CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O VERÃO DA CHAINA

Praia da Avenida da Paz – anos 50

O bairro de Bebedouro no início do século XX era o mais chique, o mais festeiro, o mais rico, da cidade de Maceió. Muitas mansões, bonitos palacetes, colégios embelezando o bairro. (Infelizmente a BRASKEM afundou a história da cidade junto com o bairro por uma descabida e funesta mineração.)

No final da 1ª Guerra Mundial, o prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos comemorou o fim da guerra construindo a Avenida da Paz. Terminada a obra, a Avenida começou a desbancar Bebedouro, a burguesia, a classe média, transferiu-se para a praia da Avenida da Paz construindo belas casas e mansões. Nessa época apareceu a moda do “banho salgado”, depois passou a ser chamado de banho de mar. A mulherada moderninha vestia maiô até o joelho e caía na água. Maior sucesso e provocação entre os homens. Para algumas mulheres, era um escândalo, uma sem-vergonhice, usar aqueles trajes indecentes. Vinham homens, velhos e meninos do interior apreciar as modernas senhoritas com maiô mostrando a batata das pernas. Causava reboliço entre os marmanjos. Nessa época também foram aparecendo os primeiros “tarados”.

Nos anos 30 o maiô diminuiu o tamanho, subindo à metade das coxas. Quanto mais diminuía o tamanho do maiô, mais aumentavam os discípulos de Onã na bela praia da Avenida.

Nos meados da década de 50 eu era um jovem maloqueiro de praia da Avenida. Nadava singrando a calmaria do mar. Pulava da cumeeira dos trapiches que se estendiam mar adentro, jogava futebol na areia dura, molhada, pescava nas jangadas, puxava rede. Entretanto, o que nós jovens mais apreciávamos, o nosso esporte predileto, era ficar na praia olhando, que nem jacaré, as belas mulheres que se estendiam deitadas na areia para pegar um bronzeado.

É próprio do homem o “voyeurismo”, o olhar, o apreciar os encantos da mulher. Alguns não se controlam, e praticam o onanismo nas mais esdrúxulas situações. Apanhados em flagrante são taxados de pervertidos. Naquela época, meninos com cara de santinho trafegavam pelas rodas de conversa na praia com as moças descontraídas. Quando entravam na água, não havia quem segurasse.

Gaguinho era um mestre. Ele aproximava-se das moças, deitava de bruços, cavava uma cova adaptada a sua mão, e ali dava estímulo às suas fantasias. Certa vez, um amigo percebeu o Gaguinho em posição de trincheira perto de sua gostosa irmã. Ele foi chegando por trás, devagar, de repente virou o Gaguinho que estava em vias da apoteose final. Levaram o “tarado” para a Delegacia de Jaraguá. Ficou preso e sumiu por um tempo.

Certo verão ela apareceu! Foi o primeiro biquíni em Maceió. Uma bonita ruiva, dizia-se atriz, hóspede do Hotel Atlântico. Toda manhã descia à praia e como se fosse uma liturgia, estendia uma toalha, enfiava o pau da barraca na areia e armava a sombrinha, tirava a blusa devagar, como se tivesse preguiça, aparecia a parte superior do biquíni diminutamente cobrindo seus belos seios. Em seguida, como se fizesse um strip-tease, descia lentamente o short requebrando os quadris em movimentos harmoniosos, sensuais, até transpassá-lo por baixo dos pés. Finalmente levantava o short com o pé direito como se chutasse o vento. Ainda em pé, dobrava o short, a blusa, arrumava-os num monte junto à sombrinha. Deitava lentamente de bruços, deixando o sol acariciar suas pernas, seu dorso, sua bunda. Foi o maravilhoso espetáculo daquele verão. Os homens se deliciavam com o ritual erótico da musa dos cabelos de fogo.

A Deusa amarrava sua cachorrinha de nome Chaina no pau da sombrinha. Às vezes a cachorrinha se soltava e corria pela praia para alegria da moçada que corria até capturá-la e entregava a Chaina à Musa, recebia os agradecimentos, olhando de perto as penugens douradas das coxas da dona. Depois que a Chaina começou a frequentar a praia, o número de banhistas aumentou nos mares da Avenida.

Hoje, ao caminhar pela praia da Jatiúca apreciando os corpos das jovens deitadas dentro de uma mínima tanga, fez-me lembrar a ruiva, a musa da Praia da Avenida durante aquele inesquecível verão dos anos 50. O Verão da Chaina.

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ALAGOAS DOS PRAZERES

Praia da Jatiúca – Foto Manoel Nobre

Ontem, 16 de setembro, foi o dia da emancipação política do Estado de Alagoas. Fomos Pernambuco desde o descobrimento, desde as Capitanias Hereditárias (317 anos). O donatário da Capitania importou-se mais com as vilas de Olinda e Recife, deixou o sul da capitania ao Deus dará. Os franceses perceberam a região abandonada, construíram o Porto dos Franceses (onde hoje é a praia do Francês) e durante 60 anos danou-se a derrubar nossa Mata Atlântica extraindo e contrabandeando o valiosíssimo Pau Brasil para os países ricos da Europa.

Os franceses foram os primeiros ladrões que aqui despontaram. Eles exploraram a mão de obra dos índios caetés em troca de espelhos e bugigangas. Não construíram uma casa, não interessavam colonizar, só roubaram nossas riquezas. No final do século XVI, Duarte Coelho, o donatário da Capitania de Pernambuco, se mancou, deu uma sesmaria a seu sobrinho para expulsar os franceses e iniciar a colonização do sul da Capitania de Pernambuco (Alagoas) criando três vilas: Porto Calvo, Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul ( hoje Marechal Deodoro) e Penedo.

A partir do século XVII, a comarca de Alagoas desenvolveu sua economia e cultura. Porém, só foi emancipada em 1817 quando estava economicamente independente, quando havia formado o sentimento de pertencimento e teve uma desavença com o governo pernambucano. Surgiu a Província de Alagoas com capital a cidade de Alagoas ( hoje Marechal Deodoro)

Alagoas é berço da República proclamada e consolidada pelos Marechais Deodoro e Floriano. Alagoas das letras e das artes de Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Djavan, Aurélio Buarque, Cacá Diegues. Alagoas do esporte com a Marta, Dida. Alagoas que sempre teve destaque político nacional para o bem ou para o mal. O Estado tem uma vigorosa história política. Um fato marcante e importante aconteceu em Alagoas. Ariano Suassuna costumava dizer que para se conhecer o Brasil verdadeiro tem de conhecer a história da República dos Palmares, onde escravos fujões negros se organizaram na Serra da Barriga, no hoje município de União dos Palmares e viveram em comunidade organizada por mais de 100 anos.

Tropas coloniais portuguesas depois de vários ataques conseguiu destruir o grande Quilombo liderado por Zumbi, o primeiro herói brasileiro. A República de Palmares durou quase todo o século XXVII, chegou a ter cerca de 30 mil habitantes, escravos negros fugidos, organizados. Palmares resistiu a vários ataques e representou durante cem anos um grande incômodo às autoridades portuguesas, foi a primeira sinalização de brasilidade oriunda da África..

Para finalizar essas poucas linhas, quero homenagear meu Estado transcrevendo um texto, uma poesia, do paraibano Noaldo Dantas que veio a serviço a Maceió, encantou-se com a cidade, adotou-a como sua pátria e ficou em Alagoas para sempre.

O DIA EM QUE DEUS CRIOU ALAGOAS – Noaldo Dantas

Escrevi certa vez que Deus, além de brasileiro, era alagoano. Em verdade, não se cria um estado com tanta beleza, sem cumplicidade. Sou capaz de imaginar o dia da criação de Alagoas. Ô São Pedro, pegue o estoque de azul mais puro e coloque dentro das manhãs encarnadas de sol; faça do mar um espelho do céu polvilhado de jangadas brancas; que ao entardecer sangre o horizonte; que aquelas lagoas que estávamos guardando para uso particular, coloque-as neste paraíso. E tem mais, São Pedro: dê a seu estado um cheiro sensual de melaço e cubra os seus campos com o verde dos canaviais. As praias… Ora, as praias deverão ser fascinantemente belas, sob a vigilância de altivos e fiéis coqueirais. Faça piscinas naturais dentro do mar; coloque um povo hospitaleiro e bom; e que a terra seja fértil e a comida típica melhor que o nosso maná. Dê o nome de Alagoas e a capital, pela ciganice e beleza de suas noites, deverá chamar-se Maceió, e a padroeira, Nossa Senhora dos Prazeres.

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APARIÇÃO IMPROVÁVEL

Na fila da Sorveteria Danúbio, Jorge Garcia contemplava os belos cabelos da senhora em sua frente. De repente, a mulher virou o rosto, ele reconheceu Vilma, ficou feliz ao rever o amor de sua juventude.

Alegria e um abraço apertado. Foram sentar à mesa, deliciaram-se com o sorvete de mangaba e a companhia do outro. Há muitos anos não se viam.

– E aí, Jorge, continua mulherengo?

– Estou solteiro. Dois casamentos não deram certo. Sou ainda o romântico incorrigível procurando alguém para lhe substituir. Nunca encontrei!

– Você é um danado! Sempre gentil!

– Não é gentileza, Vilma. Depois de tantos anos, sou um setentão e você está beirando. Mulher casada, respeito muito, mas posso dizer sem mágoa, você sempre foi a mulher de minha vida, nunca lhe esqueci, conservo esse amor bonito dentro de mim. Esse negócio de dizer que sou mulherengo é verdade. Depois que você se casou, descambei para as raparigas, tornei-me um grande boêmio, tive muitas mulheres, minha vida desregrada foi fruto da dor-de-cotovelo por você ter-me abandonado. Não tiro a razão.

– Nosso amor foi lindo, todos comentavam nossa paixão, nosso namoro avançado. Naquela época namorados não transavam, mas você queria muito. Uma paixão louca! Era tarado por mim. Precisei me segurar para continuar virgem. Terminei o namoro, mas, você teve culpa, queria todas as mulheres do mundo, namorou uma amiga minha, a Verinha. Imperdoável.

– Lembra na praia da Avenida? Eu colocava a boia de pneu de caminhão dentro d’água, você estirava seu corpo fazendo os braços de remo, eu me segurava na borda da boia. Por baixo as coisas aconteciam. Ninguém percebia. À noite eu subia às casas de raparigas de Jaraguá, descarregava meu desejo incontido pensando em você.

– Menino sem-vergonha! Como a gente era feliz!

– Como está o Gerson, o homem mais feliz do mundo, o homem que tem você nos braços há mais de 30 anos?

– Vou ser sincera. Desculpe o desabafo, afinal você é um amigo. Casei com Gerson por ser um bom rapaz, minha mãe queria, mas, a escolha foi minha. Construímos nossa família. São dois filhos e um neto. Ano passado tive duas tristezas na vida. Descobri que Gerson tem uma amante, menina nova, sustentada por ele há mais de quatro anos. Encheu-me de mágoa. E o pior, descobri um câncer na minha mama esquerda. Já me operei, tenho como tratar do câncer, os médicos dizem que posso controlar a doença e viver muitos anos. Mas o meu marido não dá mais para controlar, ele está apaixonado por essa sirigaita. Eu vivo só, ninguém sabe o que se passa comigo. Os filhos independentes, eu não quero aperreá-los.

Jorge Garcia apertou sua mão, olhou nos seus olhos.

– Deixe a merda desse marido. Eu ainda lhe amo, sempre lhe amarei, estou à sua espera o dia que você quiser, pelo resto da vida. Amanhã pela tarde estarei viajando, vou passar quase um mês no navio COSTA MARU parte do cais do porto de Maceió para Recife e Europa, atravessando o Oceano Atlântico. Quando eu retornar quero conversar com você. Está certo? Você promete que vai me ver? Me dê o número de seu celular.

Despediram-se com beijo no rosto e um vasto sorriso.

À noite Gerson chegou tarde e meio bêbado. Na hora de dormir, Vilma alisou o corpo do marido, beijou-lhe o pescoço, foi se achegando como pedisse carinho, um pouco de atenção. Nesse momento ele falou aborrecido, grosseiro.

– Não quero, não quero pegar sua doença. Você está com câncer. Porra!

Empurrou-a. virou-se para o lado e adormeceu.

Humilhada e ofendida, chorando baixinho, Vilma correu ao banheiro, sentou-se na privada e caiu em prantos, chorou muito. Certo momento se recuperou, respirou fundo, levantou-se, olhou-se no espelho, só de calcinha, levantou os braços, rodou, achou-se uma mulher bonita, conservada, atraente. Veio-lhe um sentimento forte de amor próprio, jurou para nunca mais chorar por Gerson.

Retornou à cama, custou a adormecer. Fez um retrospecto de sua vida, ninguém mais dependia dela, vivia só, os filhos independentes. Pensou no que restava de um futuro hipócrita e humilhante junto a Gerson.

Eram oito horas da manhã quando ela levantou-se. Tomou café, trocou de roupa, foi ao cabeleireiro, à manicure. No shopping comprou roupas, foi ao banco, almoçou. Chegou em casa por volta das duas horas, arrumou a mala, escreveu uma carta simples para Gerson. Tomou um táxi.

O navio Costa Maru repleto de passageiros desencostava do cais. Na balaustrada do convés Jorge Garcia contemplava o mar, o casario da Avenida da Paz se afastando, diminuindo de tamanho. Ele estava embevecido com a cor do mar de sua terra, quando, de repente, sentiu uma mão por cima da sua. Ao olhar de lado teve a mais bela aparição improvável de sua vida: Vilma sorrindo, feliz, liberta.

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A CHACINA NA IGREJA NOSSA SENHORA MÃE DO POVO

Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo

Ya-Rá-Guá (enseada do ancoradouro) é o nome indígena originário do bairro de Jaraguá, o Marco Zero, onde começou a cidade de Maceió. Quando o mundo entrou na era da industrialização, navios de toda parte fundeavam no ancoradouro natural na enseada de Jaraguá. Naquela época o bairro teve um enorme desenvolvimento urbano e econômico devido ao efervescente comércio. Jaraguá vivia na euforia de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados para o consumo da população. O ancoradouro natural tinha uma ponte de desembarque e Jaraguá tornou-se um dos portos mais movimentados do Brasil.

Em torno da Praça Dois Leões, onde se encontra a Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma família. Augusta era uma menina sapeca, corria pelos sítios perto do Riacho Salgadinho, corria na praia, subia nas amendoeiras da Avenida da Paz, a todos encantava. Ao completar dezesseis anos era a moça mais bonita das redondezas, chamava atenção sua beleza e sensualidade. Todos queriam namorar Guta, mas, ela só se agradava de Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem aos dezenove anos, corpo forjado carregando sacos de açúcar na ponte de desembarque; depois se tornou embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das famílias.

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça Dois Leões, quando o cabo avistou a moça de roupa domingueira; encantou-se, ficou deslumbrado com Augusta. Todo domingo o cabo passou a admirar a jovem em direção à missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitiu a negativa. Ele cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família.

No dia 10 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações singravam na enseada da praia da Avenida da Paz em Jaraguá. Os barcos enfeitados competiam na ornamentação, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça Dois Leões. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava com a música de um conjunto. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados Os amigos lotaram a casa de Augusto, pai da aniversariante, Augusta, a moça mais bonita da cidade, celebrava seus dezessete anos.

O Cabo Sobral, ao longe, assistia a animação na casa de Augusto, para onde não foi convidado. Deu-lhe um despeito quando olhou pela janela Gumercindo dançando coco de roda com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, tentou entrar na casa de Augusto, foi barrado na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O cabo quis alterar, apareceram alguns estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, o Cabo Sobral, policial arruaceiro, retornou com mais três policiais. Foram rechaçados e iniciaram uma briga, murros e pontapés, deu-se uma briga generalizada. Uma facada deixou um policial morto estirado na rua.

Cabo Sobral e seus homens bateram retirada ao quartel. Reuniu os soldados que se encontravam no momento. Fez um discurso emocionante, incitando vingar o companheiro assassinado pelos estivadores. Armou mais de 20 soldados, montaram a cavalos, dispararam em direção à Praça Dois Leões. Entraram galopando na praça, atirando em quem estivesse pela frente. Ao moradores pularam muro da casa, fugiram da sanha dos policiais.

Na casa de Augusto correram pelo estreito portão do fundo do quintal. Dois músicos guardavam seus instrumentos, foram feridos pelas balas dos policiais. Na praça, os ambulantes, que nada tinham a ver com a história, correram para o interior da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram na igreja, a cavalo, atirando indiscriminadamente.

No dia seguinte o governador soube da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu que os cadáveres, mais de 20, fossem ajuntados em uma carroça de bonde, e enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá.

O massacre foi abafado pela imprensa. Nenhuma notícia foi publicada em jornais, não houve um registro sobre a ocorrência. Até a Igreja foi conivente abafando o caso e determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou fechada por mais de quinze anos. Mas o povo, os moradores do bairro de Jaraguá não esqueceram. Ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do insano massacre da Igreja Nossa Senhora Mão do Povo no bairro histórico de Jaraguá. Acontecido há muitos anos.

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APOSENTADORIA MERECIDA

Gabriel desde que se casou morou no bairro do Farol. Quando os filhos cresceram pressionaram para morar orla.

Devido aos tempos modernos, aos apelos da família, à qualidade de vida, finalmente Gabriel comprou um apartamento na Ponta Verde, perto da praia. Para família foi uma alegria, para ele um sacrifício. Trocar uma casa confortável com jardim e mais um quintal com duas frondosas mangueiras, por um apartamento de quatro quartos, foi difícil a adaptação. Mas, a família acima de tudo. O casal ficou com uma suíte, dois quartos para os filhos e um quarto transformado em gabinete. Gabriel armou um computador para se distrair. Aposentado recentemente do Banco do Brasil, era hora de desfrutar a boa vida.

Organizado, fez a programação diária. Pela manhã caminha na orla, encontra amigos da conversa fiada e fica olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol. Às tardes são preenchidas no shopping, cinemas, livraria. À noite assiste um pouco à televisão e recolhe-se ao gabinete. Entra no computador para pesquisar, ler jornais, enviar e-mails para amigos. Já plantou várias árvores, tem dois filhos, agora cismou em escrever um livro narrando passagens de sua vida. De sua cadeira tem uma ampla vista lateral do prédio vizinho.

Num dos apartamentos ao lado, uma jovem que mora com o pai, chega da Faculdade por volta das onze da noite. A moça é um encanto: estatura média, cabelos louros escorridos ao ombro, nariz afilado, lábios grossos. Seu corpo é um monumento, seios duros, pontiagudos, cintura fina. A bunda é delirantemente bem torneada. O espelho da porta do guarda-roupa reflete todos os movimentos no quarto.

Assim que ela chega, se enrola numa toalha e vai ao banho antes de dormir. Sai do banheiro se enxugando, abre o guarda roupa e veste um lingerie curto antes de deitar. Gabriel fica num excitamento de menino. Muitas vezes depois dessa cena, ele vai ao quarto, acorda sua amada Helena.

Certo fim de tarde, Gabriel pegou o carro para ir às compras. Ao longe, no ponto de ônibus, reconheceu a jovem em pé, com os livros abraçados ao peito, esperando ônibus. Ao cruzar os olhos, ela sorriu, Gabriel freou o carro no reflexo. Perguntou sinalizando com o indicador se ela ia à cidade. A moça não se fez de rogada, entrou no carro. Como uma princesa sentou-se ao lado, a curta saia mostrava suas pernas maravilhosas. Deu boa noite, disse que ia para a Faculdade no Farol. Gabriel mentiu: também ia para o Farol. Foram conversando amenidades, mas o coração do coroa estava disparado. Afinal chegaram.

Naquela noite Gabriel ficou esperando, ansioso, a chegada de sua musa da janela. A espera compensou, a jovem tirou a roupa bem devagar, coisa que nem um strip-tease. Deixou Gabriel ensandecido. Ao dormir acordou Helena.

Na tarde seguinte Gabriel passou com o carro e frustrou-se. Dois dias depois, se emocionou quando a viu no ponto de ônibus. Freou o carro, ela entrou mais bonita que nunca. Vilma, assim se chama, 21 anos, faz Direito, mulher prática, pragmática. Em certo momento ela foi direta, sorrindo para Gabriel.

– Eu acho que você está me paquerando. Pensa que não percebo você toda noite na janela me olhando? Faço aquela cena de propósito. Tenho esse defeito, adoro que os homens me olhem.

Gabriel estremeceu de alegria. Virou o rosto, encarou-a com largo sorriso.

– Mas menina, você é danadinha hein?

– Danadinha ou danadona sei quem é você, casado e aposentado. Sou muito direta. Vou lhe fazer uma proposta, indecente: saio com você para gente se divertir, vadiar, uma vez por semana, e você paga minha faculdade todo mês. Que tal? Pense. Estamos chegando, me pegue aqui mais tarde. Às nove horas, depois de minha última aula. Estarei esperando nessa esquina.

Gabriel, emocionado, parou o carro. Ela desceu, acenou com os dedos sem olhar para trás.

O difícil foi arranjar uma desculpa para sair de casa às oito horas daquela noite. Ele arriscou:

– Helena, está passando um filmaço no Cine Pajuçara. Topa?

Ficou esperando a resposta. Quando ela disse estar sem vontade, ele quase dava uma gargalhada de felicidade. Perguntou se incomodava de ele ir sozinho.

Às nove horas Vilma se aproximou do local, entrou no carro. No motel quase Gabriel teve um infarto se tantas formas de amor, a jovem sabia tudo. Uma mestra com 21 aninhos.

O aposentado Gabriel aumentou sua despesa no orçamento mensal. Feliz da vida, às tardes das quartas-feiras Vilma já fica esperando no carro do coroa estacionado na esquina. Depois rumam aos bons motéis da praia de Jacarecica. Toda a noite ele não se cansa em vê-la, fica deliciando-se com o strip-tease, preenchendo o tempo de sua aposentadoria merecida.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

QUEM É ESSA MULHER?

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa mulher que todo dia ela faz tudo sempre igual? Depois do café da manhã sai com suas pastas embaixo do braço direto ao escritório e divide com o genro e a filha o trabalho de clientes em busca de seus direitos. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que poderia estar desfrutando de uma aposentadoria merecida, porém, reabriu o escritório e trabalha todos os dias?

Quem é essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos, a levar os netos às aulas de inglês, de tênis, de natação? Quem é essa mulher síndica do prédio onde mora, administra com dedicação como fosse sua casa? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu pequenos coqueiros morrendo na praia da Jatiúca, comprou três pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância? Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua, telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade. Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido?

Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pode e o que não pode até o final de seus dias? Quem é essa mulher que leva comida a um cão abandonado no quintal de uma casa e nos dias de sábado dá banho e conforto ao pobre animal? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores? Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve?

Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa mulher que paga a faculdade das filhas da secretária? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e no zap, aproveitando a fase madura da vida.

Quem é essa mulher que desde menina, gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa 73 anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosa. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, enxergando, perto, outros mares ou o porto final além do horizonte.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ARLINDO CHAGAS E O SÃO DOMINGOS

A poderosa equipe do São Domingos

Existem personalidades, tipos inesquecíveis, de uma cidade que deixam lembranças com suas histórias. Quem conheceu e desfrutou a amizade de Arlindo Chagas não esquecerá essa figura marcante de nossa cidade. Suas histórias certamente serão contadas por muitos anos, e pesquisadas como parte de nossos costumes na época de ouro dos anos 70.

Éramos frequentadores assíduos do Clube Fênix na Avenida da Paz. Aos domingos ficávamos em uma roda de uísque à beira da piscina ouvindo o conjunto “Sambrasa” do cantor Paulo Sá. As histórias irreverentes de Arlindo Chagas davam o sabor bem humorado à conversa.

Notívago, Arlindo iniciava seus trabalhos à tarde; dizia ter melhor poder de convencimento quando os outros já estavam cansados. Era excelente ousado negociador. Não vendia qualquer produto, acreditava em seus argumentos. Passou parte da vida como publicitário na Gazeta de Alagoas, benquisto por todos. Em seu enterro fiquei ao lado do seu amigo, triste, o presidente Fernando Collor. Em todos os lugares, nas rodas de papo de botequim, shopping, alguém conta alguma história de Arlindo Chagas. Deixou seu nome nos anais, na memória da cidade.

Arlindo Chagas além de publicitário era um esportista, gostava de futebol, acompanhou a construção do Estádio Rei Pelé que foi inaugurado pelo governador Lamenha Filho, com uma série de jogos maravilhosos, no ano da copa 1970. O estádio vivia lotado até com a disputa do campeonato local, a luta tradicional entre CRB x CSA.

Um grupo de esportista, incluindo Arlindo Chagas, resolveu investir no Clube de Futebol São Domingos para acabar com a hegemonia de CRB e CSA. O São Domingos tornou-se um time competitivo, com bons jogadores: Gabriel, China, Beijoca. Disputava na cabeça, pau-a-pau, com os dois times tradicionais, era a terceira força do futebol alagoano. Se o jogo era SÃO DOMINGOS x CSA, os regatianos torciam pelo São Domingos. No jogo SÃO DOMINGOS X CRB, os azulinos torciam pelo DOMINGÃO.

Certa vez o SÃO DOMINGOS foi jogar em Aracaju um amistoso contra o CONFIANÇA, campeão estadual. O time viajou num ônibus velho, enquanto dois carros de luxo levaram a diretoria: Miguel Spinelli, Severino Rabelo, Walter Mendes , Arlindo Chagas e o jornalista Bernardino Souto Maior. Domingo à tarde o estádio estava cheio, jogo da entrega de faixas ao campeão, o CONFIANÇA. Os torcedores sergipanos preparados para a grande festa esportiva davam como certa a vitória do CONFIANÇA. O SÃO DOMINGOS mostrou um bom futebol e ganhou de 2 x 0 acabando com a festa sergipana.

Os alagoanos fizeram um carnaval no vestiário já pensando em uma noitada na simpática na zona de Aracaju. Nesse momento entra um radialista do programa mais ouvido da região, fez algumas entrevistas com aquelas respostas previsíveis de jogadores. Entrevistou também Arlindo Chagas. O dirigente alagoano com sua pose de vencedor, não teve dúvida, nem freio na língua:

“O SÃO DOMINGOS É HOJE O MELHOR TIME DO NORDESTE BRASILEIRO. VENCEMOS PORQUE SOMOS BONS. AQUI EM SERGIPE NÃO TEM UM TIME QUE SE COMPARE COM O SÃO DOMINGOS. PODE JUNTAR TODOS OS TIMES, FAÇAM A SELEÇÃO SERGIPANA QUE AINDA DOU DOIS GOLS DE LAMBUJA E SÓ VALE GOL DO GABRIEL!!!!”

O pronunciamento debochado de Arlindo feriu o brilho dos sergipanos. Durante a saída, os jogadores receberam uma calorosa vaia do povo revoltado com a irreverência irritante, provocadora, de Arlindo.

Os atletas estavam prontos para um passeio na zona, quando se deu um imprevisto. Os dirigentes do SERGIPE, feridos com as declarações da diretoria alagoana, desafiavam o SÃO DOMINGOS para um jogo na quarta-feira. Miguel Spinelli, o presidente, ouviu a proposta, não aceitou; teria que voltar no outro dia. Eles insistiram, estavam magoados. Spinelli nesse momento chamou Arlindo, deu-lhe carta branca: “Você que fez a confusão, resolva o problema”.

Arlindo nunca foi de amolecer, aceitou e marcou outro jogo na quarta-feira, com a renda para o vencedor. Spinelli quase tem um infarto, mas segurou a decisão do dirigente. Reuniram os jogadores, esclareceram os detalhes do outro jogo. Liberaram os jogadores para farrear na zona durante uma noite. Concentração a partir de segunda-feira no hotel, com treino na praia.

Os jornais de Sergipe noticiaram com alarde o “Jogo da Vingança”, para atrair público. Foram dois dias de expectativa. Na quarta-feira o estádio estava superlotado. Torcedores do CONFIANÇA, do SERGIPE, de todos os times, com bandeiras incentivando, a honra sergipana estava no gramado.

O SÃO DOMINGOS era bom em qualquer lugar, jogadores experientes, cheios de malícias. Como foi prometido, a metade da renda seria dos jogadores. Eles deram tudo pensando na grana. Resultado: 1 x 0 para o DOMINGÃO.

Ao ser entrevistado Arlindo fez tanta gozação e irreverência, que os outros dirigentes, com receio, pediram para ele calar. Dessa vez o ônibus foi apedrejado. No hotel, a renda foi dividida entre os jogadores. O que restou ao clube foi gasto com despesas e uma farra homérica na zona de Aracaju.

Os sergipanos não se conformaram, pediram outra revanche. Nessa altura, os familiares da delegação, só sabiam notícias através de jornais, o telefone era péssimo naquela época. E para o cúmulo do deboche, Arlindo Chagas acertou outra partida no domingo contra o CONFIANÇA. Dessa vez não puderam segurar os jogadores que se concentraram, dormiram dois dias na zona.

Afinal o domingo, depois de dois dias hospedados nos cabarés, os jogadores do SÃO DOMINGOS ainda fizeram o impossível, com um pouco de sorte, conseguiram empatar o jogo 1 x 1 aos 46 minutos do segundo tempo.

Foi assim que o futebol alagoano teve uma semana de glória nos gramados e na zona de Aracaju, graças à capacidade de negociação e a ousadia e irreverência de nosso inesquecível, Arlindo Chagas.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEU PAI HERÓI

Coronel Mário Lima e Dr. Théo Brandão tentando soerguer o Gogó da Ema

Esse negócio de dia dos pais, dia das mães, dia dos namorados, foi inventado pelo comércio para vender mais e redundou em dias de celebrações. Já que todos enaltecem seus pais no feicebuque, resolvi prestar homenagem ao meu nessas minhas historinhas semanais. Eu amava e admirava aquele homem íntegro, corajoso, inteligente, que gostava das coisas simples. Educou os filhos pelo exemplo e por suas atitudes. Empolgado pelo que fazia, dedicou parte de sua existência à amada Alagoas.

Iniciou sua vida militar muito cedo na Escola Militar de Realengo. Em 1930 serviu como tenente do 5º Regimento de Infantaria em Lorena. Em 1932 conseguiu transferência para o 20º Batalhão de Caçadores em Maceió, onde passou a grande parte de sua carreira militar. O destino foi cruel, em 9 de julho de 1932 rebentou a Revolução Constitucionalista ou Separatista em São Paulo. O 20º BC foi uma das tropas legalistas designada para lutar contra os revoltosos paulistas. O tenente Mário Lima embarcou como comandante da 1ª Companhia de Fuzileiros no porto de Maceió para combater na revolução de 1932, onde morreram mais soldados brasileiros que na 2ª Guerra Mundial. O tenente Mário Lima arriscou sua vida no meio do tiroteio arrastando para trincheira um capitão e um soldado, feridos no campo de batalha. Assim conta nos seus assentamentos.

Recentemente lendo “Diário de um Revolucionário Constitucionalista” do historiador Wanderley Gomes Sardinha, narrativa de um soldado paulista sobre a Revolução de 1932, eu fiquei surpreso e orgulhoso ao ler: “O 20º BC tomou posições em um morro para atacar a cidade de Lorena. Alguns soldados do 5º Regimento de Infantaria se recusaram a atirar contra o morro onde se encontrava o tenente Mário Lima com a tropa do 20º BC”. Lorena caiu sem um tiro. Os paulistas perderam a guerra. Depois da ocupação do Vale do Paraíba pelas tropas legalistas, o mais sangrento campo de batalha da história do Brasil, brasileiros contra brasileiros, o tenente Mário Lima foi designado como “prefeito de ocupação” de toda área. Teve uma atuação humanitária com os irmãos brasileiros revoltosos presos que perderam a guerra. Essas e outras histórias constam em livros dos próprios paulistas.

Mário Lima serviu por muitos anos em Maceió. Seu trabalho extrapolava as atividades militares. Desportista, foi presidente do CRB, presidente da Fênix, diretor da FAD; foi até juiz de futebol. Certa vez acertaram um juiz carioca para apitar um decisivo CRB x CSA. Na véspera do jogo o juiz passou um telegrama impossibilitado de viajar. Reunião urgente entre os dois clubes. O presidente do CSA, Paulo Pedrosa, sugeriu o nome de Mário Lima para apitar a partida, só confiava nele. “Mas ele é CRB notório”, reclamaram outros azulinos. Depois de muitas discursões convidaram o Capitão Mário Lima, que foi o juiz do jogo. Terminou CSA 3×0.

Meu pai serviu quase toda vida no 20º BC, ele chamava com muito orgulho de “Meu Batalhão”. Sua vida social dentro da comunidade foi intensa. Quando coronel comandante do 20º BC, no início dos anos 50, Alagoas passava uma fase política conturbada, Mário Lima teve uma atuação determinante, evitou um grande derramamento de sangue, garantiu com a tropa do Exército a eleição no interior. Foi um homem que soube diferençar exageros. Ao se reformar do Exército, tornou-se professor de matemática para complementar a renda caseira na criação dos cinco filhos. Sem deixar o trabalho voluntário na comunidade, foi provedor da Santa Casa, do Orfanato São Domingos. Quando fundaram a telefônica, convidaram e ele aceitou, foi diretor da TELASA.

Homem culto, membro do Instituto Histórico, escreveu vários livros históricos, gostava de ler e da cultura popular. No domingo anterior ao carnaval havia o Banho de Mar à Fantasia na Avenida da Paz com desfiles carnavalescos. Mário Lima e Dona Zeca preparavam enormes panelas de laco-paco (maracujá e cachaça), cerveja e tira-gosto para servir aos blocos de frevo que visitavam sua casa. Após o desfile defronte à Fênix, todos os blocos, Vulcão, Bomba Atômica, Cavaleiro dos Montes, Vou Botar Fora, Pitanguinha vai à Lua, entre outros, dirigiam-se à nossa casa. Aos músicos eram servidos laco-paco, cerveja e tira-gosto. Em seguida tocavam três ou quatro frevos rasgados, a mocidade caía no passo no vasto terraço. Quando terminava um bloco, outro bloco entrava. Tornou-se tradição a visita dos blocos durante o Banho de Mar à fantasia em nossa casa, era uma festa.

No dia dos pais, lembro o velho amigo, o pai-herói. Ele habita nossas recordações, nossas mentes e corações. A família ficou feliz ao saber que um busto do General Mário Lima será colocado no pavilhão do NPOR do 59º Batalhão de Infantaria Motorizado, do qual ele foi o primeiro comandante em 1943.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

FÉRIAS EM MACEIÓ

Praia da Avenida da Paz – 1960

Nos anos 60 eu estudava no Rio de Janeiro. Ralava o ano inteiro, dando duro, estudando na Academia Militar das Agulhas Negras. Era jovem cheio de saúde e idealismo. Durante o período de aulas contava os dias pensando nas gostosas férias em Maceió.

As férias de verão eram meu combustível, meu incentivo, meu oxigênio, onde recarregava as baterias para o ano inteiro.

Perto do Natal eu desembarcava fardado de cadete do Exército no Aeroporto dos Palmares. Ao chegar à minha casa, matava a saudade de meus pais, de meus irmãos, de minha praia. Prontamente vestia um velho calção de banho, corria descalço, mergulhava no mar azul da praia da Avenida da Paz. Sentava-me na areia pensando na vida, só retornava quando o Sol se escondia lá para o fim do mundo para noite chegar.

Era o início das férias de verão, dois belos e aventurados meses, que acabavam depois do carnaval.

O programa diário era simples: pela manhã, um bom café, ouvir música, long-play na radiola, Ray Connif, bossa nova, música popular. Preenchia o tempo lendo um romance até às dez horas da manhã, quando descia à praia. Depois da pelada de futebol, um mergulho, partia para uma divertida conversa com amigas e amigos ao lado de uma sombrinha; ficávamos em frente ao coreto. A paquera era fundamental, a praia da Avenida era frequentada pelas jovens mais belas e disponíveis da cidade.

Ao meio dia enquanto as jovens retornavam às casas para o almoço, nós, rapazes, caminhávamos pela areia dura e molhada até as imediações de Jaraguá, onde estavam fincados três grandes trapiches entrando no mar. Duas biroscas abasteciam de cachaça os pescadores, estivadores, catraieiros, marinheiros e as putas que tomavam banho de mar àquela hora de lazer. As biroscas vendiam boas aguardentes: Azuladinha, Chica Boa, Pitu. Como tira-gosto um bonito e adocicado caju maduro. Segundo o poeta Quico Ramalho: “Caju nasceu pra cachaça… Pirão pro peixe nasceu… Mulher nasceu pro amor… Pro amor também nasci eu…”

Depois do almoço, recomeçava a leitura à sombra de um oitizeiro frondoso em frente a minha casa, pelo meio da tarde partia rumo à paquera na Rua do Comércio. Ficávamos encostados nos automóveis (limpando os carros, dizíamos), apreciando o desfile feminino, paquerando as jovens, continuávamos a conversa nas sorveterias: DK-1, Gut-Gut ou Danúbio, deliciando os sorvetes de pinha, sapoti ou mangaba.

Ao entardecer descíamos à Avenida da Paz, caminhando e conversando em boa companhia. Havia uma parada obrigatória no Arcebispado onde uma senhora vendia numa enorme panela, suco de maracujá, outra delícia dos Deuses, acompanhado de pão doce. Nunca, em minha vida, encontrei um maracujá que chegasse perto daquele divino suco de minha juventude. Às vezes não jantava, empanzinado de tanto pão doce com maracujá.

À noite, depois de dar uns abraços na namorada, geralmente ultrapassando os limites permitidos à época, nossa turminha se reunia em locais variados: Bar do Relógio, Peixada Gaivota, Bar Gracy, ou mesmo as boates de Jaraguá.

Nessa boa vida, eu vivia, curtia minhas tão esperadas divertidas férias de verão.

Certa tarde passeando pela orla da Pajuçara no carro de Guilherme Palmeira, um Simca-Chambord cinza, ao passar na esquina do CRB avistamos um peru na rua, certamente engordava esperando o Natal. A operação foi executada com presteza. Quico e Frazão apanharam o peru e colocaram na mala do carro numa rapidez de dar inveja a certos deputados de hoje em dia.

Em minha casa o peru foi devidamente preparado por uma exímia cozinheira gorda. À noite levamos o gostosíssimo peru assado para o Restaurante da Fênix, onde foi devidamente banqueteado com cerveja gelada.

Depois do réveillon, todos os sábado aconteciam as festas prévias carnavalescas nos clubes. Durante os quatro dias de carnaval, brincávamos fazendo o corso nas ruas e fazendo o passo nos clubes. Era preciso muito fôlego, muita juventude.

Assim eram as férias de verão em Maceió. Não sou saudosista, saudosista é aquele que vive no passado. Tenho lembranças gostosas, bem guardadas, que fazem parte do meu ser, vão virar cinzas comigo, como essas férias de verão.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A BRIGA DO SÉCULO: CAPIXABA x PORRETA

Osvaldo Carlos do Rego Couto, de apelido Capixaba por ter nascido no Espírito Santo, filho do Coronel Couto, criou-se praia da Avenida da Paz. Forte, musculoso, xodó das meninas, cuidava de seu corpo. Foi meu colega na Escola Preparatória de Cadetes em Fortaleza, atleta de primeira grandeza, excelente ponta direita, não quis continuar a carreira militar. Desde cedo apreciou boas mulheres, bons papos, inteligência e raciocínio rápidos lhe davam o toque de bom humor e alegria. Contador de história nato; prendia atenção ao contar suas aventuras.

Mudou-se para Brasília, nunca perdeu o contato com os companheiros de juventude, gentil, quando visitava Maceió distribuía presentes entre os amigos. Tinha simpatia e alegria, inatas, um ser humano de bem com a vida. Na última vez que almoçamos juntos, festa de fim-de-ano do Cáu, relembramos grandes noitadas, aventuras de jovens cheios de sonhos e até irresponsabilidades. A vida de Capixaba é um livro bem humorado, ainda não escrito.

Capixaba gostava de carnaval, certa vez nós estávamos fazendo o passo no Bloco Cavaleiro dos Montes numa manhã quente de Banho de Mar à Fantasia, a moçada enlouquecia ao tocar o frevo Vassourinhas. Eu vi quando Capixaba recebeu uma cotovelada na cara, caiu no asfalto, atordoado. Ao recuperar-se da pancada identifiquei o agressor, mas não tive a petulância de partir para briga contra o agressor de meu amigo, era nada mais, nada menos que Porreta, um baiano, alto, forte, arruaceiro de zona, certa vez lutou e bateu em três policiais na Boate Tabariz em Jaraguá. Porreta, conhecido nas baixas rodas por ser briguento e homossexual, era o “Madame Satã” de Maceió. Todos tinham medo de Porreta, bicha macho para ninguém botar defeito. Capixaba inconformado, desafiou o baiano para um duelo, tipo Vale Tudo dali a um mês, na Praça Sinimbu à noite. Porreta não refugou, topou a parada.

Capixaba começou a preparar-se para grande luta. Boêmios, prostitutas, policiais, políticos, desocupados, estudantes, comentavam o duelo marcado, causou a maior expectativa na cidade.

Capixaba começou a treinar. Corria diariamente às cinco da manhã do coreto da Avenida ao Morro Tom Mix, uma linda duna demolida na praia do Trapiche pela Salgema (Braskem).

Naquela época, Nezito Mourão, um dos maiores beques do Brasil, jogou pelo CRB, depois jogou no Santos com Pelé, campeão do mundo em 61-62, havia aberto uma Academia de Boxe. Capixaba matriculou-se, recebeu aulas técnicas de murros e defesas, preparando-se para enfrentar o Porreta. Certa vez “brigaram” em treinamento, Capixaba de repente aproveitou uma guarda aberta de Mourão, deu-lhe um soco no olho, zonzou, Nezito tentou dar o troco no indisciplinado aluno, entretanto, Capixaba com medo do revide correu em disparada foi bater em Marechal Deodoro. Fez parte do treinamento.

Certa manhã, nós estávamos conversando sentados num banco da Avenida da Paz, quando Capixaba avistou dois marinheiros ingleses caminhando em direção ao cais do porto, ele gritou “Son of bich”, os marinheiros não gostaram, continuaram a caminhada, Capixaba correu atrás, provocando, deu uma tapa em cada inglês. Iniciou no calçadão uma briga de cinema, dois contra um. Lutaram até cansar. Certo momento Capixaba correu da luta, dizia ser treinamento para enfrentar Porreta.

Afinal, chegou a noite esperada ansiosamente pela população de Maceió. Alguns amigos acompanharam nosso herói até a Praça Sinimbu. Ao se aproximar do local, Capixaba ouviu o grito provocativo do Porreta com as mãos nos quartos, “Preparou-se para levar a maior surra de sua vida?”

Capixaba tirou seus sapatos, a camisa, o relógio, me pediu para guardar. arregaçou a calça. A assistência formou um círculo deixando os dois lutadores no centro. Aconteceu uma das maiores lutas presenciadas nas Alagoas e alhures. Primeiros movimentos, os adversários se estudando, alguns ataques, outras defesas, jogo de pernas. De repente rápidos murros, socos na cara, na barriga, às vezes se atracavam, se soltavam, não havia juiz para separar. Esmurraram-se, se digladiaram por mais de uma hora, suavam, sangravam.

Estavam cansados, Capixaba distraiu a guarda, Porreta aproveitou, acertou um soco desconcertante na cara, nosso amigo caiu no chão, jorrando sangue pela boca. A raiva subiu para cabeça, Capixaba num ímpeto surpreendente levantou-se num pulo dando cabeçada no peito do atônito Porreta. “Madame Satã” caiu de costas, abriu a cabeça no calçamento, sangrou. Ato contínuo, Capixaba montou em Porreta, não perdoou, esmurrando-o incessantemente.

Retiraram Capixaba de cima de “Madame Satã” nocauteado, sangrando. Imediatamente levaram-no para o Pronto Socorro, quatro dentes quebrados, muito sangue. Assim terminou o reinado de Porreta, o baiano mais macho do Brasil.

Capixaba também acabou seu reinado nesse mundo, foi-se embora meu querido amigo. Resta agora lembranças, contar suas histórias, ou dançar um tango.