JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A REVOLUÇÃO DOS SAPOS

Bernardo, o sapo

Lembro bem. Uma das “loterias que ganhei de Deus” foi a boa memória, ao vicejar juventude e disposição aos 80 anos. Não acredito que possa ganhar, algum dia, prêmio melhor que a lucidez num país e num mundo tão conturbado quanto o nosso.

Pois, tudo acontece em meados de 1954, meses após a data comemorativa de São José (19 de março), Padroeiro do Estado do Ceará. As graças da chuva e de um bom inverno foram atendidas após os milhares de orações.

Chuva. Muita chuva. E, com as chuvas trazendo a esperança de um bom inverno e a resposta positiva aos que plantassem, vieram os “bônus” que incomodam tanto: larvas, mosquitos, muriçocas, moscas, mutucas e outros que tais.

Aquilo tudo acabou motivando os Albano, proprietários de muitos hectares de terra naquele pedacinho de mundo, a tentarem trazer de volta Herculano, conhecido e respeitado meeiro, que, anos atrás mudara para o Amazonas com a família – fora tangido pela seca.

Após telefonemas, carregadas das dificuldades da época, finalmente o contato, o convite – com algumas vantagens, claro! – a aceitação.

Experiente, conhecedor do lugar, Herculano sabia que precisaria se prevenir. E fez isso, sim. Na bagagem, um sapo gigante, dos que só são encontrados na rica biodiversidade amazonense.

Um “sapo”, não. Corrijo: um casal de sapos. Um sapo e uma sapa (para deixar claro, que, “um casal” é um macho e uma fêmea, pois os moderninhos da escola paulofreiriana pensam diferente.

Mudança feita, casa da roça reaparelhada. Calhas colocadas para captação da água da chuva e vida que seguiu. Mas, claro que Herculano acertara quando trouxe o casal de sapos.

Preparou um local fresco (êêêêppppaaaa!) onde poderia abrigar o casal “amazonense” para que os dois pudessem exercer seu mister: captar os insetos incômodos que traziam doenças parasitárias.

Bernarda, a sapa

Muita chuva. O inverno estava “pegado” como dizia Herculano. Agora, era cuidar da vida, preparando a roça para semear.

Depois de se certificar que a cerca era segura, sem brechas que permitisse a fuga de Bernardo e Bernarda, Herculano resolveu abrir as portas do cativeiro para que o casal (um macho e uma fêmea, repito) desenvolvesse o papel para o qual foi trazido.

Apenas uma semana após a soltura de Bernardo e Bernarda, Herculano percebeu que acertara. Os mosquitos e muriçocas diminuíram. Quase não existiam. As moscas, infelizmente, eram produto da umidade.

Eis que, antes do fim do inverno e chegada do outono emendado com a primavera, Herculano percebeu que, não apenas os insetos haviam diminuído, quase desaparecendo, como apareceram os frutos da liberdade do casal Bernardo e Bernarda: centenas de “bernardinhos, e, provavelmente, bernardinhas”.

Bernardinhos, os sapinhos

A chuva em excesso na moradia, mas na exata quantidade na roça, acabou formando um lago, onde Bernardo e Bernarda costumavam banhar, fazer natação e “frutificar”. Era, podemos dizer, o exercício da liberdade, tão benéfica aos humanos – e por que não dizer, também aos batráquios?

Pelo que contava Herculano, além de gigantes, Bernardo e Bernarda tinham um dom natural: eram alfabetizados. Estudaram anos na Universidade Kawuy, instalada há muitos anos e em pleno funcionamento nas grotas subterrâneas do rio que corre por baixo do “insecável” rio Amazonas. Bernardo e Bernarda sabiam das coisas, pois não perderam tempo “fazendo a cabeça” com a cannabis.

Pois, formado o contingente na roça de Herculano, Bernardo e Bernarda trataram de cuidar de si e dos seus. Descobriram uma grota e, nas várias fugas, ali se reuniam. Na realidade, tramavam algo.

Os Bernardinhos cresceram. Descobriram que precisavam sair daquele chiqueiro que Herculano lhes proporcionavam. Não podiam viver exclusivamente comendo mosquitos, muriçocas e moscas à serviço do bem-estar de Herculano. Precisavam, enfim, conquistar a liberdade – e entenderam que, se essa tal liberdade não fosse algo bom, os humanos não lutariam por ela.

Criaram instituições sapais. Criaram um Congresso, uma Câmara, e um STF (Sapal Tentativa Fomentadora), com mandatos “ad seculorum” e decisões inquestionáveis. Bernardo seria o presidente vitalício e Bernarda a vice, também vitalícia. Usariam togas vermelhas em vez de pretas e teriam como metas principais na luta pela liberdade: 1 – “não” ao sal que os humanos usam para espantá-los; 2 – não comerem mais os mosquitos, as muriçocas e as mutucas, esses principais produtos contaminados pelos humanos.

As reuniões deliberativas aconteciam sempre, nas noites das sextas-feiras, dia da semana que os humanos estão resolvendo todos os seus problemas ao redor de mesas de bar e muita cerveja.

Resolveram protestar, ainda sem poderem sair do roçado de Herculano, mas portando faixas com dizeres como: “abaixo o sal”, “sapos também têm direitos”, “liberdade para trocarmos o consumo de mosquitos infectados por cannabis”, “queremos o direito de usar os mesmos banheiros, independentes do gênero sexual”.

Herculano viu tudo, suportou tudo e reclamou com a mulher, que precisariam de mais verba para satisfazer a todos (incluindo os sapos e sapinhos), preparando um especial pedido para aumento do fundo eleitoral.

Afinal, as eleições estão se aproximando, e precisam cuidar dos eleitores (sapos)!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ÁGUA DE BEBER

Cacimba cavada no leito do rio

“Eu quis amar, mas tive medo
E quis salvar meu coração
Mas o amor sabe um segredo
O medo pode matar o seu coração

Água de beber
Água de beber, camará
Água de beber
Água de beber, camará”

Tom Jobim

Onze horas e alguns minutos. O sertanejo para a carpina, tira o chapéu da cabeça e, como poucos sábios, mas com muito esforço olha para o sol, diz: já é mais de 11 horas! Vou beber um pouco d´água para aliviar a fome.

Alguns diriam que seria para aliviar a sede, mas, no caso de Seu Chico, é para aliviar a fome mesmo!

Por anos muitos tinham realmente “apenas a água” para beber e matar a fome. Eis que a Natureza com o seu entendimento, tirou até a água. Mas Deus, bom e justo, apontou o caminho: tal qual orientou Moisés à atravessar as agruras e as adversidades e caminhar até o Monte Sinai, apontou para o homem de Fé, a Serra da Canastra, onde está entre pedras, a nascente do São Francisco.

Homens sem Fé resolveram acreditar no “bezerro de ouro”, largaram seus pertences, seus animais e até a sua pouca Fé, e partiram em êxodo para o nada.

Anos se passaram. O sofrimento cresceu, vidas desapareceram e, finalmente o dia da redenção chegou. A transposição não apenas da água do rio, mas a recuperação da vida, do verde que permite semear e produzir o alimento.

Enfim, a água. A vida e o restabelecimento da Fé.

Seu Chico sentou à sombra da catingueira. Pegou a cabaça e sorveu o alimento líquido. Saciou a fome espiritual e voltou à carpina, quando olhou para o sol mais uma vez, e vaticinou: meio dia!

Pote de barro – a geladeira de muitos

Faz tempo que a água é o principal “alimento” de muitos que nasceram e viveram no eixo que beira e dependem do São Francisco e da sua milagrosa água. Outros, dito acima, não se mantiveram em Fé e partiram.

Mas… e a água de beber, quando o milagre franciscano estava distante?

De onde saía?

Os poucos rios existentes, aos poucos foram secando e desaparecendo. Sem água, animais e humanos e a própria agricultura não viviam nem frutificavam.

Água de beber, camará?

Brasil, país excêntrico. Difícil de entender. Desperdício abusivo e incontrolável da água – que, para muitos ainda é o principal alimento.

Aqui, falta água de beber. Ali, lava-se carros, calçadas, ruas.

Água de beber, camará!

Foto 3 – Cabaça ainda é o cantil de muitos

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SABUGO

Sabugo de milho: o papel higiênico da roça

A vida na roça é algo saudável. É algo bom. Quem viaja para “passar as férias” na roça, num lugar onde provavelmente não nasceu, precisa deixar as frescuras de lado.

Beber água de pote, andar descalço, acordar com o galo cantando – e até jogar o barro fora, no mato (cagar, defecar, fazer cocô).

Em muitas casas, durante muito tempo, os proprietários faziam um reservado de palha, e ali cavavam um buraco – um depósito de fezes.

Mas, a maioria de quem nasce, cresce e vive na roça, prefere mesmo é cagar no mato. Atrás de uma moita, portando um ou mais sabugos de milho, uma vara, de preferência longa. Isso, se a moita não for de “marmeleiro”, cuja folha é muito macia e refrescante.

E a vara, é para que?

Ora, a vara comprida é para espantar (na roça a gente diz “tanger”) porcos e galinhas que adoram aproveitar a “obra”.

Menino “obrando” no mato

Pois bem. Vamos ao que interessa.

Aristeu, jovem com quase 30 anos de idade, era o filho mais velho de Francisco Carlos e Benedita.

Desde cedo aprendeu ajudar o pai na labuta diária da roça. Trabalhava durante o dia, e descansava durante a noite – nos tempos que não tinha televisão, e, quando tinha, o sinal que chegava naquelas paragens produzia uma imagem desanimadora.

Nos fins de semanas, o jogo de bola pela manhã, sempre depois da missa dominical, e, de noite, o namorico com Cicinha.

Cerca de dez jovens na mesma situação econômica de Aristeu resolveram fazer uma vaquinha e assumiram a compra de uma Kombi que, rodando apenas aos domingos, levava o magote para jogos amistosos previamente combinados.

Eis que chegara mais um domingo. A missa, onde ficou acertado que, horas depois, a Kombi passaria próximo da casa de Aristeu para apanha-lo e leva-lo para o jogo. Era jogador importante para o time.

Naquela casa, por sugestão de Francisco e Benedita, cada morador “tinha a sua moita” para fazer suas necessidades. A moita de Aristeu ficava distante por uns 30 metros, de forma que, quando o vento soprasse, levasse o “odor” para distante.

Pois, antes de sair para o jogo, Aristeu se preparou para “jogar o barro fora” na sua moita preferida. De lá, fazendo o que faria, ficaria no aguardo da passagem da Kombi.

De repente, Aristeu se deu conta que esquecera o sabugo. Levara apenas a vara. Além disso, a moita que usava não era de marmeleiro. Tinha que ter o sabugo.

Aristeu voltou à casa, onde pegaria o sabugo. Aproveitou para tomar uns goles d´água, pois a empreitada do jogo o tiraria de casa por longo tempo. A volta à casa para pegar o sabugo, acabou atrasando tudo.

A Kombi passou e Aristeu não estava no local previamente combinado. Os amigos deduziram que, por algum motivo de última hora, Aristeu não iria jogar. Foram sem ele.

Na estrada, ao desviar de uma vaca que dormia no asfalto, o motorista da Kombi perdeu o controle e bateu de frente com um caminhão que trafegava em sentido contrário. Acidente horrível, que acabou por ceifar a vida dos ocupantes da Kombi.

Aristeu foi salvo por um reles sabugo de milho.

A vida realmente não vale nada!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O PARTIDO ENCARNADO

Igreja Matriz em Dia de Festejos

Festejos. Sempre foi esse o nome dado ao evento que marcava algo relacionado à Igreja Matriz do bairro – independentemente de quem fosse a Padroeira.

Durante a semana que precedia a festa, o vigário e as pessoas que estavam acostumadas a dar apoio para que os “festejos” acontecessem, trabalhavam com prazer e de forma árdua.

Sempre foi ponto alto desses eventos, a realização das “quermesses” – festa profana que possibilitava o encontro da comunidade em congraçamento, após a missa noturna. Os festejos aconteciam por uma semana ou por um máximo de quinze dias. Começavam num domingo e terminavam também num domingo.

Nas quermesses – onde aconteciam a degustação de comidas típicas, leilões com prendas valiosas (a maioria doada por alguém – para que o arrecadado revertesse em benefício do que se propunha: manutenção ou construção da paróquia) e a costumeira e amistosa disputa entre o PARTIDO ENCARNADO e o PARTIDO AZUL.

Era uma disputa ferrenha. Meninas adolescentes eram escolhidas para representar os dois partidos – e tinham a obrigação de vender brindes com a cor do partido que representavam: encarnado e azul. Uma disputa jovem, respeitosa e edificante, porque era ali que começava o respeito ao próximo.

A “vermelha” maçã do amor

No encerramento de cada noite, o leilão. Toda a arrecadação era direcionada ao propósito comunitário em benefício da paróquia. O “leiloeiro” era sempre algum líder comunitário que, pela vida transparente, merecia a confiança de todos. Era assim.

O “outro” PARTIDO ENCARNADO é um partido político que nasceu nos anos 80 com o propósito de ser um oásis para quem não se entregava nem se conformava com o regime “não-político” imposto ao povo brasileiro desde o dia 31 de março de 1964.

O novo partido encarnado era uma provável válvula de escape. Não foi, ou pelo menos, não é mais.

A ânsia de respirar novos ares levou muita gente para as hostes do Partido Encarnado – criado em 1980 e legalizado em 1982 como PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT). Todos aqueles que “caminharam juntos”, acreditavam. Acreditavam nas propostas do PT.

A profética fala de Figueiredo

Caminhando com suas próprias pernas, “contra o vento e já com documentos”, o PT encontrou uma bifurcação. Tomou o caminho errado, e percebendo isso, não teve coragem e dignidade suficientes para “retornar” e escolher outra opção. Mudou tudo, ou quase tudo, e hoje vive dias que só apontam um destino: o fim, enquanto sigla partidária de confiança.

Foram suficientes para o oásis se transformar em lamaçal, apenas dezesseis anos de mandatos no Executivo: dois de Lula, que ganhou de bandeja e de forma discutível uma terceira chance; quase dois de Dilma Roussef, e quase dois de Temer, então componente como “Vice” da chapa.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

LIRISMOS E PERALTICES DA INFÂNCIA

Medidor (conchinha) do leite em pó

O mundo não mudou. A tecnologia não mudou o mundo. As pessoas que mudaram.

Assim, com esse entendimento, mas com a humildade para ceder ideias e pensamentos contrários, lhes trago hoje dois assuntos – e pretendo lhes mostrar o lado poético da saudade e da lembrança nesse mundo habitado não por seres humanos, mas por “seres tecnológicos”.

Exemplo: quando surgiu, o telefone celular era privilégio de poucos e abastados financeiramente. Hoje, quem não tem um celular, literalmente, “não vive”.

O celular está com todos, em todos os lugares. Faz parte da mesa de refeição, como se fora uma salada, uma entrada do almoço ou jantar – e, quando digo que as pessoas que mudaram, é por que permitimos essa invasão e já nos rendemos a ela.

Peraí Zé Ramos! Isso nada tem com os assuntos pautados, siô!

Voltemos a eles, então.

Era, era assim mesmo. O aborto não era planejado, tampouco era assunto que tomasse conta do tempo das cortes jurídicas em detrimentos de julgamentos mais urgentes e necessários.

Assim, era comum nas casas das classes média alta e baixa, ter uma criança “gatinhando” (começando a andar), enquanto a mãe, com o avental sujo de ovo, com outro filho colocado “no vão das costelas”, enquanto mexia o papeiro no preparo do mingau – às vezes, para alimentar os dois.

Mas, era o terceiro filho, o que já tinha pouco mais de oito anos, que, traquinamente e escondido, surrupiava a “conchinha do leite em pó” para satisfazer nem se sabe lá a quem ou a que.

E, pasmem. Não dava para enganar a mãe, pois o leite em pó ficava “pregado no céu da boca” (véu palatar).

Aboliram a conchinha do leite?

O toque da campainha e a fuga

Autorizar o aborto, é atitude para quem deveria ter sido abortado. É ceifar a vida no momento que ela descansa da luta pela formação. Aborto é a morte.

As fases que marcam a vida de um ser humano após vir ao mundo são: infância, adolescência e juventude, e velhice ou ocaso. Todas essas fases, quando desfrutadas na plenitude, são ótimas.

Mas, nenhuma dessas se equipara a infância. A ingenuidade, o aprendizado e a formação do caráter acontece na infância.

É no tentar pular o muro para roubar (sem maldade) a goiaba, a manga, ou até para alcançar o ninho do passarinho.

Mas, nenhuma dessas atitudes se iguala ao “tocar a campainha da frente de uma casa, e fugir em disparada”.

E, quem não fez isso, com certeza não teve infância.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ÁRVORE

Foto 1 – Árvore genealógica

A escola dos anos 50, outros tantos anos antes, e poucos anos depois, nos ensinou que, 21 de setembro era consagrado à “árvore” – aquela que nos alimenta bem ou mal, desde o Jardim do Éden.

No livro de Ciências Naturais aprendemos a Botânica, e, noutros livros, a vida. A vida das árvores produtoras de frutos e de sombra, e, como bônus necessário começamos a ouvir falar e aprender uma tal de “árvore genealógica”, a raiz profunda que produz a vida humana.

Há alguém querendo, pretensiosamente, interromper essa cadeia reprodutiva aprovando leis desumanas que garantirão a cessação da vida. Não pelas raízes, mas pelos cordões umbilicais.

A tecnologia nos roubou os jardineiros e nos sequestrou os jardins. As flores primaveris só são importantes e belas, nos poemas – o que acaba sendo uma verdadeira hipocrisia, donde se percebe que a teoria (poema) é uma coisa, e a prática (plantar e defender) é outra.

Árvore carregada de frutos

A onipotência divina, pela Natureza de todas as coisas, foi tão sábia que disseminou sementes e terras apropriadas para cada espécie de árvore.

A árvore genealógica requer saúde corpórea, zelo, afetividade e amor, além de raízes tão profundas quanto a do Ipê de qualquer um dos vários tons.

Saudável, produzirá bons frutos, desde que semeadas em terras férteis.

A sombra produzirá descanso quando for chegada a hora. Quando o cansaço bater e provocar a exaustão – em qualquer árvore.

Há quem afirme que, o baobá, é tão antigo ou mais, quanto qualquer ser humano.

Árvore produzindo sombra

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DONA BIA – A ESPOSA ORGANIZADA

Seu Tertuliano “servindo” flores à Dona Bia

– Bom dia, véia!

Hoje, de manhãzinha e ainda bem cedinho, logo adispois que o galo Vremeio cantou, taquei a mão na tua rede e num encontrei mais nada. Foi só assim que me alembrei que tu tá com Deus, derna do último domingo. Tomara teja bom aí pra tu, véia. Apois aqui, num tá nada bom pra mim. A sardade é do tamanho da solidão – coisa maior do mundo, e sem precisão de contar a farta que tu me faiz.

Como se fizesse uma oração, foi assim que Tertuliano visitou pela primeira vez o túmulo onde Beatriz fora enterrada na tarde triste do último domingo.

Viveram mais de 50 anos juntos – na verdade, 54, para ser mais preciso. E, 54 anos é mais que uma vida nos dias de hoje.

Seu “Terto”, como era mais conhecido no lugar onde moravam, conhecera Beatriz, a “Dona Bia”, durante os festejos da Igreja Matriz São Sebastião, no mês de janeiro.

Dona Bia, ainda jovem, fora encarregada pela mãe para tentar ajudar a família, vendendo milho verde cozido e assado.

Seu Terto, trabalhador de quase todas as roças daquele lugar, era preferido por meeiros – devido a sua retidão e honestidade. Era um homem rude, mas muito confiável.

Durante os oito dias dos festejos, Seu Terto e Dona Bia conversaram – o que para muitos já se transformara em namoro. Acabaram casando com o assentimento das duas famílias. Tiveram filhos, viviam do trabalho honesto, o que já era um adorno para viver bem naqueles tempos.

Dona Bia faleceu. Tinha 66 anos, quando chegou a hora dela – tal como vai chegar a de todos nós.

Quando Dona Bia faleceu, os filhos que nasceram do casal, já viviam suas vidas fora de casa. Todos casados.

Os dois, Bia e Terto, passaram a morar sós. Quando Dona Bia faleceu, Seu Terto ficou ainda mais só.

Só e triste.

Demorou para se acostumar com a realidade.

Todos os dias se deslocava por mais de cinco léguas, para levar flores ao túmulo da “véia”.

Sempre muito cuidadosa e organizada, Dona Bia foi chamada antes de Seu Terto, para limpar e organizar a moradia eterna dos dois.

Essa é uma das muitas demonstrações de amor entre pessoas simples e pobres – em desuso nos dias atuais.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A PENUMBRA

Nuvens de um fim de dia

A luz do dia vai sumindo, tal qual água que se esconde na areia do deserto.

Rápido!

Muito rápido!

O vento forte traz consigo a penumbra, aliada ao anúncio da escuridão noturna. Escurece, e estamos juntos, um ao lado do outro. Estamos misturados numa situação em que só a tua cabeça preconceituosa guardou a diferença – a diferença da tonalidade da nossa tez.

Por segundos, minutos e horas, a cor da nossa pele é a mesma – como na realidade é, e deveria ser.

Nem era necessária a chegada da penumbra para ficarmos iguais. Apenas um coração bom e uma sensatez, bastariam.

Passam segundos, passam minutos, passam horas – a penumbra desaparece e leva junto o teu raciocínio e a tua humildade.

Tua cabeça volta para a mesmice, e tua sensibilidade se transforma em pedra. Voltas ao teu status quo – ele é teu.

Tu és tu – e serão necessárias muitas noites transformadas em penumbra, para perceberes que temos a mesma tez. A mesma cor.

As nossas diferenças estão apenas no caráter.

Não na cor da tez.

Nessa particularidade, nenhum vento forte tangerá a penumbra que habita em ti. Infelizmente!

Que Deus (todo poderoso – aquele mesmo a quem recorres nos desesperos) te tire, definitivamente, da penumbra.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A FOME TEM COR E CHEIRO – PARA OS QUE NADA PRODUZEM

Você deixaria de plantar pião roxo e plantaria “cheiro verde” no vaso desocupado que tem em casa?

Mas… se acha com o direito de reclamar do preço desse tempero cobrado por quem planta e rega e prepara para vender!

Se você plantar, qualquer coisa (principalmente a maldade), vai nascer!

Por isso, aprendi com minha Avó que, “quem não plantar o que comer, vai viver de favores – e os favores são as sementes oferecidas pelos corruptores”. E ela nem precisou estudar para virar doutora e saber disso. Longe dela, nos dias atuais, tem que vire doutor, mas não planta nem sabe porra nenhuma.

Minha Avó era fogo! Usava esse fogo para acender o fumo do cachimbo!

Relembradas e ditas essas bobagens que dirigiram nossas vidas ao passar do tempo, e com as mãos benfeitoras e fortes de Deus-Pai nos conduziram até aqui, vamos para a “roça da necessidade”, o caminho mais próximo para tentar enganar a fome que ainda assola boa parte da humanidade – aqui, e alhures.

Pois, naquele lugarejo onde nasci e vivi alguns anos, tinha, mas não tinha, as coisas “dicumê”.

Saíamos caçando o que comer, como os predadores que espreitam suas presas para a sobrevivência, numa verdadeira luta pela vida.

Macaúba

Alguns desses itens aos quais recorríamos para enganar a fome “azul escuro” que nos espreitava, tal qual onça pintada, nunca plantávamos. Provavelmente Deus encarregava os anjos – chamando-os de Natureza – de plantá-las e, melhor ainda, nos apontava os caminhos para que as encontrássemos durante a “caçada”.

Macaúba (Acrocomia aculeata) era uma dessas “frutas”. Não tem muito o que comer, mas consegue espantar ou matar a fome. Principalmente se essa fome for da cor azulada. Além da polpa, existe um coquinho que não tínhamos como quebrar para comer.

Na cidade grande, alguns usavam canivetes ou lâminas de giletes para retirar a polpa. Pacientemente, comíamos uma de cada vez.

Outra “fruta” que adorávamos, pela facilidade de encontrar em determinadas épocas da safra, era o Coco Catolé (Syagrus smithii ou Syagrus cearensis), entre os cearenses também conhecida como “Coco-babão” que, inevitavelmente, produz um tipo de “baba” ao ser comida.

Além do fruto “baboso”, produz um mini-coco que os sobreviventes das necessidades vendem nas feiras livres e mercados em forma de rosários religiosos. Muito e sempre apreciados pelas crianças. Como qualquer fome, tem cor e um atrativo cheiro de quero mais.

Coco catolé ou coco babão

E neste momento chega a necessidade de mudar a cor e o cheiro da fome. Chegamos ao Melão-de-São Caetano (Momordica charantia), que encontrávamos espraiados nas cercas, e usávamos para matar a fome amarela, e para colocar em armadilhas de arapucas onde pegávamos sabiás e outros pássaros – acreditávamos que, tudo era por conta da cor amarelecida (quando madura) e das sementes vermelhas e adocicadas.

“De origem asiática a espécie possui propriedades nas folhas e nos frutos e pode ser utilizada como um remédio natural para tratar diabetes e colesterol. Popularmente conhecido também como melãozinho, é considerado ainda anti-viral e fonte de substâncias antioxidantes capazes de evitar o envelhecimento. A dica é consumir como chá, ou empanado e salada. Para cada receita utiliza-se partes diferentes da planta”.

Algumas mulheres conseguiam usar as folhas e ramos como se fossem sabão. Usavam para lavar roupas, nas águas correntes dos rios e igarapés. Esfregada insistentemente, a clorofila produz sim, um tipo de espuma de odor duvidoso, tanto quanto o cheiro da fome.

Não éramos sabiás, mas o sabor adocicado das sementes maduras nos atraía.

Melão São Caetano

“Você quer ingá?
Pois ingá tá aqui!”

Diálogo do falar cearense que, com cacofonia, gera duplo sentido.

Essa fruta é uma das últimas e desesperadas opções que tínhamos pata espantar para muito longe a cor e o cheiro da fome (os idiotas paulofreirianos dizem que, “a fome não existe. É produto da imaginação dos negacionistas”). Há muito pouco ou quase nada para comer, no Ingá (Inga feuillei).

A fruta da região amazônica Ingá, é comum ser encontrada em lugares nas margens de rios e lagos. O gênero Ingá possui cerca de 381 espécies reconhecidas e o centro da diversidade dos inúmeros tipos do fruto é a floresta amazônica, mas também pode ser encontrado no México, Antilhas e em toda a América do Sul.

Ingá pequeno

Sem dúvida, o ingá é uma excelente fonte de sais minerais, cujas propriedades são indispensáveis para um funcionamento saudável e ideal do organismo. Além disso, a casca da vagem é utilizada para cicatrizar machucados e feridas em geral.

Um xarope derivado da fruta do ingazeiro também é usado para tratar a bronquite.

Ao contrário da maioria dos frutos, o ingá não está presente na culinária típica da Amazônia ou de qualquer outro território brasileiro. De fato, o consumo do fruto é dado unicamente na forma in natura, afinal, sua polpa não é adequada para fins gastronômicos. Apesar disso, as vagens do ingazeiro podem ser facilmente encontradas em feiras e mercados do norte do país.

Guabiraba amarela

Eis que chegamos à Guabiraba (Campomanesia xanthocarpa), a minha preferida. Doce, a ponto de espantar quaisquer tons da fome que mata tanta gente.

A Guabiraba é uma arvoreta nativa do Brasil, encontrada principalmente na região amazônica.

Devido ao fato de ela suportar diversos tipos de clima e solo, ela se adapta bem em todo o território nacional.

Por ser produtiva e de pequeno porte, pode ser facilmente cultivada em vasos, desde que tenha boa incidência diária de sol.

Os frutos são amarelo-vibrantes quando maduros, com polpa suculenta, firme e de sabor doce-acidulado. São maiores que as demais gabirobas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A BODEGA

A bodega do Antônio que virou “Totó”

Antônio era o nome dele. Mais precisamente, Antônio Oliveira dos Anjos, recebido na pia batismal e no Cartório de Registros. Mas ninguém o conhecia dessa forma. Era “Totó” – o “Totó da Bodega” ou, no máximo, a “Bodega do Totó”.

Totó adquirira o hábito de acordar cedo em qualquer dia, pois precisava abrir as portas da bodega que, distante de qualquer padaria, vendia, principalmente, pão e leite. Pão d´água e sovado, hoje conhecidos como pão francês e massa fina. O leite (líquido) recebia ensacado da Usina e assim o vendia. Se vendesse fora do invólucro, com certeza, 20 litros virariam 30 ou mais.

Como qualquer bodega de bairro que se preze, a Bodega do Totó era ampla, montada na frente da casa, com três portas inteiras. Duas na frente e uma na lateral esquerda – essa porta dava acesso a um local improvisado que vendia carvão, medido numa lata de querosene das grandes. Gás butano era sonho ainda distante.

O balcão inteiriço, feito de madeira, não permitia que Totó saísse, tampouco que o freguês entrasse. Ali, sobre o balcão, repousavam uma balança antiga, um alguidá de cimento que servia de depósito para toucinho salgado, tripas suínas e bovinas, pés de porco e alguns ossos carnudos que serviam de tempero para os feijões cozidos. Além, claro, de papel de embrulho e folhas de revistas que eram usadas para “enrolar” sabão, fumo de rolo e outros que tais.

Por fora do balcão, lavado uma vez por semana, ainda repousavam fechadas, sacas de café em grãos, milho, vassouras, e latas de banha suína e de côco. Por dentro do balcão, uma bacia de ágata com água, que Totó não tinha o hábito de substituir, onde depositava copos que servia doses de cachaça.

Entre o balcão e as prateleiras, sacos abertos contendo arroz, feijão, farinha – que ainda não eram embalados, e precisavam ser pesados – e um cesto feito de cipós, contendo pão.

Afixada na prateleira, a famosa e tradicional placa com o aviso: “Fiado, só amanhã”!

Mas, o que seria de Totó, se não vendesse fiado!

Era ali, no fiado, que Totó concentrava todo o percentual do seu lucro.

Mães desavisadas mandavam filhos pequenos comprar na Bodega do Totó e mandar anotar na “cardeneta” (era assim mesmo que algumas falavam).

Nessa hora, 1 Kg de qualquer coisa só pesaria 800 gramas em outro local; “meia barra de sabão” só teria um terço dela e meia garrafa de querosene para a lamparina noturna só encheria um daqueles antigos frascos azuis de leite de magnésio.

Pior que, ao somar a conta dos fiados do mês ou da semana – alguns trabalhadores recebiam pagamento semanal – Totó “levava 1” quando a soma atingia 8 ou 9 e não 10.

Três, mais dois cinco, mais quatro, nove. “Vai um”!

Era assim na Bodega do Totó, que, infelizmente resolveu agradecer ao seu santo preferido, dando o nome de fantasia de “Mercearia Santo Expedito”.