JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VILANOVA AGORA É DO ACARY DO MEU AMOR

Da esq. para dir: Este colunista segurando a viola, Felipe Pereira, a primeira dama Renata Aquino, o prefeito Fernando Bezerra e o antológico poeta-cantador Ivanildo Vilanova

Na noite da última sexta-feira (04/11), eu estive presente no Largo do Museu do Sertanejo, na abertura do II Encontro de Genealogia de Acary, evento acontecendo dentro da Semana Cultural da minha cidade querida.

A noite começou com uma palestra sobre a influência dos usos e costumes judaicos herdados dos nossos antepassados, ministrada pelos professores Fabiana Agra e Janduih Medeiros, e foi encerrada com a apresentação de dois poetas violeiros repentistas: o jovem natalense Felipe Pereira e o monstro sagrado da viola Ivanildo Vilanova, pernambucano de Caruaru.

Felipe eu vejo como o mais promissor poeta violeiro repentista do Brasil. E digo sem medo que será o maior nome de sua geração nessa arte (foi uma honra tê-lo entre nós).

Pois bem, para a minha surpresa, eu descobri ao final do evento da noite de sexta que Ivanildo Vilanova escolheu Acary para morar.

Há quinze dias ele se fixou em nossa terra.

Para nós acarienses, que conhecemos sua importante obra e a envergadura do seu nome dentro do universo da arte, e até da MPB, esse fato muito honra o nosso torrão.

Poderá nascer agora um intercâmbio fantástico de conhecimentos, gerando a aproximação dos nossos jovens com a poesia extraordinária de Ivanildo Vilanova e, assim, introduzir as novas gerações no fantástico ambiente da arte escrita e cantada.

Por exemplo, a música “Nordeste Independente” (sobre o mote Imagine o Brasil ser dividido / E o Nordeste ficar independente), eternizada na voz de Elba Ramalho, é uma composição dele em parceria com o também poeta Bráulio Tavares.

Para mim, fã de sua obra, foi a surpresa mais agradável e a melhor descoberta da noite. Pude abraçá-lo e falar de minha admiração.

Uma honra enorme e uma satisfação sem tamanho poder dizer, doravante, que Acary também é de Vilanova. Que Vilanova também é de Acary. Do Acary do meu amor. Do amor de todos nós.

Seja bem-vindo, Ivanildo Vilanova!

* * *

PS.: Na manhã de ontem, em parceria com Dra. Kyvia Motta, falei na importância para a sociedade brasileira da judia sefardita Branca Dias. Grande mulher e matriarca, denunciada, condenada e presa pela Inquisição. Um mito tema de músicas, peças teatrais, documentário e lendas.

Mas, sobre ela falarei na próxima oportunidade.

* * *

Elba Ramalho interpretando “Nordeste Independente”, de Ivanildo Vilanova.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CÁLICE CAÍDO

Da mesa, do outro lado,
Vi um cálice caindo
Vi quando bateu no chão
Nesse choque se partindo
Em não sei quantos pedaços
Mas um desses estilhaços
Pulou do chão, me ferindo.

Era aquilo me atingindo
E eu vendo que fui ferido
Me veio a compreensão
Dos cálices, o seu sentido:
Um deles caindo ao chão
Esteja distante, ou não,
Você será atingido.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O POETA E A SAUDADE

Saudade ninguém explica
Embora o poeta tente
Junta palavras em versos
Falando da dor que sente
Às vezes é aplaudido
Noutras mal compreendido
Não se abala e segue em frente.

Em sua verve plangente
Impõe ao mundo beleza
Sentindo dor de saudade
O poeta com grandeza,
Enfermo do coração,
Dá asas à emoção
Pra dissertar a tristeza.

Vivendo essa crueza
Com sua face molhada
O poeta junta as letras
Da saudade escancarada
Faz mil versos num segundo
Fingindo pra todo mundo
Que no fundo sente nada.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

SEPARAÇÃO E DOR

O café à mesa soltava ao ar uma fumaça tênue em movimentos não ensaiados, subindo numa dança do ventre orquestrada nos compassos da brisa entrando pela janela semiaberta da cozinha.

Lá fora o tempo estava frio.

Dois biscoitos de canela, deitados sobre um guardanapo de papel, observavam os movimentos da fumaça alinhados ao parsianismo da brisa fria.

Sobre a mesma mesa, sob o pote com açúcar demerara, uma folha de papel retirada da agenda presenteada pelo banco, trazia o nome dele escrito no topo. Um bilhete que a caneta esferográfica azul, repousando destampada e exausta sobre o papel, tentara escrever; mas não encorajara com eficiência a mão trêmula que a segurava havia duas horas.

Lá dentro tudo era silêncio.

Sentado de pernas cruzadas, a coxa direita sobre a coxa esquerda, ele olhava para o infinito pela brecha da janela.

O ritmo do seu coração parecia ditar os ensaios e requebrados da fumaça subindo em câmera lenta.

Nele tudo era tristeza.

Sentada num banco da estação de trens, ela observava a fumaça de uma fábrica se espalhando rápida, volumosa e negra pelo espaço aberto.

Quase nada ali parecia ter vida.

Limpou outra vez as águas dos olhos.

A tampa da caneta, no escuro de uma bolsa de couro preto, chorava a dor da separação.

O próximo trem seria o dela.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CONTÍCULO DE PRAZER

Sob o sol escaldante eu beijei seus lábios e o mar nos cobriu com uma onda grande. O sabor do teu beijo doce misturou-se com o sal da água e as nossas línguas ficaram como as ondas: não contavam quantas vezes ultrapassaram os limites formando espumas, num vai e vem sem fim.

Depois a vi adormecer sob o calor do mesmo sol.

Havia um quê de paz em seu sorriso recém beijado e a terra…

Bem…

A terra me soprava aos ouvidos “acorde o seu amor. Beije-o outras vezes mais.”

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

SER(A)REIA

Recolhi minha mão para escrita
Ante o mar, e na faixa de areia
Versejei a beleza da sereia
Que deixava a praia mais bonita.
E a vida ficava mais bendita
Cada vez que a sereia me sorria
Com encanto num canto de magia
O silêncio entre nós era um mar
De paixões, de mistérios, um calar
Inspirando mil versos de alegria.

Cada letra compondo essa poesia
Era um mantra, num manto de paixão
Pra falar da beleza da sereia
Enfeitando meu campo de visão
E n’olhar da sereia, eu poeta
Já risquei um poema de ilusão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

GLOSAS

Toda chuva que vem leva um pedaço
Da tapera a herança dos meus pais.

Mote de Antônio Poeta

O poeta Marcílio Pá Seca Siqueira, pernambucano de Tabira, desenvolvendo o mote acima, enviou-me a seguinte glosa:

Casa velha de taipa abandonada
Já não és tão bonita como era
Nem de longe tu lembras a tapera
Que serviu pra meu povo de morada
Vejo o tempo cruel dando pancada
Na madeira ruída dos portais
Os morcegos pousando nos frechais
Cada qual ocupando seu espaço
Toda chuva que vem leva um pedaço
Da tapera a herança dos meus pais.

Este colunista, acaryense do Seridó Potiguar, respondeu-lhe com duas glosas no mesmo estilo.

Ei-las:

A madeira que um dia pai subiu
Para ser o sustento do telhado
Sobre o chão é somente um pau quebrado
Sob o pó do telhado que caiu.
A coluna do centro se partiu
Arrancaram as portas dos umbrais
Nem a cor das paredes se vê mais
Do reboco não resta nenhum traço
Toda chuva que vem leva um pedaço
Da tapera a herança dos meus pais.

Sem soltar dessa velha cumeeira
Com as pontas olhando para o alto
Num lugar muito triste de ressalto
Restam só alguns tocos de madeira.
Nos tijolos da frente a trepadeira
Já subiu agarrando por detrás
Se expandiu pelas partes laterais
Sufocou a casinha nesse abraço
Toda chuva que vem leva um pedaço
Da tapera a herança dos meus pais.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

A M(A)UDERNIDADE

Eu hoje trago para os leitores do JBF o pensamento de Derosse Barbosa Júnior, nordestino arretado, entusiasta da cultura popular, observador do mundo, discípulo de Ariano Suassuna, apaixonado pelo Nordeste e gênio da raça:

O maior de todos os democratas e o primeiro, aliás, foi Deus Nosso Senhor; quando deu ao homem o livre arbítrio, o direito de viver e fazer o que quiser de sua própria vida. Até de se auto-destruir.

Portanto, o Nordeste no meu vê corre atrás de recuperar um prejuízo incalculável: o abandono de suas raízes e de sua cultura, de todo o seu conhecimento empírico, acumulado em mais de duzentos anos de convivência e observação de seu habitat, sob o pretexto da “modernidade”, adotando hábitos enlatados; tornando-se nada mais nada menos do que um escravo do consumismo e do modismo do mundo “moderno”!

O pior ainda é ter se tornado um preguiçoso contumaz. Não mexe o corpo nem para ligar uma TV, e depois vai gastar dinheiro com um tal de “treinador pessoal”, chamado por um nome em “Ingrês” – que eu graças a Deus não sei escrever na língua deles – o tal do “personal treiner”.

Até o nome é sem sentido.

Mas cada um tem o direito de viver como bem entender.

Afinal, Deus lhes deu esse direito.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ORLANDO TEJO E LIMEIRA/DOIS ABSURDOS NO CÉU

Até hoje há certa dúvida se o Zé Limeira retratado pelo jornalista, escritor e repentista Orlando Tejo em seu livro “Zé Limeira – O Poeta do Absurdo” viveu de verdade, ou era criação de sua cabeça fértil de versos, rimas e poesia.

É certa a existência de um violeiro com o mesmo nome, nascido em Teixeira (PB) por volta do ano de 1886, e falecido na mesma cidade na data de 24 de dezembro de 1954. Mas não é unanimidade desse artista sendo o mesmo abordado por Orlando em seu livro, embora ele tenha ganhado notoriedade pós publicação.

No documentário “O Homem que Viu Zé Limeira”, dirigido por Maurício Melo Júnior, Orlando se esquiva e não responde a pergunta cujo sentido era “quanto de Tejo tem em Zé Limeira do livro?”, num risinho de canto de boca ele apenas bafora do seu cachimbo, com ar de menino feliz por saber que sua arte fez alguém se divertir.

Eu sei por tudo que pesquisei sobre Orlando Tejo, pelos depoimentos colhidos de pessoas do seu convívio, principalmente nas conversas com Luiz Berto, por exemplo, é que era homem de mente brilhante. Acima da média. Um QI invejável.

Final de semana passado eu fui acordado outra vez nesse meu fascínio por Orlando Tejo através de uma publicação no Instagram do poeta Rainilton de Sivoca, glosando este mote do também poeta Kydelmir Dantas:

“Orlando Tejo e Limeira
Dois absurdos no céu.”

Daí resolvi escrever uns absurdos em homenagem a Orlando Tejo e a Zé Limeira, sendo esse último personagem ou não.

Assim fiz a brincadeira:

Zé Limeira muito artista
Montou num foguete branco
O bicho pegou no tranco,
Subiu… se perdeu de vista.
Orlando ‘tava na pista
Montando uma cascavel
Vendo aquele fogaréu
Seguiu na mesma carreira
“Orlando Tejo e Limeira
Dois absurdos no céu.”

Orlando cortou bigode
Tirou barba, fez cabelo,
Depois levou todo pelo
Pr’uma roda de pagode.
Limeira fez uma ode
Depois criou um cordel
Dos pelos do menestrel
Fez um samba pra Mangueira
“Orlando Tejo e Limeira
Dois absurdos no céu.”

Limeira cabra da peste
Sem ter medo de altura
Com mil quilos na cintura
Escalou o Everest.
Orlando fazendo o teste
P’ra se tornar bacharel
Escreveu lá no papel
Do Brasil a lei inteira
“Orlando Tejo e Limeira
Dois absurdos no céu.”

No vídeo a seguir, o vemos o Editor Luiz Berto contando um causo e declamando.

Assim o leitor poderá tirar a prova dos nove sobre a genialidade de Orlando Tenho.