JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ORAÇÃO

Escrevi às 06:51h de um hoje triste pela imagem angustiante que acabo de ver na Internet. A foto não diz do seu autor, mas sei captada numa avenida no Rio de Janeiro.

Senhor, tem misericórdia
Da nossa brutalidade
Da nossa falta de fé
Da falta de caridade
Da nossa falta de amor
Das nossas falhas, Senhor
Da nossa pouca bondade.

Da nossa leviandade
Da nossa vil ambição
Dessa hipocrisia torpe
Da falta de compaixão
Dos nossos olhos fechados
Para os desesperados
Nos estendendo uma mão.

Lhes falta a alimentação
Sobrando em nossas mesas
Se alimentam da fé
Faltando em nossa riqueza
E nós, pobres, coitados
Somos mais necessitados
Do que a própria pobreza.

Porque nos falta amor. Amor ao próximo.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

REINADO DE TRISTEZA

O Brasil foi muito negligente com o vírus, quando continuou com o carnaval.

O mundo já sinalizava o desmantelo.

Foram quatro dias de “alegria” que durarão muito tempo de “tristeza”.

Hoje é quarta-feira de cinzas eterna para muitos.

Agora choram as viúvas
De negro fantasiadas
Lágrimas inconsoláveis
Herança das gargalhadas
Pelas ruas e avenidas,
Nas negligências geridas
Por quatro noites danadas.

Se calaram as batucadas
O samba em luto entrará
O Mestre Sala, coitado,
De triste não dançará
E até a Porta-Bandeira
Antes tão linda e faceira
O estandarte fechará.

E a morte continuará
Cuíca e surdo calando
A Colombina em prantos
Com o Pierrot vai chorando
E o pobre do Arlequim
Empunhando o tamborim
Marcha fúnebre vai tocando.

E Momo antes reinando
Por quatro eternos dias
Com tanto luxo e riqueza
Nas mais lindas fantasias
Já vê seu vivo reinado
Em tristeza transformado
Sem prazer, sem alegrias.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ALCEU VALENÇA

Cante mais de girassóis
Das ruas todas andadas
Do amor de cem mil cães
Por cem mil onças pintadas
Fale da anunciação
De Inês com seu coração
Das tropicanas chupadas.

Quero ouvir das alvoradas
Da lua e da solidão
Daquele cavalo doido
Feito de pau e paixão
Boa Viagem, aquarela
Da tarde com sua bela
Pois, vem chegando o verão.

Me fale da procissão
Por qualquer uma senhora
Que seja novilha rara
De Olinda ou lá de fora
Fale de Belle de Jour
E seus beijos de uruçu
Que o tempo sempre melhora.

Diga sem muita demora
Desse seu peito atrevido
Encourado, cavalheiro,
Andante e destemido
Vaqueiro de mil canções
Curandeiro de emoções
Sentinela do sentido.

Violeiro enternecido
Agricultor de poesia
Diga “sou Alceu Valença!
Mago-cantor da magia
Prendendo o tempo no vento
Ruminando o sentimento
Do amor e da alegria.”

Depois respire fundo e grite: “Ah, hei! Ah, hei!”

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

INCONFORMISMO

Eu ando revoltado com a fome no mundo.

O Coronavírus nos trouxe acesso a números que não tínhamos a mínima ideia.

Criei um mote e o debulhei sob letras inconformadas e sentimentos de pura resignação:

Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

Solidão e vergonha certamente
São parceiras do pobre flagelado
Pelo mundo egoísta abandonado
Já não tem mais futuro, só presente.
Sem poder respirar decentemente
Vai vivendo à margem, sem saída,
Traz nos olhos a expressão tão dolorida
Tendo a fome constante por herança
Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

Na ambição que está nos separando
Como um ato pensado esse acinte
Na tristeza do olhar de um pedinte
Vejo os olhos de Deus nos acusando.
E embora Ele siga nos amando
Precisamos fechar essa ferida
Do egoísmo sendo o grande homicida
Provocando com a fome essa matança
Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

COISAS DIFÍCEIS DE SE VER

Um enterro de anão
Pato dormindo em puleiro
Freira entrando em puteiro
Ateu fazendo oração.
Fazer sexo sem tesão
Ave alegre não cantar
Jumento não relinchar
Surdo numa cantoria
Palhaço sem alegria
E uma garapa azedar.

O sujeito não peidar
Depois de uma buchada
Gente rica aperreada
Pinto em merda não ciscar.
Um doido não endoidar
Se lhe disserem o apelido
Um velho não ter vivido
Seus dias de mocidade
Mentiroso amar verdade
E um poeta não rimar.

Um cantor pra não cantar
Um soldado não prender
E se o bandido recorrer
A Justiça não soltar.
Novela pra não passar
Sofrimento do mocinho
Amor grande sem carinho
Pedinte sem ter sacola
Futebol sem trave e bola
Estrada sem ser caminho.

Batizado sem padrinho
Lua cheia sem beleza
Cabaré sem safadeza
Xique xique sem espinho.
Homem rico andar sozinho
Um forró sem sanfoneiro
Porco limpo num chiqueiro
Banguelo roendo osso
Girafa sem ter pescoço
Compra à vista sem dinheiro.

Um filho de bodegueiro
Que não valorize o pai
Sofrimento sem ter ai
Segundo sem ter primeiro.
Vaquejada sem vaqueiro
E vaqueiro sem gibão
Fogueira sem ter tição
Guerrilheiro sem guerrilha
E político em Brasília
Cheio de boa intenção.

Crente que não seja irmão
Escola sem professor
UFC sem lutador
Jiu-jitsu sem ter chão.
Problema sem solução
Embolador sem repente
Um dentista sem ter dente
Pobre sem verme e lombriga
Gente falsa sem intriga
E careca andar com pente.

Um Natal sem ter presente
Uma Páscoa sem coelho
Sol se pondo sem vermelho
Um sinal sem um carente.
Alegria sem contente
Um morto que não viveu
Rapariga que não deu
Em troca de algum tostão
O Irã em união
Com todo o povo judeu.

Vencedor que não venceu
Orquestra sem instrumento
Um instante sem momento
Um bebo que não bebeu.
Injeção que não doeu
Trovão sem relampejar
Professor não ensinar
Mãe sem amor por seu filho
Dente de ouro sem brilho
Idoso não resmungar.

Gato novo não miar
Sertanejo preguiçoso
Menino não buliçoso
Curandeiro não rezar.
Bebo andando não tombar
Um bocado sem um tanto
Um milagre sem um santo
Um inferno sem ter cão
Banheiro sem ter sabão
E uma sala sem ter canto.

Uma santa sem um manto
Um toureiro sem espada
Uma rua sem calçada
Um choro pra não ser pranto.
Ocultismo sem quebranto
Pai-de-santo sem terreiro
Obra grande sem pedreiro
Cinema sem uma tela
Um pintor sem aquarela
Um açude sem barreiro.

Inverno sem aguaceiro
Verão sem nenhum calor
Outono com muita flor
Primavera sem ter cheiro.
Quem viaja ao estrangeiro
Não postar fotografia
A noite não virar dia
Um fogo que não aqueça
Prego novo sem cabeça
Neve que não seja fria.

Confusão sem arrelia
Junto que não seja perto
Um besta sem um esperto
Um corrupto que sabia.
Medo que não arrepia
Uma prisão sem bandido
Achado sem ser perdido
Time bom não ter ataque
Carioca sem sotaque
Um tiro sem estampido.

Uma ovelha sem balido
Vinte e nove em fevereiro
Jangada sem jangadeiro
Dono de banco falido.
Corno depois de traído
Não ficar desconfiado
Um baiano arretado
Não gostar de capoeira
E uma mulher chifreira
Sem um amigo viado.

Um bebim aterrissado
Na porta de uma igreja
Repentistas em peleja
Sem um verso malcriado.
LP todo arranhado
Na agulha não enganchar
A solidão não criar
Uma saudade danada
Uma noite enluarada
O poeta não inspirar.

Fofoqueira não passar
Um boato para frente
Lava que não seja quente
Fogo alto não queimar.
Quem gosta de estudar
Ser preguiçoso pra ler
Benzedeira não benzer
Quem lhe chega adoentado
E um brega bem cantado
Não fazer alguém sofrer.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

XADREZ E TALVEZES

No jogo do xadrez, assim como na vida real, muitas vezes você sacrifica peças para garantir o jogo.

Sei o quanto é difícil na vida real tal escolha. Afinal, passaria à infame decisão de escolher quem sacrificar. Isso é terrível do ponto de vista humano. Muito. Nem quero pensar.

Mas se não acabarmos com esse medo poderemos estar sacrificando uma geração inteira. Isso sob o ponto de vista das oportunidades.

A economia destruída fará um prejuízo sem tamanho.

Trará mortes em números incalculáveis!

Terça-feira cedinho vi um especialista falando “só no Brasil poderão ser 40 milhões de desempregados”.

Ora! Se temos doze milhões e não há um sinal de trânsito em Natal sem pedintes esmolando, imagine com três vezes mais.

Caso se confirme, as ruas ficarão intransitáveis. Haverão saques, o crime subirá sem igual, empresas fecharão aos montes, sem arrecadar os estados e prefeituras atrasarão ainda mais salários, o povo inteiro ficará num colapso de nervos, a intolerância no meio social subirá a níveis jamais vistos!

Nos EUA, cujo índice de desemprego ancorou na gestão Trump em 3,5%, ontem ouvi falar em 30% da população desempregada com uma possível recessão se confirmando. Só que lá eles têm lastro de fato em reservas de capital. Só para começar o FED destinou US$ 2.000.000.000.000,00 (dois trilhões de dólares) para salvar a economia. Um PIB anual do Brasil!

Ademais, a oposição nos EUA, salvo raríssimas exceções, aliou-se ao governo nessa batalha.

Eles sabem jogar o xadrez político.

Eu trabalhava num banco e sei dos danos de uma inflação de 80% ao mês, como vi na gestão Sarney. O Brasil hoje não tem “emocional” para viver 8%a.m, que dirá mais.

Então, não é um jogo fácil de ser jogado.

Eu não votei, tampouco simpatizo com o homem vestindo a Faixa Presidencial. Nunca enxerguei com bons olhos a forma fanfarrona e debochada de suas respostas. Não concordo com a sua percepção de levar tudo para o lado pessoal. Sinto falta de alguém mais diplomático na Cadeira Presidencial, cujo assento é o mais importante do país. Mas, convenhamos, a forma como a oposição o tem tratado, os métodos usados pela mídia na criação de armadilhas para ele se ferrar nas respostas (já que fala o que pensa), está se tornando algo que, em mim, dá ânsia de vômitos de tão eméticos e nojentos que são.

Estão conduzindo esse momento olhando apenas para o peito onde deita a Faixa Presidencial, e como são hipócritas fingem preocupação com o povo.

Tudo quanto o Brasil menos precisa neste momento tão delicado é uma nação dividida e os Três Poderes guerreando entre si.

Quanto ao nosso “Doido Presidente”, talvez ele esteja querendo olhar para os dois lados, não sabendo se expressar como um estadista. Não tem tato e, como falei acima, leva tudo para o lado pessoal.

Talvez se tivesse a postura de Mandetta diria o que realmente pensa, de outro jeito mais educado e menos debochado, e não seria tão atacado. Quiçá lhe falta a diplomacia dissimulada e demagógica da maioria dos políticos. Então, neste caso, eu prefiro o seu ego inflado e “doido”. Porém, sincero.

O Presidente estadunidense Donald Trump e o Primeiro Ministro japonês Shinzō Abe, falaram exatamente aquilo. No entanto, como o fizeram de uma forma mais séria, tampouco enfrentam uma oposição fixando o olhar apenas no poder, nem brigam com uma mídia vil e irresponsável como a que temos visto por aqui, não foram tão execrados como o nosso chefe.

Bolsonaro não tem acolhimento num momento como esse de incertezas. E os que o acolhem, na maioria, são fanáticos tão imbecis quanto os que o atacam pela ambição de mais poder, ou pelo simples prazer de ver o circo pegando fogo.

Uma coisa é certa. No jogo do xadrez ninguém – jamais! – sacrifica o rei.

Apenas a minha visão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VÍRUS BRASILIS

Um sábio me disse assim:
“Em toda grande nação
Existe um povo sabido
Vivendo em união
Mas no meu Brasil querido
O povo é dividido
E vive de confusão.”

Irmão briga com irmão
Até no meio da praça
Um defendendo ladrão
Ou um cão que nem tem raça
Cada um quer ter razão
E o Brasil na contramão
Vê que a política não passa.

Político ruim não se cassa
Sempre tem quem o defenda
Os que brigam não enxergam
Nos seus olhos essa venda
Que o vírus desta nação
É o vírus corrupção
E essa eterna contenda.

Enquanto existe essa briga, com cada um defendendo o seu deletério num fanatismo cego, o mundo pede socorro.

E o Brasil não avança.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

É GUERRA!

É seríssimo este momento no mundo.

O Coronavírus veio para dar uma sacudida em tudo! Em todos!

Mudarão as respostas a partir da mudança dos questionamentos, da evolução dos princípios e conceitos, das práticas e dos métodos; pois, empresas e até países quebrarão.

Cresce cada hora mais a certeza de uma recessão mundial. E não falo aqui dos debates assistidos na mídia entre os apóstolos do caos. Falo dos fatos desencadeando prejuízos já incontáveis.

Para o nosso bem – quiçá sorte – moramos num país rico no setor primário.

Talvez saiamos fortalecidos no âmbito econômico. Será?

Se o Brasil entender de ampliar sua indústria de beneficiamento, quem nos segurará?

Poderíamos ser os novos EUA, em importância assumida, como foram os estadunidenses depois da Primeira Grande Guerra? Somos capacitados para tal?

Tudo dependerá de como se comportarão nossos governos – federal e estaduais – e de como os “Três Poderes” se entenderão entre si, depois da passagem desse tsunami viral. Também dependerá de como nós agiremos, enquanto cidadãos e nação. Principalmente nós!

Ninguém está dizendo, ou percebendo, e se está prefere não falar ainda.

Mas temos vivido dias angustiosos como se em guerra tivéssemos.

Elas, digo, as guerras, sempre serviram historicamente para alavancar as nações. Às vezes até as perdedoras saem fortalecidas, ou se fortalecem com o aprendizado da peleja. Por incrível que pareça.

Eu tenho um livro, cujo título é Civilização – Ocidente x Oriente, do historiador britânico Niall Ferguson.

Fruto de extensiva pesquisa, o livro é uma narrativa interessante demais, abordando o avanço social e tecnológico dos europeus sobre os chamados Reinos do Oriente, argumentando como um dos principais motivos desse desenvolvimento justamente as guerras na Europa e as duas grandes mundiais, além de outros aspectos menores.

Pois bem, estamos numa guerra!

Podemos sair fortalecidos?

Sim. Podemos!

O problema, porém, é justamente esse: somos um país dividido.

Após as grandes contendas ou crises mundiais, os povos dos países desenvolvidos realmente se uniram, cada um em sua nação. Aqui infelizmente se divide ainda mais.

Ontem tivemos um exemplo disso.

Agora, talvez caiba a nós, cada um por si, tentarmos não alicerçar essa disputa infame de “nós x eles” destruindo o nosso país.

No entanto, não obstante esse meu desejo e pensamento de um Brasil maior pós crise Coronavírus, infelizmente o primeiro exemplo de “Estado burro” já deu suas caras.

A Bahia que o diga.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

GALOPE CEGO, SURDO E MUDO

Já tive meus dias de admirador dos movimentos de esquerda, levado pela leitura da coleção Grandes Líderes, obra da Editora Nova Cultural, na segunda metade dos anos oitenta do século passado.

Eu sendo um jovem com pouco mais de quinze anos, antes ouvira do meu amigo Zé Lúcio – eternamente vestido com uma camiseta branca de estrela vermelha silkada na frente, com duas letras vazadas formando o desenho – das grandes lutas por igualdade social travadas mundo afora. Oito anos mais velho, Zé já havia andado pelo ABC Paulista, e me dava gosto ouvir seus depoimentos “da luta de classes”.

Aquilo fazia brilhar meu olhar de jovem inquieto e contestador de tudo.

Aqueles livros, cada um trazendo a biografia de um “grande líder”, contavam-me das lutas e galhardia de homens como Lênin, Trotsky, Stálin, Kruschev, Tito, Fidel, Guevara, Alende, entre outros.

Fascinou-me tanto os ideais do Comunismo, arrimados e reforçados nas conversas com meu amigo Zé Lúcio, que eu mandei pintar nas costas de uma T-shirt a figura de um soldado mascarado cuspindo na bandeira estadunidense.

Eu era um menino franzino de corpo e pequeno de ideias.

Dezesseis anos depois o mundo havia mudado em uma série de coisas. O Brasil principalmente!

Em setembro de dois mil e três, eu já era homem feito e estava assustado com o rumo da intolerância político-partidária vista por mim. Não se podia ser contra quem estava sentado na principal cadeira do país. Também me assustava categoricamente o fanatismo desacerbado em torno daquela figura.

Foi percebendo a religião se formando, que eu escrevi naqueles dias Galope cego, surdo e mudo.

Ei-lo, em letras itálicas para melhor destaque:

GALOPE CEGO, SURDO E MUDO

Galopando em prazeres não experimentados
Segurando as rédeas de um deleite mundano
Exalando brisa pérfida para todos os lados
Segurando o cetro da impiedade como um tirano
Emitindo hálito fétido e sentindo nele alegria
Sorrindo, gargalhando e se alto promovendo
Olhando para trás. Eis toda a cavalaria!
Em tudo muitos, por poucos morrendo.
E os cavalos, eles mais nobres que tudo
Mesmo marcados por ferro tão execrável
Levam guerreiros vendidos, tristes… mudos.
Sorriem da graça desse suborno lamentável.
E o que dizer daqueles que o adoram
Como um ser divino vestido de impurezas
Que de tão vendidos, loucos, imbecis… Por ti, até choram.
Não veem tua estupidez cercada de esperteza.
E de tão cegos, submissos beijam-lhe os pés
Pensam que são as mãos de um nobre santo
Não reconhecem na verdade, esse ser que tu és!
Esperam de ti um simples, um breve acalanto.
Mas em teu galope louco e desvairado
Que atropela até a tua própria moral
Sobre a besta da mentira, vais à frente montado
Desejando a todos, não o bem, mas o mal.
E os fiéis que te seguem sorrindo
Têm em seus rostos essa máscara profana
Por baixo dela um coração se partindo
Apegam-se à mentira que de ti emana
Confiam nela como uma salvação
Percebem o pouco valor que eles, para ti, têm
E o sentimento maléfico que vem do teu coração
Que são usados, abusados e subtraídos também.
Até imaginam a forma de se libertarem
Mas faltam-lhes força e coragem para tal
Pois sentiram dia a dia elas se minarem
Enquanto tu fortalecido, cultivavas o mal.
E mesmo babando cientes dessa triste condição
À qual se obrigaram edificando tua incondicional mordomia
Não enxergam sequer as grades de tão repugnante prisão
Que os cerca a todos, no cerne dessa pseudestesia.

“Ficarão de fora os cães, os feiticeiros, os adúlteros, os homicidas, os idólatras, e todo o que ama e pratica a mentira”. Apocalipse 22:15

Salvei-me!

Depois de haver mudado de ideias e ideais políticos o meu amigo Zé Lúcio deixou de falar comigo.

Ele ainda desfila com a mesma estampa em suas camisetas.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CAÇA E CAÇADOR

De mim mesmo sou um caçador feroz
Virei caça acuada sob uma grande planta
Tento esconder-me, mas pouco adianta
Pois quando corri em minha fuga veloz
Cansei meus pés, caí, presa do meu eu atroz.
Há nos galhos da árvore olhos arregalados
Bicos sedentos, como eu caça também calados,
Das aves de rapina espreitando a minha vida
Sou fera atocaiada e pronta para ser abatida
Oxalá meu algoz perdoe todos os meus pecados!
Eu miro em meu próprio rosto de vincos suados
Diviso o meu desgosto, aguardo o momento
Sob a dor do medo, vivo o meu sofrimento
Vendo-me mirado, são olhos esbugalhados
Do meu eu caçador, de dias tão cansados
Que logo se acabarão, porque serei vencido
Sou uma presa fácil, sou bicho sem bramido
Empunhando a arma da minha desolação
Carregada com os projéteis da minha aflição
Esperando o romper da carne, coração ferido.
(O que será de mim por mim?)
Paro de respirar por um momento
Fecho o olho, vejo a mim mesmo suando.
Sob a árvore.
Debaixo das aves de rapina.
Vejo nos olhos da minha caça, que sou eu
Em meu olhar temeroso, de bicho acuado
Miro.
Minha vida em minhas mãos, sem brilho
Puxo o gatilho
Fui atingido no peito.
(A carne rasgou. Meu coração atingido)
Cresci!

Natal/Julho de 2012