Esmoler entrou na sala e se conduziu à mesa. Pegou o controle do aparelho de TV e desligou apenas o som.
Ricardo acabara de pousar a xícara de café sobre o pires, satisfazendo-se com o gosto da bebida em sua boca. O último gole desceu suave.
– Desligou o aparelho de TV? Fez bem. Hoje essa apresentadora está irritante.
– Não. Eu apenas desliguei o som.
– Para mim dá no mesmo – falou o cego rindo.
Esmoler se serviu de café. Sentou-se à mesa e ficou olhando a fumaça subir dançando. Gostava de café frio. Sem açúcar.
Dois minutos se passaram antes de Ricardo voltar a falar com o amigo.
– No que pensa, Esmoler?
O outro elevou a xícara à altura do nariz, sentiu o cheiro do líquido. Pôs uma pequena quantidade do líquido entre os lábios e a ponta da língua para sentir o calor e o gosto da bebida.
Com o olhar perdido entre a fumaça e o horizonte aberto pela janela escancarada, por fim, respondeu:
– Nos planos do acaso. Não é paradoxal?
– Demais! – concordou o cego se ajeitando na cadeira.
– E você, Ricardo, no que pensa por trás desses óculos escuros?
O cego relaxou na cadeira outra vez escorregando para a ponta do móvel, escorando-se no espaldar apenas com a parte de cima das costas. Com a mão direita tateou procurando a bengala escorada na mesa e, encontrando-a, passou a bater de leve no chão com a ponta emborrachada. Levantou o queixo, abriu um sorriso e respondeu:
– Sabe, Esmoler, no meio da tarde, entre uma xícara de café amargo e um gole de saudade doce, eu lembrei daquela menina de olhos da cor da esperança, que eu conheci por uma artimanha do acaso cumprindo uma ordem do destino – sorriu mais abertamente e continuou: – Você fala de planos e acasos? Era plano do Universo esse encontro nosso. Meu e dela.
– E como foi isso?
– Não se sabe dos alicerces do acaso, meu amigo. Ou de como se constroem. Mas, veja bem, eu sei que naquela noite se enfeitando de madrugada a sua voz calma, serena, dois tons abaixo do usual foi me narrado particularidades. Quase desabafos.
Esmoler olhava atento para o homem à sua frente, era-lhe impressionante a riqueza de detalhes que Ricardo trazia em cada lembrança. O amigo continuou:
– Eu não sei por quanto tempo eu olhava aqueles olhos de janelas abertos para um vale verde da alma que eu tinha – e tenho! – a sensação de conhecer de outros tempos. No entanto, até hoje a minha consciência não entrega ao certo o quando – falava como se visse uma tela depois das lentes escuras dos óculos.
Esmoler pôs na boca um gole grande de café. O amigo se calou.
– E? – quis saber.
Ricardo relaxou ainda mais na cadeira.
– Entre um gole de cerveja me embaralhando os sentidos e a voz dela organizando as minhas ideias, nossa confiança mútua se renovava após milênios – parou e riu abertamente, como se ocultasse algo muito bom. – E nesse meio da tarde de hoje o ontem é uma réstia do futuro incerto, como o desenho formado pela borra de café que deve estar secando no fundo da minha xícara.
– E como você se lembra dessa passagem agora?
Ricardo ficou sério. Os cantos da boca se arrumaram. Ele sentiu os cabelos na testa e ajeitou-os para cima usando a mão esquerda.
– Como a sombra da saudade doce tatuada pelo lado de dentro do meu peito – respondeu com lirismo. – Ela reclamava das coisas passadas em seu pasado, do que fora, do que possuíra, dos amores idos… de coisas que já não lhe eram mais.
– E você, Ricardo, o que lhe dizia?
– Bem, Esmoler, eu me lembro de haver dito algo exatamente assim: “O tempo, menina, só anda para frente. Somente em nossa cabeça e, às vezes, em nosso querer ele segue o rumo do passado.”
– E ela? Você se lembra se a menina disse algo?
– Não. Ficou calada. Porém, eu me atrevi e lhe disse ainda que isso tudo é uma ilusão: passado ou futuro. Porque o tempo, Esmoler, eu disse a ela naquela madrugada, o tempo é o presente e importa apenas com quem estamos, onde estamos e o que fazemos enquanto o ele anda para frente.
Esmoler ouviu as últimas palavras do amigo com a xícara na mão, em pé, ante a janela aberta. O vento lhe assanhando os cabelos. Em seus pensamentos tentava construir a imagem de Ricardo e uma garota numa madrugada distante.
– Ricardo, diga-me, e o que você deseja nesse momento, com a lembrança dessa menina?
– O que eu quero neste presente, meio de tarde, para ela? Que ela esteja sempre bem – respondeu o cego se levantando e caminhando em direção à voz do amigo. E concluiu: – E em paz.
Ficaram em silêncio sentido o ar fresco entrar pela janela.
– Certamente você se lembra do nome dela – sondou Esmoler.
O cego continuou calado e perdido em suas lembranças. Nem ouviu o amigo ao lado. Parecia ver a menina ali, ante seus óculos escuros.
Um passarinho esverdeado pousou na janela, que se abria para fora.
Parabéns poeta Jesus de Ritinha, pela beleza de descrever esse diálogo entre dois Homens e uma lembrança de uma mulher.
Obrigado por sua atenção, Valter.
Meu véi… começa a pensar num livro de contos…
E apois.
Desta forma, aguça o imaginário de qualquer cristão. Estilo de escrita dos velhos mestres da literatura.
Parabéns, poeta!
Marcos André, assim eu fico todo ancho.
Com um elogio desses.
Aqui está uma pequena resenha do texto:
O diálogo entre Esmoler e Ricardo, um cego, revela uma atmosfera serena e reflexiva. A cena cotidiana se transforma em um momento de introspecção, onde Esmoler se perde nos pensamentos sobre “os planos do acaso”. A narrativa explora:
*Temas*
1. A ironia da situação: Esmoler desliga o som da TV, mas Ricardo, cego, não se importa.
2. A apreciação dos sentidos: Esmoler saboreia o café, enquanto Ricardo valoriza o som.
3. A reflexão filosófica: “os planos do acaso” sugere questionamentos sobre destino e aleatoriedade.
*Características literárias*
1. Linguagem simples e objetiva.
2. Diálogo natural e espontâneo.
3. Uso de detalhes sensoriais (cheiro, gosto, visão).
4. Atmosfera contemplativa.
*Pontos fortes*
1. Construção de personagens interessantes.
2. Exploração de temas profundos de forma sutil.
3. Estilo narrativo envolvente.
*Sugestões para desenvolvimento*
1. Aprofundar a relação entre os personagens.
2. Expandir a reflexão filosófica.
3. Introduzir conflitos ou tensões para aumentar a dramaticidade.
Rapaz, vou já trocar meus chinelos por um par de sapatos.
Obrigado!
Belíssimo, bravo!!!
De encher os olhos de quem já sentiu uma saudade, de quem já viveu um grande amor e mantém a esperança no porvir.
Obrigada, Jesus, por nos fazer viajar nos sons, nos aromas, nesse lindo escrito.
Obrigado, Renata, por sua visita à nossa Besta Fubana.
Este belo texto tem um contexto das
ilusões que criamos em nossa mente para disfaçar solidão quê carregaremos a longo da vida.
Alimentando um estado de prazer com se estivesse vivenciando o momento, mas que só ilusão.
Valeu, Ricardinho.
Volte sempre.
Belo texto, excelente narrativa, parabéns poeta!!
Obrigado, Hipólito!
Lindíssimo texto! Parabéns, grande poeta Jesus de Ritinha de Miúdo!
A poesia alimenta a alma. E você faz isso muito bem!
Um abraço!
Violante, um elogio seu tem muito peso.
Obrigado!