JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PLANOS E ACASOS

Esmoler entrou na sala e se conduziu à mesa. Pegou o controle do aparelho de TV e desligou apenas o som.

Ricardo acabara de pousar a xícara de café sobre o pires, satisfazendo-se com o gosto da bebida em sua boca. O último gole desceu suave.

– Desligou o aparelho de TV? Fez bem. Hoje essa apresentadora está irritante.

– Não. Eu apenas desliguei o som.

– Para mim dá no mesmo – falou o cego rindo.

Esmoler se serviu de café. Sentou-se à mesa e ficou olhando a fumaça subir dançando. Gostava de café frio. Sem açúcar.

Dois minutos se passaram antes de Ricardo voltar a falar com o amigo.

– No que pensa, Esmoler?

O outro elevou a xícara à altura do nariz, sentiu o cheiro do líquido. Pôs uma pequena quantidade do líquido entre os lábios e a ponta da língua para sentir o calor e o gosto da bebida.

Com o olhar perdido entre a fumaça e o horizonte aberto pela janela escancarada, por fim, respondeu:

– Nos planos do acaso. Não é paradoxal?

– Demais! – concordou o cego se ajeitando na cadeira.

– E você, Ricardo, no que pensa por trás desses óculos escuros?

O cego relaxou na cadeira outra vez escorregando para a ponta do móvel, escorando-se no espaldar apenas com a parte de cima das costas. Com a mão direita tateou procurando a bengala escorada na mesa e, encontrando-a, passou a bater de leve no chão com a ponta emborrachada. Levantou o queixo, abriu um sorriso e respondeu:

– Sabe, Esmoler, no meio da tarde, entre uma xícara de café amargo e um gole de saudade doce, eu lembrei daquela menina de olhos da cor da esperança, que eu conheci por uma artimanha do acaso cumprindo uma ordem do destino – sorriu mais abertamente e continuou: – Você fala de planos e acasos? Era plano do Universo esse encontro nosso. Meu e dela.

– E como foi isso?

– Não se sabe dos alicerces do acaso, meu amigo. Ou de como se constroem. Mas, veja bem, eu sei que naquela noite se enfeitando de madrugada a sua voz calma, serena, dois tons abaixo do usual foi me narrado particularidades. Quase desabafos.

Esmoler olhava atento para o homem à sua frente, era-lhe impressionante a riqueza de detalhes que Ricardo trazia em cada lembrança. O amigo continuou:

– Eu não sei por quanto tempo eu olhava aqueles olhos de janelas abertos para um vale verde da alma que eu tinha – e tenho! – a sensação de conhecer de outros tempos. No entanto, até hoje a minha consciência não entrega ao certo o quando – falava como se visse uma tela depois das lentes escuras dos óculos.

Esmoler pôs na boca um gole grande de café. O amigo se calou.

– E? – quis saber.

Ricardo relaxou ainda mais na cadeira.

– Entre um gole de cerveja me embaralhando os sentidos e a voz dela organizando as minhas ideias, nossa confiança mútua se renovava após milênios – parou e riu abertamente, como se ocultasse algo muito bom. – E nesse meio da tarde de hoje o ontem é uma réstia do futuro incerto, como o desenho formado pela borra de café que deve estar secando no fundo da minha xícara.

– E como você se lembra dessa passagem agora?

Ricardo ficou sério. Os cantos da boca se arrumaram. Ele sentiu os cabelos na testa e ajeitou-os para cima usando a mão esquerda.

– Como a sombra da saudade doce tatuada pelo lado de dentro do meu peito – respondeu com lirismo. – Ela reclamava das coisas passadas em seu pasado, do que fora, do que possuíra, dos amores idos… de coisas que já não lhe eram mais.

– E você, Ricardo, o que lhe dizia?

– Bem, Esmoler, eu me lembro de haver dito algo exatamente assim: “O tempo, menina, só anda para frente. Somente em nossa cabeça e, às vezes, em nosso querer ele segue o rumo do passado.”

– E ela? Você se lembra se a menina disse algo?

– Não. Ficou calada. Porém, eu me atrevi e lhe disse ainda que isso tudo é uma ilusão: passado ou futuro. Porque o tempo, Esmoler, eu disse a ela naquela madrugada, o tempo é o presente e importa apenas com quem estamos, onde estamos e o que fazemos enquanto o ele anda para frente.

Esmoler ouviu as últimas palavras do amigo com a xícara na mão, em pé, ante a janela aberta. O vento lhe assanhando os cabelos. Em seus pensamentos tentava construir a imagem de Ricardo e uma garota numa madrugada distante.

– Ricardo, diga-me, e o que você deseja nesse momento, com a lembrança dessa menina?

– O que eu quero neste presente, meio de tarde, para ela? Que ela esteja sempre bem – respondeu o cego se levantando e caminhando em direção à voz do amigo. E concluiu: – E em paz.

Ficaram em silêncio sentido o ar fresco entrar pela janela.

– Certamente você se lembra do nome dela – sondou Esmoler.

O cego continuou calado e perdido em suas lembranças. Nem ouviu o amigo ao lado. Parecia ver a menina ali, ante seus óculos escuros.

Um passarinho esverdeado pousou na janela, que se abria para fora.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DE DISTÂNCIAS E SAUDADE

O tic-tac do relógio de parede quebrava o silêncio da tarde se despedindo. A noite já espreitava escurecendo o dia. Ricardo apurou os ouvidos tentando encontrar respostas para uma inquietação. Onde estaria Esmoler? O amigo se ausentara no meio do cochilo da tarde. Não era seu costume sair sem avisar. Esperava ouvir seus passos subindo os batentes, rangendo a madeira sob o peso de cada passada.

O cego segurou a bengala pelo meio. Bateu duas vezes com o objeto no canto da mesa. De repente uma música veio à sua lembrança. A voz do cantor ecoando em sua lembrança. Sentiu o cheiro da dama que lhe abraçara duas vezes antes de dizer “até amanhã”. Um amanhã que nunca ocorreu para os dois. No outro dia ele viajara cedo, sem o nome dela, sem seu endereço… apenas a sensação do calor de sua mão sobre sua mão.

Poucos anos depois, quando a vista já dava sinais de cansaço, assistia na TV um programa de calouros quando a viu: julgava o concurso. Descobrira ali o nome dela.

Coincidência ela haver dado a maior nota justamente para o rapazinho que cantara Unchained Melody num Inglês perfeito. A mesma que dançaram duas vezes – ele pagara para a orquestra repetir – antes de saírem andando pela madrugada, como se não tivessem para onde voltar.

Descobrira pela TV o quanto estavam distantes um do outro. A saudade que sentiu naquele momento foi maior que a distância.

Estava nessas lembranças quando ouviu os passos de Esmoler e os reclames da madeira. Em seguida os passos pararam, a chave foi introduzida na fechadura, girou, a maçaneta desceu com um rangido baixinho. Mais baixo que o ruído das dobradiças se curvando na abertura da porta.

– Ricardo, desculpe-me sair sem avisá-lo – Esmoler falou depositando um pacote sobre a mesa. – Seu sono estava de ronco.

– Não se desculpe por isso. Se desculpe por me haver partido agora uma lembrança boa – falou baixando a cabeça.

– Qual? Posso saber?

– Ah, meu amigo Esmoler! Você não compreenderia. Precisaria sentir a distância e a saudade como eu as sinto, para entender.

– Entender? O quê? Fale-me – pediu o amigo.

O cego levantou a cabeça como se pudesse ver pela janela do apartamento. Houve um silêncio. Por fim falou:

– Que a distância é o parâmetro físico ou temporal pelo qual se mede uma saudade. Quanto maior a distância, maior a saudade.

Ficaram outra vez em silêncio.

Esmoler deixou a sala. Entrou no quarto, acendeu a luz e se perdeu em outras preocupações.

Ricardo tamborilou na mesa e cantou baixinho “God speed your love to me”, repetindo as duas últimas palavras com uma saudade eterna.

Na parede o relógio sabia exatamente do tempo presente.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VIVER É FÁCIL

Por que há necessariamente o pensamento e a possibilidade da fuga quando nem sabemos o final da coisa?

Há tantas maneiras de partir sem precisarmos sair do lugar.

Não há cansaço que não passe com um banho, uma lavanda gostosa no corpo, uma cama confortável, uma xícara de chá ou café, e um livro de poesias para ser interpretado.

A janela aberta, ou o ar-condicionado no dezoito.

Viver é fácil.

Ouça mais, fale menos e, se possível, no intervalo de tudo dê vaga em seu pensamento para uma bela canção. A boa música expulsa pensamentos tolos, tirando a atenção das vontades torpes.

Ora, ora!

Por que essa demasiada necessidade louca de compreender o que existe para não ser entendido?

Eis a presunção humana em sua gênese: o homem nem compreende a si próprio e deseja desvendar os mistérios fora do seu eu.

Viver é fácil.

Implica em estar sempre com frescor no corpo, alma leve, coração em paz, nunca possuir mais que os olhos não possam cobrir e os braços abraçar de uma vez só. Sem almejar o que não se pode segurar nesse abraço.

Viver é fácil.

Envolve buscar tanto o riso quanto o amor em tudo. Isso sim é uma audácia vigorosa na arte de seu feliz.

Jamais esperar para fazer o bem amanhã, ou gozar apenas amanhã querendo ser dono exclusivo desse prazer.

Emprestar liberdade a tudo, e jamais cobrar a volta dela. Da liberdade.

Prender apenas a respiração quando algo for tão fantasticamente bom para nós, que queiramos eternizar o momento. O instante.

Mas, sempre ciente do amanhã vindo para ser outro dia. Embora mais uma vez seja um hoje. Saiba.

Banhos, perfumes, livros, chás ou café, música e sorrisos.

Um vinho? Quando merecer.

Isso basta.

Se somados a uma companhia não tratada como propriedade, para gargalhar da nossa gargalhada e podendo ser chamada de amor.

Isso é liberdade.

Não marque seu corpo nem a sua alma.

Marque os momentos.

Porque eles passam.

Viver não é apenas fácil. É simples.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

A GALINHA PARA O PADRE

O Sr. Eudes, ao meu lado na fotografia acima, é consultor de vendas como eu.

Apaixonado pelo Sertão, pelo sertanejo, pelo beradeiro e por doido. Nisso tudo combinamos nós dois.

Um bom contador de causos, Seu Eudes me narrou outro dia sobre um leilão em Santa Luzia, da Paraíba, sua terra natal.

No grito seria disputada uma galinha já torrada. E com acompanhamentos!

Na praça ante a igreja, sobre um tablado, o leiloeiro anunciou o prêmio para a atenção de quase uma centena de mesas e começou a pelejar a venda; na mão esquerda o microfone e na direita uma bandeija de papelão com o prêmio devidamente coberto por um pano de prato branquinho.

A disputa entre as mesas era contagiante e rapidinho o lance chegou aos duzentos reais. Isso quando o Real era moeda forte.

– Dou-lhe uma. Quem dá mais? – perguntava o leiloeiro se demorando e fazendo o clima, com a penosa torrada erguida sobre a cabeça. – Dou-lhe duas…

Já se preparava para fechar a parada no arremate do “dou-lhe três” quando um tal Janduí elevou a oferta com o grito cortando o burburinho entre as mesas:

– Duzentos e cinquenta! E é para o Padre Luiz!

Aumentada a oferta e o ruído de vozes entre as pessoas, o padre de sua mesa estufou o peito e abriu aquele sorriso. Que demorou pouco, é verdade, porque logo alguém cobriu o lance gritando “trezentos reais!”

Aí, nesse instante houve um silêncio no largo da praça.

O Padre Luiz voltou-se de tronco e cabeça para Janduí querendo ouvir a tréplica. Com tanta convicção Janduí dera o lance, que certamente não aceitaria perder a parada. Nessa hora que o padre se virou, Janduí pigarreou, ajeitou a voz e soltou um grito ainda mais alto:

– Está muito bom mesmo, que Padre Luiz não é raposa pra gostar de galinha.

E o padre foi dormir sem comer a cocó-ri-có.

Coisas do Sertão de Seu Eudes, do meu Sertão e do Sertão de todos nós.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ENSINAMENTOS

Eu não direi que papai era um pensador antes do Alzheimer. Mas, isso eu digo: Seu Miúdo tinha umas tiradas… Um jeito próprio de se fazer entender.

Certa vez, eu bem jovem, andei fazendo umas artes e alguém enredou-as a papai.

Eu cheguei em casa sem saber que ele sabia. Porém, bastou seu olhar de canto de olho para eu perceber que teríamos algo a tratar.

Ele me mandou sentar à mesa da cozinha, onde já estava sentado:

– Sente aí – falou me indicando o lugar com o queixo.

Meu sentido aguçado enviou-me a mensagem: ele sabe o que foi feito.

Minha covardia soltou um conselho estúpido: negue!

Sem dizer quem havia me alcaguetado, papai passou a narrar o fato como se dele tivesse sido testemunha ocular.

No fim, com aquele olhar chicote, que fazia doer mais na consciência que na pele rasgada, perguntou-me se havia sido eu mesmo.

Eu não segui a voz da minha covardia. Mas também não dei voz ao meu arrependimento. Somente abaixei a vista envergonhado em silêncio e com remorso.

Naquele momento, levantando-se para sair da cozinha, e já de costas para mim, papai poderia ter falado “quem cala consente”. Mas, com a voz segura, apenas exclamou:

– A culpa baixa o olhar.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

AMARA BROTINHO, FILÓSOFA BERADEIRA

Amara Brotinho

O Sertão é imenso! Começa lá em cima no Ceará e desce o mapa em busca das Minas Gerais – ou sobe partindo de lá, porque o contrário também serve – atravessando o Nordeste todinho, deixando oficialmente de fora apenas o Maranhão.

Segundo o meu amigo paraibano Zelito Nunes, autor de alguns livros e incontáveis ensaios sobre certos tipos de sertanejos e beradeiros, os habitantes dessa área geográfica continental se comunicam com outras áreas próximas pelo intercâmbio das feiras, dividindo e dando continuidade às práticas dos mesmos costumes e possuindo quase um jeito único de ser, de pensar, de agir e de falar.

Isso ele me disse quando, ainda na primeira década deste século, eu o questionei sobre fatos que se repetem igualzinhos e as respostas semelhantes dadas pelos beradeiros há centenas de quilômetros de distância de um causo para outro e vividos por pessoas diferentes, em lugares distintos. De igual apenas um fato: são sertanejos beradeiros.

Para mim, que nada sou e nada tenho, é o Sertão o ambiente mais extraordinário onde se desenvolve ainda hoje a Filosofia do Beradeiro.

O beradeiro, em que pese aqui tanto o homem quanto a mulher, tem o pensamento e a visão de mundo sob uma ótica tão simples que acaba excedendo o pensamento lógico por ser, justamente, a lógica em sua mais genuína pureza.

Basta ver como eles respondem a qualquer pergunta, ou como constroem situações que o “homem sofisticado” perde um tempão na busca pela resposta de “como ele pensou isso desse jeito?”

É que o beradeiro enxerga a vida sob outra equação moral.

Daí, para exemplificar de como o beradeiro chega à conclusão nas respostas das coisas por uma lógica complicada de tão simples, eu copio abaixo parte da mensagem recebida ontem de Luiz Berto, um amigo meu lá de Palmares, autor dos melhores livros que li ultimamente.

Berto me contou pelo WhatsApp que a frase entre aspas quase encerrando esse meu converseiro besta, é da sua querida e saudosa amiga Amara Brotinho, que virou personagem do seu livro O Romance da Besta Fubana.

Segundo Berto, Amara Brotinho foi uma grande rapariga da zona de Palmares nos anos 60 do século passado. Era uma “prostituta que ganhava a vida honestamente, dando duro e levando duro”.

Pois bem, como boa beradeira Amara certa vez soltou essa:

“Pra adular macho melhor do que eu, só se for barbeiro; que raspa, alisa a ainda bota perfume.”

Por trás da sublime filosofia em tal sentença há uma descoberta sensacional: a igualdade na equação da beradeira Amara Brotinho estava provada!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BRASILEIRO ACIMA DE TUDO!

Não me importa o tempo.

Enquanto eu estiver vivo, serei brasileiro acima de tudo.

Não me impressiona o que eu leio nos jornais, vejo na TV, ou ouço no rádio.

Enquanto eu estiver vivo, serei brasileiro acima de tudo e serei fiel ao exercício de torcer por meu país, por sua bandeira, por suas cores, independentemente de quem puxe a corda do seu governo.

Continuarei lutando “com braço forte” por um país mais democrático, por liberdade, e não baixarei a minha cabeça àqueles que, por loucura ou ego, disserem “cale-se”.

Enquanto eu estiver vivo, serei brasileiro acima de tudo e apoiarei qualquer um gritando contra a opressão.

Eu sonho em poder me orgulhar do “heroico brado retumbante” do meu povo! Meu povo, o verdadeiro rei deste país que sempre foi “entre outras mil” a mais apaixonante e fértil terra, sendo ainda “dos filhos deste solo” uma eterna “mãe gentil.”

Enquanto eu estiver vivo, serei brasileiro acima de tudo.

Salve nosso Sete de Setembro por nos lembrar anualmente que ninguém, tampouco poder algum, pode nos subjugar. Porque não nos importa o tempo.

Enquanto nós estivermos vivos seremos brasileiros acima de tudo.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

(IN)GRATIDÃO

A algodoeira Nóbrega & Dantas nos meados dos anos 960 chegou a ser a maior do norte-nordeste.

Foi nessa organização empresarial que papai assinou a carteira pela primeira vez.

Nos meados dos anos 980 a grupo foi sendo derrotado pelo bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus Grandis) e mudando de atividade principal, sempre diversificando no ramo têxtil.

Trabalhando na malharia do grupo Nóbrega & Dantas, instalada no prédio onde por muitos anos foi o escritório sede da algodoeira em Acary, durante um tempo – entre o finalzinho de 1989 e o início de 1991 – papai ficou responsável pelo pagamento dos “moradores” da Fazenda Margarida, propriedade dos Nóbregas.

Todo domingo ele abdicava do seu descanso logo cedo e se dirigia a Cruzeta numa moto adquirida por seus patrões para uso exclusivo desse fim.

Um dia o chamaram em Macaíba, onde ficava a sede da FAMOSA, nova razão social da extinta Nóbrega & Dantas. Saiu de casa esperançoso que receberia o aumento solicitado e prometido três anos antes, para se aposentar com “um salário melhorzinho”.

Faltavam seis meses para se aposentar. Foi apenas comunicado de sua demissão.

Como consolo ficou a afirmação que ele era o último demitido do grupo em Acary.

Chegou em casa arrasado.

Fora leal à família durante quase trinta anos, sempre recebendo um salário mínimo, mesmo tendo sido “promovido” duas vezes.

Papai foi um dos poucos que exerceu cargo de chefia e mexeu diretamente com o dinheiro dos Nóbregas e não “saiu rico”.

Sua honestidade é um norte para mim. Um exemplo mais valioso que muitas heranças gordas.

Para se aposentar meu irmão mais velho assumiu as obrigações com o Estado durante os seis meses restantes.

Papai se aposentou com um salário mínimo. Um!

Ainda assim cobrou enquanto pode que tivéssemos gratidão: “sustentei vocês com o salário que recebia de lá”.

Coisas que o Alzheimer dele já o fez esquecer.

Mas, às vezes, eu ainda lembro.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

POESIAS

Certa vez eu ouvi de um autor que o escritor cria a sua obra e se expressa do que ele próprio viveu, ou do que ouviu da experiência de outrem, ou até do que imaginou de sua própria mente, sem que essa última possibilidade possa haver sido um fato.

Pois bem. Ontem à tardinha eu fui surpreendido no WhatsApp por uma mensagem do poeta tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira.

Era uma poesia.

Marcílio, com quem nunca tive o prazer de um aperto de mão pela distâncianos separando, traz do berço o dom dos versos belos. É um poeta completo de lirismo.

E no seu trabalho de ontem Marcílio narra uma cena imaginada que, eu creio, certamente já aconteceu milhares e milhares de vezes por diferentes almas: um amor que não deu certo e que acabou levando a mulher para as calçadas da prostituição.

Eis os seus versos, exatamentevomo eu os recebi:

Quantas vezes sentado num recanto
Sussurrei frase bela em teus ouvidos
Tantas vezes com jeito e com encanto
Sufoquei com meus beijos teus gemidos
Mas teus beijos de amor foram tacanhos
Hoje vagas beijada por estranhos
Mendigando migalhas das esposas
Mariposa fugidia e vaidosa
Cambaleias na orla glamourosa
Dessas luzes que cegam mariposas.

Encontrar-te de novo por acaso
Ver teus olhos outrora cintilantes
Parecendo dois sois que no ocaso
Já não eram brilhosos como antes
Reparei na tristeza do teu rosto
Nos farrapos de roupa de mau gosto
Relembrei dos teus beijos de outrora
E vestido no véu da covardia
Nem dei pinta que já te conhecia
Disse adeus minha ex e fui embora.

Daí eu fui lendo e vendo a cena ali, ante meus olhos. Fui sendo invadido por um sentimento de pertencimento àquela situação dramática e, inspirado por um clima que eu mesmo nunca vivi, resolvi lhe responder também sob a égide da imaginação. Porém, dando outro caminho ao futuro de ambos.

Minha resposta:

Do adeus que te dei, mais uma hora
Se passou sem que eu tivesse paz
O romper de um dia, quase aurora,
Convenceu-me te ver outra vez mais.
Com o peito aquecido feito um forno
Conduzi o meu carro num retorno
Retornei sem orgulho à avenida
Pra encarar os teus olhos com perdão
E ainda moído de paixão
Te chamar de amor da minha vida.

Fecharei doravante a ferida
Que se abriu por teu erro no passado
Mas esqueço o que és, minha querida,
Se quiseres estar sempre ao meu lado.
Vou tirar-te da orla onde jazes
No carinho daquelas mesmas frases
Teus gemidos serão somente meus
Cobrirei o teu corpo com amor
De covarde serei teu protetor
E jamais te direi outro adeus.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

SOB SOL HÁ NONATO E CONSTÂNCIA

Recebi por WhatsApp o especial comentário de Sol Saldanha sobre a participação de Nonato Costa no Pavilhão da Festa da Padroeira de Caicó.

Nele, digo, no comentário, Sol Solange cita o reconhecimento da importância da minha amiga Constância Uchoa feito por Nonato.

De fato! Eu me pego imaginando que numa junção poética com Nonato e Constância todos nós sabemos que a arte da poesia seria apresentada com gigantismo e, ainda assim, sairia bem maior. Ambos são divinos na criação. Ademais, se Nonato se esmera no cantar, Constância é divinal quando declama.

Ambos interpretam com alma, sentimento e paixão.

Bom. Vamos ao que escreveu Sol Saldanha, cujo nome, por si, já é quase um poema.

Eis:

Após o carismático compositor e cantor Luiz Fidelis ter lançado histórias musicais e grandes sucessos, energizando o ambiente de forma singular, nós tivemos outra grande oportunidade de contato com músicas de qualidade através de Nonato Costa.

E, assim, surgiu um espetáculo grandioso cheirando a poesia, anteontem, no Pavilhão Cultural de Sant’Ana, na cidade de Caicó.

O emocionado e genial Nonato Costa “chegou chegando” para honrar o palco e o público. Nonato canta com sentimento o que escreve com a alma e fez questão de dividir-se com todos que o prestigiavam. Formou-se uma interação única e inquebrantável com a plateia. Foi uma noite inesquecível.

A culminância do show ficou por conta da sua narrativa saudosista e grata sobre sua história de amor a Caicó, onde morou em 1988, estudou e dividiu programa de rádio com o grande Sebastião da Silva. Na sequência o poeta-cancioneiro causou arrepios, antes de declamar uma poesia para seu neto Gabriel, que sentia o show do ventre materno de Dra. Kyria Costa, filha seridoense do multiartista Costa, dirigiu-se à nossa poetisa Constância Uchôa e, em um ato de reconhecimento à verve de nossa caicoense, registrou: “na presença de Constância qualquer poesia é pequena” (os verdadeiramente grandes se reconhecem).

Afinal, na vida e na arte, somos todos espelhos de nossa alma. Logo após, o futuro vovô espalhou versos cheirando a riso de criança, como se antecipasse o seu encontro físico com o rebento. Confira o vídeo, trechos editados do que foi registrado pela TV Kurtição.

A nossa Festa de Sant’Ana foi abrilhantada por Nonato Costa, que junto a Nonato Neto, fez história e tatuou nos ventos revoltos do repente com a.n e d.n, (antes e depois dos Nonatos).