JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

Final de janeiro eu fiquei hospedado uma semana inteira num hotel em João Pessoa.

Logo na segunda-feira quando desci ao restaurante me deparei com três mulheres à mesa.

Sentei de frente para uma delas, a mais velha, e fiquei às costas das outras duas.

Quando a refeição delas chegou – um frango lá – a que estava de frente para mim fez uma careta logo após mastigar a primeira garfada levada à boca.

Eu já havia sido vítima daquele prato. O frango vem “emborrachado”. Ruim.

E eu, com essa minha mania de conversar com todo mundo, olhei para ela e perguntei “emborrachado, né?”

Ela perguntou “o quê?”

Eu voltei a falar “o frango. Vem como se fosse emborrachado.”

Então ela num portunhol bem carregado pediu que eu falasse mais devagar para poder me entender.

Eram do Paraguai.

As duas de costas para mim, depois descobri, eram mãe e filha.

Tinham cara de médicas. As três.

Não me perguntem o motivo dessa minha impressão. Eu não saberia explicar.

Dois dias depois, no café da manhã, eu procurava um lugar para sentar. Com uma bandeija nas mãos e faltando lugar, elas gentilmente me ofereceram a quarta cadeira à mesa onde estavam.

Eu aceitei. A conversa fluiu naturalmente com a mocinha servindo de intérprete quando as palavras se complicavam.

Eu pensava “são médicas”, mas ao mesmo tempo eu desistia dessa possibilidade pelas roupas vestidas. De uma simplicidade!

Quando perdi a vergonha eu lhes perguntei se eram médicas.

Responderam que não. A moça cursava realmente a faculdade de Medicina, mas as duas senhoras eram juízas em Assunção.

Juízas!

Eu fiquei tão chocado pela diferença com as juízas brasileiras no jeito de “se vestir” que até desconfiei que fosse mentira.

À noite eu estava no restaurante quando o trio chegou. Sentaram-se todas de costas para mim.

Mas a mais velha, que aparentava ter uns sessenta anos, se virou quando por coincidência chegou um amigo meu e me cumprimentou por “poeta”.

Daí houve um interesse dela por saber da minha obra.

Trocamos os perfis do Instagram e passamos a seguir uns aos outros.

Lá eu pude constatar eram juízas de verdade.

Mas eu, acostumado com o glamour do cargo aqui no Brasil me questionei “por que se vestem tão simples?”

Fui pesquisar no Google o salário de um juíz no Paraguai. É o equivalente a R$ 3.600,00 reais. Cerca de um salário e meio do mínimo deles.

Não sei se isso lá tem a mesma proporção salarial que o cargo aqui no Brasil tem, com um juíz ganhando mais de vinte salários mínimos, fora “vantagens”.

Mas, como eu sei que esta gazeta é frequentada só por gente sabida, há de aparecer alguém para nos contar.

2 pensou em “HÁ JUÍZAS E JUÍZOS

  1. Médicas, juízas, promotoras e procuradoras, ainda há muitas que cultivam a simplicidade. Pena tenho de quem há de conviver com quem prefere se vestir e ornar para “parecer rica”. Não é isso, amigo?

  2. O mundo vive cheio de fantasias. Cada um usando a sua como lhe convém; uns vestidos, outros com a sua debaixo do braço.
    Pena eu tenho de uma nação que explora muitos, para que poucos luxem.
    Foi disso que eu quis falar, doutora.

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