JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VERSOS DE AVESSO

Eu sigo buscando compreender
Veredas do mundo, estradas da vida
Fazendo meu verso de alma ferida
No averso da alma querendo morrer.
Trazendo segredos para entreter
Quem lê, quem escuta e quem se inquieta
Com versos sobrando em obra incompleta
Anseios e medos que já me consomem
Não sei se é o poeta que finge ser homem
Ou se é o homem que se finge poeta.

Cingido em tudo por um grande cinto
Me sinto humano alegre e triste
Se existe a derrota, o sonho persiste
Quando pouco falo, é quando mais minto.
Cada nova linha, é verso distinto
Fúteis entrelinhas, ideia abjeta
Mas, se eu escrever de forma correta
Os versos de avesso me domem e me tomem
Não sei se é o poeta que finge ser homem
Ou se é o homem que se finge poeta.

Poesia inspirada em diálogo ouvido no trailer do filme O Ano da Morte de Ricardo Reis.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PASSADO, PRESENTE E FUTURO (A esperança perdida)

Eu era um “menino véi buchudo” e acompanhava meu pai acompanhando o noticiário sobre a Eleição Indireta para Presidente do Brasil. O ano era 1985.

Quando o repórter anunciou que Tancredo Neves não sofria mais nenhuma possibilidade de derrota, papai pulou da cadeira com os braços para o alto. Eu pulei junto. Gritamos de alegria.

Comemorávamos a vitória do mineiro; de braços dados com a Democracia, filha legítima da Liberdade.

Tínhamos, papai e eu, uma esperança sem igual no futuro que se abria à nossa frente.

Hoje, papai não acompanha mais nada. O Alzheimer não lhe permite entendimento algum, alegria alguma. Só há como um vazio na tristeza dos seus olhos de pálpebras caídas; talvez porque os tempos passados foram apagados para ele na mesma velocidade que se apaga o presente, logo após acontecer. Já não sonha com um futuro de bons augúrios, o meu pai, pobre pai que, anos antes daquela comemoração, havia me ensinado uma música cuja letra previa “esse é um país que vai pra frente”; mas que parece nunca foi. Nem irá?

Aquela esperança de braços levantados sob a égide da alegria, em 1985, foi se definhando em par com as memórias de papai.

Outro dia eu me fiz de doido e, sentado à sua frente, narrei os acontecimentos nacionais do tempo presente para papai. Não me importei se ele compreendia, ou não. Queria me iludir que estava ali a consciência impecável do homem que me serviu de norte moral, sendo o alicerce para os meus princípios políticos. Falei da corrupção, das decisões questionáveis e quando já narrava o terceiro escândalo, dando os nomes e os cargos dos envolvidos, por trás de uma nuvem de contemplação de algo inexistente no espaço entre nós dois, ele disse “sempre foi assim”. Seus olhos estavam parados, como ficam a maior parte do tempo, olhando no vácuo dos anos apagados.

Meu pai já não controla sequer o presente. É um homem sem esperança.

E eu, seu filho, não tenho certeza alguma sobre o futuro do nosso país. Embora ainda haja, em mim, uma réstia dela. Digo. De esperança.

Hoje eu tenho mais idade que papai tinha naquele 1985. E me pego divagando se o nosso futuro, traçado naquele passado, não teria sido mais auspicioso se tivéssemos, papai e eu, chorado a derrota de Tancredo. Quem saberá?

Afinal, o futuro é incerto em todas as direções.

Porém, o passado, que arrima o presente, esse ninguém pode apagar em mim.

Nem o Alzheimer de papai.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BAR ACAUÃ, DA BOA VISTA

Sou os olhos da Belle de Alceu
Sou a voz toda rouca de Ariano
Sou Capiba cantado por Germano
Sou garçom que ao Rossi atendeu.
A coragem de Arraes no apogeu
Sou o sonho mais belo do artista
A sombrinha, no frevo, da passista,
Oração de Dom Hélder pela paz
Sou o vento envergando coqueirais
Sou o Bar Acauã, da Boa Vista!

Eu sou Zeto da viola afinada
Sou caboclo lançando pelos ares
Sou a Besta Fubana de Palmares
Sou o Galo que sai de madrugada.
Sou a roda de coco d’embolada
Sou Antônio Marinho declamando
Sou Lirinha num palco encantando
Eu sou Xico Bizerra, e estou certo
Que sou Bar Acauã sempre aberto
Na Mamede Simões lhe esperando!

Sou a fúria cruel de Virgulino
Chico Science e seu maracatu
Sou Leão, sou Santinha, sou Timbu,
Sou boneco nas mãos de Vitalino.
Sou Bandeira no verso mais divino
Vida e morte escrita por Cabral
Breno Lira num solo maestral
Todo Duro e sua bofetada
Sou as mesas expostas na calçada
Lá do Bar Acauã num happy hour.

Sou Brennand preservando nossa arte
Sou o Rei do Baião e sou xaxado
Sou Nabuco, o líder respeitado,
Sou o sol sobre a cruz no estandarte.
Sou o tiro que dá o bacamarte
No repente eu sou Louro Batista
Da divina trindade repentista
Sou o Lorde de Olinda desfilando
Sou Josébio, sorrindo, lhe chamando
Vem pro Bar Acauã, da Boa Vista!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MASSA DE OTÁRIOS

Quando é pra roubar o cidadão
A direita e esquerda se abraçam
As arengas do centro logo passam
Cedo todos seguram a mesma mão.
Se acaba de vez a discussão
No Congresso, nós vemos salafrários
Aprovando os seus super salários
Vão gozando na cara do eleitor
E quem diz defender trabalhador
Faz do povo uma massa de otários.

No Brasil cidadão indignado
Que ousar discursar contra os sistemas
Se verá numa teia de problemas
De fascista será logo chamado.
Vira réu e ligeiro é condenado
Por ministros “da lei” sendo arbitrários
Suas togas são como uns sacrários
Mas Brasília “é sagrada” sem pudor
E quem diz defender trabalhador
Faz do povo uma massa de otários.

Eu estou indignado com o que tenho visto se passar em Brasília. Nos Três Poderes.

Uma lástima amoral só.

O “Estado de Direito” indo até os limites dos direitos feito por eles próprios.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ENAMED

Os cursos de Medicina da UFRN, campus de Natal e Caicó, ficaram com 5 na nota. Nota máxima.

Caicó não me surpreende. Faz parte do Seridó Potiguar, e Seridó é Seridó!

Agora o resultado geral é preocupante. Digo. Em nível de Brasil.

São 351 cursos de Medicina, desses: 107 (30,48%) têm resultados baixíssimos;

Apenas 49 (13,96%) dos cursos alcançaram a nota máxima de 5, e estão dentro dos 243 (69,23%) que receberam entre 3 e 5 (nota máxima), significa que 194 cursos receberam apenas 3 ou 4. Desses 194, quantos terão recebido somente 3, que seria uma nota apenas regular?

Eu li a lista das universidades que ficaram com nota abaixo de 3. Quase nenhuma universidade pública. A grande decepção ficou por conta das “universidades particulares”, que muitos chamam de “pagou, passou”.

Como eu falo há anos, a “universidade para todos” destruirá a educação e os cursos.

Não basta quantidade.

Há cerca de dois anos no curso de Medicina da UFRN, foram retiradas da grade curricular três matérias das disciplinas tidas por obrigatórias, por serem complexas, porque “alguns” alunos não conseguiam acompanhar o restante da turma (e eu nem estou falando de cotistas).

Ninguém pode ser reprovado.

Por exemplo, antigamente o estudo do 2⁰ grau era fator de superação, de planejamento para um futuro melhor numa profissão. E hoje o ensino médio tem se transformado somente numa fonte de renda momentânea, com o aluno recebendo para não faltar. Se vai ser educado na escola? Quem se preocupa com a Educação?

O Brasil a cada ano se encaminha para ter ensino. Não Educação.

E o que teremos nos esperando hospitais?

Lamentável!

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JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DUAS DORES EM MIM

O melhor amigo de papai faleceu quinta-feira, dia primeiro.

No começo do ano passado, em sua última visita ao meu velho, ele havia saído lá de casa com os olhos cheios de água pela situação. O Alzheimer de papai impedira uma conversa coerente e alegre, como sempre foi o encontro de ambos, trazendo as boas lembranças daquela amizade genuína contando pouco mais de três quartos de século.

Quando eu comuniquei a papai essa ida, dizendo “Gata morreu”, o seu olhar pareceu se perder em algum ponto.

Com a sua voz cada dia mais fraca pronunciou o nome completo do amigo.

– Adaílton Eduardo da Silva.

– Isso, papai – respondi. – Adaílton Eduardo da Silva. O Gata – falei ao seu lado.

– Filho de Antônio Eduardo – ele completou sereno, olhando para a rua.

Depois ele virou o rosto para mim, e me fitou.

– Morreu?

– Sim – eu lhe respondi.

– E ele me conhecia?

Eu fiquei em silêncio; mas, com vontade de dizer “talvez mais até do que eu”.

Papai tamborilava no braço da cadeira.

– Olhe o tamanho daquele cururu!

O vento levava uma folha seca pelo meio da rua.

Em mim as duas coisas doíam.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

QUANDO EU OUÇO A VOZ DE GUI

Quando ouço a voz de Gui
É como estar escutando
Um anjo falando a mim
De candura me alcançando
Nas falas dessa criança
Renovo minha esperança
Sinto Deus me abençoando.

E Gui vai me ensinando
Tantos significados
Tantas lições aprendidas
Tantos exemplos guardados
De sua resiliência,
Sua fé, de persistência
E paciência, mostrados.

Seus gestos iluminados
– Os mais puros que já vi! –
D’um anjo de carne e osso
Que chora e também sorri
Clamo a Deus por seu viver
Qu’Ele possa conceder
Vida longa ao nosso Gui.

Vou ficando por aqui
A Deus, por ele, pedindo
Por sua vida e saúde,
E vê-lo sempre sorrindo
Como um anjo entre nós
Pois, quando ouço sua voz
Sinto a paz me invadindo.

Nós te amamos, Gui!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

POMPEIA

“A mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta.”

A expressão acima, entre aspas, surgiu após Júlio César se divorciar de Pompeia, sua segunda esposa.

O motivo do divórcio, que ocorreu em 62 a.C., foi o seguinte: o político Públio Clódio Pulcro se infiltrou disfarçado de mulher na festa de Bona Dea (Boa Deusa), realizada na casa de César.

Pompeia e sua mãe Aurélia eram as anfitriãs. Nessa festa os homens não podiam entrar.

Há uma versão que defende a atitude de Clódio como uma tentativa de conquistar a mulher de César, e mesmo que nada tenha acontecido entre ele e Pompeia, ainda assim o divórcio foi motivado pelo escândalo que se seguiu à descoberta.

A imagem acima foi copiada da Internet, e segundo o que lá estava escrito, é um fragmento do filme de 1953, “Julius Caesar” (Júlio César).

Já o filme é uma adaptação da peça de William Shakespeare.

Os atores em primeiro plano são George Coulouris como Marcus Brutus (esquerda), Marlon Brando como Marco Antonio (centro) e Deborah Kerr como Pompeia (direita).

Bom. Eu vou repetir aqui a frase. Pensemos nela como algo dos dias atuais.

“A mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta.”

Entendedores entenderão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PAZ

(Ser estoico na Lei de Jante)

Coisas que me trazem paz
E que eu não posso esquecer:
Não sou melhor que ninguém
Pior também não vou ser
E tudo que eu aprendi
Se resume nisso aqui:
Sei que um dia vou morrer.

Mas, não paro de aprender
Que nesta minha jornada,
Nada sei e nada tenho
Mesmo assim sigo a estrada
Buscando a felicidade
Ciente em simplicidade
Por saber que sou um nada.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

SEVERINO DAS PORTEIRAS

A coisa marchou para o brejo faz anos!

Um cabra como eu, na janela do tempo observando a metade da minha vida completada, embora vivendo literalmente os nove minutos de acréscimos do primeiro tempo, com a maturidade lá em cima e já dando mostras de querer despencar, não consigo mais assistir um jornal televisivo. É crise, é violência, é corrupção… e se o bicho for mostrado de trás para frente, dá a mesma coisa. Periga até o sujeito, em meia hora de telespectador, arrumar uma depressão para o resto da vida. No meu caso, para o segundo tempo que começará em vinte e dois de fevereiro.

Nisso eu prefiro ficar pensando no povo bom do meu lugar. Um tipo Seu Severino das Porteiras – mestre nas passagens lhe emprestando o epíteto depois do nome próprio, substituindo inclusive o seu sobrenome de batismo – sendo cabra de pouca paciência, encarnando o melhor do tipo “paciência zero para perguntas bestas”.

Sertanejo alto, magro, amorenado, se foi como um octagenário de olhos acastanhados, limitado no andar, mas voava nas lembranças, na inteligência e na lucidez.

Outrora morador nas terras do Cardeiro, então propriedade do Saudoso Dr. Bezerra, naqueles dias de poucas expectativas Severino acertou de ficar ordenhando também em um sítio vizinho, para tratar um gado pouco e ganhar mais uns trocados.

Daí, um dia o patrão soube da dupla jornada e foi ter com ele para conhecer melhor como era aquilo.

Foi se aproximando de Severino e tacou-lhe e a pergunta:

– Ô Severino, você ‘tá tirando leite em Zé Braz?

– Não, doutor – respondeu em cima da bucha o velho Severino. E completou sem olhar sequer para o patrão: – Nas vacas! Pois, Zé Braz é homem e eu não tiro leite de macho.

Respondeu certinho, foi não?

Já outro dia Severino estava sentado num tronco velho, a parede da frente de sua casa servindo-lhe de espaldar e a ponta desgastada do cabo de vassoura lhe servindo de bengala sendo uma baqueta batendo no espinhaço do chão à sua frente, quando um carrão parou quase sobre os seus pés. Ao volante estava Jurema Lamartine, cordialmente lhe cumprimentando com um sonoro bom dia, naquela voz de besouro que ela tinha; voz grossa, pausada, altamente burocrática pelos cargos que ocupara durante toda sua vida profissional, desde quando a Capital Federal se avizinhava ao Maracanã.

Respondido o cumprimento, ela desceu do veículo e educadamente apertou-lhe a mão se apresentando pelo nome. Depois começou a falar de forma bem explicada, recheada da pompa que sempre lhe foi peculiar, o queixo em meneios apontando para cima e o rosto toda vida muito sério:

– Senhor Severino, eu fiquei muito tempo morando fora e agora voltei. Intenciono residir novamente por aqui e estou sabendo que o senhor é o melhor mestre em porteiras de Acary. Vim lhe encomendar uma para a minha propriedade.

– Pois não – limitou-se em responder Severino.

– Quero saber os preços – questionou Jurema.

– Diga aí as medidas, dona – quis saber o mestre, enquanto socava uma das bengalas no chão de terra batida, entre os dois pés.

– Três metros e meio de cumprimento, por um metro e sessenta de altura – respondeu Jurema franzindo a boca depois.

Severino olhou para o alto fazendo contas de cabeça. É cabra bom na Matemática mais simples. Quando encarou a possível cliente, trazia o valor na ponta da língua.

– Dá para fazer por mile e quinhentos cruzados.

Jurema pensou no valor, comparou com o salário mínimo e indagou:

– Com a madeira do senhor?

– Não! – respondeu Severino demonstrando impaciência. E completou:

– Com a minha madeira de jeito nenhum, dona – disse de forma aborrecida.

– Ela é pequena, fina, roliça e oca no meio. Num segura prego, nem parafuso – finalizou.

Daí que eu não sei se fecharam negócio. Esqueci de lhe perguntar.

Doutra feita Severino passava pela Praça do Coreto e ouviu o seguinte diálogo de “duas donas”, como ele costuma chamar senhoras de certa idade.

– Vai viajar, mulher? – perguntou a primeira.

– Vou – respondeu secamente a segunda.

– E vai só a passeio? – quis saber a outra.

– Não. Vou botar uma chapa em Natal.

Foi aí que Severino, parou, virou-se com a dificuldade imposta por seus joelhos e entrou na conversa.

– A senhora deve ser muito rica – ponderou com sua voz arrastada.

– Vai colocar uma chapa em Natal. Em Natal! Fico só imaginando o tamanho desses dentes – finalizou.

E saiu se equilibrando sobre as duas madeiras lhe servindo de bengalas.

– Ô, seu Severino, esse ano dá chuva?

– Se não der das nuvens, de ano é que num dá, hum-rum!

E quando não foi melhor sorrir do que chorar?