JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PARAFUSO

Eu me lembro daquela tarde quente de um fevereiro no calendário perdido no registro do ano. Não da minha mente.

Nós tínhamos acabado de almoçar, e os pratos ainda repousavam sujos sobre a mesa.

Era meu aniversário e nada demais havia sido feito para aquela refeição. Tampouco existia em mim qualquer expectativa de presente. Papai sentado à mesa, na esquina do móvel, limpava uma laranja girando-a contra a faca, sem deixar se romper a casca. Eu balançava os dois cubos de gelo no fundo do copo, numa água levemente avermelhada do restante do suco sem graça de beterrabas.

De repente ele parou, deixou a casca totalmente retirada no prato e olhou para mim.

Do nada começou a me falar. Senti nos seus olhos calmos a necessidade de me repassar algo.

– Nunca deixe de colocar um parafuso no lugar do prego, quando quiser que a madeira fique mais segura.

A minha juventude não me deixou compreender muito bem aquela alegoria. E ele continuou:

– É sempre mais difícil extrair o parafuso.

Na inquietude de todo jovem, que se alia com a curiosidade própria da idade pouca, eu lhe perguntei “por que o senhor está me dizendo isso?”

Metade da laranja estava ocupando a sua fala. Seus olhos me passaram a mensagem “espere! Já, já eu digo”.

Um silêncio mastigado durou alguns segundos, talvez minutos, enquanto as sementes eram jogadas para fora da boca para a mão dele.

Antes de colocar a outra metade da laranja na boca ele piscou os olhos algumas vezes, olhando pela janela da cozinha aberta para o nosso muro.

– Não sei bem. Só não esqueça. O parafuso dá mais trabalho para entrar. Mas segura muito mais.

Disse isso, colocou a outra metade da laranja na boca, se levantou e saiu.

Nunca mais tocamos naquele assunto, ou falamos sobre algo que fizesse aquele conselho ter algum sentido. Nunca mais.

De vez em quando eu lembrava aquela cena, e um parafuso de incompreensão me tomava o raciocínio.

Até ontem eu não tinha a mínima ideia do que deveria pensar sobre a estranha conversa jamais esquecida em seus pormenores.

Hoje cedo estávamos sentados na calçada da mesma casa e eu tenho a idade que ele talvez tivesse à mesa naquele dia; Papai agora é um homem idoso com Alzheimer, sem a compreensão do que eu represento para ele e, se não fosse o tom sério emprestado à sua fala de vez em quando, eu não poderia dizer que a sua consciência é a do pai que me criou.

Assobiava algo alegre e eu olhava para o seu perfil. Tamborilava no braço da cadeira de plástico e eu olhava o seu perfil.

Do nada, como se um fragmento de qualquer tempo tivesse sequestrado a sua consciência por alguns instantes, ele se virou para mim e disse.

– O cabra só se apresenta parecido com quem ele acompanha.

Eu refleti urgente que Papai estava, do seu jeito, querendo me dizer “diga-me com quem andas, que eu te direi quem tu és”.

Mal deu tempo da frase ser completada em minha mente, ele virou o rosto para a frente e terminou:

– Por isso o sujeito só deve se acompanhar com madeira que segure parafuso. A amizade é de verdade e segura.

De onde Papai tirou isso?!

Não sei. Mas, por alguns segundos eu vi ali o emblema moral do meu velho pai.

Sim! Ali estava meu pai. Se ele não tem essa consciência, eu a tenho.

Doravante, Papai, não apenas nas relações de amizade, mas, em tudo buscarei por madeira que segure parafuso.

Semana que vem farei cinquenta e três anos. O presente veio adiantado.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

FOLIA SAUDADE

Seu Moço, meu carnaval
Eu brinco só na vontade
Ouvindo o som do passado
Bailando sobre a cidade
Marchinha, frevo e samba…
Hoje meu passo descamba
Na folia da saudade.

Seu Moço, hoje me invade
Um bloco de nostalgia
Cantando um samba enredo
Na avenida da alegria
A letra diz que restou
Naquele jovem Pierrot
Só saudade da folia.

Carnaval sem euforia
Sem pandeiro, tamborim,
Sem treme-terra, agogô…
Seu moço, hoje é assim:
O surdo sem marcação
Esvaziaram o salão
Já não chora o Arlequim.

Sinto falta do cetim
Da ilusão por fantasia
Dos confetes, serpentinas
Do apito que fremia…
O lança não me apraz
Eu penso nem sentir mais
A saudade da folia.

Porque sem toda magia
Da batucada contida
Naqueles dias, Seu Moço,
Essa saudade sentida
É folia repentina
Passista tal Colombina
Que passou na avenida.

E se perdeu no passar.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

TEMPO E TEMPO

Um dia puxa um outro
Que puxa um outro dia
Na roda viva do tempo
Seu eixo é pura magia
O seu motor jamais cessa
E o tempo cumpre a promessa
De passar, não se desvia.

Afinal, quem nos diria
Quem rola a roda dos anos?
Ou onde está escrito,
Do tempo, todos os planos?
Se o destino vem traçado
Nele tenho registrado
A minha salva de enganos.

Por meus tiros mais insanos
O tempo abre feridas
São chagas em minh’alma,
Medonhas, tão doloridas
Como eterna endecha
Que o tempo abre e fecha
Em rimas não repetidas.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DUAS GLOSAS

Nesse corpo divino e sensual
Viajei até alta madrugada.

O mote abrindo hoje esta coluna é de autoria do poeta Fernando da Bodega.

Eu o recebi do tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira, pelo WhatsApp, com os seguintes versos:

Quando eu era feliz eu dirigia
Contornando teus pontos divinais
Mapeando na mente teus sinais
Carregando prazeres na orgia
Comulei muito afago nesta via
Sinuosa e de curva acentuada
Beijo longo, gemido, mão suada
Nossos corpos inertes no final
Nesse corpo divino e sensual
Viajei até alta madrugada.

Glosando o mesmo mote, eu lhe enviei os versos meus:

Desejei viajar e acelerei
Pela mesma estrada, à exaustão,
Na boleia da cama a sensação
De que horas sublimes transportei.
Quantas vezes eu me aventurei
Na delícia que é essa estrada
Uma faixa contínua liberada
De paixão, de prazer, de amor carnal
Nesse corpo divino e sensual
Viajei até alta madrugada.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BRECHIÓ. O CORAJOSO

Quando eu me encontro com Zé Bola, filho do velho e inesquecível Muquêi, se é dia vira noite e se é noite vira dia.

Nós conversamos sobre as coisas da terrinha por horas e as risadas são a energia para a prosa se sustentar por si, tudo arrimado nas melhores lembranças do nosso maior patrimônio: as coisas e os fatos retirados do meio do nosso povo mais humilde em sua simplicidade mais genuína.

Encontrei hoje em minhas rabiscadas que há cinco anos eu tive a satisfação de encontrá-lo instalando uma lâmpada na casa de Marluce Nogueira, viúva do meu Tio Ema e ex-sogra de Diana, essa a filha mais velha de Zé.

Os meus rabiscos me dão conta que naquela oportunidade a prosa começou no quarto escuro, continuou com o mesmo iluminado, passou para a sala onde as mulheres conversavam, foi para a área, desceu para a calçada e subiu para terminar umas três horas depois no calçamento da Rua Cipriano Pereira.

Causo daqui, causo de lá, apresentei a obra de Jessier Quirino e lhe falei com orgulho da minha amizade apenas – mas, apenas por enquanto – virtual com Zelito Nunes (que no outro dia jogaria mais sementes de cultura, com o lançamento do quarto livro, no solo fértil das almas matutas), dois exímios contadores de estórias e histórias da gente sertaneja.

Pois bem, e de causo em causo fomos ficando ali no meio da rua, mesmo depois da impaciência das nossas mulheres ter levado ambas, cada uma para a sua casa.

Daí, que Zé Bola, também um bom contador de anedotas e um cabra de lembrança apurada, contou-me uma história pela qual eu desenvolvi especial carinho por se tratar de mais uma presepada de Brechió, de quem, aliás, já falei aqui em outra oportunidade.

Brechió, apenas para relembrar, sofria de certa fraqueza na cabeça, doença que lhe acometia vez em quando. Sentindo o tal “aperto no juízo”, de conta própria pedia ao delegado de Acary para passar uns dias na cadeia, de onde geralmente saía curado vinte e poucos dias depois. No entanto, algumas vezes o internamento em uma casa especializada se fazia necessário.

Em uma dessas vezes, Brechió ficou amigo do Doido da Lanterna. O sujeito era um mossoroense de boa família que, em sua loucura, virava caçador de OVNI’s apontando à noite para o céu escuro o facho de luz de uma potente lanterna.

Como era sujeito de temperamento calmo, assim como Brechió, lhe era dado o direito de ir ao pátio à noite, lugar onde pela manhã os internos tomavam banho de sol. E isso, digo, esse livre acesso, se dava até para poder acalmar a sua ansiedade em encontrar um OVNI e derrubá-lo com a luz da lanterna, da qual não se separava nunca!

Pois bem, contou-me Zé Bola de haver ouvido de Brechió a seguinte história.

Noite escura, luzes da unidade apagadas e no meio do pátio o mossoroense de lanterna em punho, porém desligada. Brechió foi se aproximando. Quando chegou ao lado do colega, o mesmo ligou a lanterna e apontou para o céu. O facho de luz se abrindo e se perdendo na imensidão.

– Tem coragem? – perguntou a Brechió.

– De quê? De matar um bicho de outro mundo? – inquiriu o outro.

– Não. De subir aí – respondeu o mossoroense, acompanhando com um movimento do dedo indicador da outra a mão a claridade feita numa reta quase perfeita se abrindo no espaço, apontando para o facho de luz saído da lanterna e se perdendo escuridão acima.

– Ter eu tenho – respondeu Brechió. – Mas você tá achando qu’eu sou doido, tá?

– Oxente! – Por quê?

– Eu subo, né?, e quando eu tiver lá em cima bem tranquilo, tu vai apaga e eu, ó – falou jogando os dois braços para frente – timbungo no chão e me lasco todinho – respondeu Brechió e acrescentou saindo para o quarto onde dormia: – Sou doido, não, mô fie.

Não era mesmo não. Mas, que tinha coragem de subir, isso tinha.

E de sobra!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MESA FARTA

A fartura na mesa do seridoense é coisa conhecida aqui, ali e alhures. É próprio do nosso povo uma mesa cheia com diferentes tipos de comidas, doce e salgados postos para uma mesma refeição. Não importa a hora do dia, a mesa do seridoense é feito exército em tempos de guerra, está sempre ali, pronta para ser usada.

Em recente viagem ao Rio de Janeiro, na casa de uma seridoense, aliás, em sua cozinha, eu fui praticamente obrigado a fazer duas refeições em menos de três horas. Ouvi da boca da dona da casa a afirmativa que “no Rio quando chega uma visita, eles fecham a porta da cozinha. O seridoense não! Escancara a dispensa e parece, até, querer matar o visitante pela boca”. Sônia de Chico Velho foi quem me despertou para isso tudo, apesar de eu já saber há tempos da fama das nossas mesas.

Tal fato, das mesas fartas, vem de longe sendo apreciado. Não sei bem quem foi o autor – Chico de Seu Bilé me garante que foi o “doutor” Juvenal Lamartine, em seu livro Velhos Costumes Do Meu Sertão -, mas, ainda na primeira metade do século passado alguém escreveu que a mesa de José Braz do Talhado, o primeiro do nome, era a mais farta do Seridó.

E era! Ainda segundo Chico de Seu Bilé, sobrinho do dono da casa, lá se costumava fazer quatro refeições diárias. O café servido antes das seis e meia, o almoço estava à mesa antes do meio dia, a janta vinha pouco depois das dezesseis horas e, por fim, a ceia por volta das dezenove horas no máximo.

Do mesmo Chico ouvi a história que passo a narrar agora.

Seu Bilé acordou cedo para ir às compras em Currais Novos, cidade onde também fecharia alguns negócios. Combinara com Antônio Marrada essa ida.

O sol ainda, não mostrara a cara e repousava frio quando pegaram a camionete, e arribaram em busca da cidade vizinha.

No meio do caminho Seu Bilé sabendo da mesa sempre posta na casa do cunhado, sem delongas ou falsa etiqueta, resolveu fazer uma visita de surpresa a fim de realizar a primeira refeição ali.

Depois da alegria demonstrada dos donos da propriedade pela visita inesperada, dos cumprimentos e das bênçãos de Seu Zé Braz Velho e Dona Cantídia, sua esposa, ao afilhado Antônio Marrada, as perguntas tradicionais nesses tipos de chegadas foram feitas, respondidas e o grupo seguiu para se sentar no grande alpendre frontal, onde bancos de madeira maciça davam à parede da grande construção as vezes de espaldar.

A casa já se encontrava movimentada, com gente saindo e entrando e, na cozinha, as tapiocas e outras comidas sendo feitas. O cheiro das carnes e de queijo tomando conta do ar.

Uma boa conversa corria solta e os primeiros raios de sol chegavam ao alpendre, quando alguém anunciou na porta que o café estava pronto.

Os donos da casa, gentis, deram passagem para Seu Bilé e Antônio adentrarem pela sala espaçosa cheia de retratos dos velhos antepassados, passando por uma espécie de saleta para irem todos até uma segunda sala grande, onde a mesa estava posta. Seu Bilé e Seu Zé Braz seguiram bem devagar na frente tratando de negócios, conversando sobre chuvas, sobre gado, sobre safra de algodão… assim chegaram e se sentaram à mesa.

Bolos, biscoitos, cuscuz, leite, coalhada, canjica, pamonha e milho, mais café, frutas, sucos, pães, tapiocas, broas, carnes, ovos… e queijos. Queijos de coalho e de manteiga, já fatiados, cada tipo em sua própria travessa.

Todos começaram a se servir. Numa espécie de ritual puseram o café nas xícaras, trouxeram as tapiocas aos pratos, e foram separando cada um a sua comida.

Antônio Marrada esticou-se até o meio da enorme mesa e pegou a travessa do queijo de manteiga. Trouxe para junto do peito e com um garfo foi depositando as fatias em seu prato. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… a metade!

Já se esticava novamente para devolver a travessa ao seu lugar de origem, quando Seu Zé Braz, vendo o exagero de queijo em seu prato, advertiu o afilhado:

– Antônio, lembre-se que os outros também gostam de queijo.

Nesse momento Antônio já tinha encostado a travessa de volta à mesa, embora não a tivesse largado de tudo. Mas, num impulso, recolheu-a de novo para junto do peito e, empurrando o restante do queijo para o prato, foi respondendo:

– Mais do que eu, eu duvido, padrinho.

Ô medo fila da mãe de ficar sem queijo!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

D. ELI

Eu quero dividir com vocês uma experiência que vivi ontem, não tão singular assim, mas, que envolveu o meu espírito e me trouxe algumas reflexões.

Não sei se por estarmos nesse período dito como das Boas-Festas, ou porque há dias eu quis desacreditar no futuro e na idoneidade da natureza humana quando vi perdoados R$ 10bi de um “réu confesso”; dinheiro que anda faltando em tantos lares e projetos neste Brasil de corruptos ricos e de honestos paupérrimos.

Minha narrativa começa em agosto quando minha mulher precisou passar por uma cirurgia, e tivemos que contratar alguém para nos auxiliar nas tarefas domésticas por um mês.

Nós fomos apresentados por uma nossa comadre à Sra. Eli (aqui revelo apenas o começo do seu nome).

Embora da minha idade, mais velha apenas dois anos que minha mulher, D. Eli é bem baixinha e traz no corpo as marcas da dureza de sua existência e no rosto as linhas deixando-a como se tivesse a idade de uma década a mais.

Há anos desempregada, D. Eli vive em uma casa sem reboco no subúrbio de uma cidade vizinha à nossa capital. Para vir trabalhar em nossa casa, anda dois quilômetros, pega duas conduções.

O marido desempregado há quatro anos, depois de haver perdido os movimentos da mão direita num acidente doméstico, vive em luta com o INSS tentando receber algum auxílio. Em vão.

Na casa moram mais uma filha do casal – a única carteira assinada, como garçonete num restaurante – e duas netas menores de idade.

Além do dinheiro da filha o capital que entra no lar deles são dos bicos do homem e das faxinas de D. Eli.

Depois do mês aqui em casa, com algumas limitações cognitivas, ainda assim nos afeiçoamos a D. Eli. Nossos filhos criaram carinho por ela também. Tenho certeza que pela simplicidade da pessoa que ela é.

Então resolvemos que D. Eli ficaria vindo de vez em quando fazer um trabalho aqui.

Ontem ela veio.

Muito calada, D. Eli às vezes fala e desabafa em sua voz baixinha. Mas, ontem, com extrema alegria ela embalou em uma conversa para nos contar do orgulho de haver participado de uma homenagem na escola da neta mais velha: a menina foi a melhor aluna do ano.

À tardinha, serviço concluído, agradecemos a D. Eli por sua ajuda e seu cuidado.

Desejamos um Ano-Novo melhor e a abraçamos com carinho.

Fiz o PIX.

Coloquei o dobro do acertado. O que foi passando sendo uma espécie de bônus.

Não lhe falei nada.

Mais tarde a filha de D. Eli ligou para minha esposa.

Educadamente perguntou como estávamos e prosseguiu quase sem deixá-la falar:

– É que eu vim com mãe aqui no banco sacar o dinheiro, e seu marido errou quando fez o PIX. Ele botou “X” – e sem esperar qualquer resposta, ela emendou: – a senhora me dê sua chave PIX que eu quero lhe devolver o que passou.

Minha mulher lhe pediu desculpas por eu não haver falado, e lhe revelou que era um bônus de Boas-Festas.

Então ouvimos a voz de D. Eli nos agradecendo e pedindo a Deus por nossas vidas.

De ontem para cá pensei muito sobre muitas coisas. Entre elas do quanto o nosso povo mais simples carrega em si o preceito do que é correto. Do que é direito.

E chego à conclusão que honestidade não é uma questão de direito. É de caráter.

Muitas vezes onde mais sobra riqueza é justamente onde mais falta caráter.

Pelo ato de D. Eli, ontem, eu vi que há esperança para o nosso povo. E eu não posso desacreditar nele.

Feliz Ano Novo para vocês todos.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CORAÇÃO SEM BOLOR

Tem coração que não mofa
Porque outro nunca deixa
Vivendo um amor bem pleno
Sem brigas ou qualquer queixa
Coração par de alegria
Onde o amor nunca esfria
Nem a paixão se desleixa.

Eu tenho um assim.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BO(DEG)A LEMBRANÇA

O saudoso Gabriel Severiano, bodegueiro em Acary (RN), terra deste colunista

Tenho muito pensado ultimamente
O progresso às vezes é tacanho
E nos traz prejuízos sem tamanho
Nos deixando mais pobres no presente.
Quantas coisas eu trago em minha mente
Outro tanto o meu peito é quem carrega
E a saudade que em mim nunca sossega
Só me traz coisas ricas do passado
Eu não quero o maior supermercado
No lugar que guardei minha bodega.

Dessas minhas lembranças que são caras
De nenhuma eu quero esquecer
Fecho os olhos somente para ver
Certas coisas que hoje são tão raras.
É memória que a nada se compara:
Uma roda de homens educados
Conversando em nada apressados
E por trás do balcão quase dormindo
Um feliz bodegueiro se sentindo
Como o dono de mil supermercados.

Numa caixa de vidro e de madeira
Ele tinha biscoito, broa e pão,
Afastados das barras de sabão,
Do arroz, do feijão e da brejeira.
Tinha açúcar, farinha e peneira,
Margarina, sal fino e chinelas,
Penduradas no teto umas panelas
Sobre vinhos, cachaças, aguardentes,
Frisos, ligas, marrafas e dos pentes
Noutro canto pendiam mortadelas.

Uma faca comida pelos anos
Enfiada na barra de sabão
Era amiga do fumo, lá no chão
Repousando em rolos sobre panos.
Na entrada eu via dois bichanos
Bem deitados no meio do portal
Tinha um maço cortado de jornal
Que servia de embrulho num momento
Para não se perder no vem do vento
Repousava seguro sob um pau.

No balcão de azuis já renovados,
Alguns cremes, perfumes de bons cheiros,
Brilhantinas, espelhos e isqueiros,
Cada um por um vidro separados.
Os cigarros ficavam bem guardados
Mas, com uma carteira a granel
Tinha agulha, tesoura, carretel,
Mais os fósforos… vela, lampião!,
Vermelhando o azul desse balcão
A balança honesta em seu fiel.

Numa peça de vidro que rodava
Os confeitos e doces, mais chicletes,
Chocolates baratos em tabletes,
Pirulitos ali também se achava.
No cliente o dono confiava
E nem sempre vendia no dinheiro
Se por cofre se tinha o gaveteiro
Escondido num canto do balcão
A palavra valia tal cartão
E por pix a fé do bodegueiro.

Lá no teto, se olhar atentamente,
Vejo até na lembrança me tomando
Uma aranha sem pressa projetando
Um tear de saudade em minha mente.
Tudo isso eu vejo no presente
Me chegando em pontos bem lembrados
Como um velho caderno de fiados
Caderneta escrita no guardar
A bodega gostosa de lembrar
Que não dou nem por mil supermercados.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

APELIDOS

Quando um dia você for em Acary, pouco adiantará perguntar por José Euzébio da Silva. E Francisco Sales da Silva? Nem adianta inquirir sobre Maria Auta de Sousa?

Todos esses aí têm apelidos, e é sobre os apelidos que eu quero falar.

Numa cidade pequena eles são comuns. Afinal, todo interior é igual. Aqui em Acary não é diferente e tem para todos os gostos, entre vivos e mortos, passado e presente. Quer ver?

Só no reino animal teríamos: Gata, Boi Galego, Mosquitinho, Carneiro, Bode, Gavião, Carcará, Rôla Cigano, Baratinha de Kéca , Pinto de Granja, Barata, Gabiru, Rato Bala, Ratinho, Foca, Tejo, Leão, Leitão, Urso, Aranha, Piranha, Patin de Elói, Grilo, Peixinho, Caçote, Piaba, Sapo, Morcego, Macaco, Galo Véi, Porquinho, Cabra Cega, Furão Barbino, Zé Guiné, Novilha, Burrego, João Grilo, Tourin, Galo Assado, Mosquito de Viria, Mané Galinha, Cão-não-morde, etc.

Aí, se a categoria for geral, lá vem: Sapato, Prego, Caitipa, Cu Cagando, Novo, Dão Velho, Tonéa, Gueitão, Lorin, Tola, Tanga, Baía, Íti, Gaguin, Farinha, Cuscus, Bombom, Mestre, Tita, Ema, Lula, Bóca, Babau, Bola, Nego, Seú, Fifin, Pão, Bura, Pinta, Botinha, Vareta, Pacanã, Loro, Trem Virado, Puruega, Cuia, Zibéu, Zé Brinco,Tabaco de Bode, Tabaco de Alumínio, Tabaco de Pau, Leca, Bada, Lelinha, Zé Buíte, Baco, Ôi Pidão, Paraná, Tanda, Biu, Duau, Neguin, Zinha, Fia, Bugrão, Rutin, Hominho, Loló, China, Tota, Papinho, Nadim, Tucão, Boy, Bolo Preto, Pacuíte, Carranca, Pezinho, Shortinho, Pitena, Deusinha, Tuvado, Roleta, Pixilinga, Dioca, Bitira, Boneca, Cebolinha, Buíta, Capela, Nino, Pitola, Gorda, Baiaca, Toquinho, Tuíca, Brilux, Gardo, Cutila, Balá, Sinagoga, Novinha, Tutinha, Chico do Grude, Lamparina, Buá, Aruá, Juá, Dudé, Tenoca, Bia, Dida, Caco Véi, Pitoco, Guriba, Suvelão, Brinquedo, Bigodin, Dora, Garapa, Mima, Bidoca, Inháu, Pelé, Zico, Garrincha, Sukita, Binha, Geba, Loloca, Rivinha, Tíu, Pitíu, Nenén Bascúi, Brejeirim, Big Big, Chiola, Zé Tampinha, Lilía, Veinho, Chorento, Pimba, Dig, Paizinha, Taí, Nuna, 3 Kilos, Pindoba, Bila, Uau, Chapuleta, Apaga Luz, Canjerê, Zé Cocó, Gugué, Dila, Nineca, Caboré, Cara Suja, Macola, Guaxelo, Guaxite, Bebé, Leleco, Ki Coisa, Zé Mandu, Tronco, Zé Mundrunga, Pilão, Ganga, Surrupei, Coquinho, Paluca, Mucamba, Piba, Pirola, Côta, Dodó, Melé, Bonitin, Bobina, Arranhado, Frequé, Guaxinin, Uivé, Cherin, Gordo, Suvaqueira, Faca Cega, Brigadeiro, Pililiu, Manga Rosa, Xôxa, Castelo, Bimbo, Piau, Cara Cuta, Zé Caveira, Bóin, Roseira, Bagaceira, Quíria Biscoito, Pipim, Cascatinha, Pão de Bóia, Batatinha, Tenente, Sol Quente, Coronelzin, Lua, Blecaute, Chiclete, Peninha, Zé Birro, Goipada, Titina, Varetão, Popinha, Muela, Meu Cacete, Nozinho, Candoca, Pompom, Guchinha, Racego (emenda de rato com morcego), Doutô, Lota, Espirro, Furico (também chamado de Cuzin), Popó, Guelão, Espaia Brasa, Gilú, Careca, Gabilão, Camonge, Rasgão, Keto, Tuíca, Má Feito, Lampadinha, Lanchão, Pixototin, Duduca, Come Longe, Guidome, Carrasco, Babalu, Boy Tico, Querida, Bino, Cheirosa, Pintado, Cabôco, Da Lapa, Nuca, Liú, Catolé, Pilóia, Pernambuco, Ditinha, Perna Santa, Brancoso, Bineca, Aritana, Chicola, Sebin, Zomim, Chica Preta, Bebe Água, Cambeba, Espigarto, Zé Oião, Parêia, Quincó, Tulu, Gambêu, Bufa de Alma, Maria Mosquito, Pedro da Porca, Pedro da Ponte, Antõe Oião (também conhecido por Capela de Vaca), Bolacha, Priquito de Pau, Bidoca, Couro Cru, Bia, Caçarola, Papêro, Papêrim, Bilocão, Quixaba, Tílio, Lindo, Divino, Lóla, Lindreza, Mané Golinha, Guardinha, Bião, Sunga, Curinga, Brécia, Barbinha, Buda, Pacato, Cruel, Anil, Punaré, Guiô, Buéca, Cria, Déo Porreta, Bizéu, Nôin, Decate, Cióba, Tantão, Burdão, Carrasco, Bióta, Guaru, Tramela, Caneludo, Cocó, Primin, Pequeno, Suruca, Cizal, Coqueiro, Peruquinha, Mocinha, Tantico, Gotinha, Dedé Testão, Bulú, Santa, Bidu, Santo, Xaréu, Donzela, Cenourinha, Polaco, Manchete, Espirro, Coceira, Moleza, Baca, Mimosa, Chiquinha Ventura, Caçarola, Caldeirão, Uver, Meu Bonito, Balão, Dã de Deca, Boca Torta, Zé Dedão, Dom Ratão, Perneta, Lebrin, Nitona, Pozinho, Zé de Tuda, Candura, Sobrinha, Biró Belém, Saigado, Inçoso, Docin, Zé Destão, Li Cocão, Póca, Atinha, Butija, Vaqueirão, Piolho, Bufeira, Xupa Cabra, Parrudo, Pêinha, Lambe Loiça, Rural, Cafífi, Galetão, Xexéu, Goiamum,Tabajara, Mossoró, Lofreu, Cibite, Baique, D. Efa, Sucata, Xuxinha, Rinha, Nôca, Charuto, Tesourinha, Bezerrinha, Fungado, Floquim, Renato Rico, Chei de Prega, Burro Preto, Cebim, Grachielli, Famfam, Urêa, Ze Bio, Pilola, Presença, Badraba, Mucuin, Papai Oião, Zé Oião, Pente, Tico de Campinadeira, Bilau, Miolo, Toinho Quixó, Bodeiro, Novin do Brega, Deíta, Méda Véi, Pitita, Sorriso, Capitão Caverna, Quenebau, Tampa, Bague, Senhora, Pororoca, Cabelouro, Guigúi, Ponxe, Zarôi, Formigão, Murubinha, Corujinha, Cacuruta, Piquinita, Biritinha, Papagaio, Torrão, Zé do Peido, Fulor, Bitir, Vituca, Trapiá, Aima de Boi, Xirrarrá, Beiçola, Misto, Canção, Catemba, Mª Brejuí, Cafuçu, Cafuringa, Bad Boy, Mil, Piano, Contente, Muriçoca, Biúla, Minador, Trombada, Panteiga, Jararaca, Relampo, Bigodin, Haja Peido, Cristo do Bode, Chica Vintém, Güelo, Torrado, Vara Verde, Milioito, Bigobáu, Boréu, Rasga Olho, Mulambo, Rerré, Borrão, Bigodão, Cachimbão, Cachimbo Eterno, Suvaco, Bebin, Braiado, Muquéi, Dondom, Rei de China, Chuí, Móca, Zóca, Cabo Véi, O Grande, Coucoá, Quingó, Galamprão, Alça, Neco Quarador, Zé da Prestação, Gandinha, Xulêga, Jati, Didin Anão, Zé Moita, Queléu, Zaga, Breguesso, Chupa, Capacete, Cascudo Barbado, Júnior Cururu, Daguia Peba, Maria Bacurau, Câinda, Chico Buriti, Manduca, Palito, Baixinho, Tapuia, Paulo Poiqueira, Trubana, Zé Minhoca, Gambão, Alemão, Fuscão Preto, Rela o Prego, Pirulito, Primoca, Bilrin, Amigão, Caca, Ramin, Zé Bola, Gaída, Quick, Puiga, Gorducho, Dezinho, Fanquinha, Cigano Rôla, Chupa, Baixinho, Biruca, Tupete, Ladeira, etc… etc… etc…

Tem famílias que adotam apelidos em quase todos os seus filhos.

Lá em Zé Mariano, por exemplo: Zé Velho, Bebé, Téu, Cola, Menininha, Galega, Deda, Preta, Bolinha gêmea com Bolão e Santo.

E tem famílias que adotam apelidos como sobrenome, os Mago, os Guiné, os Mororó (parte da família Marques), os Peba, os Côco, os Maranganha (quando não morde abocanha), os Nêgo Félix, os Pinéus, os Januário, os Cuscus, os Tacaca (com orgulho sou um deles), os Muelas, por exemplos.

Tem até gente que ganha apelido e passa a ser conhecido como um astro, como era o caso de Beto Barbosa (Claudinho de Tantico) e Elba Ramalho (Gargalheira).
Mas, você deve estar se perguntando quem são as pessoas acima tratadas por nomes próprios? Bom, o José Euzébio é o meu pai, ou seja, Miúdo. Francisco Sales, era meu Tio Lolô. E quanto a Maria Auta de Sousa, foi a saudosa Dona Tum.

Numa cidade onde os apelidos são tão usados, até as praças ganham esse destaque. Não há quem passando por perto da Praça Antão Lopes de Araújo, não aponte para dizer que ali fica a Praça da Caraca.

PS.: Os apelidos acima são todos aceitos por seus donos. Ninguém se ofende. Ao contrário, há gente que quando é chamado pelo nome nem atende. Esqueceu de como fora batizado.