JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PAU DE ARARA

O caminhão transformado em “pau de arara”

Vive quadradamente enganado, quem pensa que a vida na roça é sempre uma maravilha. Claro que existem os bons momentos, os momentos excelentes – mas, esses são recheados de momentos difíceis. E, isso gera, na maioria das vezes, o conhecido e sofrido êxodo rural.

Não me perguntem por que, pois não é do meu domínio, mas sempre tive boa memória. Lembro ainda, apesar dos 80, as agruras vividas na minha Queimadas, pequeno e desprotegido povoado de Pacajus. E isso é tão verdadeiro que, o também povoado de Horizonte, ao lado, tem algumas décadas passou a município.

Pacajus sempre foi, ainda é, e continuará sendo, a “terra dos Nogueira e Albano”. Ali, essas duas famílias, hoje na sexta ou sétima geração de mando, são proprietárias até dos ventos que sopram fortes ou fracos.

Bois e vacas, bodes e cabras, centenas de hectares de terras produtivas e roçáveis e até algumas pessoas nascidas por conta das “puladas de cerca”. Tudo lhes pertence. Quem come do meu pirão, tem que provar da minha mandioca.

Configurados esses quatro parágrafos, peço permissão aos leitores para voltar aos anos 50 e 60 – os quais minha memória ainda alcança – e relembrar minha primeira e única (por que última) viagem no tão famoso e útil “pau de arara”.

A desesperança batera em todos nós, menos nos Nogueira e Albano, porque proprietários, e ali alguns só compareciam para receber o bônus da produção, ou, como dito no quarto parágrafo, para “plantar” a mandioca que faria pirão e gente.

Seca braba, bruta e assassina. Matava tudo de sede. Bois, vacas, galinhas, cabras e qualquer plantação, permitindo apenas que os urubus que comiam a carniça e os mandacarus florescessem e reinassem. Cenário devastador. Vacas, como bem diz a letra da música eternizada por Luiz Gonzaga, só tinham o couro e os ossos, o que pouco e sofridamente lhes permitiam carregar o chocalho pendurado no pescoço.

A preocupação era “arrumar as trouxas”, fazendo delas um mantulão. Levávamos o que podíamos, sem deixar para trás as lamparinas, a quartinha sem água, o penico e os sabugos de milho, e, claro, o cachorro, mais magro que qualquer vaca. A seca matava até os calangos do lombo verde, que os cachorros comiam, se conseguissem pegar.

Não havia “terminal de pau de arara”, muito menos uma rodoviária formal. O local de embarque era na beira da estrada. Ninguém fazia check-in, e embarcavam quantos coubessem, sem a preocupação de excesso de lotação. Quando até o cachorro havia embarcado, o “ajudante” descia do trono, para ir na frente do veículo, rodar a manivela.

Uma atividade poética, pois nascia ali uma nova esperança de vida, sepultando todas as desesperanças deixadas para trás.

Ao final disso tudo, desse sofrimento, lhes digo: a vida na roça é uma maravilha.

É lá que os meninos aprendem a ser homens e as meninas aprendem a ser mulheres, ensaiando a vida brincando com as bonecas. Ali, elas são mães e filhas ao mesmo tempo. Não lhes sobra tempo para conhecer o feminismo ou optarem pelo lesbianismo.

Com certeza, eu daria o que tenho e o que nunca conquistei, para voltar – ainda que para passar férias escolares – a Queimadas, ter uma nova chance de abraçar minha Avó e sentir aquele cheiro de rapé de fumo torrado misturado à imburana, escutar o toc-toc no pilão na preparação do fubá de milho ou da paçoca de carne seca.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CAMPAINHA PASSERIFORME

Xexéu o imitador

Era uma rua antiga do bairro. Antiga e importante, por que servia de parâmetro para muita gente. Era a melhor referência.

Tipo: fica próximo da Rua Jambeiro!

Era a melhor referência, inclusive para os carteiros dos Correios e demais entregadores de encomendas e correspondências. Nessa rua ficava a casa 38. Casa da Dona Amelinha e Seu Gonzaga, que formavam o casal mais antigo de moradores da rua. E do bairro.

Chegaram ali nos anos 50 e viram crescer e progredir várias gerações da sua árvore genealógica, e das outras famílias. Seu Gonzaga e Dona Amelinha, era o casal proprietário da casa 38.

Quando ali chegaram, Seu Gonzaga e Dona Amelinha, – vieram da Vila Santa Quitéria, de outro bairro distante -, encontraram uma espécie de condomínio fechado (nos dias de hoje) e casas contíguas. A Rua Jambeiro fora bastante arborizada, e claro, entre as árvores uma porção de jambeiros. Daí o nome da rua, que, na verdade, era oficialmente denominada de Rua Presidente Prudente de Moraes. Mas o povo resolveu que seria, definitivamente, Rua Jambeiro.

Mudar para quê?

Pois ali, durante anos, Seu Gonzaga manteve instalada uma campainha afixada na porta frontal da casa, com o objetivo de facilitar o atendimento a quem chegava – devido o tamanho da casa – para alguma visita.

Também durante anos, na alameda central que dividia a Rua Jambeiro em duas, existiu um jambeiro que, sem qualquer explicação, produzia mais frutos que os demais, além de uma floração diferenciada. E, floria mais que o normalmente esperado, formando um tapete róseo no chão. Ficava na frente da casa, dividindo a rua, como se esperasse ser visitada por muita gente.

Aquele tapete róseo na floração, sinalizava sempre uma exagerada quantidade de frutos.

Eis que, inesperadamente, chegou o dia da volta de Seu Gonzaga. Dona Amelinha enviuvara, e, passou a morar só, naquele casarão. Os filhos e netos pouco vinham visita-la. Era uma solidão enorme.

Não demorou muito, o jambeiro secou, envelheceu e quebrou.

Inexplicavelmente, durante anos, e quase todos os dias, sempre por volta das 10 horas, a campainha da casa 38 tocava. Tocava repetida e insistentemente. Dona Amelinha levantava da velha cadeira de balanço, caminhava demoradamente para atender o toque da campainha. Abria a porta e não encontrava ninguém.

E não havia ninguém, mesmo.

No telhado da casa, pousado num velho galho seco do antigo jambeiro, um xexéu cantava todo dia, imitando a campainha que, durante anos ouvira tocar. Aprendeu.

Demorou para Dona Amelinha perceber.

Por anos, achava que Seu Gonzaga chegava para leva-la junto.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“SEU XEXÉU” O INVENTOR!

“Seu Xexéu” só não conseguia inventar filhos

Quando saí de Queimadas para morar em definitivo em Fortaleza, no interior, as unidades de medidas conhecidas eram muito antigas. Não existia 1Kg de farinha, feijão, milho ou arroz. Existia, sim, 1 litro – a medida era um caixote de madeira em formato de cubo.

Se me lembro bem, 1 litro de farinha era diferente de 1 litro de querosene ou de leite, por exemplo – mas, todas eram medidas confiáveis que atravessaram gerações. Nos comércios, os bodegueiros usavam “1 Kg” com um pedaço de pedra. 2 Kg, eram dois pedaços de pedra, e daí em diante. Tudo levava a crer que vivíamos nas cavernas – mas, saltava aos olhos de qualquer um, a confiança. A palavra empenhada valia mais que muito dinheiro.

Lembro bem que, a distância entre um lugar e outro, era chamada de “légua”. Tantas léguas pra cá, tantas léguas pra lá. Era assim que se fazia entender a distância. E, na casa da minha Avó, ninguém se atrevesse a reclamar se, “na boquinha da noite” ela quisesse acender as lamparinas e não tivesse querosene.

– Zezim, meu fii, se avexe e vá comprar “meia garrafa” de querosene, apois o daqui acabou. Diga pro Seu Manuel pra me aviar essa meia garrafa, que adispois eu pago!

Ordem dada. Ordem cumprida. Sela no jumento, espora num pé, e tome estrada na direção da bodega do Seu Manuel.

Hoje, quando lembro do tamanho da garrafa que levava para comprar querosene, sinto crises de risos. Na realidade, não era meia garrafa. Era um frasco, que provavelmente só encheria a lamparina naquela noite.

Eis que essa situação mudou. O mundo também. As pessoas que até então só conheciam “Aleijadinho”, passaram a ter conhecimento do Mestre Vitalino e suas invenções, que passaram a chamar de trabalho em artesanato.

Garrafa vazia adaptada como vaso decorativo

E, foi Seu Xexéu quem descobriu para nós, morando lá nas brenhas das Queimadas, que, “queimar bosta de vaca/boi espantava muriçoca”. E passamos a fazer aquilo. Ninguém andava mais léguas e léguas para comprar aquele espiral químico.

Seu Xexéu passou a juntar garrafas vazias, embalagens de magnésio, Biotônico Fontoura e outras que tais e, delas passou a fabricar lamparinas. Fabricava lamparinas maiores até com as latas vazias do óleo comestível Pajeú. E, era exatamente porque “imitava muitas coisas”, que Raimundo Birino recebeu o apelido de “Seu Xexéu”!

Não demorou muito e “Seu Xexéu” descobriu como cortar garrafas de vidro sem quebra-las, adaptando-as para centenas de outras utilidades. Vendia os “inventos”, e com o que ganhava passou a sustentar a família.

Uma futura lamparina ou ralo para ralar milho verde

Finalmente, todas essas coisas me conduziram, na juventude, a entender melhor o texto de Antoine du Saint-Exupèry, n´O Pequeno Príncipe, quando desenhou a pedido, uma caixa e afirmou que, dentro dela havia um elefante. Ou, ainda, quando diz que, hoje, “amigos não são vendidos em lojas”. Por isso eles são tão poucos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SAL – O QUE DÁ SENTIDO E GOSTO À VIDA

Sal o tempero da vida

Na primeira fase da existência é incolor, e, por vezes, inodoro.

Nas fases seguintes pode ser transformado na principal razão da vida de muitos.

Transforma tudo, dando-lhe gosto, sabor e razão de ser.

Razão de ser, das coisas.

Ninguém gosta do insosso. Sem sal. Sem gosto, e sem vida.

Também não faz sentido usar o sal além do necessário e suportável. Não faz bem à saúde dos hipertensos.

Antes água, no futuro sal, vai além das necessidades, preservando sabores e razão de ser.

Água virando sal

Usado no batismo, permitiu-se pela infinita utilidade, entrar no linguajar inadequado, para pôr fim a vida – “passar o sal”!

Vida, comida, mesa – tudo depende do sal.

Foto 3 – Sal dá sentido e vida ao peixe morto

Antes água incolor, por vezes, inodoro.

O sal é vida. Antes, água!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

BOLO DE CARIMÃ NA PALHA – OU, O VEADINHO ESTÁ DE VOLTA

O bolo de carimã

Hoje, quando escrevo esta crônica, é sexta-feira. Tarde de sexta-feira, 7 de julho. Quem vai ler esta crônica, o fará no domingo, 9 de julho. Domingo, como outro qualquer, dedicado do descanso do trabalhador – aquele que não vive das benesses do “Bolsa Isso ou Aquilo”.

Pois bem. Ontem – para mim, esse “ontem” foi 6, mas, para vocês leitores, o ontem é 8 – atingimos uma data marcante e importante que ficou mais importante ainda, depois de concluirmos uma volta ao túnel da vida e das realizações.

Anteontem, 7 de julho, foi aniversário do tatu. É, aquele bichinho que, algum dia, por falta da imaginação de alguém, foi símbolo de um país participante de uma Copa do Mundo de Futebol.

Para quem algum dia se alimentou de cactus assado, manguste (que, na verdade, nada mais era que manga verde cozida com açúcar), bebeu água de mucunã, ou foi obrigado a espetar beija-flor, mucura ou aruá para “encher a barriga” com alguma coisa, comer um tatu não é coisa do outro mundo.

A vida é uma dádiva divina. Ela pode chegar até você sem alarde e você precisa ter sensibilidade para perceber. Ela não toca nenhum sino, nem manda e-mail ou faz selfie.

Contar o que tenho gravado mentalmente levaria tempo e seria enfadonho para quem lê. Mas, não custa nada dizer que, um dia, comi o pão que o demo amassou, e tatu.

Como não me sinto capaz de julgar a mim, não sei se mereci. Comer tatu é um prêmio de Deus, à quem há muito entreguei meu destino e o restante dos meus dias.

Sou feliz ao meu modo. Comendo tatu.

Tudo que foi dito antes, tinha apenas uma intenção. Dizer que faria o que fosse possível para voltar 50 anos atrás, e ao lado da minha santa avó Raimunda Buretama, sentar na latada para “pegar um vento” e comer um naco de pé de moleque com café torrado e pilado em casa.

Ela, sentada na beirada da calçada, sem vestir calcinha, deixando o vento bater – e não entrar na xereca.

Uma maravilha!

Falando de flores – Lembrando Geraldo Vandré, e para não dizerem que não falei de flores, me nego peremptoriamente a desperdiçar este nobre espaço – falando de pústulas.

Pústulas da política brasileira. Uns merdas. Vendidos, que pensam que levarão o dinheiro nos caixões, quando baterem as botas.

Para que não fique nada encoberto, esse pequeno parágrafo tem relação com um deputado merdinha, cheio de frescuras, metido a gente, que gosta de cuspir na cara dos outros. Sequer merece ter o nome citado aqui por mim. E não o farei.

Um bosta!

Veado que, de uma hora para outra, resolveu voltar a queimar a rosca dele, de novo, entre nós.

E é aí que, sem sentar na latada da casa para comer pé de moleque, evoco minha falecida e santa Avó para dizer o que ela diria:

– Fii, quem dá valô à bosta – é um merda!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O PRAZER DA DANÇA ANTIGA

O bem dançado “Bolero”

Volto ao passado. Lá, é a minha Pasárgada. Foi lá que, quando jovem, me tornei amigo do Rei. O Rei é meu amigo ainda hoje – mas, somente no passado.

No passado, centralizado na Pasárgada, não poderia deixar de lado o hábito de dançar. Cearense que aprendeu a dançar na juventude e dançar melhor na terceira, quarta ou quinta idade. As danças eram outras, claro.

E, como esquecer o Romeu Martins, o Massapeense, o Maguari, o Quitandinha, o Secai e até mesmo o Tiro e Linha – sem esquecer as esporádicas festas dançantes do mês de maio no Náutico, no Iate ou nos Diários.

A dança e o prazer proporcionado atravessaram fronteiras estaduais e, por vezes, internacionais. Como o tango argentino e as valsas vienenses, tão preferidas nas festas pós casamentos ou aniversários de 15 anos e até bodas de ouro.

Tango argentino

E, nessas travessias, a gente tinha conhecimento das festas e danças da Lapinha, em Belém/Pará; do samba-gafieira da Elite, no Rio de Janeiro; ou, ainda, dos ritmos diferenciados (neste momento, fora do contexto desta pretensa crônica) dos frevos dançados no Recife, mais precisamente no Clube das Pás, Lenhadores, Pão Duro, Vassourinhas e até mesmo o Pavão Misterioso e o Toureiros de Santo Antônio.

Comercial Clube na “antiga” Praia de Iracema

Fui feliz e, lembro bem, para nós que vivemos as alegrias e os hábitos saudáveis praticados pela juventude daqueles tempos, o “sextou” não existia. É coisa nova que não nos diz muito. O bom era o sábado – e nós nem falávamos “sabadou”!

Tão logo acordávamos da sesta vespertina pós-almoço do sábado, tratávamos da preparação para o baile (que hoje alguns chamam de seresta – “seresta” era o que fazíamos nas noites e madrugadas nas portas das casas das namoradas – no Romeu Martins. Engraxar sapatos, preparar a calça de tropical ou gabardine, e, naqueles tempos, a camisa social “volta ao mundo”!

A noite chegava e lá íamos nós, perfumados com “Ramagè” e talco Cashemere Bouquet nas axilas cabeludas – no calor natural provocado pelas danças dos ritmos mais acelerados (quase nenhum clube era climatizado), o suor descia das axilas e incomodava. A camisa manchava e ficava com aquela nódoa amarelada.

Samba dançado na Boate Elite do Rio de Janeiro

O auge da dança de salão, para dançar coladinho, coxa batendo com coxa, sentindo o perfume da dançarina, vivi também no Rio de Janeiro. Por curiosidade, frequentei alguns salões e várias boates – mas não me atrevi a ir ao salão dançar. Os anos se passaram e, certo dia, com umas duas na cabeça, convidei uma dama, fui ao salão e dancei. Coisa sem igual!

Naquele tempo, os ritmos mais dançados eram o samba e o samba-canção.

Estudantina, Elite e Democráticos tinham públicos preferenciais nas noites de sábados. Como os proprietários ou arrendatários perceberam que estavam perdendo dinheiro, resolveram incluir “no fim de semana” a noite de sexta-feira. E a diversão só cresceu.

Casal dançando Gafieira

Eis que a vida mudou. E eu também resolvi mudar. Uma crise no primeiro casamento (ainda no Rio de Janeiro) que levou à separação e, posteriormente, ao divórcio. Após alguns anos conheci outra pessoa e essa me convidou para trabalhar e morar em São Luís. Estou na capital maranhense desde 1987. Lá se vão 36 anos – e, por conseguinte e por ser apreciador “da fruta”, uma nova família, constituída de um pai, uma mãe e três filhos.

Tudo mudou. A nova moradia e as obrigações domésticas levaram a focar mais o trabalho. As danças e os ritmos foram deixados de lado – até mesmo pela escassez de clubes e salões de danças.

Ainda cheguei a conhecer e frequentar o Clube Lítero Português, o Jaguarema e o Casino, principais clubes da cidade. Depois surgiram a AABB, o Iate e a APCEF. Cheguei a trabalhar na AABB prestando Assessoria de Imprensa.

A idade foi aumentando, e me deixei contaminar pelo vírus do “Bumba-Boi”, mas apenas para assistir.

As danças e os ritmos antigos perderam espaços para os “vagalumes” – gente que dança para mostrar a bunda e tentar brilhar com ela. Cada um mostra o que tem!

A dança da bunda

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS MENINOS QUE COMIAM BARRO

Os meninos que comiam barro

Era um fim de tarde, lembro bem. Tínhamos acabado de chegar de mais um dia de muito trabalho na roça – eu, não menos cansado que qualquer outro, consegui caminhar até o açude, que não ficava tão longe. Fui tomar um banho. Ao chegar em casa, tive a sorte de encontrar aquela redezinha velha armada.

Nem sei se sentei na beirada, ou se deitei.

Vi minha mãe caminhar tão rápido na direção do varal de roupas, que aquela atitude me assustou.

– Geeente, ajuda aqui!

A ventania era tão forte, que nos mostrou os céus cheios de nuvens escuras, carregadas e se desenhando em forma de cones. Coisa rara de ser vista no sertão. Pelo menos na minha velha Queimadas, em Pacajus. Era uma tempestade que estava vindo.

Nunca entendi por que, e tão de repente, apareceram tantas andorinhas que, mais inexplicavelmente, voavam em rodopios de alta velocidade, na tentativa de pegar mosquitos. Até hoje ninguém conseguiu explicar a verdadeira tempestade de morcegos – e pior, parecia que tudo acontecia ao mesmo tempo, e somente ali.

A cada minuto a ventania ficava mais forte. Tangia objetos, entortava galhos das árvores, parecendo que a qualquer momento a nossa casa voaria junto.

Um verdadeiro terror!

Na porteira da casa, distante da calçada uns 40 metros, o cachorro “Bichinho” (nome sugerido pelo meu Avô) parecia pregado, espiando sempre na direção da vereda que levava à entrada da casa. Mudou de comportamento. Não latia. Uivava como se houvesse se transformado num lobo. Uns uivos assustados, penosos, como se o fim do mundo se aproximasse.

Papangu que assustava crianças no sertão

Minha Avó saíra de casa com uma cuia de roupas na cabeça. Foi lavar toda aquela roupa na beirada do açude, inaugurando as “taubas” que alguns maridos haviam montado em local raso, para facilitar o trabalho delas. De quebra, Vovó aproveitaria para dar uns mergulhos e aproveitar para lavar a xeca que Vovô não mexia mais.

Quando Vovó chegou em casa, logo percebeu o alvoroço. Pudera!

– Será que ele tá vino mermo? Perguntou.

– Ele quem, mamãe? Quis saber minha mãe!

– O “papangu”, que eu chamei, prumode vê sesses mininos aparam de cumê barro! Respondeu Vovó!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A MINHA PRIMEIRA VEZ

Todos nós temos uma primeira vez

Liceu do Ceará e seu portão principal

Jogo nas loterias da Caixa aos sábados (sempre que tenho condições para isso), há mais de dez anos. Nunca ganhei prêmio significativo – mas, tenho certeza que a minha primeira vez vai chegar.

Na verdade, passei a entender que ganho toda vez que jogo – e que o prêmio é receber de Deus o direito de viver, além do bônus de chegar aos 80 anos de idade com lucidez, sem ter sido acometido de doença grave, passando por onde passei, enfrentando as dificuldades que enfrentei. Esperar ganhar, torcendo pela primeira vez é apenas uma forma de justificar o reles dinheiro que desperdiço, quando jogo.

Minha primeira vez de levar trote na escola, foi uma bênção. Em 1958 comecei a estudar no Liceu do Ceará, colégio estadual onde o trote era uma tradição e muitos novatos até se sentiam realizados ao receber o trote. Nada que humilhasse quem recebesse o trote.

Pois, ao entrar no colégio pelo portão principal – uma realização pessoal que muito me orgulhou – vestindo um fardamento “novinho e estalando, calçando o famoso sapato 752 da Vulcabrás”, qualquer um chamaria a atenção dos veteranos.

O trote: medir a extensão da quadra interna de práticas esportivas, usando um palito de fósforo e contando em voz alta. Aparecia sempre um veterano para dizer que eu havia errado a contagem e precisava recomeçar. Medir agachado. Um saco!

Foi então que apareceu um gaiato achando que me puniria, mandou levantar e “mijar à força”, quisesse ou não. Detalhe: por conta da posição na medição da quadra, minha bexiga estava estourando – e só eu sabia daquilo. Me levaram pelo braço “para mijar à força”!

Pense num alívio. No ano seguinte, 1959, minha primeira vez de dar trote, agora como veterano.

Minha primeira namorada foi quem me beijou na boca pela primeira vez. Gostei. Gostei tanto que, naquela mesma noite – a primeira vez que visitei a casa dela e sentei na calçada na frente da casa – beijamos pelo menos umas vinte vezes. Nunca, na frente de alguém, parente ou não.

Minha primeira vez como componente da Guarda Principal no quartel onde servi ao (naquele tempo) glorioso Exército Brasileiro. Pela primeira vez, lembro bem, eu era o soldado da hora quando o Coronel Comandante (Celestino Nunes de Oliveira) chegou ao quartel e eu, pela primeira vez, “apresentei armas” e recebi em troca uma continência com a mão espalmada, além de ter escutado o toque da chegada do Coronel, feito com galhardia pelo Cabo Corneteiro.

Parte interna do CPOR de Fortaleza, onde servi ao Exército

Minha primeira vez viajando de avião num percurso longo: pela VASP, Fortaleza-Rio de Janeiro.

Para o texto não ficar tão extenso, vou contar como foi minha primeira vez fazendo sexo. Aconteceu quando eu tinha 16 anos, e com uma jovem que não era minha namorada (naquele tempo, fazer sexo com a namorada, era antecipar o casamento. Nos dias atuais, se o namorado não comer a namorada logo na primeira noite, ela toma a iniciativa de dispensá-lo.

Foi cômico, um verdadeiro sacrifício que hoje me faz passar por “louco”, quando estou só, lembro e começo a rir sozinho. A menina devia ter a mesma idade. Quase ninguém usava bermudas naquele tempo. 1959, para ser mais preciso.

Segurei a mão da menina e ela segurou forte a minha. Percebi que ela estava ansiosa por alguma coisa, pois não era mais virgem de sexo. Caminhamos apressadamente para a “buate calango” que ficava um pouco isolada e sem iluminação. Como a “buate” tinha pouco mais de 60 centímetros de altura, ela deitou num montinho de areia que encontramos. Sem preparação, mas com muita vontade de ambos os lados, iniciamos os trabalhos. Minutos depois a menina começou a reclamar, me levando a pensar que era algum desconforto provocado por mim.

Era um formigueiro!

Com o movimento que fazíamos daquele entra e sai, a areia começou a cair dentro do formigueiro e as formigas começaram a sair. Pense, nessa primeira vez!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

UMA VOLTA AO PASSADO – UM MERGULHO NO TEMPO

Xícara onde era servido o “cafezinho” nos balcões

Ainda dá para ver pelo retrovisor do carro. Não está tão distante assim, aquele passado que conseguia estabelecer e garantir laços de amizades entre as pessoas em qualquer lugar desse Brasil, apesar da sua miscigenação cultural.

Por mim, falo para relembrar da minha então bela e acolhedora Fortaleza, capital cearense – hoje uma grande metrópole brasileira que contribui de forma positiva para o desenvolvimento turístico, por tudo que ali foi construído e é servido atualmente aos visitantes.

Tanto quanto as demais cidades, capitais ou não, Fortaleza tinha um “point” para onde quase todos se dirigiam em busca de interação: a Praça do Ferreira.

Tinha tudo, ou quase tudo. Bares, lanchonetes, bancos, lojas comerciais, padarias, lojas de calçados, cinemas e um vento gostoso que ajudava a levantar as saias das mulheres e mostrava as belas e torneadas coxas.

O caminho mais utilizado para levar à Praça do Ferreira, era a Rua Guilherme Rocha, fazendo uma rápida ligação com a Praça José de Alencar, usada como terminal de quase todas as linhas urbanas que ônibus que serviam a população.

Na Rua Guilherme Rocha existia mais de meia dúzia de botequins que só serviam “cafezinho”. Não existia copo plástico, nem o café era servido em copo de vidro. A xícara apropriada era pequena, de porcelana e o pires era metálico. Ambos esterilizados numa máquina com água fervente, onde também permanecia o bule de alumínio que mantinha o café sempre quente.

Não existia (ainda) o adoçante. O açúcar era servido em recipientes de vidro, para evitar a proliferação de moscas e formigas. Esqueci e dizer que, ali, além do “cafezinho” era vendido também o cigarro. Várias marcas de cigarros – mas a mais vendida era a Continental.

Continental era a marca mais vendida de cigarros

E a gente, embora jovem, tinha sempre algo para conversar com amigos, enquanto tomávamos o “cafezinho”.

Cena comum mostra senhoras conversando nas calçadas

Outro hábito social que merece destaque – e que até hoje tem influência de forma negativa na formação familiar brasileira – era cultura da conversa dos fins de tardes entre as mulheres, quase sempre vizinhas e moradoras do mesmo trecho da rua.

Não se tratava de “fofocar” – embora alguns assuntos pessoais das ausentes fossem falados. As mulheres cuidavam dos afazeres domésticos e dos filhos, enquanto os maridos trabalhavam. Muitas permaneciam em conversas nas calçadas até que o marido chegasse em casa.

O desaparecimento desse hábito proporcionou severas mudanças na vizinhança e, por consequência disso, no relacionamento familiar e social da família brasileira. Há quem responsabilize por isso, o novo pensar e o morar em apartamentos e/ou condomínios fechados.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CAFÉ AMARGO E O FUBÁ DA MINHA TIA

Rapadura cortada para adoçar o café

Nunca pense que a vida na infância é só peraltice, escola, comida boa ou jogar bola e andar de bicicleta ou qualquer outro brinquedo, pois a infância tem também suas agruras e dificuldades.

Papeira, ou caxumba?

Sarampo, conjuntivite (no Ceará, “dordói”), dedo dismintido, coqueluche, bexiga – acredite, isso não é nada bom. Que já enfrentou, sabe como é.

Isso, sem contar as surras (no Ceará, “pisa”) com cipó de marmeleiro, os castigos em casa e na escola – além daqueles famosos: “quando a gente chegar em casa, vamos conversar”; ou ainda a ansiedade da pisa antecipada, com o famoso: “quando teu pai chegar, vou contar tudo pra ele”!

Gripe com febre alta e assistir o aparelho fervendo com a ampola e a agulha para tomar aquela injeção que doía mais que parir uma criança?!

Tudo café pequeno.

Tomar banho, querendo ou não – porque está na hora!

Ouvir: “vá banhar, daqui a pouco vou lhe esfregar, pra tirar esse “serôto” do cangote”!

Todas essas coisas, boas e ruins que acabam sendo boas por que vão somar no aprendizado da vida, representam a convivência da universidade familiar, que vai nos acrescentar mais que qualquer mestrado ou doutorado.

É a verdadeira graduação da vida. Com diploma para emoldurar e exibir na parede da vida – quando os cabelos branquearem, as articulações começarem a doer e a urina começar a cair fora do vaso sanitário.

Fubá de milho torrado e pilado

Mas, como focar nesse “remake” da vida deixando de lado o que de bom enfeitou nosso viver?

Alguém conhece uma criança que, mesmo vivendo dificuldades, não tenha sido feliz?

E, assim sendo, quem teria inventado a frase: “a gente era feliz e (não) sabia”?

Eu fui feliz, sim senhor – mesmo enfrentando ao longo de oitenta anos os problemas que enfrentei. Mas, me atreveria a olhar para trás e repetir muita coisa.

Roubar a rapadura da Vovó (que, no fundo, era minha também), guardada numa cumbuca debaixo de sete chaves – única e exclusivamente para adoçar o “nosso café”.

Ajudar a socar no pilão o milho torrado para fazer fubá, pôr na boca uma mancheia e tentar falar: “minha Tia é boa porque pode”!

Pois é. Ser feliz é fazer e ver acontecer coisas simples, que, às vezes, apenas nós entendemos.

E, sinceramente falando, esse é o somatório da vida. É o que significa viver e ser feliz.