Eu recebi no final de sexta-feira, vinda do poeta Chico Potengy, a poesia de sete versos copiada ipsis litteris abaixo:
Aquela casa pequena Bem no “beiço” da estrada Foi se embora o morador Que a deixou desocupada E ao contrário do que era Hoje é só uma tapera Pra muitos, “malassombrada”.
Versos de Chico Potengy Barcelona /RN. Em 4 de abril de 2025
Motivado pelos belos versos do poeta Chico Potengi, eu lhe respondi assim, no mesmo estilo, em duas septilhas:
Daquela velha casinha Já caiu a cumeeira As telhas foram ao chão Estão virando poeira Que o vento leva embora Quem passa, lhe vendo chora, Sem cruzar sua soleira.
Nos portais não tem madeira As paredes se curvaram Perante o peso dos anos Sol e chuva lhes racharam Só resta o eco das falas Do passado, em suas salas, Nas lembranças que ficaram.
Voltando às Glosas Fesceninas que há tempos não publico, hoje eu trago uma para diversão dos leitores com a graça que esse estilo pitoresco sempre emprega.
Ei-la:
Essa moça deu uma trabalhada Capinou direitinho o meu quintal Tanta força ela fez pegando o pau Que ficou com a mão, tadinha, inchada. A enxada que usou ‘tava amolada E usada com muita maestria E subia, descia e subia Pra descer outra vez cortando mato O trabalho da moça, embora chato, É tão bom que eu repito todo dia.
Eu observo as pessoas Reféns de suas escolhas Vivendo como em bolhas Em vidas que não são boas. Majestades sem coroas Ou fé que lhes seja escudo São frágeis, eu não me iludo, Vendo a nação apertada Não colocam Deus em nada Culpam-Lhe por quase tudo.
Vasculhei meus cadernos do passado Fui em busca daquela anotação Numa frase escrita sob a lágrima Que caíra borrando o coração Bem a lado da frase, rabiscado No papel, de grafite sombreado Denotando anseio e paixão.
Procurando aquela inscrição Num caderno de páginas grudadas Com cuidado abrindo e separando Suas folhas já tão amareladas Encontrei seu retrato desbotado Três por quatro nas costas dedicado Com paixão em letrinhas caprichadas:
Final de janeiro eu fiquei hospedado uma semana inteira num hotel em João Pessoa.
Logo na segunda-feira quando desci ao restaurante me deparei com três mulheres à mesa.
Sentei de frente para uma delas, a mais velha, e fiquei às costas das outras duas.
Quando a refeição delas chegou – um frango lá – a que estava de frente para mim fez uma careta logo após mastigar a primeira garfada levada à boca.
Eu já havia sido vítima daquele prato. O frango vem “emborrachado”. Ruim.
E eu, com essa minha mania de conversar com todo mundo, olhei para ela e perguntei “emborrachado, né?”
Ela perguntou “o quê?”
Eu voltei a falar “o frango. Vem como se fosse emborrachado.”
Então ela num portunhol bem carregado pediu que eu falasse mais devagar para poder me entender.
Eram do Paraguai.
As duas de costas para mim, depois descobri, eram mãe e filha.
Tinham cara de médicas. As três.
Não me perguntem o motivo dessa minha impressão. Eu não saberia explicar.
Dois dias depois, no café da manhã, eu procurava um lugar para sentar. Com uma bandeija nas mãos e faltando lugar, elas gentilmente me ofereceram a quarta cadeira à mesa onde estavam.
Eu aceitei. A conversa fluiu naturalmente com a mocinha servindo de intérprete quando as palavras se complicavam.
Eu pensava “são médicas”, mas ao mesmo tempo eu desistia dessa possibilidade pelas roupas vestidas. De uma simplicidade!
Quando perdi a vergonha eu lhes perguntei se eram médicas.
Responderam que não. A moça cursava realmente a faculdade de Medicina, mas as duas senhoras eram juízas em Assunção.
Juízas!
Eu fiquei tão chocado pela diferença com as juízas brasileiras no jeito de “se vestir” que até desconfiei que fosse mentira.
À noite eu estava no restaurante quando o trio chegou. Sentaram-se todas de costas para mim.
Mas a mais velha, que aparentava ter uns sessenta anos, se virou quando por coincidência chegou um amigo meu e me cumprimentou por “poeta”.
Daí houve um interesse dela por saber da minha obra.
Trocamos os perfis do Instagram e passamos a seguir uns aos outros.
Lá eu pude constatar eram juízas de verdade.
Mas eu, acostumado com o glamour do cargo aqui no Brasil me questionei “por que se vestem tão simples?”
Fui pesquisar no Google o salário de um juíz no Paraguai. É o equivalente a R$ 3.600,00 reais. Cerca de um salário e meio do mínimo deles.
Não sei se isso lá tem a mesma proporção salarial que o cargo aqui no Brasil tem, com um juíz ganhando mais de vinte salários mínimos, fora “vantagens”.
Mas, como eu sei que esta gazeta é frequentada só por gente sabida, há de aparecer alguém para nos contar.
Quem pensa que a vida é longa Traz a alma desvalida Não sabe o custo do tempo Ou de uma hora corrida Vive a vida à revelia Sem saber que num só dia Se vive toda uma vida.
Desvaloriza a medida Mais importante do mundo Não contempla o saber Do pensamento profundo: Que o tempo é uma tesoura E a vida mais duradoura Ele corta em um segundo.
A foto que ilustra essa postagem é uma criação de IA
O meu pai já não anda como andava Os seus passos são curtos, estão lentos Já não sabe quem é por uns momentos E esqueceu quase tudo que lembrava. Olvidou de quem mais ele amava Seu olhar vai perdendo o belo brilho A memória virou um empecilho Sua mente sofreu um grande lanho Para ele eu sou só mais um estranho Mas eu sei muito bem que sou seu filho.
O meu pai já não sabe quase nada Os prazeres que tinha lhe escaparam As palavras lhe fogem, rarearam, Sua voz está baixa e arrastada. Já não sabe onde é sua morada Quer sair mas não sabe aonde vai Se perdendo na rua quando sai Seu caminho é sem norte, é sem trilho Já não lembra de mim, que sou seu filho, Mas eu sei muito bem quem é meu pai.
O meu pai troca a noite pelo dia Já não dorme direito, o sono atrasa, Se levanta vagando pela casa Volta à rede e deita onde dormia. Foi exemplo de calma e alegria Hoje é triste, também fica feroz Se irritado levanta sua voz Com palavras que nunca nos falou O meu pai não se lembra quem eu sou Mas eu sei muito bem quem somos nós.
Eu tenho recebido de alguns amigos a foto do calendário no ano de 1969. Esses amigos ficam espantados porque o referido período é igual ao ano de 2025.
Sinceramente eu não entendo o espanto. Porque embora a coisa não seja tão simples, porém, não possui nada de extraordinária no fato de 1969 ter as mesmas combinações de data-dias de 2025. Isso também se deu em 1975, por exemplo, bem como em tantos outros anos.
O Calendário Gregoriano se repete em ciclos por causa da combinação de dois fatores, que são o Ano Solar (o tempo que a Terra leva para dar a volta no Sol, também chamada de Translação) e a divisão desse ano em dias (volta da Terra no próprio eixo, ou seja, a Rotação).
Então. O Calendário Gregoriano divide o ano em 365 ou 366 dias nos anos bissextos (porque o dia não tem 24 horas exatas).
Sem contar que também de tempos em tempos há um ajustes no ano solar – que também não é exato – e ajuste no próprio Calendário Gregoriano (isso a cada 400 anos).
Mas, enfim, nós podemos perceber a Matemática e seu processo cartesiano nos anos iguais a 2025, para que o calendário não entre em parafuso.
Andei pesquisando o Calendário Gregoriano na Internet e vi as seguintes “coincidências” com o ano em curso:
Em 1902, 1913, 1919, 1925, 1936, 1947, 1958, 1969, 1975, 1986 e 1997 no século XX.
E em 2003, 2009, 2014, 2025, 2031, 2036, 2047, 2053, 2059, 2065, 2071, 2082, 2088 e 2099 no século atual.
Bom. Eu percebi que há períodos de seis em seis anos, alternados com onze e onze anos, para as repetições de data-dias.
Eu não entendi a lógica, embora tenha falado do processo cartesiano.
Mas, eu aposto, que há de aparecer algum leitor fubânico com uma resposta.
Quando eu me encontro com Zé Bola, filho do velho e inesquecível Muquêi, se é dia vira noite e se é noite vira dia.
Nós conversamos sobre as coisas da terrinha por horas e as risadas são a energia para a prosa se sustentar por si, tudo arrimado nas melhores lembranças do nosso maior patrimônio: as coisas e os fatos retirados do meio do nosso povo mais humilde em sua simplicidade mais genuína.
Outro dia tive a satisfação de encontrá-lo trocando uma lâmpada na casa de Marluce Nogueira, viúva do meu Tio Ema e sogra de Diana, essa a filha mais velha de Zé.
Nisso a prosa começou no quarto escuro, continuou com o mesmo iluminado, passou para a sala onde as mulheres conversavam, foi para a área, desceu para a calçada e subiu para terminar umas três horas depois no calçamento da Rua Cipriano Pereira.
Causo daqui, causo de lá, apresentei a obra de Jessier Quirino e lhe falei com orgulho da minha amizade apenas – mas, apenas por enquanto – virtual com Zelito Nunes (que no outro dia jogaria mais sementes de cultura, com o lançamento do quarto livro, no solo fértil das almas matutas), dois exímios contadores de estórias e histórias da gente sertaneja.
Pois bem, e de causo em causo fomos ficando ali no meio da rua, mesmo depois da impaciência das nossas mulheres ter levado ambas, cada uma para a sua casa.
Daí, que Zé Bola, também um bom contador de anedotas e um cabra de lembrança apurada, contou-me uma história pela qual desenvolvi especial carinho por se tratar de mais uma presepada de Brechió, de quem, aliás, já falei aqui em outra oportunidade.
Brechió, apenas para relembrar, sofria de certa fraqueza na cabeça, doença que lhe acometia vez em quando. Sentindo o tal “aperto no juízo”, de conta própria pedia ao delegado de Acari para passar uns dias na cadeia, de onde geralmente saía curado vinte e poucos dias depois. No entanto, algumas vezes o internamento em uma casa especializada se fazia necessário.
Em uma dessas vezes, Brechió ficou amigo do Doido da Lanterna. O sujeito era um mossoroense de boa família que, em sua loucura, virava caçador de OVNI’s apontando à noite para o céu escuro o facho de luz de uma potente lanterna.
Como era sujeito de temperamento calmo, assim como Brechió, lhe era dado o direito de ir ao pátio à noite, lugar onde pela manhã os internos tomavam banho de sol. E isso, digo, esse livre acesso, se dava até para poder acalmar a sua ansiedade em encontrar um OVNI e derrubá-lo com a luz da lanterna, da qual não se separava nunca!
Pois bem, contou-me Zé Bola de haver ouvido de Brechió a seguinte história.
Noite escura, luzes da unidade apagadas e no meio do pátio o mossoroense de lanterna em punho, porém desligada. Brechió foi se aproximando. Quando chegou ao lado do colega, o mesmo ligou a lanterna e apontou para o céu. O facho de luz se abrindo e se perdendo na imensidão.
– Tem coragem? – perguntou a Brechió.
– De quê? De matar um bicho de outro mundo? – inquiriu o outro.
– Não. De subir aí – respondeu o mossoroense, acompanhando com um movimento do dedo indicador da outra a mão a claridade feita numa reta quase perfeita se abrindo no espaço, apontando para o facho de luz saído da lanterna e se perdendo escuridão acima.
– Ter eu tenho – respondeu Brechió. – Mas você tá achando qu’eu sou doido, tá?
– Oxente! – Por quê?
– Eu subo, né?, e quando eu tiver lá em cima bem tranquilo, tu vai apaga e eu, ó – falou jogando os dois braços para frente – timbungo no chão e me lasco todinho – respondeu Brechió e acrescentou saindo para o quarto onde dormia: – Sou doido, não, mô fie.
Não era mesmo não. Mas, que tinha coragem de subir, isso tinha. E de sobra!
Seu Severino das Porteiras, sertanejo raro, amorenado, alto, magro, cabelo e bigode pretos naturalmente, dentes fortes, já contando seus oitenta e tantos, era sujeito de paciência pouca para perguntas tolas.
Na ponta da língua trazia sempre uma resposta afiada.
Nesses repentes era quase único por aqui.
No final dos seus dias as pernas respondiam penosamente às suas intenções, reflexo dos vários anos de trabalho árduo no campo: andava com o auxílio de dois cabos de vassoura lhe servindo de bengalas.
Certo dia ele atravessava a sala de sua casa, cimento queimado e escorregadio de tão limpo, andando com dificuldade e se equilibrando amparado nos apoios de madeira.
Um deles não cumpriu o papel adequado de lhe dar segurança, escorregou no piso liso e o velho Severino desabou; trazendo o som do baque a preencher toda a área da pequena casa, num “poc” seco e assustador de sua cabeça no chão.
Uma das filhas correu na direção da sala e foi encontrar o pai caído tentando se levantar com dificuldades.
– Chega, pai caiu! – gritou a moça com as mãos na cabeça, girando de um lado para o outro no auge do aperreio.
Logo chegaram outras pessoas e um pequeno alvoroço se criou, até que uma delas gritou:
– Corre! Traga um copo d’água pra pai. Um copo d’água pra pai! – gritava desesperada.
Aí entrou a veia de respostas em cima da bucha do velho e saudoso Severino, que mesmo meio zonzo respondeu: