JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O UNIVERSO EM UM PONTO

Saudades de Adriano de Auta

Não obstante o estresse e a correria de final de mês – natural pelo fechamento das metas – e os preparativos para o casamento da minha Joana Raquel, depois de amanhã, eu hoje passei o dia me lembrando de Adriano de Auta. O motivo? Não o sei ao certo.

Talvez por uma série de acontecimentos.

Quiçá essa lembrança renitente deva-se pela conversa tida com Jessier Quirino ontem à noite. Quase meia hora de boa prosa, onde falamos de coisas admiradas por nós dois, e das semelhanças existentes entre os sertanejos, beradeiros, bebinhos, doidelos e outros tipos povoando os nossos sertões – que aliás segundo Oswaldo Lamartine, cada um possui o seu próprio.

Falei sobre Adriano como quem fala de algo amado e ao mesmo tempo sumido. Seu nome veio por gravidade, quando falamos sobre artistas que se perdem por esses sertões de meu Deus.

José Adriano Dantas da Silva fez parte da minha infância, adolescência, juventude e quando nos tornamos homens feitos; primeiro como amigo e depois quase como irmão, quando lutamos juntos pela vida dividindo o mesmo quarto empoeirado de uma casa em reforma, lá em Caicó. Já adultos, eu casado e ele apaixonado por alguém distante. Éramos confidentes um do outro, eu o apoiando e ele me fazendo esquecer a saudade da esposa e dos meus filhos ainda pequenos, naqueles dias de novecentos e noventa e quatro quase terminando.

Tínhamos a Esperança embalando nossas redes, cantando tornos madrugada afora. Um esperando o outro adormecer. Ali ele já era Adriano Dantas Bezerra. Um homem feito com um coração de menino.

Assim seguimos por quatro meses, até que um dia ele me chegou com a novidade nas mãos: tinha uma passagem de ida para São Paulo. Era sua última semana no quarto empoeirado da casa sendo reformada.

Em Caicó Adriano fazia de dois a três salários por quinzena. Foi embora sob os meus protestos e conselhos; no entanto, meus argumentos não foram convincentes o bastante para barrar o Sonho da Cidade Grande. Partiu depois de um abraço demorado e augúrios de boa sorte, um desejando ao outro sob a sombra da algaroba do Barraco de Seu Zé Faustino. Fiz questão de ir me despedir dois dias antes de sua viagem.

Em São Paulo um emprego apadrinhado por Tunéa de João Muniz o esperava. “Fichou assim que chegou”, me diria seis dias depois Auta, sua mãe, olhos marejados entre a saudade do caçula e a felicidade de sabê-lo bem.

Eu tinha certeza que sua ascensão na companhia não demoraria.

Não demorou.

Não demorou muito e descobriram o seu extraordinário talento para o desenho. Era a oportunidade do auxiliar de máquina no chão da fábrica partir direto para um escritório moderno, com direito a treinamento na Argentina. Foi Tunéa quem me contou os detalhes.

Um teste foi marcado. Era preciso demonstrar a sua capacidade, técnica e criatividade.

Ele se apresentou ao “Chefe da Criação”. Apertos de mãos, e aquele discurso tradicional para deixar o sujeito à vontade. Não tinha cronômetro para limitar o espaço, porque a inspiração muitas vezes necessita de tempo.

– Você tem uma folha de ofício para desenhar algo livre – falou o homem, empurrando ao seu encontro uma folha A4 em branco e uma caneta nanquim.

A cara de um bezerro mamando foi gerada, o ubre cheio se destacando pelas outras tetas vazias.

Na meia folha de ofício, entregue depois, nasceu uma árvore tipo bonsai. Seus pequenos frutos eram lábios sorrindo.

No quarto de folha de ofício, Adriano trouxe ao mundo uma bailarina equilibrando-se sobre uma perna só. Vestia algo se assemelhando a um coração.

Quando a folha foi dividida em oito partes, em uma delas o rosto de Carlitos surgiu sorrindo em poucos minutos. Era a sua especialidade. No chapéu coco uma estrela disfarçada enfeitava representando um brilho.

E a folha foi diminuindo e recebendo os belos traços de sua imaginação. Até que lhe foi apresentado um papel especial, traçado em linhas horizontais cruzando linhas verticais e criando espaços minúsculos.

– Você tem agora um milímetro quadrado para desenhar algo – explicou-lhe o homem. – Consegue? – desafiou com um sorriso no canto da boca.

Adriano segurou o papel e sorriu de volta para o homem. Pegou a caneta nanquim e mirou bem no meio da folha. Cuidando para centralizar, assentou um ponto em um dos quadrados.

Devolveu a folha.

– Realmente. Aí só caberia um ponto – falou o homem puxando o papel ao seu encontro.

Adriano se escorou no espaldar da cadeira pela primeira vez e, relaxando com os cotovelos apoiados, soltou a pergunta de sua criatividade:

– O senhor só enxerga um ponto? – fez cara de espanto e completou: – Como se eu desenhei o universo?

PS.: Por entender que deveria participar de uma greve duas semanas depois, leu seu nome na relação das demissões. A ordem para a compra da passagem para a Argentina já havia sido expedida.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

E SÓ IMPORTARÁ SER FELIZ

A cada dia que passa mais eu me convenço em abandonar as redes sociais.

Facebook, Twitter e Whatsapp. Esse último preservando apenas a conta comercial, exigida pela empresa me empregando.

Aliás, há dois anos eu excluí a minha conta particular.

Intenciono voltar meu tempo ocioso à leitura de bons romances, biografias, poesias e, também, literatura técnica. Tudo isso alinhado ao convívio real do corpo e da consciência com quem estiver dividindo comigo a mesma sala. Nada nos separando.

Ir mais ao cinema e à praia? Talvez.

É que o mundo tem se tornado chato demais!

As pessoas perdendo o senso da racionalidade estão brigando entre si e defendem sem constrangimentos as causas que lhes são convenientes, como se a vida se dividisse apenas entre um sim e um não, direita e esquerda… É como se não houvesse lugar nem possibilidade para a existência de um quiçá, ou a inexistência de outra direção. A maioria dessas conveniências está diretamente canalizada aos seus bolsos.

Quando não brigam, sentem uma necessidade insaciável de super exposição. Outras nos enchem a paciência tentando protagonizar um humor tétrico, quando não nos trazem “matérias” infames de violência, sexo ou desrespeito ao próximo.

E essas não nos respeitam em nada!

Todo mundo hoje se obriga e obriga em conhecer de tudo, opinar sobre tudo, defendendo seu lado como a águia defende seus pintainhos.

A ninguém é mais dado o direito de não ser bom em algo.

Daí, esse tantão de pessoas depressivas, bem dizer uma nação inteira.

E como eu, pobre homem enrolado em muitos cadastros, negativado em muitas listas, porém sincero aos meus ideais, pois bem, como eu a cada dia mais faço um exercício a fim de me achar fora dessa competição irascível, auguro pela data da minha libertação trabalhando e lutando por ela. Digo, por viver sem a carência, tampouco ser obrigado, de ver, ler e ouvir objetos com os quais não há identificação em minha alma, e para simplesmente respirar sem o encargo de entender de tudo.

Então eu tenho decidido receber e repassar informações apenas ante uma xícara de café.

Os teclados nem sempre entregam a mensagem da forma como a queremos compreendida.

A fumaça do café, além do desenho no ar, entrega a entonação da voz.

E a entonação, por sua vez, é plugada no coração.

Destá! Um dia eu me aposentarei. Oxalá chegue esse dia.

Em algum lugar a paz me espera.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CERTEZA

Um sábio me ensinou
Que na vida assim seria:
Datas de muita tristeza
Outras de muita alegria
Mas, que disso independente
Deus sempre estará presente
Toda hora, todo dia.

Com muita sabedoria
Continuou me ensinando
Que tanto o bem quanto o mal
Têm seus dias no comando
Porém, tudo um dia passa
E só Deus, com a Sua graça,
Fica nos abençoando.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CARIDADE

Quer preservar seu futuro
Vivendo-o rico de paz?
Faça o bem a quem precisa
Sem publicar nos jornais
Doando com o coração
Mas, sem deixar que uma mão
Saiba o que a outra faz.

E não se esqueça jamais
Que em silêncio a caridade
É linda, é virtude nobre
Porém, com publicidade
Tem seu valor anulado
Sendo o ato rebaixado
A um feito de vaidade.

(Este colunista, em noite de observar o que as aparências escondem)

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UMA GLOSA

Mote:

NA TAÇA DO MEU DESEJO
PROVO O VINHO DO AMOR.

No teu corpo eu festejo
Encontro a melhor comida
Bebo sublimar bebida
NA TAÇA DO MEU DESEJO
Embriagado eu versejo
Com paixão e despudor
Faço rimas em clamor
Sedento por mais loucura
Quando em divina aventura
PROVO O VINHO DO AMOR.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UMA GLOSA

Mote:

No caldeirão do desejo
Um bom caldo de priquito!

Há muito tempo não vejo
Comida tão atraente
Queimando em fogo ardente
No caldeirão do desejo.
E como bom sertanejo,
Caboclo macho e bendito,
O meu prato favorito
Eu como e nunca me farto
E com ninguém eu reparto
Um bom caldo de priquito!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

OS OLHOS VERDES DO GATO

Mote:

Os olhos verdes do gato
Enxergam até no escuro.

Glosas:

Não foi preciso um tato
Nem procurar com afinco
Por cima do lindo vinco
Os olhos verdes do gato
No meu verso imediato
Da imagem eu capturo
O quadro que emolduro:
Os olhos desse felino
Que eu sei, desde menino,
Enxergam até no escuro.

Quê mais vejo no retrato?
Algo lindo e provocante
Abstraindo o instante
Os olhos verdes do gato
Não me tenham por gaiato
Por gente sem um futuro
Porque também aventuro
Enxergar muito além
Pois os meus olhos também
Enxergam até no escuro.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UMA GLOSA

Mote:

Quem nasceu pra ser gigante
Não mora em terra de anões.

Glosa:

Caminha sempre adiante
Não pisoteia ninguém
Semeando o amor e o bem
Quem nasceu pra ser gigante.
Da bondade é praticante
Amante das compaixões
Fomentador de perdões
Sendo bom por natureza
E por toda essa grandeza
Não mora em terra de anões.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

GLOSAS

Mote:

Lula agora vai casar
Viverá noutra prisão

É coisa de admirar
A notícia nos jornais
Sobre letras garrafais:
LULA AGORA VAI CASAR.
E ninguém vai protestar
Nem lhe chamar de ladrão
Por roubar um coração
Dizendo ser por amor
E se livre Lula for
VIVERÁ NOUTRA PRISÃO.

Me disseram “é por paixão
Passada a toda prova”
Ele nessa vida nova
VIVERÁ NOUTRA PRISÃO.
Preso por corrupção
Sem poder sequer trepar
Quer a “domiciliar”
Para voltar ao comando
E continuar roubando
LULA AGORA VAI CASAR.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CONTÍCULO

Ela partiu me deixando com os velhos CD’s. Alguns de tão arranhados já não tocavam mais. Apenas choravam abandonados.

Como o meu coração.

O jarro com as flores mortas sobre a mesa de canto, em silêncio, sofria por mim.

Pelas flores também.

O livro de capa dura jogado sobre o sofá, contando a história dramática do príncipe morto – sua donzela morrera também – dizia de um amor sem felicidades ao final.

Como o nosso.

O prato sujo sobre a mesa, com os talheres cruzados ao meio, em xis, chorava ante o copo seco, lamentando por sua última refeição.

Na cama do quarto ao lado os nossos lençóis, abraçados aos travesseiros, gemiam também em triste pranto.

Pelo mesmo motivo.

O Cristo na cruz, de cabeça voltada para o chão no símbolo de sua não vida, pregado na parede da sala, era um recado sombrio da angústia dessa separação.
Braços inertes e pernas arriadas. Membros sem forças.

Como os meus.

Enquanto eu a via descer rua abaixo, mochila da separação nas costas, lembrava-me de versos lidos na porta de um banheiro público.

“Ao sair,
levou-me com ela
e nesse instante
deixei de existir.”

Uma porta triste.
Como a minha recém fechada.

(Os versos entre aspas são do poeta Álvaro Campos)