha que repetir o ano. E isso se constituía numa vergonha – para o(a) professor(a) e para o(a) aluno(a). O(a) professor(a) não pensava apenas no salário. Era prazeroso perceber que o(a) aluno(a) aprendera.
Essa foi mais uma vez que o Estado, num país dito democrático, entrou na sua casa devagar e maliciosamente, para “decidir” as coisas por você e, pasmem, com o aval do seu voto a cada dois anos.
Por que a incoerência da cobrança para o diploma, ou registro institucional de uma autoridade, para assunção em cargos públicos, se não há protestos para a “aprovação de alunos” na escola, ainda que não tenha aprendido nada?
Hipocrisia desmedida. Burrice. Ignorância, ou criticar por criticar.
Por sorte, e, lógico, por destino, aqueles 12 Km diários para chegar e voltar da escola nos anos da década de 50, me permitiram estudar na escola imaginada e seguida pelo educador Anísio Teixeira. Aprendi o que me ensinaram e o quanto minha inteligência perceptiva permitiu.
Nunca fui reprovado, por ter entendido, muito cedo, que o esforço dos meus pais não podiam nem mereciam ser castigados.

Anísio Teixeira
“Anísio Teixeira defendia a criação de uma rede de ensino que fosse da Educação Infantil à universidade, e atendesse a todos, independentemente de raça, condição financeira ou credo, e olhasse para os interesses da comunidade em que estava inserida.”
Anísio Spínola Teixeira nasceu em Caetité, a 12 de julho de 1900 e faleceu no Rio de Janeiro, a 11 de março de 1971. Foi um jurista, intelectual, educador e escritor brasileiro. Personagem central na história da educação no Brasil, nas décadas de 1920 e 1930, difundiu os pressupostos do movimento da Escola Nova, que tinha como princípio a ênfase no desenvolvimento do intelecto e na capacidade de julgamento, em preferência à memorização. Reformou o sistema educacional da Bahia e do Rio de Janeiro, exercendo vários cargos executivos. Foi um dos mais destacados signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em defesa do ensino público, gratuito, laico e obrigatório, divulgado em 1932. Fundou a Universidade do Distrito Federal, em 1935, depois transformada em Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil.
Na ideia de uma educação integral e uma educação para todos, expressa por Anísio Teixeira foi a concepção de educação que permeou os escritos e a obra de Anísio Teixeira, está a base de sua atuação como educador e sua contribuição para a educação no Brasil, que alguns consideram importante até hoje. (Dois parágrafos extraídos do Wikipédia)
Com as escolas técnicas ainda esperando resultados positivos da implantação recente, as escolas formais incluíram nos seus currículos as iniciações de música (Canto Orfeônico), desenho e trabalhos manuais. A proposta visava despertar o interesse por alguma profissão. SESI, SENAI e Escola Técnica pontificaram – alunos recebiam propostas de empregos antes mesma da conclusão dos cursos. Nos dias atuais, sem qualquer indicação para o profissionalismo, os concludentes iniciam como Motoristas de aplicativos na vã tentativa de saldar os débitos do Fies.
Mas, as maiores e ao mesmo tempo piores mudanças aconteceram de fora para dentro. No âmbito familiar com as mudanças comportamentais de valores – a escola apenas “reforçou” essas mudanças ao abrir as portas para teorias que atingiram de morte as propostas educacionais.
O cantar o Hino Nacional antes da entrada na sala de aulas, foi substituído pelo “queimar uma cannabis” e outros hábitos que contradizem o bom senso e ferem de morte a educação e a formação do bom profissional.

Moças usavam saias – e se orgulhavam disso
Os anos se passaram com muita velocidade. A qualidade que existia nas escolas com professores competentes que se orgulhavam de saber o sucesso dos alunos, começou a fazer água. A canoa furou e o reparo não atendeu à necessidade.
Os anos sessenta foram embora e começaram a puxar com muita força os anos 70 que, por sua vez puxaram os anos 80. A partir daí, desculpe o termo chulo e provavelmente inoportuno, o ensino brasileiro virou uma merda.
Aluno aplicado nos anos 50, 60 e metade dos anos 70, não lembro de “greve dos professores” – que deixaram ser os “mestres” e se permitiram transformar em “funcionários” recebedores e preocupados apenas com salários. Bons salários, diga-se. Contrapartida zero. Quem não gostar disto, tire as calças pela cabeça.
Luta por melhorias? Mentira deslavada.
Alguém conhece um(a) professor(a) lutador(a) por melhores salários e condições dignas para a escola onde trabalha, que tenha filho(a) matriculado(a) em alguma escola pública?
Mentira. Quase todos estudam em escolas particulares.
As moças trocaram as saias plissadas pelas calças jeans. Os rapazes deixaram os cabelos crescerem e passaram a ser confundidos com as moças. Em quase tudo. Não apenas nos cabelos – e isso, infelizmente, foi um hábito permitido e cultuado em casa. Justiça seja feita.

O giz “sumiu” para não ser confundido com outra coisa
Eis que, provavelmente por coincidência, com o fim do século XX, as novidades que hoje estão enraizadas e fazendo parte da luta de “todes”, o partido dos trabalhadores que não trabalham assumiu o controle ideológico e político não apenas da administração pública. As escolas e as grades curriculares vieram de transbordo e enraizaram.
Começou-se, a partir de então, a se ouvir com mais assiduidade o nome de Paulo Freire. Veio junto cagente, trazido pelo povo que chegaram.
Chegou a época do “desaprendizado”, do tudo é possível e permitido. Sem esquecer a obrigação de rotular e até punir que pensar diferente. É chegada a era do “homo”. Homofobia. Homoisso, homoaquilo.
E, coniventes, aceitamos e começamos a praticar.

Paulo Freire
“Paulo Freire compreendia que o sujeito aprende para se humanizar. De acordo com o educador, aprender é complemento da formação do sujeito como humano. “Se aprende na relação com o outro, no diálogo com outro, na aproximação dele com o conhecimento do outro”.
Paulo Reglus Neves Freire é pernambucano de Recife, nascido a 19 de setembro de 1921. Faleceu em São Paulo, a 2 de maio de 1997. Foi um educador e filósofo brasileiro. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. É também o Patrono da Educação Brasileira. Sua prática didática fundamentava-se na crença de que o educando assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática dialética com a realidade, em contraposição à, por ele denominada, educação bancária, tecnicista e alienante: o educando criaria sua própria educação, fazendo ele próprio o caminho, e não seguindo um já previamente construído; libertando-se de chavões alienantes, o educando seguiria e criaria o rumo do seu aprendizado através do desenvolvimento da sua própria autonomia. Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência política.
MORAL DA HISTÓRIA – É um enorme engano creditar louros à An[ísio Teixeira, quando devemos sair da mesmice e aceitar que a sociedade brasileira sequer sabe de ondem descende e para onde irá. A mistura de ideias não é salutar. Um país laico, onde a macumba tem o mesmo respeito e valor que o catolicismo e onde o Pai de Santo não é diferente do Padre.
O Brasil é uma mistura de tudo. Não seria diferente na educação.
Na verdade a teoria paulofreiriana na acrescenta à educação brasileira e comete equívoco quem defende e afirma isso. Houve uma mistura da política com a educação que se tornou azeda e prejudicial à juventude.
Nunca se deve esquecer que, quem era estudante no início do século XXI, hoje é professor. Há exceção, sim. Mas, também há exagero, pois alguns professores sequer podem ser comparados a alguns alunos em termos de qualificação profissional.
Fui testemunha como professor. Do fim dos anos 60, ao fim dos anos 90.
Manoel, vivi como aluno todas essas épocas. Posso ter olhares diferentes de alguns e não me considero o “dono da verdade” – mas é digno ter coragem de assumir que, muito do que está aí hoje, tem um pouco de culpa que deve ser creditada para nós. Pelo comodismo e pelas portas das nossas casas escancaradas. Somos sim, coniventes.
Meu caro mestre Zé Ramos, você deve ter passado pela prova de “Admissão ao Ginásio”. Uma cacetada para quem não estava preparado, hein?
Beni, foi assim, sim. Fiz o quarto ano primário, fiz Exame de Admissão e comecei na primeira série ginasial no Liceu. Até concluir o terceiro ano científico e, no ano seguinte, para a universidade.
Zé, não alcancei esse tipo de carteiras, mas fiz o Admissão e fui “admitido” na 5a série ginasial.
Assuero, a carteiras antigas garantiam a qualidade e a seriedade do ensino. Hoje carteira individual não garante nada.