JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Os meninos que comiam barro

Era um fim de tarde, lembro bem. Tínhamos acabado de chegar de mais um dia de muito trabalho na roça – eu, não menos cansado que qualquer outro, consegui caminhar até o açude, que não ficava tão longe. Fui tomar um banho. Ao chegar em casa, tive a sorte de encontrar aquela redezinha velha armada.

Nem sei se sentei na beirada, ou se deitei.

Vi minha mãe caminhar tão rápido na direção do varal de roupas, que aquela atitude me assustou.

– Geeente, ajuda aqui!

A ventania era tão forte, que nos mostrou os céus cheios de nuvens escuras, carregadas e se desenhando em forma de cones. Coisa rara de ser vista no sertão. Pelo menos na minha velha Queimadas, em Pacajus. Era uma tempestade que estava vindo.

Nunca entendi por que, e tão de repente, apareceram tantas andorinhas que, mais inexplicavelmente, voavam em rodopios de alta velocidade, na tentativa de pegar mosquitos. Até hoje ninguém conseguiu explicar a verdadeira tempestade de morcegos – e pior, parecia que tudo acontecia ao mesmo tempo, e somente ali.

A cada minuto a ventania ficava mais forte. Tangia objetos, entortava galhos das árvores, parecendo que a qualquer momento a nossa casa voaria junto.

Um verdadeiro terror!

Na porteira da casa, distante da calçada uns 40 metros, o cachorro “Bichinho” (nome sugerido pelo meu Avô) parecia pregado, espiando sempre na direção da vereda que levava à entrada da casa. Mudou de comportamento. Não latia. Uivava como se houvesse se transformado num lobo. Uns uivos assustados, penosos, como se o fim do mundo se aproximasse.

Papangu que assustava crianças no sertão

Minha Avó saíra de casa com uma cuia de roupas na cabeça. Foi lavar toda aquela roupa na beirada do açude, inaugurando as “taubas” que alguns maridos haviam montado em local raso, para facilitar o trabalho delas. De quebra, Vovó aproveitaria para dar uns mergulhos e aproveitar para lavar a xeca que Vovô não mexia mais.

Quando Vovó chegou em casa, logo percebeu o alvoroço. Pudera!

– Será que ele tá vino mermo? Perguntou.

– Ele quem, mamãe? Quis saber minha mãe!

– O “papangu”, que eu chamei, prumode vê sesses mininos aparam de cumê barro! Respondeu Vovó!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *