Um dia eu cheguei na Bodega de Pacanã e o encontrei, como sempre, sentado à esquerda do balcão, com a cabeça baixa e tamborilando com os dedos da mão direita na madeira do móvel que escondia o resto do seu corpo.
Assobiava baixinho alguma coisa quando se deu conta da minha presença. Os dedos pararam orquestrados inconscientes no mesmo momento quando cessaram as notas do seu assobio. Ele levantou a cabeça e olhando para aquele ponto invisível enxergado apenas pelos cegos perguntou “é você Jesus?”, pois sabia da minha chegada ali, cartesianamente depois das treze horas e quinze, sempre captada pelos seus ouvidos atentos, por mais que eu procurasse não fazer barulho. É que eu gostava de observá-lo em seu mundo sem imagens, mas recheado de sons perfeitos nos assobios da sua solidão, acompanhada das batidas compassadas dos seus dedos. Respondi que sim.
Dona Neve ouvindo a minha voz, lá de dentro, gritou que já estaria chegando. E, não sei quanto tempo se passou, mas hoje a minha lembrança me diz algo de uns cinco minutos. Surgiu na porta com aquele seu corpão pesado, se arrastando de encontro ao balcão. Nas mãos trazia a Bíblia de capa escarlate com desenhos em plástico especial permitindo que os personagens ali retratados se movessem. O Cristo na cruz, por exemplo, fechava os olhos e pendia a cabeça, representando o instante da entrega do seu espírito.
– Ricardo – era assim que ela chamava o seu esposo, pelo nome próprio – me disse hoje cedo que quer a leitura de três Salmos de Davi – falou enquanto colocava o livro sobre o balcão, indo sentar-se um pouco à frente de Pacanã.
– Você pode escolher qualquer um – me ordenou Pacanã. – Mas, quero três.
Eu virei o livro deixando-o na posição certa e comecei a procurar pelos Salmos de Davi entre as suas páginas.
Se hoje eu dissesse quais foram as três passagens lidas naquele dia, estaria mentindo e maculando a memória daqueles dois anjos encarnados. Não lembro. Afinal, lá se vão, no mínimo, umas três boas dezenas de anos. Mas eu recordo bem de uma coisa. Ao término daquelas minhas leituras diárias, Pacanã e Dona Neve ficavam colhendo ensinamentos e discutiam entre si com reflexões retiradas do texto lido por mim. Naquele dia não foi diferente. E embora eu fosse ainda muito menino, de vez em quando pediam minha opinião. Hoje eu sei o motivo. Queriam a certeza se eu estava conseguindo captar os ensinamentos que desejavam me passar.
Bom, eu também não lembro a razão de Pacanã de repente pedir minha atenção numa coisa.
– Você sabe o que é um monge, Jesus? – perguntou-me como se olhasse por trás das lentes escuras em minha direção.
– Acho que sim – respondi encabulado. – É um homem religioso que abandona as riquezas para viver quase sem nada?
Ele ficou parado. Certamente refletia sobre a minha resposta. Talvez contemplasse a minha proposição sob a falta de visão que lhe afligia. Depois me explicou o que seria um monge, falando algo que eu hoje me lembro ter sido dito mais ou menos assim:
– Geralmente, também, abandonam todo e qualquer tipo de prazer e se dedicam inteiramente à contemplação da vida – respondeu-me abaixando a cabeça. – Dependendo da religião e do Deus em quem acredita. Às vezes o nome monge vira outro nome. Mas preste atenção na história que eu vou lhe contar – pediu-me levantando um pouco a voz.
Tanto Pacanã quanto Dona Neve gostavam de contar histórias. As narradas por Dona Neve envolviam heróis destemidos, reis e rainhas, príncipes e princesas, bruxas, feiticeiras, castelos e tesouros, animais que falavam… eram estórias deliciosas, formando rodas de meninos para ouvi-la.
Então, Pacanã começou a narrar sobre dois monges viajando e tendo por estrada e orientação a ribeira de um rio. Como havia chovido o rio estava com bastante água. Em dado ponto da viagem deram com uma jovem chorando em desespero. Um dos monges se aproximou e perguntou-lhe o motivo daquele pranto. A moça lhe respondeu que morava apenas com sua avó já bem velha, numa choupana do outro lado do rio. Havia acontecido de atravessar de um lado para o outro, logo muito cedo, para colher frutas frescas para a senhora. Mas acontece que as águas tinham se avolumado de repente. Agora se via sem condições de ir ter na outra margem, com a avó adoentada, já que não sabia nadar.
O monge, então, de súbito, colocou-a nos braços e atravessou a jovem para o outra margem do rio, deixando-lhe segura em terra firme. Depois voltou para o outro lado onde encontrou o companheiro de jornada. Puseram-se a andar novamente tendo o curso do rio como direcionador.
Já haviam caminhado duas horas quando o monge que ficara parado resolveu falar.
– Irmão, você teve contato com a carne daquela jovem quando a pôs em seus braços. Não sente remorso?
Ao que o outro lhe respondeu:
– Eu a pus no chão, deixando-a em segurança, há duas horas. Você, no entanto, carrega-a até agora em sua mente e eu vejo que isso é demasiadamente pesado.
Seguiram subindo e descendo pedras em silêncio, acompanhando o curso do rio.
Ouvindo a história de fácil compreensão até para o garoto que eu era, também me calei. Fechei a Bíblia, que estivera aberta o tempo todo sobre o balcão, e entreguei empurrando-a de encontro a Dona Neve. Ela levantou-se calada, aconchegou o livro contra o peito abraçando-o com ambas as mãos e voltou para o interior de sua residência.
Ficamos Pacanã e eu na bodega. Ele de cabeça baixa. Eu por ali, refletindo sobre o que acabara de ouvir.
– Jesus – chamou-me novamente -, muitas vezes um bem feito deve ser esquecido para que se tenha paz. E se devemos esquecer certos bens praticados por nós, imagine o mal de quem somos vítimas.
Falando isso, começou a assobiar e tamborilar no balcão de madeira. Cabeça baixa.
Depois daquela tarde já li várias vezes, em diferentes cantos a estória contada por Pacanã. De diferente mesmo, apenas alguns poucos elementos. O ensinamento segue o mesmo há trintanos.
Agora aquele menino magrelo é um homem de quarenta e dois anos, se esforçando para não se lembrar de alguns atos bem praticados, a fim de não cair na tentação de cobrá-los de alguém e empregando meios de não esquecer alguns erros, esperando não cometê-los outra vez mais. Porém, se deleitando em não desprezar jamais a lembrança e a saudade de gente como Pacanã e Dona Neve.
Deles eu quero me lembrar sempre. Até que o senso me seja retirado de tudo. Assim sigo em paz e feliz, carregando-os nos braços das minhas melhores recordações.
(Escrito em 2013)