JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Naná Vasconcelos

Juvenal de Holanda Vasconcelos nasceu no Recife, em 2/8/1944. Músico considerado uma autoridade mundial em percussão, recebeu o Prêmio Grammy oito vezes e foi eleito por oito vezes o melhor percussionista do mundo, pela revista americana “Dow Beat”, a mais prestigiada publicação sobre jazz.

Filho de Pierre de Holanda Vasconcelos, também músico de quem ganhou, aos 11 anos, seu primeiro instrumento musical: um bangô. Aos 12 anos já acompanhava o conjunto do pai e tocava nos bailes do clube carnavalesco do Recife “Batutas de São José”, onde aprendeu a tocar em grupo.

Ainda jovem, foi percussionista da Banda Municipal do Recife, tocou maracas nos frevos de Nelson Ferreira e acompanhou o cantor cubano Bienvenido Granda nos estúdios da gravadora Rozenblit. Na época, a percussão se restringia aos pandeiros, tambores, tumbadores, maracas e bangôs. Em 1966 passou a se interessar pelo berimbau e explorou todas as potencialidades do instrumento. Uma de suas influências foi o rockeiro Jimi Hendrix, que ao explorar todos os recursos musicais da guitarra, lhe abriu as portas para as ilimitadas possibilidades do berimbau.

Passou a tocar vários ritmos transportando a técnica usada na bateria para o berimbau, que era, até então, usado apenas na capoeira. Segundo o pesquisador Ben-Hur Demeneck, ele “conseguiu fazer do berimbau um instrumento solista, tanto em grupos de jazz quanto em orquestras eruditas. A sua trajetória musical pode encher páginas com as ocorrências nominais de suas conquistas globais. No entanto, para comentar sua musicalidade, nenhuma delas compete com a perturbadora capacidade de arrancar o público de sua realidade mais imediata e de atarantar os críticos com sua variedade de timbres”.

Em 1967 ganhou uma passagem de ônibus do Mestre Capiba e foi para o Rio de Janeiro se aventurar na carreira de músico. Embora tocasse todos os instrumentos de percussão, na década de 1960 especializou-se no berimbau e tornou-se o percussionista preferido pela maioria das estrelas da MPB e do Rock “Udigrudi” da época. Gravou com Milton Nascimento, Gal Costa, Jards Macalé, Caetano Veloso, Egberto Gismonti, Luiz Eça, Mutantes, Som Imaginário etc.

No ano seguinte, viajou para São Paulo e juntou-se ao Quarteto Novo acompanhando Geraldo Vandré. A crítica assinalou que “ele foi um grande valorizador da cultura negra, da percussão brasileira, da dança e de todas as influências afro-brasileira. Autodidata, declarou: “Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra.” Sua discografia conta com mais de 25 discos e tocou junto com os grandes astros da música internacional, tais como Gato Barbieri, Don Cherry, Pierre Favre, Pet Metheny, Jim Pepper, Gery Thomas, Talking Heads, Ginger Baker, Paul Simon, B.B. King e Herb Albert entre outros.

Além dos diversos prêmios, recebeu diversas honrarias: 62ª posição na lista dos 100 Maiores Artistas da Música Brasileira pela revista Rolling Stone Brasil, em 2008; Medalha da Ordem do Mérito dos Guararapes, no grau Grã-Cruz, em 2013; Título de “Doutor Honoris Causa” pela Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE, em 2015. Em julho de 2015, foi diagnosticado com um câncer de pulmão e manteve-se em atividade: “Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra”. Faleceu em 9/3/2016, aos 71 anos.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Liêdo Maranhão

Liêdo Maranhão de Souza nasceu no Recife, PE, em 3/7/1925. Dentista, folclorista, escritor, escultor, cineasta, fotógrafo e pesquisador da cultura popular. Segundo Ariano Suassuna, “é um dos maiores conhecedores da literatura de cordel do Brasil”.

Teve os primeiros estudos em colégios do Recife e formou-se pela Faculdade de Medicina, Odontologia e Farmácia do Recife, em fins da década de 1940. Logo após a formatura, na condição de carnavalesco “juramentado”, fundou junto com seu irmão a Escola de Samba Estudantes de São José, o bairro onde nasceu e passou toda sua juventude. Frequentava diariamente o Mercado de São José, ponto de encontro com os tipos que se tornaram os protagonistas de seus livros. Sua intimidade com o Mercado resultou no livro O mercado, sua praça e a cultura popular do Nordeste: homenagem ao centenário do Mercado de São José 1875-1975, publicado em 1977 pela Prefeitura do Recife.

Segundo Mark J. Curran, chefe do Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade do Arizona, EUA, “é um monumento sobre a cultura popular do Nordeste”. Para Raymond Cartel, diretor do Centro de Pesquisa Luso-Brasileira da Universidade de Sorbonne, em Paris, “é a maior autoridade das ruas do Recife”. No início da década de 1960, viajou para a Europa, onde passou 3 anos e conheceu 11 países. Fez estágio como dentista no Hospital de La Pitié, em Paris. Com o auxílio de uma bolsa de estudos, estagiou no Hospital Provincial de Madrid. Após muitas viagens de carona, lavar pratos em restaurantes, carregar e descarregar caminhões, tocar pandeiro e trabalhar em teatros, casou-se com a espanhola Bernarda Ruiz e retornou ao Brasil, indo morar em Olinda.

Em 1964, passou a fazer esculturas em madeira, sendo premiado no Salão de Arte do Estado de Pernambuco. Participou do “Atelier + 10”, em Olinda ao lado de artistas plásticos como João Câmara e Vicente do Rego Monteiro. Por essa época ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro e foi Secretário de Finanças do Diretório Municipal. Participou do Movimento de Cultura Popular do Recife no primeiro mandato do governo Miguel Arraes. A partir de 1967, iniciou uma viagem pelo interior do estado em busca de folhetos de cordel para uma pesquisa sobre os cangaceiros. Queria saber como é o cangaço visto pelo povo.

Apaixonou-se pela literatura de cordel e fez um documentário em 16 mm registrando os folhetos na década de 1970, intitulado O folheto. Mais tarde publicou O folheto popular: sua capa e seus ilustradores, publicado pela Editora Massangana, em 1981. Como conhecedor da poesia popular, colaborou com artigos na Revista Equipe, dos servidores da SUDENE, e do Jornal Universitário, da UFPE. Como escultor, foi premiado no XXX Salão Oficial de Arte do Museu do Estado de Pernambuco. Ao longo da vida, tornou-se um colecionador da cultura popular, incluindo objetos e documentos raros, como os livros sobre medicina popular e culinária nordestina, além de folhetos de cordel.

Sua casa, em Olinda, tornou-se um museu folclórico, transformada hoje em “Casa da Memória Popular”, contendo mais de 2 mil fotos e cerca de 10 mil itens dispostos à visitação pública. Na condição de memorialista, deixou publicado alguns livros indispensáveis ao conhecimento da cultura nordestina: Classificação popular da Literatura de cordel (Editora Vozes, 1976), O povo, o sexo e a miséria ou o homem é sacana (Ed. Guararapes, 1980), Conselhos, comidas e remédios para levantar as forças do homem (Ed. Bagaço, 1982), Cozinha de pobre (Ed. Bagaço, 1992), Marketing dos camelôs do Recife (Ed. Bagaço, 1996), A fala do povão: o Recife cagado-e-cuspido (Edição do autor, 2004), Rolando papo de sexo: memórias de um sacanólogo (Ed. Livro Rápido, 2005).

Após seu falecimento, em 2014, a Prefeitura do Recife perpetuou sua presença com uma estátua de bronze em tamanho natural na praça do Mercado, seu ponto de encontro com a cultura pernambucana e com os recifenses.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Ana Aurora

Ana Aurora do Amaral Lisboa nasceu em 24/9/1860 em Rio Pardo, RS. Professora, escritora, poeta, dramaturga, jornalista, e ativista política. Foi precursora do ensino supletivo para adultos e pioneira do movimento feminista com destacada atuação política em fins do século XIX e princípios do século XX. Junto com a irmã Zamira, fundou o Colégio Amaral Lisboa.

14ª filha de Maria Carlota do Amaral e Joaquim Pedro da Silva Lisboa, comandante da Guarda Nacional de Rio Pardo. Diplomou-se na Escola Normal de Porto Alegre, em 1881, com distinção em todas as matérias e foi contratada como professora do Estado. Sua família tinha posicionamento contrário ao Partido Republicano. Eram federalistas e o fato causou-lhe perseguições políticas, que a obrigou a exonerar-se do cargo público e entrar no Partido Federalista, vindo a participar da Guerra Federalista no Rio Grande do Sul em 1893.

Na época sua irmã publicou na imprensa um poema elogiando o federalista Gumercindo Saraiva. Um republicano, major do Exército -Antero de Fontoura-, não gostou do elogio feito ao seu opositor e achando que foi ela e não a irmã a autora do poema, escreveu-lhe uma carta recriminando a atitude nos seguintes termos: “Essa não é a missão da mulher, deixar o lar doméstico para vir intrometer-se na política. Com tanto cultivo da inteligência, não pensais que a mulher, principalmente a solteira e sem pai, deve arrojar-se a vir provocar homem…” Ela se aborreceu com o insulto e decidiu resolver a parada nos moldes gaúchos da época.

Adquiriu uma arma, procurou o major e exigiu retratamento apontando-lhe a arma. Deve ter se desculpado, pois o desfecho não resultou em tiro, mas lhe rendeu um processo-crime. Foi julgada e absolvida por estar no pleno direito de “defesa da honra”. Este pode ser mais um pioneirismo alcançado por Ana Aurora, por se beneficiar de um direito até então só utilizado pelos homens. O episódio ficou marcado em sua biografia e alavancou sua carreira como colunista política e “membra honorária” dos federalistas. Pouco depois, junto com as irmãs Zamira e Carlota, fundou o Colégio Amaral Lisboa, dirigindo-o até 1924. Junto ao trabalho educacional, foi articulista em diversos órgãos da imprensa, onde expunha seus ideais políticos e educacionais. Através destes artigos, alguns deles utilizando-se de pseudônimos, ganhou notoriedade na política local.

Colaborou no jornal A Reforma, do Partido Federalista; no O Canabarro, de Santana do Livramento; Gaspar Martins, de Santa Maria; Correio do Povo, de Porto Alegre e jornais do Rio de Janeiro. Foi também escritora, poeta e dramaturga, tendo o primeiro livro – Minha defesa – publicado em 1895. Em Caxias do Sul, fundou e dirigiu o periódico O Estímulo, mantido de 1916 a 1918, ao mesmo tempo em que se dedicava a Literatura. Seu segundo livro – Traços meus -, uma coletânea de contos, foi publicado em 1924, pela Livraria do Globo.

Manteve intensa vida social com participação destacada na Sociedade Feminina Sempre-Viva e Grêmio Rio-pardense de Letras. Em 1915 criou curso de ensino noturno gratuito para adultos, bem antes do ensino supletivo ser instituído em 1931. Casou-se em 1922 com o Dr. Hermenegildo de Barros Lins e mudaram-se para o Ceará. Após breve estadia no Rio de Janeiro, voltou a morar em Rio Pardo, onde passou a cuidar do Colégio fundado pela família.

Junto com a irmã Zamira, dedicou-se durante 55 anos ao ensino, acolhendo alguns alunos gratuitamente. Em meados da década de 1930, o colégio passou por uns perrengues financeiros, devido em parte ao episódio ocorrido com o major, e as irmãs tiveram que viver numa condição precária em idade avançada. Em 1937 o governo do Estado, em reconhecimento aos serviços prestados na educação, lhes concedeu uma modesta pensão vitalícia, permitindo-lhes a sobrevivência. Seus ex-alunos também reconheceram suas contribuições ao ensino e ergueram uma herma na Praça Barão de Santo Ângelo, no centro da cidade, em 1944, expondo o busto das irmãs. Na inauguração do pedestal sua expressão, aos 84 anos, exprimia uma comoção e agradecimento à homenagem prestada.

Faleceu em 22/4/1951 e deixou alguns livros publicados, além dos já citados: Preitos à Liberdade e A culpa dos pais. Em termos biográficos, encontramos apenas breves verbetes na Wikipedia, que serviram para costurar esta síntese, e o livro Mulheres em cena: as trajetórias de Ana Aurora e Malvina Tavares no limiar do século XX, de Carlos Dias, publicado pela Editora Primas, em 2016. Malvina Tavares foi uma destacada ativista política, contemporânea de Ana Aurora, que se encontra no radar deste Memorial.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Noel Rosa

Noel de Medeiros Rosa nasceu em 11/12/1910, no Rio de Janeiro, RJ. Compositor, cantor, violonista e um dos nomes mais destacados não apenas no samba, mas na história da música popular brasileira. Sua contribuição foi fundamental na legitimação do samba como ritmo genuinamente brasileiro. Em seu curto período de vida deixou mais de 250 músicas, muitas delas clássicas do cancioneiro popular.

Nascido de um parto complicado, que incluiu o uso de fórceps para salvar a vida da mãe e da criança. Além disso, tinha uma hipoplasia, com uma diminuição da mandíbula, que marcou sua feição dotando-o de uma fisionomia particular. Cresceu no bairro carioca de Vila Isabel, reduto de boêmios e sambistas tradicionais do Rio de Janeiro, oriundo de uma família de classe média. Estudou no tradicional Colégio de São Bento e dizem que, não obstante a inteligência, não era um aluno aplicado nos estudos.

Aprendeu a tocar bandolim de ouvido ainda adolescente e gostou da atenção que despertou nos ouvintes. Pouco depois passou ao violão e logo fazia parta das rodas de samba. Aos 21 anos entrou na Faculdade de Medicina, mas cedo se deu conta da inviabilidade do projeto de ser médico diante da vida de artista que se apresentava entre as noitadas regadas a cerveja. Aos 19 anos já era integrante do “Bando dos Tangarás”, ao lado de Braguinha, Almirante e Henrique Brito. Em 1929 compôs Minha viola e Festa no céu e no ano seguinte, aos 20 anos, surge o primeiro grande sucesso Com que roupa?, uma de suas clássicas composições,

No folclore musical surgiu uma história em que ele, em certa noite, queria sair com os amigos, mas sua mãe não deixou, escondendo suas roupas. Foi aí que perguntou: “Com que roupa eu vou?” Mas esta história foi desmentida por Almirante, seu parceiro e primeiro biógrafo. Ele atesta que os primeiros acordes da música eram muito parecidos aos do Hino Nacional. O problema foi detectado pelo maestro Homero Dornelas e Noel prontamente fez a modificação. O fato é que ele era um grande cronista e suas músicas eram um retrato da vida simples e cotidiana, que primam pelo humor e pela veia crítica. Orestes Barbosa chamava-o de “o Rei das letras”.

O cotidiano e o humor sempre estiveram nas letras de suas músicas, incluindo as “brigas”. Numa polêmica com seu rival Wilson Batista, os dois pelejaram em sambas. Os dois andaram enamorados de uma morena do “Dancing Apollo. Noel compôs o samba Rapaz folgado, detonando a empáfia de Lenço no pescoço, de Wilson. Este, quando ouviu o samba, deu o troco com Mocinho da Vila, aconselhando Noel a cuidar de seu microfone e deixar quem era malandro em paz e ao final orgulhava-se “modéstia à parte, eu sou rapaz (folgado?)”. Noel continuou a polêmica com Feitiço da Vila: “modéstia à parte, eu sou da Vila (Isabel)”. Em seguida, Wilson compõe Conversa fiada, questionando a superioridade do bairro. Noel retruca com o samba Palpite infeliz. Ao final da “briga”, os dois tornaram-se parceiros e amigos.

A vida boêmia nos bares da lapa era intensa e parece que começava cedo no café da manhã: Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada / Um pão bem quente com manteiga à beça… Essa Conversa de botequim é um dos seus maiores sucessos. Até agora já foi executada mais de 546 mil vezes na Spotfy e 1.3 milhão de vezes no Youtube. Ao longo da breve vida teve muitas namoradas e foi amante de outras já casadas. Aos 24 anos casou-se com Lindaura Martins, por quem tinha certo afeto, mas era apaixonado mesmo por Ceci, prostituta de um cabaré na Lapa. Essa paixão resultou no samba Dama do Cabaré, outro sucesso. Ele quis tirá-la da “vida fácil”, dar-lhe uma casa e uma vida tranquila como amante. Mas ela recusou a oferta; não queria ser uma “manteúda”; queria alguém que assumisse o casamento. Era uma mulher bonita, elegante e educada. Mas ele não pode encarar o escândalo social e na família, que não aceitaria o casamento com uma meretriz.

A vida boêmia segue o curso, às vezes interrompida com tratamentos contra a tuberculose que o consumia. Viajou diversas vezes para cidades montanhosas em função do clima e passou uma temporada em Belo Horizonte. De lá, escreveu ao seu médico, Dr. Graça Melo: “Já apresento melhoras/Pois levanto muito cedo/E deitar às nove horas/Para mim é um brinquedo/A injeção me tortura/E muito medo me mete/Mas minha temperatura/Não passa de trinta e sete/Creio que fiz muito mal/Em desprezar o cigarro/Pois não há material/Para o exame de escarro”.

De volta ao Rio, sentiu alguma melhora e parou com as medicações. Achou que estava curado, mas pouco depois adoeceu fortemente, não conseguindo mais se alimentar e nem levantar da cama. Faleceu repentinamente em 4/5/1937 aos 26 anos. Sua vida foi filmada e biografada diversas vezes. São filmes de curta, média e longa duração, com destaque para “Noel – Poeta da Vila” (2007), baseado na essencial biografia Noel Rosa: uma biografia (1990), de João Máximo e Carlos Didier. No teatro também foi retratado na peça O poeta da Vila e seus amores (1977), de Plínio Marcos e cenário de Flávio Império, inaugurando o Teatro do SESI, em São Paulo. Em 2010, centenário de seu nascimento, a Escola de Samba Unidos da Vila Isabel desfilou em sua homenagem com o samba Noel: a presença do “Poeta da Vila”, de Martinho da Vila. Em 2016 foi agraciado in memoriam com a “Ordem do Mérito Cultural do Brasil”, na classe de grão-mestre.

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AS BRASILEIRAS: Martha de Hollanda

Martha de Hollanda Cavalcanti nasceu em 20/3/1903, em Vitória de Santo Antão, PE. Escritora, jornalista, poeta e militante feminista, foi pioneira na luta pelo sufrágio feminino, em 1928. Fundou a Liga Feminista Brasileira, em 1931, e foi a primeira mulher eleitora e candidata a deputada em Pernambuco, em 1933.

Filha de Mathilde de Aragão Rabelo de Holanda e Nestor de Holanda Cavalcanti, tradicional família intelectual e política da cidade. Teve os primeiros estudos no Colégio Santa Margarida e Ginásio Pernambucano, no Recife. Casou-se com o jornalista e historiador José Teixeira de Albuquerque, em 1928, e estreou nas letras, em 1930, com o livro de poemas Delírio do nada, apresentado por Coelho Neto e Alberto de Oliveira.

O livro foi bem recebido pela Academia Brasileira de Letras e pela crítica brasileira e portuguesa e foi reeditado em 2024, pela editora Scortecci. Sobre a autora, dois livros de caráter biográfico foram publicados: em 1984, Martha de Hollanda: feminismo e feminilidade, um ensaio da historiadora Cristina Inojosa, publicado pelo Selo Editorial Mirada, e em 2003 foi lançado Uma guerreira no tempo: Resgate de um época, Martha de Hollanda e o delírio do nada – publicado por Luciene Freitas. Martha faleceu em 2/10/1948.

Martha faleceu em 2/10/1948 e era uma mulher diferenciada. Vestia-se de modo ousado, inventava moda, roupas extravagantes, penteados inusitados, cores fortes, decotes pouco comuns à época, roupas feitas em alfaiatarias e muita maquilagem. Algumas vezes, vestia-se como homem; transitava com um bem talhado paletó, gravata e bengala. Ainda jovem, bebia, fumava e era carnavalesca fanática. Costumava fazer o footing sozinha e frequentar cinema, teatro, sorveterias e casas de chá, o que não era comum às mulheres da época. Era conhecida por todos como uma mulher a frente de seu tempo.

Logo após a Revolução de 1930, surgem em Pernambuco duas organizações com a intenção de lutar pelos direitos femininos: a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, em 10/11/1931, dirigida por Edwiges de Sá Pereira e a Cruzada Feminista Brasileira, em 12/11/1931, liderada por Martha de Hollanda. Duas entidades criadas com a mesma intenção e quase no mesmo dia. Está visto que houve aí uma cisão de ideais entre as duas protagonistas. As duas tinham temperamento diferenciado, uma mais conciliadora e outra mais radical. Ambas foram analisadas num paper do XV Encontro Regional de História da ANPUH-Rio, em 23-27 de julho de 2012, intitulado Por uma igualdade emancipadora da mulher: Edwiges de Sá e Martha de Hollanda, feministas em luta pela cidadania política em Pernambuco dos anos de 1930, apresentado por Alcileide Cabral do Nascimento, à disposição na Internet.

Resumo do paper: “Esta apresentação tem como objetivo analisar os discursos de duas feministas pernambucanas, Edwiges de Sá Pereira e Martha de Hollanda, que problematizaram as diferenças entre os gêneros na esfera política nos anos de 1930. Em seus discursos, operam com a ideia de uma biologia que informa o que é ser feminino e masculino. Questionam a dimensão subjetiva da mulher como ser frágil, débil e intelectualmente inferior. Ao recusar a fatalidade do destino feminino ao mundo privado, evocam nas suas práticas discursivas o espaço público na ampla acepção de direito à palavra, a uma educação emancipadora e à esfera das decisões políticas. Investem na imprensa escrita e falada. Revistas, jornais e rádios são os territórios simbólicos onde reinventam práticas de liberdade, de inserção no mundo público. Entre o riso e a dor de ser, ousaram e sonharam por um mundo mais justo para as mulheres”.

 

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OS BRASILEIROS: Tom Jobim

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu no Rio de Janeiro, RJ. em 25/1/1927. Músico destacado como compositor, pianista, violonista, flautista, arranjador e cantor. Conhecido como o “Pai da Bossa Nova”, criou uma nova sonoridade musical e tornou a música popular brasileira reconhecida no mundo.

Filho de Nilza Brasileiro de Almeida e Jorge de Oliveira Jobim, diplomata, escritor e jornalista oriundo de uma família proeminente e a mãe parcialmente descendente de indígenas do Nordeste. Aos 8 anos perdeu o pai e a mãe casou-se com Celso da Frota Pessoa, que incentivou a carreira musical do garoto, presenteando-o com um piano. “Eu odiava piano, achava coisa de menina, gostava de jogar futebol… Tive um ótimo padrasto que me ajudou muito a me envolver com a música e me convenceu de que piano não era coisa de menina”.

Passou a tocar piano em bares e boates do Rio de Janeiro na década de 1940 e na década seguinte foi arranjador do Estúdio Continental, onde gravou sua primeira música – Incerteza – em 1953, cantada por Mauricy Moura com letra de Newton Mendonça. Em seguida, junto com Vinicius de Moraes, compôs a música da peça Orfeu da Conceição, em 1956. A parceria com Vinicius lhe proporcionou algum destaque com a música Se todos fossem igual a você, a mais popular da peça. Pouco depois, a peça foi adaptada para o cinema, e a dupla foi convocada para fazer a trilha sonora do filme Orfeu Negro. Vinicius vivia em Montevideo como diplomata e fizeram três músicas mais por telefone: A felicidade, Frevo e O nosso amor. A partir daí, Vinicius escreveu as letras de algumas das suas canções mais conhecidas.

Em 1958 João Gilberto gravou seu primeiro álbum com duas de suas canções mais famosas: Desafinado e Chega de saudade. O álbum inaugurou o movimento musical brasileiro Bossa Nova. A sofisticação das harmonias chamaram a atenção de músicos de jazz nos Estados Unidos, principalmente após sua primeira apresentação no Carnegie Hall, em 1962. Sua obra vem sendo executada por muitos cantores e instrumentistas internacionais desde a década de 1960. Em 1965, o álbum Getz/Gilberto foi o primeiro disco de jazz a ganhar o prêmio Grammy de Álbum do Ano. O single do álbum Garota de Ipanema (em parceria com Vinicius de Moraes), tornou-se uma das canções mais gravadas de todos os tempos. Teve mais de 200 gravações por outros intérpretes.

Seu álbum de 1967 com Frank Sinatra – Francis Albert Sinatra e Antônio Carlos Jobim – foi indicado para o prêmio Álbum do Ano em 1968. Em Levantamento do ECAD, em 2022, consta que ele tem 8 das 15 músicas brasileiras mais regravadas na história. Sobre a criação musical, ele considera que “é preciso algo de grande influência para levar alguém a dedicar sua vida à música… as pessoas que tocam piano bem são todas deficientes”… É preciso algo muito forte para fazer você deixar a realidade para trás e começar a compor”. Estava se referindo a perda de seu pai quando ainda era uma criança.

Suas influências musicais são diversas e variadas. Inicia com Pixinguinha, pioneiro da música moderna brasileira e passa por Koellreuter, que introduziu no País a composição atonal e dodecafônica e conheceu-o quando foi aprender piano. Foi influenciado também pelos compositores Claude Debussy, Maurice Ravel, Ary Barroso e Heitor Villa-Lobos, sua influência musical mais importante. Quanto a inspiração ele mesmo já declarou: “Minha música vem deste ambiente aqui, você sabe, a chuva, o sol, as árvores, os pássaros”. Era frequentador habitual do Jardim Botânico.

Sua fama foi ampliada após a participação com Stan Getz e João Gilberto, que resultou em dois álbuns: Getz/Gilberto, vol 1 (1963) e vol. 2 (1964), tornando a bossa nova popular nos EUA e se espalhou pelo mundo. Os discos viraram sucesso internacional, tendo Astrud Gilberto como intérprete de Garota de Ipanema e Corcovado. Ganharam o Prêmio Grammy de Álbum do Ano 1965 e Garota de Ipanema ganhou o Prêmio Grammy de Gravação do Ano. Em 1972 a música Águas de março também foi um grande sucesso. Foi gravada em português e inglês e em seguida traduzida também para o francês (Les eaux de mars) por Georges Moustaki.

Outro sucesso ocorrido nos EUA se deu com a parceria de Elis Regina no álbum Elis & Tom em meados de década de 1970. A dupla criou uma simbiose perfeita representada na letra de Águas de março simulando uma brincadeira de terminar a frase um do outro. Em 1994, após concluir o álbum Antônio Brasileiro, queixou-se ao seu médico de problemas urinários. Foi submetido a uma cirurgia, em Nova Iorque, em 2/12/1994, e enquanto se recuperava teve uma parada cardíaca, vindo a falecer em 8/12/1994. O álbum foi lançado postumamente três dias após sua morte. Em 2008 seu amigo Sergio Cabral tratou de imortalizá-lo numa bela biografia e lançou Antônio Carlos Jobim – Uma Biografia, publicada pela IBEP Nacional.

O legado de Tom Jobim na música brasileira é enorme. Internacionalizou a bossa nova e muitas de suas canções se tornaram padrões de jazz, através de Frank Sinatra e Ella Fitzgerald com os álbuns Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (1967) e Ella abraça Jobim (1981). O álbum Wave de 1996: The Antonio Carlos Jobim Songbook incluiu apresentações de suas músicas através de Oscar Peterson, Herbie Hancock, Chick Corea e Toots Thielemans. Em 2001 foi criado o Instituto Antonio Carlos Jobim para preservar e divulgar sua obra musical e poética, bem como seu cuidado com a natureza. Além disso, realiza a catalogação, conservação e digitalização do acervo de muitos de seus amigos, como Dorival Caymmi, Chico Buarque, Gilberto Gil, Paulo Moura, Milton Nascimento entre outros

Recebeu diversas homenagens, tais como seu nome dado ao Aeroporto Internacional do Galeão, em 1999; ganhou o Lifetime Achievement Award, no 54º Grammy Awards, em 2012; entrou para o Hall da Fama dos Compositores Latinos, em 2014; foi nomeado pelo “Billboard” como um dos 30 artistas latinos mais influentes de todos os tempos, em 2015; no mesmo ano a União Astronômica Internacional deu seu nome a uma cratera no planeta Mercúrio e no ano seguinte tronou-se o mascote oficial das Paraolimpíadas de Verão de 2016, no Rio de Janeiro.

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AS BRASILEIRAS: Ecléa Bosi

Ecléa Frederico Bosi nasceu em São Paulo, SP em 14/10/1936. Psicóloga social, professora, escritora, tradutora e pioneira nos estudos sobre a memória social das classes trabalhadoras. Foi professora titular e emérita da Faculdade de Psicologia da USP, focada na área da psicologia social de fenômenos histórico-culturais.

Graduou-se no curso de Psicologia da USP em 1966 e obteve seu mestrado em 1970, dissertando sobre o tema “Leitura de imagem: um estudo de semiologia”. Em seguida obteve o doutoramento em psicologia social com a tese “Leituras de Operários: estudo de um grupo de trabalhadores em São Paulo”. Passou a lecionar na USP, onde tornou-se livre docente em 1982. Publicou seu primeiro livro – Cultura de massa e cultura popular: leituras de operárias –, pela Editora Vozes, em 1972. O livro recebeu menção honrosa do Pen Clube do Brasil.

Em 1961 casou-se com o prof. Alfredo Bosi, membro da Academia Brasileira de Letras e historiador de literatura brasileira. É mãe de Viviane Bosi, professora de teoria literária e José Alfredo Bosi, professor de economia, Manteve a carreira acadêmica numa militância pela causa dos idosos, resumida na sua frase: “O velho não tem armas. Nós é que temos de lutar por ele”. Dedicou-se à uma área pouco estudada em termos acadêmicos, o que pode se confirmar através de seus livros: Memória e sociedade: lembranças de velhos, lançado pela Companhia das Letras, em 1994.

Trata-se do livro que escreveu com maior empenho e foi recompensada com sua inclusão numa lista do MEC de 100 obras distribuídas para milhares de bibliotecas escolares do País. Esta temática foi aprofundada resultando na edição de mais livros, como O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social, pela Ateliê Editorial, em 1998 e Velhos amigos, pela Companhia das Letras, em 2003. Em 1994, através de uma de suas iniciativas, a Universidade de São Paulo passou a acolher maiores de 60 anos em cursos regulares no programa Universidade Aberta à Terceira Idade, conhecido agora como USP 60+ funcionando nos campi da capital e do interior de São Paulo.

Foi homenageada na edição nº 1 (2008) da revista “Psicologia USP”, dedicada exclusivamente a ela e no ano seguinte recebeu o “Prêmio Ars Latina” pelo conjunto da obra. Em 2011 foi agraciada com o ”Prêmio Averroes”, dedicado a personalidades com trajetórias de pioneirismo e generosidade no compartilhamento de conhecimento em diversas áreas. No mesmo ano recebeu também o “Troféu Loba Romana”, da comunidade italiana no Brasil, em reconhecimento à sua contribuição cultural, destacando-se por sua herança e conexão com esta comunidade no Brasil. A premiação ocorreu numa cerimônia ocorrida na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Além da militância na vida acadêmica, teve atuação destacada no movimento ecológico, participando da criação do Parque Ecológico Chico Mendes, na Vila Curuça em São Paulo. Criou também os EcoEncontros da USP, travou uma luta ferrenha através da imprensa contra a construção de Angra 3 e formulou os “10 mandamentos da Ecologia”. Faleceu em 10/7/2017 em plena atividade na coordenação do “Laboratório de Memória e História Oral Simone Weil”, uma unidade de pesquisa do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP).

O estilo literário de suas reflexões tem uma singularidade que além de expressar o vigor de sua prosa em tom suave, delicado, que ajuda a dotar as narrativas de uma particular dimensão literária. Relatos de pesquisa empírica e ensaios teóricos ganham muitas vezes corpo de bela prosa poética.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Sargento Max Wolff

Max Wolff Filho nasceu em 29/7/1/1911, em Rio Negro, PR. Militar integrante da FEB-Força Expedicionária Brasileira durante a II Guerra Mundial, que o reconheceu como o maior herói pelo seu desempenho em campo de batalha na região de Montese, Itália.

Filho de Etelvina e Max Wolff, teve os primeiros estudos em Rio Negro, conviveu com as tensões da Guerra do Contestado, a I Guerra Mundial e trabalhou desde criança em diversas atividades. Serviu ao Exército no 15º batalhão de Curitiba e combateu na Revolução de 1932, no Vale do Paraíba. Foi professor de educação física e defesa pessoal. Integrou a Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde chegou 3º sargento e atuou como Comandante da Polícia de Vigilância.

Aos 33 anos, apresentou-se voluntariamente para lutar na II Guerra Mundial, quando ingressou na 1ª Cia. do 11º Regimento de Infantaria, em São João Del Rey, MG. Na FEB, ocupou o posto de 3º Sargento e, devido a sua coragem e modo de procedimento, passou a ser admirado pelos colegas, bem como por seus superiores no V Exército de Campanha. Participou de todas as ações de seu Batalhão no ataque ao Monte Castelo, levando munição à frente de batalha e retornando com feridos e mortos.

Numa destas batalhas, foi designado para resgatar o corpo do Capitão João Teixeira Bueno, auxiliar do General Zenóbio da Costa. Era uma missão difícil, mas o Sargento não titubeou: “Coronel, por favor, diga ao general que, desde o escurecer, este padioleiro e eu estamos indo e voltando às posições inimigas para trazer os nossos companheiros feridos. Faremos isto até que a luz do dia nos impeça de fazer. Se numa dessas viagens, encontrarmos o corpo do Capitão Bueno, nós o traremos também”. Não encontrou o corpo do capitão Bueno que, apenas ferido, havia sido resgatado por outro soldado, mas ainda lhe foi possível salvar muitas outras vidas.

Em 12/4/1945 seu pelotão de choque avançou nos planos concebidos para a conquista de Montese. Em dado momento, achando que os inimigos recuaram, avançou em direção ao topo da elevação. Enquanto isso, os inimigos deixaram que o pelotão se aproximasse até quando não podiam mais errar, Uma rajada de balas atingiu o sargento no peito. Ao cair recebeu mais tiros junto com seu pelotão, dando fim ao embate, restando alguns poucos soldados salvos do confronto.

Mais tarde, Montese foi conquistada e seu nome ficou gravado na mente dos companheiros como herói. Foi agraciado pelo Exército com 4 medalhas: de Campanha; Sangue do Brasil; Bronze Star (americana) e Cruz de Combate de 1ª Classe. Seus restos mortais jazem no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro e recebeu o epiteto de “Rei dos Patrulheiros”. A Escola de Sargento das Armas (ESA), em Três Corações, MG, leva seu nome e o tem patrono, ergueu um monumento ao seu pelotão, com os soldados em tamanho natural dispostos no jardim da Escola.

Em 2010, foi criada a medalha Sargento Max Wolff Filho, pelo Decreto nº 7118. A medalha é uma condecoração do Exército Brasileiro conferida a subtenentes e sargentos em reconhecimento à dedicação e interesse pelo aprimoramento profissional que tenham se destacado no seu desempenho profissional, evidenciando características e atitudes inerentes ao Sargento Max Wolff Filho. Em São Paulo, uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI), no Jardim Belém, recebeu seu nome; em Curitiba o 20º Batalhão de Infantaria Blindado passou a ser denominado “Batalhão Sargento Max Wolff Filho”

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Iara Iavelberg

Iara Iavelberg nasceu em 7/5/1944, em São Paulo. Psicóloga, professora e militante da Organização Revolucionária Marxista Política (POLOP) do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organizações de oposição armada em combate a ditadura militar instalada no governo do Brasil em 1964.

Filha de Eva e David Iavelberg, tradicional família judia paulistana, teve os primeiros estudos em São Paulo e ingressou na Faculdade de Psicologia da USP em 1964. Casou-se muito cedo, aos 16 anos, com um médico, mas logo separou-se e passou a participar da militância política. Neste ambiente manteve diversos relacionamentos amorosos, pois era bonita e virou musa da juventude estudantil paulista. O líder estudantil José Dirceu foi um de seus namorados. Vaidosa, era capaz de sair de um “aparelho”, enquanto vivia na clandestinidade, para cortar os cabelos nos melhores salões de Ipanema.

Em 1969, atuando no MR-8, conheceu Carlos Lamarca pouco depois que ele desertou do exército. Foi uma paixão fulminante e o casal era um dos mais procurados na época. Suas fotos, com a legenda “Procura-se”, logo foram fixadas em diversos locais do País. Foram viver juntos e passaram 10 meses escondidos em diversos “aparelhos”. Uma de suas amigas, que testemunhou este relacionamento, foi a guerrilheira “Vanda’, da VPR, codinome de Dilma Roussef, futura presidente do Brasil.

No ano seguinte, teve início o treinamento militar no Vale do Ribeira, onde ela deu aulas teóricas de marxismo aos guerrilheiros. No mesmo ano, em 7 de dezembro, Lamarca liderou o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, no Rio de Janeiro, em troca da libertação de 70 presos políticos. Em princípios de 1971, boa parte das organizações de esquerda já estava desarticulada e semidestruída, e o que restou da VPR juntou-se ao MR-8. Na nova organização, Iara, mais preparada intelectualmente, teve um cargo de cúpula, e Lamarca foi rebaixado a militante de base enviado para o interior da Bahia, enquanto ela deveria se estabelecer em Salvador.

A mudança do local de atuação se deu em junho de 1971 e ela passou a viver num apartamento junto do militante Félix Escobar Sobrinho, 20 anos mais velho que ela, para que se passassem por pai e filha. Por esta época houve uma troca de correspondência ente ambos, onde Lamarca demonstrava seu profundo amor e ela recomendava-lhe pulso firme com seus companheiros para que fosse mais respeitado. Foi a partir destas cartas. encontradas pelas forças de segurança do Estado, que ela foi localizada no bairro da Pituba, conforme citado no relatório da “Operação Pajuçara”, da polícia.

A operação montada em 19 de agosto, afim de “estourar” o apartamento foi comandada pelo DOI-CODI de Salvador e executada no dia seguinte. Segundo a versão oficial ela foi morta em 20/8/1971, conforme relato da operação: “no dia 19/08/1971 foi montada uma operação pelo CODI/06 para estourar este aparelho (…). Iara Iavelberg, a fim de evitar sua prisão e sofrendo a ação dos gases lacrimogêneos, suicidou-se”. A família não aceitou esta versão da história e travou uma longa batalha para esclarecer o que realmente aconteceu.

Além de diversos impedimentos colocados pelas autoridades para evitar a exumação do corpo, a Sociedade Chevra Kadisha, responsável pelo Cemitério Israelita do Butantã, dificultou ao máximo a exumação. Finalmente, em 2003, o corpo foi exumado sob a responsabilidade do Dr. Daniel Romero Muñoz, confirmando que Iara foi assassinada: “a descrição do laudo necroscópico oficial não é compatível com suicídio” Em 1992 foi publicado o livro Iara: reportagem biográfica, de Judith Lieblich Patarrra, pela Editora Rosa dos Tempos e em 2014 foi realizado o filme-documentário “Em busca de Iara”, produzido por sua sobrinha Mariana Pamplona e dirigido por Flavio Frederico, relatando toda a trajetória de Iara e os problemas encontrados por sua família para elucidar o caso.

Iara Iavelberg foi homenageada com seu nome dado a uma praça no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro e aos centros acadêmicos de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora e Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo-USP, onde ela estudou e tornou-se psicóloga.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Joaquim Cardozo

Joaquim Maria Moreira Cardozo nasceu em Recife, PE em 26/81897. Engenheiro, arquiteto, professor, contista, poeta, dramaturgo, caricaturista, crítico de arte, tradutor, editor e poliglota com domínio de diversos idiomas. Conhecido como “Poeta dos Cálculos”, foi o calculista do arquiteto Oscar Niemayer na edificação de alguns cartões-portais de Brasília, como o Palácio da Alvorada, Catedral Metropolitana, Congresso Nacional, Palácios do Planalto e do Itamarati, além do conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte.

Filho de Elvira Moreira Cardoso e do bibliotecário José Cardoso, teve os primeiros estudos no Ginásio Pernambucano. Aos 16 anos editou o jornal “O Arrabalde”, junto com os amigos, onde estreou na literatura, com o conto Astronomia alegre. Aos 17, publicou os primeiros trabalhos como caricaturista e chargista nos jornais Diário de Tarde e Diário de Pernambuco. Aos 18, ingressou na Escola Livre de Engenharia, interrompida várias vezes, devido a dificuldades econômicas. O curso foi concluído em 1930, aos 33 anos.

Tomou gosto pela docência e foi professor da escola onde se formou. Pouco depois tonou-se um dos fundadores da Escola de Belas Artes de Pernambuco, em 1932. Além da docência, incorporou-se à equipe do arquiteto Luiz Nunes, com a função de organizar a Diretoria de Arquitetura e Construção, da Prefeitura do Recife, em 1934, primeira instituição governamental do Brasil, para cuidar dessa área. Em 1940 mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a trabalhar no SPHAN-Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com o arquiteto Lúcio Costa, o paisagista Burle Marx e o advogado Rodrigo de Melo Franco. No período 1943-1954 trabalhou com Oscar Niemeyer, fazendo os cálculos estruturais do conjunto da Pampulha. Pouco depois projetou as principais edificações de Brasília.

Revolucionou a concepção estrutural do concreto armado com seus métodos de cálculo, contribuindo para a renovação da arquitetura mundial. Para Niemeyer, ele era “o brasileiro mais culto que existia”. Suas hipóteses de cálculo permitiram que as bases dos principais palácios de Brasília apenas toquem o solo como agulhas. Trata-se de um feito considerável, levando-se em conta a resistência do concreto à época, bem menor do que atualmente e pode ser melhor visto no projeto da Catedral Metropolitana.

Sobre a relação da poesia com a arquitetura, declarou: “Não visualizo qualquer incompatibilidade entre poesia e a arquitetura. As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias. Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia”. Suas primeiras poesias foram publicadas em 1924, porém o primeiro livro – Poemas – só foi lançado em 1947, devido ao incentivo dos amigos Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. O livro foi prefaciado por Carlos Drummond de Andrade. Ou seja, sempre esteve em boa companhia.

Sua poesia mescla traços líricos numa dimensão moderna, sem abraçar o modernismo em sua totalidade. Ao todo publicou 11 livros de poesia, destacando-se: A Tarde Sobe, Alucinação em Branco, Espumas do Mar, Imagens do Nordeste, Menina e Tarde no Recife. Ele costumava dizer que “eu não sou bem um poeta. Minha vida é que é cheia de hiatos de poesia”. Em 1975 foi eleito para ocupar a cadeira 39 da Academia Pernambucana de Letras e tomou posse em 1977, pouco antes de seu falecimento em 4/11/1978. Ao todo foram publicou 11 livros, sendo o último publicado postumamente: Canções Sombrias. Na imprensa, colaborou com o Diário de Pernambuco como chargista; dirigiu a Revista do Norte e participou das revistas do SPAHN, Para Todos e Módulo.

Seus trabalhos contribuíram efetivamente para a construção de uma Teoria da Arquitetura, firmada quando passou a ser o catedrático responsável pela cadeira de “Teoria e Filosofia da Arquitetura” na antiga Escola de Belas Artes de Pernambuco, extinta em 1976, dando origem ao atual Centro de Artes e Comunicações- CAC da UFPE. Costumava dizer que “Os muros das construções são o papel onde se inscreveram as páginas da história, onde ainda se inscrevem as mensagens para o futuro. E escrever estas mensagens, cabe ao arquiteto”.

Não obstante seu talento, sua vida ficou marcada por uma tragédia profissional. Em 1971, o Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, desabou no fim da construção, matando 69 operários, e ferindo outros 100. A obra era assinada por Niemeyer e ele. A perícia detectou que o erro não foi no cálculo, e sim na execução da obra por parte da empreiteira. Mesmo absolvido, ficou extremamente abalado depois do acidente, encerrou sua carreira de calculista e entrou em depressão.