JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

SER TÃO SAUDADE

O poeta Marcílio Pá Seca Siqueira me enviou por Whatsapp:

Ao chegar bem em frente da porteira
A saudade renasce o olho chora
O meu peito batendo acelerado
O meu corpo procura uma escora
Relembrando o garoto sertanejo
Que deixou o sertão e foi embora

Eu lhe respondi pelo mesmo meio:

Quem deixou o Sertão e foi embora
Mas deixou o umbigo num mourão
Pode até enricar em outras terras
Mas jamais terá paz no coração
Vai viver de saudade em saudade
De lembrar e chorar pelo seu chão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UMA GLOSA

Mote:

Eu quero viver morando
Dentro duma loca dessa

Já estou me governando
Já faço a minha vontade
Isolado da cidade
EU QUERO VIVER MORANDO
Quero logo ir me mudando
Sem demorar, tenho pressa
Pois minha vontade expressa
Um tanto quanto esquisita
É viver como eremita
DENTRO DUMA LOCA DESSA.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O ARROTO

Há coisas que são tão imorais que jamais deveriam subir das resenhas de mesas de bar, para as páginas de um livro. No entanto, muitas vezes, tais coisas são tão engraçadas que não devem jamais serem promovidas somente entre os copos de bebidas alcóolicas e os petiscos, à mesa de um bar.

Pois bem…

O coveiro daquela pequena cidade do interior nordestino tanto sentia prazer em enfiar a pá na terra, quanto em sentir um par de testículos batendo-lhe por trás.

Homenzarrão, forte, branco, de pouquíssimo estudo, de raríssimas venhas no trato, comilão e beberrão… e era quando bebia muito mais que comia, que baixava nele aquele desejo estranho de sentar na pá e se transformar em cova humana. Um homem feito todo em um único buraco.

Escolhia alguém e o chamava sempre com a mesma cantada: “se você for corajoso e quiser enterrar seu vivo em minha cova, já ‘tou pronto!”, dizia entre o sorriso amarelado de dois dentes superiores lhe faltando na frente.

Poucos vestiam a mortalha para essa coragem. Mas, de vez em quando, alguém se arriscava em troca de umas pás de alguns tostões.

O vaqueiro tinha chegado à fazenda não fazia uma semana. Mas, no dia da feira da cidade – assim como todos os outros funcionários do patrão – como era tradição, foi se divertir após as primeiras tarefas serem muito cedo cumpridas: a ordenha, a separação do gado, o encurralamento e outras obrigações; soltou o cavalo no curral de pasto, despiu-se dos trajes de couro, as perneiras, guarda-peito e gibão, pendurando tudo em tornos de madeira fixados na parede mal rebocada do alpendre do armazém ao lado do curral. Seguiu com as botas e o chapéu de couro, combinados com um conjunto surrado de mescla azulada. Subiu assim na carroceria do velho “Fê-Nê-Mê” com outros empregados da fazenda.

Fez a viagem toda com o rosto voltado para o que ia se distanciando. Ficou calado o tempo inteiro, olhando a caatinga ficando para trás, entre a poeira levantada pelo caminhão. Não participou de conversa alguma, mantida sob as falas gritadas sobre o barulho do motor do carro. Era homem sisudo, de poucas palavras, de difícil convívio até.

Levou pouco dinheiro no bolso. Poucos dias haviam sido trabalhados.

Mas o quê o coveiro do início de minha narrativa, tem a ver com o vaqueiro?

Bom. Na cidade, sem muita noção de espaço e organização social, o segundo deu de achar justamente o primeiro já meio embriagado, sentado à entrada do bar do centro. No coreto da pracinha principal.

O coveiro com as pálpebras já meio abaixadas, interessou-se de imediato pelo elemento novo na cidade, quando o viu entrar no ambiente e pedir, ainda de pé ante o balcão, uma chamada de cachaça.

Acompanhou o desconhecido tirando uma cédula do bolso, colocando-a sobre o balcão. Viu o velho bodegueiro pôr o copo com uma pancada seca sobre o móvel de amdeira bruta, abrir a garrafa e despejar o líquido no copo. Continuou sem tirar a vista quando o vaqueiro puxou o chapéu de couro para as costas, segurou o copo, elevou-o acima da cabeça, balbuciou algo e despejou um pouco da cachaça no chão. Depois, com um movimento da cabeça para trás, abriu a boca e jogou o resto do conteúdo no copo para dentro da garganta.

– Ei! – gritou o coveiro. – Venha aqui pra minha mesa e num se preocupe com a despesa.

O vaqueiro estudou o homem, relutou um instante. Mas, seguiu em busca do chamado.

Caminhou de encontro ao coveiro, puxou uma cadeira, apertou sua mão e sentou-se ainda agarrado ao desconhecido.

– Brega. Vaqueiro do Dr. Raimundo Saldanha – e completou com um puxão de braço: – Prazer!

– Cogão. Coveiro da prefeitura. Satisfação toda minha – respondeu o outro.

Ficaram amigos na hora, seguindo o modelo daquelas amizades recém adquiridas em mesas de bar. Das que, parece, haver conhecimento de décadas. Pois bem, beberam e comeram à vontade durante o dia inteiro. Os assuntos da prosa correram desde a lida no campo, passando por futebol, política, Reino Eterno e assombração.

– Num gosto de jogo de bola – respondeu em certo ponto o vaqueiro.

– Num tenho medo de alma d’outro mundo – completou o coveiro noutro ponto.

E seguiram se conhecendo. Cogão muito falante e Brega, sisudo, respondendo praticamente através de monossílabos. Sem contar que o vaqueiro ficava meio encabulado quando coveiro lhe segurava a coxa, quase atingido seu “entre-pernas”.

Às vinte e duas horas em ponto Brega se assustou quando ouviu a hora sendo dita pelo dono do bar. Hora de fechar.

– Me lasquei! O carro da fazenda já voltou – reclamou em voz alta.

– Num se preocupe, amigo Brega. Tu dorme lá em casa, e amanhã logo cedo vou deixar tu de moto, antes mesmo do sol se abrir.

– Ôxe! E por que não vai agora – inquiriu o vaqueiro franzindo a testa?

– Não guio moto quando bebo – Cogão deu a desculpa.

Dizer que era uma casa… assim, uma casa mesmo, onde morava Cogão em sua solidão, é faltar um pouco com a verdade.

O imóvel era um quarto, sala, banheiro e cozinha, disponibilizado pela prefeitura dentro do cemitério municipal. Ambientes apertados, dividindo móveis antigos e ferramentas de trabalho. Tinha uma porta na frente dando para a rua, e outra nos fundos para acesso ao campo santo. Era uma espécie de continuação da capelinha; sem, no entanto, possuir qualquer acesso ao pequeno altar de vão único onde a imagem de Santo Expedito recebia de frente os visitantes.

Entraram na casa trôpegos, um atrás do outro.

Cogão puxou uma cordinha e a luz de vinte e cinco velas iluminou o ambiente.

Brega foi se deixando arriar na única cadeira da sala, apoiando os cotovelos na mesa e circulando o olhar pela pequena sala, questionando-se onde dormiria.

Cogão desabotoou os dois botões do peito e tirou a camisa por cima da cabeça, sem se preocupar com a companhia.

– Pode tirar a roupa, Brega – autorizou. – Fique à vontade que a casa é pequena, mas agora é tua também – falou afastando uma cortinha de cordas plásticas que separava o quarto da sala. Entrou no quarto às costas de Brega.

O vaqueiro se encurvou e soltou os pés das botas, sentindo-se aliviado. Recostou-se na cadeira. Fechou os olhos, sentiu o mundo dar uma girada.

Cogão se aproximou por trás. Descansou a mão no ombro de Brega e soltou a cantada:

– Se você for corajoso e quiser enterrar seu vivo em minha cova, já ‘tou pronto!

– É o quê, macho? – perguntou Brega abrindo os olhos e se voltando.

Cogão estava completamente nu. Com um sorriso estranho no rosto. O espaço aberto na gengiva de cima sendo preenchido pela língua em movimentos rápidos.

O coveiro se explicou explicitamente.

– Tu num quer me comer não?

– Oxente, e tu ‘tá me estranhando, macho?

– Taí! Vai bem querer dizer que tu num notou que eu quero tua picareta cavando minha terra?!

O vaqueiro deu um pulo. Ficou de pé e encarou o coveiro. Ficaram se encarando em silêncio. Num instante Brega sentiu um calor estranho nas partes de baixo. Não passou um minuto e…

– Pois, te ajeita, baitola, que tu vai ter o que tu quer.

Cogão afastou a cadeira se debruçou sobre a mesa, abriu as pernas e empinou-se para trás, no momento que Brega abria os botões da calça.

Uma tentativa, duas, três… na sexta investida, Cogão relaxou e sentiu a pá de Brega lhe cavando as carnes. Brega ajeitou-se, chegou-se mais e forçou tudo. Sentiu a virilha encostar nas nádegas moles de Cogão. Movimentou-se umas três vezes para frente e para trás.

– Ai – gritou o coveiro.

– Que foi? – perguntou Brega.

– Pare aí. Me deu vontade de peidar.

– Então arrote! Porque aqui está tudo “intupido” – respondeu o vaqueiro, cavando a terra do coveiro em movimentos mais acelerados.

É cada uma que eu ouço por aí. Algumas deveriam ficar, sim, enterradas sobre o plástico de alguma mesa de bar.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DÉJÀ VU EM GOZO

Só depois descobri que a visão
D’uma casa estranha, mas bonita
Com reboco e pintura esquisita
Há milênios é lar d’uma paixão.
Muito embora eu visse só um vão
Eu senti ser a parte d’um castelo
Que no orgasmo, no sonho paralelo
Visitei sobre ti, também gozando,
No momento que estava relembrando
Um instante estranho, porém belo.

Um baú, nossas roupas espalhadas
Sobre a pele, por tapete, lá no chão,
Duas piras acesas, um brasão
E uns quadros nas paredes rebocadas.
Outras coisas eu vi organizadas
Nesse mundo perdido, mas lembrado
Que eu trago em mim bem avivado
Cada vez que gozamos no presente
Um amor milenar tão envolvente
Nas visões que eu tenho do passado.

A foto que ilustra esta publicação foi criada por IA.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DE SE DECLARAR

Ele desejando ela
Ela sendo desejada
Ele fazendo silêncio
Ela ficando calada
Ele doido pra falar
Ela doida pra escutar
E ninguém dizia nada.

Ela desejando ele
Ele sendo desejado
Ela só pensando nele
Ele muito apaixonado
Ela fingindo que não
Ele perdendo a razão
E ninguém encorajado.

De se declarar.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

POEMA EM LINHA TORTA

Inspirado na obra Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa

Na normalidade dos dias, tudo está recrudescendo.

E eu, homem com nome de santo, mas voz, letras e atos de pecador;

Eu, que não tenho a mínima pretensão de me dizer perfeito;

Eu, que em minhas liturgias acabo pisando nas estolas da etiqueta cerimonial e escorregando no vômito de alguns nobres da vida social;

Que gargalho do sério, e choro com a alegre – apenas para ser diferente;

Eu, tantas vezes orquestrado como imundo, odioso e odiado;

Eu, que defendo ideias e mudo de opinião com a facilidade de quem respira bem;

Acabo descobrindo que a minha parte é muito pequena nesse mundo do faz de conta.

Quisera ser menos nocivo, porém, a fama que me põem não me permite ser leniente;

Quisera também ser melhor – talvez nem ter nome de santo -, no entanto os que me veem, de mim, dizem: “Louco!”

Muito ou pouco, em qualquer campo onde colho – às vezes sequer plantei ali – tenho tido sucesso e obtido lucros.

Mas logo eu? Tantas vezes abjeto para muitos, crítico de mal gosto para outros, escrevinhador de tolices para outros mais, intolerante, intolerável, abominado, abominável, tolo, vil, sujo… Três vezes exposto na mesa dos fracassados financeiramente.

Ora! Logo para mim, que nem mereço tanto, Deus foi olhar e dizer:

“Sofre, sofre, sofre até os quarenta. Mas sê feliz, sê feliz, sê feliz por toda a eternidade”.

Eu, que na normalidade dos dias vejo tudo recrudescer, como um santo de poucos milagres, ou nenhum; cuja devoção vem dos imperfeitos como eu, acabo percebendo que a minha incompreendida matéria jamais passará de um jornalzinho de igreja, daqueles que se abandona sob o banco e sem valor algum logo no domingo vindouro. No entanto, muitos cantaram segurando-o nas mãos, a uma só voz, alegres e satisfeitos (e eu pisava na estola das etiquetas cerimoniais nessas horas). Seu destino? O lixo direto! Sem passar por qualquer banheiro para fim mais próprio ao que nele esteja escrito.

Sim! Tenho sido feliz. Afinal, sou tão pequeno para contrariar uma ordem de Deus.

Esse tem sido o meu grande milagre. Recrudescente milagre: Ser imperfeito, não unânime e ao mesmo tempo feliz!

Do meu jeito recrudescente.

(“Sempre desconfiei que a perfeição é, na verdade, um poço falível de puro e total tédio.” – Jumento Solteiro, em sua obra Devaneios e Confabulações de Um Jumento que Dança).

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BOTE O BICHIN PRA ARROTAR

Há mais de um mês sem pisar nas terras acarienses, sem abastecer os meus pulmões com os ares quentes do meu sertão, sem limpar os olhos com as paisagens do meu pago, sem alegrar meus ouvidos com os risos do meu povo, sem acender as narinas com os cheiros da minha terra, sem arrepiar minha pele pelos toques das mãos apertadas dos meus amigos, sem receber pessoalmente as bênçãos mais caras dos meus pais, pois bem, sexta-feira passada selei um jumento mecânico de motor 1.6 e arribei na estrada rumo ao meu pago amado, Acari do meu amor, do amor de todos nós.

Deu tempo de no domingo pela manhã me encontrar com meu prezado amigo Everaldo de Edite de Joaquim de Cristóvão, mais Vevé do que nunca!

Como sempre, foi aquela arrelia assim que nos vimos. Uma amizade verdadeira, sem interesses, vale muito mais que bons milhões. Vevé me faz bem! Sua companhia me alegra, e sinto a sinceridade da recíproca.

Pois bem, no domingo pela manhã não nos largamos. Papo aos poucos sendo posto em dia, enquanto ele ia arrumando sua barraca de Crepes Suíços na qual Guia, sua esposa, despacha nos dez dias da Festa de Agosto.

Ambrósio Córdula esteve por ali sob as algarobas e engrossou o caldo da prosa que nos alimentava sem nos permitir fome de outra coisa.

Pois bem, perdi a hora do almoço, mas fiquei cheio, quase empanzinado das boas histórias e colocações de Vevé. Quanto mais o tempo passa, mais sua verve de contador de causos vai se aperfeiçoando.

A tarde passou depressa e a bandeira hasteada em frente da igreja matriz simbolizou o início das comemorações de agosto. Eu me meti numa beca surrada e marchei para a rua com o meu menorzinho agarrado à minha mão, ouvindo de longe o dobrado que a bandinha executava, certamente sob a batuta de Netinho de Pinta, duas ruas depois da minha. Eu ia em busca do parque de diversões do mesmo Severino, o moreno, com quem bati dez minutos de prosa ali escorado no gradeado de um brinquedo. Ele sem saber quem eu era e eu, desde menino, devotando ao velho empresário de todos os agostos da minha vida a mesma admiração e respeito.

Seis brinquedos depois e um bate-papo com o meu Tio Dão Velho, dei de ir ter ocasionalmente com Ari Pesão no Pavilhão da Festa (antiga Barraca da Santa, como chamávamos antigamente), onde dividimos uma Coca-Cola de seiscentos. Nem bebe ele, nem bebo eu. A prosa correu solta, principalmente quando se juntou em nossa mesa o velho e inquieto amigo Merion Medeiros. Futebol foi o assunto, graças a Deus.

Com um crepe na barriga do meu menorzinho e a noite de domingo virando madrugada de segunda, entre uma provocação e outra feita por Dóris Bezerra querendo uns versinhos de repente, segurei na mão do meu menino e tomei o rumo da casa de papai, onde hoje em dia me hospedo (é estranho dizer isso).

Antes mesmo de subir a calçada de Seu Antônio Medeiros fui parado por Vevé. Pois é, comecei o domingo e terminei com ele. Parou-me rindo e eu lhe perguntei o motivo.

– Rapaz, tou aqui me lembrando de uma coisa do ano passado – respondeu-me ainda rindo, balançando o corpo todinho, a cabeça enfiada nos ombros pela falta de um pescoço.

Hômi, pois se ainda não me contou, me conte – pedi doido por sua história que eu sabia, como as outras dignas de registro.

Aí ele me narrou o fato que passo a contar com as minhas palavras.

* * *

A Festa de Agosto corria solta e era noite de quarta-feira. A rua recebera pouca gente e logo cedo o movimento se deu por vencido. Zuil Ribeiro, comandante do pavilhão, deu ordens aos seus garçons para fecharem o caixa e que fossem avisar aquele casal da última mesa ativa que encerrariam em alguns minutos.

Assim foi feito. O pavilhão ficou deserto.

Everaldo Vevé, churrasqueiro oficial da barraca, ainda tinha que recolher apetrechos, restos de carnes que não foram às brasas, e outras coisas mais para guardá-las no prédio de apoio funcionando ali onde outrora era a Bodega de Chico (Pires) da Bodega.

Separados todos os objetos a primeira viagem feita com as coisas num carro de mão seria com as carnes. Saía da barraca empurrando o veículo de cabeça baixa quando prestou atenção num casal namorando nos batentes da porta do muro da casa de Chico de Balá.

O rapaz, sentado no terceiro batente, escorado da porta, tinha a moça escanchada em seu colo, de frente para ele e de costas para a rua, abraçando-o com braços e pernas. E tão absortos estavam no namoro que nem prestaram atenção na aproximação do nosso Vevé e seu carro de mão. Sexo completo não faziam, pois ambos vestiam calças jean’s.

E foi mesmo quando Vevé ficou num ângulo de quarenta graus para a visão do casal que a moça, sem pudor algum, fez saltar um dos seios de dentro da blusa. Certamente pensara que a rua estava totalmente deserta.

O rapaz por sua vez, feito bezerro de primeira mamada, agarrou-se com patas e beiços nesse peito como se estivesse morrendo de fome – assim me narrou o contador do causo – e numa gula tão grande que espantou o nosso Vevé, até bem acostumado com os sarros presenciados nas madrugadas festivas.

E ali ficou o casal naquele lambe e chupa desgraçado, sem importar-se com o vai e vem de Everaldo Vevé e seu carro de mão.

Vevé foi, abriu o armazém, guardou as carnes, fechou a porta e voltou para a barraca. Encheu o carro de mão, foi deixar o material novamente, abrindo o armazém, descarregando o carro, fechando a porta e voltando. Cada vez que passava pelo casal, é verdade, não deixava de olhar, mas ficava meio envergonhado. Porém olhava.

E o casal? Ora essa! Lá no batente de Chico de Balá, animado feito pinto em merda, na mesma posição, na mesma chupação de peito e na mesma satisfação.

Everaldo fez sua terceira e última viagem. Abriu a porta do armazém, descarregou o carro, fechou a porta com a chave e voltava para deixar o carro na barraca e ir embora, quando parou bem atrás do casal. Via o movimento da cabeça do rapaz por trás dos ombros da moça. Vevé descansou o carro no chão e subiu a calçada. Parou um momento, olhou com atenção. O casal não deu por sua presença. Ele se aproximou mais. Tocou no ombro da moça com a ponta dos dedos. A moça virou a cabeça para trás assustada e o rapaz, sentindo o movimento da companheira, abandonou pela primeira vez o peito e olhou para o intruso. Não deu tempo reclamar qualquer coisa. Vevé falou primeiro.

– Moça, quando terminar, não esqueça de botar o bichin para arrotar, não, viu?

Pegou o carrinho de mão saiu satisfeito pelo conselho que dera. Danado se o bichin golfasse (regurgitasse) na moça. A blusa dela era tão bonitinha.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CÃO FEROZ E CORAJOSO!

E falando em animais…

Um dia deu de aparecer em Acari um circo, desses grandes, de dois mastros. Armou ali onde Dr. Juarez construiu sua casa, na Rua Manoel Esteves, por trás da prefeitura, bem ao lado do Cruzeiro.

Como todo circo grande, tinha seu leão. Lembro que esse pobre animal vinha desde Natal, adentrando o interior, limpando as cidades de gatos, comendo tudo quanto era miau que se jogasse dentro de sua jaula. E quem me contou a história foi Vevé, o meu bom amigo Everaldo. Ele me disse que com quinze dias de acampamento em nossa terrinha, o pobre leão já tinha comido tanto bichano que, ao jogarem um gato na jaula, o leão se arripunava todinho e fazia uma careta danada. Só faltava vomitar, se tremendo todo de tanto se repugnar.

Bom, o dono do circo inventou uma atração à parte, desafiando a população: o cão que chegasse perto do leão e não se urinasse depois de um urro do bicho, ganhava um negócio lá, prêmio não lembrado mais por Vevé.

Primeiro foi Antão Filho, nosso Lopinho, que levou seu cachorro para enfrentar a fera. A coisa se dava com o cão fora da jaula, claro.

Antão foi se aproximando com seu cão pequenez na coleira, farejando o chão, levantando a perna numa ou noutra pedra, num poste, rabo levantado e atento, orelhas para cima, naquele andar ligeirinho dos cães de sua raça.

A molecada ali, na espera, torcendo pelo animal de casa, claro. Quem deixaria de torcer pela representação de Acari, contra um leão fedorento que ninguém sequer sabia de qual savana teria saído.

E Antão foi se aproximando, se aproximando, e o povo abrindo o caminho. De repente chegou bem próximo da jaula. O cãozinho pequenez olhou para o leão. O bicho lá deitado. O cachorro achou de latir. Entre a molecada se ouviu sussurros de “é valente, é valente, vai ganhar”. E o cãozinho latindo alto, ciscando as duas patinhas traseiras, jogando terra para trás. Aí o leão se levantou, deu uma volta impaciente na jaula, bocejou como se estivesse com sono e, parece, só então percebeu o latido do cachorro. Olhou para baixo e viu o cãozinho todo afoito.

Ora, mais bastou o leão bramir e o cachorro de Lopinho paralisou. Vevé disse que o bicho ficou lá parado, estático… Até pensaram que encarava o leão.

Foi aí que Antão resolveu reivindicar o prêmio, ao que o dono respondeu que ele puxasse o cachorro, e quando Antão deu um leve toque na corda dizendo “rambora”, o bichinho caiu duro de lado. Havia morrido em pé.

Depois de Antão, muitos donos sofreram decepção vendo seus cães se borrarem todo diante de um rugido do leão.

Aí, entra o velho e bom Droli, cachorro de Nego de Seu Emídio, caçador afamado em nossas terras, cão corajoso, vira-lata de fama quase internacional no ramo de farejar, emboscar e trazer caças ao seu dono. Uma lenda! Um mito canino!

Droli, cujo nome eu não sei o que significa e nem quem foi a alma vivente capaz de criar tal expressão, tinha a pelagem avermelhada, era tipo médio, orelhas alertas, faro dos bons…

Nego foi incentivado por seus amigos e resolveu levar seu cão para enfrentar o leão.

Havia até torcida com o nome Droli pintado em bandeiras. Acreditem, ou não, até criaram uma música, cuja letra era assim:

“Pra enfrentar o grande campeão,
O cão coragem da cidade do Acari
Pode vim elefante ou leão
Mas nenhum derrota nosso Droli”.

E depois todo mundo gritava a uma só voz “é campeão, é campeão! Droli, Droli, Droli…”

E no dia acordado entre as partes, lá vinha Nego com Droli na coleira. Droli até parecia saber que estava em alta, que era afamado, respeitado e ídolo. Como a cadela Baleia de Graciliano, teria sentimentos quase humanos? Pois nem se portava como cão, não cheirava nada, também não se detinha levantando pata. De cabeça altiva vinha mais marchando, garboso, do que propriamente andando como um cão comum, apesar da condição de vira-lata.

Os meninos começaram a cantar a quadrinha, agitaram bandeiras, soltavam altos assobios, alguns jogavam inclusive areia para cima, formando uma fumaça de poeira sobre os outros.

Abriram espaço e Nego passou com Droli. A jaula havia até sido limpa naquele dia. Lá no fundo, deitado e dormindo, o leão nem se importava com a algazarra que se formara.

Nego parou, olhou para os lados, segurou a corrente com força, encheu os pulmões de ar e…

– Pega, Droli, pega! – gritou Nego.

O cão então latiu alto, ergueu as patas dianteiras e quase derrubou Nego puxando-o para frente. Latia rasgando a garganta, com força, disposição e coragem.

Nego de Seu Emídio, segurando com firmeza a corrente presa à coleira, tinha o tronco voltado para trás. No esforço que fazia, tinha os braços esticados, mãos firmes no ferro da corrente, os pés deslizando na areia do terreno, os dedões saindo para fora das alpercatas que usava. E Droli? Droli querendo ir para cima do leão.

Nisso o dono do circo apareceu com uma vara na mão, rodeou a jaula e cutucou o leão, que acordou. O bicho pôs a língua para fora, lambeu os beiços como se estivesse degustando algum resto de doce, balançou a cauda batendo-a duas vezes com força no chão da jaula e levantou as patas dianteiras, ficando meio corpo de pé. Observou o ambiente sem interesse.

Droli, incansável, corajoso, determinado, latindo forte e Nego, coitado, quase sem conseguir segurar a corrente, se esforçando muito para conter o cão.

– Droli é demais – gritou um dos presentes. – Ele ‘tá querendo ir para dentro da jaula. E se for, dá um surra nesse leão.

Então, a molecada começou a gritar “vai pra jaula, vai pra jaula” e, depois de alguns minutos o nome Droli foi gritado em conjunto.

O leão, nem aí para a gritaria, sem importar-se com os latidos de Droli, resolveu levantar as duas patas traseiras. Ficou de pé. Foi num resto de carne que já cheirava mal no fundo da prisão, aplicou o olfato ali, lambeu-se de novo, agitou a cauda, foi na água e bebeu um pouco e, parece, depois de saciada a sede, atentou para o latido do cachorro. Olhou direitinho para a cena. Vevé disse que acredita que só aí ele compreendeu tudo, veio para perto da grade, como quem queria se certificar do que estava vendo, arregalou os olhos, encarou o cachorro, deu duas voltas no corpo e rugiu. Ah, rugiu! Rugiu sim, alto e forte, balançando a juba e jogando a cabeça para trás.

Depois, tudo aconteceu tão rápido… Ninguém viu direito quando Droli passou com o corpo todo por dentro da coleira. Já Nego, caindo para trás, se viu com a corrente na mão. A coleira, ainda fechada, repousava no chão. Droli fugira pela frente da coleira e desaparecera numa carreira danada.

Vevé me disse que dois dias depois, Seu Cícero Cigano apanhava imbu no começo da chã da Serra do Pai Pedro, quando avistou Droli, de pé, parado sob a sombra de um imbuzeiro. Olhava para os lados da cidade, tinha as pernas meio abertas, o rabo levantado, os olhos bem atentos, o focinho em vigília. Parecia estar acuando algo de longe. Mas bastou seu Cícero mexer no bichinho e seu corpo quedou duro. Estava mortinho da silva!

– Acho que, depois do medo, a gasolina só deu pra chegar até ali – me confidenciou Vevé entre uma boa gargalhada e outra.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PACANÃ E UM ENSINAMENTO

Um dia eu cheguei na Bodega de Pacanã e o encontrei, como sempre, sentado à esquerda do balcão, com a cabeça baixa e tamborilando com os dedos da mão direita na madeira do móvel que escondia o resto do seu corpo.

Assobiava baixinho alguma coisa quando se deu conta da minha presença. Os dedos pararam orquestrados inconscientes no mesmo momento quando cessaram as notas do seu assobio. Ele levantou a cabeça e olhando para aquele ponto invisível enxergado apenas pelos cegos perguntou “é você Jesus?”, pois sabia da minha chegada ali, cartesianamente depois das treze horas e quinze, sempre captada pelos seus ouvidos atentos, por mais que eu procurasse não fazer barulho. É que eu gostava de observá-lo em seu mundo sem imagens, mas recheado de sons perfeitos nos assobios da sua solidão, acompanhada das batidas compassadas dos seus dedos. Respondi que sim.

Dona Neve ouvindo a minha voz, lá de dentro, gritou que já estaria chegando. E, não sei quanto tempo se passou, mas hoje a minha lembrança me diz algo de uns cinco minutos. Surgiu na porta com aquele seu corpão pesado, se arrastando de encontro ao balcão. Nas mãos trazia a Bíblia de capa escarlate com desenhos em plástico especial permitindo que os personagens ali retratados se movessem. O Cristo na cruz, por exemplo, fechava os olhos e pendia a cabeça, representando o instante da entrega do seu espírito.

– Ricardo – era assim que ela chamava o seu esposo, pelo nome próprio – me disse hoje cedo que quer a leitura de três Salmos de Davi – falou enquanto colocava o livro sobre o balcão, indo sentar-se um pouco à frente de Pacanã.

– Você pode escolher qualquer um – me ordenou Pacanã. – Mas, quero três.

Eu virei o livro deixando-o na posição certa e comecei a procurar pelos Salmos de Davi entre as suas páginas.

Se hoje eu dissesse quais foram as três passagens lidas naquele dia, estaria mentindo e maculando a memória daqueles dois anjos encarnados. Não lembro. Afinal, lá se vão, no mínimo, umas três boas dezenas de anos. Mas eu recordo bem de uma coisa. Ao término daquelas minhas leituras diárias, Pacanã e Dona Neve ficavam colhendo ensinamentos e discutiam entre si com reflexões retiradas do texto lido por mim. Naquele dia não foi diferente. E embora eu fosse ainda muito menino, de vez em quando pediam minha opinião. Hoje eu sei o motivo. Queriam a certeza se eu estava conseguindo captar os ensinamentos que desejavam me passar.

Bom, eu também não lembro a razão de Pacanã de repente pedir minha atenção numa coisa.

– Você sabe o que é um monge, Jesus? – perguntou-me como se olhasse por trás das lentes escuras em minha direção.

– Acho que sim – respondi encabulado. – É um homem religioso que abandona as riquezas para viver quase sem nada?

Ele ficou parado. Certamente refletia sobre a minha resposta. Talvez contemplasse a minha proposição sob a falta de visão que lhe afligia. Depois me explicou o que seria um monge, falando algo que eu hoje me lembro ter sido dito mais ou menos assim:

– Geralmente, também, abandonam todo e qualquer tipo de prazer e se dedicam inteiramente à contemplação da vida – respondeu-me abaixando a cabeça. – Dependendo da religião e do Deus em quem acredita. Às vezes o nome monge vira outro nome. Mas preste atenção na história que eu vou lhe contar – pediu-me levantando um pouco a voz.

Tanto Pacanã quanto Dona Neve gostavam de contar histórias. As narradas por Dona Neve envolviam heróis destemidos, reis e rainhas, príncipes e princesas, bruxas, feiticeiras, castelos e tesouros, animais que falavam… eram estórias deliciosas, formando rodas de meninos para ouvi-la.

Então, Pacanã começou a narrar sobre dois monges viajando e tendo por estrada e orientação a ribeira de um rio. Como havia chovido o rio estava com bastante água. Em dado ponto da viagem deram com uma jovem chorando em desespero. Um dos monges se aproximou e perguntou-lhe o motivo daquele pranto. A moça lhe respondeu que morava apenas com sua avó já bem velha, numa choupana do outro lado do rio. Havia acontecido de atravessar de um lado para o outro, logo muito cedo, para colher frutas frescas para a senhora. Mas acontece que as águas tinham se avolumado de repente. Agora se via sem condições de ir ter na outra margem, com a avó adoentada, já que não sabia nadar.

O monge, então, de súbito, colocou-a nos braços e atravessou a jovem para o outra margem do rio, deixando-lhe segura em terra firme. Depois voltou para o outro lado onde encontrou o companheiro de jornada. Puseram-se a andar novamente tendo o curso do rio como direcionador.

Já haviam caminhado duas horas quando o monge que ficara parado resolveu falar.

– Irmão, você teve contato com a carne daquela jovem quando a pôs em seus braços. Não sente remorso?

Ao que o outro lhe respondeu:

– Eu a pus no chão, deixando-a em segurança, há duas horas. Você, no entanto, carrega-a até agora em sua mente e eu vejo que isso é demasiadamente pesado.

Seguiram subindo e descendo pedras em silêncio, acompanhando o curso do rio.

Ouvindo a história de fácil compreensão até para o garoto que eu era, também me calei. Fechei a Bíblia, que estivera aberta o tempo todo sobre o balcão, e entreguei empurrando-a de encontro a Dona Neve. Ela levantou-se calada, aconchegou o livro contra o peito abraçando-o com ambas as mãos e voltou para o interior de sua residência.

Ficamos Pacanã e eu na bodega. Ele de cabeça baixa. Eu por ali, refletindo sobre o que acabara de ouvir.

– Jesus – chamou-me novamente -, muitas vezes um bem feito deve ser esquecido para que se tenha paz. E se devemos esquecer certos bens praticados por nós, imagine o mal de quem somos vítimas.

Falando isso, começou a assobiar e tamborilar no balcão de madeira. Cabeça baixa.

Depois daquela tarde já li várias vezes, em diferentes cantos a estória contada por Pacanã. De diferente mesmo, apenas alguns poucos elementos. O ensinamento segue o mesmo há trintanos.

Agora aquele menino magrelo é um homem de quarenta e dois anos, se esforçando para não se lembrar de alguns atos bem praticados, a fim de não cair na tentação de cobrá-los de alguém e empregando meios de não esquecer alguns erros, esperando não cometê-los outra vez mais. Porém, se deleitando em não desprezar jamais a lembrança e a saudade de gente como Pacanã e Dona Neve.

Deles eu quero me lembrar sempre. Até que o senso me seja retirado de tudo. Assim sigo em paz e feliz, carregando-os nos braços das minhas melhores recordações.

(Escrito em 2013)

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MARTELADAS EM COMPASSO

José era assim: um sonhador.

Não sonhava com as viagens espaciais, tampouco com as bicicletas, de forma alguma com os carrinhos importados, nem com a bola de couro… sonhos comuns a qualquer menino de sua época. José sonhava apenas em ser músico e tocar na bandinha de sua cidade.

Sonhava acordado, olhos abertos e fixos num ponto nem percebido, enquanto assobiava dobrados e valsas. Imaginava-se subindo e descendo as ladeiras do seu lugar, observado pelo povo, recebendo aplausos. Via-se com a farda azul e aquele quepe na cabeça, as botinas bem engraxadas, as luvas brancas e todos os botões dourados levados na farda azul esmeradamente engomada pelas mãos ágeis de Dona Rosa, sua mãe.

Porém, como não tinha certa disposição para os estudos e todas aquelas disciplinas, especialmente a Matemática, recebia sempre a reprovação do maestro nas inúmeras tentativas de ingressar na escola de música. Jamais passou, sequer, da primeira lição. Renovava-se sua decepção a cada nova prova.

Fora isso, José sonhava apenas com carros. Mas os seus sonhos eram tão simples, que os carros eram de brinquedo. Não os de ferro importados, tampouco os de plásticos coloridos. Mas carros feitos de latas. Sim. Isso mesmo. Latas!

Um dia cortou uma lata, estirou o flandres nas batidas certeiras de um martelo, utilizou-se de um prego para riscar algo parecido com o carro do seu desejo utilizando um pedaço de madeira como régua e, como arte de menino inquieto, pegou às escondidas a tesoura da mãe e a fez perder o corte fino invadindo o desenho em seus contornos. Usando a primeira peça como molde, repetiu o desenho aproveitando o espaço do outro lado da lata. Como prêmio duas bandas de um carro imaginário imitando um modelo real, colocadas em paralelo uma contra a outra.

Indagou o que seria preciso para compor o restante daquela carroceria. Mediu o capô, a frente para o para-choques, o teto e a tampa do porta-malas.

Em outra lata aberta e da mesma forma estirada, o prego servindo de giz foi gerando linhas limites para a tesoura.

Juntou restos de madeiras numa serraria, comprou pregos e com o serrote do pai começou a construir seu primeiro carro. Levou dois dias nessa tarefa. Perdera tempo imaginando um sistema de amortecedores e, o mais difícil, como criar um jeito de mover os pneus da frente para fazer curvas com seu carro. Acabou copiando os modelos feitos por um senhor de sua cidade. Saiu em buscas de chapas finas de ferro que serviam para amarrar os grandes fardos de algodão na velha usina. Conseguiu três pequenos pedaços. Estava de bom tamanho.

Os pneus, também de madeira, foram traçados com a ajuda de uma concha velha e abandonada por sua mãe. Depois ele aparou as arestas o quanto pôde e, no lugar do cimento mais grosso da calçada do vizinho, lixou o que restava para chegar aos limites dos círculos produzidos por um lápis grafite. Surgiram os quatro pneus. Uma ideia fluiu em sua mente. Correu ao lugar do muro onde o pai guardava alguns trecos e encontrou os restos de uma câmara de ar. Retirou uma parte, cobriu os pneus com a borracha, prendendo-a com pregos bem pequenos.

Sob um velho tecido grosso, dentro de uma caixa de madeira, encontrou o que sobrara da tinta utilizada para pintar os portões de sua casa. O carro teria uma cor. Seria branco.

Com paciência e perspicácia foi enfeitando o carro. Dois retrovisores, o espelho interno, uma antena de rádio, os guarda-lamas produzidos na mesma borracha utilizada nos pneus, os faróis feitos com tampas de creme dental, o para-choque, um pedaço de plástico de fio para cobrir cadeiras virou o cano de escape. Um quadrado de madeira sobre o teto daria a ilusão de uma entrada de ar. Quatro tampas originadas de um recipiente para fermento serviram de calotas.

O vizinho vendo aquele esforço lhe presenteou com uma latinha de tinta preta. Alguns acessórios ganharam novas cores, para diferenciar da cor original do carro.

Esperou a tinta secar pacientemente observando o seu carro exposto ao sol sobre a parede do muro de sua casa. De vez em quando punha a ponta do dedo indicador por baixo do carro, num lugar específico que pintara apenas para tal teste. Foi dormir sem que a pintura estivesse totalmente seca. Quase não pegou no sono.

Mas o dia amanheceu e José fez novo teste. Ah! Sequinha!

Amarrou as pontas de um barbante na madeira servindo de suporte para o eixo no qual rodavam os pneus da frente, e já foi para a escola puxando o seu próprio carro. Estacionou-o sob a carteira de dois lugares. Um sucesso! Na hora da merenda, no pátio da escola, muitos motoristas testaram “a maciez” do carro. Aprovado! Recebeu encomendas. Virou artesão fabricante de carros de latas.

Virou também o responsável pela realização dos sonhos de outros meninos.

Trabalhava só. E enquanto riscava, cortava, montava, pintava e dava os acabamentos, assobiava pacientemente os dobrados e valsas executados pela bandinha de música.

Hoje, já com o peso dos anos e as inquietudes da saúde debilitada, José continua fabricando seus carros. Já não há mais a mesma procura. Os brinquedos modernos excluíram os velhos sonhos, originam outros nos meninos de agora. Porém, existe sempre um pai saudoso querendo presentear um filho com uma réplica do seu primeiro carro.

E, enquanto fazia carros de flandres, aglutinando meninos ao seu redor, José se viu realizando o seu outro sonho. Aquele mais importante e que lhe fizera de fato perder o sono tantas vezes. Foi por muitos anos o titular no surdo da bandinha de sua cidade.

Subia e descia ruas nos compassos ensaiados nas marteladas dadas em sua fabricação de carros de lata.