JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PAZ

(Ser estoico na Lei de Jante)

Coisas que me trazem paz
E que eu não posso esquecer:
Não sou melhor que ninguém
Pior também não vou ser
E tudo que eu aprendi
Se resume nisso aqui:
Sei que um dia vou morrer.

Mas, não paro de aprender
Que nesta minha jornada,
Nada sei e nada tenho
Mesmo assim sigo a estrada
Buscando a felicidade
Ciente em simplicidade
Por saber que sou um nada.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

SEVERINO DAS PORTEIRAS

A coisa marchou para o brejo faz anos!

Um cabra como eu, na janela do tempo observando a metade da minha vida completada, embora vivendo literalmente os nove minutos de acréscimos do primeiro tempo, com a maturidade lá em cima e já dando mostras de querer despencar, não consigo mais assistir um jornal televisivo. É crise, é violência, é corrupção… e se o bicho for mostrado de trás para frente, dá a mesma coisa. Periga até o sujeito, em meia hora de telespectador, arrumar uma depressão para o resto da vida. No meu caso, para o segundo tempo que começará em vinte e dois de fevereiro.

Nisso eu prefiro ficar pensando no povo bom do meu lugar. Um tipo Seu Severino das Porteiras – mestre nas passagens lhe emprestando o epíteto depois do nome próprio, substituindo inclusive o seu sobrenome de batismo – sendo cabra de pouca paciência, encarnando o melhor do tipo “paciência zero para perguntas bestas”.

Sertanejo alto, magro, amorenado, se foi como um octagenário de olhos acastanhados, limitado no andar, mas voava nas lembranças, na inteligência e na lucidez.

Outrora morador nas terras do Cardeiro, então propriedade do Saudoso Dr. Bezerra, naqueles dias de poucas expectativas Severino acertou de ficar ordenhando também em um sítio vizinho, para tratar um gado pouco e ganhar mais uns trocados.

Daí, um dia o patrão soube da dupla jornada e foi ter com ele para conhecer melhor como era aquilo.

Foi se aproximando de Severino e tacou-lhe e a pergunta:

– Ô Severino, você ‘tá tirando leite em Zé Braz?

– Não, doutor – respondeu em cima da bucha o velho Severino. E completou sem olhar sequer para o patrão: – Nas vacas! Pois, Zé Braz é homem e eu não tiro leite de macho.

Respondeu certinho, foi não?

Já outro dia Severino estava sentado num tronco velho, a parede da frente de sua casa servindo-lhe de espaldar e a ponta desgastada do cabo de vassoura lhe servindo de bengala sendo uma baqueta batendo no espinhaço do chão à sua frente, quando um carrão parou quase sobre os seus pés. Ao volante estava Jurema Lamartine, cordialmente lhe cumprimentando com um sonoro bom dia, naquela voz de besouro que ela tinha; voz grossa, pausada, altamente burocrática pelos cargos que ocupara durante toda sua vida profissional, desde quando a Capital Federal se avizinhava ao Maracanã.

Respondido o cumprimento, ela desceu do veículo e educadamente apertou-lhe a mão se apresentando pelo nome. Depois começou a falar de forma bem explicada, recheada da pompa que sempre lhe foi peculiar, o queixo em meneios apontando para cima e o rosto toda vida muito sério:

– Senhor Severino, eu fiquei muito tempo morando fora e agora voltei. Intenciono residir novamente por aqui e estou sabendo que o senhor é o melhor mestre em porteiras de Acary. Vim lhe encomendar uma para a minha propriedade.

– Pois não – limitou-se em responder Severino.

– Quero saber os preços – questionou Jurema.

– Diga aí as medidas, dona – quis saber o mestre, enquanto socava uma das bengalas no chão de terra batida, entre os dois pés.

– Três metros e meio de cumprimento, por um metro e sessenta de altura – respondeu Jurema franzindo a boca depois.

Severino olhou para o alto fazendo contas de cabeça. É cabra bom na Matemática mais simples. Quando encarou a possível cliente, trazia o valor na ponta da língua.

– Dá para fazer por mile e quinhentos cruzados.

Jurema pensou no valor, comparou com o salário mínimo e indagou:

– Com a madeira do senhor?

– Não! – respondeu Severino demonstrando impaciência. E completou:

– Com a minha madeira de jeito nenhum, dona – disse de forma aborrecida.

– Ela é pequena, fina, roliça e oca no meio. Num segura prego, nem parafuso – finalizou.

Daí que eu não sei se fecharam negócio. Esqueci de lhe perguntar.

Doutra feita Severino passava pela Praça do Coreto e ouviu o seguinte diálogo de “duas donas”, como ele costuma chamar senhoras de certa idade.

– Vai viajar, mulher? – perguntou a primeira.

– Vou – respondeu secamente a segunda.

– E vai só a passeio? – quis saber a outra.

– Não. Vou botar uma chapa em Natal.

Foi aí que Severino, parou, virou-se com a dificuldade imposta por seus joelhos e entrou na conversa.

– A senhora deve ser muito rica – ponderou com sua voz arrastada.

– Vai colocar uma chapa em Natal. Em Natal! Fico só imaginando o tamanho desses dentes – finalizou.

E saiu se equilibrando sobre as duas madeiras lhe servindo de bengalas.

– Ô, seu Severino, esse ano dá chuva?

– Se não der das nuvens, de ano é que num dá, hum-rum!

E quando não foi melhor sorrir do que chorar?

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O NOSSO PRIMEIRO CHÃO

O nosso primeiro chão é a referência para o norte que tomaremos na vida. Nosso lugar nos guia.

Nossas raízes são fortemente fincadas nele. Mas, ganham solos além da terra onde fomos plantados e que nos viu nascer; porque depois que nossos galhos se expandem para sombrear outros horizontes, essas raízes acompanham a copa dos nossos sentimentos, no entanto, sem se desvencilharem de onde nossas sementes foram lançadas.

E nossas copas respiram ares outros, além daquele que esfriou o nosso primeiro choro – talvez berro de satisfação – pouco antes dos nossos olhos se abrirem para a contemplação do mundo que primeiro nos recebeu.

Maravilhoso é quando esse nosso berro foi um grito no Sertão de onde sou.

E ser sertanejo não é destino. É dádiva divina. Presente de Deus.

Quanta honra!

Não importando onde chegamos, com quem estamos, ou o que consumimos, é o primeiro chão em nossa memória que alivia qualquer dor, ou ansiedade da alma.

É a lembrança do nosso lugar que traz sorriso, para o lugar do choro; renovando sempre a esperança e nos aliviando o espírito.

Nós não somos simplesmente do Sertão. O Sertão está em nós, porque foi do filamento de sua água com seu barro que Deus nos formou, quando éramos somente um projeto de gente. Essa convicção é o nosso alimento diário.

E isso nos acompanha pela vida de uma forma que as palavras, por mais que sejam, jamais explicarão.

Só quem vive o sentimento disso tudo, em relação ao seu primeiro chão, pode saber do que eu falo.

Quem tem o Sertão em si. Como eu tenho.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

GLOSAS

Duas glosas deste colunista com o mote de Otacílio Batista:

O peido que a doida deu
Quase não cabe no cu.

Disseram que não fedeu
Mas foi um ronco arretado
Como um trovão demorado
O PEIDO QUE A DOIDA DEU.
O que a danada comeu?
Um pirão de cururu
Com farofa de urubu
Mais dez gotas de limão
Foi um tiro de canhão
QUASE NÃO CABE NO CU.

Assustou rico e plebeu
Do Brasil ao estrangeiro
Ao redor do mundo inteiro
O PEIDO QUE A DOIDA DEU.
Kandahar se estremeceu
Fez tremer toda Kabul
Nas ruas de Istambul
Culparam os americanos
Foi um peido pra mil “ânus”
QUASE NÃO CABE NO CU.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DUAS GLOSAS

O poeta Geraldo Amâncio, cearense do Cedro, cantou sobre o saudade de sua mocidade criando de improviso os seguintes versos:

Olho a tela do tempo e me torturo
Vejo o filme do meu inconsciente,
Meu passado maior que o meu presente
Meu presente menor que o meu futuro.
Se a velhice é doença eu não me curo,
Que os três males que atacam um ancião:
São carência, desprezo e solidão,
E é difícil escapar dessa trindade;
Se eu pudesse comprava a mocidade
Nem que fosse pagando à prestação.

Este colunista, potiguar e acariense do Seridó, inspirado nos versos do inigualável Geraldo, também falei de minha saudade, nos dez versos que seguem:

Algo grande aperta esse meu peito
Vai fechando a porteira da garganta
Minha voz quer sair, a dor é tanta
Que a fala não sai de nenhum jeito.
Sob o sol do silêncio eu me deito
Esse algo aumenta a sensação
De mudez, de fraqueza e de prisão
Lá num tempo onde tudo é só saudade
Se eu pudesse comprava a mocidade
Nem que fosse pagando à prestação.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PASSADAS DO TEMPO

Vejo as pernas do tempo correndo apressadas
Não esperam por nada, nem cansam jamais,
São velozes, constantes, não correm p’ra trás,
Estão firmes, perfeitas, em suas passadas.

Maratonas eternas de muitas chegadas
Cada dia parece que até correm mais
Não se sabe ao certo os destinos finais
É chegando e partindo em outras largadas.

Do segundo seguinte também não se sabe
Ou aonde o tempo pretende chegar
Só sabemos que tudo possui seu favor.

Mas, bem antes que o tempo com o tempo acabe
Necessário se faz que possamos sonhar
E vivamos – sem pressa! – o bom do amor.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PRAÇA CLARICE LISPECTOR

Praça com manhã agitada.

O senhor grisalho que vende flores está fazendo ótimos negócios. Já o vi despachando vários clientes. Eu sinto, daqui de onde estou sentado, o aroma agradável de suas flores naturais. Elas são coloridas e de diversas formas.

Um ceguinho hoje resolveu parar na praça, viola na mão, Mílton Nascimento na voz, sentimentos puros no coração. Os olhos por trás dos óculos pretos não conseguem enxergar o dia lindo. “Todo artista tem que ir aonde o povo está”, canta o cego sem importar-se com o tilintar das moedas jogadas pelos transeuntes. Até o senhor das flores veio lhe deixar algum dinheiro.

Mais à frente do cego, um grupo de homens joga dominó sobre a mesa de pedra.

Noutro canto há o jogo de gamão bem disputado por dois senhores. As damas são mexidas mais à direita, por taxistas observados por alguns companheiros.

Um cão dorme sob a proteção do banco de granito. A sombra caminha devagar para sair dele.

Alguns pombos voam e voltam. Uns vão, outros vêm…

Uma folha seca cai da castanhola e segue levada pelo vento, em parábolas abstrusas, indo descansar ao lado do cão.

Acaso.

Ainda imitando a voz de Mílton Nascimento, o cego parece fazer um juramento através dos versos “se eu morrer primeiro, tu me prometes sobre o meu peito inerte deixar cair todo pranto que mostra tua tristeza. Para que todos saibam do teu querer”.

Eu me levantei. Estiquei braços e costas. Pretendo caminhar em círculos pela praça. Seguirei em linha reta na vida sabendo de mim tanto, quanto o cão sabe da sombra e da companhia da folha seca.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

SER TÃO SAUDADE

O poeta Marcílio Pá Seca Siqueira me enviou por Whatsapp:

Ao chegar bem em frente da porteira
A saudade renasce o olho chora
O meu peito batendo acelerado
O meu corpo procura uma escora
Relembrando o garoto sertanejo
Que deixou o sertão e foi embora

Eu lhe respondi pelo mesmo meio:

Quem deixou o Sertão e foi embora
Mas deixou o umbigo num mourão
Pode até enricar em outras terras
Mas jamais terá paz no coração
Vai viver de saudade em saudade
De lembrar e chorar pelo seu chão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UMA GLOSA

Mote:

Eu quero viver morando
Dentro duma loca dessa

Já estou me governando
Já faço a minha vontade
Isolado da cidade
EU QUERO VIVER MORANDO
Quero logo ir me mudando
Sem demorar, tenho pressa
Pois minha vontade expressa
Um tanto quanto esquisita
É viver como eremita
DENTRO DUMA LOCA DESSA.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O ARROTO

Há coisas que são tão imorais que jamais deveriam subir das resenhas de mesas de bar, para as páginas de um livro. No entanto, muitas vezes, tais coisas são tão engraçadas que não devem jamais serem promovidas somente entre os copos de bebidas alcóolicas e os petiscos, à mesa de um bar.

Pois bem…

O coveiro daquela pequena cidade do interior nordestino tanto sentia prazer em enfiar a pá na terra, quanto em sentir um par de testículos batendo-lhe por trás.

Homenzarrão, forte, branco, de pouquíssimo estudo, de raríssimas venhas no trato, comilão e beberrão… e era quando bebia muito mais que comia, que baixava nele aquele desejo estranho de sentar na pá e se transformar em cova humana. Um homem feito todo em um único buraco.

Escolhia alguém e o chamava sempre com a mesma cantada: “se você for corajoso e quiser enterrar seu vivo em minha cova, já ‘tou pronto!”, dizia entre o sorriso amarelado de dois dentes superiores lhe faltando na frente.

Poucos vestiam a mortalha para essa coragem. Mas, de vez em quando, alguém se arriscava em troca de umas pás de alguns tostões.

O vaqueiro tinha chegado à fazenda não fazia uma semana. Mas, no dia da feira da cidade – assim como todos os outros funcionários do patrão – como era tradição, foi se divertir após as primeiras tarefas serem muito cedo cumpridas: a ordenha, a separação do gado, o encurralamento e outras obrigações; soltou o cavalo no curral de pasto, despiu-se dos trajes de couro, as perneiras, guarda-peito e gibão, pendurando tudo em tornos de madeira fixados na parede mal rebocada do alpendre do armazém ao lado do curral. Seguiu com as botas e o chapéu de couro, combinados com um conjunto surrado de mescla azulada. Subiu assim na carroceria do velho “Fê-Nê-Mê” com outros empregados da fazenda.

Fez a viagem toda com o rosto voltado para o que ia se distanciando. Ficou calado o tempo inteiro, olhando a caatinga ficando para trás, entre a poeira levantada pelo caminhão. Não participou de conversa alguma, mantida sob as falas gritadas sobre o barulho do motor do carro. Era homem sisudo, de poucas palavras, de difícil convívio até.

Levou pouco dinheiro no bolso. Poucos dias haviam sido trabalhados.

Mas o quê o coveiro do início de minha narrativa, tem a ver com o vaqueiro?

Bom. Na cidade, sem muita noção de espaço e organização social, o segundo deu de achar justamente o primeiro já meio embriagado, sentado à entrada do bar do centro. No coreto da pracinha principal.

O coveiro com as pálpebras já meio abaixadas, interessou-se de imediato pelo elemento novo na cidade, quando o viu entrar no ambiente e pedir, ainda de pé ante o balcão, uma chamada de cachaça.

Acompanhou o desconhecido tirando uma cédula do bolso, colocando-a sobre o balcão. Viu o velho bodegueiro pôr o copo com uma pancada seca sobre o móvel de amdeira bruta, abrir a garrafa e despejar o líquido no copo. Continuou sem tirar a vista quando o vaqueiro puxou o chapéu de couro para as costas, segurou o copo, elevou-o acima da cabeça, balbuciou algo e despejou um pouco da cachaça no chão. Depois, com um movimento da cabeça para trás, abriu a boca e jogou o resto do conteúdo no copo para dentro da garganta.

– Ei! – gritou o coveiro. – Venha aqui pra minha mesa e num se preocupe com a despesa.

O vaqueiro estudou o homem, relutou um instante. Mas, seguiu em busca do chamado.

Caminhou de encontro ao coveiro, puxou uma cadeira, apertou sua mão e sentou-se ainda agarrado ao desconhecido.

– Brega. Vaqueiro do Dr. Raimundo Saldanha – e completou com um puxão de braço: – Prazer!

– Cogão. Coveiro da prefeitura. Satisfação toda minha – respondeu o outro.

Ficaram amigos na hora, seguindo o modelo daquelas amizades recém adquiridas em mesas de bar. Das que, parece, haver conhecimento de décadas. Pois bem, beberam e comeram à vontade durante o dia inteiro. Os assuntos da prosa correram desde a lida no campo, passando por futebol, política, Reino Eterno e assombração.

– Num gosto de jogo de bola – respondeu em certo ponto o vaqueiro.

– Num tenho medo de alma d’outro mundo – completou o coveiro noutro ponto.

E seguiram se conhecendo. Cogão muito falante e Brega, sisudo, respondendo praticamente através de monossílabos. Sem contar que o vaqueiro ficava meio encabulado quando coveiro lhe segurava a coxa, quase atingido seu “entre-pernas”.

Às vinte e duas horas em ponto Brega se assustou quando ouviu a hora sendo dita pelo dono do bar. Hora de fechar.

– Me lasquei! O carro da fazenda já voltou – reclamou em voz alta.

– Num se preocupe, amigo Brega. Tu dorme lá em casa, e amanhã logo cedo vou deixar tu de moto, antes mesmo do sol se abrir.

– Ôxe! E por que não vai agora – inquiriu o vaqueiro franzindo a testa?

– Não guio moto quando bebo – Cogão deu a desculpa.

Dizer que era uma casa… assim, uma casa mesmo, onde morava Cogão em sua solidão, é faltar um pouco com a verdade.

O imóvel era um quarto, sala, banheiro e cozinha, disponibilizado pela prefeitura dentro do cemitério municipal. Ambientes apertados, dividindo móveis antigos e ferramentas de trabalho. Tinha uma porta na frente dando para a rua, e outra nos fundos para acesso ao campo santo. Era uma espécie de continuação da capelinha; sem, no entanto, possuir qualquer acesso ao pequeno altar de vão único onde a imagem de Santo Expedito recebia de frente os visitantes.

Entraram na casa trôpegos, um atrás do outro.

Cogão puxou uma cordinha e a luz de vinte e cinco velas iluminou o ambiente.

Brega foi se deixando arriar na única cadeira da sala, apoiando os cotovelos na mesa e circulando o olhar pela pequena sala, questionando-se onde dormiria.

Cogão desabotoou os dois botões do peito e tirou a camisa por cima da cabeça, sem se preocupar com a companhia.

– Pode tirar a roupa, Brega – autorizou. – Fique à vontade que a casa é pequena, mas agora é tua também – falou afastando uma cortinha de cordas plásticas que separava o quarto da sala. Entrou no quarto às costas de Brega.

O vaqueiro se encurvou e soltou os pés das botas, sentindo-se aliviado. Recostou-se na cadeira. Fechou os olhos, sentiu o mundo dar uma girada.

Cogão se aproximou por trás. Descansou a mão no ombro de Brega e soltou a cantada:

– Se você for corajoso e quiser enterrar seu vivo em minha cova, já ‘tou pronto!

– É o quê, macho? – perguntou Brega abrindo os olhos e se voltando.

Cogão estava completamente nu. Com um sorriso estranho no rosto. O espaço aberto na gengiva de cima sendo preenchido pela língua em movimentos rápidos.

O coveiro se explicou explicitamente.

– Tu num quer me comer não?

– Oxente, e tu ‘tá me estranhando, macho?

– Taí! Vai bem querer dizer que tu num notou que eu quero tua picareta cavando minha terra?!

O vaqueiro deu um pulo. Ficou de pé e encarou o coveiro. Ficaram se encarando em silêncio. Num instante Brega sentiu um calor estranho nas partes de baixo. Não passou um minuto e…

– Pois, te ajeita, baitola, que tu vai ter o que tu quer.

Cogão afastou a cadeira se debruçou sobre a mesa, abriu as pernas e empinou-se para trás, no momento que Brega abria os botões da calça.

Uma tentativa, duas, três… na sexta investida, Cogão relaxou e sentiu a pá de Brega lhe cavando as carnes. Brega ajeitou-se, chegou-se mais e forçou tudo. Sentiu a virilha encostar nas nádegas moles de Cogão. Movimentou-se umas três vezes para frente e para trás.

– Ai – gritou o coveiro.

– Que foi? – perguntou Brega.

– Pare aí. Me deu vontade de peidar.

– Então arrote! Porque aqui está tudo “intupido” – respondeu o vaqueiro, cavando a terra do coveiro em movimentos mais acelerados.

É cada uma que eu ouço por aí. Algumas deveriam ficar, sim, enterradas sobre o plástico de alguma mesa de bar.