JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Gregório de Mattos

Gregório de Mattos e Guerra nasceu em 23/12/1636, em Salvador (BA). Advogado e poeta conhecido como “Boca do Inferno”, devido ao caráter satírico e sarcástico de seus poemas. É considerado um dos maiores poetas do barroco em Portugal e no Brasil. Foi criado numa família de proprietários rurais, donos de engenhos e funcionários da administração da colônia. Seus primeiros estudos se deram no Colégio dos Jesuítas, em Salvador (1642) e complementados em Lisboa (1650).

Entrou na Universidade de Coimbra em 1652, formando-se em Direito em 1661 e no mesmo ano casou com Michaela de Andrade. 2 anos após, foi nomeado Juiz de Fora de Alcácer do Sal, ao ser atestado como “puro sangue”. No período 1665-66 foi provedor da Santa Casa de Misericórdia, em Alentejo. Em 1668, representou a Bahia na Cortes de Lisboa, seguido do cargo de Procurador da Bahia. Em 1674 foi novamente representante da Bahia nas cortes. Em 1678 faleceu sua esposa, com a qual teve um filho.. Em 1679 retornou à Salvador e foi nomeado Desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia, pelo arcebispo Gaspar Barata de Mendonça.

Em 1683, o Rei de Portugal, Dom Pedro II, nomeou-o tesoureiro-mor da Sé, logo após receber as Ordens Menores, tornando-se clérigo tonsurado. No Brasil já se sabia de sua reputação como poeta satírico e improvisador, adquirida em Portugal. No ano seguinte foi destituído dos cargos pelo novo arcebispo, frei João Madre de Deus, por não querer usar batina nem aceitar as imposições eclesiásticas. Por essa época surge o poeta satírico, cronista impiedoso dos costumes, ridicularizando as autoridades civis e religiosas. Satirizava todas as classes sociais chamando-as de “canalha infernal” e apelidando os nobres de “caramurus”. Sua poesia é corrosiva, erótica e até pornográfica, não obstante escrever, também, poemas líricos e até sagrados.

Em 1685, foi denunciado à Inquisição por seus hábitos e modos pouco cristãos. Mas a denúncia não prosperou. O que prosperou foi sua produção poética eivada de críticas e ironias contra os poderosos da colônia. Assim, as inimizades foram crescendo até atingir o governador Antonio Luis Gonçalves da Câmara Coutinho. Correndo o risco de ser assassinado, seus amigos conseguem uma condenação mais leve: a deportação para Angola, em 1694. Lá manteve um relacionamento amigável com o governo local, chegando a colaborar no combate a uma conspiração militar. Como recompensa, seu exílio durou apenas um ano, recebendo o benefício de retornar ao Brasil, porém longe de seus desafetos em Salvador. A partir de 1695 passou a residir no Recife, onde veio a falecer em 26/11/1696.

Em 1831, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen publicou 39 dos seus poemas na coletânea Florilégio da Poesia Brasileira. A obra restante foi publicada por Afrânio Peixoto de 1923 a 1933, em seis volumes a cargo da Academia Brasileira de Letras, reunidos nos códices existentes na Biblioteca Nacional e na Biblioteca Varnhagem, do Ministério das Relações Exteriores, exceto a parte pornográfica que aparecerá publicada, por fim, em 1968, por James Amado. Em 1972, Caetano Veloso gravou a música “Triste Bahia”, na qual as duas primeiras estrofes são extraídas de um soneto de Gregório de Mattos:

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim abundante

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante
A ti tocou-te a máquina mercante
Quem tua larga barra tem entrado
A mim vem me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante

Em 1986, foi criada em Salvador a Fundação Gregório de Mattos, instituição municipal responsável pela administração de espaços culturais soteropolitanos, como o Museu da Cidade, a Casa do Benin, o Arquivo Histórico Municipal e o Espaço Cultural da Barroquinha.. Em 1990, a escritora Ana Miranda publicou o romance Boca do Inferno, pela editora Cia. das Letras, e ganhou o Prêmio Jabuti de Revelação no mesmo ano e a inclusão do livro na lista dos 100 melhores romances em língua portuguesa do século XX. Além da obra ter sido traduzida para diversos países, foi apontada como uma boa fonte de pesquisa para estudos sobre o Barroco no Brasil. Em 2002, Ana Carolina realizou o filme “Gregório de Mattos”, uma cinebiografia tendo Waly Salomão no papel principal, que pode ser visto na íntegra clicando aqui.

Finalmente, temos em 2014 sua obra completa publicada em 5 volumes pela Editora Autêntica. Trata-se de um conjunto de poemas coletados no Códice Asensio-Cunha que circularam em Salvador nas últimas décadas do século XVII e na primeira metade do século XVIII sob o nome “Gregório de Mattos e Guerra”, então a mais importante autoridade poética local.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Branca Dias

Branca Dias nasceu em Viana da Foz do Lima, Portugal, em 1515. Considerada uma das heroínas do Brasil colonial, foi pioneira em diversas áreas: primeira “Senhora de Engenho”, primeira mulher a manter uma “esnoga” (sinagoga clandestina) nas américas e primeira professora de meninas no Brasil. Não obstante sua existência no Brasil encontrar-se mesclada entre lenda e história, consta no Processo nº 5736 do Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, que ela foi presa acusada de judaísmo e condenada a dois anos de prisão, em 12/9/1543.

Vivia com os 7 filhos e era casada com Diogo Fernandes, que se encontrava no Brasil cuidando da sesmaria que recebeu na Capitania de Pernambuco. Ao sair da prisão, embarcou para o Brasil encontrar-se com o marido, passando a viver numa região entre Camaragibe e Olinda. Com a morte do marido, em 1565, ela passou a comandar o engenho de açúcar, ampliando suas atividades. Criou uma escola para meninas, aconselhada por Bento Teixeira, autor da Prosopopeia; criou uma “esnoga”; reformou a “casa grande” de Camaragibe e construiu sua casa urbana na Rua dos Palhares, em Olinda, ainda hoje existentes. Certamente manteve contatos com Brites de Albuquerque, esposa de Duarte Coelho e “capitoa” de Pernambuco.

Os anos seguintes são carentes de dados precisos sobre sua vida, sendo preenchidos pelas lendas e histórias que chegaram ao século XX. Mas, fato é que passado mais de 50 anos, em fins do século XVI, na primeira visitação do Santo Ofício ao Brasil, a Inquisição voltou a investigar sua família. Conta-se, não sabemos se é lenda ou história, que ao saber que seria presa, de novo, e que teria seus bens confiscados, ela jogou toda sua prataria num afluente do Rio Camaragibe, hoje conhecido como Riacho da Prata. Os dados sobre esta prisão são difusos, mas consta que suas filhas e neta foram presas acusadas pela prática do judaísmo em Olinda. No processo nº 4580 (de 25/8/1595), do Tribunal do Santo Ofício, sua filha Beatriz Fernandes foi presa.

Em 31/1/1599 foi presa outra filha, Andresa, junto com a neta Brites de Souza. Ambas foram sentenciadas nos processos nº 4273 e 6321, tiveram seus bens confiscados e ficaram presas por 3 anos. Sua vida foi e tem sido tema de inspiração para romances, teatro e canções No teatro, a peça O Santo inquérito, de Dias Gomes (em 1966), recria sua história perseguida pela Inquisição, numa alegoria sobre a ditadura militar instalada no Brasil em 1964. Outra peça sobre seu martírio, apresentada no Recife foi Senhora de Engenho: entre a cruz e a torá, Na canção foi homenageada por Nana Caymmi e Fortuna Safdie com duas músicas, sucessos de público e crítica. No universo das histórias em quadrinhos, ela aparece como personagem na obra Assombrações do Recife antigo, da roteirista Roberta Cirne e na HQ A máscara da morte branca, do roteirista e filósofo Alexey Dodsworth.

Consta que deixou vasta descendência no Brasil, conforme decreto (nº 30-A) de Portugal, em 2015, que concede naturalização portuguesa aos judeus sefarditas. Em decorrência deste decreto, vários brasileiros foram reconhecidos como portugueses, após certificação da Comunidade Israelita de Lisboa de que descendiam de Branca Dias. Dentre alguns descendentes ilustres destacam-se os políticos João Felipe de Saboia Ribeiro, Ciro Gomes, o escritor Alexey Dodsworth e a cantora Marisa Monte.

Segundo o Instituto Morashá de Cultura (São Paulo) não se deve confundir esta Branca Dias com duas outras homônimas. Em princípios do século XVIII houve um personagem com este nome retratado no romance Branca Dias de Apipucos, publicado por Joana Maria de Freitas Gamboa, em 1879, e descrita como protagonista na Guerra dos Mascates, em 1710. Outra Branca Dias na Paraíba, também judia, em meados do século XIX, foi perseguida por um clérigo local e foi queimada pela Inquisição. O mesmo instituto diz que esta foi a Branca Dias retratada na peça de Dias Gomes e talvez seja a mesma que dá nome a uma Loja Maçônica em João Pessoa. Isto só faz aumentar o caráter lendário dessa história.

Mas há um consenso quando se fala em Branca Dias como sendo aquela portuguesa que viveu em Pernambuco de 1543 a 1589, quando faleceu em Olinda, segundo o Instituto Morashá. A Wikipedia assinala a data de seu falecimento em 1558, o que não parece razoável, pois em apenas 15 anos seria impossível realizar todos seus empreendimentos na capitania de Pernambuco.

Sua biografia foi esboçada em diversos textos, incluindo um livro psicografado em 1905 e publicado por José Joaquim de Abreu, intitulado Livro de Branca Dias. Em 2002 Miguel Real, pseudônimo de Luis Martins, publicou o romance histórico Memorias de Branca Dias, baseado em vasta documentação biográfica. Este livro foi reeditado em 2009 pela Editora Quidnovi. Outro livro bastante documentado foi publicado por José Joffily, pela Editora Pé Vermelho, de Londrina (PR), em 1993, intitulado Nos tempos de Branca Dias. É impressionante, e até paradoxal, que com tantas encenações em teatro, histórias em quadrinhos e vasta documentação, os cineastas brasileiros não tenham se interessado na filmografia dessa mulher. Isto é fruto do nosso descaso com a memória e a nossa história, que mesmo em Pernambuco não consta um busto, rua ou praça com seu nome. Existe em Duque de Caxias (RJ) uma avenida Branca Dias, mas certamente ninguém sabe de quem se trata.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Clóvis Beviláqua

Clóvis Beviláqua nasceu em Viçosa do Ceará, em 4/10/1859. Jurista, filósofo, escritor, crítico literário, jornalista, historiador e autor do projeto do Código Civil Brasileiro, que vigorou de 1916 a 2002. Filho do padre e político José Beviláqua e Martiniana Maria de Jesus, teve os primeiros estudos em sua cidade natal. Em seguida, estudou em Sobral e Fortaleza, onde concluiu os estudos no Liceu do Ceará.

Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro, e passa estudar no Mosteiro de São Bento. Aos 17 anos, junto com Silva Jardim e Paula Ney, fundou o jornal “Laborum Literarium”, dando início a carreia literária. Dois anos após, mudou-se para o Recife e ingressa na Faculdade de Direito, passando a integrar a famosa “Escola do Recife”, seleto grupo de filósofos e intelectuais da época, destacada na filosofia do direito. Em 1882, ao receber o diploma de advogado, foi escolhido como orador da turma. Atuou com desenvoltura entre os filósofos positivistas ao lado de Tobias Barreto, Farias Brito, Capistrano de Abreu, Silvio Romero e Rocha Lima entre outros. Em 1889 passou num concurso público para lecionar Filosofia e pouco depois assumiu a cátedra de Legislação Comparada na Faculdade de Direito do Recife.

Em 1883 publicou A filosofia positivista no Brasil, onde manifesta sua adesão ao “monismo evolucionista”, uma corrente científica do positivismo contrária a tendência mística. Assim, torna-se partidário do “evolucionismo”, inspirado mais em Spencer e Haeckel do que em Auguste Comte, que prevalecia no sul do País. Por essa época colaborou com artigos publicados na “Revista de Estudos Livres”, dirigida por Teófilo Braga, divulgador do positivismo em Portugal. Casou-se, aos 25 anos (1884), com Amélia de Freitas e passou a colaborar com diversos jornais e revistas: “Revista Contemporânea”, “Revista Brasileira”, “Vigílias Literárias”, “A Ideia Nova”, “O Pão”, publicação do movimento literário “Padaria Espiritual”, do Ceará.

Com a proclamação da República, em 1889, foi eleito deputado da Assembleia Constituinte. Mudou-se para Fortaleza e participou na elaboração da Constituição do Ceará. Foi o único mandato político que exerceu não obstante os convites para a Câmara dos Deputados e para o Senado. Foi indicado para governador do Ceará, mas declinou do convite. Segundo Hermes Lima “A política não o seduziu. Não o seduziu a advocacia. Desde moço ocupa-se de questões gerais de filosofia, de sociologia, de direito e de literatura”. Em 1894 incursionou pela ficção mesclada com filosofia e publicou o livro Frases e fantasia.

Com esta incursão, foi convidado como sócio fundador da Academia Brasileira de Letras-ABL, em 1897. Sem abandonar a literatura, atuou em diversas áreas jurídicas e politicas: promotor público, membro da Assembleia Constituinte do Ceará e do Instituto Histórico e Geográfico, secretário de Estado (Piauí). Em 1899 foi convidado pelo Ministro da Justiça, Epitácio Pessoa, para redigir o projeto do Código Civil Brasileiro. No ano seguinte, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro e concluiu o trabalho de próprio punho em 6 meses. Mas, o Congresso Nacional precisou de mais 15 anos para análises e emendas, sendo promulgado em 1916. Na tramitação, o projeto recebeu críticas de Rui Barbosa quanto a linguagem apresentada, mas foi rebatido pelo filólogo Carneiro Ribeiro.

Ente os mais de 30 livros publicado, esta foi a obra que deixou-o imortalizado no cenário jurídico nacional. Em 1906, o Barão do Rio Branco convidou-o para dar consultoria jurídico do Ministério das Relações Exteriores, cargo exercido por 28 anos. Convidado, em 1920, para integrar o Comitê dos Juristas no Conselho da Sociedade das Nações, não pode comparecer, mas enviou um projeto de organização da Corte de Justiça Internacional. Continuou publicando na área literária e no Direito, sobretudo os Comentários ao Código Civil, em 6 volumes. Além disso, deu uma substancial contribuição ao estudo do Direito da Família, das Obrigações e das Coisas. Conta, também, com uma sólida contribuição, principalmente em livros de Direito Civil e Legislação Comparada.

O jurista adorava animais e sua casa era repleta de gato, cachorro, aves, tartaruga etc., que viviam em harmonia com uma biblioteca de mais de 20 mil livros espalhados em todos os quartos. Era um “epicentro do saber jurídico” na cidade. Sua neta conta que às vezes alguém se dirigia à sua casa para pegar algum parecer e ele pedia para aguardar porque um gato estava dormindo sobre a pilha de papéis: “Vamos esperar o gatinho acordar”. Sua vida foi modesta e se manteve em relativo conforto devido a receita provinda dos diversos pareceres que elaborava para o público em geral. Em 1930, sua mulher também escritora, candidatou-se a uma vaga na ABL, mas foi recusada pelo fato de ser mulher. O casal ficou ressentido com o fato e ele nunca mais retornou à ABL.

Em 26/7/1944, sua filha encontrou-o caído em seu escritório sobre a mesa de trabalho cheia de folhas de papel com textos manuscritos e incompletos. Faleceu em plena atividade e deixou um legado precioso ao estudo e aplicação do Direito. Seu nome e estátua passou a constar em diversos logradouros públicos, particularmente nas praças de sua cidade natal, Fortaleza e São Paulo, onde se encontra o Palácio da Justiça, no centro da cidade, contigua a Praça da Sé.

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AS BRASILEIRAS: Maria Baderna

Marietta Baderna Giannini nasceu em 1828, na Itália. Famosa bailarina veio para o Brasil em 1849 e causou tamanho rebuliço na dança e costumes da época, fazendo com que seu sobrenome familiar entrasse no vocabulário brasileiro como sinônimo de bagunça, confusão, desordem. Já em 1889 o dicionário de Antônio Joaquim Macedo Soares registrava a palavra “Baderna” como “súcia dançante”. Depois a palavra perdeu a referência a dança e passou a designar bagunça em geral, até tornar-se um insulto, conforme registra o Dicionário Brasileiro de Insultos. Baderneiro é quem “gosta de aprontar confusão. Vem do nome próprio ‘Baderna’, pelo qual era conhecida uma bailarina que esteve no Rio de Janeiro em 1851. Essa senhora chamada Baderna, por certo, provocou alguma estrepolia envolvendo várias pessoas e tornando sua ação muito visível. O seu papel de provocadora de bagunça foi mais forte do que seu trabalho de atriz”.

Esta é a história da bailarina italiana, bem sucedida na carreira artística nos palcos da Europa, que, no Brasil foi alijada do palco e caiu no conceito da elite na mesma proporção em que crescia no gosto popular. Conquistou um séquito de admiradores chamados de “badernistas”, logo rebaixados a “baderneiros”. que delirava com sua dança e gritava “baderna!, baderna!”, junto aos aplausos, deixando as damas e cavalheiros da colônia ainda mais furiosos. É também a história de uma palavra antiga e usada apenas no Brasil, além de ensejar uma reflexão sobre a origem das palavras, dos sentidos que algumas adquirem conforme seu uso e circunstâncias.

Ainda criança manifestou inclinação para a dança e teve a sorte de ser estimulada pelo pai nessa arte. Estreou cedo nos palcos da cidade de Piacenza e pouco depois entrou para o corpo de baile do Teatro Scala de Milão. Aos 19 anos apresentou-se numa temporada de sucesso no Teatro Covent Garden, de Londres e aos 21 já era uma “prima ballerina assoluta”. Pertencia a uma família da alta burguesia da Lombardia. Seu pai -Antônio Baderna- era médico, músico amador e revolucionário do movimento republicano, que enfrentou a ocupação austríaca na Itália. Após o fracasso da revolução de 1848, ela recebeu um convite para se apresentar no Rio de Janeiro. Seu pai, com dificuldades de viver na Itália, aproveitou a oportunidade e vieram para o Brasil.

No Rio de Janeiro, a estreia no Teatro São Pedro de Alcântara se deu em 29/9/1849, com o balé “Il ballo dele fate” (O balé das fadas). foi um sucesso retumbante, tal como ocorria na Europa. O jornal “Correio Mercantil” deu-lhe matéria, chamando-a “a rainha das fadas. Mas a moça, como o pai, era rebelde não apenas na política, mas também nos costumes. Aos poucos, ela passou a gostar dos ritmos afro-brasileiros dos escravos e do povo: lundu, umbigada e cachucha, incorporando-os ao seu balé. Aqui começa a radical transformação da palavra. Segundo seu biógrafo Silverio Corvisieri: “No começo, os cariocas usavam o termo baderna para indicar coisas muito belas. Somente depois de a dança ser considerada fator de corrupção da juventude, a palavra assume os significados atuais”.

A bailarina foi se aclimatando aos costumes da sociedade carioca que se formava. Gostava de festejar, de beber, namorar e, por mais que dançasse nos salões tradicionais, apreciava bastante as manifestações culturais dos negros e do povo da rua. Foi nas ruas que conheceu a resistência dos escravos, e se apaixonou pelas danças e festejos. A sensualidade e a força dos ritmos e danças africanas rapidamente foram assimilados pela bailarina, que passou a incorporar à delicadeza do balé os passos das danças populares Ao término das apresentações, seu fã clube, os baderneiros, saiam pelas ruas batendo os pés e gritando o nome da bailarina.

O interesse pela sua história se deu em 1987, com a curiosidade do jornalista Moacyr Werneck de Casto ao consultar a palavra “Baderna” no dicionário e ver a menção sobre a bailarina. Escreveu um artigo fantasiando a vida da bailarina e “sem querer, acertei no essencial. Baderna foi mesmo ativa politicamente. Coloquei-a lutando ao lado de Bento Gonçalves e como subversiva nas ruas do Rio. Mas sua história real é mais interessante”. Em Milão, o escritor (e ex-deputado) Silverio Corvisieri também achou a história interessante e iniciou uma pesquisa de fôlego sobre a bailarina. Tal pesquisa resultou no livro Maria Baderna: a bailarina de dois mundos, publicado pela Editora Record em 2001.

O livro faz uma reconstrução histórica do Rio de Janeiro; do seu cotidiano em meados do século XIX. Relata que a bailarina era bastante conhecida do público; foi amiga do ator João Caetano e era elogiada por escritores e jornalistas, como José de Alencar e José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco. Traça o perfil de uma autêntica heroína que enfrentou o preconceito com sua dança “subversiva” e revolucionou os costumes da época. O autor diz que Marietta, de personalidade rebelde, vivia de maneira excessivamente liberal para o Brasil de D. Pedro II. Há registros de que, certa vez, tendo havido atrasos de pagamento da companhia de danças, ele organizou uma greve e promoveu agitações que foram identificadas como “da turma da Baderna e seus baderneiros”.

Consta que em 1851 ela se apresentou no Recife num balé misturado com o “lundu”, obtendo grande sucesso mesmo sob os protestos da elite local. Não existem muitos dados sobre sua vida familiar. Mas, sabe-se que o pai faleceu numa epidemia de febre amarela que assolou o Rio de Janeiro em 1850 e que ela constitui família, casou-se e teve 4 filhos. Em 1863 viajou para a França, onde fez sua despedida dos palcos. De volta ao Rio de Janeiro, passou a levar uma vida mais pacata até seu falecimento em 4/1/1892.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Chacrinha

José Abelardo Barbosa de Medeiros nasceu em Surubim, PE, em 30/09/1917. Locutor de radio e apresentador de TV. Na infância gostava de brincar montando “teatrinhos”, habilidade que o levou a trabalhar como vitrinista da loja do pai em Caruaru. Aos 10 anos mudou-se para Campina Grande, onde o pai foi buscar negócios mais promissores. Ao completar 17 anos, foi estudar no Recife e logo entrou na Faculdade de Medicina. Dotado de certa desenvoltura, teve uma breve experiência como locutor na Rádio Clube do Recife aos 18 anos. No ano seguinte foi dar palestras sobre alcoolismo na Radio Clube de Pernambuco, ampliando seus contatos com o mundo da comunicação.

Por essa época tocava bateria no “Bando Acadêmico” junto com seus colegas de faculdade e não demonstrava interesse pela Medicina. Aos 21 anos decidiu dar uma guinada na vida e como músico e embarcou no navio Bagé rumo à Alemanha. Porém, naquele ano (1939) estourou a II Guerra Mundial, impedindo o prosseguimento da viagem. Foi obrigado a ficar no Rio de Janeiro, onde passou a viver e trabalhar como locutor. Passou por diversas Rádios, mas o carregado sotaque nordestino e a voz não combinavam com a função de locutor comercial. Na Rádio Clube de Niterói, deu-se conta que sua “praia” não era aquela e pediu à direção da emissora para fazer um programa de música carnavalesca tarde da noite. A Rádio funcionava numa chácara próxima ao Cassino de Icaraí.

O programa “O Rei Momo na Chacrinha” entrou no ar em 1942 e foi um sucesso. Ganhou fama de “doido” e o programa passou a se chamar “O Cassino da Chacrinha”. Irreverência era o que não faltava no programa, dando origem ao personagem que ficaria famoso. No programa ele simulava entrevistas com gente famosa e recriava a atmosfera de uma chácara com diversos efeitos sonoros, incluindo galos e outros bichos. Ao mesmo tempo em que comandava o programa gravou diversas músicas de carnaval, enquanto a fama se alardeava. O programa foi efetivado como “Cassino do Chacrinha”. Em 1945 passou a trabalhar na grande Rádio Nacional apresentando os programas “Noite dançante” aos sábados, e “Tarde Dançante Melhoral” aos domingos, quando não havia futebol. Mas não deu certo; seu talento encontrava-se mesmo na “chacrinha”. Assim, o programa voltou ao ar em outras rádios até chegar na Rádio Globo, em 1947.

Nos anos seguintes trabalhou em outras rádios e gravou marchinhas de carnaval até 1956, quando estreou na TV Tupi com o programa “Rancho alegre”. Mas como estava predestinado ao papel de “doido”, voltou a apresentar o “A Discoteca do Chacrinha” e a “Hora da buzina” nas TVs Rio, Excelsior, Tupi e Globo. Em 1959 já era considerado o programa mais popular da TV brasileira. Mesmo fazendo sucesso na TV não abandonou o Rádio, o que só veio acontecer em 1967 quando foi contratado pela TV Globo para apresentar dois programas: “Discoteca do Chacrinha” às quartas-feiras, e “A Hora da Buzina”, aos domingos, rebatizado em 1970 como “Buzina do Chacrinha”. Chegou também a trabalhar no cinema na década de 1960, atuando nos filmes: Três Colegas de Batina (1962), Na Onda do Iê Iê Iê (1966), A Opinião pública (1967) e Pobre Príncipe Encantado (1969). Tudo indica que o contrato com a Globo não ia tão bem quanto o sucesso, e ele voltou para a TV Tupi em 1972.

Anos depois passou a atuar na TV Bandeirantes (1978) e só voltou à TV Globo em março de 1982 para apresentar seu maior sucesso, o “Cassino do Chacrinha” nas tardes de sábado. Era uma mistura de programa de auditório, atrações musicais –lançou diversos cantores de grande sucesso- e show de calouros, dirigido pelo filho José Aurélio “Leleco” Barbosa. Apresentando-se sempre com roupas espalhafatosas, rodeado de belas “chacretes” e atirando bacalhau, abacaxis e pepinos na plateia. O programa tornou-se uma poderosa atração da TV atingindo altos índices de audiência. Era reverenciado como um gênio da comunicação pelo Diretor da Rede Globo, José Bonifácio Sobrinho, devido ao sucesso e as frases e bordões que soltava no ar: “Na televisão nada se cria, tudo se copia”; “Eu vim para confundir, não para explicar!”; “Quem não se comunica, se trumbica!” ou “Não sou psicanalista, nem analista. Sou vigarista”.

Ao fim do programa, já cansado, concluía: “Graças a Deus o programa acabou”. Não era um “palhaço” como seu traje poderia sugerir; tinha plena consciência de seu trabalho: “No meu modesto pensamento, levei para a televisão justamente o que eu tinha: a alegria. Queria dar alegria ao povo e oportunidade para quem realmente tinha valor”. Nomes como Raul Seixas, Fábio Júnior e Alcione, entre tantos outros, foram projetados em seu programa de auditório televisivo. Foi bastante importunado pela censura oficial, que não apreciava as câmeras mostrando o corpo escultural das chacretes nem suas frases de duplo sentido. No auge de sua carreira surgiu o “Tropicalismo”, e ele passou a ser adorado pelos seus protagonistas. Gilberto Gil via no apresentador um fenômeno: ”De repente, a gente pôs os olhos e os ouvidos naquele homem com aquele traje e aquela irreverência”. Involuntariamente, tornou-se um dos ícones do “Movimento Tropicalista”. Posteriormente, Gil deu-lhe o apelido de “Velho Guerreiro” em sua música “Aquele abraço”.

Em 1986 recebeu o título de “Doutor Honoris Causa”, da Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro. Carnavalesco, todos os anos lançava uma marchinha, sucesso garantido no carnaval. Em 1987 foi homenageado pela Escola de Samba Império Serrano, com o enredo “Com a boca no mundo: quem não se comunica se trumbica”. Em 1988 foi descoberto um câncer no pulmão e teve que se ausentar do programa alguns sábados, quando foi substituído pelos humoristas Paulo Silvino e João Kleber. Em 2 de junho voltou a comandar o programa ainda não totalmente restabelecido. Ninguém sabia que aquela seria a última apresentação do programa. Adorava o palco e disse que gostaria de morrer em serviço.

Por pouco isto não chegou a acontecer: faleceu 28 dias depois, em 30/9/1988, aos 70 anos. Cerca de 30 mil pessoas foram dar adeus ao “Velho Guerreiro” no saguão da Câmara dos Vereadores, no Rio de Janeiro. Em 2014 foi lançada uma alentada biografia: “Chacrinha: a biografia” pela Editora Leya. Segundo um dos autores, Denilson Monteiro, seu diferencial é que ele não tinha a vaidade de achar que o público era algo irrelevante no seu programa e, por isso dava-lhe importância. “O Chacrinha sabia o que o povo gostava e, por isso, sabia agradá-lo”. Em 2018 foi homenageado, de novo, no Carnaval, pela Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, com o enredo “Vai para o trono ou não vai”. No mesmo ano foi lançado o filme “Chacrinha, o velho guerreiro”, dirigido por Waddigton Andrucha, com Stepan Nercessian no papel principal. O filme ganhou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e foi reapresentado em janeiro de 2020, na TV Globo, no formato minissérie.

Clique na imagem abaixo para assistir ao vídeo Chacrinha – POR TODA MINHA VIDA

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AS BRASILEIRAS: Cacilda Becker

Cacilda Becker Yáconis nasceu em Pirassununga, SP, em 6/4/1921. Atriz das mais destacadas do teatro brasileiro. Filha de Edmondo Iaconis e Alzira Becker, separados quando ela tinha 9 anos. Junto com a mãe e duas irmãs, foram morar em Santos, onde concluiu os primeiros estudos, um curso de ballet e foi diplomada professora. Aí manteve contatos com o circuito boêmio e de vanguarda da cidade. Pouco depois foi viver em São Paulo, montou sua companhia e sofreu um aneurisma cerebral no palco.

Disposta a seguir a carreira de atriz, mudou-se para o Rio de Janeiro, aos 20 anos, e foi acolhida pelo grupo do “Teatro do Estudante”, dirigido por Paschoal Carlos Magno. Em seguida foi trabalhar na companhia de Raul Roulien e passa a afirmar-se como atriz com a peça Trio em lá menor, de Raimundo Magalhães Jr. ao lado de Raul e Laura Suarez. Dois anos após, regressa a São Paulo e integra-se ao Grupo Universitário de Teatro-GUT, fundado por Décio de Almeida Prado, onde participa de 3 montagens: Auto da barca do inferno, de Gil Vicente; Irmãos das almas, de Martins Pena e Pequeno serviço em casa de casal, de Mario Neme. Por essa época conheceu Zbgiev Zienbinski, um polonês fugido da II Guerra Mundial e experiente ator, disposto a revolucionar o teatro brasileiro.

Pouco depois voltou ao Rio, convidada para trabalhar no famoso grupo “Os Comediantes” na remontagem da peça Vestido de noiva, em 1946, de Nelson Rodrigues e dirigida por Zienbinski. Enquanto isso, em São Paulo, o GUT se junta ao Grupo Experimental de Teatro, dirigido por Alfredo Mesquita, em 1948, para fundar o Teatro Brasileiro de Comédia-TBC. No mesmo ano é fundada a Escola de Arte Dramática-EAD junto a USP. Pode-se dizer que este é o inicio do teatro profissional no Brasil, comandado pelo industrial italiano Franco Zampari. Cacilda e Zienbinski são contratados ao mesmo tempo em que ela passa a lecionar interpretação na EAD. Pela primeira vez atores e diretores têm um contrato profissional.

A partir daí o teatro brasileiro teve extraordinário desenvolvimento, com o TBC realizando 4 a 5 montagens anuais. Cacilda atuou em boa parte das peças até 1955, quando os diretores italianos regressaram à Europa e o TBC começou a entrar em declínio. Por essa época, os atores mais famosos passaram a fundar suas próprias companhias teatrais. Cacilda e Walmor Chagas, já casados, alugaram o teatro da Federação Paulista de Futebol e inauguraram o Teatro Cacilda Becker, em 1958, contando com a participação de Zienbinski, sua irmã Cleide Yáconis e o cenógrafo Fredi Kleemann. A primeira peça encenada foi O santo e a porca, de Ariano Suassuna. Aí o casal atuou em diversas peças, incluindo Quem tem medo de Viginia Woolf?, em 1965, uma das melhores interpretações de Cacilda.

Durante os “anos de chumbo” da ditadura militar, em1968, suspendeu as atividades da Companhia e foi presidir o Conselho Estadual de Teatro, um cargo não remunerado, cuja função era mediar a difícil relação dos artistas com o governo militar, ou seja, encarar a censura e a repressão policial, como na invasão do Teatro Ruth Escobar, enquanto era encenava a peça Roda Viva, de Chico Buarque. No mesmo ano, no lançamento do espetáculo Primeira Feira Paulista de Opinião, que sofreu 71 cortes da censura, com os censores e agentes federais presentes, ela surge no proscênio e se responsabiliza pela apresentação do texto na íntegra, num ato de rebeldia e desobediência civil.

No ano seguinte foi convidada pelo diretor Flavio Rangel para interpretar o vagabundo “Estragon”, na peça Esperando Godot, de Samuel Beckett. Atuou ao lado do marido Walmor e do filho Luís Carlos Martins, em sua estreia. A peça era citada como importante fato cultural daquele ano. No intervalo da apresentação de 6/5/1969, em seu teatro, sofreu um aneurisma cerebral e não voltou ao palco. Foi levada para o Hospital São Luís ainda vestida como seu personagem. Ficou 38 dias em coma, e veio a falecer em 14/6/1969. O velório causou uma comoção no meio artístico em todo o País e contou com a presença de diversas autoridades. O Governador Abreu Sodré esteve presente e soltou uma nota: “Perco uma grande amiga. Os artistas perdem uma grande líder e o povo brasileiro uma grande interprete. Extingue-se um grande talento. Fica um grande exemplo”. E determinou que seu nome fosse dado ao teatro-auditório da TV Cultura.

Ao longo da carreira, encenou 68 peças, 3 filmes e uma telenovela, em 1966, na TV Tupi. E como é o costume de se reconhecer os grandes talentos somente após a morte, seu nome vem sendo lembrado com certa frequência. Em 1988, a Prefeitura de São Paulo inaugurou o Teatro Cacilda Becker, na Lapa. Em 1994, quando se deu o 25º ano de sua morte, a Cia. de Teatro Uzina Uzona, celebrou a vida da atriz encenando a peça Cacilda!!!, de José Celso Martinez Corrêa. Esta celebração foi ampliada e reapresentada mais duas vezes no Teatro Oficina em 2009 e 2013. Foi também retratada como personagem no cinema (Brasília 18%, 2006) e na TV com a minissérie Um só coração (2004). Agora há pouco, em 14/6/2019, no cinquentenário de sua morte, a família Yáconis abriu as portas de sua casa, no Itaim Bibi, ao público e conta com um projeto para torná-la um espaço cultual dedicado à sua memória, pesquisa e estudo.

Os interessados em conhecer melhor a “grande dama do teatro” brasileiro, podem acessar dois bons ensaios biográficos: Uma atriz – Cacilda Becker, de Nanci Fernandes, publicada pela Editora Perspectiva, em 1984, onde se apresenta uma “Cacilda por ela mesma”, com depoimentos seus, de seus colegas e seu legado. Seu amigo e conceituado crítico teatral Décio de Almeida Prado, também deixou suas impressões no capitulo Cacilda: paixão e morte, inserido no livro Peças, pessoas e personagens, publicado pela Cia. das Letras, em 1993.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Juscelino Kubitschek

Juscelino Kubitschek de Oliveira nasceu em Diamantina, MG, em 12/9/1902. Médico, militar, politíco, governou o País (1956-60) e fundou Brasília, quando o Brasil vivia uma onda de entusiasmo com seu futuro: o surgimento da “bossa nova”, do “cinema novo” e de um novo tempo. Os anos de seu governo são lembrados como “Os Anos Dourados”. Prometeu transformar o mandato de 5 anos em 50 de desenvolvimento e cumpriu em boa parte. É considerado um dos mais admiráveis presidentes do Brasil.

De origem humilde, estudou no Seminário de sua cidade e mudou-se para Belo Horizonte em 1920. Trabalhou como telegrafista dos Correios e. formou-se médico pela UFMG, em 1927. Foi estudar em Paris e especializou-se em urologia em 1930. No ano seguinte casou-se com Sara Lemos e ingressou na Força Pública, como capitão-médico. Participou da Revolução Constitucionalista de 1932, quando fez amizade com Benedito Valadares, governador de Minas Gerais, de quem foi chefe de gabinete em 1933, sem desativar o consultório. Disse que entrou na política por uma “imposição” de seu amigo Valadares. Mas, deu-se o envolvimento politico e desistiu de seguir a carreira acadêmica. Eleito deputado federal em 1934, passou a morar no Rio de Janeiro sem esquecer sua base eleitoral. Como secretário do Partido Progressista, organizou o partido no interior de Minas. Em 1937 foi dado o autogolpe de Vargas, inicio do Estado Novo, que deixou-o desiludido com a política, mas foi convencido, de novo, por Valadares a assumir a prefeitura de Belo Horizonte, em 1940, e aceitou o cargo sem apoiar o regime ditatorial. Cauteloso, não abandonou a medicina e chegou ao posto de tenente-coronel da Polícia Militar.

A cidade contava muitos poblenas e poucos recursos. Mesmo assim, costruiu avenidas e pontes, canalizou córregos, integrou o centro ao suburbio, criou a rede subterrânea de luz e telefone e o Conjunto Arquitetônico de Pampulha, projetado por Oscat Niemayer. Ficou conhecido como o “prefeito furacão”. Manteve-se na prefeitura até 1945; deixou a medicina; engajou-se criação do PSD-Partido Social Democrático e foi eleito deputado federal. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1946. Nas viagens que fez pelo norte do País, ficou encantado com as belezas do local e triste com precariedade do seu povo, “com o drama daquelas populações deserdadas, perdidas nos desvãos de um território imenso e quase sem um vínculo afetivo com a capital da República”. Em 1948, viajou para os EUA e conheceu várias idades. Tais viagens exerceram grande influência em sua visão política. Ficou convencido de que o Brasil só alcançaria o desenvolvimento através de uma industrialiação intensa e diversificada.

Em 1950 foi eleito governador de Minas, pelo PSD-Partido Social Democrático. Criou a CEMIG-Companhia Energética de Minas Gerais e 5 usinas hidreléticas, estimulando a industrialização. Em 1954 trouxe a Manesmann, siderúrgica alemá, e tirou o estado da condição agropastoril. Foram construídos mais de 3 mil km. de estradas; 251 pontes; 160 centros de saúde e quase dobrou o nº de alunos na escola primária. No mesmo ano lançou canditatura à presidência, tendo João Goulart como vice, numa aliança com 6 partidos. Antes de tomar posse, viajou por diversos países para apresentar seus planos, obter apoio e investimentos. Nos EUA não conseguiu muita coisa, devido a desconfiança com os boatos sobre o apoio que recebeu dos comunistas. A oposição tentou anular a eleição, mas o General Lott garantiu a posse em janeiro de 1956. Seu “Plano de Metas”, assessorado por Celso Furtado, tinha o objetivo de alcançar “50 anos de desenvolvimento em 5 de mandato”. Era composto de 31 metas, distribuidas em 5 grupos: (1) enegia, (2) transportes, (3) alimentação, (4) indústria de base, (5) educação e a meta principal: a construção de Brasília.

Mais de 2 bilhões de dólares foram destinados às metas; insentou de impostos a importação de máquinas e equipamentos; liberou a entrada de capitais externos em investimentos de risco, associados ao capital nacional e propiciou uma generosa política de crédito ao consumidor, visando ampliar o mercado interno. Afim de melhorar a condição do Nordeste, criou a SUDENE, em 1959, sob a direção de Celso Furtado. Implantou a indústria automobilística, com a vinda da Vokswagem, Ford, Mercedes Benz, General Motors; incrementou a indústria naval e siderúrgica; construiu hidrelétricas, como Furnas e Três Marias; criou rodovias: Belém-Brasília, Régis Bittencourt e Fernão Dias; amumentou a produção da Petrobrás etc. A crítica que se fez ao seu governo, é que para propiciar tanto desenvolvimento, o Brasil aumentou a dívida externa de U$ 87 milhões em 1955, para U$ 297 milhões em 1959. Com a constução de Brasília, a inflação passou de 19,2% em 1956, para 30,9% em 1960 e chegou a 81% em 1963. Conhecido como “pé de valsa”, enquanto construia a caoital, levou diversos artistas e cantores para animar o ambiente. Telefonou pessoalmente, convidando Inezita Barroso, mas quando ela ouviu o nome de quem estava falando, retrucou: “e aqui é a Rainha da Inglaterra” e bateu o telefone achando que era trote. Ele teve que ligar de novo.

Brasília era um antigo projeto para promover o desenvolvimento e a integração do País. Para justificar o feito, deixou dois livros publicados pela Bloch Editora: Meu caminho para Brasília (1974) e Por que construi Basília? (1975). Passou a faixa presidencial a Jânio Quadros em 1961 e no ano seguinte elegeu-se senador por Goiás. Tinha pretensões de voltar à presidência em 1965. Sua candidatura foi lançada em 20/3/1964, com o slogan ”JK-65 A vez da agricultura” Mas, 11 dias depois veio o Golpe Militar de 1964. Foi cassado e teve os direitos políticos suspensos. A partir daí entrou num exílio voluntário e passou a percorrer cidades dos EUA e Europa. Em 1967 voltou ao Brasil e uniu-se a Carlos Lacerda e João Goulart numa “Frente Ampla”, em oposição à ditadura militar. A intenção era retornar à política após os 10 anos de cassação de seus direitos. Porém, foi dissuadido pelos militares, que ameaçavam prosseguir nas investigações de corrupção e aliança com os comunistas. A intenção era desmoralizá-lo politicamente

Com o recrudescimento da ditadura, em 1968, veio o AI-5 e o sonho acabou. Foi preso, respondeu aos IPMs-Inquéritos Policiais Militares e ficou proibido de entrar em Brasília. Em 1975 tentou uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas uma articulação dos militares impediu sua eleição. Faleceu num acidente de carro na Via Dutra em 22/8/1976. O funeral em Brasília se deu ao som da música “Peixe vivo”, cantada por mais de 300 mil pessoas, que não deixaram o caixão ser levado pelo carro do Corpo de Bombeiros. Tomaram-o nas mãos e levaram até o cemitério.

Sua vida e carreira política foram retratadas no cinema, TV e livros. Silvio Tender realizou dois documentários: Os anos JK: uma trajetória política (1980) e JK: o menino que sonhou um país (2002). Em 2006 foi apresentada na TV Globo a minissérie JK. Em 2009 foi realizada a filmografia Bela noite para voar, dirigida por Zelito Viana. No centenário de seu nascimento foi montada a peça JK 1902-2002, apresentada no Museu da Repúbica. Dentre as biografias, destaque para JK, o artista do impossível (2001), de Claudio Bojunga; JK, o presidente bossa nova (2005), de Marlene Cohen; A saga de um herói (2006), de Francisco Viana; Juscelino Kubitschek (2011), de Ronaldo Costa Couto. Em 1981 foi inaugurado o Memorial JK, em Brasília, onde se encontra seu túmulo, constituindo-se num dos pontos turísticos mais visitados da cidade.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Tarsila do Amaral

Tarsila do Amaral nasceu em 1/9/1886, em Capivari, SP. Pintora e protagonista do Movimento Modernista no Brasil, é reconhecida entre as grandes artistas do mundo. Filha de uma rica família de fazendeiros do 2º Império. sua mãe tocava piano e contava histórias dos romances que lia para as crianças e seu pai recitava versos em francês. Legítima representante da oligarquia, que passou por uma transformação radical na vida com a Semana de Arte Moderna, em 1922.

Os primeiros estudos se deram nos tradicionais colégios de São Paulo e foram concluídos no Colégio Sacre-Coeur, em Barcelona. Casou-se, aos 20 anos com o médico André Teixeira Pinto, mas o casamento acabou no ano seguinte com o nascimento da única filha Dulce. Voltou a morar com os pais até 1917, quando mudou-se para a capital e passou a estudar pintura com Pedro Alexandrino Borges, conceituado pintor. Em 1920 foi viver em Paris, com a filha, e frequentou a Academia Julien e estuduu na Academia de Emile Renard. Manteve contato com a vanguarda artística europeia e aderiu ao modernismo com a volta ao Brasil, em 1922. Foi apresentada por Anita Malfatti a Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Pichia, que passaram a frequentar seu ateliê. Em seguida formaram o “Grupo dos Cinco”, que organizou a Semana de Arte Moderan, em 11-18 de fevereiro de 1922. No fim do ano, junto com Oswald de Andrade, embarcou para a Europa; coloca a filha num colégio interno e o casal passa a viajar pela Europa em lua de mel, estudos e contatos com artistas.

Passaram uma temporada em Paris e conheceu Constantin Brancuse, Blaise Cendrars, Erik Satie e Jean Cocteau entre outros. Aí frequentou diversas academias de pintura, mantendo contato com Picasso e amizade com Fernand Léger, o mestre do cubismo, que influenciou seu estilo. Já à vontade como artista e ciente do que “quer ser quando crescer”, escreve para os pais: “Sinto-me cada vez mais brasileira. Quero ser a pintora da minha terra. Como agradeço ter passado na fazenda a minha infância toda. As reminiscências desse tempo vão se tornando cada vez mais preciosas para mim. Quero ser, na arte, a caipirinha de São Paulo”. Em 1923 surge a primeira expressão de sua arte, no quando “A Negra”. O crítico Segio Milliet vê alí o prenúncio do movimento antropofágico, que surgiria 5 anos depois. O quadro impacta os artistas e intelectuais de Paris, com sua originadade e exuberância.

Em 1924, de volta à São Paulo, o casal fez uma viagem de “redescoberta do Brasil” junto com alguns modernistas e o poeta Blaise Cendrars. Era o que faltava para iniciar sua fase artística “Pau-Brasil”. São cores e temas tropicais; os bichos nacionais; a exuberância da fauna e da flora brasileira e simbolos da modernidade urbana (máquinas, trilhos etc.). Dois anos após, legalizou o casamento com Oswald e no mesmo ano realizou sua primeira exposição individual em Paris, na Galeria Percier. Em 1928, enquanto Oswald elaborava o “Manifesto Antropfágico”, ela pintou o “Abaporu”, quadro (de 85x73cm.) que tornou-se o símbolo do “Movimento Antropofágico” e hoje é sua obra mais conhecida e o quadro mais valioso da arte brasileira. O quadro foi um presente de aniversário ao marido, que, entusiasmado, viu ali um índio canibal. Ela, animada com a visão, procurou um dicionário de tupi-guarani e encontrou as palavras “aba” e “poru”, i.é, “homem que come carne humana”. Assim, foi batizado o quadro, que se tornou símbolo do Movimento Antropofágico, que “propunha a digestão de influências estrangeiras para que a arte nacional ganhasse uma feição mais brasileira”.

Em 1929, teve sua primeria exposição no Brasil, Rio de Janeiro. Não foi um ano favorável para as artes ou para qualquer coisa. A crise mundial 1929 abalou a economia e sua família perdeu a fazenda. Para piorar, no ano seguinte Oswald decide separar-se para casar com Patricia Galvão, a conhecida Pagu. Tais perdas deixaram-na bastante abalada, fazendo com que se entregasse ainda mais ao trabalho artístico. Em 1930 assumiu o cargo de conservadora da Pinacoteca de São Paulo, e deu inicio à organização da coleção do primeiro museu de arte paulista. Mas, não pode dar continuidiade, devido a queda de Julio Pretes e o advento da ditadura Vargas. Em 1931 vendeu alguns quadros e viajou pela União Soviética com o novo marido, o psiquiatra Osório César. Na volta, passou nova temporada em Paris e decidiu “assumir a causa social”, digamos assim para não complicar. Sem dinhiero, trabalhou como pintora de portas e paredes e conseguiu dinheiro para retornar ao Brasil.

Aqui, envolta com a causa social e ligada aos intelectuis de esquerda, foi presa, acusada de subversão. Em 1933, inicia uma fase de temática social, demonstrada nos quadros “Operários” e “Segunda Classe”. Inicia, também, novo relacionamento com o escritor Luis Martins, com quem se casou após serparar-se de Osório. A partir dos anos 1940, passou a consolidar seu estilo com base em fases anteriores. Participou das 1ª e 2ª Bienais de São Paulo e ganhou uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1960. Em seguida, foi tema de uma sala especial na Bienal de São Paulo de 1963 e no ano seguinte, apresentou-se na 32ª Bienal de Veneza. Sua apreciação pelos críticos sempre foi superlativa. Para Joaquim Inojosa “se a música da nossa raça -índole e costumes- deve sua divulgação lá fora a Villa-Lobos, a pintura renderá esta homenagem a Tarsila do Amaral”. Mário da Silva Brito, achava “Tarsila, um capítulo da história da pintura brasileira. Um monumento criativo do modernismo. Uma vida dentro da arte”.

Em 1966, já separada de Luis Martins, passou a sentir dores na coluna, submeteu-se a uma cirurgia e, devido a erro médico, ficou paralítica, tendo que se virar como cadeirante. Pouco depois, ficou desesperada com a morte da única filha e passou a se interessar pelo espiritismo. Com o dinheiro obtido com a venda dos quadros, ajudou a instituição mantida por Chico Xavier, de quem tornou-se amiga; trocaram correspondência e visitas. Faleceu em 17/1/1973, aos 84 anos, e foi sepultada no Cemitério da Consolação.

Duas alentadas biografias contam sua trajetória. Uma foi realizada por sua prima Aracy Amaral – Tarsila: sua obra e seu tempo -, resultado da pesquisa de tese de doutorado, publicada em 1975. Outra foi escrita por Nádia Battela Gotlib –Tarsila do Amaral, a modernista -, lançada em 2003 pela Editora SENAC , um livro de arte. Ambos contam com várias reedições. Sua memória ficou foi preservada, também, na peça teatral Tarsila, escrita por Adelaide Amaral, encenada em 2003 e publicada em livro em 2004. Foi homenageada, em 2008, pela União Astronômica Internacional com seu nome dado a uma cratera do planeta Mercúrio. No mesmo ano, foi lançado o Catálogo Raisonné Tarsila do Amaral, contemplando toda sua obra em 3 volumes, realizado pela Base 7 Projetos Culturais e publicado numa parceria entre a Petrobrás e a Pinacoteca do Estado do Estado de São Paulo. Toda sua obra pode ser vista, também, em seu site oficial (clique aqui para acessar)

Agora, em 2022, com o centenário da Semana de Arte Moderna, São Paulo é devedor de um tributo especial a sua grande artista. Imagino que os “responsáves” pela Cultura estão atentos, pensando e, talvez, já fazendo o que deve ser feito no Centenário do Movimento Modernista, planejado e realizado pelo “Grupo dos Cinco”(Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Pichia), onde 40% eram mulheres: Tarsila do Amaral e Anita Malfatti. Sua indusão agora no Memorial marca o início das devidas comemorações que certamente virâo.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Burle Marx

Roberto Burle Marx nasceu em São Paulo, em 4/8/1909. Artista plástico, pintor, designer, arquiteto, tapeceiro, e um dos paisagistas mais renomados do mundo. Filho da recifense Cecília Burle e de Wilhelm Marx, judeu alemão, parente de Karl Marx. Aos 4 anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro e logo que os negócios (exportação e importação de couros) do pai prosperaram, foram morar num casarão do Leme, onde ele, aos 8 anos, começou a cultivar mudas de plantas e iniciar sua própria coleção.

Em 1928, teve um problema nos olhos e a família foi procurar tratamento na Alemanha, onde permaneceram até 1929. Lá entrou em contato com as vanguardas artísticas e conheceu o Jardim Botânico de Dahlen. Lá encontrou a vegetação brasileira numa estufa e ficou encantado com a beleza das plantas tropicais. Gostou, também, da pintura, com as visitas que fez às exposições de Pablo Picasso, Henri Matisse, Paul Klee e Van Gogh e passou a estudar pintura no ateliê de Degner Klem. De volta ao Brasil, seu amigo e vizinho Lucio Costa incentivou-o a entrar na Escola Nacional de Belas Artes. Aí fez amizade com alguns nomes que se destacariam na moderna arquitetura brasileira: Oscar Niemayer, Hélio Uchoa, Milton Ribeiro etc. Seu primeiro projeto paisagístico se deu em 1932, a pedido de Lúcio Costa, para o jardim da família Schwartz. O primeiro projeto público se deu em 1934, no Recife, projetando 5 praças, todas tombadas pelo IPHAN. Foi designado Diretor de Parques e Jardins do famoso DAU-Departamento de Arquitetura e Urbanismo, da Prefeitura do Recife e trabalhou com Joaquim Cardoso, que viria a ser calculista de Oscar Niemayer.

Neste cargo projetou diversos logradouros, fazendo uso intensivo da vegetação nativa. Em 1935, projetou a Praça Euclides da Cunha, que ficou conhecida como “Cactário Madalena”, devido a ornamentação com plantas da caatinga e do sertão. A partir daí passou a imprimir um caráter de brasilidade ao seu trabalho, livrando-se da influência europeia, com predomínio das azaleias, camélias, magnólias e nogueiras. Para isso contava com o apoio de Luiz Nunes, Diretor do DAU e Atilio Correa Lima, gestor do Plano Urbanístico da cidade, e de simpatizantes como Gilberto Freyre, Cícero Dias e Joaquim Cardoso. O projeto do primeiro Parque Ecológico do Recife ficou a seu cargo. Até hoje é celebrada anualmente no Recife a “Semana Burle Marx”, em agosto. Em 1937 retornou ao Rio de Janeiro e foi convidado para projetar os jardins do Edifício Gustavo Capanema (na época Ministério da Educação e da Saúde). Idealizou um terraço-jardim que é considerado um marco de ruptura no paisagismo brasileiro. Com vegetação nativa e formas sinuosas, o jardim apresentava uma configuração inédita no país e no mundo.

Por essa época tomou aulas de pintura com Cândido Portinari, de quem se tornaria assistente, e Mario de Andrade, no Instituo de Arte da Universidade do Distrito Federal. No final da década de 1930 sua obra paisagística já estava perfeitamente integrada à arquitetura moderna, uma tendência mundial. Assim, passou a integrar o grupo de arquitetos adeptos da escola alemã Bauhaus, influenciados pela corrente francesa liderada por Le Corbusier. Trata-se de um estilo humanista e integrador de todas as artes. Em 1949 adquiriu o Sitio Santo Antônio da Bica, em Campo Grande (RJ), com 365.000 m², e passou a viajar pelo Brasil, junto com botânicos, em busca de plantas tropicais. O objetivo foi coletar e catalogar exemplares para reproduzir, no sitio, a diversidade fitogeográfica brasileira.

Seu papel na definição da Arquitetura Moderna Brasileira foi fundamental, tendo atuado nas equipes responsáveis por diversos projetos célebres. A partir daí, passou a trabalhar com uma linguagem bastante orgânica e evolutiva, identificando-a com vanguardas artísticas como a arte abstrata, o concretismo, o construtivismo. Como é, também, pintor, as plantas baixas de seus projetos lembram em muitas vezes telas abstratas, nas quais os espaços criados privilegiam a formação de recantos e caminhos através dos elementos de vegetação nativa. Daí em diante sua parceria em trabalhos com Oscar Niemayer e Lúcio Costa toma impulso. Como arquiteto, inclui em seus parques e jardins elementos arquitetônicos como colunas e arcadas, encontrados em demolições; utiliza ainda mosaicos e painéis de azulejos, recuperando a tradição portuguesa.

A partir da década de 1950, passou a utilizar em seus trabalhos uma ordenação mais geometrizante, como ocorreu na Praça da Independência (João Pessoa), no Parque do Flamengo (RJ) ou Parque Ibirapuera (SP). Em 61 anos de carreira, assinou mais de dois mil projetos em todo o mundo e recebeu inúmeras honrarias. Mas a homenagem que mais apreciou foi ver seu nome designando uma espécie de planta tropical: a Calathea Burle Marxii”, conhecida popularmente como “Calatea Burle Marx” ou “Maranta de Burle Marx”. Foi contratado para projetar parques públicos em diversas cidades: Parque Generalíssimo Francisco de Miranda (Caracas, 1950); Jardins da Cidade Universitária da Universidade do Brasil (Rio de Janeiro, 1953); Jardim do Aeroporto da Pampulha (Belo Horizonte, 1953); Balneário Municipal de Águas de Lindóia (SP, 1954); Paisagismo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1955); Paisagismo da Praça da Cidadania da Universidade Federal de Santa Catarina (1960); Paisagismo para o Eixo Monumental de Brasília (1961); Paisagismo do Aterro do Flamengo (1968); Paisagismo da Embaixada do Brasil em Washington, USA, 1970); Paisagismo do Palácio Karnak (Teresina, 1970); Paisagismo do aterro da Bahia Sul em Florianópolis (1971) etc.

Tais atividades não o afastaram da pintura, e desde a década de 1930 participou de 74 exposições individuais, 71 coletivas e 22 póstumas. Seu traço revela influências de Pablo Picasso e dos muralistas mexicanos. Nos retratos, aproxima-se de Candido Portinari e Di Cavalcanti. Segundo os críticos de arte, a partir de década de 1950 “a tendência para a abstração consolida-se e a paleta muda, passando a incluir muitas nuances de azul, verde e amarelo mais vivos. Em suas telas o trabalho com a cor está associado ao desenho, que se sobrepõe e estrutura a composição. Nos anos 1980, passou a realizar composições geométricas em acrílico, os contornos são desenhados com a cor, as telas adquirem um aspecto fluído, flexível e ganham leveza. Dedicou-se mais à pintura com a mudança para o sítio Santo Antônio da Bica (RJ), em 1972 e passou a cultivar 3.500 espécies de plantas de todo o mundo, criando um verdadeiro “Éden Tropical”.

Em 1985, o sítio Santo Antônio da Bica foi doado ao governo federal, passando a chamar-se Sitio Burle Marx, mantido pelo IPHAN e aberto a visitação pública. Trata-se de num valioso patrimônio paisagístico, arquitetônico e botânico, além de uma escola para jardineiros e botânicos. Além disso, é mantido em São Paulo, desde 1994, o Parque Burle Marx, no bairro do Morumbi, com 168.000 m² e administrado pela Fundação Aron Birmann em parceria com a Prefeitura da cidade. Em 1982, recebeu o título Doutor honoris causa da Academia Real de Belas Artes de Haia, e do Royal College of Art, em Londres. Sua obra pode ser contemplada nos diversos livros publicados sobre suas contribuições ao paisagismo e nos livros de sua autoria: Arte e paisagem: conferências escolhidas. São Paulo: Nobel, 1987 e Arte e paisagem: a estética de Burle Marx. São Paulo: MAC/USP, 1997. Alguns livros sobre sua vida e obra: I Giardini tropical di Burle Marx (1964), de Pietro Maria Bardi; Roberto Burle Marx: Il giardino del novecento (1992), de G. Giulio Rizzo; Nos jardins de Burle Marx (1994), de Jacques Leehardt; Arte e paisagem: Roberto Burle Marx (2004), de José Tabacow Faleceu em 4/6/1994.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Chica da Silva

Francisca da Silva de Oliveira nasceu em 1732, no Arraial do Tijuco, atual Diamantina, MG. Escrava alforriada transformada em mito devido ao fato de pertencer a nobreza colonial em pleno regime escravista. Sua história ganhou notoriedade 72 anos após sua morte, através do livro “Memórias do Distrito Diamantino”, publicado em 1868, por Joaquim Felício dos Santos. Filha de Antônio Caetano de Sá, português e capitão das ordenanças e Maria da Costa, africana da Costa da Mina (Benim) e escrava.

Aos 22 anos foi comprada pelo contador de diamantes João Fernandes de Oliveira, com quem viveu 15 anos e teve 13 filhos. Todos receberam sobrenome do pai e foram educados nos padrões da elite da época, fato incomum naquela época. Entre 1755 e 1770 a família viveu num belo casarão situado no que hoje é a praça Lobo de Mesquita, nº 6, em Diamantina. Em 1770 ele retornou à Portugal e levou os 4 filhos, que lá tiveram educação superior e tornaram-se nobres da corte portuguesa. Ela ficou junto com as filhas e a posse das propriedades. Assim, a família conseguiu manter um elevado padrão de vida com distinção social e respeito na sociedade escravocrata do século XVIII. Integrou-se às Irmandades de São Francisco e do Carmo, exclusiva de brancos, mas também às irmandades das Mercês, composta por mulatos, e do Rosário, reservada aos negros. Sua riqueza permitiu que parte da riqueza fosse doada às quatro irmandades religiosas.

Como se vê, era uma mulher experiente e sábia na administração dos bens, dividindo-os de forma a contemplar todas as classes. Mantinha a posse de mais de 100 escravos negros e mulatos e vivia basicamente da exploração dessa mão-de-obra, alugada e empregada nas minas, agricultura e pecuária. Não existe evidência documental de que ela tenha concedido alforria a seus escravos, exceto a algumas escravas domésticas com quem convivia. A união consensual entre um branco e uma negra era comum na época. O caso Chica da Silva distinguiu-se por ter sido público, intenso e duradouro, além de envolver um dos ricaços da região. Suas filhas foram educadas semelhante às moças da aristocracia local: enviadas para o Recolhimento de Macaúbas, onde as filhas da elite mineira eram recolhidas. Algumas seguiram a vida monástica e outras só saíram em idade de se casar. Os filhos, já adultos, retornaram ao Brasil e um deles – José Agostinho – recebeu a patente de capitão de milícias no Tijuco; outro – Simão Pires Sardinha – participou do movimento que eclodiu na Inconfidência Mineira e tornou-se nobre, amigo do príncipe regente D. João VI.

Falecida em 15/2/1796, tinha o direito de ser sepultada em qualquer uma das quatro irmandades a que pertencia. Foi escolhida a de São Francisco de Assis, a mais importante. O fato em si revela que ela se manteve na mais alta condição social, mesmo vários anos após a partida do marido para Portugal. Sua história ficou relegada ao esquecimento durante muito tempo até o surgimento do livro de Joaquim Felício dos Santos (1872) e quase tudo que se sabe a respeito de sua vida é baseado neste livro. Desse modo, sua história distancia-se bastante da realidade, caindo na ficção e transformando-a num mito, conforme as intenções de cada escritor. E são muitas as publicações que ensaiaram textos biográficos e históricos sobre o mito Chica da Silva.

A historiadora Júnia Ferreira Furtado, que escreveu sua biografia em 2009, (Chica da Silva e o contratador de diamantes: O outro lado do mito. Editora Companhia das Letras) fez críticas contundentes a esses trabalhos. Segundo ela, a história foi contada sem a devida preocupação com a construção da realidade, distanciando-se da real trajetória de vida e caindo na ficção. Em consequência, o que o grande público conhece dela é um mito no qual realidade e fantasia se misturam. Critica principalmente a telenovela Xica da Silva, exibida pela extinta TV Manchete entre setembro de 1996 e agosto de 1997, responsável pela massificação do mito, asseverando que “os limites do erótico e do mau gosto foram ultrapassados, sem nenhum compromisso com a realidade do século XVIII, que tem sido revelada na sua multiplicidade e complexidade pela pesquisa histórica”. Antes disso, em 1976, Cacá Diegues, havia dirigido um filme com o mesmo título da novela e protagonizado por Zezé Motta, onde o aspecto erótico também foi privilegiado, não obstante o cineasta ter afirmado que “construí meu filme como uma fábula política”.

Cecília Meirelles fez uma premonição em seu Romanceiro da Independência (1953): “Ainda vai chegar o dia de nos virem perguntar: quem foi Chica da Silva que viveu neste lugar?”. Este dia chegou em meados de 2015, quando houve a intenção de se contar sua verdadeira história através de um documentário de longa metragem, produzido por Rosi Young, Tathiana Mourão e Jonas Klabin, com direção de Zezé Motta, intitulado “A Rainha das Américas”. O projeto cinematográfico, de grande envergadura, contou com a exumação de seus restos mortais realizada em 23/11/2015 para saber suas verdadeiras características físicas. O projeto conta também com a reconstrução do seu rosto em 3D, a construção de uma escultura em Diamantina e a criação de um holograma em tamanho real. Esta imagem seria projetada durante o desfile de uma escola de samba em 2018.

Seria se o projeto fosse concluído a tempo. Mas ainda não foi devido a problemas ocorridos na exumação de sua ossada. Tais problemas chegaram a causar um incidente diplomático entre o Brasil e EUA. A exumação envolveu a contratação de dois especialistas norte-americanos, da Arizona State University, responsáveis pela reconstituição do crânio de Chica. A ossada foi levada para os EUA e o trabalho demorava bastante para ser realizado, mesmo sendo cobrado pela produtora Rosi Young. Em seguida ela viu no site na Universidade um vídeo com a manchete: “Professores descobrem escrava brasileira”. Os professores contratados agiram como se eles fossem os autores da pesquisa original. O caso foi noticiado aqui como “o sequestro de Chica da Silva”.

O fato é que o “imbróglio” levou mais de um ano na resolução do problema e devolução da ossada, que só retornou ao Brasil em 5/5/2017, envolvendo o Iphan, a Interpol e o Consulado do Brasil nos EUA. O trabalho científico acabou sendo concluído aqui mesmo e a reconstituição do rosto ficou a cargo do designer Everton da Rosa. A filmagem só poderá iniciar após a conclusão dessa parte e a previsão era que o documentário fosse lançado em 2019. Infelizmente ainda não se deu o tal lançamento, e torçamos para que seja possível ver este importante capítulo da nossa história na telona ou na telinha. A História do Brasil está repleta de bons “causos”, que a indústria cinematográfica brasileira tem ignorado sistematicamente. A preferência dos nossos cineastas têm recaído mais sobre os heróis/bandidos do sertão ou dos morros cariocas.