CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Gabriel desde que se casou morou no bairro do Farol. Quando os filhos cresceram pressionaram para morar orla.

Devido aos tempos modernos, aos apelos da família, à qualidade de vida, finalmente Gabriel comprou um apartamento na Ponta Verde, perto da praia. Para família foi uma alegria, para ele um sacrifício. Trocar uma casa confortável com jardim e mais um quintal com duas frondosas mangueiras, por um apartamento de quatro quartos, foi difícil a adaptação. Mas, a família acima de tudo. O casal ficou com uma suíte, dois quartos para os filhos e um quarto transformado em gabinete. Gabriel armou um computador para se distrair. Aposentado recentemente do Banco do Brasil, era hora de desfrutar a boa vida.

Organizado, fez a programação diária. Pela manhã caminha na orla, encontra amigos da conversa fiada e fica olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol. Às tardes são preenchidas no shopping, cinemas, livraria. À noite assiste um pouco à televisão e recolhe-se ao gabinete. Entra no computador para pesquisar, ler jornais, enviar e-mails para amigos. Já plantou várias árvores, tem dois filhos, agora cismou em escrever um livro narrando passagens de sua vida. De sua cadeira tem uma ampla vista lateral do prédio vizinho.

Num dos apartamentos ao lado, uma jovem que mora com o pai, chega da Faculdade por volta das onze da noite. A moça é um encanto: estatura média, cabelos louros escorridos ao ombro, nariz afilado, lábios grossos. Seu corpo é um monumento, seios duros, pontiagudos, cintura fina. A bunda é delirantemente bem torneada. O espelho da porta do guarda-roupa reflete todos os movimentos no quarto.

Assim que ela chega, se enrola numa toalha e vai ao banho antes de dormir. Sai do banheiro se enxugando, abre o guarda roupa e veste um lingerie curto antes de deitar. Gabriel fica num excitamento de menino. Muitas vezes depois dessa cena, ele vai ao quarto, acorda sua amada Helena.

Certo fim de tarde, Gabriel pegou o carro para ir às compras. Ao longe, no ponto de ônibus, reconheceu a jovem em pé, com os livros abraçados ao peito, esperando ônibus. Ao cruzar os olhos, ela sorriu, Gabriel freou o carro no reflexo. Perguntou sinalizando com o indicador se ela ia à cidade. A moça não se fez de rogada, entrou no carro. Como uma princesa sentou-se ao lado, a curta saia mostrava suas pernas maravilhosas. Deu boa noite, disse que ia para a Faculdade no Farol. Gabriel mentiu: também ia para o Farol. Foram conversando amenidades, mas o coração do coroa estava disparado. Afinal chegaram.

Naquela noite Gabriel ficou esperando, ansioso, a chegada de sua musa da janela. A espera compensou, a jovem tirou a roupa bem devagar, coisa que nem um strip-tease. Deixou Gabriel ensandecido. Ao dormir acordou Helena.

Na tarde seguinte Gabriel passou com o carro e frustrou-se. Dois dias depois, se emocionou quando a viu no ponto de ônibus. Freou o carro, ela entrou mais bonita que nunca. Vilma, assim se chama, 21 anos, faz Direito, mulher prática, pragmática. Em certo momento ela foi direta, sorrindo para Gabriel.

– Eu acho que você está me paquerando. Pensa que não percebo você toda noite na janela me olhando? Faço aquela cena de propósito. Tenho esse defeito, adoro que os homens me olhem.

Gabriel estremeceu de alegria. Virou o rosto, encarou-a com largo sorriso.

– Mas menina, você é danadinha hein?

– Danadinha ou danadona sei quem é você, casado e aposentado. Sou muito direta. Vou lhe fazer uma proposta, indecente: saio com você para gente se divertir, vadiar, uma vez por semana, e você paga minha faculdade todo mês. Que tal? Pense. Estamos chegando, me pegue aqui mais tarde. Às nove horas, depois de minha última aula. Estarei esperando nessa esquina.

Gabriel, emocionado, parou o carro. Ela desceu, acenou com os dedos sem olhar para trás.

O difícil foi arranjar uma desculpa para sair de casa às oito horas daquela noite. Ele arriscou:

– Helena, está passando um filmaço no Cine Pajuçara. Topa?

Ficou esperando a resposta. Quando ela disse estar sem vontade, ele quase dava uma gargalhada de felicidade. Perguntou se incomodava de ele ir sozinho.

Às nove horas Vilma se aproximou do local, entrou no carro. No motel quase Gabriel teve um infarto se tantas formas de amor, a jovem sabia tudo. Uma mestra com 21 aninhos.

O aposentado Gabriel aumentou sua despesa no orçamento mensal. Feliz da vida, às tardes das quartas-feiras Vilma já fica esperando no carro do coroa estacionado na esquina. Depois rumam aos bons motéis da praia de Jacarecica. Toda a noite ele não se cansa em vê-la, fica deliciando-se com o strip-tease, preenchendo o tempo de sua aposentadoria merecida.

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