CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

RADJALMA

Há mais de 15 anos um grupo de amigos, quase idosos, costuma se reunir para uma cervejinha gelada e uma conversa para lá de bem humorada nas manhãs dos domingos na Barraca Pedra Virada, orla da Ponta Verde. Às 12:30 horas termina a reunião da Confraria dos Barrigas Brancas e todos retornavam ao lar. A Confraria é assim nominada porque no Ceará, Barriga Branca é o homem mandado por mulher, apesar do nível dos componentes ser o melhor possível: engenheiros, médicos, advogados, escritores, artistas e outros desocupados. Infelizmente a pandemia fez parar as reuniões.

Uma das figuras marcantes da Confraria era o economista, Radjalma Cavalcante. Como bom professor, ele sempre contava histórias interessantes que deveriam estar em um livro porque configuram a história de nossa cidade.

No início de 1967 foi anunciada a peça “Liberdade – Liberdade” de Paulo Autran e Tereza Raquel a ser apresentada no Teatro Deodoro. Dia seguinte o jornal publicava o cancelamento da peça, sucesso em todo Brasil. Radjalma, como presidente do DCE, líder estudantil, foi ao Teatro saber o que havia acontecido. O Diretor Bráulio Leite Júnior, confidenciou, foi ordem do Delegado de Ordem Política e Social negar a apresentação desculpando-se que havia outro compromisso naquela data. A peça para o Delegado era subversiva.

Radjalma tomou um ônibus para o Recife e conseguiu falar com Paulo Autran e contou a trama do Delegado para não apresentar a peça em Maceió. Paulo Autran respondeu:

– Menino, estou percorrendo o Brasil com essa peça sabendo que haveria provocações como esta que estão me fazendo em Maceió. Se você até amanhã às 17:00 horas me garantir o Teatro, eu dou um jeito para apresentar a peça em Maceió.

Radjalma retornou a Maceió no corujão. Depois de muitas visitas e telefonemas, mexendo até com o com governador, conseguiu liberar o Teatro Deodoro para peça. Imediatamente telefonou para o Paulo Autran.

A peça “Liberdade-Liberdade” lotou o Teatro Deodoro nas duas noites em que se apresentou em Maceió. Até hoje está fixada na parede do Teatro a placa mandada fazer por Radjalma:

“Neste teatro Paulo Autran cantou a Liberdade. Homenagem dos Universitários”.

Radjalma criou o cinema de arte nos anos 60 nas manhãs de sábados no São Luiz. Era uma diversão para juventude, depois do cinema, encontrar-se num barzinho para encher a cara e discutir o filme.

Ele gostava de contar essa história: No Tempo do Reitor Manoel Ramalho de Azevedo, Radjalma foi o Pró Reitor do Campus Tamandaré que funcionava na restinga do Pontal da Barra, no prédio onde foi a Escola de Aprendizes de Marinheiro, depois o DETRAN. Nos anos 1970, a fábrica de produtos químicos SALGEMA, hoje com o nome de BRASKEM, foi instalada na praia do Trapiche da Barra bem perto do Campus Tamandaré da Universidade Federal de Alagoas. Naquela época diziam que a fábrica SALGEMA seria a salvação econômica do Estado, gerando empregos e rendas. Poucos perceberam o perigo, a má localização, entre a Lagoa e o Mar. Quatro meses antes da SALGEMA começar a funcionar, houve uma reunião entre Diretores da fábrica, o Comandante da Polícia Militar, o Comandante dos Bombeiros e o Reitor da UFAL, que tendo viajado, solicitou ao Pró Reitor Radjalma Cavalcante representá-lo. A reunião foi rápida, um diretor da SALGEMA perguntou ao Radjalma quantos alunos e funcionários havia no Campus Tamandaré. Ele respondeu seguro.

– Cerca de 3.000 (três mil)

O Diretor da SALGEMA, de imediato deu a ordem.

– Então, a Universidade Federal de Alagoas terá de comprar 3.000 máscaras contra gases, e construir um galpão com paredes especiais de proteção para que em caso de algum acidente de vazamento de produto de cloro na fábrica, sejam acionados imediatamente esses dispositivos de segurança.

– A UFAL não tem dotação para essas despesas. Respondeu Radjalma preocupado.

– É problema da UFAL. Disse o diretor encerrando a reunião.

– Problema da UFAL, não. Problema da fábrica. Asseverou Radjalma.

O Campus Tamandaré foi desativado com mais de 3.000 estudantes e funcionários. A sorte é que as novas instalações da Universidade estavam prestes a serem inauguradas na Cidade Universitária.

Era assim meu amigo Radjalma Cavalcante que se foi no início do ano. Inteligente e corajoso. Dedicou sua vida à educação e cultura de Alagoas. Tenho saudades de suas conversas. Quando a Confraria dos Barrigas Brancas reabrir, jamais será a mesma sem nosso querido Radjalma Cavalcante.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BLOCO DA NÊGA FULÔ

Hoje, domingo de carnaval, 27 de fevereiro, completo 82 anos. Quando jovem pensava que um homem de 70 anos era um velho ocioso, esperando a morte chegar. Passei dessa idade, ainda me sinto frutuoso, trabalho como posso, mas o corpo já não é o mesmo, tem a artrose e o cansaço que impedem movimentos maiores. A cabeça quer, mas, o corpo não acompanha. Nem por isso fico aboletado numa poltrona apenas vendo televisão. Nessa época de pandemia, sem sair de casa, tenho um roteiro de trabalho e cuidado com a saúde. Cuido do meu corpo: duas vezes por semana vou à fisioterapia e não passo mais de quatro meses sem uma consulta à geriatra. Não vivo do passado, transformei as saudades em boas lembranças.

E nesse domingo relembro o carnaval durante a mocidade nas ruas de Maceió. A Maratona Carnavalesca na Rua do Comércio iniciava quinze dias antes do carnaval. Em cada esquina havia um palanque com uma banda de música tocando frevos e marchinhas e o povo embaixo dançando, pulando enquanto os carros, jipes e camionetes rodavam fazendo o corso, desfile de carros abertos. Toda noite, meninos da Avenida da Paz, subíamos ao Centro da cidade em busca de folia e aventuras.

O carnaval praticamente começava no início do ano com as festas pré-carnavalescas nos clubes: Baile de Máscaras, Festa do Havaí, Preto e Branco, entre outras, até chegar o carnaval.

O Carnaval é a maior manifestação cultural espontânea do povo brasileiro. No Carnaval o homem, o menino, o velho, a moça, o rico, o pobre, esquecem a tristeza pelo menos durante quatro dias. E tem mais, o Carnaval é um grande negócio, é a síntese da Economia Criativa. Durante o carnaval há uma enorme geração de emprego e renda. Quem mais ganha são os pequenos comerciantes e profissionais: ambulantes, músicos, taxistas, pousadas, hotéis, costureiras, montadoras, etc…

Em Maceió, há alguns anos um prefeito acabou o carnaval de rua para não perturbar os turistas. Jamais aceitei essa ideia esdrúxula e estapafúrdia. A cidade ficou por mais de dez anos sem carnaval de rua, só tinham as prévias carnavalescas. Um amigo, economista, fez o cálculo: Durante o carnaval saem de Maceió, viajam cerca de 200.000 (duzentos mil habitantes) habitantes em busca da folia em outras cidades e estados. Se cada folião gastar apenas R$ 500,00 durante o carnaval; serão mais de R$ 100.000.000,00 (cem milhões de reais) que deixam de circular em Maceió durante o carnaval, se ele gastasse aqui. Um pecado contra a cidade. Escrevi artigos, fui às rádios, às televisões reclamar dessa obscena resolução dos governantes: tirar do povo seus momentos de alegria.

Até que em 2016, criei o Bloco da Nêga Fulô com o objetivo de resgatar o carnaval nos dias de carnaval. Foi um sucesso, no desfile de estreia, domingo de carnaval mais de 500 foliões acompanharam o bloco com uma excelente banda de frevo. No segundo ano, em 2017 o Bloco Nêga Fulô teve a companhia de mais dois blocos: o Mamãe eu Quero e o Siri Mole, cada ano foi crescendo. Em 2020 fizemos um carnaval na Orla da Ponta Verde durante os quatro dias com 34 blocos. Pena que logo depois veio a pandemia. Hoje domingo de carnaval o Bloco da Nêga Fulô estaria desfilando homenageando uma grande personagem do povo: a Miss Paripueira. Infelizmente a pandemia não acabou. Resta esperar por dias melhores que certamente virão. Em 2023 irei desfilar no Bloco da Nêga Fulô na orla da Ponta Verde no domingo de carnaval com 83 anos no costado. Viva o Zé Pereira. Viva o carnaval.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

PESCOÇO

Pescoço no Bar Gracy atendendo ao deputado Antônio Moreira e ao jornalista João de Deus.

Em Maceió nos anos 50/60 os costumes eram bem diferentes. Durante a noite, depois do café, nós jovens, íamos namorar no portão de nossa sacrossanta virgem amada, sob a vigilância dos pais. Como era bom quando saía um beijo, ou um avanço mais ousado. Dez horas da noite ela entrava e nós geralmente voltávamos para casa. Nos fins de semana ou férias partíamos em busca da alegre boemia, junto aos amigos. Encerrávamos à noite comendo macarronada no Buraco da Zefa no Vergel ou no Restaurante Gracy na Levada, onde havia uma macarronada maravilhosa servida pelo amigo garçom, Pescoço.

Pescoço servia aos domingos no Restaurante do Clube Fênix Alagoana, templo da burguesia da cidade. As domingueiras, geralmente iniciavam à beira da piscina ouvindo o conjunto SAMBRASA, Paulo Sá cantando, e tomando uísque servido pelo Pescoço. Certa vez o governador Fernando Collor recebeu um Ministro com um almoço no Clube Fênix, coisa elegante, como gosta o presidente. No momento da sobremesa Pescoço abaixou-se atenciosamente pelo lado esquerdo do Ministro e perguntou: -“ O Senhor é servido uma taiada de torta?”. O Ministro não respondeu e perguntou ao Collor o que era taiada. O Governador olhou para o Pescoço, sorriu, respondeu ao Ministro: – “ taiada é uma fatia, uma porção, uma talhada, pode aceitar Ministro, a torta está deliciosa.” A história da taiada de torta espalhou entre os amigos. Depois do almoço à beira da piscina, nós gozávamos o amigo Pescoço pedindo uma taiada de torta. Ele, bem humorado, sorria da brincadeira.

O historiador Edberto Ticianeli em seu inigualável site, História de Alagoas, conta uma peripécia do nosso amigo:

“Para o garçom Pescoço, do extinto Restaurante Gracy, um dos fregueses mais chatos era um empresário bem-sucedido e arrogante, que, como todo novo-rico, fazia questão de ostentar sua boa condição financeira. Entrava no restaurante com estardalhaço, ocupava uma das mesas centrais, pedia os pratos mais caros em voz alta para que todos ouvissem. O pior: cometia a heresia de tratar o Pescoço como “garçom”, como se fosse um desconhecido. Pescoço, batizado como Francisco Rodrigues dos Santos, gostava da intimidade, que lhe permitia fazer o tipo rude que o tornara popular entre os clientes. Fazia questão em dizer que já havia servido aos presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, e que era garçom desde 1928. Mas, como o tempo é o senhor da vingança, o dito empresário entrou em falência dos seus negócios e deixou de frequentar o Gracy para a alegria do Pescoço. Passados uns dois anos, o tal cidadão começou a se recuperar economicamente e certa noite reapareceu no famoso restaurante da Praça Emílio de Maya. Entrou discretamente e procurou a mesa mais escondida, no fundo do salão. Quando Pescoço se aproximou, disse, em voz quase inaudível:

– Pescoço traz uma macarronada simples e me ajude com um pãozinho.

Para quem não conheceu o Gracy, a macarronada simples era a mais barata e o prato se reduzia ao macarrão com molho, a famosa “coitadinha”. Quanto ao pão, que era cobrado por fora, dependia do garçom fazer a gentileza de ofertá-lo. Vinha fatiado sem os “cotovelos”, que eram jogados fora por serem duros. Pescoço que não era de perdoar nem dívida de defunto, mesmo percebendo a mudança de atitude do antigo freguês, resolveu se vingar das humilhações que sofrera. Sem se afastar da mesa, gritou para o balcão da cozinha:

– Salta uma “coitadinha” e duas “cutuvas” (cotovelos de pão) para o cidadão aqui, que ele está a perigo. Nesse dia teve gente que jurou ter visto um ar de riso no rosto do Pescoço.”

Ele era querido pela juventude. Certa noite, meus amigos: Marden, Frazão e Zagalo, foram forrar o estômago e tomar uma cervejinha no Gracy. Como sempre Pescoço serviu a cerveja ultra gelada e uma macarronada a cavalo (com dois ovos fritos). Na mesa ao lado estavam três casais, os homens embriagados grosseiros, brigando com as mulheres. Um deles deu uma tapa na companheira, ela chorou e se emburrou ao canto. Zagalo percebeu passar na rua uma dupla de policial rondando. Pediu ao Pescoço para chamar os policiais. Quando a dupla entrou, Frazão empolgado com os uísques, levantou-se e aproximou-se junto aos policiais e apontando para os casais contou a história da grosseria e do murro, falando alto, que era um absurdo. E que os policiais levassem preso esses covardes que batem em mulheres. Um policial se aproximou, a mulher mostrou a roncha no rosto da tapa. O outro policial foi à mesa perguntou quem era aquele senhor? O neguinho Marden teve um estalo e prontamente informou:

– É o Major Frazão do Exército, novo subcomandante do 20º BC.

Os policias se encheram de autoridade, expulsaram os três casais do recinto. As mulheres pediram para ficar, não queriam acompanhar os bêbados. Os delinquentes entraram num carro e picaram a mula, com medo da Polícia. Em pouco tempo meus três amigos estavam abraçados às moças e foram vadiar em Jacarecica. Depois desse entrevero quando o Magro entrava no Bar Gracy, Pescoço batia continência, chamando-o de Major Frazão, às gargalhadas.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CHUMBINHO

Antigamente, na minha juventude, um idoso de 60 anos ficava numa cadeira de balanço esperando a morte chegar. Hoje a medicina e o trato com o corpo faz com que um velho de 82 anos, como eu, ainda esteja peleando, escrevendo romances, administrando eventos culturais, caminhando com certa dificuldade no calçadão da praia da Jatiúca apreciando as mais belas bundas passarem. Gosto da modernidade, não vivo sem minha televisão, sem meu computar, nem o celular. Porém, o modernismo trouxe o detestável patrulhamento, o “Politicamente Correto”. O adolescente que ainda levo em minha alma é irreverente, meio anarquista, politicamente incorreto e se choca com essa vigilância globalizada.

Durante minha juventude, fizemos muitas presepadas, éramos maloqueiros das ruas de Maceió. Com o amadurecimento nos aquietamos, o conhecimento adquirido através do tempo, nos tornaram pacatos cidadãos, como meu querido amigo, Ulisses Ávila, Chumbinho de apelido, agrônomo, diversos cargos de relevância no Estado de Alagoas, hoje cidadão pacato que leva sua vida administrando a idade provecta. Conhecendo aquele educado senhor, ninguém dirá que foi um dos jovens mais irreverentes de minha juventude na cidade de Maceió.

Naquela época era costume organizar times de futebol juvenil nos bairros. Na Avenida da Paz, foi criado o Atlântico Futebol Clube. Em cada bairro havia um time. A turma do Farol, liderada pelo Cláudio Oiticica e o Chumbinho, criou o Palmeira Futebol Clube. A sede ficava próxima à Rua Comendador Palmeira. Tinha excelentes jogadores, chegou a disputar o campeonato alagoano de futebol juvenil. Para manter a forma física, estabeleceram dois treinos na praia durante a semana. Às cinco horas da manhã nos dias de treino, a juventude do Palmeira descia o bairro do Farol para treinar na praia. Depois de muito correr, tinha a compensação, cada jogador ganhava um pão. Essa ideia partiu do Diretor Ulisses Ávila. Perguntaram com que dinheiro ele compraria o pão. Respondeu que deixasse com ele. Enquanto os jogadores desciam à praia às cinco da manhã, as sacolas de pão já haviam sido jogadas nos terraços das casas.Chumbinho com um comparsa, na maior desfaçatez, pulava o muro baixo da entrada da casa e pegava a contribuição do morador, uma sacola de pão para o time. Alguns moradores desconfiaram e mandava comprar o pão da manhã numa padaria, levava na brincadeira.

Mas um Doutor ficou revoltado, colocou um cachorro no jardim. Quando Chumbinho apareceu, foi derrotado pela brabeza do cachorro. Numa véspera de um treino Chumbinho e amigos estavam sentados no banco da praça quando notou uma cachorra vira-lata no cio e seis cachorros querendo cruzar com ela. Chumbinho se aproximou com um saco conseguiu levar a cachorra e a deixou amarrada em seu quintal. Dia seguinte cinco horas da manhã desceu para o treino com os amigos do Palmeira, levando a cachorra magra embrulhada em um saco. Ao passar na casa do Doutor percebeu o cachorro bem ao lado da sacola cheia de pão, ao aproximar-se o cachorro começou a latir, Chumbinho sacudiu a cachorra no cio dentro do quintal longe da sacola de pão. O cachorro com o olfato apuradíssimo correu e ficou cheirando, cheio de desejo, as partes íntimas da cachorra no cio. Chumbinho rapidamente pulou o muro baixo e trouxe a sacola cheia de pão. Foi aplaudido pelos colegas. O Doutor fez a reclamação aos pais dos jovens jogadores do brilhante Palmeira.

Certa vez, o Colégio Guido organizou uma corrida pelo centro de Maceió. Capixaba um amigo querido, líder entre os jovens, cheio de maloqueiragem, jogava pelo Palmeira. Era um atleta e se preparou para a semi maratona. No grande dia da corrida alguns amigos foram à Praça Deodoro torcer pelo Capixaba, levaram um buquê de flores silvestre para homenagear Capixaba, bem cotado para ganhar a corrida. A chegada era em frente ao Cine São Luiz na Rua do Comércio. Os amigos ficaram na Praça Deodoro passagem obrigatória já no final da corrida. De repente apareceu ao longe o vulto do atleta que liderava a corrida, era Capixaba que foi se aproximando se afastando cada vez mais do segundo lugar. A turma gritava torcendo: Capixaba! Capixaba! Quando o atleta, virtual campeão, passou pela estátua do Marechal, os amigos: João Moura, Mazo e Chumbinho correram abraçando Capixaba entregando a pulso o buquê, gritando è Campeão, é campeão. Capixaba quis se desvencilhar para continuar a corrida, mas os três amigos o abraçava, nisso passou o segundo lugar que foi o vencedor e mais toda tropa. Capixaba ficou na Praça Deodoro, não terminou a corrida. Chumbinho e amigos às gargalhadas, abraçados a Capixaba, foram tomar cerveja no Bar Suez do Tadeu Vasconcelos.

Assim era nossa juventude, politicamente incorreta, divertida e irreverente. Até hoje o Cláudio Oiticica e Chumbinho organizam um encontro anual dos amigos do Palmeira com os que sobraram daquela turma. Chumbinho é um senhor pacato e aposentado. Por muito tempo na vida foi um dos mais ligados assessores de Guilherme Palmeira um dos maiores homens públicos do Estado.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

NÊGO JAIME

Uma das figuras mais conhecidas no centro de Maceió era o Nêgo Jaime. Forte, mais de 1,90 m, elegante, gostava de se vestir de terno de linho branco, enfermeiro da Rede Ferroviária, boêmio, calmo como um budista, contudo, não levava desaforo para casa.

Certa vez, no Bar do Relógio, ponto da boemia, de virada de noite de Maceió, dois marinheiros bêbados tomavam a saideira para retornarem ao navio. Ao avistarem o Nêgo Jaime solitário em uma mesa, um dos marinheiros, com ar de superioridade, entregou-lhe uma dose de cachaça, “Toma Negão, quero ver se você é bom”. Jaime, na maior paciência, disse que estava apenas de cervejinha, no outro dia tinha que trabalhar. O marinheiro bêbado insistiu, provocando: “Você não é homem, Negão?” Jaime levantou-se calmamente, aproximou-se do marinheiro, deu-lhe um violento murro na cara e iniciou verdadeira batalha.

Os marinheiros eram bons de briga, entretanto, Jaime ficou com o diabo no corpo. Mais de meia hora entre murros e golpes, o Negão bateu com raiva, quase mata um dos marujos. Levaram-no para o Pronto Socorro com a cara e o corpo cheios de pancadas. No dia seguinte cinco marinheiros ficaram rondando o Bar do Relógio, perguntando onde Jaime trabalhava, queriam matar o Negão. Precisou de um sério entendimento entre a Capitania dos Portos e a Rede Ferroviária. Só houve sossego quando o navio partiu.

Jaime não era desordeiro, nem arruaceiro, era debochado e gostava de umas biritas, o que atraía os provocadores. Toda sexta-feira, antes de comparecer à zona boêmia de Jaraguá, ele tomava umas cervejinhas no Bar da Maravilha. Numa dessas noites chegaram três playboys de lambreta e provocaram Nêgo Jaime, quieto em sua mesa. Ele se retirou elegantemente, deixou os provocadores, foi para os braços de Lourdinha na Boate Tabariz. Na sexta-feira seguinte Nêgo Jaime apareceu no Bar Maravilha segurando o paletó entre os dedos; ao sentar-se colocou seu paletó branco pendurado na cadeira ao lado, pediu cerveja e ficou observando o movimento.

De repente apareceram os quatro playboys fazendo a maior zoada. Ao sentarem começaram a perturbar: “Olha aí o Picolé de Onça todo de branco”. “Macaco de branco fica mais feio”. Jaime segurou seu paletó pelos dedos, aproximou-se na maior calma, nem conversou, rodou o paletó na cara do primeiro que caiu no chão, ao se levantar levou outra paletozada, ficou estatelado, o Negão virou-se e mandou o paletó num lourinho metido a James Dean que se arriou no calçamento. Desesperados, os playboys montaram nas lambretas, partiram sem destino. Nunca mais apareceram às sextas-feiras no Bar Maravilha. Nêgo Jaime mostrou sua estratégia ao dono do bar ao descosturar a manga do paletó e tirar pedras pesadas arrumadas dentro das mangas: criativo, inventou uma arma.

Jaime tinha um chamego com a Nêga Jandira, dona de um bar e de uma bela bunda. Todo ano eles desfilavam pela Escola de Samba Unidos do Poço. Jandira era a porta-estandarte; bonita, sabia requebrar sua maravilhosa bunda deixando a moçada com água na boca. No carnaval, a Unidos do Poço desfilava para valer, queria ganhar o terceiro campeonato seguido. Jandira fazia evoluções com o estandarte no ar, delirantemente aplaudida pelo povo na Rua do Comércio; ao passar pelo palanque, defronte ao Cine São Luiz, Jandira deu tudo de si. Nêgo Jaime dançando, acompanhava mais atrás sua amiga a evoluir.

De repente apareceu um popular, como disse o jornal, que não aguentou, atravessou a corda de segurança, passou a mão na bunda da Jandira e agarrou-a à retaguarda. Foi preciso Jaime destravá-lo do abraço traseiro, deu-lhe um murro, o tarado caiu de costas em frente à bilheteria do Cine São Luiz. Mesmo com esse inusitado acontecimento, como foi noticiado, os jurados compreenderam o desvario do tarado, deram à Escola de Samba Unidos do Poço o título de tricampeã do carnaval alagoano. Muito justo, afinal tinha a maior atração do carnaval, os requebros de Jandira.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BEZERRÃO

Há gente que conheci perambulando pelo centro da cidade desde menino. Foi o caso de Bezerrão, um investigador da Polícia, considerado “velha guarda” da corporação. Ninguém sabia seu primeiro nome, todos o chamavam por Bezerrão. Morava no Prado, na Rua da União, nos fundos da Rede Ferroviária do Nordeste, antiga Great Western, quando ainda pertencia aos ingleses.

Toda tarde Bezerrão, vestido num terno de brim ou linho branco, paletó de quatro botões, plantava-se na Praça do Pirulito pedindo carona aos carros que passavam para o centro da cidade. Alguma alma caridosa levava nosso herói para comparecer a seu “plantão” diário nas rodas de conversa fiada que se formavam no trecho entre o Café Colombo, o Bilhar, passando pelo Salão Elite, do Zezé, e a Assembleia Legislativa. Quem quisesse achar Bezerrão bastava procurá-lo nesse corredor da Rua do Comércio, infalivelmente estava lá nosso respeitado policial.

Alto, forte, físico avantajado, vozeirão assustador, metia-se em tudo que era roda que houvesse nos bares e nas ruas, como se aquele pedaço pertencesse a ele. Conversar, bater papo era sua distração. Opinava sobre qualquer assunto, gostava de dar “pitacos”, soltar “tiradas”, frases de efeito, algumas de sua autoria que impressionavam ou divertiam a todos. Na verdade havia muita sabedoria em sua filosofia. Ele costumava repetir um dito aprendido com um italiano, proprietário de uma loja de calçados na Rua do Comércio. Quando se falava de mulher gaieira, traidora, Bezerrão soltava a frase misturando português e italiano:

– Si tuto cornuto fosse lampioni, mamma mia, quanta iluminacioni! .

Não tinha preconceitos ou acanhamento, entrava em qualquer roda, dava opiniões sobre tudo. Querido e festejado, principalmente dos boêmios, políticos e desocupados que o instigavam a contar fanfarronices. O problema era desligar Bezerrão, quando começava a falar.

Certa vez, em passagem pela Assembleia Legislativa, aproximou-se de um grupo de deputados formado por Teotônio Vilela, Remi Maia, Luiz Coutinho, Elízio Maia, que pararam a conversa quando Bezerrão se achegou. Teotônio, com sua franqueza, foi logo despachando:

– Bezerrão, estamos conversando um particular sobre problemas políticos.

Bezerrão, antes de ir embora, não se conteve, perguntou:

– É que passei uns dias numa fazenda e estou com uma dúvida e quero que os senhores deputados me tirem essa dúvida: Por que a cabra que come capim quando faz cocô saem aquelas bolinhas pequenas, enquanto a vaca que também come capim, o cocô é enorme e espalhafatoso?

Como os deputados ficaram calados, ele rematou.

– Os senhores não entendem de merda, avaliem de política!

Retirou-se faceiro e gozador, ouvindo a gostosa e escancarada gargalhada de Teotônio, e a sisudez dos outros deputados que não gostaram da folga do policial.

Como investigador era ídolo dos mais jovens, os quais Bezerrão não perdoava com trotes e gozações. Certa tarde atiçou um policial novato para desarmar um cidadão que tomava sossegadamente cerveja em uma mesa no Café Colombo. O cidadão era o Capitão Camarão, do Exército, conhecido na cidade como boêmio e encrenqueiro.

Quando o jovem policial perguntou ao senhor pacato, tomando cerveja, se estava armado, o Capitão retirou uma 45 (arma exclusiva do Exército) da cartucheira, colocou a pistola em cima da mesa e fez a pergunta ameaçadora.

– Estou armado! E daí?

O jovem ficou embaraçado, sem saber o que fizesse naquele momento. Bezerrão foi em socorro, contou ao Capitão que tinha sido o mentor daquela “brincadeira”. Os três juntos ficaram até tarde da noite bebendo por conta do militar, que apesar de ser chegado a uma confusão, era um tremendo boa praça, querido no meio boêmio da cidade.

Na Rua do Comércio o pessoal adorava ouvir as tiradas de Bezerrão, e iam ao delírio quando, por exemplo, um frequentador daquela rodinha do Café Colombo, recentemente eleito vereador, agora metido a autoridade, passou ao longe sem parar, sem se achegar, como fazia sempre antes das eleições. Bezerrão não se conteve, gritou para o vereador ouvir do outro lado da rua:

– Cavalcante! Agora como vereador você está metido a merda. Cuidado! Se tudo que subisse não caísse, o céu estava cheio de taboca de foguetes.

Bezerrão, filósofo do povo, figura imortal, fez história nas ruas da cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, na Maceió de outrora. Sua filosofia ainda está tão atual quanto a de Platão desde os anos 400 Antes de Cristo.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DONA MARIA JARDIM

Dona Maria Jardim é uma das figuras inesquecíveis de nossa infância na Praia da Avenida da Paz. Matriarca da família Jardim, gente trabalhadora, decente, desde século passado contribui com suor, inteligência e cidadania à boniteza da cidade colorindo-a com as tintas das Casas Jardim.

A Praia da Avenida da Paz era nosso ponto de apoio de brincadeiras, nossa praia, nossa vida. Pela manhã, quando não havia colégio, era imperdível jogar futebol na praia, puxar as redes com os pescadores, ou nadar naquele marzão que não tem tamanho, retornando com os botos mergulhando ao nosso redor.

Depois do almoço, havia opções de brincadeiras. Uma delas era jogar futebol de botão na casa da Família Jardim. Quando algum de nós, meninos da Avenida, gritava na porta da mureta do jardim, Dona Maria mandava prender o “Yumbo”, cachorro pastor alemão, brabo, nunca simpatizou com as caras das visitas e dos amigos de Luizito, Lizardo, Mário e Lizandro. Com razão, fazíamos uma razoável bagunça naquele casarão alegre, cheio de gente.

Logo ao entrar na casa, à esquerda da sala, havia um campo de futebol de botão em cima de dois cavaletes altamente nivelados, o melhor de Maceió. As traves com redes de filó eram um primor de feitura, pareciam traves dos estádios de futebol. A bola feita de cordão trançado amarrado e cortado à tesoura, arredondada pelas beiras. Bola impecavelmente redonda rolava uma maravilha, uma vantagem para quem sabia jogar.

Eram campeonatos seguidos, nossos times de botão geralmente tinham nomes dos clubes do Rio de Janeiro. Fazíamos a tabela dos jogos em papel almaço pautado, anotando a classificação por pontos perdidos, sem esquecer artilheiros e goleiros vazados.

Ao longo do campeonato havia briga e discussão. Ao terminar, o vencedor comemorava. No mesmo dia iniciava outro campeonato. Assim os meninos invadiam a casa de Dona Maria na Avenida para perturbar a ordem reinante, Dona Maria, paciente, tratava os amigos de seus filhos como se fossem dela.

Quando havia jogo noturno, quando Seu Luiz Jardim, o patriarca, estava em casa, ouvíamos suas músicas clássicas prediletas. Assim que terminava o jantar, Seu Luiz colocava seus discos pretos, selos vermelhos de 78 rpm na vitrola. Eram sempre cantores líricos como Caruso entoando canções napolitanas, óperas. Meu bom gosto musical é fruto das audições involuntárias de músicas clássicas e eruditas que Seu Luiz Jardim nos fazia ouvirmos.

Família intelectual e política. Certa tarde um senhor amigo chegou à casa, falando alto, dizendo que havia morrido um grande canalha, outro açougueiro da humanidade, Josef Stalin, parceiro de Hitler no genocídio mundial. Houve uma tremenda discussão entre os adultos. Nós meninos nem sabíamos o papel de Stalin no mundo, o que nos preocupava era nossos botões devidamente encerados, deslizando na mesa, sutilmente resvalados com a ponta de um pente fino, controlando a bola, fazendo gols. Nessa noite ao chegar à minha casa, fui consultar no dicionário o significado de genocídio. E ouvi um pouco o rádio que dava notícias da morte de Stalin.

A casa da família Jardim era enorme, da Avenida da Paz à Rua Silvério Jorge, alguns quartos na frente e um segundo andar onde tinham outros quartos. Uma vasta cozinha, salas e um quintal enorme.

Por alguns anos foi vizinho da família Jardim o deputado, depois prefeito, coronel Lucena Maranhão. Homem conhecido por sua coragem no sertão, perseguidor implacável de Lampião. O Coronel Lucena criava uma enorme cobra jiboia no fundo do seu quintal em um viveiro feito com um caixote de madeira e tela. A meninada adorava ver e perturbar aquela cobra, ela ficava irada, braba dentro do viveiro quando nós assoviávamos ou quando ela estava com fome. Se havia um rato sendo digerido no seu estomago, a cobra não ligava para a algazarra, as cutucadas, os assovios dos meninos.

O “secretário” do coronel proibia a meninada brincar com a cobra. Entretanto, éramos meninos livres, não obedecíamos aos nossos pais, avalie a um desconhecido. Esse “secretário” de nome Severino dava medo, contavam uma lenda de ele ter sido cangaceiro. Certa vez foi preso pela volante do Coronel. Mandaram os quatro presos cavarem suas próprias covas, três deles cavaram, Severino se negou a cavar. Com esse impasse inesperado, o sargento comandante do pelotão dirigiu-se ao quartel de Santana do Ipanema para pedir orientação ao Coronel Lucena. Ele próprio foi onde estavam os prisioneiros, ordenou gesticulando que o cangaceiro cavasse sua cova.

Severino encarou o coronel, respondeu que não cavava agora, nem depois, numa coragem que surpreendeu. O coronel mandou o sargento levar o cangaceiro ao quartel, queria assuntar com o preso. Resultado, Severino tornou-se um leal homem de confiança, o guarda-costas predileto do Coronel. Assim nos contavam essa história. Quando aparecia Severino, nós fugíamos com medo e entrávamos correndo pelas portas dos fundos da casa de Dona Maria Jardim que nos acolhia. Aquela casa era o refúgio dos meninos, maloqueiros da Avenida da Avenida da Paz.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A FILHA DE MEU AMIGO

Aécio chegou cedo ao escritório, alguns clientes o esperavam na sala. Cumprimentou-os, entrou. Sentou-se no birô, iniciou a leitura da correspondência. Ligou no interfone para Marlene. Ela levou a lista dos assuntos da manhã. Aécio perguntou quem era uma jovem, a secretária informou ser a filha do seu amigo falecido Tonho. Ela apareceu no lugar da mãe para pegar o cheque mensal. Ajuda que Aécio se comprometeu pelo resto da vida. Eram amigos de unha e carne desde criança jogando bola na praia. Tonho era o melhor jogador de sua turma.

Naquela época, a juventude convivia com as diferenças sociais. Valia mais quem sabia jogar bom futebol, quem trepava num coqueiro e sabia fugir correndo do vigia. Tonho era um atleta nato, desde o futebol na praia até mergulhar da cumeeira dos trapiches avançados mar adentro. Tornou-se o melhor amigo de Aécio, andavam sempre juntos caçando lagartixa com atiradeira (peteca) , mergulhando e pescando no Riacho Salgadinho, pegavam caranguejo goiamum e outras brincadeira inventada por aqueles jovens adolescentes.

O tempo que tudo desfaz, separou a amizade de infância. Anos depois Tonho procurou o amigo, estava morrendo, pediu para não deixasse a família desamparada. Desde que ele morreu, há três anos, um dos filhos de Tonho vai buscar um pequeno cheque, uma pequena ajuda.

Ele não conhecia essa filha do Tonho, morena vistosa, mandou-a entrar.

– Você parece com Tonho, sente-se. Por favor.

Recebeu-a em pé. A jovem puxou a cadeira confortável sentou-se, elegante, cruzou as pernas, sorriu.

– Muito prazer Nilda. Meu pai falava muito no senhor, muitas histórias ele contou de uma juventude alegre na praia da Avenida da Paz.

– Dá-me uma saudade dor quando vejo o Salgadinho desaguando naquele mar azul esverdeado, poluído, uma pena. Diga Nilda o que você faz na vida? Tonho foi grande amigo de infância. Gostaria de saber como posso ajudar?

– Doutor Aécio, eu estou desempregada, batalhando para sobreviver.

– Faça o seguinte, deixe seu currículo com minha secretária, vou ver o que posso fazer.

Levantou-se, estirou a mão, ficou olhando a filha de Tonho maravilhado. Que bela mulher!

Duas semanas depois ele a convidou para trabalhar no escritório, auxiliar de secretária. A convivência entre os dois se estreitou. Aécio tinha maior carinho pela filha do amigo. Ao olhar as pernas da jovem esquentava o sangue na veia, tentava se policiar. Certo dia no final do expediente ele dirigia quando avistou Nilda no ponto de ônibus, ofereceu carona, ela abriu a porta do carro, sentou-se como uma princesa. No primeiro sinal vermelho parou o carro, olhou nos olhos de Nilda, aconteceu o inevitável abraço e beijo, deixou-a perto de sua casa. No dia seguinte ela estava encabulada mal olhou para o patrão. Ele fez o convite inevitável. Passarem uma tarde inesquecível num motel da Jacarecica. A vida estabilizada, toda semana repetiram as tardes maravilhosas por mais de dois anos.

Aconteceu o inesperado, um italiano bonito e forte conheceu Nilda numa festa. Conversaram, tomaram champanhe, dormiram juntos.

Paolo se apaixonou, prolongou as férias, preparou a família, levou Nilda. A jovem agora mora em Gênova preparando-se para o casamento. Aécio, chocado, está em depressão. Em vez em quando bate saudade da fase maravilhosa que passou com a filha do Tonho, e também saudade da juventude jogando futebol com Tonho.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OS VELHINHOS ESTÃO VOLTANDO

O Palmeira Futebol Clube foi fundado no início dos anos 1950 por jovens moradores do bairro nobre do Farol, deram-lhe esse nome devido a maioria Da meninada morar na Rua Comendador Palmeira. Esse Clube tem história no futebol alagoano, chegou a ser campeão alagoano juvenil em 1958.

Naquela época havia entrosamento, facilidade em enturmar os jovens. Frequentávamos as mesmas escolas, os mesmos clubes, as mesmas praias, as torcidas no campo de CRB ou CSA, os mesmos cabarés. Ocupávamos a cidade de Maceió com nossas bicicletas em buscas de namoradas e aventuras. Em cada bairro havia um time de futebol, que jogava contra os outros dos bairros vizinhos e em torneios organizados por nós mesmo. Éramos amigos, uma briga aqui outra acolá, nada desse sentimento de gang dos filmes americanos que assistíamos em cinco cinemas de bairros da cidade.

Esse ambiente amistoso e fraterno nos deu um sentimento de amizade duradouro pelo resto da vida. Cinquenta anos depois de nossa adolescência lá pelo ano 2005 a turma do Palmeira liderada pelo Cláudio Oiticica (Cáu) resolveu realizar uma confraternização de Natal, convidou os amigos da época. Escolheu um amplo restaurante à beira da Lagoa Mundaú. Foi um sucesso. A alegria daqueles sessentões encontrando-se numa salutar reunião de amigos dispersados na vida. Com muitas lembranças, muitas histórias divertidas, gargalhadas soltas no ar passamos uma tarde inesquecível. A partir do ano seguinte a Confraternização do Palmeira consolidou-se. Todos os anos o Cáu organizava a festa com carinho para os amigos. Aparecia gente de todo o Brasil, Ministros de Brasília, ex governadores, ex prefeitos, ex jogadores de futebol, empresários, comerciantes, pecuarista do Rio de Janeiro, Brasília, do Recife. Virou tradição. Quando chegava o mês de dezembro os acertos da confraternização já eram divulgados.

O tempo é inexorável, morreram alguns amigos, mas a vida continuou. Como também a confraternização. Até que chegou a Pandemia, não dava para organizar festa alguma. Nós tentando sobreviver na clausura, sem sair de casa, como ainda estamos. Perdemos parentes e amigos para o vírus. Até que com certos receios, tomando os cuidados necessários, Murilo Marinho liderou um encontro ontem numa Barraca de Praia. Cerca de vinte velhinhos resolvemos nos encontrar. Uma tarde agradável cheia de alegria e lembranças. Depois de dois anos aconteceu a tradicional confraternização de fim de ano do Palmeira Futebol Clube. Iniciou às 11:00 horas da manhã terminou ao entardecer, Foram tantas histórias contadas, tantas gargalhadas que chamou a atenção às mesas vizinhas, que deveriam perguntar: De que sorriem esses senhores com tanta alegria?

Em cada um daqueles jovens octogenários existe uma parte da cidade de Maceió. Uma cidade não é formada apenas pelos prédios, praças, praias e ruas. Uma cidade é feita principalmente pelos seus moradores. E ali naquela reunião onde o uísque rolou estavam alguns construtores dessa bela cidade de Maceió. Pessoas alegres porque tiveram uma juventude livre, leve e solta pelas ruas da cidade. Onde durante o carnaval nos divertíamos na Rua do Comércio Nos blocos de rua. Não fomos santinhos, fizemos presepadas e eram delas que passamos a tarde às gargalhadas.

Foram esses velhinhos que criaram uma associação atípica no mundo a UCPM (União dos Conquistadores de Peniqueiras de Maceió). Éramos terrivelmente incorretos. Graças a Deus. Chamar as jovens empregadas domésticas de peniqueiras, hoje dá cadeia. Havia uma hierarquia entre os membros da UCPM. Entrava como soldado, à medida que o associado contava suas aventuras de conquistas das cheirosas empregadas domésticas, subia de posto. Um amigo chegou a Marechal. Esse orgulho da UCPM muitos anos depois tornou-se Ministro do Tribunal em Brasília. Essas e outras histórias foram recordadas com muita alegria na confraternização de ontem. Ao terminar, retornamos ao lar e nos trancamos novamente, o bicho ainda está solto.

Um bom ano novo a todos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MINHA CANDIDATA

Alguns amigos consideram a época de Natal triste, deprimente; lembram as injustiças sociais no mundo, choram, recitam o monólogo do poeta Aldemar Paiva: “Eu não gosto de você, Papai Noel”. Enfim se enchem de melancolia. Confesso que comigo é o inverso, adoro o Natal. Desde menino ficava ansioso para o momento de meus pais distribuírem os presentes. Minha casa sempre teve uma bonita, iluminada e alegre árvore de Natal. Depois da ceia com o belo peru assado, a família se dirigia ao coreto da Avenida da Paz para assistir a missa. Certa vez, ganhei uma linda bicicleta, fiquei tão radiante que a levei para o coreto. Ao terminar a missa montei no selim daquela preciosidade maravilhosa, minha querida bicicleta, percorri a redondeza sem parar de pedalar pelo bairro de Jaraguá, até me cansar. Cheguei tarde em casa, levei um carão e caí na cama desmaiado de tanto cansaço.

Na adolescência eu adorava as festas natalinas na Praça Sinimbu ou na Afrânio Jorge. Passava a noite me divertindo caminhando, olhando o movimento, paquerando as meninas. Havia um alto-falante que dava recados e fazia propaganda. Minha paquera numa noite passeava com um vestido azul de bolinhas brancas. Dirigi-me ao alto-falante, paguei e dentro em pouco o locutor anunciou três vezes: “Alô, alô menina do vestido azul de bolinhas brancas você é a garota que mais brilha nessa festa, lhe espero às nove horas na Ponte dos Fonseca”. E não é que ela foi com uma amiga de lado! Fiquei feliz! Eu amava andar nos barcos, na roda-gigante, atirar no “tiro ao alvo”. Nunca perdia o pastoril torcendo pelo cordão encarnado. Sentava-me nos bancos da frente, embaixo do palco para ver melhor as moças bonitas dançarem, rodopiarem a saia e cantarem: “Boa noite meus senhores todos… Boa noite senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas que alegremente vamos à Belém…” No intervalo das jornadas, eu pedia uma pastora bonitinha para entrar em cena. Ela entrava no palco dançando eu já esperando colocava uma nota de um cruzeiro como se fosse uma condecoração, confesso que naquele momento, roçava com a mão o seio da pastora linda. Eu gostava e me excitava, ela também, eu sentia. Só acabava a festa pela meia-noite e junto aos amigos caminhava pela Avenida da Paz pra o nossa casa.

Em dezembro o clima de Natal baixa em mim. Atualmente adoro ver a cidade iluminada. Na semana passada assisti na orla o lindo cortejo da cultura popular, do folclore. Há mais de dez anos, minha mulher inventou um café da manhã na véspera de Natal para os parentes e amigos. Começa às 7:00 horas da manhã com muita comida, um delicioso café regional. Os poetas recitam, Chico de Assis e Paulo Poeta são contumazes, esses grandes atores interpretam de fazer chorar. O recital é aberto, até eu recito. Acompanhado pelo Tonho no teclado os cantores nos enchem de alegria com músicas lindas. Elvira Rebelo, uma das maiores soprano do Brasil nos fascina com sua música lírica, amigos choram quando ela canta a Ave Maria de Schubert. Em certo momento entra na sala do apartamento um guerreiro, ou um coco de roda, ou um reisado, ou um pastoril, cantando sua alegres músicas folclóricas. O café da manhã atravessa o almoço, só acaba quando sai o último convidado, geralmente embriagado, lá pelas sete da noite, depois de esvaziar quatro a cinco garrafas de uísque. Infelizmente a pandemia não deixou organizar o café de Natal. Tenho fé em 2022 nos trazendo muita esperança.

Perto do Natal sempre cometo uma bondade inusitada para algum desgraçado, algum esmoler na rua. Dou uma nota alta ao coitado. Eles ficam assustados e alegres quando veem aquele dinheiro. Ontem ao sair do banco havia uma miserável suja, de idade indefinida com duas crianças sentadas no chão. Ao estender-me a mão dei-lhe uma nota que para mim não fará falta, mas para ela é um tesouro. Quando eu entrava no táxi, senti uma mão em meu ombro, era a miserável com a nota de R$ 100,00 estendida.

– Moço o senhor se enganou me deu esse dinheiro.

– Não me enganei, essa nota é sua, tire o melhor proveito para suas meninas.

Ela com os olhos mareados, cheia de alegria ofereceu seu trabalho.

– Deus cuide do senhor. O que o senhor quer que eu faça. Sou boa faxineira! Deixe eu limpar sua casa.

Antes de bater a porta do carro, dei uma sugestão.

– O Congresso é quem está precisando de gente honesta. Candidate-se, desde já você é minha candidata.

O táxi partiu, ela ficou sem entender, mas feliz com o dinheiro na mão.