CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CELEBRANDO A VIDA

1968 o ano que nunca terminou segundo Zuenir Ventura. Eu era tenente do Exército Brasileiro, servia no quartel de fronteiras em Roraima quando fui promovido a Capitão e transferido para o 20º Batalhão de Caçadores, o 20º BC na minha querida cidade de Maceió. Naquele ano houve uma revolução de costumes no mundo. Foi o tempo das mulheres se liberarem com a pílula. Maceió era uma festa, estava sendo descoberto pelo turismo. Ao chegar à minha casa tive a sensação profundamente gostosa em estar no meu lar, com meus pais, meus irmãos. Apresentei-me no 20º BC onde passaria a trabalhar nos afazeres militares. Logo tomei conta da cidade, era convidado para festas em altas e baixas rodas. Dediquei-me à prazerosa boemia.

Eu tinha dois pontos de lazer, espécie de escritórios: O Clube Fênix Alagoana e o Zinga Bar que era também restaurante e boate. As moças solteiras da cidade que só frequentavam clubes e festas em casas de família deram seu grito de independência frequentando o Zinga Bar na praia de Riacho Doce. Foi um marco na transformação da sociedade conservadora de Maceió. Eu solteiro, bonito, capitão, amava a modernidade, as mudanças dos costumes. O Zinga Bar, a pílula e bons livros contribuíram para revolução sexual no mulherio. Ano inesquecível. Porém, eu tinha um objetivo em minha vida: terminar a Faculdade de Engenharia.

O Sol nasceu no santo ano de 1969. Providenciei minha transferência da Escola Politécnica de Engenharia do Recife, onde eu cursava o terceiro ano quando, sem aviso prévio, fui transferido para Fronteira do Brasil. Vencendo a burocracia me matriculei no terceiro ano da Faculdade de Engenharia de Alagoas. No primeiro dia de aula compareci ao prédio na Praça Sinimbu, entrei na sala do terceiro ano, assisti à primeira aula. Notei algum problema com os colegas, ninguém falou comigo, ninguém se dirigiu a mim, no mínimo para dar as boas vindas. Soube depois: estavam me colocando no “gelo”, simplesmente porque eu era militar. Não passou uma semana, tornei-me amigos dos colegas, amizade que perdura até hoje. O que não faz uma mesa de bar? Depois das aulas, das provas, partíamos para bares e outros locais não compatíveis com futuros engenheiros.

Meu tempo era apertado, tinha de conciliar: o expediente no quartel, as aulas na Faculdade e a Boemia. Tive sorte, deu-se uma vaga de capitão na 20ª CSM, unidade burocrática do Exército no Centro de Maceió com expediente corrido de 7:00 às 13:00 horas. Viajei ao Rio onde ficava o Departamento de Pessoal do Exército e consegui minha transferência. No dia que o homem pisou na lua, 20 de julho de 1969, eu comecei a trabalhar na 20ª CSM. O que facilitou a dedicar-me com afinco aos estudos de engenharia.

Alguns jovens colegas participavam da política estudantil. Havia um líder que militava em partido de esquerda que em plena tarefa de panfletar pontos de ônibus foi preso pela Polícia. Certa tarde havia uma prova muito importante de Resistência de Material. Uma colega, Anacy, perguntou se havia possibilidade de eu trazer o colega preso para fazer essa prova. Fui tentar, Zé Sangreman deu-me carona no fusquinha verde até o DOPS no centro da cidade, onde estava nosso colega preso há três dias. Conversei com o Delegado, me responsabilizei, assinei alguns papéis e levei o preso para fazer prova sob minha custódia. Ao terminar a prova entramos no fusquinha verde, foi quando os colegas pediram para deixar o Galego tomar uma cervejinha na Sorveteria Sorriso. Conversa gostosa regada à cervejinha e pitu, o tempo foi passando, fomos para outros bares, e o tempo passando.

Era mais de meia noite e o colega preso me implorava para retorná-lo à Delegacia, com receio. Afinal chegamos ao DOPS, estava um guarda de plantão que recebeu o preso sem nenhum problema. Ele dormiu até meio dia seguinte. Num fim de semana tomando um uísque no Clube Fênix, uma autoridade aconselhou-me a me afastar de alguns colegas. Eu devia tomar cuidado, eram subversivos, queriam incendiar o mundo. Anos depois, aquele estudante que foi preso, tornou-se governador de Alagoas. Ronaldo Lessa fez um ótimo governo dentro das possibilidades e nada incendiou, preocupou-se mais com o bem estar social e a educação do povo.

Somos uma turma unida, várias aventuras extracurriculares preencheriam um livro. Em 1970 eu encontrei o amor de minha vida, Vânia, com quem estou casado até hoje. Afinal em 1971 houve nossa formatura. Era época do “Milagre Econômico”, todos os colegas ao terminarem a Faculdade estavam empregados. Alguns foram para outros estados. Em Alagoas nossos colegas de turma se destacaram, ajudando a construir o Estado nas empresas estatais e privadas. Alguns entraram na política, foram vereadores, prefeitos, deputados, até governador. Mesmo dispersados nos empregos, durante todo esse tempo, nos encontramos quando podemos. Almoços e outros encontros nos juntam, fortalecendo a amizade. Semana passada houve a celebração de 50 anos de formados, passamos o fim de semana no Hotel Village na Barra. Relembrando e contando histórias, celebrando a vida.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CALCINHA

Almeida e Gertrudes são duas extraordinárias criaturas. O que se pode chamar de casal perfeito. Pessoas bonitas, politicamente corretas, inteligentes, bem sucedidas, sem preocupações financeiras. Todo ano realizam belas viagens, conhecem o mundo.

Como toda família bem aquinhoada, eles têm uma casa na praia da Barra de São Miguel. Os filhos crescidos só vão à casa de praia na temporada de verão e na efervescência do carnaval.

Depois do carnaval a casa fica vazia por algum tempo. Certo domingo Almeida convidou Gertrudes para passar o dia na Barra, fazer alguns pagamentos e verificar a manutenção da casa.

Numa bela manhã Almeida tirou o carro da garagem, rumaram à praia. O céu azul de brigadeiro e o mar verde fazem a beleza daquela estrada entre coqueirais.

Ao passar pelo posto policial, um soldado acenou parando o carro. Almeidinha mostrou suas carteiras pessoais e pediu à Gertrudes para apanhar os documentos do carro no porta-luvas. Ao puxar a tampa, ela enxergou uma pequena peça de pano branco no fundo. Quando levantou a pequena peça pelos dedos, não conteve o grito:

– Uma calcinha!

Era uma peça linda de renda branca. Gertrudes indignada foi direta em bom tom encarando o marido:

– Almeida me explique isso direitinho, uma calcinha no porta-luvas de seu carro? Essa eu nunca esperava!

O marido respondeu que também estava surpreso, não sabia de quem seria a calcinha.

O guarda constrangido liberou o carro. Almeida não conseguiu se restabelecer da surpresa, do impacto da calcinha, partiu em direção à casa da Barra.

No terraço daquela bela casa, olhando para o infinito e a beleza do mar, Almeida se dizia inocente, não tinha ideia de quem poderia se a bela calcinha. Gertrudes contrariada, chateada por não estar acreditando em seu marido que nunca teve deslize em mais de 38 anos de casados.

Ao meio-dia Almeida foi buscar um almoço num restaurante, voltou uma hora depois. Estava mais calmo, mais confiante. Serviu a lagosta grelhada para mulher. Tudo havia de esclarecer.

Na boca da noite voltaram à Maceió, chegando ao belo edifício na praia da Pajuçara, Gertrudes pediu aos três filhos que fossem ao jantar às oito da noite, sem falta, tinha uma comunicação a fazer..

Quando serviram os pratos, Gertrudes com sua maneira espontânea e calma, falou aos filhos:

– Estamos com um problema. Encontrei uma calcinha no porta-luvas do carro do Almeidinha.

Tirou da bolsa e mostrou a bonita peça artesanal. Cacilda a filha mais velha, pediu para olhar. Ao examinar, deu um sorriso e falou com certeza.

– Essa calcinha é da Verônica, minha amiga, filha da Tia Rose. Ontem fomos ao Shopping no carro do papai, ela comprou uma calcinha e experimentou no carro, deve ter deixado no porta-luvas.

Foi um alívio para o casal. Cacilda no seu papel de bombeira apressou-se em telefonar para amiga. Verônica não custou a chegar. Confirmou ser a dona da calcinha.

Foi o suficiente. Era só isso que Gertrudes precisava, nada questionou, abraçou Almeida. Tudo ficou como antes, como no quartel de Abrantes.

Já dizia o filósofo pernambucano Chacrinha: “Quem não se comunica, se trumbica”, principalmente com as facilidades da alta tecnologia atual de computadores, internet e principalmente celulares.

Em seu aniversário, Cacilda ganhou do generoso pai, um carro, verde, zero km, com ar condicionado. O irmão invejoso diz, à boca pequena, que o presente tem a ver com a história da calcinha. Isso é maledicência, picuinha de irmão despeitado. Ninguém pode ser bom e gentil com uma filha tão boa e distinta.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A FESTA DA PAFINHA

Ninguém sabia seu nome, que dirá sobrenome. Os amigos conheciam como Pafinha, apelido carinhoso. jovem bonita de pele morena clara, cabelos escuros escorridos, olhos vivos, harmonizavam com a boca rosada permanentemente num debochado sorriso. Pafinha tinha a beleza da juventude e a graça de quem é feliz, era linda.

Corpo miúdo, curvas nítidas, cintura fina e seios abundantes faziam dessa menina uma mulher atraente. A traseira bem torneada era desejo e fantasia de muitos homens.

Todos amavam aquela jovem com ar de moleca sapeca e linda. Vivia a vida como se fosse acabar amanhã. Pafinha trabalhava na Boate Tabariz, era a rapariga predileta do famoso dono da noite de Maceió, o popular Mossoró. Nativa de Pariconha, sertão das Alagoas, sua família passava fome com a seca. Aos 16 anos, só havia conhecido miséria e pobreza. Um cabo de polícia a deflorou. Como ele era casado, prometeu aos pais da moça, amigação, uma casa montada na capital. Depois de muito discutir, os pais liberaram a filha para morar com o cabo na capital. O cabo viajou com Pafinha num fim de semana, e deixou-a na zona das putas em Jaraguá, entrego-a aos cuidados do Mossoró, o dono da casa de mulheres mais famosa da cidade.

Tornar-se prostituta foi uma grande transformação. Cursou a Universidade da Vida. Pafinha era a mais querida do cabaré, conhecia e tratava os frequentadores da boate pelo nome. Podia ser senador, deputado, coronel ou capitão. Era o xodó de Jaraguá. Ela era linda, apaixonou-se por um jovem deputado, rapaz novo, iniciando a carreira política. Quando o deputado aparecia, corria para os braços de seu amor.

Naquela época havia um bingo nas tardes de domingo, numa área do bairro do Trapiche da Barra, era a fonte de recurso para construção de um grande estádio de futebol (o atual Rei Pelé). Os prêmios convidativos: carros, camionetes e caminhões. Mossoró não perdia um bingo e levava suas meninas, comprava uma cartela para cada uma. Certo domingo, Pafinha teve sorte. Faltava apenas a pedra 27, uma torcida eletrizante entre as jovens alegres. Quando chamaram 27, foi uma explosão de alegria e abraços. Pafinha ganhou um carro IMPALA. Um conhecido senhor negociava prêmios de bingos, comprou o carro na hora. Foi dinheiro que Pafinha jamais pensou possuir.

Na mesma noite ela iniciou uma festa no bairro boêmio de Jaraguá. Todos queriam abraçá-la ou pedir dinheiro emprestado. A festa durou oito noites. Pafinha não tinha noção de economia, seu coração solidário e generoso emprestou e deu muito dinheiro. Fez festa no Verde, no Duque e no Sovaco do Urubu, a ZBM, Zona do Baixo Meretrício, frequentada por estivadores, pescadores, catraieiros, os pobres amigos de copo e de cruz. Pagava tudo.

Uma semana de alegria e diversão durou a festa de Pafinha. Só acabou quando ela percebeu que não tinha mais um centavo do dinheiro do bingo. Ficou pobre novamente.

Na praia da Avenida da Paz, no trecho mais perto do cais havia uma birosca frequentada por embarcadiços, pescadores, desocupados, desempregados. As raparigas de Jaraguá ao se acordarem por volta do meio-dia vestiam o maiô e devam um mergulho na praia, se refrescando da noitada anterior.

Pafinha sempre presente ajudava a comer o delicioso tira-gosto de panã ou arabaiana, contava casos da noite no cabaré. Seu Rodolfo, velho pescador, era o melhor contador de historias de peixes enormes, da mãe d’água, sereias, afogamentos, de botos salvando vidas empurrando os afogados até a praia.

Pafinha aprendeu a nadar, boiava e mergulhava se purificando na água do mar até o pôr-do-sol alaranjar o céu, depois das seis da tarde era hora de trabalho no Cabaré. A sertaneja dizia que seu destino estava naquele mar azul com matizes esverdeados.

A história da Pafinha ainda hoje é contada nas biroscas e bares de Jaraguá. Tornou-se lenda, dizem as testemunhas que ela numa tarde desapareceu no banho de mar, deixou-se levar pela correnteza. Iemanjá veio buscá-la e a transformou em um boto que vagueia vigilante na enseada da praia da Avenida da Paz, salvando os afogados.

Há muito tempo não acontece afogamento no mar de Jaraguá e Avenida. Um boto nas águas perto do cais mergulha vigilante, empurra até a praia os banhistas desavisados ou crianças mais afoitas. Depois retorna junto ao cardume, brincando alegre com seus pareias.

À noite, nos bares do mercado e na zona da boemia, marinheiros, pescadores, contam histórias de salvamentos milagrosos. Atribuem esses milagres ao boto presepeiro, alegre e lindo. Para o povo do cais do porto, Pafinha é uma espécie de santa protetora das putas, dos boêmios, dos bêbados e afogados de Jaraguá.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

NOSSAS ÁREAS VERDES ROUBADAS

Praça Napoleão Goulart, usurpada pelo Clube Fênix

“Ôi Maceió…É três mulé prum homem só”. Em matéria de mulher e de beleza natural nossa cidade está bem servida. Mas em área verde, em praças, em parques e jardins os números são ridículos. Maceió possui cerca de 5,00 m² de área verde por habitante. A Organização Mundial de Saúde recomenda o mínimo de 12,00 m2 por habitante para uma cidade ser habitável. João Pessoa nos humilha com seus mais de 60 m² por habitante e Curitiba com 50 metros quadrados de área verde por habitante é a campeã do sul do país.

Em Maceió quando chega o verão, o calor nos asfixia. Em alguns bairros o ar fica quase irrespirável. Se não fosse a santa brisa marítima e o vento Nordeste nossa cidade seria um inferno de quentura.

A árvore nos dá vida, fornece a oxigenação vital para o corpo humano. Uma árvore respira o gás carbônico da atmosfera e expele, exala oxigênio puro. Esse é o maravilhoso fenômeno da fotossíntese. Enquanto nós humanos, fazemos o inverso: respiramos o oxigênio da atmosfera e expelimos o nocivo gás carbônico de nosso corpo.

A natureza é sábia: para melhoria de qualidade de vida precisamos do verde, precisamos das árvores, que ainda nos dá sombra, flores, frutos e sonhos. É necessário, com urgência, de uma campanha de arborização nas calçadas, nas praças e em qualquer biboca.

O problema ambiental deixou de pertencer a incansável meia dúzia de batalhadores ambientalistas. É dever da sociedade organizada fiscalizar e denunciar os absurdos que são cometidos contra nosso meio ambiente.

Em nossa cidade existe uma inusitada, kafkaniana “Associação dos Moradores de Invasão da Área Verde do Conjunto Benedito Bentes”. É tradição cultural o Prefeito com a cumplicidade da Câmara de Vereadores “doar” terrenos públicos às Associações e entidades públicas e privadas.

São inúmeros os casos absurdos de doação de áreas verdes em Maceió; um crime urbano e ambiental contra o povo, o real dono da praça, como o céu é do avião, como diria o poeta. Não podendo prolongar, citarei apenas quatro casos que me afetaram diretamente durante minha vida nessa bendita cidade.

Em 1934 quando foi construída a nova sede do Clube Fênix Alagoana, deixaram ao lado uma área verde, a Praça Napoleão Goulart, onde eu brincava quando criança e como jovem quando saía das festas do clube. Há alguns anos, sorrateiramente essa praça foi doada ao Clube Fênix Alagoana que se apoderou ligeirinho, murando aquela praça bucólica pertencente ao povo de Maceió para aumentar a área de lazer da piscina do clube mais rico do Estado.

Outro crime inominável aconteceu com a Praça 13 de Maio, onde minha geração cresceu, brincou, se divertiu embaixo de árvores frondosas. No final do ano havia pastoril, reisado, festas de ruas. Minha despedida de solteiro foi no Bar do Miltinho naquela aprazível praça, maior área de lazer do bairro do Poço. Fatiaram a Praça 13 de maio, a CASAL (Companhia de Água e Saneamento) e o SESC apoderaram-se da bela área verde, restando apenas uma rua que separa as duas entidades governamentais ricas que poderiam ter comprado um terreno para construir seus prédios. Um crime ambiental inafiançável. O Sesc e a Casal devem um monte de dinheiro aos cofres públicos, mas, eu preferia que demolissem os prédios e retornassem minha querida Praça 13 de Maio.

Na Avenida João Davino foi aberto um extenso loteamento dentro dos padrões. A enorme área verde foi doada para construção do Clube dos Sargentos e um edifício de apartamentos.

No centro da cidade, quando menino depois da missa na Igreja do Livramento, brincávamos toda manhã na gloriosa Praça Rosa da Fonseca que mais tarde foi engolida pelo famoso Bar do Chope.

Existem dezenas desses tipos nefastos de doação política, pela troca de votos, em detrimento ao patrimônio da cidade e do cidadão.

Eu queria saber do mundo jurídico como um cidadão comum, aquele que a Constituição diz que todo Poder emana do povo, pode fazer para anular essas doações. Tenho certeza que existe amparo legal para entrar contra quem usurpou os bens públicos e os responsáveis. Dai-me uma luz, quero fazer um bem à minha cidade antes que eu me apague e já estou pelos 82 anos.

O que seria de Maceió se não fossem as praias e suas suaves brisas marinhas? Ainda bem que: “É três mulé prum homem só; e alguém está com cinco, eu sou tenho uma.”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEXTAS CLÁSSICAS EM JARAGUÁ

Peço a permissão de meus queridos leitores para falar de um novo projeto a ser realizado a partir do próximo fim de semana, abertura dia 12 de novembro, SEXTAS CLÁSSICAS EM JARAGUÁ, até o dia 4 dezembro.

O Problema da educação no Brasil se estende à educação musical. Nas escolas pouco existe de estimulo e atividades extras classes para compor o aprendizado do aluno às letras e às artes. Para melhorar a educação no Brasil é necessário que as artes clássicas sejam conhecidas do grande público. A maioria das pessoas é estimulada a ouvir música de baixo nível. O projeto SEXTAS CLÁSSICAS EM JARAGUÁ oferecerá ao povo de Maceió música de qualidade, seja clássica, popular ou afro. Serão momentos de diversão, prazer e encantamento.

O evento deixará, sobretudo, um legado gigantesco e variado para toda população envolvida. E tem como objetivo maior contribuir efetivamente para uma melhor qualidade de vida do povo. Todos têm direito à cultura, à arte, ao lazer, a uma boa música. O projeto será realizado nas sextas e nos sábados na Praça Dois Leões no bairro histórico de Jaraguá. Prestigiando esse bairro de arquitetura barroca, belos prédios antigos, um patrimônio do povo de Maceió. A Primeira “Sexta Clássicas em Jaraguá” tem como homenageado o penedense RICARDO CRAVO ALDIN, o maior pesquisador e conhecedor da Música Popular Brasileira.

A seguir a programação:

Dia 12 Novembro (Sexta)

17:00 – Lançamento de livro e palestra do homenageado RICARDO CRAVO ALBIN, penedense, radicado no Rio, maior pesquisador e conhecedor da música brasileira: “A importância das Bandas Filarmônicas dos municípios na musicalidade do brasileiro” no Museu de Imagem e do Som – MISA – Jaraguá

18:00 – Escola de Samba Gaviões da Pajuçara.
19.00 – Abertura: Afro Caeté e Sax Elizaubo – Bolero de Ravel.
19:30 – Abertura solene do projeto com as autoridades presentes.
19:45 – Entrega do 17º Prêmio Notáveis da Cultura Alagoana 2020..
20:00 – Concerto Orquestra Filarmônica Aconchego.
21.30 – Cantata Tenor Dydha Lyra

Dia 13 Novembro (Sábado)

18:30 – Banda Pestalozi
19.30 – Banda Flor da Pescaria
20:30 – Samba da Periferia (Selma Brito)

Dia 19 Novembro (Sexta)

18:00 – Lançamento de livros da Editora Aletria no MISA
19.30 – Abertura: Afro Caeté e Sax Elizaubo – Bolero de Ravel.
20:00 – Concerto Quarteto Manguaba
21.30 – Cantata Os Três Tenores Alagoanos com Selma Brito

Dia 20 de Novembro (Sábado) – (Dia Nacional da Consciência Negra)

19.30 – Grupo Afro Dendê
20:30 – Grupo Afro Afoxé
21.30 – Grupo Afro Zumbi

Dia 26 Novembro (Sexta)

19.30 – Abertura: Afro Caeté e Sax Elizaubo – Bolero de Ravel.
20:00 – Concerto Banda da Guarda Municipal
21.30 – Concerto Orquestra Filarmônica Santa Cecília

Dia 27 Novembro (Sábado)

19.30 – Batuque Mundaú
20:30 –Grupo Coração de Mainha.

Dia 3 Dezembro (Sexta)

19.30 – Abertura: Afro Caeté e Sax Elizaubo – Bolero de Ravel.
20:00 – Concerto Camerata Ero Dictus
21.30 – Cantata – Soprano Elvira Rebelo

Dia 4 Dezembro (Sábado)

19.30 – Chorinho da Manguaba
21.00 – Bloco Pinto da Madrugada

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TEMPOS MODERNOS

– Preciso conversar com você. Pode dar-me alguns minutos?

Disse Stella abraçando o irmão ao encontrá-lo no shopping no início daquela tarde de sexta-feira. Feliz em esbarra com a irmã querida, Augusto puxou duas cadeiras, sentaram-se. Pediram dois chopes.

Stella olhou-o, sorriu-lhe, foi direto ao assunto.

– Guto querido, só nós dois é que sabemos o quanto nos amamos. Sou louca pelo meu irmãozinho desde criança, nossas afinidades são escancaradas. Você casou-se, separou-se, agora está solteiro novamente aos 40 anos. Eu nunca dei palpite em sua vida amorosa, boêmia e escandalosa. Desculpe estar me intrometendo em seu novo namoro, você falou-me até em casamento. Nada de pessoal contra Vilma, até gosto da moça, parece equilibrada e sensata. Informaram-me um pequeno detalhe de sua vida pessoal, tenho obrigação de lhe repassar, não quero que seja enganado. Fonte fiel confidenciou-me, ela é sapatona, ou melhor, bissexual, tem um caso com aquela morena, andam muito juntas, se diz sobrinha. Desculpe eu tocar em sua vida particular. Sabendo do fato, seria uma traição por omissão não contar-lhe esse importante detalhe.

Augusto respirou fundo, tomou dois goles de chope, pensou, pensou, pensou, respondeu à irmã ainda no impacto emocional da notícia.

– Obrigado Stella, você agiu bem, não poderia ser de outra forma. Francamente nunca desconfiei da bissexualidade de Vilma. Eu até gosto muito de sua sobrinha Glória, nada me fez perceber outra opção sexual, que ela gosta de homem tenho certeza, na cama é um arraso. Vou pensar no que fazer, não sei se dá para conviver sabendo que sua mulher gosta também de mulher. Obrigado minha irmã.

Augusto pediu mais chope, passaram a tarde conversando.

Eram nove horas da noite quando Augusto encontrou-se com Vilma na Barraca Pedra Virada, orla da Ponta Verde, acompanhada de Glória. Tomaram chope, uísque, jantaram. Eram duas horas da manhã quando deixaram Glória em casa, dormiram no apartamento, amaram-se feito animais, Augusto nunca mais havia passado uma noite de amor com tanta intensidade. Pela manhã do sábado resolveram dar um mergulho na praia do Francês, bebericar até o final da tarde. Vilma perguntou se podia convidar Glória.

– Tudo bem. – disse Augusto, mas foi claro com a namorada.

– Vilma, temos mais de dois anos juntos, somos adultos, lhe amo, tenho de ser sincero. Sua amizade com Glória vem atiçando a maldade alheia. Vieram me fuxicar de seu relacionamento íntimo com Glória, que vocês são caso, é o boato corrente nas rodas de nossa convivência.

Vilma ouviu olhando nos olhos do namorado, baixou a cabeça, respirou fundo, encarou-o novamente, abriu seu coração com franqueza.

– Augusto querido, é verdade, eu tenho essa opção sexual a mais, sou bissexual, a Glória não é minha prima. Estava esperando um momento apropriado para contar toda verdade. Conversei muito com Glória, temos uma proposta, você pode se chocar, francamente não sei sua reação. Minha única certeza é que lhe amo, quero você, quero ficar com você, não importa se casados ou juntados. Minha proposta é meio louca, moderna, entretanto, foi bem pensada, amadurecida: Quero continuar nosso relacionamento como está, cada qual em seu lugar. Peço apenas que você passe uma noite com Glória, sinta como é uma pessoa boa, também é bi, entre em suas intimidades, depois me diga se aceita a situação, sem compromissos. Vamos viver nós três juntos e que tudo mais vá para o inferno.

Augusto teve um impacto com aquela inusitada proposta, pediu um tempo para pensar. Conversou, passou duas noites com Glória. Não precisou muito tempo para definir-se. Estão em período de adaptação, tiraram férias juntos, estão passeando na bela Cartagena das Índias, Colômbia, fazendo um ajuste de costumes.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CARTA AO RONALD

Meu querido amigo, meu irmão.

Hoje é sábado, nove horas da noite, sentei-me em minha vistosa varanda, sozinho, abri a garrafa de John Walker Blue, levantei o copo em direção à lua deslumbrante iluminando o mar e a praia da Jatiúca, antes do primeiro gole fiz um brinda a você, meu querido Ronald. Nesse momento minha mão trêmula de 81 anos tenta escrever-lhe uma carta em forma de garranchos. Amanhã passo ao computador, o brinquedo preferido na senilidade. Hoje cedo uma força estranha exortou-me à sua lembrança, são muitas e consigo transformar as saudades em boas recordações. Pela manhã fui resolver um problema em Bebedouro. Deu-me uma dor no coração ao ver o bairro que você nasceu e tanto amou. Está arrasado. Parece que um furacão passou destruindo os telhados ou que alguma bomba desviada da Síria explodiu o belo e histórico bairro. Bebedouro em ruínas é de fazer chorar. Em outras eras foi o bairro mais chique da cidade; imponente, com casarões, colégios e prédios de elegante arquitetura. Foi-se uma parte da história viva de nossa cidade. Você, Ronald, foi o bebedourense mais apaixonado pelo bairro, junto ao Major Bonifácio. Ano passado em uma palestra na Festa Literária de Fernão Velho você emocionado, orgulhoso, olhos mareados contou sua infância livre e solta no amado bairro belo e nobre. No entanto uma bomba subterrânea em forma de mineração irresponsável penetrou no subsolo da região. Ganância da fábrica química Braskem em busca da Salgema fez ceder o solo, acabando com seu bairro de Bebedouro, tão rico de cultura e história que tanto envaidecia seu sentimento de pertencimento. É de fazer chorar, meu amigo, Ronald.

Antes do almoço parti para o Acarajé do Alagoinha, esperando amigos contumazes sentei-me à mesa. Ao tomar a primeira cerveja, olhando ao redor da praça, veio-me a sua imagem. Que papos maravilhosos e inteligentes junto com Carlinhos Méro, desde literatura, política, sacanagem ou nossa Academia Alagoana de Letras e assistir ao desfile de bonitas mulheres passando, que não somos de ferro. O Caiubi me trouxe acarajé, outra cervejinha e recordou o Dr. Ronald que ele queria tanto bem. Você nem imagina quantas pessoas se encontram comigo, sabendo de nossa amizade, comentam pesarosos sua ida. Dr, Ronald querido da comunidade de Maceió, fazia parte da estrutura viva da cidade. Sem falar nos seus alunos, seus pacientes que lhe idolatravam. Você será, por muitos anos, reconhecido e amado pelo tratamento humano aos enfermos de todas as classes sociais.

Sinto falta não só da presença do amigo predileto, sinto falta de seus escritos inteligentes, sua verve sutil, crônicas graciosa, elegantemente debochadas, às vezes ferinas, satíricas. Ah! Como eu me deliciava com suas crônicas. Com mais uma cerveja e acarajé veio-me detalhes de sua eleição na Academia Alagoana de Letras, campanha divertida. Eu você e a Nadja em seu apartamento telefonando para os acadêmicos pedindo votos. Foi uma linda e merecida vitória, você venceu disparado. Logo se tornou uma liderança dentro de nossa Academia. Sua cultura, sua inteligência, sua medicina estão fazendo falta às Alagoas. Será difícil um substituto à sua altura.

Aqui da varanda, em noite clara vejo alguns coqueiros balançando, como balança minha cabeça ao encarar mais outra dose desse uísque fantástico que não dá ressaca. Na verdade ainda não digeri sua partida, é difícil Ronald. Meu consolo foi ter privado de sua amizade, de sua inteligência, sua força em horas cruéis junto com Nadja. Resta pouco tempo para nos encontramos. Eu seguirei em forma de cinzas jogadas ao mar da Avenida quando chegar a hora. A inexorabilidade do tempo é a única certeza. Vânia está aqui perto, manda-lhe um abraço. Pedi, ela entrou no Youtube, o som alastrou-se com a divina música, La Vie em Rose. Parece que estou lhe vendo com um microfone cantando sua música predileta: “Quand il me prend dans ses bras.. Qu’il me parle tout bas.. Je vois la vie en rose…Il me dit des mots d’amour… Des mots de tous les jours..Et ça me fait quelque chose….”

Outro uísque, as lembranças me emocionam, faz bem deixar as lágrimas rolarem, ouvindo músicas que enlevam a alma. Minhas letras já não são mais garranchos, será tarefa difícil traduzi-las no computador. Vou ficando por aqui, me despeço recitando um poema de John Donne, meu poeta inglês preferido, que diz mais ou menos assim: “Nenhum homem é uma ilha, cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

Os sinos dobram por mim, por Nadja, filho, nora, neto, Claiton, Socorrinho, dobram por seus amigos. Até mais ver meu querido amigo. Não se esqueça! Reconheça-me. Eu chegarei em cinzas molhadas no mar da Avenida da Paz. Ainda entorno outra dose antes de dormir. Beijo.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CIDADÃO DE MACEIÓ

Mar de Pajuçara

Desculpem meus leitores, hoje não vou escrever. Vou homenagear um amigo, companheiro de profissão, engenheiro, e de cervejinha aos domingos na Barraca Pedra Virada, cronista da cidade, também gostava de versejar. Foi embora nesses tempos horríveis de tantas mortes. Reproduzo seus versos de amor rabiscado na mesa do bar. Para finalizar um texto de uma mineira que visitou a cidade.

* * *

CIDADÃO DE MACEIÓ. – José Arnaldo Lisboa Martins. (engenheiro e poeta)

Quando DEUS criou o mundo. E resolveu descansar
Veio aqui pra Maceió. E não queria voltar

Fez daqui seu paraíso. Deu-lhe um lindo céu de anil
Transformou nossas lagoas. Nas mais lindas do Brasil

Criou nelas nove ilhas. E um viçoso manguezal
Fez praias de areias alvas. De Ipioca ao Pontal

Fez um mar esverdeado. Um luar encantador
Um coqueiral verdejante. E um povo de valor

Foi até nossos mirantes. Viu praias e o coqueiral
Ficou dizendo baixinho: “Eu nunca vi coisa igual!”

Ele muito se orgulhava. Das coisas boas que fez
E citava Maceió. Onde passou mais de um mês

Gostou muito de peixada. De camarão e pitu
De caranguejo e siri. De lagosta e sururu

Tomou banho em Pajuçara. Encantou-se com a beleza
E chamava a linda praia. Pupila da natureza

Nos domingos ensolarados. Nas piscinas naturais
DEUS passava o dia inteiro. E não esquece jamais

Acordava bem cedinho. Na Jatiúca a andar
Na Manguaba e Mundaú Ele adorava pescar

Andou de lancha e jangada. E num veloz jet-sky
E disse pra Adão e Eva:. “Vou deixar vocês aqui!”

Ao terminar seu descanso E aproveitar do melhor
Ele mesmo se intitulou: CIDADÃO DE MACEIÓ

* * *

O MAR DE MACEIÓ SUPERA TODAS AS EXPECTATIVAS – Cláudia Tonaco

Bem que Sebastião Nery tentou me avisar que o mar de Maceió era maravilhoso, de águas quentes e limpas, mais de nada adiantou sair de casa preparada levando na bagagem todos aqueles objetivos e elogios rasgados preferidos pelo ilustre jornalista baiano. Por mais que estejamos preparados à experiência que se tem ao chegar em Maceió é muito maior e, de tão incrível, da até para chamá-la de um verdadeiro choque sensorial.

O que mais poderia descrever o fato de acordar sai em direção à praia e dar de cara com um mar que ate então você jamais viu? O mar de Maceió não é qualquer um. Depois de conhecer o esplendor do mar de Alagoas, a gente entende que todos os outros se transformaram em protótipos. Maceió tem o que poderia se chamar de um mar definitivo.

Olhar para aquela beleza liquida é como ser atropelado como vagalhão luminoso e, a partir daí, começa a flutuar num paraíso de águas. Quem conhece as Praias do Francês, Ponta Verde, Maragogi e a fantástica Praia do Gunga sabe muito bem do que eu estou falando.

Na capital de Alagoas o maior prazer é sentar e deixar a paisagem perfeita entra pela retina: os coqueiros inclinados na areia dançando com o vento, a harmoniosa mistura musical da brisa com as outras quebrando ao fundo, o colorado preciso dos guarda-sóis combinando com as toalhas e trajes de banho e o branco das velas enfurnadas rasgando o mar e o céu, dois dos azuis mais belos que existe na face da Terra.

O sol de Maceió aprendeu as regras da hospitalidade com o povo alagoano e, misturado à brisa fresca, toca os banhistas de maneira delicada e generosa. E ao fundo surge aquela imensidão verde-azul-turquesa real radiante, às vezes fosforescendo, que ganha cores de prata na lua-cheia e toques de ouro no amanhecer ou no pôr-do-sol.

Em Maceió, as férias se transformam numa regalia para os cinco sentidos e os visitantes mergulhados num mundo que aguça a percepção e a sensibilidade. Eu não quero outro em minha vida. Daqui para frente, quando pensar em mar, estarei sempre pensando no de Maceió.

Artigo publicado na coluna VIAGENS GERAIS no jornal O TEMPO de Minas Gerais.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BAIANINHAS AVANÇADAS

Seu Magalhães, alto funcionário federal, foi transferido da cidade de Salvador para trabalhar em Maceió. Além da mudança trouxe a família. A mulher Luíza e as filhas, três moças bonitas: Betinha, Licinha e Lourdinha, três baianinhas modernas.

Magalhães alugou um sobrado nos arredores da Ladeira do Farol. Com pouco tempo ambientou-se com gente importante da cidade. Tornaram-se frequentadores assíduos de sua casa algumas figuras da política, do comércio e da justiça alagoana. Autoridades civis, militares e eclesiásticas, não perdiam a feijoada de sexta-feira na casa de Magalhães.

Graças à modernidade e o modo acolhedor de sua bonita esposa e filhas, Seu Magalhães, com pouco tempo morando na cidade, já era considerado o maior corno de Maceió.

Sua casa era uma festa. Chegavam carros bonitos dos ricos e abastados. Como também amigos que as meninas faziam na escola, na praia, na rua.

Dona Luíza e suas diletas filhas tinham um comportamento bem avançado para aquela época. Enquanto as pudicas meninas da sociedade alagoana namoravam de mãos dadas, as filhas do Magalhães eram dadas às coisas muito mais avançadas. Elas inventaram a moda de “ficar”. Não tinham namorados fixos; o primeiro a chegar tinha direito de arrastar para onde fosse melhor passar algum tempo no xumbrego. Era namoro de alta rotatividade.

Os que tinham carro levavam vantagem. Mesmo assim, sobrava carinho para os mais jovens, os universitários, os jovens que faziam a alegria da cidade.

Eu havia chegado de férias em Maceió. Fardado de cadete do Exército da Academia Militar das Agulhas Negras tomei um ônibus na Avenida da Paz para me apresentar no 20º BC. Quando parou em um ponto na Rua do Sol entrou uma moça de pele rosada, cabelos castanhos cacheados, com um decote chamativo. Olhou para os passageiros do ônibus, sorriu, dirigiu-se e sentou-se a meu lado. Com um sorriso franco iniciamos uma alegre e interminável conversa. Assim fui convidado e passei a ser assíduo frequentador da casa de Seu Magalhães nas feijoadas das sextas-feiras. Era muito bem tratado.

Durante a semana, a casa era tranquila, a madame e as filhas arranjaram empregos na Assembleia Legislativa e no Tribunal. De qualquer forma às noites eram animadas.

Naquela época em Maceió havia o elegante Baile de Máscaras um mês antes do carnaval no Clube Fênix Alagoana, o mais aristocrático da cidade. Era um baile chique. Só entrava fantasiado ou de smoking. Os foliões geralmente tiravam as máscaras depois da meia-noite. Festa animada, bonita e tradicional.

Como era em benefício a um Lar de Menores, não se podia controlar a venda de ingresso apenas para sócios. A seleção dos convidados era feita pelo preço salgado da mesa, todos podiam comprar. As fantasias também eram suntuosas.

Durante o Baile, eu notei que junto a mesa de minha família havia uma mesa com um grupo de odaliscas animadas comandada por um marajá. Falaram comigo animados, mas só descobri que era Seu Magalhães, a mulher e filhas, quando a Licinha passou por mim, me arrastou para o meio do salão, dançamos, nos divertimos com as marchinhas e frevos tocados pela Banda do Passinha. Eu, solteiro, dava volta nas beiradas do salão e a Licinha cumprimentava os figurões num aceno de mão. Eles ficaram intrigados tentando descobrir quem era aquela Odalisca de barriga tão bonita, a máscara sobre o rosto não dava para reconhecer. Quando deu meia noite, alguns foliões tiraram a máscara inclusive, o Magalhães e família.

À medida que os sócios do Clube Fênix que eram sócios também da casa do Magalhães perceberam a mesa animada das odaliscas, o harém, ficaram preocupados. Muitos eram casados, noivos, outros estavam com a namorada no baile. Foi um reboliço. Alguns senhores evitavam passar pela mesa das Odaliscas, região de provável conflito árabe.

Certo momento eu percebi que um dos diretores foi conversar com Seu Magalhães. Ele levantou-se, caminharam para um jardim discreto no lado de fora do ginásio. Passaram quase uma hora conversando, enquanto isso as baianinhas assanhadíssimas, sem máscaras, rodavam pelo salão, cumprimentavam os amigos, sem cerimônia, algumas esposas perguntaram quem era aquela sirigaita. .

Seu Magalhães retornou à mesa, confabularam. Em pouco tempo a família se retirou do clube sem chamar atenção. Praticamente expulsaram a família das baianas do clube. Contudo, Seu Magalhães nem estava aí, nem se sentiu humilhado, fez um cálculo do valor da mesa comprada, dos gastos com as fantasias, bebidas e pediu o triplo do gasto total para sair do clube. O dinheiro foi rapidamente arrecadado, um magnata do comércio de automóveis, não podia aparecer, completou o resto que faltava.

Quando Magalhães saiu, houve um alívio por parte dos senhores da alta roda. Dançaram despreocupados pelo resto da noite com suas madames. A família de Seu Magalhães foi para casa, feliz da vida, havia dançado por mais de três horas no Clube da Alta Burguesia e receberam o dinheiro que o pai dividiu para os cinco. Na sexta-feira seguinte, como se nada tivesse acontecido, todos estavam na feijoada do Magalhães, o maior corno da cidade.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TOROCA

Walter Pitombo Laranjeiras, Toroca, figura de destaque no Estado de Alagoas, conhecido nas altas e baixas rodas, peça insubstituível no mundo dos esportes. Jogou bem voleibol, inclusive na seleção alagoana e brasileira. Entretanto, sua vocação foi ser técnico de voleibol feminino. Há mais de 50 anos treina as equipes do CRB. Inúmeras vezes campeão como treinador da seleção, muitas de suas pupilas chegaram a titular da seleção brasileira. Nesses últimos 50 anos, Alagoas esteve no topo do voleibol nacional graças ao treinador Toroca. Severo, considerado durão na condução do time em campo, porém, no voleibol não pode haver relaxamento, as atletas têm que estar sempre em momento de tensão.

Outra paixão de Toroca é o Clube de Regatas Brasil, o CRB. Ele foi presidente várias vezes. No final da década de 60, eleito presidente do clube, convidou-me a participar de sua diretoria, não me fiz de rogado, tomei posse como Diretor Social. Juntos, fizemos um bonito trabalho, organizando festas e atividades sociais. Contudo, o grande sucesso de nossa gestão foi a boate do CRB aos sábados à noite. A moçada e a coroada dançavam se esbaldando ao som do afinado conjunto LSD. Os componentes do conjunto afirmavam ser Luz, Som e Dimensão, para não confundir com o ácido lisérgico, droga altamente consumida naquela época. A afinadíssima Leureny Barbosa era vocal, Lino outro componente, na guitarra, um jovem tocava um som moderno arrasava também cantando, de nome incomum, Djavan.

No intervalo, descanso dos músicos, havia alguma atração. Certa vez, Toroca contratou um mágico. O cara era bom, muito aplaudido com suas fantasias mágicas no escurinho da boate. Estranho apenas, que em vez de tirar coelho da cartola, o mágico tirava um pato branco, bonito e lustroso. Com muito aplauso o “Mandrake” terminou o espetáculo.

Ao iniciar o segundo tempo da boate, fui procurado pelo mágico, estava desesperado, havia sumido seu querido e lustroso pato branco. Fomos em busca, todos procurando, em cada canto da sede do CRB havia um funcionário vasculhando, até cheirando, nenhuma pista do pato. O mágico se aborreceu quando um funcionário, por ignorância ou gozação, perguntou: – O senhor não é mágico? Faça o pato aparecer!

Chegamos à conclusão que o pato havia fugido, só assim poderia ter sumido. Iniciamos busca pela rua, pela praia; nenhum indício, ninguém viu algum pato passar, que dirá um pato branco.

O mágico inconformado, aborrecido, tinha compromisso no dia seguinte pela manhã, espetáculo em Caruaru. Recebeu o cachê, despediu-se, agradecendo nossos préstimos. Irado, junto à sua gostosa ajudante, deu arranque no carro, pensando no trabalho de amestrar outro pato, chorava, não sei se de raiva ou saudade do querido pato branco.

A boate continuou animada, namorados dançando lentamente na escuridão da luz vermelha, na leveza da música afinada e sensual do LSD. Ninguém àquela altura imaginaria que estava dançando ao som de um dos músicos mais importantes da história da música brasileira, Djavan.

Ao terminar a boate, cerca de duas horas da manhã, um garçom procurou a mim e ao Toroca, tinha um recado de amigos que estavam à nossa espera no Restaurante Galo de Campina, anexo à sede do CRB, onde se comia o melhor galeto assado da cidade.

Eu e Toroca descemos e entramos no restaurante lotado, logo percebemos em uma animada mesa, felizes, risonhos, tomando cerveja, os amigos, Hélio Miranda, Betuca, Clailton, Lelé, Frazão, Quico e Beto Prazeres. Hélio gentil, reverente ofereceu cadeira: “Senhores diretores sentem-se, são nossos convidados”. Agradecemos tomando uma cerveja geladinha comentando o sucesso da boate e do espetáculo do mágico. Pena o pato ensinado, tão branquinho ter fugido, alguém deve ter achado pela praia de Pajuçara.

Não demorou, para nossa surpresa apareceu o garçom “Pescoço” equilibrando uma vistosa travessa de metal. Acolchoado de farofa, laranjas, maçãs; deitado em decúbito ventral, majestosamente, um suculento, dourado e apetitoso pato assado.